só jong ju (1915-2000)

Só jong-ju

só jong-ju, ou seo jeong-ju (1915 – 2000), foi um importante poeta coreano do século XX & também professor universitário, que por vezes escrevia sob o pseudônimo midang (algo como “ainda imaturo”), & foi indicado ao prêmio nobel cinco vezes. estudou filosofia budista na faculdade budista he-wa, uma formação que teve muita importância na sua vida: em 1936 fundou e editou o periódico siin burak (vila dos poetas), em 1940 decidiu fazer uma peregrinação religiosa como poeta andarilho pela manchúria, da qual só retornaria em 1945, após a independência da coreia.

em o pássaro que comeu o sol, antologia de poesia moderna da coreia, a tradutora yun jung im afirma que “um esteticismo refinado e a mágica manipulação da linguagem produzem em seus poemas um extraordinário poder evocativo, tão próprio da língua coreana, o que faz dele um dos expoentes mais notáveis entre os poetas modernos” (p. 124). impressionante foi o seu fim: depois da morte de sua esposa, em outubro de 2000, o poeta praticamente parou de se alimentar, exceto por cerveja, o que o levou à morte apenas dois meses depois.

a meu ver, interessante é fazer um contraste com a poesia de yi sáng, que já comentei num post anterior anunciando este outro post por breve contraste. ei-lo, então: se o sr. caixa é imediatamente mais acessível para o nosso gosto (pós-)vanguardista ocidental — o que pode ser a prova máxima de que por certo não entendemos praticamente nada da poesia de yi sáng —; por outro lado, a obra do ainda-imaturo nos soa menos familiar & mais oriental, embora possamos encontrar alguns ecos de baudelaire & mesmo do surrealismo francês em suas poesias. penso que, ao soar-nos estranha, ela tem o potencial de chamar a atenção para quanta alteridade podemos encontrar na poesia coreana (portanto, revelando o logro de nos aproximarmos de um yi sáng), assim ela revela sua opacidade, ao mesmo tempo em que podemos nos deixar atravessar por seu vermelho-flor. eu mesmo pouco ou nada teria a acrescentar, fora que esses poemas têm uma imagética impressionante, dotada de uma violência rara em qualquer língua. nesses casos, a compreensão do poema pode passar perfeitamente pela sensação de estranhamento derivada do choque de culturas.

guilherme gontijo flores

* * *

Plena Tarde

No campo vermelho de flores — dizem que ao prová-las
morre-se como dormindo — há um trilho

— dorso de serpente bêbada de ópio
estirada tortuosa lânguida —
por onde ela foge, e me chama…

Corro atrás, entre as duas mãos corre das pernas
sangue que chama em forte aroma

Na tarde escaldante parada como a noite,
nós dois inteiros em brasa…

§

O leproso

Pelo rancor ao sol e à cor do céu
o leproso

Ao luar sobre o campo de cevada
comia um bebê e

Chorava noite inteira um choro tão vermelho-flor

§

Junto ao crisântemo

Terá sido para abrir este crisântemo
que o cuco chorou tanto
desde a primavera…

E terá sido para abrir este crisântemo
que o trovão chorou tanto
dentro das nuvens negras…

Flor, pareces a minha amada irmã
de volta agora diante do espelho,
após a longa juventude de longínquas sendas
de peito aflito de saudade e anseio

Terá sido para as tuas douradas pétalas se abrirem
que na noite passada a geada gelou tão fria
e eu não pude nem pegar no sono…

§

Flores de algodoeira

Mana,
é… comovente

Estas flores, brancas e vermelhas, úmidas e mansamente curvadas
dentro deste azul que se acumula como água de um poço,
foi você mana,
foi você quem as floresceu, não foi?

Este azul de outono — ecoaria num toque de dedo
e até as rochas se esfarelariam todas…

Não foi você, que atravessou aquela dormente primavera
Não foi você, que atravessou aquele imenso verão,
e curvando-se de cima a baixo por essa ladeira de plântagos
fez que florescessem, não foi?

(trad. yun jung im)

O pássaro que comeu o sol – poesia moderna da Coréia. Seleção e trad. de Yun Jung Im. Pref. de Paulo Leminski. São Paulo: Arte Pau-Brasil, 1993.

yi sáng (1910 – 1937)

Yi Sáng, em 1929
Yi Sáng, em 1929

pretendo fazer dois posts contrastivos sobre poesia coreana moderna. o mote veio da recente viagem de tarso de melo para a coreia, num festival de poesia, porque ele fez um post aqui lembrando da bela coletânea feita por yun jung jim, O pássaro que comeu o sol — Poesia moderna da Coréia (1993, ed. arte pau-brasil), com prefácio de paulo leminski e 4a capa de haroldo de campos. naquele momento, tanto leminski como haroldo não hesitaram em dizer que yi sáng era o poeta que mais lhes chamava a atenção na coletânea, “um grande poeta, a revelação do livro para mim, desde já meu poeta coreano moderno, o boêmio e surrealista Yi sáng, com poemas experimentais surpreendentes” (leminski dixit). por isso, poucos anos depois, yun jung im lançou Olho-de-corvo e outras obras de Yi Sáng (1999, ed. perspectiva), com toda série de poemas publicados com o título de “Olho-de-corvo”, além de alguns outros poucos poemas & uma antologia da sua prosa também notável.

o poeta (1910, seul — 1937, tóquio) foi certamente o coreano mais radical & rebelde, ao longo dos anos 20/30, nas suas experimentações. trata-se de uma escrita do mínimo, com repetições, construções aparentemente simples que, ao nosso olhar ocidental, lembram a poética dadaísta ou mesmo a obra de um schwitters. na prosa, há algo de kafkiano, uma claustrofobia narrativa que tende a implodir o desenvolvimento do texto, que se fecha sobre si, porém muitas vezes na figura de uma personagem dominada por uma indolência extraordinária, como no caso do conto “Asas”. o próprio nome poético do autor, nascido kim hé-kyón (que significa algo como “vastidão do mar”), adotado aos 23 anos, é uma recusa à tradição lírica coreana, já que quer dizer algo como “caixa da silva”. é em 1933 também que o poeta se demite do trabalho como projetista & passa a viver numa miséria crescente (com crises de hemoptise) aliada a uma produção escrita também intensa; ao longos dos próximos anos, viria a fazer algumas viagens improvisadas, abrir alguns cafés, todos falidos, & sofrer alguma desilusões amorosas. em dezembro de 1936, o poeta abandona a esposa & viaja para tóquio para conhecer o poeta kim kirim; mas morreu poucos meses depois, em abril, numa crise agravada pelo inverno & pela violência da polícia (que o prendeu & espancou sob a acusação de “ideologia subversiva”).

é nesse contexto que os poemas de “Olho-de-corvo” têm uma história peculiar: com o apoio do escritor bak te-wón & do editor sáng-hó, o projeto de 1934 previa a publicação de 30 poemas ao longo de 30 dias, no jornal Jo-Són-Jung-Ang, o principal do país, porém a série foi cancelada após 15 poemas, por causar frisson na sociedade, com acusações de serem os “delírios de um demente”, ou uma “aberração”. para terem uma ideia do incômodo gerado por essas publicações, basta dizer que o editor sáng-hó perdeu o emprego, pois teve que se demitir no dia do 15o poema. dessa série que sobreviveu (os outros 15 poemas nunca chegaram), seleciono 5 textos desse “coreano de vanguarda” que foi yi sáng.

guilherme gontijo flores

* * *

Poema n. 1

13criançascorrempelaestrada.
(Quantoàruaéapropriadaumasemsaída.)

A 1acriançadizqueestácommedo.
A 2acriançadizqueestácommedo.
A 3acriançadizqueestácommedo.
A 4acriançadizqueestácommedo.
A 5acriançadizqueestácommedo.
A 6acriançadizqueestácommedo.
A 7acriançadizqueestácommedo.
A 8acriançadizqueestácommedo.
A 9acriançadizqueestácommedo.
A10acriançadizqueestácommedo.

A11acriançadizqueestácommedo.
A12acriançadizqueestácommedo.
A13acriançadizqueestácommedo.
As13criançassãoumasomasódecriançasmedonhasecriançascommedo.
(Eraatépreferívelquenãohouvesseoutrosfatores.)

Tudobemse1destascriançasforumacriançamedonha.
Tudobemse2destascriançasforemcriançasmedonhas.
Tudobemse2destascriançasforemcriançascommedo.
Tudobemse1destascriançasforumacriançacommedo.

(Mesmoumaruaabertaseriatambémapropriada.)
Tudobemtambémseas13criançasnãocorrerempelaestrada.

§

Poema n. 2

Quan do o meu pai dor mi ta ao meu la do eu me tor no o pai do meu pai e tam bém me tor no o pai do pai do meu pai mas se o meu pai na con di ção de meu pai é a in da meu pai en tão por que mo ti vo eu me tor no o pai do pai….. do pai do pai do meu pai por que mo ti vo eu de vo sal tar por ci ma do meu pai e fi nal men te por que mo ti vo eu te nho de vi ver fa zen do o pa pel de mim do meu pai e do pai do meu pai e do pai do pai do meu pai?

§

Poema n. 7

Nesta terra de remoto exílio um ramo • no ramo floresce uma flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas • espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio, restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-me • até que desça a graça dos céus.

§

Poema n. 9

For te ven ta ni a to dos os di as e fi nal men te uma gran de mão as sen ta so bre a mi nha cin tu ra. As sim que o chei ro do meu su or al can çar o ma ra vi lho so va le da im pres sões di gi tais, a ti re! He de a ti rar! Sin to o pe so do ca no do re vól ver so bre o meu a pa re lho di ges ti vo e sin to a su per fí cie li sa de sua pon ta den tro da mi nha bo ca cer ra da. Pou co de pois, fe cho os o lhos co mo quem dá um ti ro, mas o que foi is to que cus pi pe la bo ca no lu gar de um pro jé til?

§

Poema n. 14

Há um gra ma do em fren te ao ve lho cas te lo e so bre es te gra ma do des can so o meu cha péu. Do to po do cas te lo a mar ro u ma pe dra bem pe sa da à mi nha me mó ria e a lan ço a té on de al can ça a dis tân cia da mi nha for ça. Ou ço o cho ro tris te da his tó ria que re tro ce de so bre su a tra je tó ria pa ra bó li ca. Num da do mo men to, ve jo a bai xo um men di go pos ta do ao la do do meu cha péu co mo um guar di ão de pe dra. A in da que lá em bai xo o men di go es tá a ci ma de mim. Ou se rá a al ma e xâ ni me do so ma tó rio da his tó ria? A fun du ra do meu cha péu a ber to em di re ção ao es pa ço in vo ca o céu i mi nen te. Su bi ta men te, o men di go en cur va o seu ar tre me tre men te e jo ga u ma pe dra pa ra den tro do meu cha péu. Eu já des mai ei. Ve jo um ma pa em que o co ra ção se trans la da pa ra den tro do crâ nio. U ma gé li da mão se en cos ta à mi nha tes ta. Na mi nha tes ta a gé li da mão dei xa su a mar ca que nun ca mais se a pa gou.

(poemas de yi sáng,, trad. de yun jung im com revisão poética de haroldo de campos)