xanto

XANTO|A crítica que julga não é a crítica que lê, por Rafael Zacca

“A espada de Dâmocles”, pintura de Félix Auvray (1800-1833).

Sobre a polêmica iniciada na Folha, em abril deste ano, a propósito da poesia contemporânea e de sua “sisudez e hermetismo”, escrevi uma resposta, que fiquei pensando um bom tempo se deveria publicar ou não. Circulou entre alguns poucos amigos. Agora que o calor já passou, publico aqui, não na Folha, mas na Bolha (rs), menos por achar que é uma discussão doméstica, e mais por achar que o tempo da publicação para esse tipo de texto — que é mais interventivo que de fôlego — já passou. Além disso, é provável mesmo que apenas duas ou três pessoas leiam; as coisas se esquecem rápido e há outras mais urgentes na ordem do dia. Mas como estava organizando os arquivos no PC e vi um texto ir para a gaveta, resolvi publicar aqui. De todo modo, esse debate, sobre a função e a posição da crítica, precisa ser feito também na grande mídia. As coisas não podem ficar sem resposta. Por enquanto, boa parte do melhor desse debate se restringe à academia (e tendo a achar que isso é um problema).

Rafael Zacca

* * *

“A crítica que julga não é a crítica que lê”
por Rafael Zacca

Há um poema de Fabio Weintraub que propõe que “a maneira pela qual / você faz / uma coisa / é a maneira / pela qual / faz todas as coisas”. “Grito com a cara no travesseiro”, diz o poeta, “grito com meus filhos”. É uma boa hipótese.

Diante dela, não é secundário que críticos e críticas se preocupem com a função que exercem no mundo das artes e na vida social.

Seria apenas divertido que Mariella Augusta Masagão publicasse um artigo sobre a sisudez e hermetismo da poesia brasileira com certa passivo-agressividade.

Em 14 de abril deste ano, em sua coluna “Perspectivas”, na Folha de São Paulo, Masagão escreveu que “a nova poesia brasileira é hermética, mas muito distante do velho simbolismo com seus abismos, suas flautas e seus vinhos”, próxima demais “das pequeninas sensações do agora, da atenção a cenas ou cenários cotidianos (…) que assinalam, muitas vezes, confusão e suscetibilidade.”

Seria divertido porque a pesquisadora não proporciona a leitura de um único verso que sustente a sua hipótese. E é sempre gracioso ver um impressionismo publicado assim, em jornal de grande circulação, com ares de pesquisa.

Com poucas provas e muita convicção, a autora se apresenta como Ministra da Ciência – a graça termina, de toda maneira, em sua resposta de 6 de maio, na mesma coluna, onde rebate as críticas que lhe foram feitas. Comporta-se, ali, como Ministra da Justiça.

A poeta Ana Martins Marques escreveu certa vez que “as casas pertencem aos vizinhos”, “os filhos são das mulheres / que não quiseram filhos” e que “é dos solitários o amor”. Acrescento que em literatura, como em qualquer outro lugar, a justiça pertence aos injustiçados. No caso do segundo artigo de Masagão, a injustiçada é a poesia.

Não porque em sua situação contemporânea seja acusada, por Masagão, de fragilidade e palidez (com a consequente adjetivação: poesia de hospital), de mal equilibrada em balbucio, de mal-educada e de baixa escolaridade (que a pesquisadora atribui, sem apresentar dados, às “tristes falhas da educação brasileira”), de mal-acabada, de hipócrita… a lista dos adjetivos, na ausência de substâncias de pesquisa, é grande.

Mais do que isso, a poesia é injustiçada pela pesquisadora pelo que ela propõe como método da crítica. Em ambos os artigos, a poesia é deixada de fora. A autora, que acusa a má recepção de seu artigo entre poetas contemporâneos como efeito de má interpretação, não se dispõe a ler amostra alguma da poesia que critica. Satisfaz-se com a sentença. Porque crítica, aí, não significa engajamento num corpo a corpo com o texto, mas julgamento. Nada mais distante do condenado que o juiz.

Com ares de autoridade, a pesquisadora declara em seu último artigo que “não gostaria de ler mais nenhum pio fora do tom, nem verso aborrecido e frio. Vejamos se um pouco de poesia, para variar, consegue calar, em definitivo, essa patrulha”. Por ato falho ou por clareza de opções de Masagão, é bom frisar suas expressões: “não gostaria de ler”, “calar, em definitivo”.

Masagão é pesquisadora e é inteligente, deve ser respeitada por isso. Sua tese de doutorado sobre heteronímia em Ficções do Interlúdio de certo é uma contribuição para a crítica infinita da obra de Fernando Pessoa, principalmente em suas relações com a tradição. Por isso me espanta o seu artigo. Gostaria que a autora se utilizasse de seus métodos e de sua astúcia, bem como de seu espaço, para exercer uma função mais digna e competente para a crítica.

Não precisamos mais de uma crítica ligada a um projeto poético legislativo, de crítica judiciária. Essa crítica é de certa forma hegemônica. Não apenas mercado, mas algumas mídias e artistas esperam dela a salvação ou a condenação. Ou uma espécie de Inmetro das artes: posso consumir este artista? Passou pelo selo de segurança do bom gosto / bom senso / bom…etc. ?

E sobre bom ou mau gosto, sabemos pelo menos desde Pierre Bourdieu como a categoria é ideologicamente mobilizada para sustentar relações de dominação. Ou, para citar alguém mais próximo, é bom lembrar daqueles versos de Tom Zé, que com muita graça e ironia dizia em seu “Curso intensivo de boas maneiras”, em que submetia o bom gosto a uma crítica de classe implacável: “primeira lição: deixar de ser pobre, que é muito feio…”

Poderíamos, é claro, contrapor a leitura de Masagão com outros nomes, como fez Ligia Gonçalves Diniz em artigo na mesma coluna. Mostrar que a poesia tem se debruçado sobre formas não-herméticas e bastante alegres, como no experimentalismo de Renato Negrão. Ou citar poetas contemporâneas que escrevem em intenso engajamento com a tradição, como Josely Vianna Baptista. Ou mesmo poetas que participam do “culto a Dionísio”, como Natasha Felix. Todos esses são motivos que a pesquisadora mobiliza como faltas na produção de hoje. Poderíamos inclusive produzir leituras das autoras citadas no primeiro artigo de Masagão para contradizer a pesquisadora.

Mas seus artigos nos deram a oportunidade de discutir também a situação e a função da crítica.

Enquanto alguns críticos insistem em escrever papeis de bala, muita gente tem procurado outra funcionalidade. Proponho, com eles, que o gosto (e a consequente salvação ou condenação) pode ser deixado para leitores e leitoras, que não precisam ser subestimados.

A crítica pode, por outro lado, desdobrar aquilo que, na poesia, se encontra condensado; ou pode, em outros casos, deslocar poemas, versos, expressões ou detalhes de lugar para fazer brotar as flores do sentido em outro terreno; ou pode forçar com que a leitura se detenha, verso a verso, em estações, fazendo durar um pequeno poema por um ano inteiro nas impressões de quem o lê.

Em todos esses casos, o que se propõe é a crítica em sua função de conhecimento das obras. Não no sentido de esgotamento sobre o que se pode conhecer em um poema, nem no de “saber falar” sobre poesia. Nem quero com isso propor que capturemos uma verdade do texto. O conhecimento que a crítica proporciona pode ser uma, isto sim, suspensão do julgamento imediato do gosto para que se possa demorar um pouco mais nas estações dos poemas. Conviver com elas. Ou nelas.

“Cor longa às folhas”, escreveu Heyk Pimenta no início da década. “As que o verão não queima / o outono doura”. A crítica pode exercer esse papel de demora na selva-selvagem da arte. Basta que ela se dedique menos apressadamente a traçar panoramas, e mais a obras singulares, pequenos contextos de produção e breves conjuntos. Assim poderemos começar uma pesquisa e, quem sabe, traçar alguns panoramas (no plural, sempre no plural, porque também a produção poética é uma distribuição desigual de tempos) desacelerados, a um só tempo mais modestos e mais acertados.

Anúncios
Padrão
crítica, poesia, Uncategorized

a serpentina nunca se desenrola até o fim, de Heyk Pimenta, por Vinicius Varela

eu li um poema. um poema que me atinge cheio os ossos como uma onda num domingo de ressaca – e é o amor esta ressaca. é o homem com seus cabelos vermelhos pegados na estante; o uivo na madrugada, o sangue que me cobre o corpo pronto pra perícia, o corpo do homem. o corpo do homem é o corpo do poema. é o poema.

então chega lá o v. varela – esse nome que estala feito muçarela, mussarela, mozzarela, vegarela, beija ela, varela, a poesia, beija! – e v. varela chega chegando e beija a poesia de pimenta [que já floresceu aqui no escamandro]. e é isto, a semana começando, corpoemas nos esperando e sim, sim, em hellcife e quiça na fodaleza segunda também é um dia lindo – pra ler & querer ler: um dia, a poesia de heyk pimenta e a teorética de vinicius varela.

nina rizzi

***

1-heyk-pimenta-retrato

um livro de desterros

qual é, Heyk. não tive tempo de falar pessoalmente sobre teu livro(a serpentina nunca se desenrola até o fim). terminei de ler há algumas semanas. tive uma impressão positiva. achei a sua escolha vocabular curiosa, sempre uma palavra diferente da que eu esperava que você escolhesse. como “tiririca”,  “losna”, “pompons pink”, “flor fodida”, “titicas”. tem um rigor nas tuas palavras e ao mesmo tempo algo de informal e de lúdico. frases em um estilo mais alto e outras em um estilo mais descompromissado como quando você diz “meu peito esticado de burrice” e “complexo de vira-lata” que provoca uma sensação de meio termo entre o poético e o prosaico. me lembrou tanto o Ferreira Gullar, no poema sujo, pela espacialidade da palavra no papel; quanto o João Cabral de Melo Neto no rigor e na escolha de palavras que colocam o homem numa qualidade de construção, paisagem, objeto, como nos versos “na argamassa da língua” e “perdeu as carenagens”. teu livro é de alguma maneira, sobretudo, a saga dos VAGÕES situada na segunda parte(MONTUROS), dadas as devidas medidas, uma releitura mineira de “Morte e Vida Severina”, do João Cabral de Melo Neto. o homem que você traça se parece mais a um prédio ou uma máquina. também acontece o contrário, a cidade é viva como no poema VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, em que o “viaduto arfa” e o “calçamento polido nos pés dos transeuntes/ não é heróico/ é de menos medo”  mostram essa hibridização da cidade em humana e do humano em pedra/asfalto/coisa inanimada. afinal, “por não ser utópico” ele “é curvo/ doente de levar doentes”. tudo está doente, a cidade e os homens. o asfalto e a pele. o interior das estruturas de concreto e os órgãos internos. a cidade que você traça representa justamente a distopía. Como em outro poema  A CIDADE AMARRADA À CINTURA em que  “o inverno seria sempre o mesmo/ não fosse o amassar as solas/ ao atravessar a passarela”, sempre esse movimento em que o homem e a cidade se chocam, se gastam como placas tectónicas. mas, se há movimento, há caminho, há vida. se é possível amassar as solas no asfalto da cidade, sobreviveremos ao inverno. e nesse movimento “que farei hoje com mais pesar/ levando a cidade demolida/ para dentro do museu”, o homem anda carregando entulhos, fragmentos da ruína. a cidade destrói o homem por dentro, cada rompimento de sua arquitetura é um ato de violência contra o corpo do homem, consequentemente contra sua vivência. cada recapeamento do asfalto é uma cicatriz na pele do homem. chacoalham nele demolições ao igual que vísceras. vísceras de pedra. o homem se torna um portador de destruições, as memórias perdidas da cidade habitando nele. “as varandas interditas/ e a cidade amarrada à cintura/ não é possível despejá-la”. a cidade é um hospedeiro no homem, um inquilino e não o contrário. se o homem fez a cidade com as próprias mãos, ela na verdade é algo que sempre esteve dentro dele, criada por e a partir dele. outra impressão que tive do seu livro é que ele tem uma voz que logo se percebe não ser a de um carioca e não falo isso de maneira pejorativa. acho muito curioso, na verdade. não sei o que seria escrever como um carioca, mas as experiências vividas pelo seu eu-lírico, principalmente na segunda parte do livro MONTUROS, da viagem, do acompanhamento do trem, das paisagens, desterritorializa esse eu-lírico. parece uma coisa meio retirante, a maneira como descreve as paisagens e essa busca de algo que sempre está no horizonte, mas o horizonte é infinito e essa coisa nunca chega. essa vivência da brutalidade da estrada e da dureza das coisas parece mais nordestina, no teu caso mineira, já que Minas tem divisa com o sertão. acho que é um livro pensado. os poemas tem todos uma coisa além, que você percebe que não conseguiu captar completamente, ainda precisa ler de novo, deixar dormir o livro. alguns versos que não marcam tanto são apenas o fòlego que se toma para fazer a linguagem suspirar, esses suspiros são próprios da poesia. queria compartilhar essas impressões, assim, de maneira informal mesmo, dar um feedback sem muita pompa. escrito em minúscula para que não pareça nada muito sério. sobre poesia não se fala muito sério. te mando o texto escrito como saiu. é isso rapaz.

tempos depois faço uma releitura do livro do Heyk

a volta ao livro e ao texto me surpreenderam. quando deixamos os livros e os textos dormirem, parece que a linguagem sonha e ao despertá-la encontramos novos olhares, novas impressões. quis manter o primeiro texto que te mandei e que espelha essa influência do tempo nas palavras e agora falar um pouco mais detalhadamente do seu livro, mantendo a mesma linha de não-especialista, ampliando e exemplificando coisas que disse anteriormente.

acho que teu livro tem três temas centrais: a casa, a cidade e o desterro. nesse sentido, o desterro perpassa os outros dois temas. esses três temas estão distrubuidos ao longo do livro não necessariamente na divisão que você deu a ele, estão diluídos. por isso O VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, que está na segunda parte MONTUROS dialóga com o poema A CIDADE AMARRADA À CINTURA que fica na terceira parte VEIOS. mas com certeza a casa está muito mais presente em CASULO, o desterro em MONTUROS, e VEIOS é uma fusão da casa, da cidade e do desterro. o desterro na verdade, me parece o sentimento geral do livro. um desterro tão grande que faz com que o eu-lírico se sinta desterrado de seu corpo, desterrado da casa e desterrado na cidade. ou seja, houve um saque. a voz do livro é de alguém que foi saqueado, subtraído de alguma maneira desde o nascimento. seu estar no mundo é uma permanente diáspora/exílio/expatriação. que é muitas vezes o sentimento do poeta. o ser poeta é essa perda da pátria e ao mesmo tempo o ganho dela. a pátria do poeta é a língua, mas para que o seja, ele perde de alguma maneira a materialidade e, sobretudo, a naturalidade, a nacionalidade. perde o corpo, perde a casa, perde a cidade. seu nome é desterro. é, então, a poesia justamente essa “serpentina que nunca se desenrola até o fim” que o poeta tem como artifício e é para tentar desenrolá-la inutilmente até o final que o poeta continua escrevendo.

em CASULO é demonstrada a gestação da casa e na casa. uma casa que já não conseguia suportar a vontade de mundo. assim o livro abre com o verso “hoje não tem beleza nenhuma na casa”, porque a casa nem sempre é segurança, aconchego para os olhos. nem sempre há amor dentro da casa e justamente “agora que nossos piercings se encaixariam” as coisas desandam, desabam. “agora que minha casa é casa/ cabe você mil vezes/ e tem lugar pras suas crenças nas revistas de decoração”, logo “agora que o desespero já não é estilo”, a casa deixou de ser um lar. “os bichos da burocracia da casa/ apertando a carícia do peito contra/ a argamassa da língua”. a língua vai se tornando sólida, edificando e protege com toda sua dureza “meu figado de papel”. a poesia de um poeta pode ser seu figado de papel, assim como para Aquiles o calcanhar era fraqueza, mas a poesia também é casa. e, mesmo que “a casa perca as esperanças” e “só queria ter mãos/ para cobrir o rosto”, na poesia “toda cigarra é duas”. é preciso sair da casa para ouvir esse canto de cigarras multiplicadas. porque ninguém quer ser essa cigarra “que não viu as árvores de cima”.

em MONTUROS, já encontramos na primeira página a ‘Porcelana’ e isso tem algo de absurdo. tem algo mais triste do que encontrar “Porcelana” nos MONTUROS, isto é, no lixão? quem mais do que o poeta pode se ressentir do abandono da porcelana em um monturo, completamente descartada e esquecida? por isso essa escrita, “essa dureza não é força/ é deixar no balcão os papéis de garantia”. ao sair da casa, isto é, do CASULO, é preciso passar pelos MONTUROS para chegar à cidade e “segurar com o peito/ a tinta viva dos caminhões/ os arrebites do metrô” e cada vez fica mais claro que a cidade, o mundo, “é o continente que reza para explodir e ser ilha e ilhas”, mas “para isso há mar”. o consolo do poeta é que contra tudo “isso há mar” ou contra tudo isso amar. as duas possibilidades de leitura do último verso são promessas que a poesia oferece como esperança. logo depois, deparamos com o VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, “o viaduto arfa” sustentando a plenos pulmões a correria da cidade, o peso da cidade, a poluição da cidade. “seu calçamento polido nos pés dos transeuntes” ainda “não é heróico/ é de menos medo” apenas. a cidade parece ao mesmo tempo a agressora e a vítima. porque destrói o homem e porque luta contra si mesma e contra o homem para se manter. “por não ser utópico”, o viaduto ou o homem? ou nenhum dos dois? a poesia segue unicamente “porque o metal/ nunca vencerá o asfalto”, nas palavras do Heyk, e porque uma flor sim, “Uma flor nasceu na rua!”, “Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”, nas palavras de Drummond. e mesmo que os caminhões nos atropelem, nos matem e nos impessam de atravessar as ruas “suas rodas/ são o motivo primeiro do alvorecer”.

a parte em que eu digo que sua experiência não vem de um carioca, Heyk, é a saga dos VAGÕES(I ao VII) fundalmentalmente. em que, me parece, é narrado todo esse percurso do retirante, do rapaz que saiu de Minas(me perdoe recorrer a dados biográficos para falar de tua poesia, isso não deve contar, estou pecando) e foi vendo gradativamente toda a decadência da malha ferroviária e na paisagem da cidade. vendo as letras MRS “sendo parte do cansaço/ do esquecimento/ dos vagões de minério/ que envelhecem” como “velhos que já não têm motivos”, “com os olhinhos diminuindo/ virando tartaruguinhas” e “tornando-se invisíveis”. os trens como “velhos que se desimportam/ deixam de ter passado/ esperam a erosão do orvalho” e são testemunhas dos fiéis que “tentando dar com tuba e caixa/ alguma alegria às velas amarelas” da procissão do desterro, fracassam em sua errância. e medem com os passos “o espaço que uma rodovia merece no meio da mata atlântica”, de uma BR-101 que “é estreita como a liberdade”. porque os vagões como as pessoas “são sempre abandonados/ e não podem ser esquecidos”. a poesia me parece uma tentativa de dar corda na vitrola e poder cruzar “o vinil réptil do mar”. assim como “os ciganos acampam para/ descampar”, “os sem terra acampam/ para ficar/ porque ficar é o sal do gado” e nesse sentido o poeta escreve para ficar também, porque a palavra é a raiz do poeta. e, ao escrever um poema, a experiência transforma esse desterro, esse ostracismo. só assim podemos ver que os vagões parecem destinados a levar o retirante para o campo de concentração do desterro ou para a estação da diáspora “mas não/  os vagões têm porte marcial/ são robustos como abraços” apenas. a poesia sensibiliza os vagões.

e finalmente os VEIOS de água que dão de beber à seca daqueles que vem do sertão de Minas ou as veias que revelam o que corre no corpo do poeta assim como Eduardo Galeano abriu as veias da América Latina. nesta parte se retomam alguns dos temas. você volta à casa “a casa de palha e plantas/ onde os livros adoeciam/ não cabiam mais na pele” onde as maritacas se encontravam com os bicos “curvos da miséria de não fazerem música”. para falar desse lugar distópico em que vivemos, onde o tempo “[trapezista de circo pobre/ o picadeiro de titicas]/ paira entre as árvores/ com as pernas cruzadas”. fala também do colchão onde “está 10 vezes meu volume” onde parece “o tempo pintasse/ em mãos alvas/ algum envelhecimento/ ou apagasse/ cada vez mais branco/ o amor”. da dificuldade da vida de casado na cidade “mas é você quem me come e guarda/ meus restos na mochila para depois” levando seus restos pelas ruas como um forma de se virar e resistir ao peso de uma CIDADE AMARRADA À CINTURA. afinal “nada tinha dado certo antes/ nem qualquer notícia/ no e-mail/ nenhum tapa nas costas/ de siga em frente poeta/ menino” e esse é um bom motivo para escrever um livro. “o vento/ é o mote dos dentes”, e a serpentina é o mote dos dedos.

Ps: você prediu que eu selecionasse três poemas centrais do livro, destaco quatro que me parece resumem bem diversas coisas que eu falei, são eles VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, VAGÕES(II – o ferro carregando ferro que são), A CIDADE AMARRADA À CINTURA e 464.

Vinicius Varela

***

Padrão
crítica, poesia

“reflexões a respeito da função da arte e do problema da extinção”, de andré caramuru aubert

André CAramuru

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo no longínquo ano de 1961. É historiador, editor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Trip e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz, entre seus preferidos, algum poeta estrangeiro. Publicou os romances A Vida nas MontanhasA Cultura dos Sambaquis e Cemitérios. Seu primeiro volume de poemas, Outubro/Dezembro, será publicado em junho pela Patuá.

* * *

reflexões a respeito da função da arte e do problema da extinção

olho para o horizonte e não foco em nada. o meu, agora, é um olhar vago. vago e perdido.

memórias de diferentes tempos, com diferentes cores. algumas são como um musguinho numa pedra; outras, como um horizonte infinito e ensolarado numa fazenda no município paulista de porto feliz, às margens do tietê. a vista embaça, meu pensamento viaja.

então mudo de assunto. cabe fazer da poesia um instrumento para a política? como ocorreu em tantas épocas e, para mim, nos meus anos de formação, quando o brasil e países vizinhos viviam as ditaduras? com emoção, cantavam: eu tenho tantos irmãos que não os posso contar, e uma irmã tão formosa que se chama liberdade. com comoção, declamavam: se o faraó construiu a pirâmide, ele fez isso sozinho?  se o imperador da china ergueu a grande muralha, foi com as próprias mãos? davam-se as mãos, para não dizer que não falavam de flores.

nabokov indagou se o artista deveria se render às questões políticas do momento, ou se faria melhor permanecendo puro, devotado à arte, em sua torre de marfim.

(mas o mesmo nabokov, que não se rendeu às questões políticas do momento, apesar de ter todos os motivos para fazê-lo, ponderou se foi ele, o poeta, quem matou, com as próprias mãos, os elefantes que forneceram o marfim para a torre)

enquanto isso: william carlos williams escrevia sobre uma mulher, de vestido rosa, embalando uma criança em frente a um banco.

(diante de meus olhos este poema de wcw aparece mais como uma tela, ao estilo de edward hopper, do que como texto, o que é uma evidente invenção da minha mente)

enquanto isso: kenneth rexroth traduzia um poema de ouyang xiu, no qual o poeta chinês lamentava que, na primavera, as noites fossem curtas, e constatava que a lamparina ardia, com luz fraca, enquanto insetos voadores a circulavam.

(nem kenneth rexroth e nem ouyang xi, este mil anos antes, se preocupavam com quem construiu a grande muralha. a muralha é tão grandiloquente. ouyang xi é tão conciso)

e antes: manuel bandeira avisava que as pessoas de um outro tempo, o verdadeiro tempo, estavam dormindo. profundamente. assim como manuel bandeira está dormindo agora.

na fazenda do meu avô chegava-se à sede através de uma longa alameda de flamboyants, das quais eu me lembro sempre floridas, vermelhas, como se florissem o ano inteiro, o que é uma evidente invenção da minha mente.

ah, a saudade!

enquanto isso: o livro, fechado, em cima da mesa. um copo de cerveja, já pela metade, ao lado. o copo transpira e molha um pouco a mesa. olho para o horizonte, sem focar em nada, e penso no passado, em pessoas, objetos e lugares extintos. tenho vontade de chorar.

então eu penso: o problema da arte explicitamente politizada é que ela corre sério risco de envelhecer tão logo as coisas mudem, e as coisas sempre mudam. as coisas não param de mudar.

ah, o tempo!

tenho vontade de chorar. besteira, digo para mim mesmo: enxugue as lágrimas, siga em frente. besteira, digo para mim mesmo: o que conta é o presente. tem tanta coisa boa no presente.

eu não matei elefante algum, a minha torre não é de marfim. para ser exato: nem torre é. o que eu poderia pretender fazer com minhas próprias mãos?

a mulher de vestido rosa em frente ao banco: há muito tempo extinta. a lamparina de oyang xiu, a luz fraca que ela emanava e os insetos que a rodeavam: há muito tempo extintos.

enquanto isso: eu, a caminho da extinção.

e agora: a alameda de flamboyants fica reverberando em minha mente. não tenho tantos irmãos. o que conta é o presente. eu queria poder cantar a saga dos camponeses em luta contra a opressão. em espanhol ou alemão.

e agora: os flamboyants que já não existem. o meu avô que dorme profundamente (extinto). olhar para o horizonte sem focar em nada. o livro fechado sobre a mesa. a água que transpira do copo de cerveja, molhando um pouco a mesa. enxugar a mesa antes que a água molhe o livro. enxugar as lágrimas.

e agora.

Padrão
crítica

los caprichos de goya

hola, chicos.
indo direto ao assunto, acho que é meu dever trazer um pouco à luz o tesouro que está exposto no museu oscar niemeyer aqui em curitiba e sair um pouco do assunto usual neste blog distinto e garboso.
fato é que nem sempre temos notícia do que está no circuito de exposições dentro da cidade, mesmo em caso de nomes de grande expressão como o de goya. por isso, faço essa pequena contribuição em nome de uma das melhores exposições que já vi.

43. el sueño de la razón produce monstruos

43. el sueño de la razón produce monstruos: el autor soñando. su intento solo es desterrar vulgaridades prejudiciales y perpetuar con esta obra de caprichos, el testimonio sólido de la verdad.

pertencente ao instituto cervantes de madrid, los caprichos é uma série de 80 gravuras (tendo essa série atual sido impressa em 1929. existem vários artigos bastante completos na internet contando a história da coleção, como esse) que satirizam a sociedade espanhola de fins do séc. xviii, com atenção especial à nobreza e o clero (como diz toda a descrição que você procurar pela internet), mas dando muita atenção também a costumes vulgares e lendas populares de tradição espanhola. as técnicas utilizadas são predominantemente mistos de água-forte, água-tinta e ponta seca. seus traços de tendência deformante e bastante caricatural trazem um ar bastante moderno (às vezes até novecentista) para o trabalho. por vezes é possível notar claramente reminiscências expressivas da própria “musa” de goya em algumas mulheres, enquanto ao mesmo tempo se vê inúmeras criaturas do imaginário fantástico e sujeitos que pareciam ter sido tirados de histórias em quadrinhos. é uma mescla versátil e impressionante de um extenso trabalho criativo de um dos artistas mais impressionantes que eu vi nos últimos tempos.
todas as gravuras são acompanhadas por um pequeno texto. há, abaixo da imagem, um título, e ao lado um tipo de legenda em formato de aforismo (ou desaforismo, na maioria dos casos). isso se pode ver na gravura reproduzida acima, por exemplo. e é principalmente por causa disso que me motivei em trazer esse post ao blog. certamente que ler 80 legendas de 80 gravuras, observando-as atentamente, é cansativo, ainda mais se a altura das plaquinhas na exposição não está lá tão bem adequada (recomendamos uma pausa em algum banquinho no meio do espaço. ponha-se guapo e observe as moçoilas). aliás, observei no museu que muitas pessoas passavam batido pelo texto. fato é, entretanto, que 50% do sentido do trabalho se constrói exatamente pelo efeito do texto sobre a obra visual, e as duas se complementam.  os aforismos, em grande parte extremamente ácidos, em outra parte de tom reflexivo-filosófico, são por si só admiráveis (pra quem gosta da arte da ironização, como quem vos fala, é um prato cheio). isso me levou a ver algo em que eu acreditava há muito tempo ser possível em uma exposição de artes visuais mas nunca tinha visto realizado com tal nível de acerto, que é essa congregação completamente prática entre texto e imagem, de uma forma que se complementem fifty-fifty, sem sobreposição de um pelo outro, etc. saber tudo sobre a coleção, os mais curiosos podem fazê-lo facilmente em links como o que eu indiquei. mas e essa sutileza para entendê-los como um, sensivelmente? esse é precisamente o ponto que eu acredito ser mais importante. o troço é muito poético.

55. hasta la muerte

55. hasta la muerte: hace bien en ponerse guapa; son sus días; cumple setenta y cinco años y vendrán las amigas a verla.

comentários ponderados e com olhos críticos são justo o que não vemos pela internet. asneiras como “é preciso ter um espírito livre para poder apreciar a mostra” (G1) ou “goya criticou nesta estampa a violência na educação das crianças” (wikipedia) mais atrapalham que ajudam. embora ironicamente fortes, como eu já disse acima, as obras têm o poder de causar uma séria empatia com suas temáticas, já que correm desde a figuração de personagens do dia-a-dia até as absurdidades das hierarquias sociais, para culminarem na utilização de seres fantásticos, como bruxas, anões, duendes, demônios, etc, para a contação de lendas familiares. goya atua magistralmente como um crítico de sua época, tanto com seu texto como com a técnica que é de cair o queixo. a metáfora das “galinhas”, por exemplo, é um dos pontos altos da exposição, e podem ser vistas no capricho n. 72, reproduzido abaixo, embora estejam presentes de forma mais contundente em muitas outras.

 

72. no te escaparás

72. no te escaparás: nunca se escapa la que se quiere dejar coger.

por fim, concluindo que o goya é um alucinado, recomendo fortemente a presença nesse baile, que vai até 24 de abril do ano da graça de nosso senhor de 2012. pra quem gosta de surrealismo, fantástico ou de lendas e imaginário popular, é um prato cheio (embora qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade poética certamente deguste saborosamente a exposição). chega a ser chocante a composição que o artista dá a figuras e cenários, aos diabos que sempre aparecem sutilmente nos planos de fundo, às mãos esqueléticas das velhas e das bruxas, à perfeição dos tecidos, às anatomias magistrais, à criatividade e, por fim e mais legal de tudo, a integração com o texto que é de primeiríssima. termino o post reproduzindo um dos caprichos mais famosos da série, o n. 68, que está lá e com certeza é um dos melhores, embora seja praticamente impossível eleger um melhor.

Vinicius Ferreira Barth

68. linda maestra!

68. linda maestra!: la escoba es uno de los utensilios más necesarios a las brujas, porque además de ser ellas grandes barrenderas, como consta por las historias, tal vez convierten la escoba en mula de paso y van con ellaque el diablo las alcanzará.

 

Padrão