Quatro poemas de Tristan Tzara, por Sergio Maciel e Google Tradutor

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tristan tzara, nascido samuel ou samy rosenstock (romênia 1896 – frança 1963), foi um poeta romeno, judeu, francês e dadaísta. foi, aliás, um dos membros fundadores do movimento dadaísta. algum tempo depois, após um certo declínio do movimento, junta-se ao surrealismo. junta-se, também, posteriormente, ao partido comunista e à resistência francesa. mas apesar de ser uma figura um tanto conhecida, em muito pela sua participação no movimento surrealista, tzara não goza de muita divulgação literária; ao menos não tanto quanto apollinaire, reverdy e soupault, por exemplo, pra citar alguns dos poetas franceses mais inovadores do séc. xx.

tzara, assim como seus contemporâneos supracitados, apareceram na importante revista SIC, que existiu entre 1916-19. num período problemático que foi o contexto da primeira guerra mundial, tzara, junto com outros emigrées, como hans arp e hugo ball, produziram o fino das vanguardas. para qualquer vanguardista que se prezasse, era mister que sua obra não ficasse restrita somente a uma linguagem. ou seja, disso resulta que boa parte da vanguarda européia legou uma série de poetas-pintores-escultores-músicos-performers no mesmo corpo. é disso que vem a impossibilidade de lermos nas vanguardas, sobretudo naquilo que toca a poesia, as mesmas expectativas que se leu até então, com especial enfoque no virtuosismo parnasiano e simbolista. hugo ball, para tomar alguém como exemplo, criou aquilo que veio a se chamar “poema fonético”. how in the hell alguém pode esperar de um poema como “karawane” (clique aqui) ou até mesmo “fisches nachtgesang” (clique aqui e aqui), de christian morgenstern, a mesma realização, no que se refere à questão da linguagem, de qualquer outra coisa que havia antes das vanguardas?

é a partir disso, portanto, e da ideia de um automatismo (que tanto chateava a cultura blasé da época) que era veiculada pelo dadaísmo, e depois pelo surrealismo, que resolvi escolher, meio ao acaso, e traduzi quatro poemas de tzara. os três primeiros, do livro vingt-cinq poèmes (1918); o último de juste présent (1961), um pouco menos radical e pós vanguarda.

para os três primeiros, escritos no calor da vanguarda e da porralouquice, resolvi adotar o seguinte procedimento: quando se adota um regime de escrita automática que busca romper com a lógica poética mesma da linguagem, talvez uma solução seja utilizar um processo tradutório semelhante: ou seja, para os três primeiros poemas, eu resolvi criar o embate entre a automaticidade da vanguarda com aquela de uma ferramenta de tradução automática, nosso querido google tradutor. realizei, obviamente, uma terceira tradução, minha, buscando um meio termo entre as duas. para a terceira, pós-vanguarda e menos caótica, dispensei a ajuda do nosso amigo virtual.

pra finalizar, recomendo muito a leitura do texto “DADA: implicações e inseminações” (clique aqui), do domeneck.

sergio maciel

* * *

LE GÉANT BLANC LÉPREUX DU PAYSAGE

le sel se groupe en constellation d’oiseaux sur la tumeur de ouate

dans ses poumons les astéries et les punaises se balancent
les microbes se cristallisent en palmiers de muscles balançoires bonjour sans cigarette tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera embrasser les bateaux chirurgien des bateaux cicatrice humide propre
paresse des lumières éclatantes
les bateaux nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
je lui enfonce les cierges dans les oreilles gangànfah hélicon et boxeur sur le balcon le voilon de l’hôtel en baobabs de flammes les flammes se développent en formation d’éponges

les flammes sont des éponges ngànga et frappez
les échelles montent comme le sang gangà
les fougères vers les steppes de laine mon hazard vers les cascades
les flammes éponges de verre les paillasses blessures paillasses
les paillasses tombent wancanca aha bzdouc les papillons
les ciseaux les ciseaux les ciseaux et les ombres
les ciseaux et les nuages les ciseaux les navires
le thermomètre regarde l’ultra-rouge gmbabàba
berthe mon éducation ma queue est froide et monochromatique mfoua loua la
les champignons oranges et la famille des sons au delà du tribord à l’origine à l’origine le triangle et l’arbre des voyageurs à l’origine

mes cerveaux s’en vont vers l’hyperbole
le caolin fourmille dans sa boîte crânienne
dalibouli obok et tombo et tombo son ventre set une grosse caisse ici intervient le tambour major et la cliquette
car il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrrrrrrrrr ici le lecteur commence à crier il commence à crier commence à crier puis dans ce cri il y a des flûtes qui se multiplient — des corails
le lecteur veut mourir peut-être ou danser et commence à crier
il est mince idiot sale il ne comprend pas mes vers il crie
il est borgne
il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrr
nbaze baze baze regardez la tiare sousmarine qui se dénoue en algues d’or
hozondrac trac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

O GIGANTE PAISAGEM LEPROSO BRANCO

o grupo de sal de aves sobre o tumor constelação de rebatidas

em seus pulmões estrelas do mar e erros balanço
micróbios cristalizar balanços músculos palma Olá sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc Zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera beijo barco cirurgião barcos cicatriz limpo e úmido
preguiça de luzes brilhantes
barcos nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
I empurra as velas no boxer orelhas e gangànfah Helicon na varanda do hotel voilon chamas baobá chamas desenvolver na formação esponjas

as chamas são esponjas Nganga, e fira
subir escadas como Ganga sangue
lã Ferns estepes ao meu perigo para as cachoeiras
vidro bancada esponjas chamas bancos lesão
os colchões cair wancanca aha bzdouc borboletas
A tesoura tesoura tesoura e sombras
tesouras e nuvens tesoura navios
o termômetro parece ultra-vermelho gmbabàba
bertha minha educação minha cauda é frio e mfoua monocromática elogiou o
laranjas e cogumelos família soa além do estibordo originalmente atrás do triângulo e da árvore originalmente viajantes

meu cérebro está indo para hipérbole
o caulim cheias em seu crânio
dalibouli obok e tombo tombo e definir seu estômago um bumbo aqui vem o tambor grande e chocalhos
porque não ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar que ele começa a começa a gritar gritando e depois chorar lá em flautas que se multiplicam – Corais
o leitor quer morrer ou talvez dançando e começa a gritar
é idiota sujo fina não entende meus versos ele grita
ele é cego
Há ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrr
nbaze Baze Baze assistindo tiara subaquática que ventos em algas douradas
nervosismo hozondrac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(google tradutor)

O GIGANTE BRANCO LEPROSO DA PAISAGEM

o sal se agrupa em constelação de pássaros sobre o tumor de zuarte

em seus pulmões as asterídeas e os percevejos se balançam
os micróbios se cristalizam em palmeiras de músculos balanços bomdia sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc ñfunfa mbaah mbaah ñfunfa
macrocystis pyrifera abraçar os barcos cirurgião dos barcos cicatriz úmida própria
preguiça das luzes brilhantes
os barcos ñfunfa ñfunfa ñfunfa
eu ele forço as velas nas orelhas trupànfah helicon e boxeador na varanda o violino do hotel em baobás de chamas e chamas se desenvolvem em formação de esponjas

as chamas são esponjas b^bob^bo e bateis
as escalas sobem como o sangue bbôbê
as samambaias nas estepes de lã meu acaso nas cascatas
as chamas esponjas de vidro os palhaços feridos palhaços
os palhaços tombam wancanca rá bzdouc as brabuleta
as tesoura as tesoura as tesoura e as sombras
as tesoura e as nuvens as tesoura os navios
o termômetro contempla o ultra-rubro gmbabàba
berta minha educação meu rabo é frio e monocromático mfuá luá là
os cogumelos laranja e a família de sons d’além do estibordo à origem à origem o triângulo e a árvore dos viajantes à origem

meus miolos se vão verso a hipérbole
o caulim formiga em sua caixa craniana
dalibouli obok e tombo e tombo seu ventre è um grosso caixa aqui intervém o tambor maior e o chocalho
pois há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar ele começa a gritar começa a gritar pois em seu grito tem as flautas que se multiplicam – os corais
o leitor quer morrer talvez ou dançar e começar a gritar
ele é um refino idiota porco ele não compreende meus versos e grita
ele é caolho
há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr
nbaze baze baze olhai a coroa submarinha que se desata em algas d’ouro
hozondrac temor
nfunda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(sergio maciel)

§

PÉLAMIDE

a e ou o youyouyou i e ou o youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
morceaux de durée verte voltigent dans ma chambre
a e o i ii i e a ou ii ii ventre montre le centre je veux le prendre ambran bran bran et rendre centre des quatre
beng bong beng bang où vas-tu iiiiiiiiupft
machiniste l’océan a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
les vers luisants parmi nous
parmi nos entrailles et nos directions
mais le capitaine étudie les indications de la boussole
et la concentration des couleurs devient folle
cigogne litophanie il y a ma mémoire et l’ocarina dans la pharmacie
sériciculture horizontale des bâtiments pélagoscopiques
la folle du village couve des bouffons pour la cour royale
l’hôpitale devient canal
et le canal devient violon
sur le violon il y a un navire
et sur le bâbord la reine est parmi les émigrants pour mexico

PÉLAMIDE

um E ou O ou o youyouyou om youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
pedaços de tempo de verde voam no meu quarto
um e o e i i ii ii ii ou uma barriga mostra o centro Eu quero levar farelo de farelo de ambran e tornar o centro dos quatro
beng beng bong estrondo onde está você iiiiiiiiupft
Machinist o oceano om o u
om u a o o i u o u ath tem om o u om um
os vaga-lumes entre nós
entre o nosso interior e os nossos sentidos
mas o capitão examina as direções da bússola
e concentração de cor fica louco
Stork litophanie atrás, minha memória ea ocarina na farmácia
pélagoscopiques sericicultura horizontais de edifícios
Mad fumegantes bobos da aldeia para a corte real
o canal se torna Hopital
e o canal se torna violino
no violino há um vaso
e na porta é a rainha entre os emigrantes para o México

(google tradutor)

SARRAJÃO

a e ou tututu eu e ou o tututu
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
peças de dura verde voam em meu quarto
a e o i ii i e a ou ii ii ventre mostra o centro eu quero o tomar ambran bran bran e tornar centro dos quatro
b e n g b o n g b e n g b a n g onde cê-vai iiiiiiiiiipieft
maquinista o oceano a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
os versos luzentes entre nós
entre nossas entranhas e direções
mas o capitão estuda os apontamentos da bússola
e a concentração das cores torna-se louca
cegonha litofania há minha memória e a ocarina na farmácia
sericicultura horizontal dos batimentos pélagoscópicos
a louca da vila cobre o bobo para a corte real
o hospital torna-se canal
e o canal torna-se violino
sobre o violino há um navio
e sobre o bombordo a rainha está entre os emigrantes para o méxico.

(sergio maciel)

§

LA GRAND COMPLAINTE DE MON OBSCURITÉ TROIS

chez nous les fleurs des pendules s’allument et les plumes encerclent la clarté
le matin de soufre lointain les vaches l’èchent les lys de sel
mon fils
mon fils
traînons toujours par la couleur du monde
qu’on dirait plus bleue que le métro et que l’astronomie
nous sommes trop maigres
nous n’avons pas de bouche
nos jambes sont raides et s’entrechoquent
nos visages n’ont pas de forme comme les étoiles
cristaux points sans force feu brulée la basilique
folle : les zigzags craquent
téléphone
mordre les cordages se liquéfier l’arc
grimper
astrale
la mémoire
vers le nord par son fruit double comme la chair crue
faim feu sang

O GRANDE LAMENTO DE MEUS TRÊS ESCURO

flores home relógios e penas leves cercar clareza
na manhã de enxofre distante as vacas èchent lírios sal
meu filho
meu filho
sempre sair pela cor do mundo
parece mais azul do que o metrô e astronomia
estamos muito magra
nós não temos nenhuma boca
nossas pernas são duras e colidem
nossos rostos não são em forma de estrelas
pontos de cristal sem força, fogo queimou a basílica
louco: os ziguezagues rachar
telefone
cordas mordida liquefazer o arco
subida
astral
memória
a norte pela sua dupla fruta como carne crua
fome de sangue fogo

(google tradutor)

A GRANDE QUEIXA SOBRE MINHA OBSCURIDADE TRÊS

em nós as flores dos pêndulos se alumiam e as plumas contornam a claridade
a manhã de enxofre longínqua as vacas l’ambem os lírios de sal
meu filho
meu filho
arrastamos sempre pela cor do mundo
quem dirá mais tristonho que o metro e que a astronomia
nós estamos muito magros
nós não temos boca
nossas pernas estão esticadas e se entrechocam
nossas caras não tem forma como as estrelas
cristais pontos sem força fogo queimada a basílica
louca: os ziguezagues racham
telefone
morder as cordas liquefazer o arco
galgar
astral
a memória
verso ao norte por seu duplo fruto como a carne crua
fome fogo sangue

(sergio maciel)

§

À UNE MORTE

tu avances toujours aux confins de la nuit
le feu s’est éteint où finit la patience
même les pas sur des chemins imprévus
n’éveillent plus la magie des buts

braises braises
l’amour s’en souvient

rien ne nous distrait de l’attente assise
sur les genoux enfants aux plénitudes chaudes
pourrais-je oublier le son de cette voix
qui contribue à répandre la lumière
au-delà de toute présence

fraises fraises
à l’appel des lèvres

comme la mer contenue
toute une vie enlacée
et sur les innombrables poitrines des vagues
l’incessant froissement des ours effleurés

rêves rêves
au silence de braise

pourrais-je oublier l’attente comblée
le temps ramassé sur lui-même
le jour jaillissant de chaque parole dite
le long embrasement de la durée conquise

sèves sèves
ma soif s’en souvient

A UM MORTO

tu avanças sempre aos confins da noite
o fogo se extinguiu onde findou a paciência
mesmo os passos sobre as chamas imprevistas
não despertam mais a magia das metas

brasas brasas
o amor se lembra

nada nos distrai da espera assentada
sobre os joelhos infantis às plenitudes quentes
poderia esquecer o som desta voz
que contribui para derramar a luz
além de toda presença

morangos morangos
ao apelo dos lábios

como o mar constante
toda uma vida enlaçada
e sobre os incontáveis peitos das ondas
o incessante franzimento dos ursos tocados

sonhos sonhos
em silêncio de cinzas

poderia esquecer a espera plena
o tempo recolhido em si mesmo
o dia jorrando cada palavra dita
o longo alastramento da duração conquistada

seivas seivas
minha sede se lembra

yi sáng (1910 – 1937)

Yi Sáng, em 1929
Yi Sáng, em 1929

pretendo fazer dois posts contrastivos sobre poesia coreana moderna. o mote veio da recente viagem de tarso de melo para a coreia, num festival de poesia, porque ele fez um post aqui lembrando da bela coletânea feita por yun jung jim, O pássaro que comeu o sol — Poesia moderna da Coréia (1993, ed. arte pau-brasil), com prefácio de paulo leminski e 4a capa de haroldo de campos. naquele momento, tanto leminski como haroldo não hesitaram em dizer que yi sáng era o poeta que mais lhes chamava a atenção na coletânea, “um grande poeta, a revelação do livro para mim, desde já meu poeta coreano moderno, o boêmio e surrealista Yi sáng, com poemas experimentais surpreendentes” (leminski dixit). por isso, poucos anos depois, yun jung im lançou Olho-de-corvo e outras obras de Yi Sáng (1999, ed. perspectiva), com toda série de poemas publicados com o título de “Olho-de-corvo”, além de alguns outros poucos poemas & uma antologia da sua prosa também notável.

o poeta (1910, seul — 1937, tóquio) foi certamente o coreano mais radical & rebelde, ao longo dos anos 20/30, nas suas experimentações. trata-se de uma escrita do mínimo, com repetições, construções aparentemente simples que, ao nosso olhar ocidental, lembram a poética dadaísta ou mesmo a obra de um schwitters. na prosa, há algo de kafkiano, uma claustrofobia narrativa que tende a implodir o desenvolvimento do texto, que se fecha sobre si, porém muitas vezes na figura de uma personagem dominada por uma indolência extraordinária, como no caso do conto “Asas”. o próprio nome poético do autor, nascido kim hé-kyón (que significa algo como “vastidão do mar”), adotado aos 23 anos, é uma recusa à tradição lírica coreana, já que quer dizer algo como “caixa da silva”. é em 1933 também que o poeta se demite do trabalho como projetista & passa a viver numa miséria crescente (com crises de hemoptise) aliada a uma produção escrita também intensa; ao longos dos próximos anos, viria a fazer algumas viagens improvisadas, abrir alguns cafés, todos falidos, & sofrer alguma desilusões amorosas. em dezembro de 1936, o poeta abandona a esposa & viaja para tóquio para conhecer o poeta kim kirim; mas morreu poucos meses depois, em abril, numa crise agravada pelo inverno & pela violência da polícia (que o prendeu & espancou sob a acusação de “ideologia subversiva”).

é nesse contexto que os poemas de “Olho-de-corvo” têm uma história peculiar: com o apoio do escritor bak te-wón & do editor sáng-hó, o projeto de 1934 previa a publicação de 30 poemas ao longo de 30 dias, no jornal Jo-Són-Jung-Ang, o principal do país, porém a série foi cancelada após 15 poemas, por causar frisson na sociedade, com acusações de serem os “delírios de um demente”, ou uma “aberração”. para terem uma ideia do incômodo gerado por essas publicações, basta dizer que o editor sáng-hó perdeu o emprego, pois teve que se demitir no dia do 15o poema. dessa série que sobreviveu (os outros 15 poemas nunca chegaram), seleciono 5 textos desse “coreano de vanguarda” que foi yi sáng.

guilherme gontijo flores

* * *

Poema n. 1

13criançascorrempelaestrada.
(Quantoàruaéapropriadaumasemsaída.)

A 1acriançadizqueestácommedo.
A 2acriançadizqueestácommedo.
A 3acriançadizqueestácommedo.
A 4acriançadizqueestácommedo.
A 5acriançadizqueestácommedo.
A 6acriançadizqueestácommedo.
A 7acriançadizqueestácommedo.
A 8acriançadizqueestácommedo.
A 9acriançadizqueestácommedo.
A10acriançadizqueestácommedo.

A11acriançadizqueestácommedo.
A12acriançadizqueestácommedo.
A13acriançadizqueestácommedo.
As13criançassãoumasomasódecriançasmedonhasecriançascommedo.
(Eraatépreferívelquenãohouvesseoutrosfatores.)

Tudobemse1destascriançasforumacriançamedonha.
Tudobemse2destascriançasforemcriançasmedonhas.
Tudobemse2destascriançasforemcriançascommedo.
Tudobemse1destascriançasforumacriançacommedo.

(Mesmoumaruaabertaseriatambémapropriada.)
Tudobemtambémseas13criançasnãocorrerempelaestrada.

§

Poema n. 2

Quan do o meu pai dor mi ta ao meu la do eu me tor no o pai do meu pai e tam bém me tor no o pai do pai do meu pai mas se o meu pai na con di ção de meu pai é a in da meu pai en tão por que mo ti vo eu me tor no o pai do pai….. do pai do pai do meu pai por que mo ti vo eu de vo sal tar por ci ma do meu pai e fi nal men te por que mo ti vo eu te nho de vi ver fa zen do o pa pel de mim do meu pai e do pai do meu pai e do pai do pai do meu pai?

§

Poema n. 7

Nesta terra de remoto exílio um ramo • no ramo floresce uma flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas • espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio, restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-me • até que desça a graça dos céus.

§

Poema n. 9

For te ven ta ni a to dos os di as e fi nal men te uma gran de mão as sen ta so bre a mi nha cin tu ra. As sim que o chei ro do meu su or al can çar o ma ra vi lho so va le da im pres sões di gi tais, a ti re! He de a ti rar! Sin to o pe so do ca no do re vól ver so bre o meu a pa re lho di ges ti vo e sin to a su per fí cie li sa de sua pon ta den tro da mi nha bo ca cer ra da. Pou co de pois, fe cho os o lhos co mo quem dá um ti ro, mas o que foi is to que cus pi pe la bo ca no lu gar de um pro jé til?

§

Poema n. 14

Há um gra ma do em fren te ao ve lho cas te lo e so bre es te gra ma do des can so o meu cha péu. Do to po do cas te lo a mar ro u ma pe dra bem pe sa da à mi nha me mó ria e a lan ço a té on de al can ça a dis tân cia da mi nha for ça. Ou ço o cho ro tris te da his tó ria que re tro ce de so bre su a tra je tó ria pa ra bó li ca. Num da do mo men to, ve jo a bai xo um men di go pos ta do ao la do do meu cha péu co mo um guar di ão de pe dra. A in da que lá em bai xo o men di go es tá a ci ma de mim. Ou se rá a al ma e xâ ni me do so ma tó rio da his tó ria? A fun du ra do meu cha péu a ber to em di re ção ao es pa ço in vo ca o céu i mi nen te. Su bi ta men te, o men di go en cur va o seu ar tre me tre men te e jo ga u ma pe dra pa ra den tro do meu cha péu. Eu já des mai ei. Ve jo um ma pa em que o co ra ção se trans la da pa ra den tro do crâ nio. U ma gé li da mão se en cos ta à mi nha tes ta. Na mi nha tes ta a gé li da mão dei xa su a mar ca que nun ca mais se a pa gou.

(poemas de yi sáng,, trad. de yun jung im com revisão poética de haroldo de campos)