crítica, poesia

Cesar Kiraly, por Daniel Mano

O Corpo Escrito, que foge, por Daniel Mano

<All wisdom is profoundly trivial>
Love is gravitation
   Elsa von Freytag-Loringhoven

   Fuga sobre o branco [ ]., o livro de poemas recém-lançado por Cesar Kiraly, porta a severidade secular dos oráculos: não há transigência, a linguagem poética não absolve, não reconcilia, não suplementa a experiência humana. Distancia-se, assim, de longeva tradição solar nas artes e no pensamento, atravessada pela crença na obra como espelho pacífico, suave duplo da autoria, território por excelência de sua realização.

“Escrever”, comenta Jean Starobinski a respeito de Montaigne “visa reconquistar um domínio interno posto em risco”. Montaigne, com os Ensaios, visa pintar a si, retratar-se a si mesmo, fazendo da obra um artefato deliberado de restituição de sua subjetividade fugidia, fragmentada, acossada pelas dúvidas oriundas da vida teorética. O jovem Marx, por sua vez, identificou nas obras produzidas pelo labor humano a exteriorização (Entäusserung) emancipadora, a efetivação de si, brutalmente interrompida e convertida em seu inverso na modernidade, o estranhamento (Entfremdung). E W. B. Yeats entreviu a possibilidade de se harmonizar vida e obra, traída em um de seus mais expressivos versos: “how can we know/the dancer from the dance?”.

A esses exemplares da solar tradição, podemos contrapor a Fuga. Aí, a palavra não se firma como artifício restitutivo, não se trata de composição deliberada, representação objetiva de labor consciente, embora a forma se aproxime da arte conceitual. Dito de outro modo, a palavra não remonta a conceitos originários, ao longo de toda a Fuga, embora não seja possível evitar sua conceituação, como aqui faço. Desse modo, somos conduzidos em muitos momentos, à temática da nudez: para nos lembrarmos de que a forma – o signo verbal – não oculta referentes, mas os constitui: “não há nada no mundo que não seja nudez. se. / não há nada no mundo que não se deixe ver” (p.27); “Um poema é tão nu que está vestido” (p.133). O primado das aparências – da nudez – também é, anedoticamente, celebrado, em Dos Acidentes (p.22). Ao mesmo tempo, ecos daquilo que Derrida intitulou emancipação da escritura são sentidos: “pode-se pensar que existe algo que não seja escritura. mas isso seria dizer que existe algo que não é imagem” (p.36). A percepção da quebra na escritura (p.44) aparece como seu princípio de emancipação, afinal, nada mais mortificado que o íntegro, o contínuo, as xícaras intactas e perfeitas (p.96).

Donde chegamos a um eixo fundamental de A Fuga, a tensão que aí se estabelece em relação ao fonocentrismo, ao primado da phonè e a consequente deflação da escritura e, por que não, do gesto. Uma das vozes do livro, Margarida, viu no mutismo um problema não pela incapacidade de articular proposições, mas por lhe vedar uma forma de alívio e grito (p.54). Outra voz, Raimundo, afirma: “a minha / língua de lamber. Margarida. / É uma catacrese de chupar. / Margarida. Até que eu aprenda / a falar e cuspa a língua. cuspa / a língua. cuspa. cuspa. cuspa. / fique com a voz Margarida. / com a voz” (p. 70).

Temos diante de nós, portanto, um objeto estético – um corpo, nu, feito em escrita, como sugere o Prólogo. Corpo que se revela e oculta em seus soluços, tiques, gagueiras e atos falhos, representados pela pontuação ostensiva e irregular, pelas repetições, elipses, reticências, parênteses e colchetes, que se espalham ao longo do texto como cicatrizes. Corpo que hesita diante do branco, diante da violência que se lhe é imposta pelos imperativos de enunciação, de logos e phonè: “e cá. assim. esta página em branco / a me fazer corar de brandura contra / o branco tão irônico. / por que me satiriza o rosto, Ó branco?” (p.31).

A temática do trauma se faz igualmente presente, sendo não por acaso, um termo de extração corporal, ortopédica: “naquela guerra / de que me lembro / preto e branco. Os / homens morreram / colorido. ( )olorido / ( ) ( )”; também em A. (p.163) e no poema Trauma (p.230), no qual o vão é focalizado, este espaço que se define tão negativamente, no entre repouso e movimento.

A tradição solar que mencionei acima veria o fim da caneta como fim do que se tem a dizer, não haveria grande embaraço, pois poderíamos sempre nos ajustar às possibilidades objetivas da tinta, sendo previdentes e realistas. Os limites do mundo seriam os limites da linguagem, mas n`a Fuga, essa economia se apresenta vedada, o que há é transbordamento, e o espanto por continuarmos quando já não há tinta: “não entendo por que as canetas acabam antes de mim” (p.126). Sempre é disponível (a auto-ilusão de) se crer coextensivo à caneta, mas é preciso cuidado com aquilo que se deseja, como nos lembram os lábios derretidos pela piteira quente do cachimbo (p.210) da boca que se queria incólume.

Margarida viu, (p.54) em sua sensibilidade dialética, a dimensão de silêncio presente em tudo aquilo que é dito, viu, por assim dizer, o branco, a tela, que subjaz a todo pigmento, tornando-se especialista em silêncio. Como suportar, no entanto, o silêncio? Como viver sem o alívio, o grito? Essa questão talvez seja a principal de uma obra que se define pela mordeção dos lábios e o não-dizer (p. 249). Como suportar o silêncio que se impõe sobre um corpo repleto de traumas? Uma possível resposta encontra-se no movimento inverso, na consideração da dimensão expressiva que acompanha todo silêncio, magistralmente representada no poema Variações sobre um tema de John Cage (p.135), no qual se apresenta diante de nós uma das possíveis eloquências contidas no silêncio: a presença espectral do dito, sua possibilidade abortada, emasculada, mas sempre presente, sempre presente. Cinza sobre branco. Suporta-se o silêncio, afinal, dizendo-se.

A Fuga é um fragmento de corpo, um corpo escrito, lacerado, nu – como todo corpo. Há muito a ver em seus gestos e movimentos, nas cicatrizes que singram sua pele, nos traumas que rangem seus ossos, no negro maciço que impera em algumas de suas páginas, na textura macia destas mesmas, nas orelhas. A visão requer sensibilidade e despudor: diante desse corpo silente que se mostra, despir-se também. E silenciar.

Daniel Mano

* * *

 O branco do olho

se entre o branco e a letra
existe um abismo.
o que falar então? deixar falar
pois não? silenciar o não?
o que falar do entre uma
página e outra? lá. antes. estava
a ferver imagens. lá. depois. estou
a pintar o mundo. suas crenças.
e cá. assim. esta página em branco
a me fazer corar de brandura contra
o branco tão irônico.
por que me satiriza o rosto, Ó branco?
será. então. talvez. que o branco pensa
que não posso acordar monstro? sombrio?
letra? ponto? traço? julga o branco
que não posso lhe cortar o pescoço? fazê-lo
jorrar vermelho? lhe arrancar o braço?
letra. ponto. traço. julga o branco que não posso
lhe tascar um beijo? lhe prender os
pulsos? arremessar aos fracos?
interromper o
verso? incendiar
perverso? remediar
o feito? permi-
tir o vento. fazer
cair do alto?
amarelar na
foto?
remediar
sem gesto?
letra.
ponto.
traço?

§

Escritura

pode-se pensar que existe algo que não seja escritura. mas isso seria dizer que existe algo que não é imagem. então tento dizer para os sem imagens que tudo o que existe é traço sobre traço e sobre traço. sobreposição de traços. estes traços são traços imagens. estas imagens são escritura. então tento dizer para os sem traço que tudo o que existe é marca. tudo o que existe é sinal. e este sinal que é marca. este sinal que é traço. nada mais é do que escritura. nada mais é do que uma imagem. nada mais do que um ponto. então, tento dizer para os sem ponto. que basta uma impressão de experiência para se ter escritura, imagem, traço, marca, sinal e mundo. basta uma impressão para se ter mundo.

§

A nudez de Margarida, o desfazimento no Outro

Mutismo, ela só conseguia pensar em mutismo, nesta forma de confusão das ideias característica das pessoas que pensam muito, para ela o mutismo se tornou um problema, antes de tudo, porque não podia deixar de esperar algum alívio na transformação dos pensamentos em sons. Ela só conseguia pensar em mutismo, porque sendo muda via nisso um modo de ser com a humanidade, uma partícula de composição com tudo o que há, mas uma participação por cima, porque ao contrário dos outros que eram mudos por intermitência, ela era muda por condição. Ao mesmo tempo em que era calada pela profusão das ideias, deveria permanecer calada, muito embora preenchidas todas as condições enunciativas do som. Ela não deixaria de pensar em mutismo, porque em sendo uma forma de mutismo, pela ostentação do silêncio, lhe eram vedadas todas as formas de alívio pelo dizer.

Mas Margarida, apesar da tormentosa proximidade com a vedação às formas de alívio pelo som, sobretudo lhe era vedado o grito, sempre percebeu uma forma de aprofundar seu gosto no silêncio. Na verdade, ela sacrificara a possibilidade do dizer pela sensibilidade brutal nisso que é condição a todas as coisas ditas, Margarida percebeu que em tudo o que é dito existe uma forte dimensão de silêncio sem a qual o dizer não acontece. Margarida se tornou especialista em silêncio.

Margarida dizia a si mesma: – o som emitido não é necessário, eu posso suportar o que for sem som, sem, até mesmo, me entregar por estar sentindo prazer ou dor pela respiração, posso viver a minha vida de escrever sem emitir sons, desde que eu possa escutar tudo o que se passa, eu posso ser comida de costas sem emitir som algum, e não posso dizer que não me sinta confortável no horror que provoco com a minha mudez: a escritura e a nudez se dão com o silêncio: são formas de mutismo. Mas uma vida sem janelas não é suportável. As janelas são o mutismo nas coisas. Cabe sempre preservar passagens translúcidas de qualquer coisa para qualquer coisa. Amar a perfeição das janelas é sempre um amor perigoso, porque quanto mais se as consertam, piores ficam. Estou sempre afastada dos sedutores homens mudos, é muito bom ver por eles, mas impossível fazê-los falar, quão mais se os conserta, piores ficam, e daí não sabem mais calar direito, ou falar. Por outro lado, existem homens que falam uma língua infinita do infinito da língua. Não se deve beijar homens de língua infinita. Para não se ter a alma roubada. Ou lambida. Ou roubada. Ou lambida. como a minha.
como a minha.
existem homens que falam.
uma. língua. infinita. do.
infinito da língua.
não se deve beijar homens de língua
infinita. para não se ter:
– dizia Margarida a si mesma –
meu amor querido, que acaba
de lavar as mãos, deixe que
sequem para me bater no rosto, apenas
um pouco mais secas, para me bater no
rosto, quero as mãos secas e limpas que cultiva
para escrever nos seus cadernos e livros.

a alma roubada. roubada.
ou. lambida. como. a. minha.
como. a. minha. alma-língua-roubada.
e. perdida.

Intervenções poéticas de Margarida sobre anotações de Enquanto Agonizo de William Faulkner, logo após a constatação de que o mutismo era um boa coisa para se responder ao perdimento da alma-língua:

p. 70

se eu ainda não estou.
de todo lugar para estar.
estou muda apenas onde estou.
não muda por estar lá. mas antes.
muda. por ser deixada aqui. se estou
muda. eu sou.
para tudo. eu. tenho.
o. mutismo. como. resposta:

p. 99

para se ouvir dizer que a mãe está
morta. que. se. escute. muda.
para se desejar ter. tempo. para
deixá-la morrer. para se desejar.
desejar. ter tempo para desejar
poder vê-la morrer. que se deseje
em silêncio. muda. nua. certa
vez. acordei. com um vazio. negro.
ameaçador. correndo. por.
debaixo de mim. fiquei.
muda. nua. muda.

p. 103

desejo um amor que me estapeie
de mãos secas e limpas. porque são
as mãos com que manuseia seus
cadernos e livros. não quero suas
mãos sujas de fazer carícias. mas
as mãos limpas de criação e estalido.
ele está olhando para mim. só me
olha. nada diz. o maldito
falador sabe como se fica em
silêncio. sempre me digo que ele
não fez tanto. como me olha o
demônio. como se estivesse entrado
em mim. de. alguma. forma.
como se eu estivesse olhando para
mim mesma com os olhos dele. como
se fosse a minha mão que fizesse
o estalido no meu rosto.

p. 122

como se tivéssemos. atingido. o
lugar onde o movimento. do.
mudo. devastado. se. acelerasse
em mundo. bem antes do derradeiro
precipício. como se o espaço entre
nós. fosse. tempo. a distância.
a ausência de voz.

p. 175

como se tivéssemos. apenas. o
cheiro do álcool de suas mãos.
essa limpeza brutal daqueles
demônios que não pertencem ao
mundo. aquela limpeza brutal
dos homens que caminham
durante horas sem transpirar.
daqueles que não fumam.
não. bebem. assistem. tudo.
de. olhos abertos. assistem.
de. olhos. nus. o próprio desfazer no tempo.
julgam agradável. o
sentir do desfazimento do
corpo no tempo.

p. 201

se pudesse chamar de
sorte. tenho certeza de
que chamaria de sorte.
foi a mesma perna. a.
mesma. perna. quebrada.
antes. a mesma perna de
minha manca perna. mudez.
se pudesse chamar de
sorte. mudez. chamaria. de
sorte. mudez. ou. morte.

se encerram as notas de Margarida.

estivera eu na sala a entender que a habitação também é uma forma de ausência e que a presença não é apenas fitar nos olhos, mas também um aprendizado do olho e que se as pessoas são presenças que fitam, existe habitação nos cheiros que uma pessoa deixa: o seu café no copo. o seu café feito amanhã, os vapores do banho, os vapores do banho entre hoje e amanhã. os sons que produz (passos, respiração, instrumentos) para que ninguém ouça. eles se oferecem à habitação. o viver junto tem que ver com o fornecimento de disponibilidade a isso: a espectralidade da presença. mas a solidão também é uma espécie de presença, também a tristeza é uma espécie de presença. a diferença entre a espectralidade do amor e a espectralidade da solidão é que na segunda o espectro deixado pelo movimento não é deixado por ninguém. ela não deixa ninguém. não cheira ninguém. não nasce ninguém. não morre ninguém.

se torna claro que o cheiro
do café é melhor do que outros
cheiros pela existência do café.
manhã. após. manhã. após. manhã.
apanha da manhã arrebatadora
de cheiros. apanha na
constelação de cheiros
arrebatadores. arrebatados. ao. dormir.

eis um fio de cabelo na parede, Margarida. não entendo o seu alemão, Margarida. deve ser um alemão menor. meio Kafka. eis um fio de cabelo molhado, Margarida. não deixa de ser bonito que outros bebam que não em sua poesia, Margarida. não deixa de ser bonito e estranho que nas minhas memórias, Margarida. eu não beba leite. mas beba café. sem. leite. Margarida. outros bebem desse leite derramado. não deixa de ser libidinoso. que. se. beba. feito. gato. Margarida. nos seus cabelos de fogo, Margarida. nos seu cabelos de palha, Margarida. a tristeza é uma espécie de presença.

tudo isso que se fez pequeno na
espectralidade da tua presença. era algo do
cheiro. ou algo da textura feita por algo que
era sempre feito na e por causa das
nervuras da tua presença.
aquilo que é excessivamente. pois me diz. excessivamente.
pois. me diz. excessivamente. me. diz. insignificante
para ser notado. equivale a conhecer pouco
a imensa. sutileza. das. coisas. das. das. das.
coisas neutras. em toda parte. sempre.
em toda parte. sempre.
um infinito atual. todo infinito
atual desses cheiros no banho. entorno. entorno.
entorno. da tua presença.

Margarida e seus cabelos de fogo, ouro, palha – adornada que estava pelas luzes cênicas deste belo começo de noite – se referia à possibilidade do amor de maneira demonstrativa, dizia, como cabia, e cabe, cabia, e cabe, aos que cabiam, e cabem: – o amor aniquila a possibilidade de estarmos destituídos de pensamento. porque o amor aniquila. aniquilado.
desilude. desiludido.
enxerga razões acerca das grandezas infinitas.
visto. que. o amor é um tipo de visão. por. certo. que.
o amor. aniquilado. aniquila. é uma espécie de
mudo. o amor. mutismo. mutismo. mutismo.
Margarida ama quando não fala.
ela ama na cadeira. apoiada. de costas. muda.

§

[ ]

naquela guerra
de que me lembro
preto e branco. os
homens morreram
colorido. ( )olorido
( ) ( ).

§

Antes de mim

não entendo por que as canetas acabam antes de mim.

§

Variações sobre um tema de John Cage

( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
( ) ( ) ( )

§

Godard et la poulet (1945)

Em 45, durante um
jogo de futebol em que
atuava como goleiro, Godard
recebeu a notícia do fim da
guerra. O mensageiro gritava
a plenos pulmões. A eloquência
fez com que Godard virasse o
corpo para ouvi-lo e por falha
de atenção levasse um gol.

Freud, instado a analisar o
oportunismo do artilheiro,
aventou que aquilo que
não podemos andando, mancamos
para atingir.

Restou claro que o
oportunismo é um problema
motorzinho.

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