tradução

Severina Comédia

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La Divina Commedia, por Matteo Berton

long story short: durante o processo de expansão e dominação do império romano o latim funcionou, majoritariamente, como uma língua de superstrato, ou seja, como a língua do conquistador, exercendo aquela severa influência na língua (e cultura) dos vencidos e, com isso, ajudando a disseminar toda a carga cultural romana. nada de novo nisso, não é mesmo carmen miranda? a questão é que quando esse processo começa a entrar em declínio, lá no séc. III, logo após atingir sua extensão máxima no século anterior, e o império começa a perder territórios, o latim que até então funcionava como uma importante ferramenta de dominação dos povos também começa, ainda que muito lentamente, um processo seu também de declínio; criando, deste modo, o espaço propício pra que outras línguas, a dos novos conquistadores, neste caso, pudessem vir a atuar como novas línguas de superstrato. mirem o caso da península ibérica, por exemplo: território romano, a ‘hispânia romana’, é dominada pelos visigodos em 507, redominada pelos árabes em 711 e, pouco mais de sete séculos depois, 1492, reconquistada pelos cristãos. salada do caralho.

quando finalmente cai o império romano do ocidente, em 476 d.C., as antigas regiões de domínio romano, agora sob o domínio de outros povos, eslavos e germânicos, por exemplo, já haviam começado o processo de evolução a um estágio entre o latim propriamente dito e o latim em pó, para citar caetano veloso. todavia, é fundamental recordar uma coisa: o latim que passou a enfrentar mais fortemente esse processo de ‘suplantação’ foi, sem dúvida, o latim falado. o latim escrito, ainda que obviamente também suscetível aos mesmo processos de evoluções linguísticas, conseguia resistir como uma espécie de língua franca da cultura, da erudição e das elites. e é preciso, além disso, ter em mente a questões dos latins, ou seja, das variantes da língua. nossas palavras, em boa parte, descendem do primo pobre, do latim vulgar (vide o caso de ‘auris’ [orelha] que no diminutivo era ‘auricula’ e no vulgar virava ‘oricla’. assim fica fácil ver a nossa orelha vindo do populacho).

e é já lá pelo apontamentos do fim da idade média que essas línguas começam a se estruturar, junto com os próprios estados. portugal, por exemplo, no séc. XIII, rompendo com o galego-português e mudando a corte, e o centro de cultura, para o sul, eixo coimbra-lisboa.

é nesse contexto, portanto, bizarramente aqui resumido (prum panorama decente sobre essa questão linguística-histórica da evolução do latim pras línguas românicas, cf., por favor, o livro história concisa da língua portuguesa, de rodrigo tadeu gonçalves & renato miguel basso), que dante alighieri, no começo do séc. XIV, escreveu seu tratado de vulgari eloquentia, i.e., alguns anos antes de começar a divina commedia. ainda que o poeta buscasse identificar uma linguagem que atendesse às exigências de uma língua literária italiana verdadeira, um “ilustre vulgar”, o estabelecimento de um registro que fugisse já das normas intelectuais do latim certamente nos diz muito sobre sua obra. isto é, o interesse do poeta italiano por um registro gentílico, comum, até vulgar que seja, aponta precisamente pra esse turning point da formação das línguas.

sobre o tratado: eis que após tanto pesquisar as línguas que o circundavam, dante chega à inegável conclusão de que a melhor língua era, pasmem, aquela que ele mesmo falava (risos).

mas a questão que se impõe aqui, creio, é de outra ordem: dante fez com o italiano aquilo que camões faria com o português mais de dois séculos depois, i.e., definir as bases de uma língua que estava em processo de formação gramatical escrita a partir da criação de uma obra literária – as primeiras gramáticas do português só sairíam no mesmo século d’os lusíadas. ah, a poesia ajudando as línguas desde sempre (vide a odusia de lívio andronico). ou seja, ainda que todo o peso do gênio criador, do hermetismo e do preciosismo medieval recaiam sobre a obra de dante, não é possível ignorar a escolha política que se une à escolha da língua em que se escreve o poema. a épica de dante se inscreve precisamente num registro que habita o exterior daquilo que então se concebia como ‘língua de erudição’. basta apenas compararmos ao tratado, escrito em latim, que precede temporalmente o poema.

sobre tradução: o corolário de traduções da commedia (que é imenso, diga-se de passagem. clique aqui para ler as já publicadas no blog), de algum modo, costuma trabalhar justamente com o aspecto dantesco do poema, deixando de lado sempre esse aspecto linguístico que julgo um bocado importante. eu, por minha via, concebendo isso, não consigo me furtar a ver certa semelhança vulgar, gentílica & popular entre o poema de dante e, por exemplo, o auto de natal morte e vida severina, de joão cabral. do mesmo modo que maurício mendonça cardozo enxergou na novela der schimmelreiter, de theodor storm, uma abertura rosiana possível, criando seu centauro bronco. a casca pra mim é o tempo, mas o núcleo duro tá lá: o homem lutando contra a aridez de seu ambiente. o cenário frio e úmido do norte da alemanha não é, evidente, o mesmo que o sertão quente e seco brasileiro, contudo o caráter constritivo ronda ambos, assim tanto quanto a questão metafísica. ou: um homem começa à porta do inferno com a morte à ronda e caminha rumo à salvação e ao paraíso; um homem começa no sertão, à beira da morte por fome e sede, e caminha rumo à autosalvação e à possibilidade de vida. é tudo questão de um movimento de abertura das possibilidades de alcançar esse outro, de forçar a conversão da linguagem numa diversão (cf. gontijo, propércio, 2014), numa crise, num overdub, como gosto de chamar. é “dizer de um jeito todo outro, que parece mesmo nem repetir quando bem repete”. haroldo de campos, por exemplo, em seu famoso ensaio deus e o diabo no fausto de goethe, que já no título remete ao cinema de glauber rocha, também acha por bem mudar uma parte da obra do poeta alemão numa dicção cabralina. as possibilidades estão dadas, portanto.

ou seja, dito isto tudo, aquilo que me interessa é precisamente o ‘abrir um novo campo de leitura (ou desleitura) do texto’. em grande parte por esse próprio motivo é que trago apenas uns poucos versos em tradução. não venho propor uma tradução integral nestes modelos senão uma aproximação dialética possível, uma fricção de discursos. e com isso, claro, aceito o risco da conversão a ser feita – que aqui pode ser chamada de tradução, apropriação, mudança, trambique, reescrita, pouco me importa. me interessa, nesse caso, investigar uma possibilidade de desleitura do poema, de um estranhamento na sintaxe e semântica dantesca, na antropologia. nada muito diferente do nosso urubu, eu diria, exceto pela minha diletância.

dito tudo isto, again, cito will ferrell em blades of glory: “no one knows what it means, but it’s provocative“.

sem mais, passemos à tradução.

 

sergio maciel

* * *

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant’è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Io non so ben ridir com’i’ v’intrai,
tant’era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

No meio do caminho de
nossa vida, vejo-me agora
onde o pé se descaminha.
Em certa paragem escura,
de alma e gente vazia.
Eu que do caminho mais certo,
de todos o melhor guia,
pensei jamais me perderia,
tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Como então dizer tais coisas
ora a Vossas Senhorias?
Como contar dessa selva
onde só a treva vejo ativa
e o medo cumpre sua sina?
E pouco mais é a morte
que narrar essa descida,
por isso darei notícia
da sorte que há na vida.
Dizer não sei ora a Vossas
Senhorias como dei
em tais tortas cercanias.
Tanto vencesse a fadiga
que emaranhei todo o fio
de que a estrada fosse a linha.

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poesia, tradução

A Commedia de Dante, por Matheus Mavericco

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Dante e seu poema, afresco de Domenico di Michelino

No geral eu até gosto de fazer introduções, mas como isso daqui vai ficar quilométrico, eu dispenso e parto do princípio que o leitor já saiba o significado de alguns dos segredinhos desse celebérrimo início, por exemplo aquilo do Nel mezzo del cammin significar aproximadamente 35 anos ou então selva oscura simbolicamente remeter à vida humana repleta de pecados, ou que o sol para o povo da Idade Média era planeta etc etc. Caso não saiba de nada disso, você pode acessar o site da universidade de Princeton e se deliciar com o farto material que eles disponibilizam lá: clique aqui.

Meu propósito é o de compilar todas as traduções do início da Divina Comédia que pude encontrar. É um modo de escancarar aquele paradoxo da tradução, qual seja, o de que enquanto os italianos contam com o privilégio de lerem no original, nós contamos com o privilégio de lermos dezenas de versões para aquele mesmo texto. Pois é, quem diria. Só que, ao lado de tantos nomes ilustres, eu resolvi, de maneira muito desbocada, intentar uma versão minha, com o propósito maior de soar diferente, ou seja, tentar chegar a soluções novas acima de tudo no âmbito das rimas, mesmo sabendo, de antemão, que muitas dessas soluções implicariam perdas inevitáveis, visto que a preferência da esmagadora maioria dos tradutores por determinadas soluções rímicas não é gratuita, encontrando, antes, uma real possibilidade lá no próprio original (vide o caso de rimas em “-orte” na segunda e terceira estrofe). Assim, em minha versão, eu fugi do “vida” e fui parar no “existência”, o que é uma mudança e tanto. Do mesmo modo, por necessidade da rima, tive que inverter a ordem dos versos 2 e 3 e transformar a selva oscura numa selva densa (adjetivo que Cristiano Martins usará em sua tradução versos depois), o que é uma perda, naturalmente, pois “densa” não traz a mesma conotação negativa de “escura” (por isso tentei reforçar a ideia com esse “Perdido” dando sopa). Todavia, se assim foi, creio que pelo menos tive um instantezinho de felicidade na hora de transpor aquele travo sonoro que muitos apontam no início do primeiro verso (nostra vita) para o segundo. Um outro exemplo está nos versos 17, 19 e 21, envolvendo uma rima em “-eta”. Aqui eu também segui a maioria, com a diferença de que, invertendo a ordem dos versos 20 e 21, tentei chegar a uma nova solução para o impasse que é justamente chegar a uma rima legal nesse verso 21 (acho “inquieta” muito bom, mas, como dito, eu quis fazer com que a roda girasse).

Enfim. Não vou ficar ensebando demais, mesmo porque nem sempre consegui cumprir o que eu próprio houvera estabelecido ― vide as rimas nos versos 11, 13 e 14, que seguem o “-onto” do original: são casos em que senti que, mudando a rima, me distanciaria demais do original, não conseguindo, portanto, manter essa coisa de apontar uma nova via que fosse minimamente válida. É uma tradução deficiente, a minha, mas eu escolhi incorrer nesse risco, além, é claro, das próprias deficiências que eu mesmo enquanto tradutor possuo. Caso o leitor não goste, ele pode escolher qualquer uma das variadas versões que compilei aqui, com soluções pra tudo quanto é gosto: sejam versões que buscam seguir a microscopia sintática e sonora do original, como a de Vasco Graça Moura, sejam versões que chegam até mesmo a escapar das rimas, como no caso do Barão da Villa Barra (isto é, observe como ele poderia ter rimado com “viva” no verso 27 e, no entanto, escafedeu-se!). Eu só gostaria que iluminássemos com um pouco mais de ênfase a tradução de Luiz Vicente De Simoni, que provavelmente não é do conhecimento de muitos, que, se brincar, ainda acham que o primeiro em solo nacional a traduzir Dante foi Machado de Assis em 1874 (Canto XXV do Inferno). Eu também achava, mas é importante não só notar que Gonçalves Dias possui versões peculiares para alguns Cantos do Purgatório, como também notar, conforme mostrou Pedro Falleiros Heise em sua tese de doutorado (disponível aqui), que o crédito de pioneiro de Dante em solo nacional é todo devido a De Simoni, que fez traduções de outras passagens também (por exemplo o Canto III ― aquele, da plaquinha ―, Francisca de Rímini, Conde Ugolino etc).

Alerto, todavia, que esta não é uma compilação completa. A tradução portuguesa de Fernanda Botelho, publicada num livro que contava com Sophia de Mello Breyner Andresen para o Purgatório, e a tradução de Malba Tahan, em prosa, são alguns exemplos de traduções a que não tive acesso. Não incluí a tradução de Hernâni Donato pois tenho comigo somente a versão plagiada da Nova Cultural (2003), que estampa, na capa, o nome de um tal de Fábio M. Alberti. Não sei como não me livrei desse encosto ainda… (Consciência ambiental, quem sabe?) Enfim. Caso o leitor queira saber mais a respeito desse caso de plágio, é só dar uma pousada no blog da Denise Bottman, clicando especificamente aqui e aqui. O livro Dantesca luso-brasileira, de Giacinto Manuppella (disponível aqui), me foi particularmente útil para a compilação. Agradeço a Luis Fernando Pinheiro, vulgo Calib, por me fornecer a tradução do Barão da Villa Barra.

Na postagem sobre o poema Via, de Carolina Bergvall, feita pelo camarada Adriano Scandolara, é possível encontrar um número bom de traduções para o primeiro terceto, muitas inéditas. A versão de Adriano Scandolara, por exemplo, faz uma interessante homenagem ao Drummond d’A Máquina do Mundo (isto é: a escolha do termo “palmilhado”). Vale a pena conferir.

 

matheus mavericco

§

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant’è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Io non so ben ridir com’i’ v’intrai,
tant’era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

Ma poi ch’i’ fui al piè d’un colle giunto,
là dove terminava quella valle
che m’avea di paura il cor compunto,

guardai in alto, e vidi le sue spalle
vestite già de’ raggi del pianeta
che mena dritto altrui per ogne calle.

Allor fu la paura un poco queta,
che nel lago del cor m’era durata
la notte ch’i’ passai con tanta pieta.

E come quei che con lena affannata,
uscito fuor del pelago a la riva,
si volge a l’acqua perigliosa e guata,

così l’animo mio, ch’ancor fuggiva,
si volse a retro a rimirar lo passo
che non lasciò già mai persona viva.

§

trad. Luiz Vicente De Simoni. [1843]
em: Ramalhete poético. 1843, p. 3-5. Disponível aqui.

No meio do correr da nossa vida
Me achei andando em uma selva escura,
Pois a estrada direita ia perdida.

Dizer qual era, ai quanto é cousa dura,
Esta selva selvagem, aspera e forte,
Que inda na mente o susto me figura!

Tanto custa, que pouco mais é a morte.
Mas, tratando do bem que nella achei,
Direi quanto vi nella de outra sorte.

Eu bem não sei dizer como hi entrei,
Tanto de somno eu ‘stava recheado,
Quando a não falsa via abandonei.

Mas quando ao pé de um morro eu fui chegado,
Onde acabava o valle, que de espanto
Me havia o coração compenetrado;.

Olhei ao alto, e vi seu dorso em manto
De raios do planeta, que direito
Conduz o viajante em qualquer canto.

Então um pouco socegou meu peito
Do susto, que o allagara, e que durado,
Tinha, na noite em que eu me vira estreito.

E como quem com alento anciado
Do pélago sahindo para a riva,
Volve-se, e olha a onda em que hap’rigado:

Assim minha coragem fugitiva
Virou-se para traz, a ver o passo,
Que jámais não deixou pessoa viva.

§

trad. Antonio José Viale. [1883]
em: O sexto canto da Iliada e dous cantos do “Inferno” de Dante. Typographia da Academia, 1853, p. 33-34. Disponível aqui.

Em meio curso da terrena vida
Embrenhado me achei n’uma espessura,
Fóra da estrada recta, e conhecida.

Seria negra e lugubre a pintura
Desta selva tão densa e emmaranhada,
Que renova, ao lembrar, temor, tristura.

Pode á morte no horror ser comparada;
Mas como nella achei algum conforto,
Altas cousas, que vi, dizer me agrada.

Como entrei no caminho errado e torto,
Eu não posso contar, que em tal instante
O somno me vencera: errava absorto.

Cheguei a uma colina não distante,
Do valle no limite derradeiro,
Que me enchera de medo penetrante.

Os olhos êrgo, e do visinho outeiro
Eis que a espalda dourava o grão planeta,
Que mostra a recta senda ao caminheiro.

Então em mim um tanto se aquieta
A tormenta que o susto alevantara,
Na triste noute, em solidão completa.

E como quem, sem fôlego, da amara
Agoa das ondas salvo, a praia alcança,
Os olhos volve ao mar, de que escapara;

Tal meu animo afflicto a vista lança
Para o bosque tão negro e temeroso,
Que tolhe ao coração toda a esperança.

§

trad. Domingos Ennes. [1887]
em: A Divina Comédia, Inferno. Cia Brasil Editora, 1947, p. 8-9.

Em meio do caminho desta vida
Achei-me um dia numa selva escura,
Muito longe da senda já perdida.

Era a selva (di-lo-ei com amargura)
Em excesso pujante erude, e forte;
Tal susto me causou que inda hoje dura!

Mais amarga não é talvez a morte;
Contarei o que vi nela encoberto,
E o grande bem que lá me coube em sorte.

Mas como fui parar a tal deserto
Não sei, ― que o sono me tomou no instante
Em que perdi o trilho bom e certo.

Como visse um oiteiro mais distante,
Onde o medonho vale enfim termina,
Que tanto me aterrou, não fui avante.

Ergui então os olhos à colina:
Co’ os raios se vestia, no seu alto,
Do planeta que os homens ilumina.

Calmou-se um pouco o susto, cujo assalto,
Durante toda a noite de tormento,
Me trouxe o coração em sobressalto.

Como quem ofegante e sem alento,
Sendo tirado da onda que deriva,
Olha da riba o pégo turbulento.

Na mente, naquela hora ainda esquiva,
Entrei a contemplar de novo o espaço
Que não deixou jamais pessoa viva.

§

trad. Barão da Villa Barra. [1888]
em: A Divina Comédia. Pradense, 2010.

Da minha vida em meio do caminho,
Tendo perdido o rumo verdadeiro,
Em uma selva escura dei comigo.

Ah! Como é árduo descrever qual era
Áspera, brava, espessa de tal modo,
Que só a ideia me renova o susto!

Foi tal, que é pouco mais pungente a morte;
Mas por amor do bem aí achado,
narrarei o que mais por mim foi visto.

Não sei dizer como me entrei por ela;
Pois tão tomado então de sono estava,
Que abandonei a senda em que seguia.

De uma colina eu atingira a base,
Onde o seu termo tinha aquele vale,
Que de terror me confrangera o peito.

Notei, alçando os olhos, que a encosta
Já douravam os raios do planeta,
Que a reta estrada a todos indigita.

Serenou-se-me um pouco a atroz procela,
Que no largo do peito a noite inteira
Angustioso sossobro me causara.

O náufrago depois que a praia ganha,
Arquejando, ofegante volve os olhos,
Os transpostos abismos contemplando.

Assim o meu espírito inda esquivo
Pôs-se a mirar de novo aquele passo
Com vida por ninguém jamais vadeado.

§

trad. Xavier Pinheiro. [1888]
em: Divina Comédia, vol. I. W. M. Jackson, 1948, p. 5.

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa.

Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras cousas que vi, direi verdade.

Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
Quando hei o bom caminho abandonado.

Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando,
Que pavor tão profundo me causara.

Ao alto olhei, e já, de luz banhando,
Vi-lhe estar às espaldas o planeta,
Que, certo, em toda parte vai guiando.

Então o assombro um tanto se aquieta,
Que do peito no lago perdurava,
Naquela noite atribulada, inquieta.

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
Olha o mar perigoso em que lutava,

O meu ânimo assim, que treme ansioso,
Volveu-se a remirar vencido o espaço
Que homem vivo jamais passou ditoso.

§

trad. João Trentino Ziller. [1953]
em: Divina Comédia. Ateliê, 2011, p. 82-83.

A meia idade da terrena vida,
perdido achei-me numa selva escura,
a senda certa estando já perdida.

Quanto, dizer qual era, é cousa dura,
esta selva selvagem rude e forte,
que medo infunde à mente mais segura!

Acre é tanto que pouco mais é morte.
Porém das outras cousas falarei,
e o bem direi que nela achei por sorte.

Ignoro como na floresta entrei:
com tanto sono estava em meu roteiro,
que o rumo certo e reto abandonei.

Logo, porém, que ao pé cheguei do outeiro,
onde se acaba o triste vale escuro
que de medo me enchera por inteiro,

a vista ergui e o vi do raio puro
da luz coberto do planeta lindo
que a todos guia com poder seguro.

Do coração o medo ia sumindo,
que pela noite adentro me vencera
e fora minhas forças consumindo.

Qual náufrago, depois de luta fera,
tendo alcançado a suspirada meta,
o mar revolto incerto considera,

assim minh’alma, pensativa, inquieta,
a contemplar virou-se o rude passo
que não deixou jamais pessoa ereta.

§

trad. José V. de Pina Martins. [1972]
em: Dante: Gigantes da Literatura Universal. Editorial Verbo, 1972, p. 57-58.

No meio do caminho desta vida
eu me encontrei por uma selva obscura
porque a direita via era perdida.

Dizer qual era é coisa muito dura
esta selva selvagem, áspera e forte
que só lembrá-la o pavor renova!

Tanto amarga que pouco é mais a morte;
mas para falar do bem que lá encontrei,
de outras coisas direi que descobri.

Não sei contar como é que eu lá entrei,
tão grande sono tinha quando mesmo
o caminho veraz abandonei.

Depois de ter chegado ao pé do outeiro
onde aquele vale escuro terminava
que do medo meu peito compungia,

olhei ao alto e vi sua vertente
vestido já dos raios luminosos
do sol que nos aclara toda a estrada.

Então o medo um pouco se aquietou
que no lago do peito me durara
a noite que passei em tanta dor.

E como quem sem fôlego e com afã
fosse salvo das ondas junto à margem
e olha para o mar que o afrontara,

o meu ânimo assim, que inda fugia,
voltou-se a remirar atrás o espaço
que jamais homem vivo atravessou.

§

trad. Cristiano Martins. [1976]
em: A Divina Comédia, 5ª ed, vol. I. Itatiaia, 1989, p. 101-102.

A meio caminho desta vida
achei-me a errar por uma selva escura,
longe da boa via, então perdida.

Ah! Mostrar qual a vi é empresa dura,
essa selva selvagem, densa e forte,
que ao relembrá-la a mente se tortura!

Ela era amarga, quase como a morte!
Para falar do bem que ali achei,
de outras coisas direi, de vária sorte,

que se passaram. Como entrei, não sei;
era cheio de sono àquele instante
em que da estrada real me desviei.

Chegando ao pé de uma colina, adiante,
lá onde a triste landa era acabada,
que me enchera de horror o peito arfante,

olhei para o alto e vi iluminada
a sua encosta aos raios do planeta
que a todos mostra o rumo em cada estrada.

Um pouco a onda do medo foi quieta
que de meu peito no imo se agitara
durante a noite de aflição secreta.

E como aquele a quem já o sopro para,
saindo da água à praia apetecida,
volta-se, fita o pélago, e repara

― assim, a alma em torpor, naquela lida,
voltei-me a remirar, atrás, o passo
de que jamais saiu alguém com vida.

§

trad. Augusto de Campos. [1986]
em: O Anticrítico. Cia das Letras, 1986, p. 20-23.
depois, o Canto I completo, em Inveção, Arx, 2003, p. 192-193.

No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

Ah, como armar no ar uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?

É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que eu encontrei,
outros dados darei da minha sorte.

Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.

Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,

e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia.

Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;

e como o náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,

o meu ânimo, ainda fugitivo,
voltou a contemplar aquele espaço
que nunca ultrapassou um homem vivo.

§

trad. Vasco Graça Moura. [1995]
em: A Divina Comédia. Landmark, 2005, p. 30-31.

No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida.

Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e forte,
que de temor renova à mente a agrura!

Tão amarga é, que pouco mais é morte;
mas, por tratar do bem que eu nela achei,
direi mais cousas vistas de tal sorte.

Nem saberei dizer como é que entrei,
tão grande era o meu sono no momento
em que a via veraz abandonei.

Mas indo ao pé de um monte com assento
lá onde terminava aquele val’
que o coração me enchera de tormento,

alto lhe vi nos ombros o cendal
vestido já dos raios do planeta
que leva à recta via cada qual.

Então o medo um pouco já se aquieta
que no lago do peito me durava
a noite que passei de pena inquieta.

E como quem a respirar arfava,
escapando do pélago à deriva,
e as águas perigosas remirava,

assim minh’alma, ainda fugitiva,
volveu a olhar atrás aquele passo
em que pessoa alguma ficou viva.

§

trad. Italo Eugenio Maro. [1998]
em: A Divina Comédia. 34, 2009, p. 33-34.

A meio caminhar de nossa vida
fui me encontrar em uma selva escura:
estava a reta minha via perdida.

Ah! que a tarefa de narrar é dura
essa selva selvagem, rude e forte,
que volve o medo à mente que a figura.

De tão amarga, pouco mais lhe é a morte,
mas, pra tratar do bem que enfim lá achei,
direi do mais que me guardava a sorte.

Como lá fui parar dizer não sei;
tão tolhido de sono me encontrava,
que a verdadeira via abandonei.

Mas quando ao pé de um monte eu já chegava,
tendo o fim desse vale à minha frente,
que o coração de medo me cerrava,

olhei pra o alto e vi a sua vertente
vestida já dos raios do planeta
que certo guia por toda estrada a gente.

Tornou-se a minha angústia então mais quieta
que no lago do coração guardava
toda essa noite de pavor repleta.

E como aquele que ofegando vara
o mar bravio e, da praia atingida,
volta-se à onda perigosa, e a encara,

minha mente, nem bem de lá fugida,
voltou-se a remirar o horrendo passo
que pessoa alguma já deixou com vida.

§

trad. Jorge Wanderley. [2004]
em: A Divina Comédia, Inferno. Abril, 2010, p. 47-48.

No meio do caminho desta vida
desencontrei-me numa selva escura
que do rumo direito vi perdida.

Ah, quanto o descrevê-la é empresa dura,
esta selva selvagem, acre e forte
e que o pavor no pensamento apura!

Tal amargor, só há maior na morte.
Mas quanto ao Bem que ali eu encontrei,
outras coisas direi de minha sorte.

Não posso relembrar bem como entrei,
tão sonolento estava, àquele ponto
em que a via veraz abandonei.

Depois, ao pé de uma colina, pronto
surgida onde findava o vale aberto
que o medo ao coração trouxe em confronto,

olhei-a no alto e vi seus ombros, perto,
vestidos já dos raios, luz completa,
do planeta que aponta o rumo certo.

Calmou-se o medo desta noite inquieta
que o lago-coração, quase em trespasse,
guardava e que eu passei, de horror repleta.

E como o que sem fôlego escapasse
do mar à praia e em hora pungitiva
à onda perigosa ainda encarasse,

assim minh’alma, que ia fugitiva,
voltou-se pra trás, olhando o espaço
de onde jamais voltou pessoa viva.

§

trad. Luis Dolhnikoff. [2012]
em: A modernidade de Dante via tradução. Sibila, 2012. Disponível aqui.

No meio do caminho desta vida
Me deparei com uma selva escura
Quando a via correta vi perdida.

Ah, dizer como era, é uma coisa dura,
Essa selva selvagem, rude e forte,
Que recordar renova minha paúra!

Tão amarga, que pouco mais é a morte.
Mas para tratar do bem que encontrei,
Falarei de outras coisas, de outra sorte.

Não sei bem dizer como ali entrei,
Tamanho era o meu sono no trajeto
Em que o caminho certo abandonei.

Após chegar aos pés de um monte perto,
Lá onde terminava essa valada
Que de medo o coração tinha repleto,

Olhei para o alto e vi suas espáduas
Vestidas pelos raios do planeta
Que retos nos conduz em cada estrada.

Então o medo um pouco se aquieta
No meu coração, onde insidiosa
É a noite que passei em tal tormenta.

Como quem, a respiração ansiosa,
Depois que na praia do mar se livra,
Volta-se e olha a água perigosa,

Minha coragem, ainda fugitiva,
Virou-se para olhar aquele passo
Que não deixou jamais pessoa viva.

§

trad. Eugênio Vinci de Moraes. [2016]
em: A Divina Comédia, L&PM. Disponível no preview, aqui.

[1] No meio do caminho desta vida me vi numa selva escura, onde me perdi da verdadeira via. Ah, mas como é duro falar desta selva selvagem, que, só de relembrá-la, traz-me de volta o pavor que lá senti. Tão amarga era que só à morte se compara. Mas para tratar do bem que lá vi, direi de outras coisas que lá encontrei.

[10] Não sei muito bem como entrei, tanto sono eu sentia no ponto onde me perdi do reto caminho. Porém, depois que cheguei ao pé de uma colina, ali onde terminava o vale que havia trespassado de pavor meu coração, olhei para o alto e vi suas encostas já vestidas dos raios do Sol, planeta que guia a todos retamente pelas veredas que trilhamos. Então apaziguou-se o medo que senti, no lago do coração, nessa noite em que passei tão aflito.

[22] E como aquele que, como um náufrago, ofegante, chega à praia e se volta para encarar as águas traiçoeiras, assim minha alma, que ainda se afastava, voltou-se para olhar o lugar do qual homem algum jamais saiu vivo.

§

trad. Matheus Mavericco. [2016]

No meio do caminho da existência,
assim que da direita estrada evado,
perdido achei-me numa selva densa.

Ah, dizer o que era é fardo pesado,
selva selvagem tão rija e severa
que, se o penso, o pavor é reinstaurado!

Um pouco mais é morte, amarga que era;
mas, p’ra que diga o bem que achei ali,
cantarei de outra sorte de matéria.

Não sei bem dizer como eu a invadi,
tamanho sono eu tinha nesse ponto
quando da estrada certa eu me perdi.

Mas, de pé sobre um monte alto, defronto
as fronteiras daquela triste grota
diante da qual então eu me amedronto,

e a luz em seus ombros meu olho nota,
revestindo-os co’os raios do planeta
que guia os outros para a justa rota.

Logo depois meu pânico se aquieta,
e a noite que passei, com tal desgosto,
ao lago de minh’alma ainda afeta.

E como quem, cansado e indisposto,
salvo do pélago ao chegar na areia,
ao mar bravio então revolve o rosto,

a isto meu ser que foge se baseia,
no que retorno a remirar o rumo
no qual, vivo, ninguém jamais passeia.

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poesia, tradução

Um soneto de Dante, por Matheus Mavericco

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Saudação de Beatriz, pintura a óleo de Dante Gabriel Rossetti.

Célebre soneto que, se há trinta e cinco anos era companheiro de vida de Dámaso Alonso (isso numa passagem belíssima logo no início de seu Poesia espanhola), sem exagero nenhum podemos dizer que há séculos é companheiro de qualquer pessoa que se encante por poemas. E olha, falo sem exagero. A humanidade objetivamente se aprimorou depois que um belo dia alguém sentou e, após apagar “Atualmente a tua mente atua ou mente?”, escreveu: “Tanto gentile e tanto onesta pare“. A forma mais límpida que encontrei de homenageá-lo, por tudo o que ele representa, é compilando todas as traduções que conheço dele, o que dá uma postagem e tanto, capaz de incluir, em seu bojo, um rol ilustríssimo de tradutores.

É só bater o olho e reverenciar nomes como Henriqueta Lisboa, Ivo Barroso, Jorge Wanderley, Décio Pignatari, Augusto de Campos. Mais do que um número gordo de versões, existe, aqui, uma verdadeira história. E não só a história de um soneto traduzido por muitos nomes: existe, também, a história de épocas que se entrecruzam e deixam seu legado umas pras outras, o que é facilmente comprovável se compararmos, por exemplo “envolta de modéstia nobre e pura” de Henriqueta Lisboa a “afável na humildade que não muda” de Décio Pignatari. Isso é tão interessante que me faz lembrar, até, de uma passagem do grande Augusto Meyer em que ele comentava esse soneto do Dante e dizia que todos os tradutores sempre caíam no falso cognato de labbia, isto é, parece que é “lábio” mas na verdade é “semblante” (a palavra também aparece no Inferno, XIX, 123, e Purgatório, XIII, 47). Burrice nacional? Comunopetismo? Illuminati? Vamos com calma. Caíram nessa armadilha, mas não incorreram no deslize de achar que piacente se refere a “pia”… Sacou? Uma verdadeira história, eu disse. Pois é.

Quanto ao soneto, aqui o que Dante está fazendo é, basicamente, descrever a impressão imortal que seu encontro com Beatriz lhe causara. E, no caso, que causava nos outros. Diz o poeta, na parte 26 de sua Vida Nova (cito a tradução de Décio Pignatari):

A mais que gentil, a que me referi nas palavras precedentes [adivinha quem é?????], granjeou tanto favor junto ao povo que, quando passava na rua, as pessoas acorriam para vê-la e disto me advinha uma grande alegria. Estivesse ela próxima de alguém, tanta honestidade instilava no coração, que a pessoa não ousava erguer os olhos ou sequer retribuir ao seu cumprimento. Muitos deles, tendo já passado pela experiência, poderiam testemunhar até junto a quem não acreditasse: caminhava coroada e vestida de humildade, sem se vangloriar do que via e ouvia. Diziam alguns, assim que ela passava: “Acho que não é mulher, mas um dos mais belos anjos do céu.” E outros: “Que maravilha! Rendamos graças ao Senhor, que tão prodigioso se mostra em suas ações!” Mostrava-se tão gentil e tão plena de todas as graças, que aqueles que a olhavam sentiam-se invadidos por uma doçura tão pura que não logravam contar o que sentiam. Não havia quem primeiro a visse que não se visse impelido a suspirar. Essas e outras coisas prodigiosas emanavam dela como virtudes. Foi pensado nisso e para retomar o estilo de sua louvação, que me propus dizer palavras nas quais conseguisse infundir quão milagrosos e superiores eram os seus fluidos, de modo que não apenas aqueles que a pudessem ver com sensibilidade, mas também os demais, conseguissem saber dela o que as palavras podem transmitir. Falei, então, neste soneto:
[Dante cita o soneto]
Este soneto é de entendimento tão simples, pelo que foi narrado antes, que não se faz necessária qualquer divisão.

Agora compare isto com aquele papinho moderno de que explicar o poema é estragá-lo. Pois é. Aqui nós notamos bem a vertente biográfica, fantasiosa (sim, fantasiosa, nutrida nas tetas provençais do amor cortês, a não ser que Beatriz fosse realmente uma Margot Robbie da época) e crítica que a Vida Nova de Dante representa (se bem que aqui o Dante tá meio que dizendo: “se depois do que eu disse tu não entendeu, rapaz, vou criar um novo círculo do inferno só pra socar gente burra que nem você”). Eu só tenho a dizer uma coisa: isso de “saber dela o que as palavras podem transmitir”… Sim, Dante. Você conseguiu. Meus parabéns, cara. Tome aqui um biscoito.

Quanto à compilação. Disse que compilei tudo o que consegui. O que consegui. Pois existem traduções às quais não consegui ter acesso. Todas traduções inclusas numa versão integral da Vida Nova. São: a do Padre Vicente Pedroso, da década de 50, publicada pela editora Atena (naquelas edições com a obra completa de Dante, em simpáticos livros em capa dura); a de Carlos Eduardo Soveral, publicada pela Guimarães Editores também na década de 50; e a de Jorge Vaz de Carvalho, publicada pela Relógio d’Água em 2010. (A Dantesca luso-brasileira de Giacinto Manuppella, na página 56, clique aqui, dá notícia de uma tradução de 1942 feita por Sidónio Miguel também.) A data de algumas traduções arroladas não está lá muito certa, de modo que minha disposição na postagem, que buscou ser cronológica, não é ideal. A versão de Vasco Graça Moura, por exemplo, eu não sei nem em que editora foi publicada (retirei-a de uma antologia online chamada Os dias do amor, aqui). A versão de Henriqueta Lisboa, publicada na reunião de sua poesia traduzida pela EdUFMG, não tem indicação de data, de modo que presumo que ela tenha sido realizado na mesma época de suas traduções de alguns Cantos do Purgatório: e por isso década de 60. A versão de Jorge de Sena eu datei como sendo da década de 70 pois foi quando sua coletânea Poesia de 26 séculos começou a ser publicada pela Editorial Inova. A versão de Ivo Barroso, pra ficarmos com um último exemplo, embora tenha sido publicada em sua reunião de traduções esparsas (um simpático livro que deveria ser reeditado!), eu presumo que tenha sido produzida antes, como, de resto, muitas das traduções contidas nesse livro (por exemplo cummings, um dos primeiros que Barroso traduziu, isso nos idos da década de 50, ainda na coluna encabeçada por Mário Faustino).

Minha tradução, espremidinha no meio de tanta gente ilustre, não teve como fito, conforme no geral acontece quando eu faço essas compilações enormes, buscar por soluções distintas, mas, antes, manter as rimas em “-uda” (correspondente perfeito para o “-uta” do original) nos quartetos, à maneira do que Ivo Barroso fizera.

 

matheus mavericco

 

§

trad. Paulo M. Oliveira e Blasio Demetrio. [1937]
em: Vida Nova, Biblioteca Clássica, Volume XX, p. 72.

Tão honesta e gentil, ao nos saudar,
Minha amada aparece em nossa vida,
Que toda bôca treme, emudecida,
E os olhos a não ousam contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
Humildemente, de pudor vestida;
Parece que no céu foi escolhida
Para à terra um milagre revelar.

Tão amável se mostra a quem a mira
Que no peito desperta uma doçura
Que só pode entender quem a conhece;

E dos seus lábios emanar parece
Um espírito cheio de ternura
Que vai dizendo ao coração: “Suspira!”

§

trad. Arduíno Bolívar. [1950]
em: Poesias, W. M. Jackson. Não sei a página. Retirado daqui com informação complementar aqui.

É tão gentil e tão honesto o ar
Da minha Dama, sempre que aparece
E a outrem saúda, que ante ela emudece
Toda língua, e ninguém ousa falar.

Ela se vai sentindo-se louvar,
Vestida de humildade, e até parece
Coisa que lá do Céu à terra desce
A fim de a todos nos maravilhar.

Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.

Parece que do seu lábio se mova
Um suspiro suave, de amor cheio,
Que vai dizendo a toda alma: suspira.

§

trad. José Lourenço de Oliveira. [1956]
em: aqui.

Mostra-se tão gentil e tão honesta
a minha dama, no seu leve andar,
que toda língua cala e em todo olhar
logo se apaga a audácia manifesta.

Benigna e simples, ela segue, a festa
do seu louvor sentindo, ao caminhar.
Parece até milagre que mostrar
acaso o céu quisesse à terra infesta.

Agrada, tanto, vê-la, a quem a mira
e tanto aquece o coração no peito
que só quem prove é quem sabe e entende.

Dos lábios seus macio se desprende,
cheio de amor, um suave alento, um jeito
que, na alma, vai dizendo-nos: suspira!

§

trad. Henriqueta Lisboa. [década de 60?]
em: Poesia traduzida, EdUFMG, 2001, p. 38-39.

Tão discreta e gentil se me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.

Ela se vai sentindo-se louvada
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.

Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal dulçor,
que só quem prova pode compreender.

E assim, parece, o seu semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração: suspira.

§

trad. Jorge de Sena. [1972]
em: aqui.

Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a lí¬ngua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espí¬rito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: ― Suspira.

§

trad. Décio Pignatari. [1990]
em: Retrato do amor quando jovem, Cia das Letras, 2006, p. 60-61.

É tão gentil e de vaidade isenta
a minha dama, quando alguém saúda,
que a língua logo trava, tartamuda,
e a vista na visão não se sustenta.

Quando ela passa entre os louvores, lenta,
afável na humildade que não muda,
lembra coisa do céu vinda em ajuda
de todo aquele que um milagre alenta.

Não há graça maior pra quem a mire:
uma doçura, pelo olhar, vai fundo
― e só quem já sentiu pode dizê-lo.

Velando o seu semblante com desvelo,
um espírito de Amor se mostra ao mundo,
dizendo à alma, devagar: Suspire!

§

trad. Ivo Barroso. [1991?]
em: O torso e o gato, Record, 1991, p. 24-25.

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.

Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.

E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d’alma vai dizer: “Suspira!”

§

trad. Jorge Wanderley. [1996]
em: Lírica, Topbooks, 1996, p. 286-287.

Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar.
Ela se vai, sentindo-se louvar,
mas da própria modéstia tão vestida
que parece milagre, concebida
no céu, para na terra se mostrar.
Tão suave se mostra a quem a admira
que do olho ao peito leva uma doçura
só compreendida por quem dela prova.
E talvez no seu rosto já se mova
o espírito de amor e de brandura
que vai dizendo ao coração: Suspira.

§

trad. Vasco Graça Moura. [anos 2000?]
em: aqui.

Parece tão gentil, tão recatada,
minha senhora quando alguém saúda,
que toda a língua treme e fica muda
e olhá-la até seria ideia ousada.

Quando ela passa, ouvindo-se louvada,
benignamente a humildade a escuda,
tal uma cousa que do céu acuda
à terra, por milagre revelada.

Tal graça ao coração de quem na mira
está pelos olhos uma doçura a pôr
que não pode entender quem a não prove;

e dos lábios parece que se move
um espírito suave e só de amor
que vai dizendo à alma assim: Suspira.

§

trad. Augusto de Campos. [2003]
em: Invenção, Arx, 2003, p. 272-273.

É tão gentil, é tão honesto o olhar
de minha dama quando a alguém saúda
que toda língua treme e fica muda
e os olhos não a ousam contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
benignamente em singelez vestida,
como se fora coisa remetida
do céu para um milagre nos mostrar.

Mostra tanto prazer a quem a mira,
que dá, através dos olhos, um dulçor
que não pode entender quem não o prove,

e de seus lábios como que se move
um espírito suave, todo amor,
que vai dizendo ao coração: suspira.

§

trad. Ferreira Gullar. [2014]
em: O prazer do poema, Edições de Janeiro, 2014, p. 82.

Tão honesta e gentil, até na fala,
é minha amada, quando a alguém saúda,
que toda e qualquer língua fica muda,
e os olhos não se atrevem a contemplar.

Ela assim vai, sentindo-se louvar,
vestida de humildade: de tão linda
lembra um milagre e até parece vinda
do céu para na terra se mostrar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que olhá-la ao coração leva doçura,
mas não pode entendê-lo quem não prova:

e talvez porque em seus lábios se mova
um espírito tão cheio de candura
que vai dizendo ao coração: “Suspira”.

§

trad. Matheus Mavericco. [2016]

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha dama, quando ela saúda,
que toda boca treme e fica muda
e nem o olhar se atreve a contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
trajada de uma singelez que aluda
à coisa que do céu à terra muda
intentando um milagre revelar.

Tão afável se mostra a quem a admira
que pelo olhar faz doce o coração ―
só não entende aquele que não prove.

De seu semblante como que se move
suave sopro pleno de paixão
que vai dizendo à toda alma: Suspira.

 

§

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasisì piacente a chi la mira
chedà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: Sospira.

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crítica, poesia, tradução

Via, de Caroline Bergvall

Caroline_Bergvall

Caroline Bergvall é uma poeta nascida em 1962 na Alemanha, filha de um casal franco-norueguês, e radicada na Inglaterra desde 1989. Como era de se esperar, com um background cultural desses, sua produção se foca em temas como multilinguismo, bem como também feminismo e questões de identidade cultural, muitas vezes trabalhando não só com o texto escrito, mas também performance, poesia sonora e instalações multimídia. Sua instalação Say: ‘Parsley’, por exemplo, tem como foco conflitos entre registros de fala e foi comissionada e exibida pela primeira vez pela Spacex Gallery em Exeter em 2001. Sua obra escrita inclui os livros Strange Passage: A Choral Poem (1993), Goan Atom (2001), Fig (2005) – onde está incluído o texto de Say: ‘Parsley’, junto do texto anglo-francófono “About Face” e do poema “Via”, de que falaremos aqui –, Alyson Singes (2008), uma versão sincrética de inglês moderno com inglês médio do conto da Mulher de Bath de Chaucer, e Meddle English (2010), onde Bergvall dá continuidade a esse trabalho de exploração do inglês médio em contato com o inglês moderno, o francês e o norueguês.

“Via”, em referência ao verso “che la diritta via era smarrita” do primeiro terceto do Inferno, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, é um poema conceitual já bastante notório. Como aponta esse comentário de Genevieve Kaplan na revista Jacket, ele é algo anômalo em Fig, porque é um poema com “cara de poema”, no meio de outros textos poéticos em formatos mais prosaicos e fragmentários. Sua proposta é simples: pegar todas as 47 traduções registradas do Inferno na British Library e transcrever o primeiro terceto de cada uma, com o sobrenome do tradutor e ano de publicação abaixo, organizando-os em ordem alfabética (primeiro uma tradução cujo primeiro verso é “Along the journey of our life half way”, depois outro que começa com “At the midpoint in the journey of our life” e assim por diante). A ideia é algo incomum, mas o efeito é hipnótico, com a figura de Dante constantemente reentrando a e se perdendo na floresta escura, o “sujeito da escrita desaparecendo infinitamente nas palavras de tradutores de Dante”, como diz Marjorie Perloff, em O Gênio Não Original. Continua ela depois:

“Ao organizar as traduções em ordem alfabética (pela primeira letra do primeiro verso, começando com “Along the journey of our life halfway”), ignorando a cronologia e inserindo o nome e a data do autor em parênteses após a citação, Bergvall produziu um texto estarrecedor que demonstra o quanto é impossível – e, no entanto, inevitável – a tarefa da tradução. A selva oscura de Dante é ao mesmo tempo escura [dark], sem sol [sunless], sombria [darkling], tenebrosa [gloomy], grande [great], obscura [obscure], umbrosa [shadowy] e fosca [darksome]; sua via diritta pode ser o caminho mais próximo ou o correto, a estrada direta ou o caminho adequado; essa estrada está smarrita – perdida [lost], bloqueada [blocked], desviada [strayed from], impossível de encontrar [not to be found]. Os tradutores citados variam de poetas famosos do século 19 como Longfellow (1867) a contemporâneos como Robert Pinsky (1994) e inclui tradutores já estabelecidos, de Henry Francis Cary (1805) a Allen Mandelbaum (1980), a figuras obscuras, tais como James Innis Minchin (1885) ou Geoffrey L. Bickersteth (1955). Igualados pelo jogo alfabético e desindividualizados pela omissão do primeiro nome do tradutor, esses tercetos citados (alguns rimados em esquema aba como na terça rima, alguns em verso livre ou prosa) transmitem a genialidade do original, cujas palavras, cada uma delas, encontram ressonâncias com possíveis sentidos mesmo ao produzirem um poema independente escrito num nonsense curioso de “meio de caminho”, variantes de rimas repetidas midway/astray e versos iniciais com “amid”, “in the middle of” e “half-way”, de modo que o badalar dos sons produz um tipo de salmodia, perturbada a cada quatro versos pelo som e imagem discordantes de um nome próprio e data ordinários.”

Ilustração de William Blake para o Canto I

Ilustração do Canto I, por William Blake

 

Para a tradução, Bergvall então cria um problema curioso. Talvez seja possível fazer uma tradução poética, digamos, “normal” de “Via”, se atentando para as diferentes refrações das palavras do italiano na língua inglesa e no modo como dá para reproduzir esse efeito no português sem acabar se prendendo ao original de Dante… o que pode ser particularmente complicado no caso das 17 destas traduções que são rimadas (e um número maior que ainda é metrificado). A coisa da ordem alfabética, porém, seria um problema. No entanto, eu imagino que a graça esteja em refazer o mesmo movimento que Bergvall fez, uma recriação se valendo do mesmo princípio: pegar as traduções disponíveis de Dante para o português (o que, infelizmente, dá um número menor do que 47), transcrevê-las, com sobrenome e data, e dispô-las em ordem alfabética. Foi o que fez, no ano passado, no espanhol, o tradutor Carlos Soto Román para a revista Letras En Línea, cuja tradução pode ser lida clicando aqui.

E isso nos leva a pensar uma questão do conceitualismo que é a sua relação tensa com a possibilidade da tradução. A poesia conceitual, especialmente a do conceitualismo mais de raiz, como praticado por Kenneth Goldsmith, Vanessa Place e outras figuras infames da contemporaneidade, inverte a dinâmica estabelecida por Mallarmé de que poesia se faz com palavras e não com ideias, constituindo uma poética de fato de ideias (mais sobre aqui neste artigo de Archambeau). Na prática, isso significa que, se pensarmos numa dicotomia entre projeto e execução – em que um poeta começa com uma ideia sobre um poema e elabora sobre ela – a poesia moderna mais tradicional, canônica, apesar de vir exigindo cada vez mais originalidade dos projetos (literalmente pode-se dizer que não se faz mais poemas pastorais como antigamente), privilegia a execução (que pode ser mal feita mesmo quando um poeta tem um projeto bom, o que dá sempre aquela sensação horrível de potencial desperdiçado), ao passo que, para a poesia conceitual, a execução (que, como diz Goldsmith, talvez de piada, mas não dá para ter certeza, não é para ser lida) é menos importante do que o projeto – e isso, no limite, faz com que cada poema conceitual seja irrepetível. Você pode escrever um livro inteiro de poemas amorosos, com a variação dos poemas entre si repousando em sua execução, mas não é possível repetir um poema como “Via” e menos ainda um livro absurdo como Traffic, de Goldsmith, porque a novidade por trás da ideia se esgota muito rapidamente. Desse modo, a linha entre tradução e criação (não-)original é cada vez mais borrada, mais ainda do que no caso das traduções “normais” de poesia, porque, ao mesmo tempo em que eu posso apresentar o “meu” “Via” como uma tradução, eu também posso dizer que se trata de um novo poema conceitual em português que segue os mesmos parâmetros, mas envolvendo as traduções de Dante para o português – mais ou menos como eu poderia aproveitar a ideia por trás dos poemas amorosos altamente imagéticos de cummings, por exemplo, para escrever os meus próprios poemas amorosos em português. Talvez seja por isso que Goldsmith tenha dado declarações difíceis de engolir como a de que a tradução está “ultrapassada” e que o “deslocamento” (displacement) é o que deverá tomar o seu lugar (clique aqui). Diz ele:

“A tradução é o grande gesto humanista. Educada e razoável, é uma construtora de pontes exageradamamente cautelosa. Sempre pedindo licença, ela roga por compreensão e amizade. É otimista, porém provisória, apostando as esperanças num resultado harmonioso. No final, sempre fracassa, pois o discurso que propõe acaba sendo inevitavelmente fora de registro; a tradução é uma aproximação do discurso.”

Óbvio que devemos ler as opiniões de Goldsmith com um grão (ou um caminhão) de sal (é difícil não enxergá-lo como um tipo de troll literário, afinal de contas, o que é muito interessante dum ponto de vista bakhtiniano, mas isso é assunto para outra ocasião), e eu inclusive tenho um pé atrás com esse discurso num nível ético, especialmente quando essa empolgação dele pelo modernismo do século XXI me traz flashbacks incômodos de Marinetti. Mas, em todo caso, serve de provocação, e a discussão, creio, há de ser frutífera.

Voltando a Bergvall agora, a “minha” tradução (já explico o porquê das aspas) talvez destoe um pouco da proposta dela. As 47 traduções em “Via” estão todas registradas na British Library, ao passo que, das 16 aqui, 5 são, digamos, extra-oficiais. O trabalho aqui começou com um post nessa famigerada rede social que é o facebook, procurando as traduções disponíveis de Dante (um assunto em que, até então, eu era bastante leigo) e eis que o pessoal se empolgou, e o Guilherme Gontijo Flores, o Rubens Canarim, o Daniel Martineschen e o Ademir Demarchi me mandaram as suas traduções desse primeiro terceto (e eu, por fim, cedi e acabei fazendo a minha também). Como, mesmo assim, ainda estamos desfalcados em número de traduções, achei por bem ir contra a letra do projeto do poema (mas seguindo-o em espírito, porque o que há de mais modernismo-século-XXI do que um poema feito no facebook?) e incluí-las, com um agradecimento aos tradutores e também ao poeta Pádua Fernandes e a Gustavo Petter por terem todos me ajudado a encontrar as edições. A que eu tenho é a do Italo Eugênio Mauro, da editora 34, por isso ela e a tradução em domínio público de Xavier Pinheiro foram o meu ponto de partida, ao qual as outras traduções foram sendo somadas depois. No entanto, eu estou ciente de que não consegui localizar todas as traduções. Falta, por exemplo, a do Barão da Vila da Barra, do século XIX, e também me foram apontados nomes como Yan Dargent, Rui Viana Pereira, Fábio M Alberti, Fernanda Botelho, Sophia de Mello Breyner, Armindo Rodrigues, Teixeira de Aguilar, Cordélia Dias D’Aguiar e Cecilia Casas. Esta tradução, portanto, acaba sem querer confirmando o que disse Goldsmith e sendo provisória, um work-in-progress ao qual todos os leitores do escamandro estão convidados a participar – e que pode muito bem, contrariando o Goldsmith, derivar a sua força dessa situação provisória. E por isso eu hesito em dizer que essa tradução seja minha, o que talvez seja a postura mais adequada dentro do conceitualismo.

O original de Bergvall, que não transcrevo aqui por conta do tamanho, pode ser visto no site da Poetry Foundation, clicando aqui.

Adriano Scandolara

Ilustração do Canto I, por Salvador Dali.

Via

17 Variações de Dante

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita

A Divina Comédia – Pt. 1 Inferno – Canto 1 – (1-3)

1. À meia-idade da terrena vida,
perdido achei-me numa selva escura,
a senda certa estando já perdida
               (Ziller, 1953)
2. A meio caminhar de nossa vida
fui me encontrar em uma selva escura:
estava a reta minha via perdida.
               (Mauro, 1998)
3. Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa.
               (Donato, 1978)
4. Ao meio das quebradas desta vida
Me vi perdido pelo breu das brenhas
Extraviado de qualquer saída.
               (Flores, 2014)
5. Aos meus 35 annos, termo medio commum da nossa vida, dei accordo de mim n’uma selva escura, porque do recto caminho me afastára.
               (Pinto de Campos, 1886)
6. DA nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
               (Pinheiro, 1907)
7. Dos dias no mear desta jornada,
Embrenho-me num verde e negro umbral,
Desvio à via reta, irretornada.
               (Canarim, 2014)
8. Em meio do caminho de nossa vida,
encontrei-me por uma selva escura…
Porque o reto (direito) caminho era perdido
               (Tahan, 1947)
9. Era ao mei’ traçado da nossa vida
que me embrenhei numa quiçaça
que a via destra já se via evadida.
               (Martineschen, 2014)
10. No meio do caminho de nossa vida
encontrei-me numa selva escura
porque me tinha extraviado da via do bem
               (Braga, 1955)
11. No meio do caminho desta vida
desencontrei-me numa selva escura
que do rumo direito vi perdida
               (Wanderley, 2004)
12. No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.
               (Campos, 1986)
13. no meio do caminho e da vida
perdi o amor na selva obscura
errando dor, sem direção e saída
               (Demarchi, 2014)
14. No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida
               (Moura, 2011)
15. Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo.
               (Rocha, 1999)
16. Tendo já meia vida palmilhado,
Numa escura floresta me flagrei,
E da correta via fui desviado
               (Scandolara, 2014)

 

(poema de Caroline Bergvall em cima de Dante Alighieri, em tradução de vários tradutores, organizada por Adriano Scandolara)

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crítica, poesia

poesia e quadrinhos (2 de 2): a visualização

não faço ideia do que outros poetas visualizam na hora de compor seus textos. nunca perguntei. eu, por minha parte, tenho para cada um dos meus trabalhos uma cena muito concreta gravada na memória, um tipo de imagem que traduz toda a situação descrita no poema. por causa disso eu sempre gostei de poemas narrativos, épicos e poemas de situação (uma variação de sitcoms, sit-poems?). passou a ser, desde há muito tempo, quase um método de composição a visualização imagética do texto que vou escrever, e a cada vez que eu releio esse texto, tempos depois, a imagem suscitada na minha mente é exatamente aquela de tempos atrás. o mesmo passa quando eu leio poemas de outros. eu sempre “vejo” a mesma cena. e parando para pensar agora, talvez isso seja uma coisa óbvia que acontece com todo mundo. que seja. é, afinal, o fundamento da ilustração.

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nosso velho conhecido Gustave Doré (1832-1883) nos forneceu alguns dos mais belos exemplos de ilustrações literárias da história do ocidente. de Dantes calamitosos ao papagaio-Corvo de Poe, sua vastíssima (a ponto de ser incrível o tamanho da produção do sujeito) obra nos deu a oportunidade de enxergar alguns poemas de maneira única e especial. torna-se um privilégio ler um poema através dos olhos de Doré. e cada vez mais me encanta o trabalho da ilustração (seja em desenho, gravura ou aquarela) como parceiro da poesia no trabalho de construção de uma obra de arte maior, dialógica, interdisciplinar e, acima de tudo, visualmente e esteticamente interessante.raven17_muttered

porém, como já anunciado várias vezes, esta postagem trata de quadrinhos. Doré foi apenas o exemplo mais clássico e apaixonante do que um ilustrador pode fazer com um material literário. e antes de seguir em frente, há quem argumente a favor da livre imaginação que o poema proporciona, solto das amarras e dos limites impostos pela ilustração (assim como quem viu Harry Potter uma vez e nunca mais conseguiu se livrar das caras hollywoodianas das personagens nas leituras posteriores). acho um argumento bastante válido. no entanto, por mais que minha imaginação seja fértil e gostosinha, não é nem de longe tão bonita como a de Doré.

mas Doré ainda não é o autor dos textos. seria, pois, interessante que tivéssemos acesso à ilustração proporcionada pelo próprio autor. que enxergássemos o texto como o autor o enxerga. García Lorca nos deu um gostinho desse tipo de procedimento em alguns de seus livros (veja aqui e aqui). todos aqui conhecem o trabalho de William Blake tanto como poeta quanto como pintor. também já falei disso ao comentar os Caprichos de Goya. de qualquer modo, estamos divagando no mar das artes clássicas, lugar em que o quadrinho novecentista pouco se insere.

onde então estaria o movimento de enlace entre as duas artes? pouco se sabe. em pesquisa, descobri algumas coisas interessantes, como o trabalho do ilustrador recifense João Lin, que promove a união entre as duas áreas por meio de belas iniciativas como a que se vê no cartaz abaixo. Vale a pena conferir o site: www.joaolin.com.br7257732718_747384941f_z

outra iniciativa surpreendente é a promovida pela editora Vidráguas, com seu projeto PontuAção: Letras em Quadrinhos, que apresentou produções sistemáticas de alunos que desenvolveram simultaneamente textos poéticos e quadrinhos ilustrativos, com um resultado bastante bacana. um exemplo pode ser conferido clicando aqui.

também a argentina Laura Vasquez, formada em jornalismo pela UBA e que trabalha como roteirista e pesquisadora em quadrinhos, publicou algo nesse sentido com seu livro Poemas Ilustrados, cujo gostinho a gente pode ter clicando aqui.

vindo da direção oposta, alguns autores de quadrinhos se aproximaram bastante da mescla entre poesia e ilustração. para nomear apenas uns poucos, trago o infalível mestre Will Eisner, seja com seus próprios roteiros de alta qualidade literária, seja adaptando textos poéticos clássicos:

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cena de A Contract with God

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cena de Hamlet on rooftop

também os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon (http://10paezinhos.blog.uol.com.br/), além de já terem adaptado obras literárias (como O Alenista de Machado), tendem a apresentar textos que se inclinam ao poético, ao reflexivo-existencial:

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e, como último exemplo, trazendo outra adaptação de textos clássicos, um trabalho do qual eu sou fã de carteirinha e que alguns de vocês devem ter conhecido ou eventualmente comprado na livraria, que é a adaptação da Divina Comédia de Dante (é ou não é o rei das adaptações?) feita por Seymour Chwast. se chama A Divina Comédia de Dante, e lá o poeta e Virgílio são transformados em figurões da novela noir, percorrendo o outro mundo de maneira bastante original.

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DIVINA COMEDIA DE DANTE - MIOLO.indd

isso, pra quem não conhece, eu recomendo demais. um trecho da obra em .pdf pode ser lido aqui, cortesia da Cia. das Letras. para quem porventura achar que o negócio é avacalhado demais, digo que vai se surpreender com a fidelidade de Chwast ao texto de Dante, já que mesmo nos momentos paradisíacos mais alucinados existe uma solução visual bacana e bem-humorada (porque, claro, ilustrar o Inferno de maneira bem-humorada é bem fácil).

e chegamos, afinal, ao que eu prometi na postagem anterior. dada a minha inclinação cada vez maior a procurar soluções visuais para os trabalhos poéticos, tornando-os visual e esteticamente mais interessantes, volto a um trabalho que foi apresentado aqui no Escamandro pela primeira vez em 20 de março de 2012, ou seja, há um ano quase redondo. ele pode ser lido aqui, e está contido dentro da série Invisibilidade, cujo nascimento se deu justamente por influência da leitura de obras de Will Eisner. e precisamente por este motivo, sendo a matéria poética dessa série oriunda de um material essencialmente visual do formato de quadrinhos, é que faço o caminho inverso e dou forma ao meu próprio texto, fazendo, como anunciei no primeiro parágrafo desta postagem, com que se visualize a cena que eu mesmo vivia apenas na composição e leitura desse poema. a homenagem visual do estilo, é óbvio, retorna a Eisner.

a parte v da série Invisibilidade, então, se chama A Jóia.

vinicius ferreira barth

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crítica, poesia

poesia e quadrinhos (1 de 2): poetas e poesia como temática

dois são os temas que abordarei nesta e na próxima postagem: parte 1) o poeta e a chacota: alguns exemplos selecionados do personagem-poeta sendo um divertido – e frutífero – motivo de tiração de sarro. parte 2) poesia e ilustração, cadê?: já que, coincidentemente, o último post, que trata de ‘Toda Poesia’ de Leminski, toca nesse assunto no que concerne às notáveis ausências de ‘processos dialógicos’ que tendam a correlacionar a leitura de poesia com outras artes, resultando numa tradição de leitura extremamente tradicional (e entediante, a meu ver), quero desenvolver um pouco mais essa questão.

mas primeiro o que vem primeiro. o poeta como personagem. já que todos sabemos bem o que significam as expressões ‘poeta de guardanapo’, ‘poeta de rua’, ‘poeta de boteco’, ou, para os de Curitiba, ‘poeta do largo da ordem ou da boca maldita’, fiz uma seleção de aparições de poetas e de poesia em histórias em quadrinhos. mais especificamente no formato de tiras. seja você, caro leitor, poeta ou não, considero que seja óbvio perceber a figura do poeta na sociedade atual como uma figura incômoda, deslocada, e em muitas vezes, como veremos abaixo, risível. o véu oitocentista e trágico que ainda paira sobre as cabeças dos versificadores de plantão neste século 21 se assemelha a uma maldição da qual poucos artistas puderam se livrar. o lugar na literatura reservado para a poesia – exemplo visível em qualquer visita a qualquer livraria – é ridiculamente pequeno quando comparado ao espaço de romances, best-sellers e mesmo quadrinhos, cujo mercado vive uma expansão sem precedentes. ser chamado de ‘poeta’ nos tempos de hoje é, eu acredito que exclusivamente, ser relacionado aos significados apresentados acima. a poesia imediata, a poesia do trocadilho barato, a poesia do sem-querer, a poesia ‘cometida’ e a poesia do sentimentalismo (grudento) tendem a acentuar a imagem ridicularizada do aedo contemporâneo. e pior, tendem a eclipsar os trabalhos de qualidade que eventualmente surgem.
e sob essa aura de ‘maldito’, ‘incompreendido’ ou ‘palaciano’ é que o poeta se torna um personagem cômico das construções em quadrinhos de hoje. eu não acho que sejam despropositadas ou ofensivas, mas sim bastante perspicazes em captar uma impressão que é bastante corrente e que nem sempre é tão clara aos próprios bardos imortais. sendo assim, figuras dúbias perante a percepção de uma sociedade imediatista e tecnológica que praticamente não lê poesia, vos deixo na companhia de alguns desenhistas que (nos) deram uma roupagem completamente divertida. ressaltando, claro, que esta é apenas uma seleção bastante breve de materiais aos quais eu tive acesso pela internet. dá pra ir bem longe e já foi feita muita coisa do tipo.
não hesitem em clicar nas imagens para ficar maiorzim.

começando com Laerte (http://manualdominotauro.blogspot.com) posto alguns dos melhores trabalhos que já tocaram no assunto, incluindo a história publicada em ‘Piratas do Tietê’ que traz Fernando Pessoa como personagem principal. destaco também a ‘Divina Comédia’, que é com certeza um dos melhores quadrinhos de paródia que já li:

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Piratas do Tietê

laerte 4

laerte 3

o poeta de Angeli (http://www2.uol.com.br/angeli/), em plenos anos 1980, pasmem, namorou a Rê Bordosa por um tempo (créditos ao grande professor Álvaro Carlini pelo envio das tiras escaneadas). não sei vocês, mas eu já conheci vários desses:

angeli 1

angeli 2

Ricardo Coimbra (http://vidaeobrademimmesmo.blogspot.com) traz um poeta e uma recepção bastante contemporâneos, seja pela indumentária ou pelo resultado da performance:

ricardo coimbra

e, por fim, um exemplo trazido diretamente da Marvel, na ocasião da parceria do Homem-Aranha com o Thor na luta contra os temíveis e horrissonantes Tokkots (Super-Heróis Premium: Homem-Aranha #01, publicado no Brasil pela editora Abril em 1999. perdão pelas reproduções apenas em inglês, minha revista não está ao alcance das mãos agora…). a saber, enfim, o que interessa sobre os Tokkots no momento é que eles falavam somente com rimas, o que fazia com que qualquer conversa com o Thor parecesse um papo super descolado:

tokkots 1

tokkots 2

com que tipo de personagem você, caro leitor, se identifica?
eu, com o Virgílio de Laerte.

no próximo post tratarei do diálogo entre a poesia e os quadrinhos em termos de adaptação, releitura e concretização da imagem sugerida pelo texto poético. como já comentei no início do post, quero discutir um pouco a respeito da completa ausência de movimento dos autores de poesia em direção ao uso do texto impresso como material estético visual (sim, a página visível como obra), bem como para material de base para ilustrações ou adaptações. (no caso, claro, falando de Poesia, já que adaptações literárias em geral já são bastante correntes no mundo dos quadrinhos). para quem se interesse pelo assunto e queira adiantar alguma leitura, já toquei nesse assunto aqui, apresentando uma adaptação em quadrinhos da Ilíada, publicada pela Marvel.

e como cereja do bolo, apresentarei a minha primeira investida nessa nova linguagem, o que representa, para mim, um ‘sopro de ar fresco’ nesse ambiente poético que pode ser, por vezes, bastante empoeirado.

excelsior!

vinicius ferreira barth

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crítica, poesia, tradução

Dos paradoxos da linguagem: 3 poemas

Nós aqui do escamandro costumamos pegar leve com questões teóricas, em parte porque não temos a pretensão de fazer de nosso blog um reduto acadêmico (e, mais do que isso, ficaremos incrivelmente contentes se pudermos contribuir para, na verdade, tirar a poesia um pouco do domínio burocrático e dogmático da academia)… no entanto, dito isso, se há um teórico ao qual eu me vejo sempre retornando, esse seria George Steiner. Apesar de ter seus problemas (e qual teórico não tem?), eu gosto muito de seu livro Depois de Babel (1975), e uma de minhas passagens preferidas (pois o estilo de Steiner envolve longas digressões e erranças pelo texto que fazem com que cada capítulo aborde uma miríade de assuntos) diz respeito ao porquê do hermetismo da poesia moderna. Resumidamente, Steiner comenta como os poetas do final do século XIX/começo do século XX passam a perceber que não podem continuar escrevendo do mesmo modo – um modo claro, segundo Steiner, “confortável com a linguagem” – como se escrevia predominantemente até então, o que se dá por uma série de motivos, dentre os quais está a percepção da falta de sentido da linguagem, que faz com que ela se torne uma prisão. Não é a toa que é mais ou menos nesse período que começamos a ver surgirem as noções de Nietzsche, da língua como formada de “metáforas gastas” (como moedas que perderam a efígie) e, mais tarde, as de Saussure sobre a arbitrariedade do signo.

Mas alguém poderia se perguntar “como assim falta de sentido da linguagem?”… pois bem, evidentemente não é de hoje (nem mesmo do século retrasado) que as pessoas percebem de que nem sempre a linguagem dá conta de exprimir o que se quer exprimir. Dante mesmo, lá no século XIII, apresenta em vários momentos da Comédia trechos sobre como a linguagem humana fracassa diante da tentativa de representar as torturas do inferno e as graças do paraíso. Cito abaixo um desses exemplos dantescos, tirado do Canto XXXII do Inferno, quando Dante e Virgílio adentram o último círculo (onde está Satã), e os horrores vão se tornando impronunciáveis:

Tivesse eu rimas rudes e rouquenhas
que ao fim do fosso só convir presumo,
pra o qual apontam todas as suas penhas,

espremeria de meu conceito o sumo
melhor, mas não as tendo, só com grã
temor, ao meu relato o encargo assumo;

que não é pra quem julgue-a empresa chã
a descrição do fundo do Universo,
nem pra língua que diz papá e mamã.

(vv. 1-9, tradução de Italo Eugenio Mauro)

Mas é com esse momento mais avançado da modernidade (“avançado” aqui no sentido puramente temporal mesmo) que esses problemas passam a representar uma grande preocupação poética.

Poderíamos apontar ainda para as questões dos problemas do discurso ideológico: tanto Steiner quanto o crítico/teórico Terry Eagleton concordam que a linguagem ideológica se vale dessas falhas da linguagem comum do cotidiano para legitimar uma estrutura de poder, e o exemplos que eles dão concernem à polissemia da palavra “liberdade”, que pode significar (e mais do que isso, legitimar) praticamente qualquer coisa, dependendo de quem a enuncia. Outro crítico ainda, chamado Stuart Curran, aponta para o problema do ato de dar nomes, na medida em que nomear é reduzir uma coisa real a uma abstração, e a ideologia novamente extrapola esse ato ao simplificar (muitas vezes grotescamente) o mundo.

Sendo assim, como poder falar do humano, dos problemas humanos, do amor, do sofrimento, da tirania, do espírito, etc, sendo a linguagem tão maculada de mentiras? Novos modos de expressão se fazem necessários, e, embora boa parte da crítica pareça reservar a palavra “hermetismo” para tratar de poetas como Mallarmé e Celan, acredito, com Steiner, que mesmo com poetas contemporâneos que sejam bastante claros em sua dicção, há alguma dificuldade no que ele ou ela quer dizer com aquelas palavras, que é muito diferente do que se tem com uma poesia mais clássica. Uma poesia que se põe contra uma noção de naturalidade da linguagem, justamente por essa naturalidade ser enganosa.

Poderíamos discorrer muito mais sobre isso, mas não planejo fazer deste post um ensaio sobre o tema. Esta é só uma minúscula introdução para dar um pequeno exemplo da recorrência dessa temática em alguns poetas contemporâneos muito distintos, que, espero, mostram como essa questão não é somente uma preocupação teórica.

São eles, em ordem de apresentação aqui: a polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), o carioca Carlito Azevedo (1961) e o alemão Hans Magnus Enzensberger (1929).

(Adriano Scandolara)

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum ser.

Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien. (Poemas, pela Cia das Letras)

*

Agulhas de Amianto

Órion

Órion
desabalada
deixando cair
os pingentes de
sua écharpe
sobre a água
de outra
estrela

Serpente

depois de Sebastião U Leite

O nome
como veneno
e o poema como
antídoto
extraído ao
próprio
nome

O nome

O poema como
uma serpente de bronze
que só não obedece ao próprio
nome (se entre tantos possíveis
dissermos o seu verdadeiro nome
et qui dit amour, dit pistolet
será o fim, o escuro, a
desintegração)

Pirâmide

para Luciana Whitaker

Quando
retiraram o
último bloco de
pedra que a prendia
ao solo a pirâmide
flutuou

Epílogo

“De onde sai o que sei?”
perguntei à cabeça caída
“Daqui”
lábios sem rosto responderam

Carlito Azevedo (Sublunar, pela 7Letras)

*

Razões adicionais para os poetas mentirem

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede.
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

Hans Magnus Enzensberger, tradução de Kurt Scharf & Armindo Trevisan. (Eu falo dos que não falam, editora Brasiliense)

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