Haicai da rã, de Bashô, por Matheus Mavericco

basho_sapo

A internet funciona assim: você está lendo um texto, por exemplo este, clica em dois links, por exemplo esse aqui e esse aqui, e então sua cabeça estoura. Dezenas de traduções, paródias e paráfrases para um poema composto de dez caracteres nipônicos, desses que um tatuador entediado gravaria no seu cóccix em quinze minutos no máximo.

O nome disso, caso alguém repare e resolva perguntar, é haicai, poeminha de três versos na medida certa pra que a gente apoie o rosto na palma da mão. Do ponto de vista formal ele deve contar com um total de dezessete sons para que assim seja declamado de uma só vez, o que, na prática, faz com que seu recorte canônico disponha cinco sílabas no primeiro e no terceiro verso e sete sílabas no segundo, ou, caso queiramos variar a indumentária, quatro no primeiro e no terceiro e seis no segundo.

Para Alice Ruiz, a melhor definição de haicai é aquela que o caracteriza como fotografia em palavras, onde o que se capta é a natureza e não os nossos sentimentos: “O fotógrafo não aparece na foto, mas sua sensibilidade sim.” A comparação com a fotografia também é feita por Masuda Goga, quando diz: “O haicaísta atento capta a instantaneidade, qual apertar o botão da câmera.” Curioso, não acha? Onde está o espaço para o “Eu te gosto, você me gosta” a que se referia Drummond? Seria o caso de dizermos que o haicai é um tipo de poesia concisa a ponto de esquelética, um correlato nipônico para sonetos que cabem numa casca-de-noz?

Não. As origens do haicai remetem ao chamado hokku, estrofe inicial de sequências poéticas escritas em conjunto. A grande questão, todavia, é que o haicai é visto na cultura japonesa como um dos caminhos possíveis para que se possa experimentar o zen. Do mesmo modo que o caminho da espada ou o caminho do chá, a visão de mundo implícita no haicai é arredia aos espalhafatos com que tentamos orná-lo assim que tomamos nota de sua existência.

Estou tentando ser o mais sucinto possível ao explicar o haicai pra vocês, mesmo porque o núcleo daquilo que o haicai é acaba não sendo teoricamente complexo, algo que necessite de notas de rodapé remetendo a um ensaio obscuro do Derrida. O haicaísta… Como dizer? Ele parece entender que não passa de um bicho da terra tão pequeno, e neste sentido é que se vê integrado à natureza quase como um Richard Rasmussen conhecendo o ecossistema de uma floresta com base na consistência da bosta.

Daí que a transitoriedade de todas as coisas (o famoso “tudo passa, meu amigo”) ganha relevo especial para o haicaísta. Quando pigmentos coloridos surgem nos ramos de uma árvore, ele sabe que alguma coisa mudou na paisagem e mudou nele também. Só que ele não quer transmitir essa transformação na carapaça de tudo com base na queima de fogos de artifício. Como dito por Paulo Franchetti, o haicai é, com o mínimo, obter o suficiente.

Veja-se o caso do haicai que ficou conhecido como o “haicai da rã”. Ele é muito simples. Não podemos acusá-lo de simplório pois até hoje o red wheelbarrow do poeta americano (clique aqui) está colocado perto das galinhas brancas. Bashô começa falando de um velho açude, contempla o sapo mergulhando na água e então, após o que chamamos de kireji (ou seja, uma pausa para que o leitor suspire, feche os olhos e prepare o coração), o barulho da água: “mizu no oto”. Note que o sapo, o açude e o universo inteiro desaparecem no terceiro verso, dando lugar apenas àquele tipo de paz interior que sentimos depois de um treino exaustivo quando um chuveiro quente amolece primeiro a cartilagem e só depois a epiderme. É um poema revolucionário para a poesia japonesa.

Isso mesmo, revolucionário. O motivo? José Lira nos responde:

Há muito pouco o que ainda se possa dizer sobre esses três versos. É com certeza um dos mais conhecidos e comentados poemas da literatura japonesa e universal, apesar de não ser talvez o melhor haicai de Bashô: é apenas o haicai que deu início à sua escola, denominada Shomon. Sua fama vem de algo simples: até então, só o canto e nunca o salto era mencionado nos milhares de poemas japoneses sobre a rã. Com esse singelo achado, Bashô mostrou um novo caminho para o haicai: não os devaneios poéticos subjetivos fora do tempo e espaço do mundo real, mas a expressão objetiva do que acontece aqui e agora. Um tanque. Uma rã. Um som. Milhares de pessoas já fizeram arranjos de todo tipo para essa sequência de palavras. O poema mais traduzido do mundo na verdade não é o “soneto de Arvers”, mas o “haicai de Bashô”. Uma de minhas muitas versões anteriores era mais formal e explicativa: “Barulho d’água: / Uma rã mergulhando / No velho tanque”. Mas há uma característica neste haicai que se torna evidente em qualquer tentativa de tradução: trata-se de um texto “enfileirado”, como se os versos estivessem justapostos uns sobre os outros, como se pode ver na tradução italiana de Irene Starace: Antico stagno. / Una rana si tuffa. / Suono d’acqua. (“Velha lagoa. / Uma rã mergulha. /Som d’água”) ou na versão em espanhol de Alberto Silva: La vieja charca / Zambullón de una rana / Ruido del agua” (“A velha lagoa / Mergulho de uma rã / Barulho da água”). Os exemplos são muitos. Roland Barthes, numa de suas “definições definitivas”, diz que este haicai é “um desenho silogístico em três tempos”.

Vem de onde a citação? Oh, sim. Surpresa.

É o seguinte. Não seria ótimo se os haicais completos de um autor tão importante e deslumbrante como Matsuo Bashô estivessem disponíveis para nós, leitores brasileiros, ávidos por boa poesia, assolados por um contexto político tão mesquinho? Mas é claro que seria ótimo, você me responde. Os portugueses, graças ao trabalho recente de Joaquim M. Palma, já sabem bem o que é isso…

Pois então. José Lira, conhecido por ter nos empanturrado com Emily Dickinson, atendeu a nosso pedido e publicou este ano uma tradução para todos os 1010 haicais de Bashô. E sabe qual a melhor parte? Você pode adquirir, do conforto de sua casa, sentado aí na poltrona saboreando uma cerveja em lata, esse livro pelo preço promocional (mentira, o preço de capa é esse mesmo) de 50 reais. Eu repito: cinquenta reais! Tudo o que precisa fazer é entrar em contato com o tradutor, que, em decorrência de infelizes impasses mercadológicos, está tendo de comercializar a edição por conta própria:

jlirabr@yahoo.com.br

Mas calma que não acabou. Ainda tem muito cepo de madeira pra gente brincar. Existem inúmeras traduções desse haicai, como você pode ter visto nos links mais acima, e, pelo fato de que aqui na escamandro a gente gosta de esbanjar, então penso que juntos poderíamos aumentar isso daí. Que tal mexermos o esqueleto?

Faço aqui uma singela compilação de traduções para o haicai a partir da listagem feita pelo Grêmio Caqui, dando entretanto preferência àquelas assinadas por grandes nomes, muito para que o leitor se sinta em boa companhia e quem sabe empolgue um pouco. A tradução literal dos três versos, também conforme o Grêmio, é:

O velho tanque
Uma rã salta
Barulho de água

Minha única contribuição é a de trazer para os amigos uma versãozinha de minha lavra, onde me valho da estrutura rímica do chamado “haicai guilhermino”, ou seja, um modelo de haicai que veste a roupagem carnavalesca (basta notar a rima interna no segundo verso) dada pelo poeta paulista Guilherme de Almeida. Além dela, trago a adaptação feita por meu camarada Pedro Mohallem, que, a meu ver, é sem dúvidas uma das melhores já feitas para o poema.

E sabe por quê? É simples: lembra que, conforme nosso amigo José Lira, o original de Bashô se notabilizou pelo fato de que falou não do canto do sapo mas sim de seu salto? Pois então. Agora pense num sabiá. Todo mundo já deve ter ouvido o poeta romântico buzinar no ouvido que é nas palmeiras que ele canta. Pois então. O Pedro, aqui, segue o mesmo espírito: ao invés de falar do canto da ave, ele fala do salto em folhas secas. E sim, sim, veja só o quão cuidadoso ele foi: até mesmo a sugestão de uma época do ano, o chamado kigô, foi mantido pelo Pedro, agora, todavia, mudando a época do ano do original nipônico de primavera para outono. É também um detalhe importante, pois, como dito, se o haicaísta abraça a transitoriedade do mundo, se ele se integra à natureza, então quase que por definição ele não tem como não notar o impacto que a mudança das estações causa na paisagem. Elas são, ora essa, a mudança mais profunda que a natureza carrega em seu íntimo!…

Pois bem. É isso. Conto com sua participação. Sei que você sempre quis traduzir esse haicai. É a sua chance. Já tem a tradução literal prontinha pra te guiar. A única coisa que aponto, à guisa de conclusão, é para “oto” aí no final. A palavra guarda consigo uma sementinha onomatopaica, não à maneira de um estrepitoso tibum! mas algo mais singelo, uma pedrinha jogada por uma criança desocupada, a língua em formato de concha de um cão tamborilando na água ou um sapo que mergulha na eternidade.

 

matheus mavericco

* * *

 

Furu ike ya / kawazu tobikomu / mizu no oto
古池 蛙飛び込む 水の音

§

Uma rã pula,
Vai ter na velha cisterna –
A água ondula.

(trad. eu)

§

Ipê desflorido
Sabiá desce do galho
Som de folhas secas.

(adaptação de Pedro Mohallem)

§

O velho tanque:
O mergulho da rã
Barulho d´água

(trad. José Lira)

§

salta a rã
para dentro do velho tanque–
plof!

(trad. Joaquim M. Palma)

§

VELHO LAGO
MERGULHA A RÃ
FRAGOR D’ÁGUA

(trad. Alberto Marsicano)

§

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.

(trad. Cecília Meireles)

§

chuá, chuá
coach, coach
tchibum!

(trad. Estrela Leminski)

§

Ah! o antigo açude!
E quando uma rã mergulha,
o marulho da água.

(trad. Guilherme de Almeida)

§

Quebrando o silêncio
de charco antigo, a rã salta
na água, ressoar fundo.

(trad. Jorge de Sena)

§

Sem título

§

 

Sem título

§

haikai basho - haroldeiras

(trad. Haroldo de Campos)

§

velha lagoa
o sapo salta
o som da água

(trad. Paulo Leminski)

§

MALLARMÉ BASHÔ

um salto de sapo
jamais abolirá
o velho poço

(Paulo Leminski)

§

haikai basho - josely

(trad. Josely Vianna Baptista)

§

Nem grilo, grito, ou galope;
No silêncio imenso
Só uma rã mergulha – plóóp!

(trad. Millôr Fernandes)

§

águas paradas
mal pula a rã se inundam
de ondas sonoras

(trad. Nelson Ascher)

§

Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.

(trad. Olga Savary)

§

Ah, o velho lago.
De repente a rã no ar
e o baque na água.

(trad. Olga Savary)

§

O velho tanque –
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

(trad. Paulo Franchetti e Elza Doi)

§

Um velho tanque:
salta uma rã zás!
esquichadelas.

(trad. Sebastião Uchoa Leite, via Octavio Paz)

§

Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada…

(trad. Wenceslau de Moraes)

A minha última duquesa – Robert Browning

Agnolo_Bronzino_-_Ritratto_di_Lucrezia_de_Medici
Agnolo Bronzino – Ritratto de Lucrezia (di Cosimo) de’ Medici (1559)

Num momento anterior fiz uma postagem aqui no escamandro sobre um poema chamado “O amante de Porfíria”, do poeta vitoriano Robert Browning, em tradução minha (clique aqui). Na ocasião, mencionei a existência de um volume de traduções já para o português de alguns dos seus monólogos dramáticos, vertida por João Almeida Flor – uma edição, no entanto, infelizmente rara. Mas, por sorte, graças ao Flávio Penteado, um estudioso da poesia de Pessoa que esteve há pouco em Lisboa (agradeço enormemente, Flávio!), eu tive acesso ao volume e gostaria de compartilhar uma de suas traduções aqui.

O Monólogos Dramáticos (publicado em 1980 pela editora A Regra do Jogo) conta com 12 poemas, a saber: “O amante de Porfíria”, “A minha última duquesa (Ferrara)”, “Pictor ignotus (Florença 15 – )”, “O bispo encomenda o seu túmulo na igreja de Santa Praxedes”, “Confessionário (Espanha)”, “Evelyn Hope”, “Mulher fácil”, “Uma tocata de Galuppi”, “A nossa última cavalgada”, “Na opinião de um contemporâneo”, “Na Campagna a dois” e “Prospice”. Não parece ser muita coisa, mas, como é uma edição bilíngue e os poemas são longos, chega fácil a 91 páginas. O método de tradução usado por Almeida Flor é orientado mais pela semântica, optando pelo verso livre no lugar do metro e da rima. Não é o nosso modus operandi mais típico no escamandro (eu arriscaria dizer que me parece também que é mais comum esse tipo de tradução de poesia em Portugal do que no Brasil, mas não posso afirmar isso com muita certeza), e eu também acredito que as diferenças entre o português brasileiro e lusitano hão de dificultar um pouco uma avaliação mais razoável da minha parte. Em todo caso, é um trabalho ainda assim muito digno de atenção.

Este poema, “My last duchess”, é mais uma vez um monólogo na voz de um homem frio e cruel, como era o amante-assassino de Porfíria, mas desta vez a figura é um pouco mais próxima da vida real: é reconhecido que se trata de uma representação de Alfonso II d’Este, duque de Ferrara (1533–1598). Sua “última duquesa”, a quem o poema alude, foi Lucrécia de Médici, com quem ele se casou quando ela tinha apenas 14 anos (e ele, 25) e que morreu aos 17, possivelmente de tuberculose – mas dizem as más línguas que ela poderia ter sido envenenada, o que deixa a situação toda ainda mais sinistra, especialmente quando se considera que ele teria desprezo pela esposa (sua família não tinha toda a tradição dos “novecentos anos” do nome dos Este) e que os dois teriam se casado só pelo dote. O pano de fundo do poema é que o Duque está para desposar uma nova mulher (anos depois da morte de Lucrécia, Alfonso casou-se com a filha de Ferdinando I, conde de Tirol), por isso recebe o emissário da sua família e o acompanha num tour pelo seu palácio, quando ele abre uma cortina para mostrar o retrato de Lucrécia e começa a falar dela, a princípio num tom algo neutro, mas que logo dá lugar ao ressentimento por causa dos modos da dama: “Oh senhor ela sorria sem dúvida / quando eu passava à sua beira mas a quem / não concedia ela igual sorriso?” O duque possessivo se sente agravado pelo humor jovial da duquesa e pela facilidade com a qual ela distribuía sua afeição por aí, e agora que ela está morta e só lhe resta a representação na parede, ele aproveita para exercer uma última demonstração de dominação e poder que é sobre a cortina que a oculta (“pois ninguém corre / a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu”), de modo que agora ela só pode sorrir para ele.

É doentio, sinistro e ao mesmo tempo patético. E a frivolidade com a qual o poema termina, com o duque prosseguindo no tour pelo palácio e demonstrando outros objetos de decoração, só reforça essa sensação. Não por acaso é também um dos monólogos mais famosos do autor. A inspiração para o poema, com a sua temática italiana, veio enquanto Browning pesquisava e reunia material para o seu longo poema narrativo Sordello (1840), sobre o trovador lombardo homônimo do século XIII. “A minha última duquesa” foi a princípio publicado em conjunto com outro monólogo dramático, chamado “Count Gismond”, que, com sua inspiração mais francesa (os dois poemas faziam parte de uma seção intitulada “Italy and France”), lhe serve de contraponto – mas, infelizmente,  “Count Gismond” não consta em Monólogos Dramáticos e, até onde tenho notícias, ainda não foi traduzido.

Atualização: quando fiz essa postagem inicialmente, a intenção era demonstrar o trabalho de tradução de João Almeida Flor, ilustrando com o que deve ser o poema mais marcante dos selecionados para o Monólogos Dramáticos. Mas acabei esquecendo na hora que havia uma outra tradução, esta em português brasileiro, feita pelo Décio Pignatari e presente em seu famoso volume 31 poetas 214 poemas, tal como o Flávio me chamou a atenção também. Para propósitos de comparação, então, compartilho agora, junto da tradução de Almeida Flor, a de Pignatari, ilustrando sobretudo as diferenças de projeto tradutório.

Adriano Scandolara

 

A Minha Última Duquesa

(Ferrara)

Aquela é a minha última Duquesa pintada na parede,
parece mesmo que está viva. Agora considero
aquela peça um encanto; as mãos de Fra Pandolfo
trabalharam um dia diligentes e ali está ela.
Não quer sentar-se a contemplá-la? Eu disse
Fra Pandolfo de propósito, pois nunca
estranhos como o senhor fitaram aquele semblante
com a profundidade e a paixão do seu olhar sincero
que não se voltassem para mim (pois ninguém corre
a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu)
parecendo perguntar-me, se a tanto ousassem,
como é que um olhar assim ali se oculta; por isso não é
o senhor o primeiro a voltar-se e a perguntar. Não foi, senhor,
só a presença do marido    que deu aquele esplendor
às faces da Duquesa. É provável que
Fra Pandolfo tivesse dito por acaso «Esse manto
encobre demasiado o vosso pulso, senhora» ou «As tintas
nunca podem imitar o suave rubor
que se esbate ao longo do pescoço» – coisas assim
eram favores, pensava ela, e motivo bastante
para despertar aquele rubor de alegria. Ela tinha
um coração – como direi? – que depressa exultava
impressionável facilmente; ela gostava de tudo
quanto via e o seu olhar tudo alcançava.
Senhor, tudo era igual! Os meus favores no seu regaço,
a luz do dia declinando no poente,
o ramo de cerejeira que um louco solícito
apanhava no pomar, e a mula branca
que ela montava à volta do terraço – tudo e cada coisa
lhe merecia as mesmas palavras satisfeitas
ou um rubor ao menos. Ela agradecia às pessoas – bom! mas
de um modo – não sei bem como – como se atribuísse
à dádiva do meu nome quase milenário
o mesmo valor de qualquer outra coisa. Quem iria censurar
coisas sem importância como estas? Mesmo se tivesse jeito
para falar (e não tenho) explicando claramente
o que se espera de uma pessao assim e dissesse «É isto
ou aquilo que em ti me desagrada; aqui pecas por defeito
além por excesso» e se ela se deixasse ensinar
deste modo sem frontalmente
opor sua vontade, pedindo até desculpa,
mesmo assim seria humilhante. E eu não quero nunca
humilhar-me. Oh senhor ela sorria sem dúvida
quando eu passava à sua beira mas a quem
não concedia ela igual sorriso? A coisa tomou vulto. Dei ordens.
Sumiram-se os sorrisos. Ali está ela
como se estivesse viva. Não quer levantar-se. Vamos
ao encontro das pessoas lá a baixo. Repito:
a conhecida generosidade do Conde, vosso amo,
é garantia de serem satisfeitas minhas justas pretensões
em matéria de dote.
Embora, como disse a princípio, o meu interesse
seja a filha dele que é linda. Não. Desceremos,
senhor, os dois juntos. Mas repare naquele Neptuno
domando um cavalo marinho (uma raridade, dizem)
que eu, a Claus de Innsbruck, mandei fundir em bronze.

(tradução de João Almeida Flor)

 

Minha Última Duquesa

Ali está a minha última duquesa
Na parede. Parece viva. Que beleza
De obra! Fra Pandolfo não poupou esforço
E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.
Você não quer sentar-se para ver melhor?
Não por acaso mencionei o seu pintor,
Pois não costumo a estranhos olhos desvelar
A profundeza da paixão que há nesse olhar,
Que só a mim é dirigido (pois só eu
Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,
Que quem a vê logo se indaga: de onde veio
Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,
É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,
A presença do esposo é pouco para a mente
Que procura a razão daquela mancha rosa
De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,
Talvez, de Fra Pandolfo. “Eu acho que o seu manto
Cobre demais o seu pulso”, ou: “Não pode tanto
A arte, não, reproduzir não pode o leve
Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.
Galanteria cortês, não mais – o suficiente
Para fazer brilhar um rosto, de repente.
Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto
Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,
O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia
Entre gozar das graças que eu lhe concedia,
O declínio da luz ao sol poente, o ramo
De cerejas que um bobo serviçal do amo
Lhe oferecia, a mula branca que montava
Pela terraça, a rir – a tudo ela igualava
Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.
Que agradecesse, tudo bem – mas é somenos
Equiparar o dom dos novecentos anos
Do meu nome a presentes sem nome? Até planos
De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom
Da palavra me falta… E como, alto e bom som,
Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude
Me desagrada, passou do ponto, mude”?
Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,
Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.
Claro, meu caro, de passagem, um sorriso
Ela me dava – mas a quem não dava? Aviso
Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,
Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…
Nesse retrato, agora, ela parece viva…
Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva
Nos aguarda. Repito: a generosidade
Do conde, seu senhor, sem dúvida há de
Saber pesar a minha justa pretensão
Ao dote da menina, a cujas graças vão
Os meus melhores sentimentos. De passagem,
Olhe essa peça de escassíssima tiragem:
É um bronze de Netuno domando um delfim,
Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.

 

My last Duchess

(Ferrara)

That’s my last Duchess painted on the wall,
Looking as if she were alive. I call
That piece a wonder, now: Fra Pandolf’s hands
Worked busily a day, and there she stands.
Will’t please you sit and look at her? I said
“Fra Pandolf” by design, for never read
Strangers like you that pictured countenance,
The depth and passion of its earnest glance,
But to myself they turned (since none puts by
The curtain I have drawn for you, but I)
And seemed as they would ask me, if they durst,
How such a glance came there; so, not the first
Are you to turn and ask thus. Sir, ’twas not
Her husband’s presence only, called that spot
Of joy into the Duchess’ cheek: perhaps
Fra Pandolf chanced to say “Her mantle laps
Over my lady’s wrist too much,” or “Paint
Must never hope to reproduce the faint
Half-flush that dies along her throat”: such stuff
Was courtesy, she thought, and cause enough
For calling up that spot of joy. She had
A heart—how shall I say?—too soon made glad,
Too easily impressed; she liked whate’er
She looked on, and her looks went everywhere.
Sir, ’twas all one! My favour at her breast,
The dropping of the daylight in the West,
The bough of cherries some officious fool
Broke in the orchard for her, the white mule
She rode with round the terrace—all and each
Would draw from her alike the approving speech,
Or blush, at least. She thanked men,—good! but thanked
Somehow—I know not how—as if she ranked
My gift of a nine-hundred-years-old name
With anybody’s gift. Who’d stoop to blame
This sort of trifling? Even had you skill
In speech—(which I have not)—to make your will
Quite clear to such an one, and say, “Just this
Or that in you disgusts me; here you miss,
Or there exceed the mark”—and if she let
Herself be lessoned so, nor plainly set
Her wits to yours, forsooth, and made excuse,
—E’en then would be some stooping; and I choose
Never to stoop. Oh sir, she smiled, no doubt,
Whene’er I passed her; but who passed without
Much the same smile? This grew; I gave commands;
Then all smiles stopped together. There she stands
As if alive. Will’t please you rise? We’ll meet
The company below, then. I repeat,
The Count your master’s known munificence
Is ample warrant that no just pretence
Of mine for dowry will be disallowed;
Though his fair daughter’s self, as I avowed
At starting, is my object. Nay, we’ll go
Together down, sir. Notice Neptune, though,
Taming a sea-horse, thought a rarity,
Which Claus of Innsbruck cast in bronze for me!

(Robert Browning, tradução de João Almeida Flor)

A tarde de um fauno

Nadar-MallarméStéphane Mallarmé (1842 – 1898) dispensa apresentações. Imagino que quase todo poeta moderno, se lhe fosse dada a oportunidade, trocaria sua própria obra inteira pela chance de ter escrito o Un coup de dés. E, mesmo que Mallarmé nunca tivesse escrito o Un coup de dés, como ele também nunca conseguiu concluir Le Livre, sua ambiciosa grande obra total (o livro em que o mundo inteiro foi feito para acabar), os poemas escritos antes já seriam o suficiente para fazer dele, senão O Mallarmé que conhecemos hoje, pelo menos o mais influente dos simbolistas, ainda assim. E a sua obra não é das mais extensas: além dos poemas breves famosos como “Salut”, “Ses purs ongles”, “Brise marine” e os “Tombeaux”, sobre os quais Mallarmé se debruçou e reescreveu a vida inteira, ela inclui alguns experimentos com prosa (ou prosa poética, melhor dizendo, dentre os quais destaca-se o enigmático conto Igitur), dois longos poemas deixados inacabados – “Herodiade”, sobre a figura bíblica de Salomé, e “Pour un tombeau d’Anatole”, um poema sobre a morte de seu filho Anatole, que morreu aos oito anos de idade – e L’après-midi d’un faune.

Com 110 versos em dísticos de alexandrinos rimados, L’après-midi é provavelmente o poema simbolista por excelência, descrevendo em forma de monólogo, numa vagueza sugestiva, os delírios sensuais de um fauno que acorda de sua sesta para perseguir ninfas (ou para se lembrar de encontros anteriores com ninfas… fica meio ambíguo no texto), como era típico da disposição desses seres mitológicos. Publicado pela primeira vez em 1876, ele serviu de inspiração para o compositor Claude Debussy compor o influente poema sinfônico Prélude à L’après-midi d’un faune (1894), que, apesar de não utilizar o poema como letra (trata-se de uma peça puramente orquestral, afinal de contas), tem o tom, as imagens e a ambientação geral dos versos de Mallarmé como referência. Se é verdade que os poetas do período se esforçaram para tentar aproximar a poesia da música, inspirados sobretudo em Wagner e o seu uso do leitmotiv (compositor do qual Debussy se esforçou para se afastar e que foi muito influente para escritores como Villiers de L’Isle-Adam, autor de Äxel, e Édouard Dujardin, do Les lauriers sont coupés),  um movimento semelhante, mas na via contrária (visando aproximar a música do poético), também pode ser observado em Debussy – é só prestar atenção nessa flautinha sugestiva e sem vergonha que abre a peça e cuja frase musical é repetida algumas vezes depois ao longo dos seus 10, 11, 12 minutos (a duração depende da interpretação). Aliás, recomendo seriamente que se escute ao Prélude para a leitura desta postagem, aqui regido por Leonard Bernstein:

Nijinsky-FauneMais tarde, em 1912 (alguns anos após a morte de Mallarmé, infelizmente), Vaslav Nijinsky aproveitou o Prélude de Debussy, então, para compor um balé intitulado L’après-midi d’un faune, em que ele mesmo fez o papel do Fauno. Nijinsky, lembremos, foi também o coreógrafo e bailarino responsável pelo espetáculo polêmico da Sagração da Primavera de Stravinsky, em 1913, e à época o L’après-midi foi quase tão polêmico quanto. Estamos aqui cada vez mais próximos da arte moderna tal como a conhecemos.

Mas voltemos ao poema.

A tradução que eu apresento a vocês agora (muito que eu queria poder apresentar uma tradução minha, mas hélas, no momento o tempo não me permite) é a de Décio Pignatari presente no volume Mallarmé, organizado por ele e pelos irmãos Campos e publicado pela primeira vez em 1978. A tradução do Décio é, famosamente, no entanto, não apenas uma tradução mas uma tridução, um trabalho triplo em que, para cada verso, Décio propõe três possibilidades diferentes. Por exemplo, para os três versos iniciais:

Ces nymphes, je les veux perpétuer.
                                                          Si clair,
Leur incarnat léger qu’il voltige dans l’air
Assoupi de sommeils touffus.
                                                 Aimai-je un rêve ?

Temos:

Quero perpetuar essas ninfas.
                                                 Tão claro
Essas ninfas eu quero eternizar.
                                                 Tão leve
Vou perpematar essas ninfas.
                                                 É tão claro
É o rodopio de carnes, que ele gira no ar
É a sua carnação, que ela gira no ar
Seu ligeiro encarnado a voltear no ar
Entorpecido de pesados sonos.
                                                 Sonho?
Sonolento de sonhos e arbustos.
                                                 Foi sonho?
Espesso de mormaço e sonos.
                                                 Sonhei ou…?

E assim por diante. É um trabalho impressionante, ainda que algumas escolhas não sejam ideais (“perpematar”, por exemplo, tenta manter e destacar um “tuer” (matar) em “perpétuer”, mas não consigo deixar de sentir que seja uma palavra, bem, feia, especialmente para se abrir um poema). No entanto, porque ele trabalha com três perspectivas de uma vez sobre o poema – e lembremos que todo poema comporta em si uma potencialidade quase inesgotável de traduções possíveis, como na metáfora da foto de uma estátua, como bem o disse o Gontijo anteriormente (no post sobre os carrinhos de mão de Williams, clicando aqui) – , Pignatari pode nos evidenciar muitas coisas que uma tradução mais normal não poderia, especialmente no tocante a esses jogos de palavras tão comuns na língua francesa. Além do mais, temos não bem três traduções do poema, mas três traduções individuais possíveis para cada verso (e, compreensivelmente, para isso Décio precisou abrir mão das rimas sistemáticas), o que, quando se faz a conta, dá bem mais do que 3 traduções. Se voltarmos a esses 3 primeiros versos de abertura, observamos como eles podem ser combinados livremente, de modo que 3x3x3 nos dá 27 combinações, se a minha matemática não me falha. Aplicando a análise combinatória para o poema inteiro, então, com 110 versos, temos ao todo 3^110 possibilidades de traduções, um número com mais de 50 zeros – ou, na prática, um pouco menos, já que há alguns trechos em que essa liberdade combinatória é um tanto cerceada pela necessidade da continuidade da frase sintática, mas são poucos.

Pensando nisso, portanto, e no quanto é um pouco desorientante fazer a leitura dessa tridução nas páginas do Mallarmé, visto que os versos ficam constantemente começando e recomeçando e medindo e remedindo (com um efeito mais ou menos semelhante com o de se ler o poema conceitual “Via”, de Caroline Bergvall (clique aqui), que faz algo parecido com o primeiro terceto da Divina Comédia) e destruindo a linearidade da leitura, eu decidi cometer uma heresia e fazer a minha própria seleção da tridução de Décio (livremente combinada, como vocês podem ver) para transcrevê-la e compartilhá-la aqui com vocês, destacando apenas uma das 3^110 possibilidades de tradução, a que eu acredito que possa ser a mais interessante para quem nunca leu o poema.

Adriano Scandolara

 

Ilustração por Édouard Manet.
Ilustração por Édouard Manet.

 

A tarde de um fauno

Quero perpetuar essas ninfas.
                                                 Tão claro
Seu ligeiro encarnado a voltear no ar
Espesso de mormaço e sonos.
                                                 Sonhei ou…?

Borra de muita noite, a dúvida se acaba
Em mil ramos sutis a imitar a mata,
Prova infeliz de que eu sozinho me ofertava
À guisa de triunfo a ausência ideal das rosas.

Reflitamos…
                 E se essas moças, minhas glosas,
Não passarem de sonho e senso fabulosos?
Fauno, dos olhos da mais casta, azuis e frios,
Flui a ilusão com uma fonte em prantos, rios:
Mas, em contraste, o hálito da outra, arfante,
Não é o sopro de um dia quente nos teus pelos?
Mas, não! No pasmo exausto e imóvel, a manhã
Se debate em calor para manter-se fresca
E água não canta que da avena eu não derrame
No bosque irrigado de acordes – e o só sopro
Que flui da flauta dupla prestes a exalar-se
Pronto a extinguir-se antes que se disperse em chuva
Estéril, é somente o sopro no horizonte
Sem uma ruga a perturbá-lo, da visível
E calma inspiração artificial do céu.

Ó orla siciliana das baixadas calmas,
Que êmula de sóis, minha vaidade pilha,
Sob centelhas de flores, taciturno, CONTE
“Que aqui com arte e engenho vinha eu domar
Caules ocos no glauco ouro azul de longínquos
Verdes, às fontes dedicando seus vinhedos,
E ondulava um brancor animal em repouso:
E que ao prelúdio lento em que nascem as flautas,
Este vôo de cisnes, ou náiades! foge
Ou mergulha…
                    Arde a tarde inerte na hora fulva
Sem traço da arte vária pela qual fugiu
Tanta núpcia ansiada por quem busca o la:
Despertarei então à devoção primeira,
De pé e só sob uma luz que flui de outrora,
Lírio! e um de vós todos pela ingenuidade.

Mais que esse doce nada, arrulho de seus lábios
O beijo que, bem baixo, é perfídia segura,
Atesta uma mordida este meu seio virgem,
Misteriosa marca de algum dente augusto;
Mas, chega! que esse arcano elege por amigo
O junco vasto e gêmeo sob o céu tocado:
Ei-lo que chama a si a turbação da face
E num extenso solo sonha que entretemos
A beleza ao redor, mediante confusões
Falsas entre ela própria e o nosso canto crédulo –
E tanto quanto alcance um módulo amoroso
Faz que se esvaia a ilusão banal de dorso
Ou de lado, seguidos pelo olhar sem ver,
Uma linha monótona, sonora e vã.

Volta, pois, instrumento de fugas, maligna
Flauta, a reflorescer nos lagos onde me ouves:
Do meu tropel cioso, irei falar de deusas
Por muito tempo – e em muita pintura profana
À sua sombra hei ainda hei de enlaçar cinturas;
E quando a luz das uvas tenha eu sorvido
Banindo um dissabor por fingimento oculto,
Gozador, ao verão do céu oferto os bagos
E soprando nas peles translúcidas, ávido
E ébrio, fico olhando através até a noite.

Reavivemos, ninfas, LEMBRANÇAS diversas.
“Pelos juncos, o olhar violava as colinas
Imortais, que afogam na onda a queimadura,
Soltando gritos de ira contra o céu da mata;
E o banho esplendoroso dos cabelos some
Em calafrios e claridades, pedrarias!
Precipito-me – e eis a meus pés, enroscadas
Langorosas haurindo esse mal de ser dois,
Duas carnes dormindo entre os braços do acaso:
Sem desfazer o enlace, arrebato-as e alcanço
Rumo a esse alcatife, odiado pela frívola
Sombra, de rosas desperfumando-se ao sol,
Para esse embate igual ao dia que se consome.
Ó cólera das virgens, eu te adoro, gozo
Feroz do fardo nu e sagrado que se esquiva,
Fugindo à boca em água ardente, quando um raio
Faz tremer! o temor mais secreto da carne:
Dos pés da desumana ao peito da mais tímida
Que a pureza abandona, orvalhada ora por
Lágrimas tristes ou não tão tristes vapores.
Meu crime foi o de ter, contente de vencer
Temores infiéis, partido ao meio a moita
De beijos, pelos deuses tão bem guarnecida;
Sob as pregas felizes de uma só (guardando
Com simples dedo, a fim que o seu candor de pena
Se maculasse na emoção de sua irmã –
Aquela que é pequena, ingênua e não se peja:)
Que de meus braços moles por delíquios vagos
Liberta-se essa presa para sempre ingrata,
Sem pena do soluço ainda em mim cativo.

Azar! Hão de arrastar-me outras ao prazer,
As tranças emaranhando aos chifres desta fronte:
Tu sabes, vida minha: púrpura e madura
Toda romã estala em zumbidos de abelhas;
E o nosso sangue, amante de quem vai sugá-lo,
Escorre pelo eterno enxame do desejo.
Na hora em que se banha o bosque em cinza e ouro,
Uma festa se exalta na ramada extinta:
Etna! É em meio a ti, visitado por Vênus,
Pousando em tua lava o calcanhar ingênuo
Se troa um sono triste ou desfalece a flama.
Minha, a rainha!
                        Ó, punição…
                                            Não, mas a alma

Vazia de palavras e este corpo espesso
Tarde sucumbem ao silêncio meridiano:
Sem mais, dormir no esquecimento da blasfêmia,
Na areia ressupino e sedento – e sequioso
Oferecer a boca ao astro audaz dos vinhos!

Ninfas, adeus: vou ver a sombra que vos tornais.

                                                

faune-1

                                                

L’Après-Midi d’un faune

Ces nymphes, je les veux perpétuer.
                                                          Si clair,
Leur incarnat léger qu’il voltige dans l’air
Assoupi de sommeils touffus.
                                                 Aimai-je un rêve ?

Mon doute, amas de nuit ancienne, s’achève
En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais
Bois mêmes, prouve, hélas ! que bien seul je m’offrais
Pour triomphe la faute idéale de roses.

Réfléchissons…
                      ou si les femmes dont tu gloses
Figurent un souhait de tes sens fabuleux !
Faune, l’illusion s’échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste :
Mais, l’autre tout soupirs, dis-tu qu’elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison !
Que non ! par l’immobile et lasse pâmoison
Suffoquant de chaleurs le matin frais s’il lutte,
Ne murmure point d’eau que ne verse ma flûte
Au bosquet arrosé d’accords ; et le seul vent
Hors des deux tuyaux prompt à s’exhaler avant
Qu’il disperse le son dans une pluie aride,
C’est, à l’horizon pas remué d’une ride,
Le visible et serein souffle artificiel
De l’inspiration, qui regagne le ciel.

Ô bords siciliens d’un calme marécage
Qu’à l’envi des soleils ma vanité saccage,
Tacite sous les fleurs d’étincelles, CONTEZ
» Que je coupais ici les creux roseaux domptés
» Par le talent ; quand, sur l’or glauque de lointaines
» Verdures dédiant leur vigne à des fontaines,
» Ondoie une blancheur animale au repos :
» Et qu’au prélude lent où naissent les pipeaux,
» Ce vol de cygnes, non ! de naïades se sauve
» Ou plonge.. »
                      Inerte, tout brûle dans l’heure fauve
Sans marquer par quel art ensemble détala
Trop d’hymen souhaité de qui cherche le la :
Alors m’éveillerai-je à la ferveur première,
Droit et seul, sous un flot antique de lumière,
Lys ! et l’un de vous tous pour l’ingénuité.

Autre que ce doux rien par leur lèvre ébruité,
Le baiser, qui tout bas des perfides assure,
Mon sein, vierge de preuve, atteste une morsure
Mystérieuse, due à quelque auguste dent ;
Mais, bast ! arcane tel élut pour confident
Le jonc vaste et jumeau dont sous l’azur on joue :
Qui, détournant à soi le trouble de la joue
Rêve, dans un solo long que nous amusions
La beauté d’alentour par des confusions
Fausses entre elle-même et notre chant crédule ;
Et de faire aussi haut que l’amour se module
Évanouir du songe ordinaire de dos
Ou de flanc pur suivis avec mes regards clos,
Une sonore, vaine et monotone ligne.

Tâche donc, instrument des fuites, ô maligne
Syrinx, de refleurir aux lacs où tu m’attends !
Moi, de ma rumeur fier, je vais parler longtemps
Des déesses ; et, par d’idolâtres peintures,
A leur ombre enlever encore des ceintures :
Ainsi, quand des raisins j’ai sucé la clarté,
Pour bannir un regret par ma feinte écarté,
Rieur, j’élève au ciel d’été la grappe vide
Et, soufflant dans ses peaux lumineuses, avide
D’ivresse, jusqu’au soir je regarde au travers.

Ô nymphes, regonflons des SOUVENIRS divers.
» Mon œil, trouant les joncs, dardait chaque encolure
» Immortelle, qui noie en l’onde sa brûlure
» Avec un cri de rage au ciel de la forêt ;
» Et le splendide bain de cheveux disparaît
» Dans les clartés et les frissons, ô pierreries !
» J’accours ; quand, à mes pieds, s’entrejoignent (meurtries
» De la langueur goûtée à ce mal d’être deux)
» Des dormeuses parmi leurs seuls bras hasardeux ;
» Je les ravis, sans les désenlacer, et vole
» A ce massif, haï par l’ombrage frivole,
» De roses tarissant tout parfum au soleil,
» Où notre ébat au jour consumé soit pareil.
Je t’adore, courroux des vierges, ô délice
Farouche du sacré fardeau nu qui se glisse,
Pour fuir ma lèvre en feu buvant, comme un éclair
Tressaille ! la frayeur secrète de la chair :
Des pieds de l’inhumaine au cœur de la timide
Que délaisse à la fois une innocence, humide
De larmes folles ou de moins tristes vapeurs.
» Mon crime, c’est d’avoir, gai de vaincre ces peurs
» Traîtresses, divisé la touffe échevelée
» De baisers que les dieux gardaient si bien mêlée ;
» Car, à peine j’allais cacher un rire ardent
» Sous les replis heureux d’une seule (gardant
» Par un doigt simple, afin que sa candeur de plume
» Se teignît à l’émoi de sa sœur qui s’allume,
» La petite, naïve et ne rougissant pas:)
» Que de mes bras, défaits par de vagues trépas,
» Cette proie, à jamais ingrate, se délivre
» Sans pitié du sanglot dont j’étais encore ivre.

Tant pis ! vers le bonheur d’autres m’entraîneront
Par leur tresse nouée aux cornes de mon front :
Tu sais, ma passion, que, pourpre et déjà mûre,
Chaque grenade éclate et d’abeilles murmure ;
Et notre sang, épris de qui le va saisir,
Coule pour tout l’essaim éternel du désir.
A l’heure où ce bois d’or et de cendres se teinte.
Une fête s’exalte en la feuillée éteinte :
Etna ! c’est parmi toi visité de Vénus
Sur ta lave posant ses talons ingénus,
Quand tonne un somme triste ou s’épuise la flamme.
Je tiens la reine !
                          O sûr châtiment..
                                                       Non, mais l’âme

De paroles vacante et ce corps alourdi
Tard succombent au fier silence de midi :
Sans plus il faut dormir en l’oubli du blasphème,
Sur le sable altéré gisant et comme j’aime
Ouvrir ma bouche à l’astre efficace des vins !

Couple, adieu ; je vais voir l’ombre que tu devins.

 

(Stéphane Mallarmé, tradução de Décio Pignatari)

PS: e, agora que vocês leram o poema e escutaram a música, aproveitem também para assistir ao balé, interpretado aqui nesta versão, baseada no tableau de Nijinsky, por Charles Jude (fauno) e Marie-Claude Pietragalla (ninfa):

Marcial, por Décio Pignatari

MarcialTenho a impressão de que todos os alunos de latim (ou pelo menos os com algum senso de humor) vibram na primeira vez que leem em aula o infame verso, ou o poema todo, aliás, do pedicabo ego vos et irrumabo de Catulo (carmen XVI) – pois esse frisson é elevado à enésima potência quando se descobre Marco Valério Marcial (40 – 102/104). Posterior a Catulo, Marcial herda dele a forma do epigrama, o poema curto em dísticos elegíacos (alternando entre hexâmetros e pentâmetros datílicos), às vezes amoroso, às vezes invectivo, às vezes abertamente escatológico ou pornográfico, mas sempre afiado.

Seu primeiro livro, Liber spectaculorum, data da inauguração do Coliseu e tem a obra arquitetônica e os seus espetáculos como temática, como deixa claro o título. Depois foi autor de 12 volumes de epigramas satíricos, os Epigrammaton libri, mais dois últimos volumes, Xenia (Epigrammaton liber XIII) e Apophoreta (Epigrammaton liber XIV), palavras emprestadas do grego que podem ser traduzidas, como Décio fez, por “Presentes” e “Lembranças”, totalizando 1.561 epigramas. Sua obra influenciou Rabelais, Quevedo, Gregório de Matos, Bocage e inúmeros outros poetas. No entanto, em tradução, por pudor, costumava-se extirpar o seu lado pornô-escatológico. Em inglês, por exemplo, mesmo a edição de 1897 que atende pelo título enganoso de Complete Epigrams não contém os poemas mais safados, e basta um olhar casual no livro II (disponível online clicando aqui) para ver o tanto de títulos que estão como “[not translated]”. E em português também, como aponta Décio Pignatari, “censuradíssimo, [Marcial] só encontrou as primeiras traduções sem travas nos anos de 60 e 70, especialmente graças ao trabalho pioneiro de Guido Ceronetti (edições Eunaudi)”.

As traduções que compartilho neste post partem do volume clássico de traduções do Décio intitulado 31 poetas 214 poemas: de Rigveda e Safo a Apollinaire, publicado pela editora da UNICAMP. Além de Marcial, este volume conta com os Hinos do Rigveda, poetas-santos de Xiva, Safo, Alceu, Íbico, Praxila, Catulo, Horácio, Juvenal, Propércio, poetas da Dinastia Tang, Issa, os trovadores Vidal e Vogelweide, Burns, Byron, Leopardi, Heine, Browning, Rimbaud e Apollinaire… no entanto, apesar de todos esses nomes distribuídos ao longo de séculos de história literária, acaba sendo Marcial quem rouba a cena em 31 poetas 214 poemas, sendo 57 desses 214 poemas traduzidos dele.

Selecionei, portanto, oito dos epigramas presentes nesse livro. Não são necessariamente, como se poderia esperar, os mais eróticos – creio que nisso a Germina chegou lá antes de mim (sem trocadilho), e vocês podem conferir alguns dos poemas mais divertidos dessa seleção (como II, 62 e II, 73, bem como outros traduzidos por Jorge de Sena) clicando aqui. E a Modo de Usar & co. também tem algumas traduções feitas por João Angelo Oliva Neto (neste link).

As traduções a seguir estão acompanhadas dos originais, que não se encontram, porém, no livro, e foram extraídas das versões online disponíveis na wikisource latina (disponíveis clicando aqui). Desnecessário dizer, desde já, que o estilo aplicado pelo Décio nas traduções não se pretende filologicamente correto (vide as liberdades como traduzir Cloé por Beatriz ou o uso vocabular de termos como “vestido de soirée”), nem replicar a métrica do original… mas, assim como o Guilherme fez cá mais tarde com suas Catulices (postadas no escamandro mesmo no ano passado, depois reproduzidas também na Germina), ele visa empregar uma linguagem que poderia soar anacrônica (o que, no limite, toda tradução dos clássicos para línguas modernas acaba sendo, ainda que a maioria delas, recorrendo a um estilo mais empoeirado, finja que não), para ressaltar o quanto há de contemporâneo – e, no limite, talvez pudéssemos arriscar dizer atemporal, ou o mais próximo de algo assim – nesses poemas.

Adriano Scandolara

Priapo

           

I, 46

Se você exclama, Edilo: “Vou gozar –
Depressa!” – o meu tição se esfria, apaga.
Prolongue o ato que eu irei mais rápido.
Pra ir depressa, diga: “Devagar”.

           

Cum dicis ‘Propero, fac si facis,’ Hedyle, languet
Protinus et cessat debilitata Venus.
Expectare iube: velocius ibo retentus.
Hedyle, si properas, dic mihi, ne properem.

           

III, 53

Dispenso o seu rosto
Dispenso o pescoço
Dispenso suas mãos
Dispenso seus peitos
Dispenso suas coxas
Dispenso sua bunda
Dispenso seus quadris

– E para mencionar mais um detalhe,
Dispenso você, Beatriz.

           

Et voltu poteram tuo carere
Et collo manibusque cruribusque
Et mammis natibusque clunibusque,
Et, ne singula persequi laborem,
Tota te poteram, Chloe, carere.

           

III, 65

O que exala
            a maçã mordida
            por uma menina fofa
            a brisa que veio
            dos campos de açafrão da Corícia
            a vinha onde alvejam os primeiro racimos
            a campina por onde recém-pastou
            o rebanho de ovelhas
            a murta
            o especiarista árabe
            o âmbar friccionado
            o incenso do Oriente ao fogo brando
            a gleba chovida pela chuva de verão
            a grinalda há pouco retirada
            de cabelos olorando a nardo
– esse é o perfume dos seus beijos,
Diadumeno, garoto cruel.
E se você me desse tudo isso,
Espontaneamente?

           

Quod spirat tenera malum mordente puella,
Quod de Corycio quae venit aura croco;
Vinea quod primis floret cum cana racemis,
Gramina quod redolent, quae modo carpsit ovis;
Quod myrtus, quod messor Arabs, quod sucina trita,
Pallidus Eoo ture quod ignis olet;
Glaeba quod aestivo leviter cum spargitur imbre,
Quod madidas nardo passa corona comas:
Hoc tua, saeve puer Diadumene, basia fragrant.
Quid si tota dares illa sine invidia?

           

IV, 84

Ninguém pode provar, em Roma inteira,
Que já comeu Taís, embora todos
A cantem e cobicem. Mas, é santa?
Ao contrário: da boca faz boceta.

           

Non est in populo nec urbe tota,
A se Thaida qui probet fututam,
Cum multi cupiant rogentque multi.
Tam casta est, rogo, Thais? Immo fellat.

           

X, 29

O prato que você me dava, Sextílio,
     Nas festa saturnais,
     Você o deu à amante;
E aquela toga que sempre me enviava,
     Nas calendas de março,
     Trocou por um vestido
     Verde, de soirée:
As garotas saem grátis pra você,
Que vive fodendo com os meus presentes!

    

Quam mihi mittebas Saturni tempore lancem,
Misisti dominae, Sextiliane, tuae;
Et quam donabas dictis a Marte Kalendis,
De nostra prasina est synthesis empta toga.
Iam constare tibi gratis coepere puellae:
Muneribus futuis, Sextiliane, meis.

    

X, 81

Era manhã, vieram dois, queriam
Curtir a Fílis, nua, na trepada.
Mas, logo, a discussão: “Primeiro, eu!”
“Eu atendo os dois lados”, disse a Fílis.
Falou e fez: quatro dedões dos pés
Voltados para baixo e dois para cima.

    

Cum duo venissent ad Phyllida mane fututum
Et nudam cuperet sumere uterque prior,
Promisit pariter se Phyllis utrique daturam,
Et dedit: ille pedem sustulit, hic tunicam.

           

Presentes e Lembranças (Apophoreta)
    
Gitana de Cádiz (XIV, 203)

Rebola tanto,
A sem vergonha,
Que leva à bronha
Até um santo

    

Puella Gaditana

Tam tremulum crisat, tam blandum prurit, ut ipsum
Masturbatorem fecerit Hippolytum.

    

Louquinho bufão (XIV, 210)

Não finge o pasmo, não inventa que é chapado:
Quem pira além da piração não é pirado.
    
Morio

Non mendax stupor est, nec fingitur arte dolosa.
Quisquis plus iusto non sapit, ille sapit.

    

(poemas de Marcial, traduções de Décio Pignatari)

Kubla Khan – Samuel Taylor Coleridge

coleridgeUm dos poemas mais famosos de um poeta pouco lido. A Samuel Taylor Coleridge (1773 – 1834), poderíamos dizer, falta, talvez, algo do charme imediato dos outros românticos ingleses – o júbilo natural proto-hippie de Wordsworth, o esteticismo elaborado de Keats, o ardor poético/político de Shelley, o visionarismo quase louco de Blake, o humor ácido de Byron… – o que talvez justifique o interesse reduzido do público por sua obra. Mas quem já leu o seu longo “The Rime of the Ancient Mariner”, ou “A Balada do Velho Marinheiro”, como é conhecido em português (o outro poema mais popular de Coleridge, que ganhou homenagem inclusive até pelo Iron Maiden) já pôde averiguar o talento do poeta – que chegou a influenciar tanto Wordsworth quanto Keats e Shelley, bem como, mais tarde, também Edgar Allan Poe – e pode provavelmente imaginar o baque que essa sinistra viagem proto-simbolista deve ter causado nos leitores acostumados ainda a uma poética neoclássica do final do séc. XVIII. Não por acaso, a reedição de 1834 da “Balada” incluía, além da revisão de algumas estrofes, uma glosa em prosa à margem do texto explicando o que acontecia em cada momento do poema.

“Kubla Khan” é também um poema bastante “viajado”, por assim dizer: fruto de um sonho psicodélico de Coleridge (que, como bem se sabe hoje, fazia uso pesado do ópio) numa noite em que ele lia um relato de viagem sobre a ida de Marco Polo à China, o poema se constrói como uma visão fragmentária de Xanadu (ou Shang-du), a capital de veraneio do imperador mongol da China do século XIII, Kublai Khan, neto de Gêngis Khan. Famosamente, a composição do poema se deu, a princípio, com a tentativa de Coleridge de se lembrar de seu sonho alucinado; depois, após uma interrupção social que o impediu de se lembrar do restante do sonho, ele compôs a segunda parte.

Na primeira parte, então, temos uma representação desse lugar que é Xanadu – em parte inspirada pelo livro sobre Marco Polo e, em boa parte, fictícia, considerando que não existe um rio Alph na China, mas trata-se, segundo um comentador, de uma transposição do rio grego Alpheu – , ao que se segue uma descrição da nascente (encantada e violenta) desse sacro rio Alph.  Depois, na segunda parte, dá-se a tentativa de Coleridge de rememorar a música que ele ouviu em sua visão (na voz de uma outra pessoa, a de uma “donzela abissínia”), que leva a um encerramento metapoético, uma vez que, segundo o eu-lírico do poema, tal canção seria capaz de reconstruir no ar o milagre do “domo ao sol com grutilhões de gelo” – a união da cúpula ao sol construída por Kubla, portanto, artificial e civilizada, com o mundo natural das grutas de gelo subterrâneas reveladas pela violência do rio. Os últimos versos descrevem, por fim, qual seria a reação das pessoas que testemunhassem esse feito, com uma imagem de um profeta de tom bíblico. Apesar de seu caráter fragmentário (Coleridge pretendia fazer dele um poema mais longo), trata-se de um poema que pode ser lido como completo e acabado em si, o que não é um fenômeno raro entre os românticos – vide ainda, por exemplo, o Don Juan de Byron, O Triunfo da Vida, de Shelley, o Hipérion de Keats, ou o grande poema sem nome que Wordsworth jamais concluiu, do qual “O Prelúdio”, “O Recluso” e “A Excursão” seriam parte. Sua composição data de 1797 (sendo, assim, anterior até mesmo às Baladas Líricas), mas ele só vê a luz do dia muito tardiamente (apesar de ter sido lido em jantares e reuniões particulares muito antes de sua publicação) em 1816 – quando recebe uma maioria esmagadora de resenhas negativas, ainda que o seu prefácio tentasse evitar a crítica ao afirmar que a publicação do poema se dava “mais por interesses psicológicos do que pelos seus méritos poéticos”. E então, meio que para compensar isso, ele é publicado junto de um outro poema que, supostamente, deveria ser melhor (“The pains of sleep”), mas que de modo algum me parece ser o caso.

Formalmente, “Kubla Khan” é um quebra-cabeças estranho: os esquemas de rimas são irregulares (especialmente na última estrofe), e a métrica oscila entre tetrâmetros e pentâmetros jâmbicos, como em “In Xanadu did Kubla Khan” e “A sunny pleasure-dome with caves of ice!”, respectivamente. Mas ele também substitui, em alguns versos, o tetrâmetro jâmbico por trocaico, omitindo a primeira átona e começando o verso com uma tônica, como é o caso de “Floated midway on the wavesouIn a vision once I saw“. Em minha tradução, mais uma vez, foi esse aspecto rítmico que visei reconstituir. Até o término do meu trabalho, eu não havia ainda tido contato com a tradução de Alípio Correia de Franca Neto (encontrada em A Balada do Velho Marinheiro, pela editora Ateliê, juntamente com um comentário crítico, mais elaborado do que o meu, e uma tradução também do longo poema que dá título ao volume). Vendo-a agora, nota-se um projeto de tradução bastante diferente (mais claro semanticamente, eu diria) e, na minha opinião, muito bem executado – o que não pode ser dito da única tradução do poema que eu conhecia até então, a de José Lino Grünewald (presente no infame volume Grandes Poetas de Língua Inglesa do Século XIX), que prefiro não comentar, tampouco reproduzir.

Por último, mas certamente longe de ser menos importante, vem a tradução que eu descobri mais recentemente, e, assim, aproveitando mais uma chance de celebrar os dons do grande recém-falecido, reproduzo também uma tradução de Décio Pignatari de “Kubla Khan” – uma tradução que, diga-se de passagem, é a menos ortodoxa de todas as três. Ela se encontra em seu volume de poesia reunida Poesia Pois É Poesia, junto com traduções de Valéry, Bashô, Horácio, Goethe, Rilke, Browning, etc., e, apesar de descartar algumas coisas importantes para o sentido do poema (como a união entre as cavernas de gelo com os domos ao sol que consiste no grande “milagre” do poema, mas que, na tradução de Décio, parecem estar separadas), supera a todos nós no quesito invenção (especialmente na última estrofe), além de compor versos belíssimos.

Seguem, então, a minha tradução, a do Alípio e a do Décio (deixem-me aproveitar um dos poucos momentos na vida em que posso me pôr ao lado do Décio), juntamente com o original e uma foto de uma caverna subterrânea de gelo na China – que, por ter sido descoberta recentemente, me dá a impressão de que Coleridge (e talvez Marco Polo) não deveria saber que existia de verdade. Beware, beware!

Adriano Scandolara.

Kubla Khan

Em Xanadu, fez Kubla Khan
Construir um domo de prazer:
Onde Alph, rio sacro, em seu afã,
Por grutas amplas e anciãs,
         Ia a um mar sem sol correr.
E as milhas dez de fértil terra
Cingiam-se em fortins de guerra:
E nos jardins corriam os canais
Por incenseiros sempre a florescer;
E bosques como os montes, ancestrais,
Que o verde ensolarado ia envolver.

         E, ah! a fraga romântica inclinada
         Outeiro abaixo, de um cedral frondoso!
         Visão selvagem! Sacra e encantada,
         Como a minguante, de uivos assombrada,
         Da jovem por seu infernal esposo!
         E um caos da fraga irrompe, fervilhando,
         Como se fosse a própria terra arfando,
         Estouram fortes fontes, que, em momentos,
         Num jato atiram colossais fragmentos:
         Em arco qual granizo ao chão caído,
         Ou grão com joio no mangual moído:
         E em meio às rochas nessa grande dança
         Perene, logo o sacro rio se lança.
         Por cinco milhas na dedálea ida,
         Por bosque e vale, o rio, em seu afã,
         Cruzando grutas amplas e anciãs,
         Afunda em ruído na maré sem vida.
         E nesse ruído Kubla veio ouvir
         A guerra, em voz profética, por vir!

         A sombra do domo de prazer
         Vai pairando sobre as vagas;
         Onde ouvia-se o som crescer
         Pelas fontes, pelas fragas.
Era um milagre do mais raro zelo,
Um domo ao sol com grutilhões de gelo!
         E o que em visão foi-me mostrado:
         Saltério à mão, com voz sonora,
         Era abissínia a donzela
         E, com seu saltério, ela
         Cantava sobre o Monte Abora.
         Se o seu canto e sinfonia
         Pudesse em mim eu reavivar,
         Tal júbilo me venceria
Que co’a canção iria, no ar,
Erguer o domo ensolarado,
O domo! O grutilhão glacial!
E a todos seria mostrado:
Diriam, Cuidado! Cuidado!
O olho em luz, cabelo alado!
O olhar cerre em temor freiral,
E três voltas teça ao redor,
Pois que ele sabe o sabor
Do mel, do leite Celestial.

(tradução de Adriano Scandolara)

        

Kubla Khan

Em Xanadu, o Kubla Khan
Palácio de esplendor construiu,
Onde Alph, o rio sagrado, mana
Por grutas sem medida humana
         E rumo a um mar sombrio.

Cinco milhas mais cinco de fecundas terras
Cercaram-se de torres e muralhas férreas;
E ali jardins de luz de rios sinuosos, fontes
A floração arbórea a se embeber de olor,
E aqui florestas tão antigas quanto montes
Cingindo manchas fúlgidas pelo verdor.

Mas Ah!, que báratro romântico, inclinado
Na encosta, de través no cedro frondejante!
Lugar inóspito! Tão mágico e sacrado
Como o que fosse, no minguante, visitado
Por mulher a clamar por seu demônio-amante!
Do báratro, num torvelinho a fervilhar,
Como se a terra, em haustos, estivesse a arfar,
Por vezes, um forte manancial era expulso;
E em seu súbito, semi-intermitente impulso,
Saltavam, como gelo em ricochete, as lascas
Ou como, a golpes de mangual, os grãos das cascas;
Com as pedras a dançar, subitamente e a fio,
Por vezes irrompia em jorro o santo rio.

Cinco milhas meandrando com moção insana
O santo rio correu por vale e bosque e horto,
Então chegou a grutas sem medida humana
E se afundou com fragor de águas num mar morto.
Nesse fragor, o Kubla ouviu de longes terras
As vozes ancestrais anunciando guerras!

         Passeava a sombra do palácio
         Em meio às ondas revolutas;
         Nelas se ouvia um só compasso
         Do som das fontes e das grutas;
Era um milagre de lavor preciso:
Palácio ao sol com grutas de granizo!

         Uma donzela com uma cítara
         Numa visão eu vi outrora:
         Uma donzela da Abissínia
         Tangendo cítara tão fina
         E celebrando o Monte Abora.
         Me fosse dado reviver
         A melodia e o canto agora,
         Sucumbiria a tal prazer,
Que à longa música sonora
Eu ergueria no ar o monumento –
O Palácio ao sol! as grutas de granizo!
E ouvindo, iriam ver nesse momento,
E ouvindo, proclamar “Atento! Atento!
O olho que brilha, a cabeleira ao vento!
Faz-lhe à volta três círculos no piso,
E cerra os olhos com temor sagrado,
Pois ele de maná foi saciado
E bebeu do leite do Paraíso”.

(Alípio Correia de Franca Neto)

        

Kubla Khan

Em Xanadu, comanda Kubla Khan:
Para o lazer, para o prazer, levante-se
Um palácio de campânulas solares
Junto ao Alfa sagrado que, mais baixo,
Em grotas, rumo a um mar sem sol, se afuna,
E uma cinta de torres e muralhas
Cerque dez milhas de gleba fecunda,
Onde em jardins serpenteiem riachos,
Onde a planta de incenso arome os ares
E florestas antigas, pelos montes,
Cinjam as manchas de ouro dos pomares.

Mas, ah, aquele vórtice românti-
Cortando de través os cedros da colina!
Lugar selvagem! Não, não verás outros
Assim, como assombrado, à lua minguante,
Por gritos de mulher pelo demônio-amante!
E desse báratro em torvelinho
– A terra a arfar em breves, densos haustos –
Clamava aos jorros uma fonte em fendas,
A expelir entre os seus jatos, blocos
De pedra – como os projéteis de granizo
Ou como os grãos sob o mangual do outono.
Pelos arcos das rochas dançarinas,
O Alfa, em seu colear pelas ravinas,
Faiscava, buscando o fim da terra,
Até atirar-se pelo mar-sem-vida.
– E, além do estrondo, Kubla Khan ouvia
Vozes de outrora cassandrando a guerra!

A sombra dos domos do gozo
Sobre as ondas flutua.
Como em compasso se escuta
Som de fonte e som de gruta.
E que milagre o desse belo engenho:
Abóbadas em sol, caves em gelo!

Vi, certa vez, e ouvi,
Numa visão de mistério,
Uma donzela abissínia
Tangendo um saltério
E cantando o Monte Aborá
Cantando o Monte Aborá.

Pudessem tanger-se em mim
Tal som, tal verso,
Que eu, imerso,
Naquele prazer sem fim,
Com música ergueria em breve
Aquelas rotundas de sol,
Com versos escavaria
Aquelas cavernas de neve
E todos as veriam lá
Todos as veriam lá
E exclamariam: Atenção! Cuidado!
Vejam seus olhos!
– Desvario.
E os seus cabelos!
– São um rio.
Fechem a roda
                 roda
                 roda
Cerrem os olhos em terror sagrado:

Este perdeu o siso:
– Comeu do maná
E bebeu do leite
Do Paraíso.

(Décio Pignatari)

      

Kubla Khan        

In Xanadu did Kubla Khan
A stately pleasure-dome decree:
Where Alph, the sacred river, ran
Through caverns measureless to man
         Down to a sunless sea.
So twice five miles of fertile ground
With walls and towers were girdled round:
And there were gardens bright with sinuous rills,
Where blossomed many an incense-bearing tree;
And here were forests ancient as the hills,
Enfolding sunny spots of greenery.

         But oh! that deep romantic chasm which slanted
         Down the green hill athwart a cedarn cover!
         A savage place! as holy and enchanted
         As e’er beneath a waning moon was haunted
         By woman wailing for her demon-lover!
         And from this chasm, with ceaseless turmoil seething,
         As if this earth in fast thick pants were breathing,
         A mighty fountain momently was forced:
         Amid whose swift half-intermitted burst
         Huge fragments vaulted like rebounding hail,
         Or chaffy grain beneath the thresher’s flail:
         And ‘mid these dancing rocks at once and ever
         It flung up momently the sacred river.
         Five miles meandering with a mazy motion
         Through wood and dale the sacred river ran,
         Then reached the caverns measureless to man,
         And sank in tumult to a lifeless ocean:
         And ‘mid this tumult Kubla heard from far
         Ancestral voices prophesying war!

         The shadow of the dome of pleasure
         Floated midway on the waves;
         Where was heard the mingled measure
         From the fountain and the caves.
         It was a miracle of rare device,
A sunny pleasure-dome with caves of ice!
A damsel with a dulcimer
         In a vision once I saw:
         It was an Abyssinian maid,
         And on her dulcimer she played,
         Singing of Mount Abora.
         Could I revive within me
         Her symphony and song,
         To such a deep delight ‘twould win me,
That with music loud and long,
I would build that dome in air,
That sunny dome! those caves of ice!
And all who heard should see them there,
And all should cry, Beware! Beware!
His flashing eyes, his floating hair!
Weave a circle round him thrice,
And close your eyes with holy dread,
For he on honey-dew hath fed,
And drunk the milk of Paradise.

(Samuel Taylor Coleridge)

décio pignatari, in memoriam (1927-2012)

oiticica-decio-grunewald
Hélio Oiticica, Décio Pignatari & José Lino Grünewald, no Rio de Janeiro, em 1978

E a geração dos grandes poetas brasileiros que floresceram na década de 1950 perde mais um de seus nomes, neste domingo, dia 2 de dezembro de 2012.

Nascido em 20/7/1927 em Jundiaí, morreu ontem em São Paulo, 2/12/12, o poeta Décio Pignatari. Um semiótico inveterado, fundou – ao lado de Roman Jakobson, Umberto Eco, Emile Benveniste, Iuri Lotman e outros – a Associação Internacional de Semiótica (Paris, 1969), da qual foi um dos vice-presidentes (1969 – 1984) (com agradecimentos ao poeta André Vallias por esse dado), publicou diversos livros sobre semiótica, comunicação e literatura (dos quais destacaríamos, por sua concisão e precisão, O que é comunicação poética?, imprescendível para qualquer um que estude ou esteja começando a se interessar por poesia) e teve sempre, no cerne de seus experimentos com a linguagem, uma preocupação das mais ferrenhas pelos mecanismos pelos quais os signos – verbais ou não – se articulam e se combinam para produzir significado.

Em 1952, o trio formado por Décio e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos inaugura a revista de poesia Noigandres – título retirado de uma canção trovadoresca provençal via Canto XX d’Os Cantos de Ezra Pound, por conta da dificuldade de definição da palavra. Com isso dava-se início ao movimento da Poesia Concreta, que logo ganharia estatuto internacional ao antecipar e influenciar muitos dos experimentos que estavam dando ou viriam a dar ainda seus primeiros passos na Europa – sobretudo na Suíça, por Eugen Gomringer e Alemanha, onde Haroldo de Campos foi convidado a dar palestras sobre o Concretismo. Antes disso, Décio já havia estreiado com alguns poemas publicados na Revista brasileira de poesia, em 1949, e com seu primeiro livro Carrossel, de 1950. Em 1965, o grupo publica um dos marcos do Concretismo que foi A Teoria da Poesia Concreta, onde se traça a linhagem para o movimento numa tradição de inovação linguística vinda de Stéphane Mallarmé, e.e. cummings, James Joyce (sobretudo o Joyce onírico e multilíngue de Finnegans Wake, que até então, como romance, se encontrava num certo limbo de rejeição) e, claro, Ezra Pound – poetas (e um prosador) até então pouco conhecidos e pouco traduzidos em português, quadro que o grupo dos 3 logo iria reverter.

Além de poeta e semiótico, Décio foi um exímio tradutor de poesia, como comprovam o seu Retrato do Amor Quando Jovem (traduções de Dante, Goethe, Shakespeare), 31 poetas, 214 poemas (que apresenta de Rigveda a Safo a Juvenal a Marcial a Byron a Browning a Apollinaire), e a sua colaboração ao volume Mallarmé, dos irmãos Campos, com um experimento radical de tripla tradução de “L’après-midi d’un faun” (talvez o processo tradutório mais radical da história da poesia brasileira até então), e assim por diante. Como nos lembra o que é provavelmente seu mais famoso poema, “beba coca cola”, Décio tinha uma forte verve satírica (de longe a mais contundente do grupo concretista), e, mais ainda do que isso, um forte gosto pela poesia erótica, o que, não por acaso, o atraiu para Marcial, nos 214 poemas (e você pode ler algumas de suas traduções do lascivo poeta latino na revista Germina, clicando aqui), e o levou a ser um dos maiores nomes da poesia erótica do século XX – uma contribuição que, partindo de um homem que também foi um influente intelectual, certamente colaborou para retirar o gênero da zona de constrangimento em que se encontrava até a geração anterior.

Por fim, fora isso, Décio publicou também, em prosa, O Rosto da Memória (1988) e Panteros (1992), a peça de teatro Céu de Lona (2004) e o infanto-juvenil Bili com Limão Verde na Mão (2009), e sua poesia reunida se encontra no volume de 1977, Poesia Pois é Poesia.

De tudo isso, poderíamos imaginar quanto se perde com sua morte. Mas não somos pessimistas: nada se perdeu; sua poesia, sua crítica, sua tradução estão conosco, assim  – como esperamos – também possam estar seu riso e sua fera.

(adriano scandolara & guilherme gontijo flores)

Epitáfio (de Noigandres 1, 1952)

Décio Pignatari menino imenso e castanho com tremores
nascido sob o signo mais sincero e para e per e por e sem ternura
quem te dirá do mando que exerceram sobre os teus cabelos
os amigos rápidos as mulheres velozes e os que comem dentro do prato
Estás cansado Pignatari e teu desprezo entumesceu como uma árvore tamanha
Estás cansado como uma avassalada aberta enorme porta enorme
e quando abres os braços repousas os ombros em amplos arcos de pássaros vagarosos
Lento e fundo é o ar de tuas tardes nos teus poros
e dentro dele se desenredam fundos e atentos mesmo os esforços mais assíduos
e se mergulhares tua mão na água que repousa à água acrescentarás a mão e a água
Décio Pignatari menino castanho e meu como um cachorro grande
que atravessa o portão sereno inflorescendo aos poucos no jardim seu garbo
com a calma grandiosa das nuvens que se abrem lentas na tarde para envolver o ar
devagar tua cabeça almeja devagar a superfície sem temores
e tuas pálpebras se inclinam aos eflúvios da sesta mundial de imensos paquidermes
que avolumam na sombra como grandes bulbos insonoros em cavernas dormidas
Mansa dinastia de gestos nas ruínas dulcificando as intempéries da memória
descansa como um cortejo de crepúsculos antigos na cordilheira turva da semana
Crescente como o céu de março nas ameias das torres elevadas e redondas
e à tua própria sombra no mundo que perdeste descansa Pignatari.

O jogral e a prostituta negra (de Carrossel, 1950)

Farsa trágica

Onde eras a mulher deitada, depois
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

É à hora carbôni-
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.

A legião dos ofendidos demanda
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.

É a hora do rio, o grosso rio que lento flui
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miraste no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter (ataúde e espelho) morres.

Teu lustre em volutas (polvo
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:

Tudo passa neste rio, menos o rio.

Minérios, flora e cartilagem
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu te componha, recompondo:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das
persianas. Guilhotinas de luz lapidam o teu dorso em
rosa: tens um punho decepado e um seio bebendo
na sombra. Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas.)

Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
“Há uma estátua afogada…” (Em câmara lenta! – disse).
“Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz(ardo -o
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos.”

Choremos por todos – soluço, e entoandum
litúrgico impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicédio AAquela
que deitada era um poema e o não é mais.

Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo
subterrâneo de retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

LIFE (1957)

ORGANISMO (1960)

Três poemas ideológicos de amor (1986)

Você já arranhou parde?
          já sentiu o ácaro da rosa ausente
          já mastigou pano
          já viu a romã dar-se à luz em grená
          e o golfinho saltando para o teu útero
Você já ouviu um pintassilgo ouvindo Beteljosa

I amo você

***

ventrava estrelas
                 e azul teu cheiro
                                 e cheiros
                 beiravam pregas
                 de luz e pele
                                 e enchiam o
                                                        cosmos um corpo
                                                        que se beijava
                                                                                por inteiros

***

Morrer em Nínive
desmemoriado
insensível a tudo

não fôra
a grandeza do fim

não fôra a lembrança
daquela terra
de índios e suipsitacídios

onde teus olhos
me falolharam
por tuas bocas

pela primeira vez

(Décio Pignatari)