poesia

4 poemas inéditos de Dirceu Villa

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 5 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (Hedra, 2003, prêmio Nascente), Icterofagia (Hedra, 2008, ProAC), Transformador (Demônio Negro, antologia, 2014), speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (Corsário-Satã, 2018) e um inédito, couraça (Laranja Original, no prelo). Traduziu Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra, 2009), Lustra, de Ezra Pound (Demônio Negro, 2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (Dobra Editorial, 2015). É professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária).

* * *

a mãe do nosso açougueiro

suas mãos vieram antes. adiante, os dedos graxos
se moviam como se neles prendesse mesmo o ar.
sorrimos, brincamos, porque é uma causa infinita,
essa de compor um anjo. para esta mãe. esta das

horas de não e de ternura, e aparar tudo que esmaga:
migalhas junto dos lábios, dentes que maltratam.
seu sorriso nos mordia, mascava o mundo como
uma goma, de mandíbula feliz, e mãos tão firmes:

ele agarrava duro as contas sibilantes do chocalho,
seus punhos se fechavam no cercado do andador,
ele fatiava os ovos brancos amando o fio da faca.
mas que gosto ao ver a massa mole que a gema

alaranjava no prato pegajosa, aderência doce que
não pouco se parece com a do sangue, enamorado.
as horas de cortar, suas favoritas. nosso anjo, nosso
gabriel, nosso jorge: a espada é a força, o nosso rito.

§

cada flor uma ferida

chapéu de couro ou cocar, auréola de raios do livro
sem autor, mas o deus sol da maligna terra sem mal;
grota de angicos, gruta de cabeças cortadas, onde os
chapéus riem com dentes de fera, e mordem o cano

do fuzil mauser, estrela e costura dos olhos cerrados;
sob a igreja nova, as ruínas do anti-estado e a cabeça
arrancada, de loucura e demência e fanatismo, ordens
diretas de cães que andam em cima e cheiram em círculo

os rabos. mas rever junto à margem a forma caminhante
da natureza aberta aos pedidos cantados, com sopro de
fumo, com som enfeitado: cabeças brotam do chão em
olhos abertos de vida, que cada flor nos custa uma ferida.

§

guerra cultural

na cabeça dos godos [diz cesareia], estátuas de mármore:
o fauno adormecido nem acorda eclodindo projétil nos
chifres do elmo. endormi [diz bouchardon] ao copiá-lo res-
taurado para antes de ser gliptobomba, ou o que sabemos:

um item novo no que asnos chamam [guerra cultural]? o
fauno voador do mausoléu de adriano entraria enfim na
testa dura dos godos da barbárie. entraria após, com seu
pênis, na doce porcelana em nymphenburg, sem ironia,

[nymphenburg]. o corpo antes grego, que copiam romanos
e redescobre barberini, segue após aos alemães, virtude de
mostruário, raça superior, ignorando o fato de que o fauno,
enfim, não é humano, e a estátua tinha mira nos seus cornos.

§

jargão de pia e barril [ii]

fala também a água de fogo, chamam cachaça,
que banha a carne do cachaço de doçura, eis
a chama de sua língua ardente, escuma da cana
fervente como céu de nuvens que se dissipam

por clareza, translúcido líquido dessa prata veloz
do álcool, ou da caixa sonora do carvalho velho,
senhor ouro que tinge sua voz de saibro, sério o
cenho de seu matiz, mas doce fermento de força

muscular escondida na senzala de onde tentam-na,
nova nobre mentida, mas rememorada em insultos
de reduzir pobre e pinguço, cachaceiro e nordestino,
travo de trabalhador: seu indomável elogio, cachaça.

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crítica, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes I e II

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

O professor da UFMG e crítico Gustavo Silveira Ribeiro escolhe e comenta os livros mais importantes da última década na poesia brasileira. Uma série de brevíssimos ensaios sobre algumas das vozes que marcaram a lírica contemporânea de 2008 para cá. Antecipamos aqui os dois textos da série, que em breve estará, completa, na página da escamandro. Um aviso aos navegantes: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

I. uma arte como a sombra temperando a luz
Icterofagia
2008 – Hedra
Dirceu Villa
[São Paulo – 1975]

Poeta das máscaras e das múltiplas vozes, Dirceu Villa assume de modo bastante consciente, neste que é o seu mais complexo e extenso livro, a dupla lição de Ezra Pound: o poeta deve ser muitos sendo um só, cantando/escrevendo à maneira de outros, domando estilos e perspectivas que não são (não podem ser) as suas; o seu tempo, por sua vez, estará conectado a todos os outros tempos – ser contemporâneo é pertencer a todas as épocas (com ênfase na sua, no seu momento histórico), entrando e saindo por elas sem se deixar prender por nenhuma. Icterofagia combina, nesse sentido, o impulso em direção ao novo e à experimentação formal típico das vanguardas com a solicitação permanente da história literária e da tradição (são mais decisivas as reverberações da Antiguidade e do Medievo, mas há também traços da lírica de outros tempos da Modernidade, do século XVI ao XX), o que dá aos seus versos uma dicção bastante singular, posta entre a ordem severa dos clássicos e a tormenta desestabilizadora (e profícua) dos modernos; entre, enfim, as questões – de ordem ética e estética – ainda abertas e prementes, formuladas há milênios por poetas e filósofos, e os dilemas do tempo presente, que estranham e refratam aquelas questões, acrescentando a elas novas dimensões, que, no entanto, não satisfazem as suas demandas. No livro, a invocação das musas, dos mitos (recorde-se, aqui, o belo e emblemático poema “DISCURSO FLORAL DE DAFNE TRANSFORMADA EM LOUREIRO”, que justapõe Ovídio e Radiohead, a imaginação poética do mundo antigo, centrada no processo da metamorfose, e a visualidade comum à poesia do século XIX e XX, de Mallarmé, cummings e a Poesia Concreta) e dos trovadores se dá sobre a matéria impura dos dias que correm, eivada de burocracia, progresso e estratégias de marketing. A crítica ao mundo contemporâneo proposta nos versos de grande apuro formal, ao mesmo tempo atualiza a força derrisória dos mestres do passado (fazendo-os pensar indiretamente, por deslocamento, questões de outro momento histórico) e alonga, de modo quase indefinido, a carnadura trágica dos conflitos que assolam o mundo atual, na medida em que eles se projetam em contradições arcaicas, fundadoras. O poema dramático e a sátira são duas formas-força do passado revisitadas com maior interesse e perícia por Villa, que as toma como campo de experimentação, seja pelo aspecto anacrônico que têm diante das fórmulas poéticas do momento, seja pela atualidade urgente que elas podem ter – dado que acrescentam ao repertório político da lírica contemporânea um caráter sibilino e mordaz (caso da sátira) que as certezas e assertivas muito diretas de certa poesia presente não deixam ver, ou ampliam as possibilidades expressivas do poema a partir do efeito de deslocamento e pluralização que o drama-poesia oferece, uma vez que se abre ao simulacro de uma outra voz e à encenação (por vezes mais aguda) de um conflito entre tempos, valores, classes ou pontos de vista distintos. Erudito, multilíngue, rigoroso, o livro (cujo título remete à devoração de uma cor, indicando a incorporação, pelo poeta, do que há de melhor e de pior – o ouro e a bile) certamente foi menos lido do que poderia, mantendo-se, por vezes, à margem do debate que tem sacudido, bem ou mal, a cena poética brasileira. Ainda assim, no entanto, figura entre suas criações mais relevantes e desafiadoras, dialogando e se desdobrando na obra de poetas como Ricardo Domeneck, companheiro de geração de Dirceu, e Guilherme Gontijo Flores, cuja estreia se deu 15 anos depois do primeiro livro do autor.

§

II. uma mulher de tijolos à vista
Um útero é do tamanho de um punho
2012 – CosacNaify
Angélica Freitas
[Pelotas – 1973]

Um dos livros de maior impacto das últimas décadas no universo da poesia brasileira (em números de vendas e na presença no debate público do país), Um útero é do tamanho de um punho tem no riso e na paródia as suas principais apostas, num discurso que se arma, sempre crítico, pelos deslocamentos e pela desproporção típicas do humor, de um lado, e pelo gume terrível da derrisão de outro, a partir do qual todas as coisas que têm lugar no poema, inclusive as mais graves (o direito ao aborto, o homoerotismo e a homofobia, a misoginia difusa no tecido social brasileiro, o feminicídio), só se validam pelo olhar desabusado que de tudo ri. Os modos de composição privilegiados são as formas seriais da repetição, visíveis sobretudo nos temas e voltas da poesia antiga ou do cancioneiro popular retomados no livro, e nos poemas de estrutura anafórica que se fazem como ladainhas ou fórmulas de propaganda, utilizando a saturação como estratégia: pela repetição exaustiva alcança-se o efeito do ridículo, da piada que se impõe pela extensão sem limites de um mesmo procedimento ou informação; pela repetição, a violência invisível de um fato qualquer (por exemplo, o desprezo pelas mulheres difundido – e naturalizado – em pequenas frestas da linguagem comum) vem à tona, tornado assim absurdo e insuportável aos olhos de quem antes não o notava; pela repetição, por fim, a maquinaria do poema se revela ao leitor, num processo de desnudamento da operação poética que acentua, ainda mais, o seu caráter crítico, posto que distancia o leitor de qualquer apreciação desatenta e leve desses textos. Eles são artifícios, antipoesia, peças sem qualquer confissão sentimental ou desejo de enlevo: preferem, ao contrário, o desconforto e a reflexão. O tema fundamental do livro – os muitos modos da violência contra as mulheres e as formas várias que elas têm de enfrentá-los – foi inventivamente assumido por Angélica Freitas, que contorna as suas armadilhas e seduções fáceis com bastante habilidade e verdadeiro tino teórico: ao dar dimensão coletiva e impessoal aos seus poemas, afastando-os de modo tático da expressão de um eu individual e circunscrito, a autora potencializa a radicalidade da discussão de gênero que se dá no livro, levando às últimas consequências algumas das indagações sobre as quais seu projeto se estrutura: sobre as potencialidades do feminino, suas possibilidades de enunciação e suas liberdades; sobre a natureza dos poemas (seu aspecto genérico, seu estatuto formal, sua discursividade feminina mesma, uma vez que escrever, no livro, é tarefa por excelência das mulheres, dada a simetria entre útero e punho proposta desde o título); sobre a condição disruptiva (em relação à lei, ao Estado e à própria instituição literária) que os poemas portam. Essa modulação discursiva que se move entre o pessoal e o público, entre o relato de si e a luta coletiva tem marcado a fogo a poesia brasileira dos últimos anos, deflagrando uma onda de respostas e incitações ao diálogo, num desrecalque de temas e pontos de vista antes improváveis entre nós. Por si só isso já confirma a força, a originalidade e a pertinência (estética, política) do projeto.

Gustavo Silveira Ribeiro

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poesia

“o sistema prende luiz inácio”, por Dirceu Villa

Não era um escritor político; não sou um escritor político. Mas desde o golpe de Estado de 2016, qualquer indiferença da minha parte, qualquer ficção confortável de deixar o tempo passar, e que o tempo decidisse — uma vez que nada tenho com isso e as instâncias políticas me superam em muito, mero poeta —, seria uma falsidade que teria de recitar para mim mesmo todo dia, sem esperança de absolvição da minha própria consciência.

Vivemos tempos extremos, nem todos sabem; e menos ainda têm suficiente clareza de quão extremos. Mas mesmo que não fosse esse o caso, mesmo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse somente um troféu político isolado para aqueles que o perseguem por motivos deixados explícitos desde o capítulo 3 de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, intitulado “Classe, cor e preconceito”, eu teria de abdicar da minha dignidade, como Lula não abdicou da dele, para ficar quieto.

Tive de escrever sobre política desde 2016, a contragosto. Em 2018 deixei a constância desses escritos para me dedicar apenas a um eventual horror novo que ultrapassasse a medida já alta dos nossos horrores. A indignidade Ética, do Direito, da História, da própria decência comum que significa a prisão de Lula, assim como significou a execução de Marielle (a respeito da qual a pergunta sobre o mandante do crime não passa de gesto retórico, porque todos sabem a resposta, em silêncio), ultrapassou todos os limites.

Não escrevi poema sobre, porque poemas não se escrevem sobre: o poema me ocorreu, parte da vida. É registro meu, do desgosto que deveria ser o de cada cidadão e cidadã deste país, assim como tem sido o desgosto de numerosas pessoas, mesmo no estrangeiro. A poesia, como qualquer outra arte, não é um enfeite para a distração dominical: está dentro de tudo o que há, e tem responsabilidade por tudo o que diz.

E eu digo: Lula livre.

Dirceu Villa

* * *

o sistema prende luiz inácio

ungido de flores, lágrimas, foi levado por braços que
mais queriam escondê-lo, escudá-lo do mal a que ele
enfim concordou se entregar. oceano humano impedia
ao grande homem afundar naquela sua noite sombria,

em fumaça de bombas, no fogo das ruas, na farsa da lei.
o mártir apaga o algoz que o mata; voz, mesmo calada,
intacta; as vozes ouvidas agora, amadas agora: de um
horror assassino; e a nação insensata traz nêmesis viva

do fundo escuro de seu sono trágico. posam sorrindo
em armas e efígies de gente enforcada, e o novo prazer
é a morte de tudo o que não é a morte. o homem no
calabouço sorri em sua máscara, sólido ferro; aguarda

sem ódio passar a noite da terra, transe de morte. gregos
antigos se agitam no coro, os deuses apertam as lanças
nas mãos e as parcas se põem a fiar e cortar; poder do
pai ao filho, o da pedra ao ferro, o do cimento ao sangue.

* * *

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 5 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC), Transformador (antologia, 2014), speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (2018) e 1 inédito, couraça (2017). É tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu apresentações para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Fabiano Calixto, Ricardo Aleixo e Jeanne Callegari. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012 e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Participou também do Festival Internacional de Poesía de Granada, na Nicarágua, em 2018, e do Festival Policromia Poetry & Co., em Siena, Itália, 2019. Sua poesia já foi traduzida para o espanhol, o inglês, o francês, o italiano e o alemão, publicada em antologias ou revistas especializadas. Tem doutorado em Literaturas de Língua Inglesa pela USP (com estágio de doutorado em Londres), estudando o Renascimento na Inglaterra e na Itália, e pós-doutorado em Literatura Brasileira, também da USP, revisando o cânone de poesia de língua portuguesa. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é há cinco anos professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária). 

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O Brasil na cena do ódio, por Dirceu Villa

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 4 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) , Transformador (antologia, 2014), de um inédito, couraça (2017) e de uma plaquete inédita, speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (2018), a sair em breve pela editora Corsário Satã. É tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015).

* * *

o inominável

nós fizemos um monstro com duas asas
de colunas dóricas, mas fizemos mais,
fizemos-lhe também um uniforme negro
dos nossos pesadelos, capacete e luvas,
nós o pusemos hierático nos quadros e
creio que o dissecamos em nossos filmes.
nós o compusemos em pedaços de coisas
em tempos diversos, nós o consagramos
com barba comandante e doçura feminina,
ou com crueldade feminina, macheza dócil.
nós o pusemos na escuridão dos cantos
esquecidos das nossas casas, sótão e porão,
entalamos sua cauda pontuda nas estantes,
nós lhe demos de comer comida gorda,
comida magra, nós o deixamos de jejum,
o revelamos em fotos do melhor contraste,
ou mal o discernimos fundido às sombras.
nós o amamos em sua invencível beleza
e o abominamos por sua inaceitável feiúra;
nós lhe demos um nome, mas subitamente
o medo de o dizermos nos paralisou e eis
que o conjuramos apenas e somente sem
o verbo, já perdido, entre a razão e o instinto.

§

homem velho à deriva

                cadáver ou fantasma,
as costas se curvam em um arco,
o rosto cai no queixo em ondas de pele,
a boca, um ponto e pregas como um ânus
e os olhos se revolvem lentos
                como os das tartarugas: também delas,
seu pescoço murcho e erodido, quieto.

o blusão bege se deforma
                nas varas finas, frágeis do não-corpo;
ele pensa ou remói não mais o mundo,
mas a si mesmo: as mãos só ossos,
garras sem força, brancos esforços.
                                duros, pretos, seus sapatos.

§

arrector pili

puxam os músculos ao vosso animal
ele que ri agora do corpo caindo do
helicóptero do corpo varado de balas
na cabeça e mais do que o animal aqui
a sua cauda satânica do inimigo escuro
medieval se insere no material preênsil
dos vossos pés na voz da cabana das
ferramentas onde o anjo triste tortura
o anjo caído e onde o mesmo músculo
pede isolamento doença e insanidade
vos diz som e dor o mesmo músculo
vos faz rir ou retrair o mesmo músculo
do riso ou do ruído insuportável é aí
onde os caninos ainda sobressaem aí
onde a verdade empapada de sangue
jaz nas pessoas boas da cozinha nas
pessoas boas da poltrona nas pessoas
quietas do trabalho tolerado esse mesmo
músculo vosso prazer indizível de matar

brasil fascista, 2018

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4 poemas inéditos de Dirceu Villa (1975—)

Dirceu Villa (1975, São Paulo), autor de 4 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) , Transformador (antologia, 2014) e 1 inédito, couraça (2017). Tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu prefácios para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Ricardo Aleixo e Jeanne Callegari. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012 e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Tem pós-doutorado em Literatura Brasileira, revisando o cânone de poesia de língua portuguesa. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é há três anos professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária). É poeta convidado do Festival Internacional de Poesia da Nicarágua, em 2018.

* * *

cristo pantocrator
de aleppo, mestre melquita

o cristo pantocrator escavado a cor na madeira,
olhos bem arregalados, dedos em sinal de
“lhes direi a verdade, não só a dos livros,
a dos lábios”,
esperto: cabelos repartidos,
hidrocéfalo, quase como o pobre poe,
cristo todo cabeça, novo bizantino,
vermelho & azul como um super-herói.

tuas palavras doces ó senhor dóem &
são o ouro dos hipócritas, aleppo, aleppe:
dante, educado belamente, pouco amante
nada amado, velho político
de más escaramuças contra amigos – daí o ser sensível
aos canalhas traidores.
o tempo, cristo, rói a tua madeira
de eternidade, tua carne, tornas só luz
+ dois alados contigo. teu pai não é um mendigo,
ele manda, ó pantocrator, ele dita tua oratória, ele sabe
todas as línguas, ele tem uma conspícua
cauda em ponta, ó melquita.

§

baby berserk

o amor é sempre uma canção solitária
seus cachos sorrisos os olhos brilhantes
dores nervosas maquiagem octogenária
o templo de ódio shirley jane distantes

oh the good ship lollipop na culinária
mulher ouro rosa colar de diamantes
o mundo material não precisa de pária
atriz menina velha voz dessemelhante

a cadeira de rodas em escadas rolantes
unhas mais longas que sua faixa etária
gravata borboleta de homens de estante
é hora de lhes mostrar a arcada dentária

§

phaenomena meteorologica

boreais, as notáveis auroras
sem rumor no horizonte,
como um grande rosto universal,
o grande cosmos com sardas de estrelas,
luas em pó digestivo, luzes curvas: a língua
de einstein lambe o sorvete do átomo,
a eletricidade penteia seus cabelos pro alto,
brancos como as nuvens hirtas de haarp,
e galos costuram a manhã verde
da preguiça inviolável,
selada a vácuo contra os crimes dos astros.

chove agora quando a dança nos dá
tatanka iyotake: que a dança fantasma
engula os brancos
(buffalo bill sobretudo),
que a dança apague incêndios criminosos,
pague as contas de luz, encante vênus, venerável
enamorada, e urano, pênis usado
no mar para espuma
abrindo a champagne da via láctea
— e todos sorrindo com pérolas.
tatanka iyotake, sentado e dançando.

bohr se aborrece,
a bomba estremece o pacífico, os peixes se espremem,
bóreas no topo do mapa, ainda soprando.
ventilador do planeta
antes da umidade relativa, absoluta
(em buffalo, new york),
antes de franklin contra júpiter;
a aurora boreal segue em silêncio, tesla
nunca tentou uma plantação de chapéus
e sua bobina hoje mergulha numa fatia do horizonte,
como numa cabeça humana.

§

eat drink suckcess
[hypnotic charm]

 

o que eles
farão por isso
o que
eles farão

você não sabe
mas eles
farão o que for
preciso por isso

e o que eles
farão por isso
o que
eles farão

quem sabe
o que eles
farão por isso

sabe que eles
farão o que for
preciso por isso

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3 poemas inéditos de Dirceu Villa

villa escamandro

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 4 livros de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) e Transformador (poemas, 1998-2013), e tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu prefácios para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Ricardo Aleixo e outros. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012, e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária).

* * *

 dois encompassam; paz

o mesmo com os amantes; o mais sem ser
a si mesmo; mão em flores finas no barranco;
quebram ondas abaixo; encontram nuvens
acima; pele lisa de juventude madura agora;

saborear os dias como risos; rios que jorram
da fonte nova; banham nova vida, de brilho;
banham beijos os combates deste amor;
luz de manhã acende as cores no seu rosto;

denso de sono e sexo; denso de sonhos no ar;
caprichosos antes de despertar, boa esperança;
lençol desliza lento; lascas de fruta fazem sol;
penhascos borram o vivo azul; colo agora calmo;

coração, pulso e pescoço; calor inunda a pele;
braços suaves em abraço; seios me estreitam;
tudo nos custa nada; verdade nos lábios; a hora
cresce da margem; em manto e flores; espírito

dois encompassam; dois se encontram; paz.

§

íbex

entre a distância e o estrondo
da montanha, o dorso
delineia o colosso,
curvado na hipnótica espiral
onde tudo se decide:
um clangor, mas silêncio
de paz montada em cascos
e a rocha dura, a sólida
troca de estouros secos
em que se troca a pele
desta quieta e feroz
montanha animal
em rígida pedra.
salta em folhas íngremes
de mineral pontudo
e sempre se empina nas patas
como se músculo só.
procurar o verdor no sol
da aridez vermelha,
que trinca a terra seca
abrindo feridas
no chão áspero, ardendo;
sem medo, porque pedra
se torna entre as pedras:
o precipício venta
e sem tremor se encontra no topo,
em seus chifres, o íbex.

§

cegueiras & visões

ouve então, que estás de novo
em pé sobre a navalha do destino
(Tirésias em Antígone, Sófocles)

oh the humanity
o repórter sem idéias de tragédia
diante da tragédia das idéias

mas nós : nostos : sempre a viagem
mesmo quando à roda deste quarto

ficino para dentro
do secreto escuro timbre
das vogais camonianas
(como viu merquior)
a mente que engendra
o engenho
enquanto o falador
pigmeu literário
propagandeia sua
obra-obituário
e falanges se esmagam
— não deuses, heróis — subhomens otários
em armas, nem homens

traças

nos mapas ginasiais
cada país de uma cor;

não valeriam uma vírgula aos olhos
da condessa oyenhausen-gravenburg
se entretendo à noite
com a musa que teme o dia
e tinha nojo dos despóticos
“medo e vileza”
conheceu mme. du staël & metastasio

sob a lâmpada de diógenes
sentada sorrindo ao sr. pitschmann
enviado especialmente a ver e registrar
esse preciso sorriso,
os olhos vivos e tão doces
o contorno do queixo e dos seios
a quem escape a virtude de seus versos

a condessa de vimieiro
a viscondessa de balsemão, que receia amor
entrevistas dormindo
por olhos que pedem calor
nos corredores de silêncio do convento em chelas

excelente a sua mente
num péssimo tempo

qual tempo seria oportuno?
eu mesmo digo isto
mais de três séculos
depois dela, agora mesmo, nesta folha de papel
na navalha do destino, de novo
kurtz vê o molusco deslizar, sobreviver

e lembro

do 21º batalhão
das duas brigadas
dispostas em três corpos:
sessenta cartuchos, armas, capotes
52 quilômetros a cobrir —
que o brasileiro nunca desiste —
sem homens pra manobras
agora impraticáveis;
sem víveres, pouca munição, peças de artilharia
pesada — tudo se reduz
a uma só brigada
1600 homens mal das pernas

não sem proveito
ao tesouro público

o império não paga sequer
300 mil réis prometidos
que filoctetes perdoa
ao país
taunay anota
piedoso ou irônico

antes de menelik II & dos fuzis
de rimbaud, o rapaz que amávamos
— disse camus —
e da vaca que concordou em ceder-lhe
“alguma palha”
onde dormir

o que esqueceu de tudo, cego,
traindo seus dons com um cinto de ouro
e de armas, sua morte

césar apunhalado no senado
senados traiçoeiros com punhais afiados
(cf. 2016 d.C.)

hécuba cegando polymnestor
os atraídos por tesouros, que as mulheres os ceguem
em vingança

nenhum acaso na lembrança
do amor como da guerra

pausas escandindo
este vazio em filosofia?

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poesia

dirceu villa

dirceu_villa

O poeta Dirceu Villa nasceu em São Paulo em junho de 1998 embrulhado numa capa vermelha que estampava o desenho de um camaleão. É o rei de Inscape e o melhor poeta de que você jamais ouviu falar. Tem poemas traduzidos para línguas nas quais ainda se lê poesia. As crianças o chamam de Medusa, e ele gosta de andar pela cidade porque detestaria ter de dirigir. Também não gosta de telefones nem de grupos em que só há pessoas do sexo masculino. Escreve o mais preguiçoso e duradouro blog da internet, O Demônio Amarelohttp://odemonioamarelo.blogspot.com.br/, porque finge que escreve para uma revista literária.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: Dirceu Villa já marcou presença aqui no escamandro anteriormente como tradutor dos Lustra, de Ezra Pound (clique aqui)

escamandro

           

psicopata superstar

15 minutos gravados a bala no american dream
injetado no sorriso da síndrome de estocolmo:
facas na sombra, forcas no teto, sangue no ralo,
eddie; fitas na juba, mandy; mãos nos ouvidos.

perfil fotográfico dos brancos bonzinhos com cara
de pôster, das boas meninas amáveis cheerleaders
de saia e meia calibre três quartos de ação de graça,
e o peitudo peru mutilado na casa do estupro,

nos gordos bigodes do médio papai na poltrona:
a corte decide te amar, o público compra teu corpo,
te beija na boca e estica o pescoço e te diz “inocente”
e protege o teu choro com riso, teus cães que têm sede

de sangue: chupam sorvetes vermelhos, enxugam
em toalha banheiros e cobrem o corpo com baba.
penduram seus brincos na carne da orelha, o martírio
de todo metal, vermelho grudento agradável de gozo.

(Dirceu Villa)

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crítica, poesia

Alguns poemas sobre mendigos

foto de Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

A ideia me ocorreu outro dia, no ônibus, e me dei conta de que alguns poetas contemporâneos, especialmente poetas que trabalham com a questão da urbanidade e cuja produção muito me agrada, tinham pelo menos um poema sobre a temática do mendigo. Não sei dizer agora o quanto se estuda isso, de fato, se o mendigo realmente constitui um lugar comum recorrente na literatura, mas a curiosidade me pareceu interessante, digna, ao menos, de uma postagem no escamandro. Não lembro de muitas menções na literatura clássica ao mendigo, embora tenha claro nesta memória falha o episódio da Odisseia em que Ulisses se passa por mendigo (com ajuda de Atena) para entrar em Ítaca despercebido, e que os filósofos da estirpe de Diógenes (que morava, como o Chaves, num barril) e Menipo (que deu origem ao gênero literário da sátira menipeia) viviam como mendigos e formavam a escola dos filósofos cínicos (do grego kynos, “cão”). Na literatura moderna, eu sei que Victor Hugo e Shelley têm cada um pelo menos um poema curto e de tom meio sentimental a respeito (“Le Mendiant” e “Summer and Winter”, respectivamente), Castro Alves aproxima a figura do poeta e do mendigo em “Poesia e Mendicidade” (“Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante… / Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.”), Cruz e Souza lhes dedica um poema inteiro, repleto de suas imagens simbolistas e transcendentais, e Baudelaire, em seu “A uma mendiga ruiva”, faz da figura um alvo de sua luxúria imaginada (depois revisita o tema da mendicância nos poemas em prosa de Spleen de Paris). E há também o choque de Manuel Bandeira no poema “O Bicho” (nos comentários), ao constatar que o que fuçava no lixo não era cão, gato ou rato, mas um homem. Já Wordsworth, notavelmente, nos quase 200 versos de seu “The Old Cumberland Beggar”, compõe o que deve ser provavelmente o retrato mais jubilante da figura do mendigo da história da literatura. Wordsworth, “poeta da natureza”, como é chamado, e um dos poucos poetas que escreveram sobre a alegria, vê num velho mendigo – evidentemente um andarilho mais rural do que urbano, comendo seus restos de comida (junto com os passarinhos) ao lado da estrada – a figura do homem natural, um homem em comunhão com a natureza, que foi desde o começo de sua produção o foco de sua melhor poesia. E, mais do que isso, havia também um sentido ético na visão de Wordsworth desse homem natural, na medida em que a situação abria portas para bons atos em relação ao mendigo, atos de caridade que faziam dele, portanto, um veículo de benevolência. É um belíssimo poema de Wordsworth, que esperamos apresentar em breve aqui no escamandro em tradução minha ou talvez do Guilherme.

É claro, no entanto, que, num cenário urbano, as coisas mudam muito de figura. Wordsworth, escrevendo nesse momento muito próximo da modernidade, mas anterior ainda à completa urbanização, teve uma das poucas oportunidades para realmente se escrever poesia séria sobre a natureza (ao passo que o que nos resta hoje é a nostalgia, o bucolismo retirado ou o ativismo ecológico). Poderíamos, talvez, pensar no mendigo no cenário urbano como uma figura que encarna completamente a urbanidade (ainda que, paradoxalmente, eles se encontrem fora do sistema frenético de produção e consumo das cidades) do mesmo jeito que o mendigo rural de Wordsworth pode ser visto como um “homem natural”: a sujeira das cidades se encrusta neles, os lugares que para nós são locais de passagem são onde eles dormem e veem a vida passar, a indiferença que domina a vida empilhada em apartamentos se manifesta neles simultaneamente no modo como se pode vê-los dormir, sem perturbações, debaixo do pleno sol do meio dia, e no modo como a indiferença de boa parte dos passantes faz com que, aos seus olhos, eles sejam não mais do que parte da paisagem (quando não um incômodo ou ameaça). Mas há vida ainda por baixo dos trapos (existem mendigos esquizofrênicos e drogados, claro, mas eu arrisco dizer que a maioria é lúcida, muito lúcida), como uma prova da resistência e persistência do humano – e, algo sombriamente, uma lembrança constante de que qualquer um está sujeito aos riscos de ser engolido pela cidade e tornar-se parte dela à força.

foto por Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

Pensando nisso, preparei uma pequena seleção aqui de poetas contemporâneos que, de maneiras todas muito distintas, abordaram o tema dentro de sua obra. Incluo, então, em ordem alfabética de sobrenome, poemas de: Francisco Alvim, de O Metro Nenhum (2011, Cia das Letras); Fabiano Calixto, de Sanguínea (2007, Editora 34); do nosso colega de escamandro Guilherme Gontijo Flores, do seu livro no prelo Brasa enganosa (2013, Editora Patuá), do Tarso de Melo (cujo último livro comentamos já aqui, enquanto estava no prelo, e já foi lançado), de Exames de Rotina (2008, Editora da Casa), Paulo de Toledo, de 51 Mendicantos, um livro de poemas curtos (de 3 versos apenas cada um), todos inspirados por essa temática (2007, Editora Éblis) e, por fim, Dirceu Villa, de Icterofagia (2007, Editora Hedra). Para dar um aspecto mais focado ao post, desta vez me concentrei especificamente em poetas brasileiros contemporâneos, por isso Wordsworth e Baudelaire ainda vão ter de esperar a sua vez. Provavelmente esqueci alguns nomes para cada um de quem lembrei (mea culpa), mas a internet infelizmente falha conosco nessas horas, e uma pesquisa acabou me levando a poemas absolutamente terríveis.

Não vou me demorar aqui em fazer uma crítica profunda sobre os poemas, até porque falar de cada um daria assunto para páginas e páginas de texto, mas gostaria de apontar neles para algumas coisas de que tratei acima, a fim de, primeiramente, afirmar mais uma vez a diversidade dos modos de tratamento de cada um desses poetas, e, em segundo lugar, demonstrar que não tirei do chapéu as coisas que disse acima. Podemos observar a transformação do homem em mera paisagem no poema fúnebre de Calixto, cuja declaração de que “antes da chuva,  o mendigo / já estava morto” traz sugestões dolorosas de morte em vida em sua apropriação pela cidade, ao mesmo tempo em que o poema de Tarso de Melo aponta para o contrário: “pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos”, uma afirmação da vida que “persiste” (como é o próprio verbo usado pelo poeta no verso final), mesmo nessas condições extremas. Dirceu Villa faz um vívido retrato visual dos mendigos, focado na sujeira e repleto de imagens fortes (como a das árvores secas como “mãos esqueléticas” e a da calçada bebendo os corpos dos mendigos, à noite), algo também explorado pelo Gontijo, ao se concentrar na imagem de um único mendigo (em vez de mendigos) confrontado por um eu (ainda que seja um eu bastante sublimado e ausente no próprio texto), que o destaca sensoriamente da paisagem ao fundo (como se essa paisagem fosse um mar, e o próprio título “ptokhos anadyomenos” ecoa isso, significando, em grego, “mendigo saído do mar”, uma paródia do título da Vênus Anadiômene) e enxerga na cena toda uma visão transcendente. Já o foco de Paulo de Toledo é no humor, trabalhando com o trocadilho (numa das instâncias em que essa técnica, tão explorada já, consegue funcionar e bem) e uma forma de riso que lembra o leitor de que, como parte de sua humanidade, é possível manter o senso de humor na mendicância (o que aparece sobretudo nos poemas do livro que dão voz ao mendigo) como forma de persistência, ao mesmo tempo em que essa ironia acaba ressaltando a situação de negligência e abandono – fazendo com que seja um uso doloroso do humor, especialmente em poemas como “globalizado”. Por último (e primeiro), Francisco Alvim, num poema tão curto quanto os mendicantos do Paulo, acaba, talvez não conscientemente, sendo quem mais se aproxima de Wordsworth, agradecendo a quem lhe pede esmola pela oportunidade de realizar um ato de benevolência, que tira o eu-lírico do poema de seu estado de distração com o mar cinzento e homogêneo da paisagem urbana e o aproxima de uma maior humanidade, enquanto ele próprio no poema humaniza o pedinte – é, talvez, só uma suposição minha, mas me parece razoável – ao dar-lhe um nome próprio, Roberto, e dedicar o poema a ele.

A temática é mendicante, mas, ao que tudo indica, não sofremos, ao menos, de uma indigência de boa poesia.

(Adriano Scandolara)

em-casa-de-menino-de-rua

 

Acontecimento

                                    Ao Roberto

Quando estou distraído no semáforo
e me pedem esmola
me acontece agradecer

(Francisco Alvim)

         *

UMA PAISAGEM DE SÃO PAULO

antes da chuva, o mendigo
já estava morto

(uma flor suja – pétalas
despencando de sua camiseta – sua

única coroa)
antes da morte

o viaduto já abarrotava
antes da enchente

a boca já estava cheia
de sangue, de formigas,

de
granizo

(Fabiano Calixto)

         *

PTOKHOS ANADYOMENOS

quando atravessa a esquina
o olhar como que escapa
do amontoado
                         casa-ambulante
de mantas panos mantras
delirantes
                  que acaso brotam
em seu murmúrio

nos passos emerge & chacoalha
as moedas na mão
                  (que as do bolso se escondem
                  num diverso tilintar)
o seu cheiro resplende
no asfalto
                calando
as olências dos outros perfumes

& desse mar emerge
forjando em seu talhe
a súbita imagem de um monge
            mendicante

(Guilherme Gontijo Flores)

         *

FÓSSIL

pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos,
algo respira embaixo, dentro, através dessa carcaça,
a luz não reflete, o cheiro não chega até aqui, ruído
algum escapa da manta ensopada, da peça de carne
exposta diante da imensa porta fechada da catedral.
depois, apenas depois do último trem, dos últimos
passos, dos últimos olhos e medos e sustos passarem,
algum movimento, urros, alguma nova migração
pelo centro da cidade denunciará o que persiste.

(Tarso de Melo)

         *

o papel do jornal

o vento investe contra o lar do
mendigo e seu teto voa junto
com a manchete: alta do dólar

globalizado

a tv o mendigo olha
na tela o reflexo dele
desculpem a nossa falha

que eme!

no lixão um mesquinho minidicionário
mostra ao mendigo que a miséria
infelizmente vem antes da misericórdia

(Paulo de Toledo)

         *

OS MENDIGOS

Eles imploram diante dos carros,
vivem com ratos nas vias expressas;
erguem barracos entre as árvores
secas de poluição, como mãos esqueléticas.
O sabor da fuligem, o espesso cinzento
dos escapamentos de metal fervente
direto no rosto com fendas de calor:
arrastam trapos que fedem a excremento.
Crianças com cabelos emplastrados;
que olhares mortais na doçura redonda
do rosto! Têm dentes que fraturam um osso.
À noite as calçadas bebem seus corpos,
vultos das bocas-de-lobo e esgotos;
bêbados dormem, coçam os escrotos.

(Dirceu Villa)

PS: para quem chegou agora, há toda ainda uma riqueza de poemas e crítica nos nossos comentários abaixo, com poemas ainda de Fabio Weintraub, Alberto Martins e Alberto da Cunha Melo, cortesia do poeta Rodrigo Madeira.

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crítica, crítica de tradução, tradução

as oferendas de dirceu villa (lustra de ezra pound)

na abertura do lustra (1916) de ezra pound, lemos “Definição: Lustrum: uma oferenda pelos pecados de todo o povo, feita pelos censores ao expirarem cinco anos de serviço, etc.”, que dá boa parte do mote para compreendermos o livro como um todo (embora não tudo que o livro possa fazer, ou sequer metade dos seus problemas), bem como seus poemas. a poesia, aqui, está em função de resgate e compensação pela nossa existência – em geral – medíocre neste planeta. assim, a poesia, num sentido pagão, é o nosso elo possível com o divino ou o mistério, com a potência de renovar este mundo.

eu, porém, prefiro pensar a poesia como as oferendas dadas a todo povo como expiação dos pecados dos deuses; justificativa e celebração estética da vida, compensação pela dor, pelo sem sentido que nos é dado a cada dia. assim gosto de ver também a tradução – uma multiplicação dessa oferenda, na missão delirante de cumprir seu objetivo de oferenda a todo o povo.

esta nota é o resultado das oferendas de ezra pound multiplicadas, tranpostas em poesia por dirceu villa com um bom estudo introdutório, notas bem cuidadas & – sim, o mais importante – poesia. poesia duplicada, bilíngue, digna de ser bilíngue. e digo digna porque temos mesmo um problema na recepção de pound no brasil: a versão completa dos cantos feitas por josé lino grünewald é – apesar do louvor inegável da dedicação & do feito em si, encarar essa rocha de cabo a rabo – é indigna, é talvez um desfavor para pound, um desfavor porque não foi capaz de recriar o turbilhão de vozes, tons, sons, estilos agrupados e condensados pelo poeta norteamericano. em resumo, os cantos, em português, para o leitor que não consegue ler inglês, são um livro grande, difícil e feio, tedioso, uma massa rude e indigesta.

por outro lado, a tradução – ao seu modo recorrente de amostra grátis – dos irmãos campos & de décio pignatari (& também de mário faustino) é um primor; mas um primor em geral voltado para os interesses dos debates concretistas em desenvolvimento na segunda metade do século passado: em resumo, pound, no brasil, virou poeta pré-concreto, il miglior fabbro &c. &c.; ou simplesmente não é poeta (no caso grünewald). nesse cenário talvez nem espante que affonso romano santanna tenha escrito aquele disparate intitulado “o que fazer de ezra pound”, artigo publicado no livro homônimo de 2003. sobre esse artigo, calo-me para evitar o vitupério.

talvez por isso tudo pound seja um poeta tão citado, tão paideuma, & ao mesmo tempo tão, mas tão pouco lido, ou pelo menos bem lido no brasil; a não ser no caso dos seus ensaios (abc da literatura & arte da poesia), com aquela prosa, direto na jugular, do seu pensamento crítico.

A nota se alongou, mas chego ao ponto.

lustra, o lustra de dirceu villa, veio renovar ezra pound.

por ser um trabalho de fôlego de traduzir um livro inteiro, mas com uma tradução digna, poética. por tecer um estudo que amplie o espectro da poesia de pound sem focá-lo nos nichos dos grupos literários nacionais por pensar melhor sobre as relações das vanguardas europeias, americanas & europeico-americanas com o desenvolvimento da poesia de pound; por pensar na(s) sua(s) postura(s) política(s) para além da dicotomia que costumamos ouvir nos botecos acadêmicos: facista (os imbecis) X dane-se, era um grande poeta (os ingênuos, ou preguiçosos). por discutir as relações entre influência chinesa pré-fenollosa & cathay junto com a revisão de walt whitman, o uso do verso longo (afinal, quebrar o pentâmetro foi a primeira ânsia), as leituras da poesia francesa recente, de provençais, italianos, &c. por insistir na importância do epigrama grecolatino em fusão com a descoberta do haicai & somado às propostas do imagismo & do vorticismo. por atentar aos experimentos com o verso livre em poemas longos de tom semiépico. por explicitar o caráter “obsceno” que foi visto na obra ao tempo de seu lançamento. enfim, por tentar dar mais facetas, mais dignidade a pound (por isso deixo de exemplo três poemas por sua variedade). em resumo, por tantos &ceteras.

uma verdadeira oferenda.

ps: além disso, o livro – objeto a quem podemos amar “do amor táctil que votamos aos maços de cigarro” – é uma belezura, lindeza, como tudo que tem saído pela demônio negro. só peca num detalhe, também como sempre: preço. de qualquer modo, eu pagaria tudo outra vez. e mais um – villa merecia partilhar seu nome na capa.

ps2: dirceu villa (1975) é também poeta, com três livros publicados: mcmxcviii (Badaró, 1998), descort (hedra, 2003) e icterofagia (hedra, 2008). mantém o blog o demônio amarelo.

COMISSION

Go, my songs, to the lonely and the unsatisfied,
Go also to the nerve wracked, go to the enslaved by convention,
Bear to them my contempt for their oppressors.
Go as a great wave of cool water,
Bear my contempt of oppressors.

Speak against unconscious oppression,
Speak against the tyranny of the unimaginative,
Speak against bonds.
Go to the bourgeoise who is dying of her ennuis,
Go to the women in suburbs.
Go to the hideously wedded,
Go to them whose failure is concealed,
Go to the unluckily mated,
Go to the bought wife,
Go to the woman entailed.

Go to those who have delicate lust,
Go to those whose delicate desires are thwarted,
Go like a blight upon the dullness of the world,
Go with your edge against this,
Strengthen the subtle cords,
Bring confidence upon the algae and the tentacles of the soul.

Go in a friendly manner,
Go with an open speech.
Be eager to find new evils and new good,
Be against all forms of oppression.
Go to those who are thickened with middle age,
To those who have lost their interest.

Go to the adolescent who are smothered in family –
Oh how hideous it is
To see three generations of one house gathered together!
It is like an old tree with shoots,
And with some branches rotted and falling.

Go out and defy opinion,
Go against this vegetable bondage of the blood.
Be against all sorts of mortmain.

COMISSÃO

Vão, canções, ao solitário e ao insatisfeito,
Vão também ao neurótico, ao escravo por conveniência,
Levem-lhes meu desdém por seus opressores.
Vão como onda enorme de água fresca,
Levem meu desdém por opressores.

Falem contra a opressão inconsciente,
Falem contra a tirania dos sem imaginação,
Falem contra os laços.
Vão à burguesa que morre com seus ennuis,
Vão às mulheres nos subúrbios.
Vão aos muito mal-casados,
Vão aos de fracasso ainda oculto,
Vão à esposa comprada,
Vão à mulher comprometida.

Vão aos de luxúria delicada,
Vão aos de desejos delicados e impedidos,
Vão como praga sobre a estupidez do mundo;
Vão só lâmina contra isso,
Fortaleçam as cordas sutis,
Tragam confiança às algas e aos tentáculos da alma.

Vão de modo amigo,
Vão abertas ao diálogo.
Levem em conta novos males, novo bem,
Sejam contra toda forma de opressão.
Vão aos encrencados na meia-idade,
Aos que perderam o interesse.

Vão ao adolescente sufocado na família –
Ah como é horrendo
Ver três gerações de uma casa reunidas!
É como a velha árvore com brotos,
E com uns galhos podres e caducos.

Vão e desafiem a opinião.
Vão contra essa vegetal sanha do sangue.
Sejam contra todo tipo de mão-morta.

 MEDITATIO

When I carefully consider the curious habits of dogs
I am compelled to conclude
That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man
I confess, my friend, I am puzzled.

MEDITATIO

Quando considero com cuidado os curiosos hábitos dos cães
Sou compelido a concluir
Que o homem é o animal superior.

Quando considero os curiosos hábitos do homem
Confesso, meu jovem, fico perplexo.

THE ENCOUNTER

All the while they where talking the new morality
Her eyes explored me.
And when I arose to go
Her fingers were like the tissue
Of a Japanese paper napkin.

O ENCONTRO

O tempo todo em que falavam da nova moral
Os olhos dela me exploraram.
E ao me erguer para sair
Seus dedos foram como a fibra
De um guardanapo de papel japonês.

(traduções de dirceu villa)

guilherme gontijo flores

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