poesia, tradução

Poesia nórdica | Edith Södergran (1892—1923), por Luciano Dutra

Edith Södergran (n. 4 de abril de 1892 em São Petersburgo na Rússia czarista, f. 24 de junho de 1923 em Raivola, na época pertencente à Finlândia e atualmente parte do território da Rússia), foi uma poeta finlandesa de expressão sueca. Publicou em vida apenas quatro poemários: Dikter (”Poemas”, 1916), Septemberlyran (”A lira de setembro”, 1918), Rosenaltaret (”O altar das rosas”, 1919) e Framtidens skugga (”A sombra do futuro”, 1920). Sua obra poética é completada pelo volume póstumo Landet som icke är (”O país que não existe”, 1925). Ceifada pela tuberculose precocemente (com apenas 31 anos), a poeta que bebeu do simbolismo francês, do expressionismo alemão e do futurismo russo, que misturava Nietzche e Rudolf Steiner, foi uma das primeiras a aplicar o modernismo à poesia de expressão sueca, mas não teve tempo de gozar do reconhecimento e do renome que sua poesia angariou mundo afora. Certamente contribuiu para a fama post mortem da poeta a escassez de informações biográficas e a mitificação da persona Edith Södergran promovida pela amiga Hagar Olsson e pelo primeiro biógrafo, Gunnar Tideström. A poesia de Edith influenciou a imagética, o ritmo e o estilo de livre associação presentes na poesia moderna e também na música popular em língua sueca de ambos os lados da fronteira (Finlândia e Suécia).

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

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PRIMAVERA NÓRDICA

Todos os meus castelos de ar derreteram feito neve,
todos os meus sonhos escorreram feito água,
de tudo o que amei resta-me apenas
um céu azul e um punhado de estrelas pálidas.
O vento se move lentamente entre as árvores.
O vazio repousa. A água cala.
O velho abeto segue acordado e pensando
na nuvem alva que beijou num sonho.

NORDISK VÅR

Alla mina luftslott ha smultit som snö,
alla mina drömmar ha runnit som vatten,
av allt vad jag älskat har jag endast kvar
en blå himmel och några bleka stjärnor.
Vinden rör sig sakta mellan träden.
Tomheten vilar. Vattnet är tyst.
Den gamla granen står vaken och tänker
på det vita molnet, han i drömmen kysst.

§

TRÊS IRMÃS

A primeira irmã amava os doces morangos-silvestres,
a segunda irmã amava as rubras rosas,
a terceira irmã amava as coroas de flores dos mortos.

A primeira irmã se casou:
dizem que se tornou feliz.

A segunda irmã amou com toda a sua alma,
dizem que se tornou infeliz.

A terceira irmã se converteu em santa,
dizem que há de ganhar a coroa eterna da vida.

TRE SYSTRAR

Den ena systern älskade de söta smultronen,
den andra systern älskade de röda rosorna,
den tredje systern älskade de dödas kransar.

Den första systern blev gift:
man säger, att hon är lycklig.

Den andra systern älskade av hela sin själ,
man säger att hon blev olycklig.

Den tredje systern blev ett helgon,
man säger, att hon skall vinna det eviga livets krona.

§

BELEZA

O que é a beleza? — perguntam-se todas as almas —
a beleza é cada excesso, cada brasa, cada saturação e cada enorme infortúnio;
a beleza é ser fiel ao verão e continuar nu até o outono;
a beleza é o atavio de penas do papagaio ou o pôr do sol que prenuncia a borrasca;
a beleza é um traço forte e uma entonação própria: sou eu,
a beleza é um dano enorme e uma procissão silenciosa de tristezas,
a beleza é abano suave do leque que põe em movimento à roda do destino;
a beleza é ser sensual como a rosa ou tudo perdoar só porque o sol brilha;
a beleza é a cruz preferida do monge ou o colar de pérolas que a dama ganhou do seu amante,
a beleza não é a sopa rala de que os poetas se servem,
a beleza é travar a guerra e buscar a felicidade,
a beleza é servir a poderes maiores.

SKÖNHET

Vad är skönhet? Fråga alla själar —
skönhet är varje överflöd, varje glöd, varje överfyllnad och varje stort armod;
skönhet är att vara sommaren trogen och naken intill hösten;
skönhet är papegojans fjäderskrud eller solnedgången som bebådar storm;
skönhet är ett skarpt drag och ett eget tonfall: det är jag,
skönhet är en stor förlust och ett tigande sorgetåg,
skönhet är solfjäderns lätta slag som väcker ödets fläkt;
skönhet är att vara vällustig som rosen eller att förlåta allting för att solen skiner;
skönhet är korset munken valt eller pärlbandet damen får av sin älskare,
skönhet är icke den tunna såsen i vilken diktare servera sig själva,
skönhet är att föra krig och söka lycka,
skönhet är att tjäna högre makter.

§

O INFERNO

Ah como é aprazível o inferno!
No inferno ninguém fala da morte.
O inferno está emparedado nas entranha da terra
e é adornado de flores incandescentes…
No inferno ninguém diz palavras ao léu…
No inferno ninguém bebeu nem ninguém dormiu,
ninguém descansa nem ninguém se senta quieto.
No inferno ninguém fala, mas todos gritam,
lá as lágrimas não são lágrimas e todas as tristezas são inertes.
No inferno ninguém fica doente nem ninguém fica cansado.
O inferno é imutável e eterno.

HELVETET

O vad helvetet är härligt!
I helvetet talar ingen om döden.
Helvetet är murat i jordens innandöme
och smyckat med glödande blommor…
I helvetet säger ingen ett tomt ord…
I helvetet har ingen druckit och ingen har sovit
och ingen vilar och ingen sitter stilla.
I helvetet talar ingen, men alla skrika,
där äro tårar icke tårar och alla sorger äro utan kraft.
I helvetet blir ingen sjuk och ingen tröttnar.
Helvetet är oföränderligt och evigt.

§

A ALMA QUE ESPERA

Estou só em meio às árvores à beira de um lago,
vivo em harmonia com os velhos abetos do litoral
e em secreto pacto com todas as jovens tramazeiras.
Sozinha permaneço deitada e aguardo,
não vi ninguém andar por aqui de passagem.
Flores enormes me espiam do alto de seus pedúnculos,
lianas amargas se aninham no meu colo,
só tenho um nome para isso, e esse nome é amor.

DEN VÄNTANDE SJÄLEN

Jag är allena bland träden vid sjön,
jag lever i vänskap med strandens gamla granar
och i hemligt samförstånd med alla unga rönnar.
Allena ligger jag och väntar,
ingen människa har jag sett gå förbi.
Stora blommor blicka ned på mig från höga stjälkar,
bittra slingerväxter krypa i min famn,
jag har ett enda

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