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23 traduções para um poema de Emily Dickinson (1830-1886), por Matheus Mavericco

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Com Emily Dickinson as coisas não funcionavam bem no sentido de sentar pra, digamos, escrever um livro de poemas ou entupir um com o que se tem à mão. Para quem publicou em vida só sete dos mais de dois mil que escreveu, é possível que a graça estivesse noutra coisa que não o amontoado retangular de celulose.

Tomemos o caso daquele que começa com “A word is dead”. Curiosamente, sua primeira aparição foi em prosa, na parte final de uma carta enviada em 1872 para Louisa e Fannie Norcross, duas parentes da autora:

Thank you for the passage. How long to live the truth is! A word is dead when it is said, some say. I say it just begins to live that day.

Thomas H. Johnson, um dos primeiros a tentar publicar Emily Dickinson mantendo a radicalidade de sua escrita, diz não saber ao certo se o trecho seria uma espécie de pós-escrito à carta ou se excerto de alguma outra. Dúvida que talvez explique o motivo do poema ter sido estampado em prosa quando era prática comum da autora transcrever poemas seus no corpo das cartas.

Uma segunda explicação reside, conforme informado por Adalberto Müller (nota abaixo), no fato de que o manuscrito da carta não existe. É quando entra uma segunda, escrita de Frances Norcross a Mabel Todd, onde a primeira transcreve o poema dispondo-o em quatro versos, exatamente como Adalberto traduz. Ora: se nossa amiga Frances o tratou como poema, e se ela era conhecida de Dickinson, então maravilha, tratemo-lo como tal.

O que ele tem a nos dizer? Sua simplicidade e concisão são admiráveis. Se por um lado tendemos a dizer que a palavra cai morta assim que sai da boca, quase como se a descartássemos, como se a expelíssemos, por outro, seguindo o argumento do poema, é precisamente quando ela é dita que ela passa a viver. Mas que vida é essa a que Dickinson se refere? Todas as palavras do meu texto são assimiladas pela inteligência do leitor, passando, agora, a fazer parte de seu repertório. Ou seja: a partir do momento em que a palavra alcança o outro, a partir do momento em que ela é dita, ela passa a viver em outras pessoas. Não é o que acontece quando, numa briga de casal, um dos lados retira das cinzas uma única expressão ou um simples tom de voz de semanas atrás?

Segundo Richard Sewall, um dos seus melhores biógrafos, o método dickinsoniano consistia n“a intensificação, ou concentração, de significados nas palavras até que reluzissem ‘como nenhuma outra safira’ – ou seja, até que se tornassem, em mútuo suporte e combinação, a Palavra, um poema que pudesse ‘morar em nós’, vivo, uma fusão corpórea entre o significado e (como na vida humana) o mistério”. O autor compara o método a quando Emerson, no ensaio The Poet, diz que “Não há necessidade que um poema seja longo. Toda palavra já foi um poema.”

Realmente. A vida que Dickinson menciona no último verso é muito mais potente do que a vida social da palavra expressa. Vai além do que ela menciona noutro poema admirável, de que o Livro é uma Fragata que nos transporta a Terras longínquas. Quando Dickinson fala da palavra, ela fala do que é experimentado de um modo intenso a ponto de palpável e quase místico, por exemplo quando, ao comentar a passagem bíblica do Verbo fazendo-se Carne, ela retifica e diz que se fez Carne e passou a morar em nós.

E faz sentido que seja. Sewall comenta que quando Dickinson lia literatura, ela comumente o fazia buscando palavras que reluzissem de forma única. Ora: não foi exatamente isso o que fizemos ao destacarmos, de uma singela carta entre familiares, a imensa força encantatória e poética de duas frases, quase como se a repuséssemos em seu ecossistema original? É na poesia que a palavra adquire sua potência máxima e, se quisermos evocar um contemporâneo de Dickinson que certamente gostaria de ouvir o que a poetisa tinha a dizer sobre a Palavra, passa a dar um sentido mais puro às palavras da tribo.

As traduções abaixo agradam a gregos e baianos. Observe como, na de Nelson Ascher e na de Pedro Mohallem, se buscou recriar o fato de que as duas metades do poema, se juntas, compõem um dístico heróico perfeito (a minha consegue algo parecido, só que traduzindo para um verso de doze sílabas). Ou, naquela de Rubens Enderle, veja a importância que o eco bíblico recebe quando revelado para o leitor. Se mantive as várias versões que um único tradutor fez para o mesmo texto, é com o intuito de mostrar as dificuldades do próprio original, a maneira como cada cabeça opera a seu jeito e, em última instância, para que o leitor contemple a exuberância que a tradução representa, muito além da precariedade que muitos ainda insistem em apontar.

Embora a postagem seja essencialmente montada com o intuito de dar espaço àquelas traduções inéditas, várias já foram publicadas, saídas da lavra de tradutores ilustres como Aíla de Oliveira Gomes, José Lira ou Augusto de Campos. Infelizmente não tive acesso a todas, mas, caso o leitor queira saber pelo menos onde procurá-las, pode ficar com o excelente trabalho de pesquisa levado a cabo pelo Departamento de Letras Modernas da UNESP (clique aqui).

Por fim, agradeço a Adalberto Müller por gentilmente ceder sua tradução, que comporá um volume com a poesia completa da autora traduzida. A nota crítica que acompanha a tradução é publicada logo abaixo de seu texto.

 

Matheus Mavericco

* * *

 

A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

F278B / J1212

§

 

Uma palavra morre
Quando é dita –
Dir-se-ia –
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia

(Trad. Aíla de Olveira Gomes)

§

 

Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia.
Eu digo que ela nasce
Exatamente
Nesse dia.

(Trad. Idelma Ribeiro Faria)

§

 

Palavra é morta
Quando está dita,
Dizem uns.
Digo: inicia
A só viver
Em tal dia.

(Trad. José Lino Grünewald)

§

 

Morre a palavra
quando é falada,
dirão.

Digo: – Só então
ela começa a
viver.

(Trad. Abgar Renault)

§

 

Uma palavra morre
ao ser pronunciada
é o que se diz

(flor que se cumpre
sem pergunta)

Digo que é nesse
………….exato dia
que ela começa
………….a viver

(versão de José Lira)

§

 

A palavra morre
Quando ocorre,
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

(Trad. Augusto de Campos)

§

 

Palavra expressa
Extingue e cessa,
Se dizia.
Mas se ela dá-se,
Digo que nasce
Em tal dia.

(Trad. Matheus Mavericco)

§

 

Quanto se expresse
— Dizem — perece
Depressa.
Eu — discordando —
Digo — isso é quando
Começa.

(Trad. Nelson Ascher, 1a versão)

§

 

Palavra expressa
dizem que cessa
sem vida.
Dela, porém,
digo: é recém-
-nascida.

(Trad. Nelson Ascher, 2a versão)

§

 

Palavra expressa,
dizem que cessa
depressa.
Eu, discordando,
digo que é quando
começa.

(Trad. Nelson Ascher, 3a versão)

§

 

DAS PALAVRAS

“Morrem após
calar-se a voz”,
ouvi.
Penso, porém,
que nascem bem
ali.

(Trad. Pedro Mohallem, 1a versão)

§

 

DA PALAVRA

“Perece após
calar-se a voz”,
dizeis.
Digo, porém,
que viva enfim
se fez.

(Trad. Pedro Mohallem, 2a versão)

§

 

Palavra morre
Se lhe ocorre
Ser dita.
Eu não concordo,
Se desse modo
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 1a versão)

§

 

Palavra morre
Se, diz-se, ocorre
Ser dita.
Eu já diria
Que nesse dia
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 2a versão)

§

Palavra morre
Se dita, alguém
Dizia.
Mas, para mim,
Só ganha vida
Tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 3a versão)

§

 

Palavra jaz
se dita, já se
dizia.
Mas dela digo
que ganha vida
tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 4a versão)

§

 

Morta é a palavra
se pronunciada,
decoram.
Eu digo apenas
que ela nascera
nesta hora.

(Trad. Wagner Schadeck)

§

 

“morre a palavra”
– ouvi –
“se dita”

Me ocorre, porém,
que ali
palpita

(Trad. Pedro Almeida)

§

 

O verbo falado,
segundo o ditado,
morreu.

Que digo? Que ele
ainda hoje
nasceu.

(Trad. Rubens Enderle, 1a versão)

§

 

Palavras ditas,
estão prescritas,
disseram.

Que digo? Que elas,
naquele dia,
nasceram.

(Trad. Rubens Enderle, 2a versão)

§

 

Morre a palavra
Quando alguém fala,
Uns contam.

Digo, no entanto,
Que é o dia em que ela
Desponta.

(Trad. Kleiton Muniz)

§

 

Morre a palavra
Quando falada,
Alguém disse.
Digo, porém,
Daí por diante
Que ela vive.

(Trad. Ivan Eugênio da Cunha)

§

 

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(Trad. André Vallias)

§

 

Um mundo fina
se o definem,
dizem.

Digo que só
começa a vida
assim.

(Trad. Guilherme Gontijo Flores)

§

 

A palavra morre, ao ser dita
Diz o povo –
Eu digo que é aí que ela vive
De novo

(Trad. Adalberto Müller)

*

Nota de Adalberto Müller: O manuscrito desse poema enviado a Louise e Frances Norcross, numa carta, no início de 1862, não existe. O poema foi transcrito por Frances Norcross e enviado a Mabel Todd, dessa forma (4 versos). Na carta de Emily às irmãs Norcross, o poema vinha antecedido da seguinte linha: “Obrigado por essa passagem. Quanto demora a vida da verdade!”. Todas as traduções brasileiras seguem um arranjo de versos feito deliberadamente por Thomas H. Johnson (1956, J), corrigido posteriormente por R.W. Franklin (1998, F) e por Cristanne Miller (2016).

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poesia, tradução

Três poemas de Emily Dickinson, por Adalberto Müller

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3 POEMAS DE EMILY DICKINSON

É sempre difícil escolher textos de Emily Dickinson, dentro de um universo de cerca de 1800 poemas. Os três aqui escolhidos apontam para três caminhos de leitura: o primeiro é quase uma carta a Sue Gilbert, amiga de juventude, com quem Emily teve uma relação afetiva intensa, e que acabou se tornando sua cunhada. O segundo, uma pequena joia, apresenta o embate tenso de Emily com a fé: para ela, acreditar em Deus significa poder dialogar com ele em língua de poesia. O terceiro mostra aquele equilíbrio perfeito entre imagem, ritmo e pensamento, que torna a sua poesia tão difícil de ser traduzida. Estas traduções (parte de um projeto em andamento, de traduzir da poesia completa e as cartas) seguem a edição crítica de R.W. Franklin e os manuscritos do Emily Dickinson Archive. O primeiro poema tem 4 versões diferentes. Escolhi a primeira, por ser o que estava na carta enviada a Sue. Respeitei a grafia estranha de algumas palavras tal como usada por Emily (esp. “Buenos Ayre”).

Adalberto Müller

* * *

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Manuscrito com o poema “Your Riches – taught me – poverty!”

Your – Riches – taught me – poverty!
[F418A; J299]

Your – Riches – taught me – poverty!
Myself – a “Millionaire”
In little – wealths – as Girls – can boast
Till broad as Buenos Ayre –
You drifted your Dominions –
A Different – Peru –
And I esteemed – all Poverty –
For Life’s Estate – with you –

Of “Mines” – I little know, myself –
But just the names, of Gems
The Colors – of the Commonest
And scarce of Diadems –
So much – that did I meet the Queen
Her glory – I should know –
But this, must be a different wealth –
To miss it – beggars – so!

I’m sure ‘tis “India” – all day –
To those who look on you –
Without a stint – without a blame –
Might I – but be the Jew!
I’m sure it is “Golconda”
Beyond my power to dream –
To have a smile – for Mine – each day –
How better – than a Gem!

At least – it solaces – to know –
That there exists – a Gold
Altho’ I prove it – just in time –
Its distance – to behold –
Its far – far – Treasure – to surmise –
And estimate – the Pearl –
That slipped – my simple fingers – thro’
While yet – a Girl – at school!

Dear Sue –
You see I remember.
……….Emily
[1862]

Rica – me ensinastes – pobreza!
Eu mesma – com “Donaires”
De dama – que toda Menina –
Ostenta – uma “Buenos Ayres” –
Estendestes teus Domínios –
Ao Peru – Antigo –
Estimei – toda pobreza –
Imóvel de Viver – contigo!

De “Minas” – pouco sei –
Apenas os nomes – das Gemas
As Cores – das mais Comuns
Uns poucos Diademas –
Tanto – que encontrei A Rainha
Devia saber – sua glória –
Mas esta – é uma outra riqueza
Mendigos sabem – a história!

Certo – é uma “Índia” – todo dia –
A quem vê o rosto teu –
Sem parcelas – sem queixas –
Só posso ser – o teu Judeu!
Sei que é uma “Golconda” –
Pra tal sonho – sou pequena –
Ter um sorriso – teu – e sempre –
Muito melhor – que uma Gema!

Ao menos – consola – saber –
Que lá existe – um Ouro
Embora eu saiba, a tempo –
A distância – do Tesouro!
Longe – longe – não agarro –
Esta pérola – não se estima –
Que escorreu-me entre os dedos –
Ainda – na escola – de Menina!

Querida Sue –
Como vês
Eu me lembro.
……….Emily

[1862]

§

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Manuscrito de “Bind me – I still can sing”

Bind me I still can sing
[F1005A; J1005]

Bind me – I still can sing –
Banish – my mandolin
Strikes true, within –

Slay – and my Soul shall rise
Chanting to Paradise –
Still thine –

[1865]

Me ata – canto mesmo assim
Proíbe – meu bandolim –
Toca dentro, de mim –

Me mata – e a Alma flutua
Cantando ao Paraíso –
Sou Tua –

[1865]

§

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Manuscrito de “Time’s wily Chargers will not wait”

Time’s wily Chargers will not wait
[F1498A; J1458]

Time’s wily

Chargers will

not wait

At any Gate

but Woe’s –

But there – so

gloat to hesitate

They will not

stir for blows –

[1879]

Astutos Corcéis do Tempo
Param – e não vão embora –
Na Porta do Tormento –
Nem que lhes metam espora –

[1879]

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crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – parte V

[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (a tradução de Ivo Bender), parte III (Isa Mara Lando), parte IV (Augusto de Campos)]

Retrato tipográfico de Emily Dickinson, por Kenneth Rougeau

Retrato tipográfico de Emily Dickinson, por Kenneth Rougeau (fonte). E, sim, caso ninguém tenha reparado, meio que acho que já usei todos os retratos de época da poeta que eu tinha à disposição.

Para quem ainda lembra, já passou e muito da hora, creio, de retomar esse ciclo de postagens. Depois de vermos uma breve introdução, a tradução de Ivo Bender, a de Isa Mara Lando e de Augusto de Campos, a 4ª que eu tinha ficado de ver era a tradução de José Lira, no volume A Branca Voz da Solidão, publicado pela editora Iluminuras em 2011.

A Branca Voz da Solidão é especial e – aliás, foi isso que me fez demorar mais para enfim tratar dele – é o volume mais longo das traduções da Dickinson, pelo menos de que tenho notícia: são 351 páginas, com 245 poemas. Eles estão divididos em três seções, sobre as quais irei me demorar mais abaixo (é um pouco complicado). É, de fato, um trabalho braçal muito chato o de listar tudo, mas sinto que é preciso, e, sim, eu sei que a lista completa está também no site da UNESP, mas, de novo, tem o problema das seções em que cada poema entra, o que determinou a técnica tradutória utilizada por Lira e que não faz parte da lista da UNESP, porque a análise deles é quantitativa e óbvio esse dado mais detalhado nem é dever deles computar. Diferente das outras vezes, porém, agora eu não vou listar esses poemas aqui, no corpo da postagem, porque são muitos e ia ocupar um espaço considerável, dificultando muito a leitura casual. Em vez disso, organizei a lista (que espero que esteja correta… infelizmente sempre há a possibilidade de erro humano nessas transcrições) num arquivo .pdf que pode ser conferido clicando aqui.

Com isso fora do caminho, podemos agora falar das escolhas tomadas pelo tradutor. Como ele comenta no texto introdutório, essa divisão tripartida deriva, ainda que não necessariamente aderindo de forma estrita às concepções originais, da clássica divisão dos elementos retórico-poéticos determinada por Ezra Pound no ensaio “How to Read” (1927), retomada depois no seu famoso ABC da Literatura (1934), sendo esses elementos: a melopeia (o aspecto sonoro do poema, sua prosódia, ritmo, etc), a fanopeia (as imagens poéticas) e a logopeia (um pouco mais difícil de explicar, mas é “a dança das palavras no intelecto”, algo sobre o que o poeta faz com o sentido). Como aponta o Gontijo num post antigo daqui do blog com várias traduções para o poema do carrinho de mão de William Carlos Williams, podemos pensar a tradução como uma foto (2D, portanto) de uma estátua tridimensional, de modo que “todo original pede um número infinito de traduções”, porque a tradução é feita de escolhas e cada escolha vai priorizar um ou outro aspecto. José Lira entende bem isso e por esse motivo em cada seção de A Branca Voz… ele seleciona e traduz os poemas com base no aspecto que será priorizado neles, pensando dentro da triangulação de Pound.

branca_voz_capaDesta forma, na primeira seção, batizada de “Uma casa lá no alto”, a prática tradutória empregada é a que Lira chamou de recriação, privilegiando a melopeia. Ou seja, nesses poemas ele tenta recriar a dicção dickinsoniana e, me parece, fica mais próximo do metro, além da sintaxe do original, também buscando reproduzir aliterações e outros efeitos. Para sermos minuciosos nesse aspecto, ao que me parece, as recriações de Lira tendem a manter o mesmo número de sílabas por verso (8 no primeiro verso dos dísticos, 6 no segundo, e assim por diante), se valendo das variações e irregularidades de que já comentamos que se pode observar no original. Quanto às rimas, às vezes são perfeitas, mas com frequência ele emprega uma forma de rima toante, que chama de “abreviada”, em que bate a mesma vogal da tônica das palavras finais (e.g. “vela” e “fé”). Depois, na seção seguinte, “Algo detrás da porta”, Lira faz o que ele mesmo chamou de imitações, i.e. traduções que se afastam mais da forma (apesar de ainda manter os travessões e algo das rimas) para priorizar o discurso de Dickinson, os argumentos propostos pelos poemas, sua lógica própria e tal, enfim o que ele tratou por logopeia (apesar de que, como disse e como é exposto no texto introdutório do volume, os termos poundianos são usados de forma algo frouxa, e o Pound, para variar, era um pouco mais severo com o que julgava que caracterizava ao certo a logopeia). Por fim, a última seção, “O coração assíduo”, é a mais breve e trabalha com invenções (creio que vale lembrar que a terminologia recriação-imitação-invenção é própria do tradutor e não derivada de nenhuma teoria específica pré-fabricada), agora descartando por completo a forma original dos poemas para se concentrar na sua imagética (fanopeia, portanto). Nós já vimos um pouco disso no volume de traduções de Lando, que termina com o que ela chama de “faixas bônus”, onde, por exemplo, chega a fazer uma tradução, muito divertida, em versão de fado de “As if the sea should part”. Mas agora Lira faz isso de forma sistemática e visando aplicar um viés mais explicitamente moderno e modernizante sobre as imagens de Dickinson, o que envolve estrofes mais frouxas, uso de verso livre, fragmentação e muitas vezes citações alheias que cortam os poemas, a fim de dar-lhes um aspecto de poesia que poderia ter sido escrita recentemente (pense no trabalho de algumas das traduções mais radicais de Pound, como a sua Homenagem a Sexto Propércio, por exemplo).

No geral, achei que é um modo bastante engenhoso de estruturar o volume e oferecer mais de uma perspectiva sobre a poeta em questão. Talvez tivesse sido interessante, imagino, o exercício de se traduzir um mesmo poema qualquer através dos três enfoques diferentes para demonstrar como cada abordagem afeta as decisões tradutórias tomadas, o que, por sua vez, afeta também a seleção feita, porque se imagina que o tradutor vai incluir cada poema na seção que o favoreça mais, e um poema que fosse altamente melopaico, logopaico e fanopaico (que certamente há de ser encontrado no corpus da poeta), traduzido das três formas, deixaria isso bem claro. Mas óbvio que esse meu comentário é só um “e se…?”, longe de mim criticar aquilo que não está no volume, mas acredito que isso poderia deixar mais fácil para o leitor entender o que está sendo feito aqui. O trabalho de Lira é louvável: como um tradutor mais do que competente, empenhado e de fôlego (é fácil traduzir um ou dois poemas da Dickinson… agora quando alguém traduz mais de 200, há de se tirar o chapéu) e um cara que pensou a fundo sobre a tradução, o seu A Branca Voz da Solidão enriquece e muito a fortuna tradutória de Dickinson em português. Isso é inquestionável, acredito.

No entanto, apesar de ser o volume mais completo, não sei se posso indicá-lo tranquilamente para alguém que nunca leu Dickinson na vida, ao tal leitor médio de poesia, especialmente o que não domina o inglês (pois é, e aqui eu talvez esteja fazendo um mea culpa também, porque às vezes a gente esquece que, a princípio, quando traduzimos algo, temos em mente alguém que não lê o idioma do original, pois, do contrário, ele leria o original) e que não é especialista em matéria de literatura, que não sabe de cor os conceitos de elementos de poesia de Ezra Pound (ninguém é obrigado, afinal). Não dá para saber o quanto essa figura hipotética – o leitor médio, não acadêmico, que nunca leu nada de Dickinson e que não sabe o suficiente de inglês oitocentista para lê-la no original – vai absorver das invenções, por exemplo. A introdução do volume também parece direcionada a alunos de estudos da tradução, discutindo não tanto os temas da poesia de Dickinson ou mesmo sua biografia, mas mais coisas como as minúcias dos problemas textuais (a não-fixação do que seria a versão final de alguns poemas) e as justificativas para as escolhas tradutórias. Mesmo o Ivo Barroso, em comentário para a Folha de 2007 (aqui), resenhando uma versão anterior dessa edição, intitulada Alguns Poemas, parece afirmar algo parecido quando a descreve como “tradução para tradutores”. Não que isso seja uma falha fatal no livro ou qualquer coisa assim, mas, para quem não sabe quem é a Emily Dickinson (como eu mesmo, para dar um exemplo, não sendo leitor do alemão, não tinha lá muita noção de quem era o Heine antes de ler a tradução do André Vallias), talvez fosse mais conveniente começar com uma edição como a do Augusto (e acho que o post inicial deste ciclo de postagens deve ser útil também). Para quem é da área, porém, toda a questão sobre tradução e transcriação e melopeia-fanopeia-logopeia em torno da Dickinson provavelmente renderia um belo trabalho de monografia/dissertação/tese, considerando o quanto essa discussão dá pano para manga.

Dito isso, selecionei 6 poemas (2 recriações, 2 imitações e 2 invenções) engenhosamente traduzidos, a fim de ilustrar o que disse aqui. E, por fim, acho que isso conclui (de forma vergonhosamente tardia, eu sei) a proposta inicial deste ciclo de postagens. Há algumas outras edições de traduções da Dickinson, menos conhecidas, acredito, e que planejo ir comentando também conforme for tendo acesso a elas.

Adriano Scandolara

 

                                    Recriações

 

A luz tem certa Obliquidade
Nas Tardes Hibernais
Que nos oprime, como o peso
De Sons de Catedrais –

Fere com Celeste Chaga –
Não se vê cicatriz –
Mas onde estão os Sentidos
Um íntimo matiz –

É o Selo do Desespero –
Não o explica – Ninguém –
Uma imperial angústia
Que pelo Ar nos vem –

Chega – a Paisagem fica à escuta –
As Sombras – a arquejar –
Parte – é assim como na Distância –
A Morte nos mirar –

 

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons –
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes –

Heavenly Hurt, it gives us –
We can find no scar,
But internal difference –
Where the Meanings, are –

None may teach it – Any –
‘Tis the seal Despair –
An imperial affliction
Sent us of the Air –

When it comes, the Landscape listens –
Shadows – hold their breath –
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death –

 

O Éden é aquela velha Casa
Que ocupamos na vida
E não se dá por residência
Até nossa partida.

Tão belo o Dia, na lembrança,
Que da Porta nos vamos –
Sem darmos conta do retorno
Nunca mais a achamos.

 

Eden is that old-fashioned House
We dwell in every day,
Without suspecting our abode
Until we drive away.

How fair, on looking back, the Day
We sauntered from the door,
Unconscious our returning    
Discover it no more.

 

                                    Imitações

A Incerteza – é mais Cruel que a Morte –
A Morte – por mais ampla –
É a Morte só, não há como aumentá-la –
Incerteza – não cansa –

Mas morre – e volta à vida novamente –
E morre – e outra vez nasce –
Um Aniquilamento – arraigado
À Imortalidade –

 

Suspense – is Hostiler than Death –
Death – tho’soever Broad,
Is Just Death, and cannot increase –
Suspense – does not conclude –

But perishes – to live anew –
But just anew to die –
Annihilation – plated fresh
With Immortality –

 

Lá fora as coisas não são diferentes –
As Estações – se escoam –
Enfloram-se as Manhãs no Meio Dia
E abrem Botões de Fogo –

Flores selvagens iluminam Bosques –
Não sossega o Riacho –
O Sabiá não baixa o som do Banjo
Ao Calvário que passa –

O Auto da Fé e o Dia do Juízo
Nada são para a Abelha –
É a separação da sua Rosa
Que na Miséria a deixa –

 

It makes no difference abroad –
The Seasons – fit – the same –
The Mornings blossom into Noons –
And split their Pods of Flame –

Wild-flowers – kindle in the Woods –
The Brooks slam – all the Day;
No Black bird bates his Banjo –
For passing Calvary –

Auto da Fe – and Judgment –
Are nothing to the Bee –
His separation from His Rose –
To Him – sums Misery –

 

                                    Invenções

É claro que rezei
mas Deus não me prestou
a menor atenção

  (Deus ó Deus
    onde estás)

Foi como se um passarinho
batesse o pé no céu
  e gritasse
  “ME DÁ”

  Minha vida a razão
eu só devo essas coisas a você
  mais consideração
era repor meus átomos no pó
um mudo nada mas feliz
  não esta aguda
  aflição

 

Of Course – I prayed –
And did God Care?
He cared as much as on the Air
A Bird – had stamped her foot –
And cried “Give Me” –
My Reason – Life –
I had not had – but for Yourself –
‘Twere better Charity
To leave me in the Atom’s Tomb –
Merry, and Nought, and gay, and numb –
Than this smart Misery.

 

Ato I
    o encontro
Ato II
    a perda
Ato III
    a expedição em busca
    do Tosão de Ouro
Ato IV
    nada é descoberto
Ato V
    nada de argonautas
    nada de Tosão
    nada de Jasão
        (The End)

Finding is the first Act
The second, loss,
Third, Expedition for
The “Golden Fleece”

Fourth, no Discovery –
Fifth, no Crew –
Finally, no Golden Fleece –
Jason – sham – too.

(poemas de Emily Dickinson, tradução de José Lira)

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crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – parte IV

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[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (a tradução de Ivo Bender), parte III (Isa Mara Lando), parte V (José Lira)]

Imagino que, dentre quem vem acompanhando este ciclo e ainda não se enfastiou da minha verborragia, deva haver quem esteja ansioso para que eu chegue logo na tradução de Augusto de Campos. Para Augusto, Dickinson é já amor velho, como se diz. No seu Anticrítico, publicado em 1986, ele havia já dedicado uma seção do livro a ela, onde traduziu 10 de seus poemas (vide aqui ) e, na “prosa porosa” que caracteriza os poemas-ensaios introdutórios a cada um dos poetas traduzidos neste volume, Augusto diz o seguinte de Emily:

no reino das letras e artes
onde as vaidades e os exibicionismos
conhecem todos os truques
(…)
fenômenos como o de emily dickinson
chegam a ser quase incompreensíveis

(…)

mulher-poeta
foi vítima de dupla discriminação
por ser mulher
e por ser poeta
original e intransigente

a densidade
de sua linguagem poética
a faz mais atual do que a de whitman
nenhum poeta norte-americano
(nem mesmo emerson ou poe)
tinha levado tão longe
a elipse e a condensação do pensamento
ou a ruptura sintática
até a pontuação foi por ela liberada
travessões interceptam os textos
substituindo vírgulas e travessões
e dando aos poemas
uma fisionomia fragmentária
já totalmente moderna

 

E assim por diante.

Mais recentemente, em 2008, Augusto retomou o trabalho com Dickinson e compôs um volume intitulado Não Sou Ninguém (editora da Unicamp), com 45 poemas, contando os 10 já presentes no Anticrítico, mais 35 outros. Essa seleção consiste nos seguintes poemas (os publicados anteriormente estão aqui marcados com um asterisco): “There is a word”, “A sepal, petal, and a thorn”, “We lose – because we win” (*), “If recollecting were forgetting” (*), “Success is counted sweetest” (*), “Our share of night to bear”, “‘Tis so much joy! ‘Tis so much joy!”, “Safe in their Alabaster Chambers”, “I held a Jewel in my fingers” (*), “I felt a Funeral, in my Brain” (*), “I’m Nobody! Who are you?” (*), “We play at Paste”, “Much Madness is divinest Sense”, “I died for Beauty”, “Beauty – Be not caused – It Is”, “Some such Butterfly be seen”, “I fear a Man of frugal Speech -“, “Delight – becomes pictorial -“, “Me from Myself – to banish -” (*), “Pain – has an Element of Blank -“, “I dwell in Possibility”, “As if the Sea should part”, “Publication – is the Auction”, “I could not drink it, sweet”, “Banish Air from Air -” (*), “These tested Our Horizon -” (*), “Drab Habitation of Whom?”, “I hide myself within my flower”, “Pain – expands the Time”, “Death is the Dialogue between” (*), “The Opening and the Close”, “Too scanty ‘twas to die for you”, “Best Witchcraft is Geometry”, “The Voice that stands for Floods to me”, “Great Streets of silence led away”, “Because my Brook is fluent”, ” A word is dead”, “The Riddle we can guess”, “So proud she was to die”, “In this short Life”, “Yesterday is History”, “The Mushroom is the Elf of Plants”, “Could mortal lip divine”, “A Dimple in the Tomb”, “Fame is a bee”.

"In this short Life / that only lasts an hour / How much — how little — / is within our power" E nós cá crentes de que escrever poesia em guardanapo de boteco era muito marginal, muito moderno

“In this short Life / that only lasts an hour / How much — how little — / is within our power”
E nós cá crentes de que escrever poesia em guardanapo de boteco era muito marginal, muito moderno

Eu venho insistindo nisso de qual é a seleção dos poemas feita pelo tradutor de cada volume por causa de uma coisa interessante e que talvez não seja óbvia para todos, que é o ato crítico embutido na atividade da tradução de poesia. O que eu quero dizer com um ato crítico? Pensemos num crítico literário. Não é fácil definir qual é o papel do crítico, mas me parece algo claro qual efeito ele de fato obtém sobre a recepção de um autor. Ao meu ver, os bons críticos são os que focam obras que lhes interessam e são capazes de elucidá-las expondo o porquê de essas obras merecerem a atenção que lhes está sendo dada – e os melhores são os que conseguem lançar um novo olhar, mais interessante, sobre um poeta já batido ou até mesmo ressuscitar tradições inteiras, como foi feito por Eliot & cia. com os poetas metafísicos no século XX (ainda que esse revival tenha vindo às custas de outros poetas, como Milton e os românticos). Enquanto isso, os maus críticos lançam elogios genéricos, não elucidam nada, e tudo que dizem parece valer para qualquer outro poeta (especialmente quando jogam trocentos outros nomes na resenha, não para traçar algum paralelo útil para a elucidação, mas como forma de conceder um selinho Inmetro de “boa poesia” ou certificado de pedigree, tipo wow, esse cara vem da tradição de Baudelaire, Mallarmé, Rilke, Eliot e Pound, que linhagem excelente!), e os piores eu creio que sejam os que se dedicam longamente à crítica destrutiva. A crítica negativa só é uma imposição ao resenhista pago, como é o caso do crítico de jornal, cujo próprio trabalho (remunerado, espero) é elaborar um comentário breve sobre tudo aquilo que os editores lhe mandam resenhar, independente das qualidades (ou ausência de) daquilo que está sendo lido. E, ainda que eu (confesso) me divirta muito lendo críticas sarcásticas, me parece que o apelo desse gênero deriva mais das suas semelhanças com o que parece ser um tipo erudito de stand-up comedy do que com a crítica literária de fato. E é claro que é importante apontar as falhas mesmo na obra de autores importantes (e as falhas nos ensinam muito sobre o que funciona ou não na literatura), mas a vida é curta demais para se gastar tempo e esforço com maledicências, e eu concordo com o que diz Shelley no prefácio ao seu Prometeu Desacorrentado: “Quaisquer talentos que uma pessoa possa possuir para divertir e instruir os outros, irrisórios como possam ser, devem ser por ela exercidos: se essa tentativa for ineficaz, que o castigo de um propósito não-cumprido seja o suficiente; que ninguém se perturbe em cumular o pó do esquecimento sobre seus esforços; a nuvem que levantam trairá sua sepultura, que poderia, de outro modo, ser desconhecida”. O melhor a fazer com a má poesia, creio, é relegá-la ao esquecimento, e isso é impossível se o crítico insistir em mencionar de novo e de novo e de novo o nome de um poeta que ele queria que saísse de cena. Há usos mais produtivos do seu tempo.

Então, o que há de crítico no ato tradutório? Pois, se o que o crítico faz é elucidar e selecionar os poetas que ele acredita que as pessoas deveriam ler – e, dentro do contexto da obra desses poetas, qual a sua faceta mais importante –, logo o trabalho do crítico e do tradutor de poesia (o tradutor de prosa é um caso à parte, porque geralmente é contratado por uma editora que já tem planos, bem como também os direitos, de publicação de determinado autor, e por isso ele costuma ter menos autonomia) passam a ser muito próximos. Nenhum tradutor tem mundo e tempo o suficiente para dar conta de traduzir tudo que lhe atrai, por isso é preciso escolher quais autores traduzir e quais poemas traduzir desses nomes. É evidente que há questões práticas em jogo: a facilidade ou dificuldade da linguagem do autor, a existência ou não de traduções anteriores, a questão dos direitos autorais (é mais fácil publicar uma obra de um autor em domínio público do que um autor vivo, e infinitamente mais fácil publicar um autor vivo e comunicável do que um recentemente morto, dado o pé-no-saco que costumam ser os herdeiros, com raríssimas exceções), mas elas são periféricas em relação à importância maior dessa questão de seleção. Para fazer uma comparação bestíssima, é como se o tradutor fosse um tipo de bombeiro num museu em chamas (para o propósito do símile, tinha que ser um museu… a princípio era uma casa, que dava um exemplo menos afetado, mas ninguém se arrisca para salvar os pertences de uma casa em chamas), tentando salvar o maior número possível de obras antes que a estrutura inteira seja consumida, e por isso escolhas precisam ser feitas: a obra completa de tal autor ou obras parciais de vários autores? um autor mais difícil ou vários autores mais fáceis? um autor que muita gente já traduziu ou um desconhecido que merecia ser mais lido? dedicar-se longa e arduamente à tradução de poesia ou ganhar dinheiro? Enfim.

Os tradutores irresponsáveis traduzem qualquer coisa de qualquer jeito, e isso tem um impacto muito negativo sobre os autores traduzidos, mas é evidente que Augusto de Campos não é um deles. De qualquer forma, ele e seu irmão Haroldo são um bom exemplo para demonstrar a importância do enfoque na trajetória como tradutor: ambos tinham talento para traduzir com maestria o que bem quisessem e optaram não por traduzir obras completas (com a única exceção sendo, posteriormente, a Ilíada, de Haroldo) mas por poder dar ao público brasileiro uma amostra razoável de um grande número de poetas: Dante, Mallarmé, Goethe, Maiakóvski, cummings, Pound, Joyce, Rimbaud, Rilke, Gertrude Stein, Hopkins, etc. Já a opção de Carlos Alberto Nunes, para citar um contra-exemplo, foi o completo oposto, preferindo se dedicar à tradução de obras completas, como a de Shakespeare, Platão e a Ilíada e Odisseia. E, com sorte, é isso que dá para fazer em uma vida.

Essa é uma boa ocasião para trazer à tona esse tipo de discussão, porque, ao que tudo indica, Augusto é um dos tradutores que mais têm consciência disso, como nos deixa claro o seu Anticrítico, um livro que tem seu cerne justo nesse ato crítico, ou, bem, anticrítico (porque é o oposto da crítica literária, sobretudo à crítica literária no mau sentido da palavra, a “dialética da maledicência”), da tradução poética. Voltando ao caso da tradução de Ivo Bender, por exemplo, me parece claro que, onde Bender tira o corpo fora na questão dos travessões (segundo ele, a função deles em Dickinson “ainda está por ser definida pela crítica”), Augusto afirma enfaticamente sua presença como crítico-tradutor com a sua interpretação: “travessões interceptam os textos / substituindo vírgulas e travessões / e dando aos poemas / uma fisionomia fragmentária / já totalmente moderna”, uma leitura que ele mantém, anos depois, no ensaiozinho introdutório ao Não Sou Ninguém (“traços ou travessões que interceptam os textos, no lugar da pontuação convencional, e que acenam com pausas e recortes sintáticos significativos e imprevistos”), uma introdução, diga-se de passagem, muito iluminadora, focada principalmente sobre os poetas a quem Dickinson teve ou não acesso e os ecos que a sua poesia encontra no século XX. Detalhes mínimos, porém reveladores.

capa-não-sou-ninguémVoltando à questão de qual foi a seleção feita por Augusto, eu diria que ela me parece bastante pautada por uma questão de representatividade, visto que vários dos poemas que ele traduziu são emblemáticos de Dickinson e figuram na lista dos mais traduzidos (aqui). E, no geral, ela me parece mais bem arquitetada do que a de Bender e menos focada num certo tom de delicadeza como é a tradução de Lando, com os poemas de amor e as abelhas e pequenas criaturas do jardim, e mais preocupada com questões, digamos, existenciais (há 10 poemas em comum entre as seleções dos dois tradutores, porém). Não é uma seleção longa – é a mais breve das que eu tenho em minha coleção aqui –, mas me parece que um leitor que não conheça a poeta há de ter uma boa noção geral do que é o estilo de Dickinson, na medida, é claro, em que é possível abstrair qualquer noção disso a partir de um corpus de ~2,6% do total da obra – e, acredito, mesmo o número total de títulos traduzidos de Dickinson para o português não deva exceder uma porcentagem muito superior a essa. Há, ainda assim, espaço para um ou outro poema que só Augusto traduziu (como “‘Tis so much joy!”) ou, então, traduzido só por ele e apenas um dos outros tradutores (“The Mushroom is the Elf of Plants”). Outro elemento que ele parece ter privilegiado na sua abordagem, como não poderia faltar no caso de um poeta/tradutor tão virtuosista como ele é, foi o do jogo de palavras, conforme Augusto destaca, num dos parágrafos da introdução, que “Emily é exímia em jogos vocabulares”. Em “There is a word / That bears a sword”, por exemplo, com um acréscimo de um ‘s’ a palavra (word) se arma com uma espada (sword), versos que Augusto verte por “Uma palavra se abre / como um sabre”, e assim por diante, deixando claro que, em sua seleção, houve uma preferência pelos poemas em que algum virtuosismo formal pudesse ser demonstrado – justo o tipo de poema de que a maioria dos tradutores foge ou que, quando traduzidos, a tradução tende a passar por cima desse tipo de efeito.

Aliás, tamanho é o virtuosismo de Augusto que, eu diria, ele parece ter muito mais rigor formal do que a própria Dickinson. Onde, como temos visto desde o começo aqui, Dickinson relaxa no metro e chega a empregar rimas apenas nos versos pares de cada estrofe (e muitas vezes rimas imperfeitas), Augusto se vale de um metro mais rigoroso e quase sempre faz questão de rimar todos os versos na estrofe (exceto no caso dos poemas estruturados de outra forma que não quartetos), muitas vezes com rimas engenhosas – nada de entupir de -ão e -ar.

Como era de se esperar, os resultados obtidos estão acima de qualquer suspeita… exceto em um único exemplo – e valham-me os deuses, porque eu estou prestes a reclamar de algo num trabalho do Augusto. É meio constrangedor para mim (especialmente para mim que, de fato, não sou ninguém) apontar para algum problema aqui, mas seria desonesto que eu o avistasse e não o mencionasse, por isso digo que num momento, no poema “The Mushroom is the Elf of Plants”, Augusto acaba pesando a mão:

The Mushroom is the Elf of Plants —
At Evening, it is not —
At Morning, in a Truffled Hut
It stop upon a Spot

O Cogumelo — à Noite —
É o Gnomo da Floresta — e
De Dia, Trufo-Travesti,
Estaca, um Toco.

 

Ele mantém com graciosidade o jogo de palavras em “stop upon a Spot” com “Estaca, um Toco”, mas parece que entrou de gaiato ali no verso anterior a palavra “travesti”. Acho que dá para entender o que seja um “trufo-travesti”  – pelo menos vagamente… um trufo que se traveste de gnomo? um toco que de noite vira outra coisa? ok, confesso que não sei ao certo e, o que quer que esteja sendo dito, no momento em que aparecem travestis no poema, é como se uma drag queen (a Divine, talvez, fantasiada aqui tematicamente de cogumelo) entrasse cantando e roubasse a cena – o que, apesar de uma imagem mental divertida, imagino que não fosse bem o que o poema de Dickinson quisesse dizer. Mas enfim, trata-se de um pequeno deslize ao qual estamos todos sujeitos. No mais (para sermos breves na rasgação de seda), sentimos que a única falta deste volume mesmo é não ser mais extenso.

(Adriano Scandolara)

 

O Sucesso é mais doce
A quem nunca sucede.
A compreensão do néctar
Requer severa sede.

Ninguém da Hoste ignara
Que hoje desfila em Glória
Pode entender a clara
Derrota da Vitória

Como esse — moribundo —
Em cujo ouvido o escasso
Eco oco do triunfo
Passa como um fracasso!

 

Success is counted sweetest
By those who ne’er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.

Not one of all the purple Host
Who took the Flag today
Can tell the definition,
So clear, of Victory!

As he, defeated — dying —
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Burst agonized and clear!

*

A Dor — tem Algo de Vazio —
Não sabe mais a Era
Em que veio — ou se havia
Um tempo em que não era —

Seu futuro é só Ela —
Seu Infinito faz supor
O seu Passado — que desvela
Novos Passos — de Dor.

 

Pain — has an Element of Blank —
It cannot recollect    
When it began — or if there were
A time when it was not —
 
It has no Future — but itself —
Its Infinite contain
Its Past — enlightened to perceive
New Periods — of Pain.

*

Esses testaram o Horizonte —
E desapareceram
Pássaros antes de cumprir
A Latitude.

Nossa Retrospectiva Deles
Prazer pousado,
Nossa Antecipação
— Dúvida — Dado —

 

These tested Our Horizon —
Then disappeared
As Birds before achieving
A Latitude.

Our Retrospection of Them
A fixed Delight,
But our Anticipation
A Dice — a Doubt —

*

Morrer por ti era pouco.
Qualquer grego o fizera.
Viver é mais difícil —
É esta a minha oferta —

Morrer é nada, nem
Mais. Porém viver importa
Morte múltipla — sem
O Alívio de estar morta.

 

Too scanty ‘twas to die for you,
The merest Greek could that.
The living, Sweet, is costlier —
I offer even that —

The Dying, is a trifle, past,
But living, this include
The dying multifold — without
The Respite to be dead.

*

Nesta Vida tão breve
De que nos dão só um gole
Quanto — quão pouco — está
Sob o nosso controle

 

In this short Life
that only lasts an hour
How much — how little —
is within our power

(Emily Dickinson, traduções de Augusto de Campos)

Padrão
crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – Parte III

emily-dickinson-3

[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (sobre a tradução de Ivo Bender), parte IV (Augusto de Campos), parte V (José Lira)]

E o trabalho continua.

Hoje voltaremos nossas atenções para a edição de Isa Mara Lando, Loucas Noites / Wild Nights. Para esta postagem, eu gostaria de agradecer à Amanda Zampieri, que me fez o gesto amabilíssimo (sim, o trocadilho aqui é intencional) de me enviar o seu próprio exemplar de presente, para a biblioteca do escamandro. Obrigado, Amanda!

Uma edição bancada pela própria tradutora, o Loucas Noites (2009) é um volume dos mais difíceis de se achar – não consta nenhum exemplar, por exemplo, na Estante Virtual, e o projeto da UNESP não o contabiliza em sua bibliografia – , mas, como nos diz o seu prefácio, ele é, na verdade, uma revisitação de um livro um pouco mais velho de Lando, Fifty Poems / Cinqüenta Poemas (Imago / Alumni, 1999, este ainda disponível na Estante Virtual). A diferença entre ele e a sua encarnação anterior é a substituição de alguns poemas selecionados (há 15 deles em Cinquenta Poemas que não se encontram em Loucas Noites, que totaliza 48 poemas, e, pela lógica, há de ter substituído esses 15 poemas por outros 13) e o acréscimo de uma seção no final em que Lando expõe e argumenta, brevemente, sobre como cada poema foi traduzido, justificando suas escolhas e muitas vezes expondo suas dificuldades com a tradução. Ainda que seja provável que o leitor médio não vá se beneficiar muito dessa discussão, para o leitor com domínio parcial do idioma (do tipo que entende alguma coisa, mas se sente inseguro para leitura de literatura) ou para os tradutores de poesia iniciantes (que têm muito o que aprender vendo os pormenores da atividade), esse tipo de exposição é inestimável – o que faz com que a raridade do volume seja realmente uma pena. No final, sob a seção intitulada faixa-bônus, Lando faz ainda algumas brincadeiras mais livres sobre a poesia de Dickinson, inclusive transformando o “As if the sea should part” num fado, não resistindo ao apelo notavelmente português da temática e tratamento do poema, um apelo que Augusto de Campos também nota, como veremos na próxima postagem (cenas do próximo capítulo).

A seleção feita por Lando consiste nos seguintes poemas, em ordem alfabética: “A little Madness in the Spring”, “A sepal, petal, and a thorn”, “Answer July –” , “As if the Sea should part”, “Beauty – Be not caused – It Is”, “Bee! I’m expecting you!”, “Take all chances from me”, “By Chivalries as tiny”, “‘Faith’ is a fine invention”, “Fame is a bee”, “‘Hope’ is a thing with feathers – “, “How slow the Wind”, “I died for Beauty”, “I fear a Man of frugal Speech – “, “I had been hungry, all the Years”, “I held a Jewel in my fingers”, “I many times thought Peace had come”, “I never hear the word ‘escape'”,  “I’m Nobody! Who are you?”, “I’ve seen a Dying Eye”, “If I can stop one Heart from breaking”, “If I shouldn’t be alive”, “It’s all I have to bring today”, “It’s such a little thing to weep – “, “Look back on Time, with kindly eyes”, “Love – thou art high”, “Much Madness is divinest Sense”, “My friend must be a Bird, “My River runs to thee”, “On this wondrous sea”, “Our lives are Swiss”, “Papa above!”, “Pass to they Rendezvous of Light”, “Success is counted sweetest”, “Surgeons must be very careful”, “That such have died enable Us”, “The Bee is not afraid of me”, “The Dying need but little, Dear”, “The Heart asks Pleasure – first -“, “The name – of it – is ‘Autumn'”, “The words the happy say”, “This is my letter to the World”, “To make a praire it takes a clover and a bee”, “Too scanty ‘twas to die for you”, “What Inn is this”, “Whether my Bark went down at Sea”, “Wild Nights! – Wild Nights -“. Os poemas inclusos em Cinquenta Poemas que não constam aqui, a julgar pela listagem do projeto da UNESP, são “Over the fence –”, “I reason, Earth is short –”, “Of Course – I prayed –”, “They dropped like Flakes –”, “I took my Power in my Hand –”, “To fill a Gap”, “Afraid! Of whom am I afraid?”, “I asked no other thing –”, “Publication – is the Auction”, “Alter! When the Hills do –”, “Presentiment – is that long Shadow…”, “How still the Bells in Steeples stand”, “The Pedigree of Honey”, “Lightly stepped a yellow Star”, “Nature rarer uses Yellow”.

Emily_Dickinson_'Wild_nights'_manuscript

Manuscrito do poema “Wild Nights”

Se arrisco dizer algo, ainda que algo extremamente vago, sobre a seleção feita aqui, é que ela parece ter como foco a delicadeza de Dickinson, os poemas sobre coisas miúdas, as abelhas (muitos poemas sobre abelhas), as flores, as moscas, os passarinhos, duendes, tudo que habita o jardim – e lembremos, Dickinson tinha uma verdadeira paixão pela botânica e dedicação ao seu herbário, que parece ter sido a principal faceta que Lando quis nos apresentar. Além disso, estão inclusos também alguns poemas amorosos e clássicos dickinsonianos como “I died for Beauty”, “Success is counted sweetest”,  “I’m Nobody! Who are you?” e “This is my letter to the World”.

Quanto à tradução em si, o projeto de Lando é bastante diferente do de Bender, que vimos na postagem anterior. Bender tinha como seu principal enfoque a semântica dos poemas, evitando dispensar o conteúdo informativo (eu enfatizo aqui o informativo em vez de usar só o termo “conteúdo” de forma genérica, porque acredito piamente que o o conteúdo, de fato, como um todo, é a soma do sentido com a forma). Já Lando demonstra uma grande preocupação com os aspectos formais, chegando às vezes muito perto, inclusive, das soluções de Augusto de Campos, no caso de um poema como “I’m Nobody!”. Ainda que nem sempre consiga manter um número de sílabas por verso tão próximo ao original, há, via de regra, um maior cuidado com a métrica, evitando-se, sempre que possível os versos excessivamente longos. Não é o mesmo rigor formal absoluto que veremos em breve na tradução de Augusto, mas fica evidente que Lando tem um ouvido bastante atento aos elementos que compõem os poemas, e, por isso, ao que tudo indica, ela me parece mais feliz, no resultado geral, do que o que vimos com a tradução de enfoque mais puramente semântico. Eu arriscaria dizer que a postura de Lando é algo como um meio de caminho, talvez, entre esse enfoque e a abordagem do maior rigor formal.

Uma última coisa que eu gostaria de comentar aqui é o repertório de recursos de que Lando se vale ao longo do livro. Quando traduzimos poemas individualmente, imagino que a tendência geral (e não só mau hábito meu, espero) seja determinarmos de forma ad hoc quais são as técnicas válidas para a tradução, já que elas serão aplicadas apenas naquele poema em específico. No entanto, quando temos diante de nós um projeto maior, como um livro de 40 e poucos poemas, é importante deixar essas coisas claras já de antemão (para se fazer uma comparação, meio besta talvez, é como se isso fosse a organização de uma caixa de ferramentas ou os instrumentos cirúrgicos de um médico antes da operação) de forma a garantir um efeito de continuidade e coesão ao longo do volume, sem o qual corre-se o risco de passar uma impressão de relaxo ou de arbitrariedade, tipo “traduzi assim porque eu quis” ou “ah, comecei traduzindo com mais rigor, depois deu preguiça”. E assim, observando quais métodos fazem parte da caixa de ferramentas de cada tradução,  é mais ou menos esse o mapa que desejo esboçar aqui com esse ciclo de postagens, ainda que eu não possa no momento dar a esse trabalho a profundidade que ele merece.

Pensando nisso, então, há pelo menos dois métodos dignos de nota aqui empregados por Lando: o primeiro é que, conforme necessário, ela se permite alterar o esquema de rimas. Se o ballad meter de Dickinson emprega o esquema x-a-x-a (menciono o ballad meter de Dickinson aqui em específico, porque no de alguns outros poetas, como Wordsworth, pode-se ver rimas em todos os versos, em esquema a-b-a-b, o que é um pouco mais difícil de traduzir de forma satisfatória), Lando acha apropriado, por exemplo, em “I’m Nobody!”, trocar o esquema de rimas para x-x-a-a, o que não é nenhum grande deslocamento, como podemos ver, e funciona muito bem. O outro recurso de que ela se vale é a não obrigatoriedade de certos poemas em tradução terem o mesmo número de versos que os originais – o que é super comum na tradução de poemas longos em verso branco, como o Paraíso Perdido, mas representa um procedimento um pouco mais arriscado em poemas líricos menores. Assim, quando a tensão entre a semântica e a concisão exige um maior desdobramento, ela se permite tomar um verso e fazer dele dois, como uma solução para evitar, ao mesmo tempo, quebrar o metro, tanto quanto dispensar informação semântica – e é claro que nesses casos ela também se vale do outro recurso de alterar o esquema de rimas, de forma a poder manter uma estrutura no poema que seja sustentável. O “A little Madness in the Spring” é exemplar disso:

A little Madness in the Spring
Is wholesome even for the King,
But God be with the Clown,
Who ponders this tremendous scene—
This whole experiment of green,
As if it were his own!

Do qual ela faz:

Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte —
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz, “Os Verdes são todos meus!”

No original, que consiste de duas repetições de um tipo de variação do ballad meter com dois versos em tetrâmetro seguido por um de trímetro, temos um esquema de rimas a-a-b-c-c-b, sendo que as rimas em -own são imperfeitas. A partir disso, Lando desdobrou cada metade da estrofe de 3 para 4 versos, com todos eles, exceto o último, em redondilhas maiores, num esquema de rimas a-b-b-a-c-d-d-c, repetindo a imperfeição das rimas na primeira metade. É um modo engenhoso de traduzir o poema, e o resultado me parece funcional, recuperando esse tom popularesco – quase ingênuo – que reveste enganosamente a poesia de Dickinson.

Com isto em mente, eu compartilho com vocês alguns dos poemas traduzidos por Isa Mara Lando neste belo voluminho, para que possam observar em ação o que comentei sobre a tradução dela e também para nutrir alguma esperança de que esse trabalho seja continuado e que talvez possamos ver futuramente uma reedição mais disponível.

(Adriano Scandolara)

 

Abelha! Espero por ti!
Ontem mesmo eu ia falando
Para Alguém que tu conheces
Que logo estarás chegando —

Semana passada voltaram as Rãs —
Estão bem instaladas, no seu afã —
As Aves, todas aqui novamente —
O Trevo, espesso e quente —

Receberás minha Carta lá pelo
Dezessete; Responde,
Ou melhor, vem ter comigo, urgente —
Tua Amiga Mosca,
Cordialmente.

 

Bee! I’m expecting you!
Was saying Yesterday
To Somebody you know
That you were due—

The Frogs got Home last Week—
Are settled, and at work—
Birds, mostly back—
The Clover warm and thick—

You’ll get my Letter by
The seventeenth; Reply
Or better, be with me—
Yours, Fly.

*

 

Morri pela Beleza — mas mal estava
Em meu túmulo deitada
Alguém, que pela Verdade morreu, foi colocado
Na Câmara logo ao lado —

Perguntou-me, suave, por que eu caí
“Pela Beleza”, respondi —
“E eu — pela Verdade — Uma só as duas são —
Tu e eu somos Irmãos” —

E assim fraternalmente nos encontrávamos —
E à Noite entre as Câmaras conversávamos —
Até que o Musgo nossos lábios alcançou —
E os nossos nomes — apagou —

 

I died for beauty, but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.

He questioned softly why I failed?
“For beauty,” I replied.
“And I for truth – the two are one;
We brethren are,” he said.

And so, as kinsmen met a-night,
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names.

*

 

Com uma Jóia guardada em meus dedos —
Deitei-me e fui dormir —
O dia era quente, os ventos sem segredos —
Pensei: “Vai resistir” —

Despertei — e meus dedos honestos censurei
Onde a Jóia? — Foi-se embora —
E uma lembrança Ametista
É tudo que tenho agora —

 

I held a Jewel in my fingers —
And went to sleep —
The day was warm, and winds were prosy —
I said: “’Twill keep.” —

I woke — and chid my honest fingers,
The Gem was gone; —
And now, an Amethyst remembrance
Is all I own —

*

 

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Tu és — Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não contes! — Tu sabes — vão falar!

Que tédio — ser — Alguém!
Tão público — um Sapo a coaxar —
A repetir seu nome — o mês de Junho todo —
Para as palmas do Lodo!

 

I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?
Then there’s a pair of us
Don’t tell! They’d advertise — you know!

How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June —
To an admiring Bog!

 

*

 

Loucas Noites — Loucas Noites —!
Estivesse eu contigo
Loucas Noites seriam
O nosso luxo, nosso abrigo!

Fúteis — os Ventos —
Para um Coração no porto —
Adeus Bússola —
Adeus Carta de marear —!

Remando no Éden —
Ah, o Mar!
Ah, se eu pudesse —
Esta Noite —
Em Ti – ancorar!

 

Wild nights — Wild nights —!
Were I with thee
Wild nights — should be
Our luxury!

Futile — the Winds —
To a Heart in port —
Done with the Compass —
Done with the Chart —!

Rowing in Eden —
Ah, the Sea!
Might I but moor —
Tonight —
In Thee!

(poemas de Emily Dickinson, tradução de Isa Mara Lando)

Padrão
crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – Parte II

Emily-Dickinson

[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte III (sobre a tradução de Isa Mara Lando), parte IV (Augusto de Campos), parte V (José Lira)]

Algumas semanas atrás eu dei início a algo como um esboço de um ciclo aqui no escamandro sobre traduções de Emily Dickinson. Esta agora é a primeira postagem em que daremos uma olhadinha mais detida no primeiro livro da seleção aqui de traduções da Dickinson, o Poemas escolhidos, selecionado e traduzido por Ivo Bender (L&PM Pocket, 2005). Como a Denise Bottmann, sempre muito solícita, me apontou em comentário à postagem anterior, há um projeto da UNESP (clique aqui), dedicado a catalogar as traduções da Dickinson em português (um trabalho inestimável para qualquer um que queira arriscar traduzi-la), mas, como a lista não está 100% atualizada (falta, por exemplo, o volume mais recente de José Lira), acredito que eu ainda assim precise dar continuidade a esse trabalho, o que, como pretendo demonstrar também, inclui dizer algumas palavrinhas sobre o projeto de tradução de cada volume. De qualquer forma, esse link me foi útil para complementar a coleção. Meu plano agora é tratar desses 4 livros que tenho comigo, depois, se possível, dizer algo dos que faltam por enquanto.

Comecemos, portanto, com a seleção. Segundo o tradutor, foi dada preferência a poemas que, em sua maioria ainda não tivessem circulado em tradução, o que explica a ausência de certos hits como “I am nobody” ou “This is my letter to the World”, apesar de contar com outros listados entre os mais traduzidos (para esta lista no site da UNESP, clique aqui) como “I died for beauty”, “Success is counted sweetest” e “There is a certain Slant of light”. Há algumas escolhas particularmente marcantes, no entanto. O dolorosíssimo poema “How the Waters closed above Him” é dos mais peculiares, tendo como tema a morte de um menino afogado, e, ao que podemos averiguar, apenas Lucia Olinto, em sua coletânea 75 Poemas também incluiu este poema em sua seleção. Outro poema dos mais curiosos (sobretudo por demonstrar aquilo que eu, se pudesse batizá-lo, chamaria carinhosamente de “blasfêmia fofa”) é “The Gentian weaves her fingers” que parece ser exclusivo da coletânea de Bender.

EPSON scanner imageEnfim, tal como estão na ordem que aparecem neste volume, os poemas que Bender traduziu foram os seguintes: “The Grass so little has to do”, “There is a June when Corn is cut”, “The morns are meeker than they were”, “Purple – The Color of a Queen, is this -“, “The name – of it – is ‘Autumn'”, “There is an arid Pleasure -“, “Besides the Autumn poets sing”, “The day grew small, surrounded tight”, “It sifts from Leaden Sieves -“, “When Diamonds are a Legend”, “The Spider holds a Silver Ball”, “The butterfly obtains”, “His Feet are shod with Gauze”, “Some such Butterfly be seen”, “A Moth the hue of this”, “Through the Dark Sod – as Education”, “Is little Ether Hood”, “The Red – Blaze – is the Morning -“, “How lonesome the Wind must feel Nights”, “I think that the Root of the Wind is Water”, “The Lightning is a yellow Fork”, “‘Morning’ – means ‘Milking” – to the Farmer”, “I was a Phoebe – nothing more”, “Talk not to me of Summer Trees”, “As if the Sea should part”, “There is a Zone whose even Years, “I dwell in Possibility”, “There is a certain Slant of light”, “Four Trees – upon a solitary Acre”, “Forbidden Fruit a flavor has”, “Many cross the Rhine”, “How good his Lava Bed”, “Morning is due to all”, “The Robin for the Crumb”, “And Everywhere of Silver”, “His Cheek is his Biographer”, “Look back on Time, with kindly eyes”, “Remembrance has a Rear and Front”, “The Props assist the house”, “Alone, I cannot be – “, “One need not be a chamber – to be Haunted -“, “The sacred Closet when you sweep”, “The One denied to drink”, “The Doomed – regard the Sunrise”, “We lose – because we win”, “Success is counted sweetest”, “Drama’s Vitallest Expression is the Common Day”, “You cannot put a Fire out”, “Pain – has an Element of Blank -“, “When One has given up One’s life”, “After great pain, a formal feeling comes -“, “The Heart has narrow Banks”, “The Bee is not afraid of me”, “Long Years apart – can make no”, “A little Snow was here and there”, “I envy Seas, whereon He rides -“, “I had not minded – Walls -“, “I see thee better – in Dark -“, “‘Tis customary as we part”, “All the letters I can write”, “My Life had stood – a Loaded Gun -“, “Whether they have forgotten”, “In Ebon Box, when years have flown”, “Not probable – The barest Chance -“, “Me from Myself – to banish -“, “A shady friend – for Torrid days -“, “Sweet hours have perished here;”, “I felt a Funeral, in my Brain”, “As far from pity, as complaint”, “It came at last but prompter Death”, “Truth – is as old as God -“, “The Soul selects her own Society -“, “All overgrown with cunning moss”, “The Gentian weaves her fingers -“, “The World – feels Dusty”, “On this long storm the Rainbow rose -“, “I never lost as much but twice”, “We cover Thee – Sweet Face -“, “How the Waters closed above Him”, “If I should cease to bring a Rose”, “I died for Beauty – but was scarce”, “Where I have lost, I softer tread”, “I like a look of Agony”, “Dropped into the Ether Acre”, “How soft this Prison is”, “Safe in their Alabaster Chambers”, “The earth has many keys”, totalizando – salvo erro meu – 87 poemas num voluminho de cerca de 120 páginas.

No que diz respeito ao projeto de tradução, Bender deixa claro no prefácio do livro que o seu objetivo não era o rigor formal. Por isso, nota-se uma preferência pela rima toante em vez da rima perfeita (como em “nozes” e “rosas” em “The morns are meeker…”), havendo às vezes até mesmo a sua completa ausência, o que, apesar de parecer extremo em alguns casos, é justificado pelo próprio método de Dickinson que muitas vezes emprega as rimas assim, o que, quando se soma o fato de que ela rima apenas os últimos versos de cada dístico (em esquema x-a-x-a em vez de a-b-a-b), permite concluir que as rimas, ainda que muitas vezes presentes, não eram o seu foco.

Além disso, diferente de Paulo Henriques Britto, que propõe uma forma de “equivalência” métrica entre o ballad meter inglês e a nossa redondilha maior, que lhe serve como base para inserir pequenas irregularidades (de uma ou outra sílaba a mais ou a menos por verso), tal como se vê no ballad meter caracteristicamente dickinsoniano, Bender preferiu uma abordagem mais semântica. Por isso, ao que tudo indica, ele abdica do metro. Quem escandir os versos de sua tradução, no entanto, verá que há uma tendência geral por uma variação em torno das 7 ou 8 sílabas, por vezes 6, por vezes até mais, chegando até 10 ou 12. Em alguns casos há versos curtíssimos, di ou trissilábicos, justificados por construção semelhante no original (quando Dickinson substitui seus trímetos por dímetros, por exemplo), mas vez ou outra sente-se que algo da frouxidão formal acaba fazendo mal ao ritmo do poema. Um exemplo é “I see thee better – in Dark”, cuja solução para a estrofe final, sobretudo o último verso, me parece problemática. Reproduzo abaixo:

Que utilidade há no dia
Para quem, em sua treva,
Um sol possui tão intenso
Fadado a pairar no Meridiano continuamente?

What need of Day
To Those whose Dark  hath so  surpassing sun
It deem it be  Continually
At the Meridian?

A necessidade de manter o sentido parece ter levado a um efeito de bola de neve, de forma que o sol do segundo verso passa para o terceiro, e o “fadado” (It deem it be) e todo o resto acabam no último, encerrando o poema estranhamente num advérbio e com um verso bizarramente longo (ditongando os encontros de vogais, conto 14 sílabas). Quando se pensa que o ballad meter é um verso bastante musical (não por acaso tem esse título), é inevitável e até um pouco engraçado imaginar alguém terminando uma canção com um verso cuja contagem silábica daria o dobro do normal. Enfim, longe de mim maldizer, é claro, a tradução de Bender, até porque esses casos estranhos aqui são raros e no geral o projeto dele é bem sucedido, mas acredito que seja importante frisar que essa abordagem, priorizando a semântica ainda que dentro de um projeto de tradução ostensivelmente poética, não vem lá sem os seus riscos. No entanto, considerando que há uma facilidade maior envolvida nesse método, é provável que ele fosse o único capaz de um dia dar conta de algo que se aproxime de uma possível obra completa (ou quase) de Dickinson.

E, ah, um último detalhe. Bender, apesar de manter cá e lá um travessão ou outro, foi da opinião de que os travessões em Dickinson não são necessários, já que a função deles “ainda está por ser definida pela crítica” (sinto, porém, que teria sido útil ter dado nome aos bois aqui, a declaração é meio polêmica), e o mesmo vale para o seu uso idiossincrático das maiúsculas. Ele, no entanto, dentre os livros que tenho cá comigo (uma coleção que pretendo aumentar em breve) parece estar sozinho nessa opinião (ou pior talvez, mal acompanhado, junto de Grünewald), já que Isa Mara Lando, Augusto de Campos e José Lira todos tendem a manter, em algum grau, os travessões e até as maiúsculas. Talvez pelo fato de ele ter optado por uma tradução mais fluida, menos preocupada, ele mesmo diz, no trabalho (quase) impossível de manter o efeito de fragmentação lacônica de Dickinson, talvez essa limação dos travessões (que dão a impressão de ajudar a cortar graficamente a fluidez da leitura) seja justificada.

Então, como é costumeiro aqui no escamandro, com propósitos ilustrativos, selecionei 5 poemas da seleção de Ivo Bender, levando em consideração o seu enfoque nos poemas não traduzidos por outros tradutores, mas também querendo apontar para como ele traduziu um ou outro poema mais famoso (como o “There’s a certain slant of light”, que Britto também traduziu e que expus na postagem anterior) para comparação.

(Adriano Scandolara)

 

Como as águas o engolfaram,
Jamais saberemos;
Como espalmou-nos sua angústia,
Também ficou submerso.

Absorto, o lago estendeu seu lençol de nenúfares
Por sobre o menino;
E seu casaco e chapéu, não reclamados,
Resumem a história.


How the Waters closed above Him
We shall never know —
How He stretched His Anguish to us
That — is covered too —

Spreads the Pond Her Base of Lilies
Bold above the Boy
Whose unclaimed Hat and Jacket
Sum the History —

*

Há uma certa obliquidade
Na luz das tardes hibernais,
Que oprime feito o peso
Dos cânticos, nas catedrais.

Com celeste golpe nos fere
E não lhe achamos a cicatriz,
Apenas uma diferença interna,
Lá, onde jazem os sentidos.

Inalterável, essa luz
É signo de desesperança;
É aflição majestosa
Dos altos ares baixando.

Quando chega, fica atenta a paisagem
E não mais respiram as sombras;
Quando parte, é como a distância
Que no olhar da morte se encontra.

        

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons —
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes —

Heavenly Hurt, it gives us —
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are —

None may teach it — Any —
‘Tis the Seal Despair —
An imperial affliction
Sent us of the Air —

When it comes, the Landscape listens —
Shadows — hold their breath —
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death —

*

Se o mar, uma vez rasgado,
Outro, mais além, revelar
E esse, ainda outro, e os três
Forem suposição apenas

De mares periódicos
Desapossados de praias,
À beira dos mares do vir-a-ser,
Eis aí a Eternidade.

        

As if the Sea should part
And show a further Sea —
And that — a further — and the Three
But a presumption be —

Of Periods of Seas —
Unvisited of Shores —
Themselves the Verge of Seas to be —
Eternity — is Those —

*

A genciana tece suas franjas,
Rubra está a copa dos bordos;
As flores do meu adeus
Antecipam o cortejo.

Um mal breve, mas paciente;
Os aprestos, rápidos,
E alguém entre nós pela manhã
Com os anjos agora está;
Foi pequena a procissão,
Fez-se presente a narceja,
Uma abelha anciã nos saudou
E então oramos de joelhos;
Confiamos que estivesse pronta,
Para nós, rogamos a graça de estar –
Irmã – estio – arcanjo!
Permite-nos te acompanhar!

Em nome da abelha –
Da borboleta –
E da brisa – Amém!

        

The Gentian weaves her fringes —
The Maple’s loom is red —
My departing blossoms
Obviate parade.

A brief, but patient illness —
An hour to prepare,
And one below this morning
Is where the angels are —
It was a short procession,
The Bobolink was there —
An aged Bee addressed us —
And then we knelt in prayer —
We trust that she was willing —
We ask that we may be.
Summer — Sister — Seraph!
Let us go with thee!

In the name of the Bee —
And of the Butterfly —
And of the Breeze — Amen!

 

*

Os condenados miram a aurora
Com diferenciado prazer –
Pois, quando ao longe tornar a luzir,
Duvidam que possam vê-la.

O homem, que há de morrer amanhã,
Ao rouxinol do prado faz-se atento,
Pois seu trinar comove o machado
Sequioso de sua cabeça.

Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz aquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

        
The Doomed — regard the Sunrise
With different Delight —
Because — when next it burns abroad
They doubt to witness it —

The Man — to die — tomorrow —
Harks for the Meadow Bird —
Because its Music stirs the Axe
That clamors for his head —

Joyful — to whom the Sunrise
Precedes Enamored — Day —
Joyful — for whom the Meadow Bird
Has ought but Elegy!

(poemas de Emily Dickinson, tradução de Ivo Bender)

Padrão
poesia

Emily Dickinson e suas traduções – Parte I

Emily_Dickinson

[esta é a primeira parte deste ciclo de postagens; para as postagens posteriores: parte II (sobre a tradução de Ivo Bender), parte III (sobre a tradução de Isa Mara Lando), parte IV (sobre a tradução de Augusto de Campos), parte V (José Lira)]

Fazia um tempo já que eu andava querendo redigir um post sobre a poeta Emily Dickinson (1830 – 1886). Mas acontece que eu sou uma pessoa metódica. Gosto de chegar aos poetas primeiro lendo alguns poemas menores, porém importantes, depois passar para um ou outro “grande poema”, por assim dizer, para ter uma impressão geral, aí depois ir lendo os outros (“poemas secudários”, por assim dizer) e, para não perder o costume, pensando daí em começar a traduzir a sério. Foi assim que eu fiz com Shelley, por exemplo, lendo primeiro poemas curtos como “Ozimândias”, “Ode ao Vento Oeste” e tal, depois o Prometeu Desacorrentado e O Triunfo da Vida, ou com Mallarmé, lendo os poemas famosos (“Brinde”, os túmulos, “Santa”, etc), depois “A Tarde de um Fauno” e “Um Lance de Dados” para então ir atrás dos poemas menos famosos, e assim por diante. A obra de Dickinson, no entanto, é a completa antítese desse tipo de método de leitura: ela é composta de nada menos do que 1775 poemas curtos, dentre os quais alguns se destacam, mas não há um grande projeto ou um grande poema. Também não há divisões em livros, então não se pode dizer algo como “comece pelo livro tal”, como se pode sugerir para alguém que queira começar a ler, digamos, Wallace Stevens, para que comece pelo seu Harmonium. É uma sensação um pouco desorientante.

Desnecessário dizer que essa sensação continua quando se pensa em traduzi-la. No geral, eu gosto de ter em mente quais poemas já foram traduzidos, por quem e como, antes de começar a empreitada. Via de regra, dou preferência para os poemas de um determinado autor que ainda não foram traduzidos. Se um determinado poema for difícil de traduzir, já tiver sido traduzido nos mesmos moldes que eu empregaria (no condizente a metro e rima, por exemplo) e o tradutor tiver feito um bom trabalho, ainda que possa sempre ser feito o argumento da inesgotabilidade das traduções, corre-se o risco de ter a impressão de estar chovendo no molhado. É óbvio que esse não é o caso quando 1) o poema não é particularmente trabalhoso de se traduzir (vide o nosso post sobre os carrinhos vermelhos de mão), 2) eu e o tradutor anterior tenhamos uma proposta de tradução diferente, ou 3) o tradutor fez um trabalho ruim – e eu comecei a traduzir Shelley justamente por achar que o trato que José Lino Grünewald lhe deu foi, para sermos francos, péssimo. Enfim, esta é apenas uma preferência pessoal, mas creio que haja outros tradutores que possam se comportar de forma semelhante. Imagino por isso que, tendo em mente essa dificuldade de sequer começar a ler Dickinson, dê para ver o porquê de eu ainda não ter arriscado traduzir nenhum poema dela. Pois bem, considerando que temos já aqui no escamandro alguma “tradição”, por assim dizer, de postagens comparativas de traduções, meu propósito agora é, com esta e mais 4 postagens futuras, além de prestar a devida homenagem a esta imensa voz (acho que poucos irão de discordar da opinião de que ela e Whitman são os dois grandes poetas nascidos nos EUA que escreveram no século XIX), fazer o devido trabalho de apresentar cada um dos livros de tradução de poesia de Dickinson, pelo menos os 4 que tenho comigo em minha biblioteca – há outros volumes de que tenho notícia, mas ainda estou desenvolvendo o meu acervo aos poucos.  Quem quiser pode conferir o projeto da UNESP, clicando aqui que lista, senão todos, quase todos os volumes de tradução de Dickinson para o português… meus agradecimentos à Denise Bottmann por ter me mostrado esse projeto nos comentários. E, com isso, planejo também catalogar quais poemas cada tradutor verteu para o português e como – um trabalho que eu imagino que poderá ser útil para qualquer um que tenha interesse por traduzir a autora.

Esses 4 volumes são os seguintes: Poemas escolhidos (L&PM Pocket, 2005), tradução de Ivo Bender, Não Sou Ninguém (Ed. da UNICAMP, 2008), tradução de Augusto de Campos, Loucas Noites / Wild Nights (edição da tradutora, 2009) de Isa Mara Lando, e A Branca Voz da Solidão (ed. Iluminuras, 2011), tradução de José Lira. Uma vez feito esse trabalho inicial com esses 4 livros, imagino que eu poderei mais tarde dar continuidade ao projeto, conforme minha biblioteca for crescendo.

Só tracemos antes, então, uma brevíssima biografia de Dickinson: nascida em 10 de dezembro de 1830, em Amherst, no estado de Massachusetts, ela recebeu a sua educação formal na Amherst Academy, onde pôde estudar todas as disciplinas que o currículo científico do século XIX podia ofertar – astronomia, botânica (uma das favoritas dela), química, geologia, matemática, história natural, filosofia natural e zoologia –, o que, curiosamente, acabou tendo um reflexo posterior considerável em sua poesia. Não que Dickinson seja particularmente científica em seu tratamento do mundo, mas nota-se que há toda uma atenção às minúcias do mundo natural (sobretudo no tocante a insetos e plantas, num uso que vai muito além da simbologia comum dos mesmos que se pode encontrar nos poemas do século XIX) e que parece ser própria dela. Apesar de alguns de seus poemas, porém, terem um toque espiritualizado, o ensino religioso na escola não era muito de seu interesse. No mais, porém, os estudos que Dickinson recebeu nos parecem surpreendentemente modernos (lembremos, era a metade do século XIX!), quando se considera que a Amherst Academy tinha quase o mesmo currículo para meninos e meninas e enfatizava o crescimento intelectual das moças, com os deveres domésticos sendo subordinados aos acadêmicos. Enfim, ao que me parece, ela estava longe de ser uma escola que educasse as mulheres “para arranjar marido”.

Dickinson sai da Amherst Academy aos quinze anos, para entrar no Mount Holyoke Female Seminary e adquirir o grau final de educação formal disponível às mulheres da época – mas ela passa apenas um ano lá, antes de voltar para casa. No entanto, se os estudos pareciam demonstrar um grande avanço para a situação das mulheres, a sociedade ainda era – desnecessário glosar – extremamente hostil para qualquer mulher que se pretendesse independente, e das filhas solteiras esperava-se que cuidassem dos trabalhos domésticos – uma subordinação à qual Dickinson, é claro, tinha aversão.

Foi na década de 1850 que ela começou a escrever poesia, e muitos de seus poemas foram lidos por sua amiga Susan Gilbert, a quem Dickinson enviou mais de 300 cartas. Mais tarde, após Susan casar-se, as duas começaram a se afastar, e Emily passou a fazer amizades com pessoas de outros círculos, das quais destacamos o jornalista Samuel Bowles e o crítico Thomas Wentworth Higginson, que passou a ser o seu grande leitor e interlocutor a partir de 1862. O período entre 1855 e 1865, que lhe rendeu uma má fama de “reclusa” (que derivava, na verdade, de uma indisposição a dedicar tanto tempo, como era o costume à época, a reuniões sociais e visitas e todo o trabalho doméstico que isso acarretava), foi dos mais produtivos, e ela compôs 1.100 poemas ao longo dessa década. Foi Bowles quem primeiro publicou seus poemas entre 1858 e 1868 – sempre brutalmente mutilados, no entanto, visando neutralizar a estranheza dos versos de Dickinson e adequá-los para os padrões estéticos e gramaticais da época, apagando, inclusive, o excesso de travessões que viria a se tornar algo como uma marca registrada da poeta. O mesmo se sucedeu com as publicações de Higginson e com o seu primeiro livro de poemas publicados de fato em 1890, quatro anos após Dickinson morrer e legar à sua irmã Lavinia inúmeros fascículos costurados a mão contendo sua obra. Mesmo com as alterações, o livro foi um sucesso, mas o primeiro volume completo só viria a ser publicado muito mais tarde, em 1955, editado por Thomas H. Johnson. Mesmo essa edição, no entanto, ainda portava as cicatrizes das alterações causadas pelas edições anteriores, e a edição definitiva, completa e restaurada, é assustadoramente recente: 1998, editada por R.W. Franklin.

Como disse, em português, de que tenho notícia, há esses quatro volumes de traduções, mas deve haver um número muito maior de poemas publicados em periódicos e coletâneas e antologias por aí. O infame Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, por exemplo, organizado e traduzido por José Lino Grünewald, conta com os poemas “A word is dead”, “I never saw a moor”, “The pedigree of honey”, “I died for Beauty” e “Because I could not stop for death”. Grünewald, porém, mantendo o espírito do século XIX, se esforça para enquadar as particularidades de Dickinson dentro de uma normalidade (de pontuação, aliás) e acaba, inclusive, cortando o seu uso dos travessões (e não dá nem para dizer que ele o faz por ter tido acesso a uma versão anterior dos originais ou algo assim… a edição é bilíngue, você pode ver os travessões sendo engolidos no caminho). Por isso, por propósitos de catalogamento, listo aqui os poemas que Grünewald traduz, mas não os compartilho.

Em vez disso, gostaria de compartilhar com vocês uma tradução de Paulo Henriques Britto do poema “There’s a certain Slant of light”. Uma coisa que eu precisava comentar é a forma dos poemas de Dickinson: a maioria deles (não posso arriscar dizer todos, evidentemente) é escrita na forma do ballad meter, i.e. quadras rimadas em esquema abab (ou xaxa, em que x indica uma não-rima) alternando tetrâmetros com trímetros jâmbicos. Num artigo intitulado “Uma forma humilde”, Britto propõe a possibilidade de se traduzir essa forma do inglês, muito ligada à poesia popular, para a forma, também associada à poesia popular lusófona, da redondilha maior. Além disso, os versos de Dickinson apresentam irregularidades métricas, muitas vezes ocorrendo a omissão de um pé métrico, o que Britto viu por bem adaptar inserindo irregularidades métricas nos seus heptassílabos, fazendo com que alguns versos tivessem ora 7 versos, de fato, ora 6, ora 8. Uma solução engenhosa.

Nos próximos posts, então, eu planejo dar continuidade a este trabalho, apresentando cada um dos volumes de tradução de Dickinson, com uma descrição da abordagem e listagem dos poemas inclusos: de Ivo Bender, de Augusto de Campos, de Isa Lando e de José Lira.

PS: há mais alguns poemas da Dickinson em tradução de Maurício Santana Dias e Silvana Moreli Vicente Dias que foram publicados recentemente na Modo de Usar & Co (clique aqui).

(Adriano Scandolara)

        

Às vezes, em Tardes de Inverno

Às vezes, em Tardes de Inverno,
Uma Luz Enviesada —
Como o Som das Catedrais
Opressora, Pesada —

Nos fere com Dor Divina —
Porém cicatriz não fica
Senão no fundo de nós,
Onde o Sentido habita —

É o Selo do Desespero —
A ele — Nada lhe Falta —
Angústia imperial
Que nos desce do alto

Quando vem, a Terra atenta —
Sombras — param no ar —
Quando vai, é como a Morte
Ao Longe, a se afastar —

        

There’s a certain Slant of light

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons —
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes —

Heavenly Hurt, it gives us —
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are —

None may teach it — Any —
‘Tis the Seal Despair —
An imperial affliction
Sent us of the Air —

When it comes, the Landscape listens —
Shadows — hold their breath —
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death —

(Emily Dickinson, tradução de Paulo Henriques Britto)

Padrão
poesia, tradução

Um micro-panorama de poetas mulheres

Aproveitando a data do dia da mulher, nós do escamandro gostaríamos de compartilhar alguns poemas de nossas poetas mulheres favoritas. A ideia não é fazer um post para elaborar um comentário mais a fundo agora (o que seria, aliás, será feito melhor no futuro, com maior atenção… eu mesmo estava tentando uma tradução da Bishop, mas a tarefa acabou sendo mais difícil do que eu pensava), mas demonstrar nossa apreciação pela presença de mulheres na poesia. Apesar das raízes da lírica repousarem em Safo, o gênero acabou dominado por homens a ponto de chegar a se tornar algo separado, criando-se, assim, possivelmente como golpe de marketing, o gênero da “escrita feminina”. Pois não é assim que Bishop se via, e não é assim que nós vemos: as mulheres representadas aqui são, antes de tudo, autoras de excelente Poesia, assim, com P maiúsculo, e por isso são dignas de reconhecimento.

E vocês, nossos leitores e leitoras, se sentirem a falta de alguma autora (e com certeza falta gente aqui), sintam-se livres para contribuir nos comentários abaixo.

 

 

Emily Dickinson nasceu em 1830, morreu em 1886, e nesse tempo viveu uma vida absolutamente excêntrica e reclusa. Sua poesia foi escrita nessa reclusão e publicada muito tardiamente, chocando os editores pela versificação simples (predominância quase exclusiva do metro de balada inglês) e pela sintaxe estranha e cheia de travessões.

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Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!

(tradução de Augusto de Campos, Não Sou Ninguém, )

 

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é algo famosa por sua relação com o nosso país, tendo vindo ao Brasil e tido contato com poesia nossa como a de Manuel Bandeira, que conheceu pessoalmente, Drummond e até mesmo de nossas canções populares, que ela traduziu. Também famoso foi seu caso homossexual com a brasileira Lota de Macedo Soares, que teve um desfecho trágico. Sua obra é distinta por ser concisa, cabendo inteira em um único volume.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas)

 

Sylvia Plath (1932 – 1963), a autora do famoso romance The Bell Jar é conhecida por ter sido casada com o também poeta Ted Hughes e por ter lutado com a depressão durante toda sua brevíssima vida. Sua poesia partilha da tendência confessional do período, e assim, não surpreende que predomine as temáticas de morte e do suicídio.

Palavras

Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho —

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, Sylvia Plath: Poemas, Illuminuras)

 

A ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska (1923 – 2012) morreu este ano. A polonesa, que viu a Segunda Guerra, o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista, nas palavras de Nelson Ascher, “mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.

Retrato de mulher

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d´água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

(tradução de Regina Przybycien, Poemas, Companhia das Letras)

 

Ingeborg Bachmann (1926-1973), poeta austríaca, doutora em filosofia, estudiosa de Heidegger e Wittgenstein. Teve um relacionamento com o poeta Paul Celan.

Uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967), Assírio & Alvim)

 

Hilda Hilst (1930 – 2004) tem uma obra extensa, entre diversos volumes de poesia, prosa e teatro, traduzida para diversas outras línguas e recentemente republicada pela editora Globo. O momento mais curioso de sua carreira foi o “adeus à literatura séria” dado nos anos 90, quando começa sua fase da “bandalheira”, marcada pela sua revolta com a falta de reconhecimento do público em geral. É nesta época em que publica Bufólicas, livro de poemas cômicos, e romances eróticos de diversas naturezas, como O Caderno Rosa de Lory Lamby e Cartas de um Sedutor.

Ária Amaríssima de um instante

SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa
Camada-transparência sobre as gentes. Vê só:
Eu não te olho com o teu olho que sabe
Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez
Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Tempo alongado onde te fizeste em viuvez.
Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto
E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso
AGORA
Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada.
Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti
Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala
E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union?
Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui?
Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo?
A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final…
Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade
O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai,
Entre o papel e eu, entre esta mesa e eu
E essa boca inteira debulhada, entre eu mesmo e aquele
Que repete Union Union, que filamento? Âncora,
Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu… que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura, que… que sim, que sim… Olha:
Diga que sim a esses da Extens Union.

(do encarte à edição de “Cadernos da Literatura Brasileira”, editado pelo Instituto Moreira Salles – São Paulo, número 8 – Outubro de 1999)

 

Claudia Roquette-Pinto, carioca, nascida em 1963, é formada em tradução literária pela PUC-RJ e publicou os volumes de poesia Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001, ganhador do Jabuti de Poesia) e Margem de Manobra (2005).

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pêlos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância     seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(de Zona de Sombra)

 

Nascida em Curitiba em 1957, Josely Vianna Baptista é estudiosa e tradutora de literatura hispano-americana. Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, 2001) e Roça Barroca (2011), em que, de maneira notável, funde seu trabalho de poeta com o estudo e tradução do mito poético da criação do mundo dos índios Mbyá-guarani.

Moradas Nômades

carunchos e cupins roem,
vorazes, a choupana de ripas

pendem do esteio ramos de trigo,
feito amuleto para celeiros cheios;
tachos esfarelam crostas de grãos moídos
e redes balançam seus esgarços,
perto do chão onde uma nódoa preta
mostra o antigo fogo

tudo abandono, e, no entanto,
lá fora o pomar semeado
para os que agora cruzam
(trouxas vazias), um
por um, os onze mil
guapuruvus

(de Roça Barroca)

 

Angélica Freitas, nascida em abril de 1973 em Pelotas – RS, tem poemas publicados em diversas antologias e em 2007 publicou seu primeiro livro Rilke Shake (Cosac Naify/7Letras). Anda a caminho de publicar um livro novo.

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

(de Rilke Shake)

 

P.S.: vale a pena conferir também os posts aqui no escamandro sobre Orides Fontela e os 3 poemas de Laura Antillano traduzidos pelo nosso Guilherme Gontijo Flores.

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