crítica, poesia

redescobrindo álvaro de campos – vinicius ferreira barth

campos

álvaro de campos, poeta nascido em tavira e em lisboa em outubro de 1890, é famoso pelos seus clamores vanguardistas, futuristas e pessimistas, entre outros notáveis istas que poderíamos listar deliciosamente. no nosso grupo escamandrista, exerceu influência notável sobre adriano scandolara. alguns críticos chegam a julgar que a poesia de scandolara, sob a luz de campos, é atingida mais pela ‘angústia’ que pela ‘influência’. há, no entanto, quem discorde. ademais, não há demasiados detalhes da vida do poeta português que possamos explorar além da sua inócua vida sexual e do fato de ele ter nascido sob o signo de libra. sua poesia é categorizada comumente entre três fases, sendo elas: decadentista, futurista e pessimista. por fim, até hoje praticamente nada se sabia da infância de álvaro de campos.

por isso o escamandro traz agora um documento de valor inestimável aos estudos do poeta e à literatura portuguesa. trata-se da reprodução de uma página impressa em um periódico desconhecido de cunho vanguardista que foi encontrada dobrada dentro de um volume bastante desgastado do tartufo de molière, no fundo do banheiro externo de um barracão em tavira, com um texto assinado pelo pequeno poeta. ao que tudo indica, tal texto nunca antes veio a público. e assim, contrariando as ‘fases’ já estabelecidas da produção do autor e lançando novas luzes ao eu-biográfico de álvaro de campos, essa nova página descoberta e finalmente trazida a público desvela uma faceta do poeta que até então era completamente desconhecida. (na verdade quase todas as facetas o são. vide acima o único retrato de álvaro tirado em vida). vê-se, acima de tudo, uma curiosa antecipação do futurismo de marinetti, o que nos leva a crer que as influências possam ter corrido em caminhos inversos. também a tendência ao isolamento e as críticas dirigidas à sua contemporaneidade (em sua maioria composta por desconhecidos) causam impressão por sua força verbal incutida num movimento de renovação da tradição estabelecida. é, enfim, um depoimento enérgico.

sem mais delongas, clique no player abaixo (que virou link) para ouvir a nossa sugestão de acompanhamento à leitura, e, finalmente, mais abaixo ainda para visualizar o documento em modo aumentado.

vinicius ferreira barth

 

http://grooveshark.com/s/Let+s+Do+It+Let+s+Fall+In+Love/2RwWrw?src=5 

 

manifesto_campinhos

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mensagem fragmentária do poeta psicografada pelo outro poeta no exato momento de sua transmissão, ou simplesmente dó… – vinicius ferreira barth

caros, hoje inauguramos a geringonça conhecida por soundcloud, que nos proporcionará a leitura e gravação de alguns poemas. perdi um tempo aqui aprendendo a usar o troço e farei a honra de meter-lhes o negócio no ar. aproveitando ainda pra homenagear o grande pessoa, que me ditou pessoalmente esse poeminha lá do inf… céu. creio que em breve outros trabalhos dos nossos integrantes, que não são bestas nem nada, aparecerão por aqui via oral.
p.s.: inseri neste post a tag ‘audio’, que deverá acompanhar os demais posts sonoros, o que facilitará a localização pra quem sem interessar.

mensagem fragmentária do poeta psicografada pelo outro poeta no exato momento de sua transmissão, ou simplesmente

dó…

peguei no meu …
e pu-lo na minha mão

olhei-o como quem olha
grãos … … ou … …

olhei-o pávido e absorto
como quem sabe estar morto

… … só como…
… … … pouco … …

Vinicius Ferreira Barth

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pastor em praça pública – vinicius ferreira barth

com meus cachorros ando em meio aos bosques
           e vejo pedras e rios e flores
                          contente
porque sei serem apenas pedras e rios e flores
e sei serem os meus cachorros apenas cachorros
  que pensam com olhos e patas e orelhas e estômago
                    e que cagam por tudo
– pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares –

e a multa que levarei
  se ali deixar os cocôs
              é apenas multa e por isso chamamos
                                                                   multa

e os cocôs
        que são apenas cocôs
                             recolho contente
um poeta diria
                      que merda!
mas não sou poeta
          e porque veríamos uma coisa se houvesse outra?
                  ide, ide de mim!

assim é a ação humana pelo mundo afora
          – catando cocôs e não pensando em nada –
e a estrada não ficou mais bela
                                                 nem sequer mais feia
com a passagem do animal, que fica lembrada no chão

Vinicius Ferreira Barth

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carioqueida – vinicius ferreira barth

Carioqueida foi um poema escrito por inspiração simultânea de duas fontes: a Eneida de Virgílio e o malandrismo carioquês, infundido pelo Bernardo e bastante corrente em nosso grupo como filosofia composicional. Talvez uma releitura de colarinho da épica, uma Dido de mini-saia, um Enéias de bronze, de chopp e de malícia.
É meu costume homenagear os colegas com meus trabalhos, utilizando mecanismos, estilos e pensamentos em modo de emulação, fazendo uma mistura da minha própria dicção com a dicção dos outros. A imitação/emulação é uma das minhas técnicas preferidas. Nesse caso, o poema foi dedicado exatamente ao Bernardo Brandão.

malandro

malandro que é malandro
                perde a mulher na esquina
                acha outra
                                 e chama de princesa

mas quando o bicho pega
                 cai fora          (per            sua            dido?)
                          dizendo que Deus mandou

malandro, maluco
                era o Enéias:
                          comia (escon)dido na gruta
                          não sabia velejar
                          caía na praia
                          e ainda tirava uma onda


Vinicius Ferreira Barth

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Há metafísica o bastante em pensar o nada (homenagem a Caeiro) – bernardo lins brandão

HÁ METAFÍSICA O BASTANTE EM PENSAR O NADA

há mistério bastante em quem está ao sol e fecha os olhos

metafísica? que metafísica têm aquelas árvores?

a de serem árvores

e existirem a cada momento

retiradas do abismo

do nada

se olho para as flores e as árvores e os montes e o sol e o luar

só os vejo com a mente

é que se os olho com os olhos

o que vejo são cores e sombras,

mais nada

bernardo brandão

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