Sîn-lēqi-unnini, Ele o abismo viu, série de Gilgámesh, tabuinha 6 – Tradução de Jacyntho Lins Brandão

gilgamesh-tabuinha

 

A sexta tabuinha da versão clássica do poema de Gilgámesh (cerca de 1200 a. C.) traz um episódio completo: após vencer e eliminar Húmbaba, o guardião da floresta de cedros, Gilgámesh reveste-se com sua glória e desperta o desejo da deusa Ishtar, que o assedia; a resposta do herói é incisiva, desrespeitosa e irônica ao ponto de ser cômica; ofendida, a deusa solicita que seus pais lhe deem o Touro-do-Céu, com o qual devasta a terra em vingança; Gilgámesh e o sempre fiel amigo Enkídu matam o touro e festejam mais este trabalho heroico. A tabuinha se fecha com referência ao sonho com maus presságios de Enkídu, o qual introduz a narrativa de sua morte, assunto da tabuinha seguinte.

A tradução abaixo segue a edição crítica de A. R. George, The Babylonian Gilgamesh Epic: introduction, critical edition and cuneiform texts, Oxford: Clarendon Press, 2003.

O texto está relativamente bem conservado, embora haja passagens irremediavelmente corrompidas (as lacunas são assinaladas com ….). Os títulos das partes não pertencem ao original, apenas pretendem, nesta tradução, servir de auxílio à compreensão do leitor.

A glória de Gilgámesh

[1] Lavou-se da sujeira, limpou as armas,
Sacudiu os cachos sobre as costas,
[3] Tirou a roupa imunda, pôs outra limpa,
Com uma túnica revestiu-se, cingiu a faixa:
Gilgámesh com sua coroa se cobriu.

A paixão de Ishtar

[6] À beleza de Gilgámesh ergueu os olhos a rainha Ishtar:
Vem, Gilgámesh, meu marido sejas tu!
[8] Teu fruto dá a mim, dá-me!
Sejas tu o esposo, tua consorte seja eu!

[10] Farei atrelar-te carro de lápis-lazúli e ouro,
As suas rodas de ouro, de âmbar os seus chifres:
[12] Terás atrelados leões, grandes mulas!
Em nossa casa perfumada de cedro entra!

[14] Em nossa casa quando entres,
O umbral e o requinte beijem teus pés!
[16] Ajoelhem-se sob ti reis, potentados e nobres,
O melhor da montanha e do vale te seja dado em tributo!

[18] Tuas cabras a triplos, tuas ovelhas a gêmeos deem cria,
Teu potro com carga à mula ultrapasse,
[20] Teu cavalo no carro majestoso corra,
Teu boi sob o jugo não tenha rival!

A recusa de Gilgámesh

[22] Gilgámesh abriu a boca para falar,
Disse à rainha Ishtar:
[24] Se eu contigo casar,
…. o corpo e a roupa?

[26] …. o alimento e o sustento?
Far-me-ás comer comida própria de deuses?
[28] Cerveja dar-me-ás própria de reis?
….

[30] …. empilhe
…. vestuário
[32] Quem …. contigo casará?
Tu …. que petrificas o gelo,

[34] Porta pela metade que o vento não detém,
Palácio que esmaga …. dos guerreiros,
[36] Elefante …. sua cobertura,
Betume que emporca quem o carrega,

[38] Odre que vaza em quem o carrega,
Bloco de cal que …. o muro de pedra,
[40] Aríete que destrói o muro da terra inimiga,
Calçado que morde os pés de seu dono.

[42] Qual esposo teu resistiu para sempre?
Qual valente teu aos céus subiu?
[44] Vem, deixa-me contar teus amantes:
Aquele da festa …. seu braço;

[46] A Dúmuzi, o esposo de ti moça,
Ano a ano chorar sem termo deste;
[48] Ao colorido rolieiro amaste,
Nele bateste e lhe quebraste a asa:
Agora fica na floresta a piar: asaminha!;

[51] Amaste o leão, cheio de força:
Cavaste-lhe sete mais sete covas;
[53] Amaste o cavalo, leal na batalha:
Chicote com esporas e açoite lhe deste,

[55] Sete léguas correr lhe deste,
Sujar a água e bebê-la lhe deste,
[57] E a sua mãe Silíli chorar lhe deste;
Amaste o pastor, o vaqueiro, o capataz,

[59] Que sempre brasas para ti amontoava,
Todo dia te matava cabritinhas:
[61] Nele bateste e em lobo o mudaste,
Expulsam-no seus próprios ajudantes
E seus cães a coxa lhe mordem;

[64] Amaste Ishullánu, jardineiro de teu pai,
Que sempre cesto de tâmaras te trazia,
[66] Todo dia tua mesa abrilhantava:
Nele os olhos puseste e a ele foste:

[68] Ishullánu meu, tua força testemos,
Tua mão levanta e abre nossa vulva!
[70] Ishullánu te disse:
Eu? Que queres de mim?

[72] Minha mãe não assou? Eu não comi?
Sou alguém que come pão de afronta e maldição,
[74] Alguém de quem no inverno a relva é o abrigo? –
Ouviste o que ele te disse,

[76] Nele bateste e em sapo o mudaste,
Puseste-o no meio do jardim,
[78] Não pode subir a …., não pode mover-se a …. .
E queres amar-me e como a eles mudar-me!

A fúria de Ishtar

[80] Ishtar isso quando ouviu,
Ishtar furiosa aos céus subiu,
[82] Foi Ishtar à face de Ánu, seu pai, chorava,
À face de Ántum, sua mãe, corriam-lhe as lágrimas:

[84] Pai, Gilgámesh me tem insultado,
Gilgámesh tem contado minhas afrontas,
[86] Minhas afrontas e maldições.
Ánu abriu a boca para falar,

[88] Disse à rainha Ishtar:
O quê? Não foste tu que provocaste o rei Gilgámesh,
[90] E Gilgámesh contou tuas afrontas,
Tuas afrontas e maldições?

[92] Ishtar abriu a boca para falar,
Disse a Ánu, seu pai:
[94] Pai, o Touro-do-Céu dá-me,
A Gilgámesh matarei em sua sede!

[96] Se o Touro não me dás,
Golpearei o submundo agora, sua sede,
[98] Mandarei aplainá-lo até o chão
E subirei os mortos para comer os vivos:
Aos vivos superarão os mortos!

[101] Ánu abriu a boca para falar,
Disse à rainha Ishtar:
[103] Se o Touro me pedes,
As viúvas de Úruk sete anos feno ajuntem,
Os lavradores de Úruk façam crescer o pasto.

[106] Ishtar abriu a boca para falar,
Disse a Ánu, seu pai:
[108] …. já guardado,
…. já cultivado,

[110] As viúvas de Úruk sete anos feno juntaram,
Os lavradores de Úruk fizeram crescer o pasto.
[112] Com a ira do Touro eu vou …. .
Ouviu Ánu ao dito por Ishtar,
E a corda do Touro em suas mãos pôs.

O Touro-do-Céu

[115] …. e conduzia-o Ishtar.
À terra de Úruk quando ele chegou,
[117] Secou árvores, charcos e caniços,
Desceu ao rio, sete côvados o rio baixou.

[119] Ao bufar o Touro a terra fendeu-se,
Uma centena de moços de Úruk caíram-lhe no coração;
[121] Ao segundo bufar a terra fendeu-se,
Duas centenas de moços de Úruk;

[123] Ao terceiro bufar a terra fendeu-se,
Enkídu caiu-lhe dentro até a cintura:
[125] E saltou Enkídu, ao Touro agarrou pelos chifres,
O Touro, em sua face, cuspiu baba,
Com a espessura de sua cauda …. .

[128] Enkídu abriu a boca para falar,
Disse a Gilgámesh:
[130] Amigo meu, ufanávamos …. em nossa cidade.
Como responderemos a toda essa gente?

[132] Amigo meu, testei o poder do Touro
E sua força, aprendi sua missão ….
[134] Voltarei a testar o poder do Touro,
Eu atrás do Touro ….

[136] Agarrá-lo-ei pela espessura da cauda,
Porei meu pé atrás de seu jarrete,
[138] Em …. seu,
E tu, como açougueiro valente e hábil,

[140] Entre o dorso dos chifres e o lugar do abate teu punhal enfia!
Voltou Enkídu para trás do Touro,
[142] Agarrou-o pela espessura da cauda,
Pôs o pé atrás de seu jarrete,

[144] Em …. seu,
E Gilgámesh, como açougueiro valente e hábil,
[146] Entre o dorso dos chifres e o lugar do abate seu punhal enfiou!
Após o Touro matarem,

[148] Seu coração arrancaram e em face de Shámash puseram,
Retrocederam e em face de Shámash puseram-se:
[150] Assentaram-se ambos juntos.
Chegou Ishtar sobre o muro de Uruk, o redil,

[152] Dançou em luto, proferiu um lamento:
Este é Gilgámesh, que me insultou, o Touro matou!
[154] E ouviu Enkídu o que disse Ishtar,
Rasgou a anca do Touro e em face dela a pôs:

[156] E a ti, se pudera, como a ele faria:
Suas tripas prendesse eu em teus braços!
[158] Reuniu Ishtar as hierodulas, prostitutas e meretrizes,
Sobre a anca do Touro em luto a carpir.

A celebração da vitória

[160] Chamou Gilgámesh os artesãos, os operários todos,
A espessura dos cornos observaram os filhos dos artesãos:
[162] Trinta minas de lápis-lazúli de cada um o peso,
Duas minas de cada um a borda,

[164] Seis medidas de óleo a capacidade de cada;
À unção de seu deus, Lugalbanda, os dedicou,
[166] Levou-os e pendurou em sua câmara real.
No Eufrates lavaram suas mãos,

[168] E abraçaram-se para partir.
Pela rua de Úruk cavalgavam,
[170] Reunido estava o povo de Úruk para os ver.
Gilgámesh às servas de sua casa estas palavras disse:

[172] Quem o melhor dentre os moços?
Quem ilustre dentre os varões?
[174] Gilgámesh o melhor dentre os moços,
Gilgámesh ilustre dentre os varões!

[176] …. a quem conhecemos em nossa fúria,
…. na rua quem o insulte não há,
[178] …. caminho que …. seu.
Gilgámesh em seu palácio fez uma festa:

[180] Deitados estão os moços, que nos leitos à noite dormem,
Deitado está Enkídu, um sonho vê;
[182] Levanta-se Enkídu para o sonho resolver.
Diz ao amigo seu:

[7, 1] Amigo meu, por que discutiam em conselho os grandes deuses?

A prece de Nínsun (Sîn-lēqi-unninni, Ele o abismo viu, serie de Gilgámesh, tabuinha 3, v. 13-135) – tradução do acádio por Jacyntho Lins Brandão

É usual na tradição médio-oriental que as obras sejam conhecidas a partir de suas primeiras palavras, como, neste caso: ša naqba imuru (literalmente, ‘aquele que o abismo viu’). Esse é o título original do que, desde o século XIX, se costuma chamar poema ou epopeia de Gilgámesh.

A atribuição do texto a Sîn-lēqi-unninni encontra-se em catálogo redigido no primeiro terço do primeiro milênio a. C. e achado em Nínive, no qual se lê: “Série de Gilgámesh (iškar Gilgāmeš): da boca (ša pî) de Sîn-lēqi-unninni, [sacerdote-exorcista]”. A última qualificação é de leitura duvidosa, já que depende de conjetura, tendo sido proposto que se lesse, em vez de “exorcista”, “mago” ou “adivinho”.

A expressão “da boca de…” é um modo de indicar aquele a quem se deve a versão em causa, equivalendo a “segundo…” Mesmo que a noção de autor não corresponda exatamente à nossa, admite-se que Sîn-lēqi-unnini tenha composto a versão clássica do poema por volta dos séculos XII-XI antes de nossa era, remanejando relatos anteriores. Parece que é a ele que se deve o tratamento grandioso da saga de Gilgámesh, centrado na questão da mortalidade do homem.

Entretanto, note-se que Sîn-lēqi-unnini é reivindicado como ancestral por muitos escribas de Úruk, ou seja, trata-se do epônimo de toda uma categoria de intelectuais – num processo semelhante ao que se dá, na Grécia, com os Homeridas e Homero. Mas as semelhanças param aí, uma vez que, diferentemente de Homero – um aedo (cantor) que lida com uma tradição oral e é em grande parte produto dela –, Sîn-lēqi-unninni é escriba e trabalha com uma tradição escrita sobre Gilgámesh, em sumério e acádio, que já contava, em sua época, com mais de meio milênio.

A versão babilônica (clássica) do poema ganhou recentemente uma acurada edição crítica que levou em conta todos os manuscritos existentes: A. R. George, The Babylonian Gilgamesh Epic, Introduction, critical edition and cuneiform texts, Oxford: Clarendon, 2003. A importância de uma edição assim está em considerar o conjunto da tradição manuscrita, estabelecendo uma versão padrão, sem desprezar as variantes. Para dar um exemplo, o verso 55 da prece de Nínsun não aparece em vários manuscritos, mas foi considerado autêntico por George. Em suma: diante dessa nova edição, se impõe que todas as traduções sejam refeitas. É da lição do texto acádio que ela estabelece que se traduziu o trecho abaixo.

A prece da deusa Nínsun, mãe de Gilgámesh, faz parte da tabuinha 3. Nela se expressa todo o receio materno ante a notícia de que o filho, na companhia de seu companheiro Enkídu, pretende ir até a Floresta de Cedros, no Líbano, para enfrentar Húmbaba, o monstruoso guardião do local. Como matar Húmbaba vem a ser o grande feito heroico de Gilgámesh, todos os preparativos que o antecedem têm como função torná-lo mais destacado e memorável.

A poesia semítica, incluindo a escrita em acádio, não tem métrica fixa nem usa de rima. O ritmo poético decorre de o verso, em geral, supor uma divisão em duas partes, marcada tanto em termos de fala quanto de sentido (o verso 19, por exemplo, deveria ser lido assim: “Gilgámesh e Enkídu / foram ao templo de Nínsun”). Exploram-se muitos recursos paralelísticos, incluindo assonâncias e repetição de palavras, de versos ou mesmo de cenas. Esses efeitos foram buscados na tradução.

Os locais marcados com —- indicam pontos em que o texto cuneiforme inscrito nas tabuinhas de argila se encontra danificado, impossibilitando a leitura. Observe-se que no verso 97 foi o próprio escriba que anotou “texto quebrado”, ou seja, o manuscrito que lhe serviu de base para produzir sua cópia já se encontrava corrompido na própria Antiguidade.

Estão em cena Nínsun, cujo epíteto é “vaca selvagem” e cujo traço principal é a sabedoria, Gilgámesh e Enkídu. Nínsun dirige-se a Shámash, o sol, e faz referência a outros desues: a esposa de Shámash, Aia; os Annúnaki, deuses celestes; Ea, deus das águas subterrâneas (o Apsu), insigne por sua sabedoria; Írnina, um dos nomes de Ishtar, a deusa do amor, mas então considerada em sua dimensão guerreira e infernal; e Ningíshzida, deus subterrâneo.

akítu a que se faz referência nos versos 31-34 era uma festa babilônica, geralmente celebrada ano novo.

Jacyntho Lins Brandão

 A prece de Nínsun

[13] Gilgámesh abriu a boca para falar,
disse a Enkídu:
[15] Vem, amigo, vamos ao templo de Nínsun,
À face de Nínsun, grande rainha,

[17] Nínsun inteligente, sábia, tudo sabe,
Passos calculados disporá p’ra nossos pés.
[19] E deram-se as mãos, a mão de um na do outro,
Gilgámesh e Enkídu foram ao templo de Nínsun,
À face de Nínsun, grande rainha.

[22] Gilgámesh ergueu-se, entrou em face da deusa sua mãe,
Gilgámesh a ela diz, a Nínsun:
[24] Nínsun, sou ousado a ponto de percorrer
O longo caminho até Húmbaba:

[26] Uma batalha que não conheço enfrentarei,
Em jornada que não conheço embarcarei.
[28] Dá-me tua bênção e que ir eu possa!
Que tua face eu reveja e salvo esteja,

[30] E adentre a porta de Uruk, alegre o coração!
Possa retornar e o akítu duas vezes ao ano celebrar,
[32] Possa o akítu duas vezes ao ano celebrar!
akítu tenha lugar e o festival se faça,
Os tambores sejam percutidos diante de ti!

[35] A vaca selvagem Nínsun as palavras de Gilgámesh, filho seu,
e de Enkídu em aflição ouviu.
[37] À casa do banho lustral sete vezes foi,
Purificou-se com água de tamarisco e ervas,
[39] —- uma bela veste, adorno de seu corpo,
—- adorno de seus seios,
[41] — posta e com sua tiara coroada,
—- as meretrizes o chão empoeirado.

[43] Galgou as escadas, subiu ao terraço,
Subindo ao terraço, em face de Shámash incenso pôs,
[45] Pôs a oferenda em face de Shámash, seus braços alçou:
Por que puseste em meu filho Gilgámesh este coração sem sossego?

[47] Agora o tocaste e ele percorrerá
O longo caminho até Húmbaba:
[49] Uma batalha que não conhece enfrentará,
Em fogo que não conhece embarcará.

[51] Até o dia em que ele vá e volte,
Até que atinja a Floresta de Cedros,
[53] Até que o feroz Húmbaba ele mate,
E o malvado que detestas desapareça da terra,

[55] De dia, quando tu os limites —-
Ela, Aia, não te tema, Aia, a esposa, te lembre:
[57] Este aos guardas da noite confia,
Ao lusco-fusco —-

[59] —-
—- para
[61] —-
—- brilhar

[63] Abriste, Shámash, —- para a saída do rebanho,
Para —- saíste sobre a terra,
[65] Das montanhas —- brilharam os céus,
Os bichos da estepe —- tua luz vermelha,
[67] Esperou —- a eles
Animais —- tu
[69] —-
Morto —- vida

[71] Para —- tua cabeça
Para —- a multidão se reúne,
[73] Os Anúnnaki em tua luz prestam atenção.
Ela, Aia, não te tema, Aia, a esposa, te lembre:

[75] Este aos guardas da noite confia,
A estrada que —-
[77] Toque e —-
Porque —-

[79] Jornada —-
E —-
[81] Até que Gilgámesh vá à Floresta de Cedros,
Sejam longos os dias, sejam curtas as noites.

[83] Esteja cingida sua cintura, sejam largos seus passos,
Para a noite, que ele acampe ao entardecer,
[85] Ao entardecer —- ele durma.
Ela, Aia, não te tema, Aia, a esposa, te lembre:

[87] No dia em que Gilgámesh, Enkídu e Húmbaba meçam forças,
Incita, Shámash, contra Húmbaba os grandes ventos,
[89] Vento sul, norte, do levante, do poente – ventania, vendaval,
Temporal, tempestade, tufão, redemoinho,

[91] Vento frio, tormenta, furacão:
Os treze ventos se alcem, de Húmbaba escureçam a face,
[93] E a arma de Gilgámesh a Húmbaba alcance!
Depois de teus próprios —- acesos,

[95] Nesta hora, Shámash, a teu devoto volta a face!
Tuas mulas ligeiras —- tuas,
[97] Um assento tranquilo, um leito, se te forneça,
[97a]    Um assento —-

[98] Os deuses, teus irmãos, manjares —- te tragam,
Aia, a esposa, com a limpa bainha de seu manto tua face enxugue!
[100] A vaca selvagem Nínsun repetiu diante de Shámash seu comando:
Shámash, Gilgámesh aos deuses não —-?

[102] Contigo os céus não compartilhará?
Com a lua não compartilhará o cetro?
[104] Com Ea, que habita o Apsu, não será sábio?
Com Írnina o povo de cabeças negras não dominará?
Com Ningíshzida o lugar sem retorno não habitará?

[107] Fa-lo-ei, Shámash —-
Para não —- para não —- a Floresta de Cedros,
[109] —- para não alcançar,
—- tua grande divindade.

[111] —-
—-
[113] —- como o próprio povo,
—- tu como —-
para —- Húmbaba fazeres entrar.

[116] Depois que a vaca selvagem Nínsun a Shámash reforçou o encargo,
A vaca selvagem Nínsun, inteligente, sábia, tudo sabia,
[118] —- Gilgámesh —-
Ela apagou a oferenda de incenso —-

[120] A Enkídu chamou e proferiu-lhe o comando:
Forte Enkídu, não saíste de minha vagina!
[122] Agora tua raça estará com os oblatos de Gilgámesh,
As sacerdotisas, as consagradas e as hieródulas.

[124] Um sinal ela pôs no pescoço de Enkídu:
A sacerdotisa adotou o exposto
[126] E as filhas dos deuses criaram o noviço.
Eu própria, a Enkídu, que amo, adotei como filho,

[128] A Enkídu, como irmão, Gilgámesh favoreça!
—-
[130] E —-
Quando vás com Gilgámesh à Floresta de Cedros,

[132] Sejam longos os dias, sejam curtas as noites.
Esteja cingida tua cintura, sejam largos teus passos,
[134] Para a noite, que acampes ao entardecer,
—- [o] protejas.

nota crítica: a “eneida” de virgílio, por carlos alberto nunes

mosaico de virgílio, entre duas usas (à sua direita, calíope, da poesia épica, à sua esquerda melpômene, da tragédia). hadrumeto (atual sousse), séc. iii a.c.
mosaico de virgílio, entre duas musas: à sua direita, calíope, da poesia épica, à sua esquerda melpômene, da tragédia. hadrumeto (atual sousse), séc. iii a.c.

em setembro de 19 a.C., junto à cidade de bríndisi, o moribundo públio virgílio marão pedia que queimassem os manuscritos “incompletos” da eneida, o poema épico fundamental da literatura romana ((nãoa  resumirei, mas podem conferir aqui)) & que viria a ser tornar, segundo t.s. eliot, o centro da cultura europeia: “Virgílio tem a centralidade do clássico único; está no centro da civilização europeia, numa posição que nenhum outro poeta pode compartilhar ou usurpar”. esse gesto do poeta moribundo que deseja aniquilar a obra imperfeita, reencenado na morte de kafka, é também o protótipo do gênio insatisfeito com uma obra muito acima do que os mortais poderiam fazer. verdadeiro ou não, tal gesto é um mito de fundação do poeta central com uma obra central .

bom, o julgamento de eliot estava na contramão do formulava seu amigo poeta ezra pound, que via na eneida uma versão paroquial da ilíada. pound despreza o caráter literário da obra, bem como o caráter pio do seu personagem principal, eneias. por mais desacertado que possamos considerá-lo, foi o julgamento de pound que prevaleceu para a maior parte dos leitores ao longo do séc. xx. aquelas obras que estavam em posição central na poesia romana (dentre vários, virgílio & horácio) saíram da lista canônica de leituras para ceder espaço às poéticas da vanguarda e a uma revisão necessária dos poetas esquecidos. com isso, a crítica do cânone tem seus riscos inversos (na batalha dos nomes, inserir um retira outro), & esses dois nomes são duas das maiores perdas do avanço destrutivo necessário nos modernismos, enquanto outros nomes – como sexto propércio – puderam ganhar mais espaço (pra nem falarmos nos provençais, nos metafísicos ingleses, ou no nosso sousândrade, &c.).

Eneida Odoriconão é à toa, portanto, que só temos duas traduções poéticas integrais da eneida no brasil: virgílio se tornou um poeta canônico não lido, em geral tido como símbolo de uma poesia clássica careta, conservadora, moralista, que pouco interessou à poesia e aos leitores de poesia dos últimos 100 anos. em parte, a confusão profunda entre igreja católica & cultura romana (com os padres assumindo quase todas aulas de latim), fez com que a literatura latina sofresse um revés, enquanto boa parte da literatura grega permaneceu com seu status, já que nela os leitores ainda viam pelo menos dois mitos mais interessantes: o da obra originária (homero, filosofia, lírica, tragédia) & o do exótico (como a língua é mais distante, imagina-se que o povo também seria muito mais distante). essas duas imagens vêm sendo desconstruídas: por um lado, vemos que a literatura grega vem de uma tradição oral antiquíssima & que talvez sua principal marca tenha sido o uso sistemático da escrita (ela é originária porque se conservou), enquanto percebemos que a cultura romana clássica nos é, no fundo, tão estranha quanto a grega & que a mediação da igreja, apesar do seu papel histórico na transmissão dessas literaturas, apenas criou a impressão de proximidade. resultado: temos hoje mais literatura grega do que romana. mesmo assim, com uma recorrência enorme às literaturas arcaica & clássica, enquanto o período helenístico & imperial dal literatura grega antiga (mais de meio milênio) permanece desconhecido, bem como a antiguidade tardia & o medievo.

mas voltemos as traduções da eneida: a primeira tradução brasileira é do maranhense odorico mendes (1799-1864) – nosso pai rococó – & a outra é de carlos alberto nunes (1897-1990). apesar de ter sofrido duras críticas em seu tempo (silvio romero as traduções “macarrônicas”), nos últimos anos a obra tradutória de mendes vem sendo ressuscitada, pelo menos desde que haroldo de campos escreveu, em 1962, seu artigo seminal “da tradução como criação e como crítica”, elevando odorico mendes ao patamar de “patriarca da tradução criativa”: hoje temos, por exemplo, o trabalho incrível do “projeto odorico mendes”, na unicamp, coordenado por paulo sérgio de vasconcellos. a poética tradutória de odorico está estudada, editada, disponibilizada & anotada.

a tradução  do também maranhense carlos alberto nunes (além de poeta, tradutor das obras completas de  homero, platão & shakespeare), foi publicada pela primeira vez em 1981 (montanha edições, em comemoração ao bimilenário da morte de virgílio) & pouco depois reeditada pela universidade de brasília, em 1983 (o que indica que teve boas vendas na época). infelizmente, o trabalho de nunes ficou parado ali, 30 anos atrás. seu projeto tradutório no mínimo singular de verter o hexâmetro datílico em versos de dezesseis sílabas (com tônicas nas sílabas 4, 7, 10, 13 e 16, formando um ritmo ternário) merece, há muito, mais atenção. é certo que suas traduções de homero (pelos motivos apresentados) já foram relançadas algumas vezes, por editoras diferentes; porém é só agora que vemos uma reedição do virgílio de nunes, numa edição organizada & anotada por joão angelo oliva neto (professor da usp, tradutor do livro de catulo e da priapeia grega e romana). trata-se de uma edição bilíngue  — como em algumas reedições de odorico —, que permite um contraste mais acirrado entre a poética virgiliana & as soluções encontradas por nunes. além disso, a edição conta com uma longa apresentação de oliva neto acerca da obra, do tradutor & da tradução (cerca de 60 pp.), além de apresentar o argumento de cada um dos 12 livros & uma gama de notas literárias & culturais. o resultado é um volume de quase 900 páginas, tal como a odisseia traduzida por trajano vieira, que saiu pela mesma coleção na editora 34 (& ganhou o jabuti de melhor tradução).

as traduções de carlos alberto nunes já foram muito criticadas como pouco poéticas & mesmo prosaicas. a meu ver (& assim eu o comentava na minha dissertação de mestrado, em 2008), boa parte da crítica era derivada de uma “incompetência cósmica” (expressão de augusto de campos) para a avaliação de projetos tradutórios exóticos. nunes emulava o hexâmetro (um verso de seis pés que varia entre 13 & 17 sílabas) com um verso longo, que poderia ser lido como seis repetições da mesma estrutura datílica em português (— u u, ou uma tônica seguida de duas átonas). por isso, houve quem achasse o verso brasileiro excessivamente longo & pesado; embora tivesse praticamente o mesmo tamanho dos versos de homero & virgílio: afinal, por que diabos o hexâmetro greco-romano não seria também considerado longo & pesado? a resposta mais simples é: virgílio & homero já eram canônicos – leia-se, intocáveis – nunes não; diante da nossa compreensível dificuldade de apreender os ritmos antigos, partimos do pressuposto de que eles são bons, mas quando há tentativas de recriá-los na nossa língua a resposta conservadora tende a ser a de que “isso não existe aqui” (com o corolário de que “nem deve existir”), ou que tout court “não é poesia”. por estar fora do padrão mais aceito de tradução poética, a versão de nunes, num primeiro momento, foi descartada do poético.

talvez pudéssemos formular a crítica de modo diverso: a tradução de nunes, de fato, não atinge os ápices poéticos da concreção de um odorico mendes, ou de um haroldo de campos; ela é mais alongada, como seu verso, mais fluida & oralizada, até mesmo flerta com a poética da prosa; então se o avaliarmos pelo critério poundiano (dichten = condensare), sua eneida pode ser um fracasso. mas isso é perder de todo o objetivo mais instigante daquela tradução, que foi o de fundar uma nova tradução rítmica via tradução. é esse mesmo verso longo que permite a nunes fazer um texto mais leve, ao mesmo tempo em que sustenta uma carga poética. não se trata – nem poderia se tratar! – de transcriação, mas de formular poética diversa, com uma mediação mínima das tradições métricas da língua portuguesa. é essa lógica do estranhamento produtivo, ou da incorporação de tradições estranhas, que mais vem interessando parte dos tradutores & estudiosos no brasil, tais como leonardo antunes & marcelo tápia (no grego), rodrigo gonçalves & leandro cardoso (no latim), dentre outros (como eu mesmo, em traduções de horácio). em parte, esse tipo de projeto está próximo de propostas estrangeirizantes (embora a sintaxe de nunes seja bastante “natural”) como as de henri meschonnic (ver o ritmo como acontecimento histórico é descentralizá-lo) & antoine berman (a tradução como espaço a ser dado para o outro, metáfora-título de l’auberge du lointin).

Eneida, sec 8de algum modo, nunes hoje faz parte não de um patriarcado (como queria haroldo para odorico), mas de uma constelação de referências — junto com haroldo & odorico — que prima pela multiplicidade, uma multiplicidade que aparece também no interesse crescente por poéticas indígenas & africanas dentro do brasil (penso em nomes variados, como risério, corona, josely baptista, niemeyer cesarino, dentre outros), por meio de traduções que resgatem o outro inevitável daquelas línguas, por ver no ritmo uma parte incontornável dessa abertura para a diferença. resgatar sua eneida, então, é resgatar, ao mesmo tempo, essa obra fundamental da história do ocidente, ao mesmo tempo em que reabre o espaço para um projeto tradutório peculiar.

por isso, transcrevo o trecho final do poema (livro 12, vv. 919-52) para dar uma ideia aos leitores que não conhecem ainda o trabalho de nunes.

explico o contexto: é o fim do combate entre o troiano/teucro eneias (filho de anquises) e o dauno turno (filho de dauno, guerreiro do lácio, comandante dos rútulos), que decidem dar fim a toda a guerra pela mão de lavínia (filha do rei latino) num duelo. depois de turno perceber que não pode ganhar o combate, ele tenta escapar por certo tempo. a cena começa quando eneias acerta seu adversário com a lança, este então aceita sua derrota & se porta de modo similar a um suplicante, entregando-se ao juízo do vencedor; porém eneias, vê que turno ainda usa em sua armadura os espólios arrancados de palante (o jovem filho de evandro que estava sob os cuidados dos troianos, há pouco morto & espoliado por turno); diante dessa memória, o herói troiano é tomado de ira & imediatamente mata turno, numa espécie de sacrifício à alma de palante. o livro & o poema se encerra com a descrição de turno morrendo.

a violência do encerramento, de algum modo, se assemelha à brutalidade do encerramento do filme tropa de elite (ok, não é um grande filme, mas estou pensando no efeito de encerramento), quando o traficante suplica que pelo menos não atirem com a escopeta em sua cabeça, apenas para que o enterro seja com caixão aberto, mas, diante do pedido, apenas ouvimos um tiro com a tela negra. acho que as reações de ambas as plateias (roma do séc. i a.c. e brasil do séc. xxi) talvez digam muito sobre as potencialidades da violência na cultura. é bem provável que parte do público romano regozijasse de ouvir/ler seu herói fundador aniquilar um inimigo inerme (como parte do povo brasileiro que adorou a polícia que estraçalhava a cabeça de um traficante); no entanto, ao mesmo tempo, uma boa parcela poderia ver nessa violência desmedida, nesse assassinato do suplicante indefeso, o símbolo do horror do império, o custo de deter o poder sobre o mundo, pelas vidas do outro, daquilo que os gregos adoravam chamar de bárbaros, & os romanos incorporaram; daquilo que a favela ainda nos apresenta de grande outro civilizatório (nosso estado de exceção permante). diante da violência final, sem comentários do narrador, o sentido do texto está aberto. virgílio era um poeta sutil, capaz de evitar dicotomias ingênuas, mais que tudo capaz de perceber a imensa dor dos vencidos (ele aprendeu bem a lição de homero nos funerais de heitor). turno não será um mero vilão de novela, nem eneias um herói inquestionável. o leitor é que o formará, ao mesmo tempo em que forma seu juízo sobre turno. como na vida, não há resposta fácil. só notem que a última palavra do poema é umbras, as sombras dos mortos.

guilherme gontijo flores

* * *

Enquanto Turno vacila indeciso, o Troiano sua lança
com pontaria certeira e vigor lhe desfere de longe,
no momentinho preciso. Muralha nenhuma tão duro
baque sofreu com projétil jogado por forte carneiro,
nem raio horríssono algum estalou com tamanho estampido.
Qual turbilhão borrascoso a mortífera lança avançava,
corta o septêmplice forro do escudo, a loriga transpassa,
indo encravar-se na carne da coxa de Turno extremado.
Dobram-lhe os joelhos; no solo se estende o gigante ferido.
Soam de todos os lados gemidos dos rútulos fortes;
o monte perto estremece, e nos bosques os ecos regougam.
Súplice, então, e humilhado, “faze como entenderes; venceste.
Mas, se te move o respeito às desgraças de um pai sem ventura
como também foi Anquises há muito, de Dauno te apiades,
da sua triste velhice, sem outro consolo na vida.
Aos meus devolve-me agora; o cadáver ao menos, mais nada.
Venceste, sim, e os ausônios me viram as mãos estender-te,
súplice e humilde. Lavínia pertence-te; é tua. Não queiras
levar avante tanto ódio”. Deteve-se Eneias um pouco;
os olhos volve para o alto; a direita reprime, indeciso.
E já se achava algum tanto abalado com aquelas palavras
do morituro guerreiro. Mas nisso conteve-se. No alto
do ombro fulgiu o talim conhecido, do jovem Palante,
bem como o cinto bordado que Turno lhe havia tirado,
quando acabou de matá-lo, no chão, já vencido e indefeso.
Nem bem Eneias a vista pousara naqueles despojoso,
ocasião de tormento indizível, explode em terrível
acusação: “Como? Falas em vivo escapar, quando vejo
que te enfeitaste com as armas dos meus? Quem te imola é Palante,
pelo meu braço. Palante! E em teu sangue se banha execrável”.
Assim falando, enterrou sua espada no peito de Turno,
sempre ardoroso. Desata-lhe os membros o frio da morte.
A alma indignada a gemer fundamente fugiu para as sombras.

(trad. carlos alberto nunes)

"Aeneas killing Turnus" de William Faithorne (1616-1691)
“Aeneas killing Turnus” de William Faithorne (1616-1691)

Cunctanti telum Aeneas fatale coruscat,
sortitus fortunam oculis, et corpore toto               
eminus intorquet. murali concita numquam
tormento sic saxa fremunt nec fulmine tanti
dissultant crepitus. volat atri turbinis instar
exitium dirum hasta ferens orasque recludit
loricae et clipei extremos septemplicis orbis;               
per medium stridens transit femur. incidit ictus
ingens ad terram duplicato poplite Turnus.
consurgunt gemitu Rutuli totusque remugit
mons circum et vocem late nemora alta remittunt.
ille humilis supplex oculos dextramque precantem               
protendens ‘equidem merui nec deprecor’ inquit;
‘utere sorte tua. miseri te si qua parentis
tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis
Anchises genitor) Dauni miserere senectae
et me, seu corpus spoliatum lumine mavis,               
redde meis. vicisti et victum tendere palmas
Ausonii videre; tua est Lavinia coniunx,
ulterius ne tende odiis.’ stetit acer in armis
Aeneas volvens oculos dextramque repressit;
et iam iamque magis cunctantem flectere sermo               
coeperat, infelix umero cum apparuit alto
balteus et notis fulserunt cingula bullis
Pallantis pueri, victum quem vulnere Turnus
straverat atque umeris inimicum insigne gerebat.
ille, oculis postquam saevi monimenta doloris               
exuviasque hausit, furiis accensus et ira
terribilis: ‘tune hinc spoliis indute meorum
eripiare mihi? Pallas te hoc vulnere, Pallas
immolat et poenam scelerato ex sanguine sumit.’
hoc dicens ferrum adverso sub pectore condit               
fervidus; ast illi solvuntur frigore membra
vitaque cum gemitu fugit indignata sub umbras.

"Kampf des Aeneas mit dem Turnus", de Franz Joachim Beich (1666-1748)
“Kampf des Aeneas mit dem Turnus”, de Franz Joachim Beich (1666-1748)

notas de joão angelo oliva neto:

Carneiro: aríete, cuja ponta tinha a forma da cabeça de carneiro, em latim, aries, arietis.
Septêmplice forro: forro que contém sete camadas.
Regougam: aqui, retumbam, estrondeiam.
Talim: boldrié que sustenta aljava e espada, e de que Turno se apoderou no livro X, vv. 495-500.
Execrável: refere-se a sangue.
Ardoroso: refere-se a Eneias.

argonáutica 1.605-914 – o episódio de lemnos

argo2br

o poema épico conhecido como as argonáuticas de apolônio de rodes representa uma das (senão a) obras maiores do período helenístico na antiguidade. diferentemente do que pregavam contemporâneos do autor como teócrito e calímaco (este tendo dito: ‘um grande livro é um grande mal’), autores de poemas menores em extensão, como epigramas, e pensadores de uma poética sucinta, apolônio compõe uma épica de extensão considerável: 5.835 versos, que são divididos em quatro cantos em média duas vezes maiores do que um canto homérico. o tamanho total do poema, assim, alcança cerca de um terço da ilíada. nesse poema, trata-se então do mito dos argonautas, bastante difundido na grécia desde pelo menos a época dos poetas arcaicos homero e hesíodo, mas especialmente corrente durante o período helenístico, sendo, por exemplo, tema de um dos aetia de calímaco.

assim, estando a famosa busca pelo velocino de ouro dividida em quatro cantos pelas mãos de apolônio de rodes, nosso foco recai sobre um dos acontecimentos principais do canto primeiro. após a abertura do poema e a listagem do catálogo de heróis que compunham a expedição, passando pelos preparativos da viagem, pelas libações aos deuses e pela despedida de jasão de sua mãe, finalmente acontece a partida da nau e, em um espaço de menos de trinta versos, a chegada até os portões de mirina, na ilha de lemnos. (veja abaixo o trajeto da nau, que parte de iolcos, reino de pélias, e atravessa o mar egeu até mirina, em lemnos, onde se dá o episódio aqui discutido).

MapofArgo

o momento da ilha de lemnos constitui, portanto, o primeiro embate diplomático enfrentado por jasão como líder da expedição, o que virá a demonstrar, eventualmente, características notáveis de seu caráter. as habitantes de lemnos, por seu lado, têm uma história singular e especialmente interessante. enciumadas dos maridos que traíam-nas incessantemente com escravas pilhadas da trácia, elas assassinam a todos, abandonam o rei à própria sorte dentro de um caixão jogado ao mar, e por fim tomam o poder. a filha do rei, hipsípile, é então a soberana da ilha. sua figura, longe de ser desimportante nessa sucessão de eventos, congrega em si alguns traços de calipso e de nausícaa, e ainda anuncia outros, como de medeia e, não nos esqueçamos, de dido.

a ilha de lemnos torna-se a ilha dos amores, lugar tão reconhecido na épica de antes e de depois, e ali os argonautas perdem-se em festejos e graças, atirando ao esquecimento os motivos de suas jornadas e as lembranças de suas terras e famílias. ali eles são pegos também pela mentira (comparar a história de lemnos contada pelo narrador, vv. 609-32, com a mesma história contada por hipsípile, vv. 798-826) e pelo desejo carnal; o tempo passa sem que percebam; o mistério e os festejos assumem o lugar da insegurança de ambos os lados. como veremos no texto, é necessária uma força maior que os coloque de volta nos trilhos do fado. hipsípile e as mulheres, cansadas de realizar por si mesmas os trabalhos manuais masculinos (chamados ‘trabalhos de atena’, v. 629), desejam ardentemente a companhia que atraca em seus portos. insufladas de amor por afrodite, planejam seus futuros junto aos heróis.

demais elementos importantes presentes neste trecho, como a ekphrasis do manto de jasão (vv. 721-67) e o símile da estrela com o qual o herói se assemelha durante a entrada em mirina (vv. 774-80), renderiam por si sós dezenas de páginas de análises, e não por acaso são assuntos com os quais a fortuna crítica se debate incessantemente. não entraremos nessas discussões neste espaço, mas uma leitura mais detida desses versos sempre valerá em função de novos esclarecimentos do sentido não só deste episódio mas também das motivações e sentimentos desses personagens que compartilham um cenário tão complexo como é o da enormemente acadêmica épica helenística. creio que, para quem se interesse, esse seja um dos capítulos mais deliciosos e intrigantes de toda a épica de apolônio de rodes, justamente por ser tão rodeada de enganos e incertezas, dessa atmosfera de poderes divinos que sugerem o erotismo, e que ao mesmo tempo demonstram-se tão dolorosamente trágicos.

por fim, sobre a tradução: utilizei a edição crítica estabelecida por hermann fränkel (1961), e o metro que escolhi neste projeto, para a trasposição do hexâmetro dactílico para o português, é o verso de doze sílabas.

vinicius ferreira barth

 

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The Lemnians
Art Gallery of NSW, Sydney
William Russell Flint
Scotland 1880-1969
The Lemnians c 1924
oil on canvas

 

argonáutica 1.605-914

Até a noite, naquele dia, um vento bom

605

soprou com força, esticando a vela da nau.

 

Mas ao tombar do sol, o abandonar do vento,

 

chegaram remando à rochosa Lemnos Síntia.

 

   Ali, de uma vez só, os homens do povo foram

 

mortos pelas mulheres no ano anterior.

610

Pois tendo rejeitado as esposas legítimas,

 

execrando-as, desejo bruto tinham pelas

 

cativas, que eles despojavam do outro lado,

 

pilhando a Trácia; os escoltava o vil rancor

 

de Cípris, pois há muito a ela não honravam.

615

Oh, miseráveis! Insaciadas de ciúmes.

 

Não somente os maridos com elas mataram

 

na cama, mas os homens todos, p’ra que não

 

houvesse no futuro a paga do massacre.

 

De todas, só Hipsípile poupou o velho

620

pai, Toante, que sobre a multidão reinava;

 

e em um baú vazio lançou-o ao mar, p’ra assim

 

quiçá escapar. E pescadores o arrastaram

 

p’ra ilha que era antes Eneia, e então Sicino,

 

por causa de Sicino, gerado de Eneia,

625

a ninfa, após ter se deitado com Toante.

 

Vestir os brônzeos trajes e os bois pastorear,

 

e arar as plantações de trigo era mais fácil

 

p’ra elas que os trabalhos de Atena, co’ os quais

 

se ocupavam outrora. No entanto, frequente

630

pousavam sobre o vasto mar os seus olhares,

 

temendo horrivelmente o retorno dos Trácios.

 

Por isso, ao terem visto junto à ilha a Argo,

 

iam em multidão das portas de Mirina

 

vestidas para a guerra, à praia despejando-se,

635

como Tíades carniceiras, pois talvez

 

viessem Trácios; e Hipsípile Toantida co’ elas

 

vestiu do pai as armas. Receosas desciam

 

sem fala; tal o horror que sobre elas pairava.

 

   Entretanto, os heróis despachavam da nau

640

o ágil mensageiro Etálida, encarregado

 

de portar as mensagens e o báculo de Hermes,

 

seu pai, que concedeu-lhe memória infinita.

 

Nem mesmo agora, entrando em imprevistos vórtices

 

do Aqueronte, em sua alma penetrou o oblívio;

645

pois esta tem em seu destino a infinda troca,

 

que a põe ora entre os subtérreos, ora entre os homens

 

vivos sob o raiar do sol. Mas por que as lendas

 

de Etálida é preciso que eu conte integrais?

 

Pois ele convenceu Hipsípile a acolher

650

quem vinha ao pôr do sol; mas a nau não soltaram

 

nem na aurora, por causa do sopro de Bóreas.

 

   E as mulheres de Lemnos, vindo pelas pólis,

 

reuniram-se, como ordenado por Hipsípile.

 

E quando estavam unidas em assembleia,

655

seu discurso impelia às outras desse modo:

 

   “Amigas, bom será darmos gentis regalos

 

aos homens, coisas que convêm levar à nau,

 

víveres, vinho puro, p’ra mantê-los fora

 

de nossas torres, e que por necessidade

660

não venham cá a saber verdades e se espalhe

 

um rumor grave; pois atos vis operamos,

 

e não será de agrado a ninguém, se souberem.

 

Em minha mente surge agora tal astúcia;

 

mas, se de vós alguém tiver melhor propósito,

665

que levante; também p’ra isso vos chamei.”

 

   Assim falou, e sentou no assento de pedra

 

do próprio pai; e então ergueu-se a ama Polixo,

 

que tinha vasta idade sobre os frouxos pés,

 

e num bastão se apoiava, ansiando em falar.

670

Ao seu redor estavam quatro jovens damas;

 

distinguia-se delas pelas alvas comas.

 

E estando ao centro da assembléia, debilmente

 

ergueu o pescoço sobre o curvo dorso, e disse:

 

   “Os regalos, como a própria Hipsípile intenta,

675

aos estranhos mandemos, que é melhor assim.

 

Mas e a nós, como sustentar-nos a nós mesmas

 

se nos ataca a Trácia tropa ou qualquer outra,

 

como acontece aos homens com certa frequência?

 

Assim é o caso desta inesperada turba.

680

E se algum dos divinos isso afasta, infindos

 

e outros males vos esperam, piores que a guerra,

 

quando todas as velhas mulheres morrerem,

 

e a vós jovens, inférteis, vier velhice trágica.

 

Como resistirão, ó miseráveis? Vão

685

acaso por si sós os bois trazer o arado

 

p’ra vós, e abrir os sulcos, repartir a terra,

 

e à translação de um ano recolher espigas?

 

Pois eu, embora as Queres quanto a mim se ericem,

 

acredito que no próximo ano eu me cubra

690

de terra, após ter recebido ritos fúnebres,

 

como é devido, antes que a ruína se aproxime.

 

Às mais jovens aconselho pensar bem nisto.

 

A vossos pés se avista, pois, escapatória,

 

se confiardes as casas e todos os vossos

695

bens e a luzente cidade às mãos dos estranhos.”

 

   Disse; e houve na ágora rumor. Pois foi do agrado

 

aquela fala. E então ergueu-se novamente

 

Hipsípile, e foi tal a sua fala em resposta:

 

   “Se tal resolução é, pois, de agrado a todas,

700

com toda pressa envio a mensageira à nau.”

 

   E então a Ifínoe proferiu, perto postada:

 

   “Levanta, Ifínoe, e vá encontrar-se com tal homem

 

e o traga até nós, quem lidere tal jornada,

 

p’ra que lhe conte a amável decisão do povo;

705

e se lhes for do agrado, invita-os a adentrar

 

a nossa terra e pólis de modo amigável”

 

   Assim, findou o encontro e partiu para o lar.

 

Também partiu aos Mínias Ifínoe; e a ela

 

eles perguntaram a intenção da visita.

710

A tanto respondeu com tal fala e relato:

 

   “Até aqui me enviou a filha de Toante,

 

Hipsípile, a chamar da nau quem seja o líder,

 

p’ra que lhe conte a amável decisão do povo;

 

e se a vós for do agrado, invita-os a adentrar

715

a nossa terra e pólis de modo amigável.”

 

   Assim falou, causando agrado o bom discurso.

 

Supuseram que, morto Toante, a filha Hipsípile

 

teria herdado o trono e reinava; com pressa

 

mandaram Jasão, e eles mesmos se aprontaram.

720

   Prendeu nos ombros, obra da deusa Tritônia,

 

o ambifácie manto purpúreo, dado a ele

 

por Palas, no início da construção da Argo,

 

quando ouviu dela como medir os seus bancos.

 

Seria até mais fácil levantar os olhos

725

ao sol, que contemplar tamanho enrubescer.

 

Pois era rubro ao centro, mas todas as bordas

 

eram purpúreas; e em cada margem havia

 

galantes adornos bordados com destreza.

 

   Viam-se ali os Ciclopes em labor eterno,

730

forjando o raio para o Zeus supremo; agora

 

quase todo fúlgido, um só facho faltava,

 

que estava a ser forjado em marteladas férreas,

 

cuspindo um fumo tórrido o faustoso fogo.

 

   Via-se também ambos os filhos de Antíope

735

Asopida, Anfíon e Zeto; e Tebas próxima

 

inda indefesa, e cuja fundação fixavam

 

dispostos. Sobre o ombro Zeto carregava

 

o pico de um abrupto monte, como obreiro;

 

com ele ia Anfíon, cantando co’ áureo fórminge,

740

e uma rocha duplamente grande o seguia.

 

   Depois, havia Citereia em grossas comas

 

portando de Ares o violento escudo; do ombro

 

esquerdo as dobras do seu manto deslizavam

 

por debaixo do seio; isso se via nítido

745

também no escudo brônzeo que ela tinha à frente.

 

   Viu-se um espesso campo de vacas; por elas

 

combatiam os Teléboas e os Electridas;

 

uns defendiam-nas, e os outros, bandidos Táfios,

 

tentavam furtá-las; e de cruor cobriam-se

750

os campos; e arrasavam-se os poucos pastores.

 

   E ainda havia duas bigas em combate.

 

À frente Pélops guiava e agitava as rédeas

 

e junto a ele estava a consorte Hipodâmia;

 

Mirtilo ia no encalço urgindo seus cavalos;

755

e com ele Enomau, que alçava à mão a lança

 

e caía ao quebrar-se o eixo do seu carro

 

quando prestes a varar o dorso de Pélops.

 

   E havia o miúdo Febo Apolo, que flechava

 

quem pelo véu queria arrastar sua mãe;

760

este era o grande Tício, de Elara nascido,

 

mas criado e renascido pela deusa Gaia.

 

   E ali também Frixo, o Mínio, como se ouvisse

 

o carneiro, como se este mesmo falasse.

 

Tu calarias vendo-os, a alma burlarias,

765

terias a esperança de ouvir falas sábias,

 

e longo tempo os olharia co’ esperança.

 

   Eram tais os presentes da Tritônia Atena.

 

e ele tomou na destra o dardo, que Atalanta

 

um dia deu-lhe em Menalo como lembrança,

770

em júbilo o encontrando; ansiava, pois, segui-lo

 

na jornada; mas ele mesmo a proibira,

 

temeroso das duras querelas do amor.

 

   E ele foi até a pólis, qual fulgente estrela

 

que, encerradas dentro dos novos aposentos,

775

as moças desposadas veem se alevantar,

 

e que pelo ar escuro seus olhos encanta

 

em belo enrubescer; e a dama então se alegra

 

saudosa do homem que foi viver entre estranhos,

 

a quem seus pais para noivar a mantiveram;

780

de tal modo rumava o herói até a pólis.

 

E quando as portas dessa pólis adentrou,

 

seguiram-no as mulheres dali em dilúvio,

 

encantadas co’ estranho; mas co’ os olhos fixos

 

no chão, firme seguiu até alcançar o paço

785

de Hipsípile; na chegada, as servas abriram

 

o portão duplo, disposto em bem feitas tábuas.

 

Ali Ifínoe, tendo passado um belo pórtico,

 

o acomodou por sobre um luxuoso assento

 

frente à senhora; e ela, olhando-o de relance,

790

corou a face virginal; no entanto, embora

 

tímida, dirigiu-lhe palavras amenas:

 

“Estranho, por que tão longo tempo ficaram

 

p’ra lá dos muros? Não há homens na cidade,

 

pois foram, peregrinos, a lavrar os campos

795

da terra Trácia. E contarei, sincera, todos

 

os nossos infortúnios, p’ra que vós saibais.

 

Quando meu pai Toante governava o povo,

 

os lares Trácios que existiam do outro lado

 

eram pilhados pelos nossos, que desciam

800

das naus e de lá traziam infindas moças

 

e espólios; o rancor destrutivo da deusa

 

Cípris cumpria-se, lançando-os à imprudência.

 

Pois repugnavam as legítimas esposas,

 

expulsando, insanos, as mulheres das casas

805

e possuindo as cativas, espólios da lança,

 

desgraçados! Por quanto tempo suportamos

 

a ver se as mentes mudariam; mas em dobro

 

sobrevinham os maus tormentos. Desonravam

 

os filhos nos salões, criando raça umbrosa.

810

Assim, virgens incólumes e mães viúvas

 

vagaram abandonadas pela cidade.

 

E nunca um pai tão pouco amor cedeu à filha,

 

mesmo se atormentada diante de seus olhos

 

sob mãos de uma cruel madrasta; e nem os filhos

815

defendiam, como antes, as mães de injustiças;

 

e nem irmão co’ a irmã se importava sincero.

 

Mas eram as donzelas cativas, nas casas,

 

nas danças, na ágora, em banquetes, admiradas;

 

até que um deus em nós inflou violenta audácia,

820

p’ra não mais receber nos muros quem voltasse

 

da Trácia, para que julgassem o que é justo,

 

ou para outro lugar partissem co’ as cativas.

 

Tendo implorado, então, pelos seus filhos homens

 

que estavam na pólis, retornaram aonde

825

estão até agora, os campos níveos da Trácia.

 

Ficai aqui para morar; se vos agrada

 

permanecer, em consequência vos darei

 

a distinção de Toante, meu pai. Não creio

 

que vás a terra escarnecer, pois é mais fértil

830

que as outras tantas ilhas que existem no Egeu.

 

Pois vai agora à nau e diz aos companheiros

 

estas palavras, e da pólis não te ausentes.”

 

   Falou, dissimulando a matança ocorrida

 

aos homens; e isso foi o que ele respondeu:

835

   “Hipsípile, muito agradável é a ajuda

 

que encontramos, e co’ a qual tu nos regalaste.

 

Retornarei à pólis quando em ordem tudo

 

eu relatar. Que a ti pertença a primazia

 

e a ilha; isso declino, mas não por desdém,

840

e sim por labores severos que me impelem.”

 

   Disse, tocou sua mão direita e se voltou

 

em seguida; incontáveis moças ao redor

 

rodavam ardentes, até que ultrapassasse

 

os portões. E com bons vagões foram à costa

845

carregando inúmeros presentes enquanto

 

ele contava em mínimos detalhes toda

 

a proposta então feita a ele por Hipsípile;

 

e, logo, facilmente levaram os homens

 

p’ra entretê-los. Pois Cípris verteu-lhes paixões,

850

graças a Hefesto plurisagaz, p’ra que um dia

 

possa de novo Lemnos ser lar para os homens.

 

   Então rumou ao palácio real de Hipsípile

 

o Esônida; os demais foram aonde quiseram,

 

a não ser Héracles, que junto à nau ficou

855

por sua escolha e com ele poucos consortes.

 

E a cidade alegrou-se com danças, banquetes,

 

enchendo-se co’ as fumaças dos sacrifícios;

 

sobretudo ao famoso e imortal filho de Hera

 

e a Cípris com danças e imolações rezavam.

860

Assim, dia após dia, atrasava-se o passo

 

da jornada; e mais longo tempo ficariam,

 

não tivesse Héracles apartado os consortes

 

das mulheres, dizendo a eles tais censuras:

 

   “Malditos, a morte de um parente nos toma

865

de nossa terra mãe? Ou p’ra arranjar noivados

 

que viemos de lá, deixando as nossas mulheres?

 

Agrada aqui morar e arar campos de Lemnos?

 

Pois poucos louros colheremos se ficarmos

 

tanto co’ estranhas mulheres. Nenhum deus há

870

de conceder às nossas preces velo autômato.

 

Que volte, então, cada um por si; e sobre o leito

 

de Hipsípile p’ra sempre o deixai, até que Lemnos

 

povoe com garotos, alcançando-o a glória.”

 

   Ralhou assim co’ bando; olhar nenhum se ergueu

875

a ele e nem palavra alguma, oposta, ouviu-se;

 

assim, saindo da assembleia se aprontaram

 

com pressa. As moças vinham correndo, ao sabê-lo.

 

E como abelhas zunzunindo sobre belos

 

lírios, fluindo da pétrea colmeia, e os campos

880

do entorno alegrando, em voo colhendo os doces

 

frutos de lá e de cá; assim essas mulheres

 

lamentavam-se em fluxos circundando os homens,

 

e com mãos e palavras saudaram a todos,

 

rogando aos deuses que tivessem bom retorno.

885

Também Hipsípile rogou, tomando as mãos

 

do Esônida, e vertendo lágrimas à perda:

 

   “Vá, e que permitam teu retorno ileso os deuses

 

co’ os consortes, levando ao rei dourado velo

 

como tu desejas e queres. Esta ilha

890

e o cetro de meu pai sempre estarão à espera,

 

se acaso aqui voltar quiseres, no retorno.

 

Congregarias, fácil, povo inumerável

 

de outras cidades; mas esse desejo tu

 

não terás, nem eu mesma prevejo tal fim.

895

Lembra contudo, seja indo ou retornando,

 

de Hipsípile; e contente cumprirei qualquer

 

dever, se um filho teu os deuses me trouxerem.”

 

   Respondeu-lhe comovido o filho de Esão:

 

“Hipsípile, que obtenhas grandes benefícios

900

por diva graça e coisas guardes em teu peito

 

melhores que eu; em minha pátria basta a vida,

 

cedendo-o Pélias; oxalá os trabalhos findem!

 

Mas se à Hélade é meu destino regressar,

 

tão distante, e tu deres à luz um garoto,

905

quando crescido expede-o p’ra Pelasga Iolcos

 

p’ra de meus pais curar o sofrimento, caso

 

encontre-os inda vivos e, livres do rei,

 

que deles cuide no calor de seus salões.”

 

   Foi em primeiro lugar, então, para a nau;

910

e os outros heróis seguiram, tomando os remos

 

e os assentos em linha; e Argos desatou

 

a amarradura do banco rochoso. Então

 

batiam n’água manejando os longos remos.

 

O Paraíso Reconquistado de John Milton

Eu, que há pouco o feliz Jardim cantei,
Perdido em desobediência, canto
Aos homens recobrado Paraíso,
Provada a obediência de outro homem
Por toda a tentação, o Tentador
Frustrado em seus ardis, vencido e expulso,
E o Éden ressurgido em vasto ermo.

Assim começa a continuação do Paraíso Perdido, de John Milton, intitulado, em nossa tradução, Paraíso Reconquistado (Paradise Regained, no original. Motivo de várias discussões sobre tradução). Pois bem, como eu há (não tão) pouco o feliz Jardim comentei, perdido em desobediência, agora acho importante comentar a sua sequência.

Em comparação com o Paraíso Perdido (PP), o Paraíso Reconquistado (PR) é bem menos popular, e não é difícil de ver o porquê disso – e a palavra-chave nesta questão é singeleza. Não é nenhuma novidade afirmar que o PP é um poema bombástico, que trata, por exemplo, da situação da queda de Satã com gravidade e minúcia, descrevendo, por exemplo, como sua queda, hiperbolicamente, durou 9 dias e 9 noites (o tempo necessário para se cair do Éter à terra, e da terra ao Tártaro, segundo os gregos), como o escudo às suas costas parecia uma lua, como era inimaginável o seu sofrimento, etc. Pois os acontecimentos narrados pelo PP são, de fato, grandiosos: a criação do mundo, a rebelião dos anjos, a queda de Satã, a queda de Adão e Eva… e Milton não era o Padre Marcelo Rossi para tratar de algo como, por exemplo, o Dilúvio com “os animaizinhos / subiram de dois em dois”. Ele evidentemente soube elevar a linguagem ao nível que julgou apropriado para o assunto. Mas o PR é um outro tipo de poema.

Primeiramente, ele não é tanto um épico quanto um epílio, totalizando cerca de 2.000 versos em 4 livro, um número pequeno comparado aos 10.000, mais ou menos, dos 12 livros do PP. Segundo que um de seus principais temas é a mansidão e a humildade de Jesus. O enredo, avançando muitos anos após o final do PP, trata do episódio do Novo Testamento em que Jesus, encarnado em homem, passa 40 dias e 40 noites no deserto, resistindo às tentações de Satã e cumprindo, com isso, a promessa feita a Deus Pai no PP, quando ainda era uma entidade plenamente divina, de que ele desceria ao mundo com o fim de se sacrificar para a redenção do homem. Até esse momento, a humanidade se vê à mercê do Pecado e da Morte, que são as duas crias de Satã liberadas do Inferno com a Queda, e caída em idolatria, tendo como deuses os demônios comparsas de Satã, como Moloch, Astaroth, Asmodeus, Belial (em geral divindidades caananitas demonizadas, tal como era a prática judaica, herdada pelo cristianismo). Milton poderia ter ido pela via mais comum e ter feito do poema uma versão narrativa das peças da Paixão de Cristo, comuns na igreja (e, de fato, o PP já havia sido concebido como uma peça teatral inicialmente. Não seria tão estranho), mas ele preferiu uma ação mais interna, psicológica e espiritual do que a carnagem chocante da Paixão.

De fato, não há nada parecido com um acontecimento visivelmente grandioso e bombástico em PR, mas é justamente através desse nada que se dá a preparação de estado de espírito de Cristo e a segunda queda de Satã. São, como ele põe (e nós traduzimos), “feitos mais que heroicos, mas secretos”. O poema se abre com o batismo, depois passa para a fuga para o deserto, as tentações e o retorno. Satã, como em PP, organiza uma assembleia para decidir qual seria o melhor modo de fazer Cristo ser corrompido, como Adão e Eva o foram, e se prontifica a tentá-lo pessoalmente.

Mas Satã já perdeu muito de seu brilho. Se ele era uma figura trágica no começo do PP e se degenera ao longo do poema, no PR  é uma figura digna de pena. Ele, sem dúvida, mantém seu poder retórico (afinal, é o pai da mentira), mas se vê já que sua compreensão das coisas está completamente ofuscada. Desde sua primeira fala, quando comenta a passagem bíblica que diz que se “esmagará a cabeça da serpente” (que aparece também no final do PP), ele revela que não compreende o sentido real dessas palavras, ao acreditar que poderá manter sua liberdade e império após o “golpe do jurado ferimento”. Mais ainda ele demonstra essa cegueira nas suas tentações. Primeiro ele vem disfarçado, tentando convencer Jesus a transformar pedra em pães. Humilhado e expulso, sai e retorna depois, quando a fome do jejum de Cristo mais começa a torturá-lo, e traz um banquete suntuoso, que é recusado. E assim continua, oferecendo, em sequência, riqueza, armas, glória, poder… em nenhum momento Satã compreende a busca espiritual de Cristo e o porquê dele recusar os dons mundanos, o que faz com que o clímax, quando ele pede pateticamente a Jesus que o venere, seja efetivamente um anticlímax.

Tendo em vista essa falta de ação e a figura debilitada de Satã, não é difícil ver os motivos pelos quais o PR não é tão popular quanto o PP. No entanto, não é por isso que ele seria um poema inferior. Os dotes poéticos de Milton não deixam nada a desejar, e há realmente várias cenas verbalmente poderosas (e, por conta da menor extensão do poema, menos espaçadas entre si), dentre as quais foi difícil escolher uma somente para postar aqui. Mas, por fim, decidimos a favor do trecho final, onde um coro de anjos celebra a segunda queda de Satã e a reconquista do Paraíso.

Antes disso, porém, há a necessidade de falarmos um pouco da tradução. Este poema de Milton é inédito em português. Mas temos na gaveta uma tradução integral já concluída, cujo projeto acho que seria interessante apresentar a vocês, leitores, pois foi uma tradução coletiva.

Os tradutores foram, daqui do escamandro, eu, o Guilherme Gontijo Flores e o Vinicius Ferreira Barth, mais uma colega nossa da UFPR, chamada Bianca Davanzo, e o Rodrigo Tadeu Gonçalves, que já deu as caras aqui com sua tradução do Prufrock. O nosso projeto se destaca por termos dividido o poema em cerca de 400 versos para cada um, mas que foram tão vigorosa e rigorosamente revisados e compostos sob uma tal rigidez de regras (governando quais seriam os termos utilizados, métrica, número de versos, dicção, etc) que se tornou possível obter uniformidade com o resultado final, tornando muito difícil de precisar, senão pela memória, a identidade exata de quem produziu qual verso. E foi um processo relativamente rápido também, concluído em seis meses… o que para 2000 versos do inglês tortuoso do século XVII, modéstia à parte, não é nada mal.

Sendo assim, publico uma amostra, tirada do livro IV, vv. 596-639, consistindo do coro angélico cantando “hinos celestes da vitória” e os versos de encerramento.

Adriano Scandolara
(imagens de William Blake)

        “Vera imagem do Pai, seja entronado
Num regaço de bênção, luz da luz
Gerando, seja longe do Céu, posto
No tabernáculo da carne, humano,
Vagando vasto ermo, em toda parte,
Com modo, estado e hábito que expressam-no
Filho de Deus, por diva força ungido,
Vens contra o Tentador do trono pátrio,
Que foi ladrão do Paraíso, e há tempos
Enfrentaste, lançaste Céu abaixo
Com todo seu exército e vingaste
Vencido Adão, venceste a tentação;
Reconquistas perdido Paraíso,
que a fraude da conquista tu frustraste:
Jamais ele ousará tentar de novo
O Paraíso; os seus ardis quebraram-se:
Pois, se falhara o trono sobre a Terra,
Fundou-se inda mais belo Paraíso
Para Adão e seus filhos escolhidos,
Que tu, ó Salvador, reinauguraste;
Onde seguros viverão, sem medo
De Tentador e tentação jamais.
Mas tu, Infernal Serpente, nunca mais
Nas nuvens reinará; como outonal
Estrela ou raio, tu cairás dos Céus
Pisado por seu pé; e, como prova,
Sentirás a ferida, não mortal,
Por tal repulsa ganha; sem triunfos
No Inferno; e em seus portais Abadom chora
A tua tentativa, então aprende
Temer Filho de Deus, que, desarmado,
Te há de perseguir com voz terrível,
De teus demônicos domínios sujos
A ti e as legiões; pois fugirão
Aos berros p’ra esconder-se num rebanho
De porcos e não serem escorraçados
Antes do tempo, atados em tormento.
Filho do Excelso, herdeiro dos dois mundos,
Algoz de Satanás, ao glório feito
Agora vem e salva a humanidade.”
        Ao humilde Salvador Filho de Deus
Vencedor cantam, renovado pelo
Festim celeste; em júbilo o conduzem,
E ao lar materno anônimo retorna.

        “True image of the Father, whether throned
In the bosom of bliss, and light of light
Conceiving, or, remote from Heaven, enshrined
In fleshly tabernacle and human form,
Wandering the wilderness—whatever place,
Habit, or state, or motion, still expressing
The Son of God, with Godlike force endued
Against the attempter of thy Father’s throne
And thief of Paradise! Him long of old
Thou didst debel, and down from Heaven cast
With all his army; now thou hast avenged
Supplanted Adam, and, by vanquishing
Temptation, hast regained lost Paradise,
And frustrated the conquest fraudulent.
He never more henceforth will dare set foot
In paradise to tempt; his snares are broke.
For, though that seat of earthly bliss be failed,
A fairer Paradise is founded now
For Adam and his chosen sons, whom thou,
A Saviour, art come down to reinstall;
Where they shall dwell secure, when time shall be,
Of tempter and temptation without fear.
But thou, Infernal Serpent! shalt not long
Rule in the clouds. Like an autumnal star,
Or lightning, thou shalt fall from Heaven, trod down
Under his feet. For proof, ere this thou feel’st
Thy wound (yet not thy last and deadliest wound)
By this repulse received, and hold’st in Hell
No triumph; in all her gates Abaddon rues
Thy bold attempt. Hereafter learn with awe
To dread the Son of God. He, all unarmed,
Shall chase thee, with the terror of his voice,
From thy demoniac holds, possession foul—
Thee and thy legions; yelling they shall fly,
And beg to hide them in a herd of swine,
Lest he command them down into the deep,
Bound, and to torment sent before their time.
Hail, Son of the Most High, heir of both worlds,
Queller of Satan, on thy glorious work
Now enter, and begin to save mankind.”
        Thus they the Son of God, our Saviour meek,
Sung victor, and, from heavenly feast refreshed,
Brought on his way with joy. He, unobserved,
Home to his mother’s house private returned.

(tradução de Vinicius Ferreira Barth, Bianca Davanzo Bianeck, Guilherme Gontijo Flores, Rodrigo Tadeu Gonçalves & Adriano Scandolara)

traduzir e retraduzir (n)o escamandro

o capítulo primeiro de tradução, reescrita e manipulação da fama literária, de andré lefevere, inicia-se com o seguinte parágrafo:

Este livro lida com os intermediários, homens e mulheres que não escrevem literatura, mas a reescrevem. Isso é importante porque eles são, no presente, co-responsáveis, em igual ou maior proporção que os escritores, pela recepção geral e pela sobrevivência de obras literárias entre leitores não-profissionais, que constituem a grande maioria dos leitores em nossa cultura globalizada. (p. 13)

assim, nos termos de lefevere não é descabido pensar no cinema como um dos domínios operantes da tradução (chamarei simplesmente de tradução o que reunirá também o conceito problemático de adaptação e reescrita), e tampouco o seria pensar o mesmo com os quadrinhos, a arte que, entre todas, mais é aparentada com o cinema.
pois bem, pensemos nos processos de transposição de uma ideia ao longo do trabalho composicional de ambas. essa ‘ideia’, ou o conteúdo que se pretende transpor desde uma obra literária até o resultado midiático final (pensando, claro, em termos de adaptações) sofre um trabalho brutal de adaptação a um roteiro estabelecido para comunicação em outra mídia. (o que causa o clássico ‘o filme é bom, mas o livro é melhor). ou seja, esse novo roteiro, que faz o meio de campo entre obra e destino, constitui o caminho intermediário que reúne todo esse conteúdo original (a poética, de acordo com alguns) com a matéria transposta. daqui, ao invés de pensarmos no ‘que se perde’ no caminho (assunto que resume a cruz de todo tradutor), já temos em mente que se tratam de mídias diferentes, e, portanto, abordagens diferentes de um mesmo tema. antes de pensarmos em todos os filmes que não alcançaram a magnitude de suas realizações literárias, não esqueçamos daqueles que fizeram o contrário, e tornaram livros medianos em clássicos da turma cinemática. um exemplo disso para mim seria o carteiro e o poeta.

do roteiro, passa-se ao storyboard, a nova transposição. traduz-se o conceito do roteiro no seu primeiro acontecimento visual. supõe-se ali o texto, vivificado, mas aponta-se para um lado em que acontecem outras coisas além do verbal.

abaixo podemos visualizar dois exemplos. o primeiro trata-se de uma página do storyboard de star wars: o império contra-ataca, com uma cena bastante conhecida por todos nós, creio. mais abaixo temos o sketch de jim lee para uma página de batman: silêncio, juntamente com a sua realização após a arte-final.

disso, supõe-se que o caminho final seja do storyboard em direção à versão definitiva, à arte-final e às cores.

tradução, adaptação, reescrita.

muito provavelmente não lemos o roteiro original de quaisquer revistas do batman ou da série star wars. certamente eu simplifiquei bastante o processo. de qualquer modo, a coisa se torna especialmente interessante quando vemos uma obra literária bastante conhecida tomar forma em uma dessas outras mídias. já falei nesses termos com relação à música aqui, em outro post. ali, a expressão verbal é praticamente zero, e capta-se algo do ‘espírito’ da obra para ser transmitido por som, e isso pode acontecer tanto no poema sinfônico oitocentista quanto na banda de metal que busca temas da épica clássica. no cinema, tanto quanto nos quadrinhos, a expressão verbal é diminuída com relação ao texto-fonte, podendo ser muito bem (re)elaborada, e divide espaço (e atenção) com a imagem.alienista_gemeos_capa

minha própria experiência alertou negativamente durante vários anos para obras literárias adaptadas para quadrinhos. simplificação do roteiro (para não dizer bestificação), aliado muitas vezes com artistas de segunda mão faziam um desserviço a um trabalho que, retomando a abertura desse post, pode ser uma ferramenta poderosa para divulgação de literatura a um público não-profissional. supondo o argumento de lefevere, um maldito quadrinho ruim poderia arruinar com a imagem de uma obra em meio a uma comunidade de leitores jovens, para pensarmos numa situação. nos últimos tempos, no entanto, algo tem mudado. um exemplo básico em termos de brasil é o trabalho dos irmãos gabriel bá e fábio moon, que adaptaram, por exemplo, o alienista, de machado de assis (capa ao lado), com grande qualidade de roteiro e de arte. trabalhos assim passaram a ser mais comuns a nível nacional e internacional, deixando de representar apenas a imbecilidade da ‘adaptação para jovens’ para constituir uma mídia de comunicação bem fundamentada e mais levada a sério, como já era o cinema.

nessa esteira, chega ao meu conhecimento a existência da série marvel illustrated, que adapta grandes obras da literatura à linguagem dos quadrinhos. alguns de vocês devem ter conhecimento dessa série, que inclui em seu acervo títulos como a ilíada, a odisseia, moby dick, o retrato de dorian gray, a ilha do tesouro, entre outros. no primeiro momento, o que me chamou mais a atenção foi o fato de esses títulos virem licenciados pela marvel comics, o que, querendo ou não, possivelmente elevaria o padrão dos trabalhos a outro nível. (infelizmente, até onde me consta a série não foi lançada no brasil).

fato é que a adaptação da ilíada é magistral, desde a concepção do roteiro e do storyboard até o formato final e a arte, e aí eu chego finalmente onde pretendia.

para quem gosta de quadrinhos de ação, é o clássico quadrinho de pancadaria entre personagens heroicas; e mais que isso, é um quadrinho que também sabe manter os momentos de pathos, as tristezas e as tragédias, os valores. para quem gosta da ilíada, é uma adaptação e tanto, com uma fidelidade assombrosa à ‘ideia’ do poema, e até mesmo com citações exatas do texto. tanto é que partes traduzidas do próprio poema compõem falas de personagens e até do narrador, de modo que quem conhece o poema sentirá ressoar na memória a grandiloquência homerica naqueles quadrinhos que pareceriam ser à primeira vista só de porrada.

por isso, como homenagem minha ao nosso escamandro, que nem um ano tem ainda, apresento finalmente o escamandro homerico em nosso blog, em toda sua magnitude, e em duas versões: a da marvel, que conta com o roteiro de roy thomas e os desenhos de miguel angel sepulveda; e a minha, que segue o padrão dodecassílabo que estou utilizando em meu projeto de tradução da argonáutica de apolônio de rodes, mantendo o mesmo número de versos, e que logo deve ter uma pontinha aparecendo aqui no blog. por meio da comparação entre essas duas versões também será possível perceber o quão próxima está a versão da marvel do texto de homero.

para uma introdução à leitura, lembramos que o rio escamandro (em seu nome humano, sendo xanto o divino) se entope com corpos de troianos durante a aristeia de um aquiles recém retornado à guerra e enfurecido pela morte de pátroclo. afrontado pelo herói, o escamandro se revolta, dá uma coça no mais poderoso dos homens e bota ele pra correr, fazendo com que o semideus aquiles sinta medo e rogue aos deuses por salvação. aquiles, em desespero, chega a se comparar, num símile, com um pequeno pastor que, ao tentar atravessar as fortes correntes durante o inverno, acaba engolido e afogado. mas no fim ele é salvo e o escamandro é acalmado pelos outros deuses.
a cena é memorável e acabou encontrando nos quadrinhos da série marvel illustrated uma realização igualmente magnífica. acabo até pensando no porquê de ser uma cena tão pouco representada nas artes visuais ou mesmo no cinema, sendo das mais divertidas no poema homerico.

e finalmente, sem mais delongas, a minha tradução dos versos 209 a 283 do canto XXI da ilíada, seguida pela reprodução das páginas referentes ao episódio do escamandro nos quadrinhos (the iliad, v. 7, pp. 15-8).
boa leitura.

vinicius ferreira barth


Il
. 21.209-83

Ali matou Medon, Tersíloco, Astopilo,
e Mneso e Trásio, e também Ofelestes e Ênio;
e muitos mais Peônios o veloz Aquiles
ceifaria, se não tivesse o fundo rio
o adereçado em forma humana entre voragens:
   “Aquiles, entre os homens és mais poderoso
e mais terrível; pois dos deuses tens a graça.
Se Tróia exterminar te concede o Cronida,
que o faças nas planícies, fora do meu leito;
pois minhas águas engasgaram-se com corpos,
meu fluxo não tem força pra seguir ao divo
ponto, e com mais e mais defuntos tu me entopes!
Ó líder nato, acalma-te, que estou danado!”
   E assim lhe respondeu o Aquiles velocípede:
“Caro Escamandro, assim será, como me ordenas.
Mas não antes que eu despedace a todos Troas
e os tranque na cidade e encare Heitor de frente,
e descubro, por fim, se venço-o ou ele a mim.”
   Assim falou e se lançou sobre os Troianos;
e o fundo rio então adereçou-se a Apolo:
“Filho de Zeus, argente-arqueiro!, não te lembras
das ordens do Cronida, que a ti comandou
amparar os Troianos, ser a eles refúgio,
até que a luz caísse e eclipsasse as planícies?”
   Falou, e ao ter saltado Aquiles de um relevo
para o centro, o furioso rio nele arrojou
diversos jatos num só jorro; os corpos todos
que em montes o entulhavam, mortos por Aquiles,
ele lançou às margens, como um touro irado;
e os vivos sob as limpas águas resguardou,
ocultando-os em vórtices fundos e vastos.
Formou-se uma onda horrível ao redor de Aquiles
que foi de encontro ao seu escudo em jato; os pés
mal se sustinham; segurou co’ as mãos num olmo
enorme e firme, posto abaixo na orla a expor
as raízes, contendo assim o brando fluxo
com seus pujantes ramos; sua própria massa
formou ali uma ponte; desse turbilhão
o herói lançou-se com velozes pés ao campo,
medroso; e sem deter-se, o grande deus jorrava
sobre ele com a crista enegrecida, a fim de
cessar de Aquiles o labor, salvando Tróia.
Veloz saltou o Pelida a distância de um dardo,
lançando-se como a águia escura quando caça,
entre as aves a mais ligeira e mais robusta.
Acometia assim, e o brônzeo arnês ao peito
rugia hediondo; oblíquo então pôs-se a fugir,
enquanto atrás o horrisonante rio caçava-lhe.
Tal como um homem que ergue a fonte da água negra
e traz por entre plantas e jardins o fluxo
tendo na mão a enxada que livra o conduto;
e sob o fluxo que se força acima os seixos
revolve, enquanto caem ali sujeira e terra
em balbucios, até que a ele, o guia, excedam;
assim a enorme enchente alcançou o tão célere
Aquiles, pois os deuses mais que os homens valem*.
E o divo Aquiles, sempre que parava e via
o algoz e se empenhava em saber se impeliam-no
à fuga os imortais, no largo céu de acordo,
de cima uma onda enorme vinha e lhe atingia,
encharcando seus ombros; pôs-se à frente aos saltos,
angustiado, forçado pelo rio em fúria,
cansando os joelhos, vendo o chão sumir dos pés.
   E lamuriava-se o Pelida ao largo céu:
“Zeus pai, dos deuses não há quem livrar-me possa
deste rio? Meu destino, pois, aqui eu encontro!
Outro não me causou tal mal entre os Celícolas
como o fez minha mãe, que insuflou-me vãs glorias.
Disse ela que ante os muros Troas eu cairia,
flechado pela flecha rápida de Apolo.
Tivesse-me matado Heitor, melhor troiano!,
pra que vencido um bravo, um bravo o despojasse!
Agora em mim recai a triste morte indigna
cercado pelo rio, como o pastor menino
que, atravessando a invernal torrente, afoga-se.”

(*) seguindo neste verso a ótima trad. de odorico mendes.

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Milton e um paraíso mais de uma vez perdido

John Milton (1608-1674): assim como com o carpe diem de Horácio, mesmo que você jamais tenha lido o autor de fato, deve ter tido alguma forma já de contato com ele. Você pode, por exemplo, já ter esbarrado numa das famosas gravuras de Gustave Doré (como a que está aqui ao lado) baseadas no seu longo épico Paraíso Perdido (1667, 1674), ou assistido ao filme O Advogado do Diabo, que, apesar de não ter muito a ver com a epopeia, dá à figura diabólica interpretada por Al Pacino o nome de John Milton, que inclusive cita a célebre frase miltoniana de que é “melhor reinar no inferno que servir no céu” – e para quem tiver curiosidade, há um longo artigo na wikipedia sobre o Paraíso Perdido na cultura pop, que inclui desde referências dos românticos (que eu não sabia que contavam como cultura pop, mas enfim…) a Neil Gaiman e bandas de heavy metal.

Há algo de fascinante em Milton, como também em Dante – além, inclusive, de suas próprias e gigantescas forças poéticas – que é o fato de eles terem sido autores cristãos que escreveram sobre o inferno e Satã. A cosmologia dantesca, herdada de concepções medievais, e a estranheza alegórica de seu inferno, em matéria de imaginação em muito superam as de Milton, fruto já de uma compreensão científica e proto-iluminista do universo, escrevendo numa época posterior a Copérnico e contemporânea de Galileu e Kepler. No entanto, é no quesito de representação de Satã que Milton supera Dante: indo na contramão da imagem de criatura patética e bestificada, que castiga ao mesmo tempo em que é castigada, instalada no fundo do inferno que Dante nos apresenta nos últimos cantos, Milton nos apresenta um Satã que é dolorosamente humano.

E essa impressão deriva de alguns motivos muito simples: Satã é o primeiro personagem a ser apresentado pela narrativa. Nos primeiros cantos nós o vemos derrotado, derrubado, caído no fundo do inferno após sua revolta e expulsão. No entanto, apesar de derrotado, há uma dignidade trágica em torno de sua figura, representada ainda com grandiosidade. No espaço dos primeiros cantos, então, nós o observamos se levantar dessa queda, comandar a construção do Pandemônio (a capital do inferno, palavra inventada pelo próprio Milton e que se tornou de uso corrente) e convocar uma reunião de todos os anjos caídos para decidir como prosseguir. É aí que eles decidem pela tática de corromper a nova criatura que Deus havia criado, em oposição a um novo e inútil confronto direto ou uma completa rendição, mas dentre toda a demoniarada quem fica incumbido dessa tarefa, completamente só, é o bom e velho Satã, que se voluntaria com um discurso grandiloquente.

Chega a ser admirável toda a resistência, a ousadia e a coragem do Satã miltoniano, ao mesmo tempo em que somos levados a sentir empatia pela profunda tristeza e desesperança do personagem, apresentada desde o princípio do poema e ressaltada de tempos em tempos ao longo da narrativa, a tristeza de estar longe da graça divina, a maior punição que lhe poderia ter sido dada, que faz com que, como ele mesmo diz, ele carregue o inferno consigo (uma ideia, diga-se de passagem, literariamente já presente em Marlowe, no Mefistófeles de seu Doutor Fausto). Com toda essa carga emocional, durante boa parte do poema ele nos parece o mais humano dos personagens, sobretudo quando contrastado com a perfeição do Pai e do Filho (ainda puramente divino e não humano, como na sequência do Paraíso Reconquistado) e os dois manequins que são Adão e Eva antes da Queda. Porém, conforme a narrativa se desenvolve, Adão e Eva caem, e Satã chafurda na própria malevolência e vai se degenerando, e, enquanto ele se desumaniza (e uma cena brutal de transformação em serpentes no livro X ilustra bem isso), quem vai se humanizando são Adão e Eva. Seu ponto alto é, talvez, quando ele encontra os dois pela primeira vez (no livro IV) e, entre suas reflexões, afirma que sente que poderia amá-los, se não tivesse, com grande pesar e aflição, que destruí-los.

E, obviamente, o grande motivo que nos leva a simpatizar com Satã é a pura maestria de John Milton como poeta, capaz de convencer até mesmo a partir de um ponto de vista que lhe é oposto (e convinha também ler os poemas da sua lírica menor, “L’allegro” e “Il Penseroso”, que ilustram bem essa capacidade retórica de Milton). Como disse, o poema vai aos poucos tirando essa aura heroica de Satã e mudando o foco para a humanidade que iria se formar a partir de Adão e Eva, expulsos do Éden no final do último livro. No entanto, isso não foi o suficiente para criar essa aura transgressora que paira em torno de Milton e que tanto encantou os românticos. Vide, por exemplo, o modelo satânico que Percy Bysshe Shelley tomou para o seu próprio Prometeu, em Prometheus Unbound (ainda que reconhecesse as imperfeições de Satã), o satanismo de Lord Byron (e, podíamos ainda dizer, de Baudelaire, que leu Byron, Shelley e Milton) e a declaração bombástica de William Blake de que “o motivo pelo qual Milton escrevia em grilhões dos Anjos & Deus, e com liberdade dos Diabos & o Inferno, era porque era um verdadeiro Poeta e do partido do Diabo sem o saber“. Blake também escreveu um longo poema sobre o poeta, intitulado – vejam só – Milton, além de ter feito ilustrações para tanto o Paraíso Perdido quanto o Paraíso Reconquistado, algumas dos quais estou usando neste post. Não vamos discutir muito a declaração de Blake, que, entre várias ironias e complexidades míticas, envolve muito mais coisas do que ter meramente compreendido mal a moral da história do Paraíso Perdido… mas o fato permanece que o período romântico foi, muito antes dos Rolling Stones, o primeiro a ter a verdadeira “sympathy for the devil”, e não seria grande surpresa que muitos leitores tenham comprado este peixe miltoniano. Por exemplo, o tradutor Antônio José de Lima Leitão (1787-1856), que viveu o período, traduz o Paraíso Perdido introduzindo palavras como “heróis” e “heroicidade”, mesmo quando elas não se encontram presentes no original, o que demonstra a influência dessa leitura.

Curiosamente, os modernos não tinham tanto apreço por Milton quanto os românticos. Talvez eles estivessem cansados, mas Ezra Pound, por exemplo, em inúmeros textos críticos, ralha contra Milton, sobretudo pela sua latinização do inglês: “He who disobeys me disobeys” é o seu exemplo de verso preferido para dar chilique. Pound, como bem disse o Guilherme aqui, “sabia ser bem idiota às vezes”. E o engraçado é que isso que Pound critica é o que louvamos aqui, por exemplo, como o que Odorico Mendes e Sousândrade fizeram com o português ao submetê-lo às influências do grego e do latim. Mas Pound também não estava sozinho, e F. R. Leavis, quando traça o cânone da literatura inglesa como objeto de estudo acadêmico exclui Milton – como exclui Byron e Shelley e tantos outros. E essa rejeição da crítica do século XX parece ter tido ecos para nós, falantes de português, na medida que nenhuma tradução do poema, de que temos notícia, foi publicada desde então.

Mas o mais estranho é que persiste ainda esta dissonância entre o fascínio exercido pela obra de Milton e a sua exclusão do paideuma. Tanto a cultura pop quanto a academia valorizam Shakespeare, por exemplo, mas a cultura pop parece valorizar Milton mais que a academia, ainda que a grande maioria não tenha o grau de treinamento de leitura necessário para a tarefa, e o resultado tem sido, em inglês mesmo, uns livros bizarros, como John Milton’s Paradise Lost In Plain English (um verdadeiro Paradise Lost for dummies) e Paradise Lost: the Novel. Serve como um ótimo argumento contra quem acha que a falta de contato com o literário é um fenômeno puramente brasileiro.

Bem, há inúmeras coisas ainda que poderíamos comentar, como os pormenores das questões políticas e teológicas em Milton (são das mais cabeludas), o estilo de Milton, o poema Paraíso Reconquistado que lhe dá continuidade (e que já traduzimos integralmente, em grupo), etc… mas estou me estendendo demais já, e ficam para um próximo comentário. Sem mais delongas, gostaríamos de apresentar a tradução de Lima Leitão (facilmente encontrável em sebos nas edições dos Clássicos Jackson), junto com o original, do comecinho do primeiro livro, que envolve a abertura do poema, em clássica tradição épica, e a apresentação da condição de Satã que, com seus comparsas, jaz derrotado no inferno. Mais do que a tradução de Lima Leitão, encontramos também uma tradução esgotada, também do século XIX, do barão e visconde de São Lourenço, Francisco Bento Maria Targini, cujo mesmo trecho eu transcrevi abaixo, com atualização da ortografia. Ao que dá para perceber, a tradução de Targini me parece preferível à de Lima Leitão, primeiramente por conseguir manter algo ainda da sintaxe miltoniana. Lima Leitão toma umas decisões estranhas como, por exemplo, deslocar o “Sing, heavenly Muse” do 6º verso para o primeiro verso, enquanto podemos acreditar que haja motivos estilísticos para Milton adiar o aparecimento da Musa. Além disso ainda, a tradução de Targini consegue ser notavelmente mais concisa que a de Lima Leitão, e os 58 versos desse trecho inicial em inglês em Targini aumentam para 64, mas se tornam 73 em Lima Leitão. Ainda que nós do escamandro, em geral, tentemos manter um mesmo número de versos sempre que possível, é compreensível que essa não seja a maior preocupação numa épica longa em versos brancos sem maior estruturação estrófica, até mesmo por conta das questões de diferenças linguísticas entre inglês e português. No entanto, ao aumentar 15 versos (25%!), é difícil imaginar que não tenha havido diluição do conteúdo poético.

Mas por ora me calo finalmente e deixo que vocês sejam os juízes.

Adriano Scandolara

John Milton, Paradise Lost, Book I, vv. 1-58:

Of Man’s first disobedience, and the fruit
Of that forbidden tree whose mortal taste
Brought death into the World, and all our woe,
With loss of Eden, till one greater Man
Restore us, and regain the blissful seat,
Sing, Heavenly Muse, that, on the secret top
Of Oreb, or of Sinai, didst inspire
That shepherd who first taught the chosen seed
In the beginning how the heavens and earth
Rose out of Chaos: or, if Sion hill
Delight thee more, and Siloa’s brook that flowed
Fast by the oracle of God, I thence
Invoke thy aid to my adventurous song,
That with no middle flight intends to soar
Above th’ Aonian mount, while it pursues
Things unattempted yet in prose or rhyme.
And chiefly thou, O Spirit, that dost prefer
Before all temples th’ upright heart and pure,
Instruct me, for thou know’st; thou from the first
Wast present, and, with mighty wings outspread,
Dove-like sat’st brooding on the vast Abyss,
And mad’st it pregnant: what in me is dark
Illumine, what is low raise and support;
That, to the height of this great argument,
I may assert Eternal Providence,
And justify the ways of God to men.

Say first—for Heaven hides nothing from thy view,
Nor the deep tract of Hell—say first what cause
Moved our grand parents, in that happy state,
Favoured of Heaven so highly, to fall off
From their Creator, and transgress his will
For one restraint, lords of the World besides.
Who first seduced them to that foul revolt?

Nine times the space that measures day and night
To mortal men, he, with his horrid crew,
Lay vanquished, rolling in the fiery gulf,
Confounded, though immortal. But his doom
Reserved him to more wrath; for now the thought
Both of lost happiness and lasting pain
Torments him: round he throws his baleful eyes,
That witnessed huge affliction and dismay,
Mixed with obdurate pride and steadfast hate.

João Milton por Targini, Paraíso Perdido, livro 1, vv. 1-64:

A primeira fatal desobediência
Do homem, e da vedada árvore o fruto,
Cujo gosto mortal ao mundo trouxe
A morte e todas as desgraças nossas,
Co’a perda de Éden, té que um outro homem
Maior nos restaurasse a posse dele;
Canta, celeste Musa, que do oculto
Cimo do Horeb ou do Sinai ditaste
Ao Pastor, que primeiro à raça eleita
Ensinou como foram no princípio
Céus e Terra do Caos levantados!
E se mais te deleita o monte Sion
De Siloé as águas, que avizinham
De Deus o oráculo, Eu de lá invoco
O auxílio teu a meu ousado canto,
Que não com médio voo sublimar-se
Do Aônio monte acima quer, traçando
Ação jamais cantada em prosa, ou verso.
E tu principalmente, ó Divo Esp’rito,
Que preferes aos templos um sincero
E puro coração: Ó tu me inspira,
Pois que antes de haver tempo tudo vias
E qual a Pomba sob as pandas asas
O abismo fecundaste; ora dissipa
Da mente minha as trevas, o que humilde
Tiver levante, afim que altas ideais
Correspondam do assunto à gravidade,
Para que a Providência eterna prove
E de Deus justifique a Lei aos homens.
Dize primeiro, pois que o Céu, e Inferno
Nada pode ocultar-te; a causa dize,
Que moveu nossos pais, de glória cheios,
E do Céu tão queridos, a perderem
Do Criador a graça, transgredindo
Sua vontade num leve preceito;
Do mundo sendo todo já senhores?
Quem primeiro à revolta os seduzira?
O Dragão infernal foi com astúcia,
Por inveja movido, e por vingança,
Quem a mau enganou da humanidade
No tempo em que dos Céus aquele espírito
A soberba expulsara, com as hostes
Dos rebelados Anjos que o seguiram,
E com que pretendera sublimar-se
De seus iguais acima, pressupondo
Do Altíssimo igualar a onipotência,
Se lhe obstasse; movendo ambicioso,
Contra o trono de Deus e monarquia,
Crua guerra no Céu, precipitando de cabeça,
Ardendo em raios das esferas que ara,
Num abismo sem fim de fogo eterno,
Onde atado a grilhão diamantino
Jazerá para sempre atormentado,
Por competir ousar com Deus superno.
Nove sóis, nove noites, aos humanos
O tempo repartira, enquanto rolam
O Espírito infernal e seus sequazes,
Através o ígneo golfo já vencidos,
E em confusão horrível misturados;
Sem lhes valer o ser de imortais entes:
Tal condição ao chefe derrotado
Aumenta muito mais a dor, a raiva,
Vendo agora o bem alto que perdera,
E o tormento sem fim em que jazia.

John Milton por Lima Leitão, Paraíso Perdido, livro 1, vv. 1-73:

Do homem primeiro canta, empírea Musa,
A rebeldia – e o fruto, que, vedado,
Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo
A morte e todo o mal na perda do Éden,
Até que Homem maior pôde remir-nos
E a dita celestial dar-nos de novo.

Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo
Estarás tu, que ali auxílios deste
Ao pastor que primeiro aos escolhidos
Ensinou como do confuso Caos
Se ergueram no princípio o Céu e a Terra?
Ou mais te agrada Sião e a clara Síloe
Que mana ao pé do oráculo do Eterno?
Lá donde estás, invoco o teu socorro
Para este canto meu que hoje aventuro,
Decidido a galgar com voo inteiro
Muito por cima da montanha Aônia,
De assuntos ocupado que inda o Mundo
Tratados não ouviu em prosa ou verso.

E tu mais que ela, Espírito inefável,
Que aos templos mais magníficos preferes
Morar num coração singelo e justo,
Instrui-me porque nada se te encobre.
Desde o princípio a tudo estás presente:
Qual pomba, abrindo as asas poderosas,
Pairaste sobre a vastidão do Abismo
E com almo portento o fecundaste:
Da minha mente a escuridão dissipa,
Minha fraqueza eleva, ampara, esteia,
Para eu poder, de tal assunto ao nível,
Justificar o proceder do Eterno
E demonstrar a Providência aos homens.

Dize primeiro, tu que observas tudo
No Céu sublime, no profundo Inferno,
Dize primeiro a causa irresistível
Que mover pôde os pais da prole humana,
Em tão próspera sina, ao Céu tão caros,
A apostatar de Deus que o ser lhes dera
E a transgredir a lei que lhes ditara,
Sendo só num objeto restringidos,
No mais senhores do universo Mundo:
Quem lhes urdiu a sedução malvada
Que os lançou em tão feia rebeldia?
O Dragão infernal. Com torpe engano,
Por inveja e vinganças instigado,
Ele iludiu a mãe da humana prole,
Lá depois que seu ímpeto soberbo
O expulsara dos Céus coa imensa turba
Dos rebelados anjos, seus consócios.

Confiado num exército tamanho,
Aspirando no Empíreo a ter assento
De seus iguais acima, destinara
Ombrear com Deus, se Deus se lhe opusesse,
E com tal ambição, com tal insânia,
Do Onipotente contra o Império e trono
Fez audaz e ímpio guerra, deu batalhas.
Mas da altura da abóbada celeste
Deus, coa mão cheia de fulmíneos dardos,
O arrojou de cabeça ao fundo Abismo,
Mar lúgubre de ruínas insondável,
A fim que atormentado ali vivesse
Com grilhões de diamante e intenso fogo
O que ousou desafiar em campo o Eterno.

Pelo espaço que abrange no orbe humano
Nove vezes o dia e nove a noite,
Ele com sua multidão horrenda,
A cair estiveram derrotados
Apesar de imortais, e confundidos
Rolaram nos cachões de um mar de fogo.
Sua condenação, porém, o guarda
Para mais fero horror: e vendo agora
Perdida a glória, perenal a pena,
Este duplo prospecto na alma o punge.

MORREU AQUILES – bernardo lins brandão

MORREU AQUILES
junto à Pátroclo
antes de morrer

os corpos que se seguiram
o fluxo de sangue que parou
o rio Escamandro

eram psicografia
armas e naus que perecem de cólera

o modo como olhou para o velho
suplicante

também isso
não era coisa desse mundo

bernardo brandão

carioqueida – vinicius ferreira barth

Carioqueida foi um poema escrito por inspiração simultânea de duas fontes: a Eneida de Virgílio e o malandrismo carioquês, infundido pelo Bernardo e bastante corrente em nosso grupo como filosofia composicional. Talvez uma releitura de colarinho da épica, uma Dido de mini-saia, um Enéias de bronze, de chopp e de malícia.
É meu costume homenagear os colegas com meus trabalhos, utilizando mecanismos, estilos e pensamentos em modo de emulação, fazendo uma mistura da minha própria dicção com a dicção dos outros. A imitação/emulação é uma das minhas técnicas preferidas. Nesse caso, o poema foi dedicado exatamente ao Bernardo Brandão.

malandro

malandro que é malandro
                perde a mulher na esquina
                acha outra
                                 e chama de princesa

mas quando o bicho pega
                 cai fora          (per            sua            dido?)
                          dizendo que Deus mandou

malandro, maluco
                era o Enéias:
                          comia (escon)dido na gruta
                          não sabia velejar
                          caía na praia
                          e ainda tirava uma onda


Vinicius Ferreira Barth

a constatação da épica pessoal – vinicius ferreira barth

fatos disformes e
              feitos
narrados desamarrados

eia! musa que te buliu.

e eu tomo no
                escudo
todo dia uma lança:
comilança balança
pajelança ponta-de-lança
cochamblança
lambança

e aqueles gregos, há,
brigavam peladinhos.

 

Vinicius Ferreira Barth