poesia, tradução

Limbo, de Coleridge, por Érico Nogueira

Samuel Taylor Coleridge; portrait by James Northcote, 1804.

O revolucionário poeta britânico Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) é mais conhecido do exiguíssimo público leitor de poesia pelos visionários “The Rime of the Ancient Mariner”, “Christabel” e “Kubla Khan” – todos três poemas de juventude. Na verdade, mesmo um leitor tão cuidadoso como T. S. Eliot acaba bem ou mal reproduzindo o lugar-comum de que, revolucionário embora, e introdutor, junto com Wordsworth, do romantismo nas terras da rainha, Coleridge foi uma espécie de poeta- relâmpago, ou poeta-tufão, visitado (brevemente) pelas musas na juventude, e inapelavelmente abandonado por elas na madureza e na velhice.

Mas não é bem assim.

Pois, segundo se pode ler na primorosa Selected Poetry organizada e anotada por Richard Holmes (Londres: Penguin, 1996), Coleridge nunca parou de escrever grandes e belos poemas pela vida afora; o que aconteceu foi que, viciado em ópio desde os trinta anos, seus períodos de criatividade foram ficando cada vez mais curtos e intermitentes à medida que envelhecia, – o que o obrigou, digamos, a mudar de foco e de método e de elocução, produzindo uma poesia altamente pessoal (e, acrescente-se, moderníssima), que explora o âmago da existência, os impasses da vida e da criação e, last but not least, a dependência química.

É precisamente esse assunto tríplice – dependência química, impasses da vida e da poesia, e âmago do ser – que o leitor encontrará em “Limbo”, cuja tradução inédita em vernáculo (tanto quanto pude averiguar) se poderá ler e julgar em seguida. Passei dezembro todo lendo Coleridge. E “Limbo” realmente me impressionou e se sobressaiu.

Finalmente, dedico esta tradução ao amigo britânico Chris Miller, com quem venho aprendendo horrores (et pour cause) sobre romantismo inglês.

Tchau!

Érico Nogueira

* * *

LIMBO

a Chris Miller

Lugar estranho, o limbo – um não-lugar, mas… seja –,
no qual o tempo e o espaço que rasteja,
de voo atado, em pesadelo de escapar,
lutam pelo último meio-ser crepuscular, –
espaço oco, tempo sem foice de mãos cheias
surdo e infecundo como o cálculo das areias,
sem nem sombra de sombra, – ah, mas pra quê flutua
em relógio de sol a luz da lua?

Mas isto é belo – a tempo humano se assemelha –,
um velho de alta e fixa sobrancelha,
que pára o terra a terra a fim de olhar os céus;
mas ele é cego – olhos de estátua são os seus –;
porém, a face enluarada pela sorte,
fita ele o mundo com aluado porte,
poucos cabelos brancos, súpero sobrolho,
e fita imóvel – a cega face é toda um olho –;
e, como órgão de mutíssima visão,
a face toda frui, parece, de um clarão! –
lábio no lábio, tudo estático, busto e artelho,
parece pôr os olhos no que os põe sobre ele!

Doces visões que tais o limbo não amura,
covil cercado que à alma fez prisão segura
o puro horror do nada vacuíssimo,
em cujo entorno tais fantasmas se enfeitiçam.
Negro e gorado pensamento – privação –
é só uma maldição de purgatório;
o inferno tem terror pior,
terror – o após –; é positiva negação!

LIMBO

‘Tis a strange place, this Limbo!—not a Place,
Yet name it so;—where Time and weary Space
Fettered from flight, with night-mare sense of fleeing,
Strive for their last crepuscular half-being;—
Lank Space, and scytheless Time with branny hands
Barren and soundless as the measuring sands,
Not mark’d by flit of Shades,—unmeaning they
As moonlight on the dial of the day!
But that is lovely—looks like Human Time,—
An Old Man with a steady look sublime,
That stops his earthly task to watch the skies;
But he is blind—a Statue hath such eyes;—
Yet having moonward turn’d his face by chance,
Gazes the orb with moon-like countenance,
With scant white hairs, with foretop bald and high,
He gazes still,—his eyeless face all eye;—
As ‘twere an organ full of silent sight,
His whole face seemeth to rejoice in light!
Lip touching lip, all moveless, bust and limb—
He seems to gaze at that which seems to gaze on him!
No such sweet sights doth Limbo den immure,
Wall’d round, and made a spirit-jail secure,
By the mere horror of blank Naught-at-all,
Whose circumambience doth these ghosts enthral.
A lurid thought is growthless, dull Privation,
Yet that is but a Purgatory curse;
Hell knows a fear far worse,
A fear—a future state;—’tis positive Negation!

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luis de góngora, por érico nogueira

gongora

Nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, Luis de Góngora y Argote viveu o ápice do chamado “siglo de oro” das letras espanholas. Escreveu, diz-se, em “castelhano imperial”, uma língua não raro obscura eivada de helenismos, latinismos, figuras retóricas e alusões mitológicas. Sua paixão pela metáfora – ou, antes, pelo processo analógico que Gracián chamou de agudeza e que propicia toda metáfora – chegou ao cúmulo do paroxismo e da obsessão.

Abaixo, segue um soneto de Góngora traduzido por Érico Nogueira  para a segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente (nela, Nogueira também traduz poemas de Hugo von Hofmannsthal e Torquato Tasso). Comenta o tradutor: “Aos vinte anos, contudo, [Góngora] escreveu sua profissão de fé. É um soneto à moda de Petrarca, com algo de Camões, e superior a ambos. Eu diria que é a cumulação da arte do soneto, de suas possibilidades formais e, por que não, também expressivas, e foi imitado por nosso Gregório de Matos”.

Érico Nogueira (Bragança Paulista – SP, 1979) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latinas na Universidade Federal de São Paulo. Autor de O Livro de Scardanelli (poesia, 2008), Dois (poesia, 2010) e Verdade, Contenda e Poesia nos Idílios de Teócrito (estudo e tradução, 2012), Poesia Bovina (poesia, 2015). Tem publicado artigos sobre versificação greco-latina e portuguesa. Nomes como Paulo Henriques Britto e João Angelo Oliva Neto já escreveram sobre sua poesia. Traduzido em inglês pelo crítico britânico Chris Miller, tem recebido destaque nas principais revistas literárias da Inglaterra, onde foi capa da The Warwick Review, editada pelo Department of English and Comparative Literary Studies da Universidade de Warwick. Vive e trabalha em São Paulo.

escamandro

 

Soneto

Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro brunido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que da rosa agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que esta que foi hora dourada
– ouro, lírio, rosal, cristal luzente –

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e tudo juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

 

Soneto

Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o vïola troncada
Se vuelva, más tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

(poema de Luis de Góngora y Argote, tradução de Érico Nogueira)

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crítica, poesia, tradução

Teócrito, por Érico Nogueira

peça de prata do fim do período helenístico (séc. I a.C.), provavelmente representando teócrito

peça de prata do fim do período helenístico (séc. I a.C.), provavelmente representando teócrito

teócrito é geralmente conhecido como a fonte da poesia bucólica. influência de virgílio, etc. mas ele é muito mais do que mero ponto de partida, e espero que uma experiência poética em tradução de érico nogueira possa demonstrar um pouco do poder da sua poesia.

érico nogueira (1979) é poeta, tradutor e professor de língua & literatura latinas na unifesp. é autor de o caderno de scardanelli (2008) & de dois (2010). o poema abaixo integra sua tese de doutorado – verdade, contenda e poesia nos idílios de teócrito —, publicada em livro em 2012 & nos foi gentilmente cedido para publicação no blog com uma introdução.

guilherme gontijo flores

* * *

UFC pra quê?

As conquistas de Alexandre Magno não alteraram apenas a configuração política e as relações econômicas do Mediterrâneo oriental no último quartel do século IV a. C. – mas também, e sobretudo, a poesia, a filosofia e a própria noção de cultura grega num mundo que ficara maior, muito maior que a arcaica e clássica cidade-estado. É nessa nova (e, por que não?, globalizada) conjuntura histórica, literalmente sob o farol do Museu e da Biblioteca de Alexandria, que surge a borgiana figura do poeta-bibliotecário, filólogo e artista a um só tempo, cuja poesia crítica pode entender-se, numa palavra, como profunda e criteriosa revisão da rica tradição helênica. Qualquer semelhança entre este e o atual estado de coisas no Brasil e no mundo é tudo, menos coincidência.

Dos eruditos poetas que pensaram e compuseram em grego na primeira metade do século III a. C., nenhum foi tão lido, estudado e amado quanto Teócrito. Imitado por Virgílio nas Éclogas – uma das mais importantes, famosas e célebres recolhas de poemas da tradição ocidental –, Teócrito entraria no cânon simplesmente como o inventor da poesia bucólica, gênero entre cujos cultores há nomes como Camões, Góngora, Milton, Mallarmé e Pessoa, por exemplo.

Diferentemente do de Virgílio, mais delicado e idealista, o bucolismo de Teócrito é mais cru e até selvagem às vezes, cheio de saborosas – e picantes – descrições que primam pela exatidão. Mas gado e pastores não são os únicos protagonistas dos seus versos, como o leitor poderá verificar, caso leia o poema abaixo: impressionantes combates que em nada ficam devendo ao moderno UFC. Chega de papo pra boi dormir. Luz, câmera, ação!

Érico Nogueira

IDÍLIO 22
Os Dioscuros

Hino aos dois filhos de Leda e de Zeus porta-égide canto,
Cástor e Pólux terrível de desafiar no punho
depois que cingisse té o meio das mãos as bovinas manoplas.
Hino cantemos duas, três vezes aos machos rebentos
da filha de Téstio, a ambos os lacedemônios irmãos,              5
dos homens, decerto, que já estão por um fio salvadores,
e assim de assustados corcéis em meio a sangrenta refrega,
e dos navios, os quais, violentando o sobe-e-desce
dos astros no céu, encontram com mui furiosos tufões
– que, desde a popa fazendo subir grandíssimas vagas,          10
ou bem da proa, ou bem de onde quer que acaso desejem,
jogam-nas contra a estiva e espedaçam um e outro
costado; e, com o velame, pendem os mastros todos
confusamente destruídos; e é bátega braba do céu, à
medida que a noite cai; e o mar muito amplo esbraveja,        15
pela lufada açoitado, e pelo ferrenho granizo.
Mas, inda assim, vós outros do abismo tirais os navios,
junto com os seus marinheiros crentes que fossem morrer;
e súbito os ventos amainam, e é luzidia bonança
ao longo do pélago; e as nuvens dissipam-se ali, acolá;             20
e as Ursas surgem então, e no meio dos Asnos o fosco
Presepe, indicando que tudo o que à náutica toca é sereno.
Auxiliadores, ó dois, dos mortais, ó dois amantíssimos,
vós, cavaleiros, vós, citaristas, atletas, cantores,
Cástor primeiro ou Pólux iremos então decantar?                      25
Um hino pra cada – e a Pólux primeiro – decerto cantemos.

E tendo escapado às pedras que uma na outra colidem
– e à boca malvada do Ponto nevoso também –, a Argó à
dos bébrices terra chegou, transportando os dois filhos dos deuses.
Onde muitos, por uma única escada, de um e                               30
outro costado homens desciam da nau de Jasão: e desem-
-barcando na funda praia, em costa ao abrigo dos ventos,
leitos, então, estenderam e esfregaram os gravetos com as mãos.
Cástor de rápidos potros e Pólux de pele avinhada
juntos e sós desbravavam, apartados dos seus companheiros,   35
pela montanha admirando a vária, a selvagem floresta.
E acharam uma fonte sempre-corrente sob rocha lisinha,
transbordando de água intocada; e embaixo dela
calhaus transluziam além que nem prata, que nem cristal, lá
do fundo; e altíssimos pinhos cresciam ao pé dali,                       40
e lúcidos plátanos, pois, e também bem copados ciprestes
e flores fragrantes, lida amorável das hirtas abelhas,
quantas da primavera no fim pelos prados rebentam.
Onde um homem imane sentado estava ao ar livre,
medonho de ver, as orelhas plasmadas por rígidos punhos;       45
no peito monstruoso e nas largas costas cresciam esferas
de férrica carne, como um colosso forjado ao martelo; e
nos sólidos braços músculos sob a ponta dos ombros
estavam qual pedregulhos redondos, os quais, rolando,
torrente invernal esculpisse com os seus abissais torvelinhos;   50
e eis que à volta das costas e sob o pescoço pendia uma
pele de leão, amarrada pela ponta das patas.
A quem primeiro falou Polideuces porta-troféus.

PÓLUX
Licença, ó amigo ignoto. Esta terra detêm que mortais?

ÁMICO
Como licença, se os homens que vejo jamais antes vi?           55

PÓLUX
Coragem: não vês malfeitores nem filhos de malfeitores.

ÁMICO
Coragem eu tenho, e parece que a ti não te cabe ensinar-ma.

PÓLUX
És selvagem, acaso, e em tudo agressivo e soberbo?

ÁMICO
Sou tal como vês – sem embargo, à tua terra não vou.

PÓLUX
Viesses, e a casa voltavas com quanto se deve à hospedança.    60

ÁMICO
A mim não me trates por hóspede, o meu não disponho pra ti.

PÓLUX
Ó excelência, tampouco deixavas beber dessa água?

ÁMICO
Vais logo sabê-lo, se a sede abrasar os teus lábios queimados.

PÓLUX
Há prata ou paga – dirás – com que acaso te convenceríamos?

ÁMICO
Um contra um, mãos em guarda, postando-te ante o oponente.   65

PÓLUX
No boxe, ou dando também pontapé, e o olho furando?

ÁMICO
No punho esforçando-te, então, não poupes a técnica tua.

PÓLUX
Ora, quem? Contra quem em minhas mãos vestirei as manoplas?

ÁMICO
Aqui o vês; mulherzinha não sendo, chamem-lhe o Púgil.

PÓLUX
Há prêmio em jogo, não há?, pelo qual nós dois lutaremos?   70

ÁMICO
Teu eu serei, – e tu serás meu, se acaso vencer-te.

PÓLUX
De galos de púrpura crista, decerto, é uma briga como esta.

ÁMICO
Se já semelhantes a galos, se já a leões porventura
nós somos, bater-nos-emos por prêmio nenhum além desse.

E Ámico, erguendo uma oca concha, fê-la mugir;                          75
e, a concha soando, rápido, então, se reuniram debaixo
dos plátanos mui sombrios os bébrices sempre comados.
Assim igualmente, lá indo, os heróis convocou um a um
da nau magnésia Cástor, o preeminente no prélio.
Ora, uma vez que com tiras bovinas os dois reforçaram               80
as mãos, e apertaram à roda dos pulsos as grandes manoplas,
convergiram pro meio exalando morte recíproca.
Aí a disputa entre eles foi grande, lutando pra ver
qual, dentre os dois, ficaria de costas pra luz do sol.
E em destreza excedeste o homenzarrão, Polideuces,                    85
e foi atingido por raios de Ámico o rosto todinho.
Ele, contudo, o fígado cheio de bile, ia em frente,
arremetendo com as mãos – cuja ponta do queixo atingiu,
enquanto avançava, o Tindárida; e, mais afanoso que antes,
embaralhava o combate, e atacava bastante, curvado                   90
pro chão. E os bébrices, pois, davam urras, mas, da outra banda, os
heróis, por seu turno, o fortíssimo Pólux encorajavam,
temendo que aquele homem mui parecido com Títio
assim o vencesse jogando-lhe a mole em espaço apertado.
Mas ele, o filho de Zeus, entrando de um lado e do outro,             95
feriu-o, alternadas, com ambas as mãos, e conteve a investida
da cria, por fim, de Posídon, conquanto soberbo ele fosse.
O qual estacou e, chapado dos golpes, sangue escarlate
cuspiu; e todos os príncipes juntos soltaram um grito,
ao ver-lhe as macabras feridas à roda da boca e das faces,            100
e os olhos que então se fechavam naquele carão inchadíssimo.
A quem Polideuces senhor confundia, ameaçando com os punhos
de todos os lados: e quando o notou sem qualquer reação,
entre os sobrolhos bem no nariz desferiu-lhe um direto,
e toda a cara quebrou-lhe té o osso. E aquele, golpeado,             105
caiu estendido de costas no meio da relva florente.
Aí, de novo de pé, aspérrima a luta ficou,
um procurando com as duras manoplas a morte do outro.
Ora, enquanto pro peito e pra fora do colo as mãos di-
-rigia o caudilho dos bébrices, Pólux invicto lhe                           110
desnaturava com golpes deformes a cara todinha
– e as carnes dele secaram devido ao suor, e, de homem-
-zarrão, se tornava um homúnculo; sempre mais grossos, porém,
crescendo o combate, eram os membros do outro, e melhores em cor.
Mas como, afinal, o filho de Zeus abateu o glutão?                       115
Fala, ó Deusa, pois sabes: e eu, porta-voz dos demais,
direi quanto queiras e como a ti mesma te for aprazível.
Ora, louquinho por perpetrar grande feito, aquele,
com a canhota, a mão canhota de Pólux pegou
– saindo de lado e da guarda – e, avançando com o pé direito,   120
do flanco destro lançou-lhe o seu larguíssimo punho.
E, caso o tivesse atingido, abatera de Amiclas o rei:
mas este, esquivando a cabeça, girou com o ombro e no ato
com mão possante bateu-lhe debaixo da têmpora esquerda,
e, aberta, da têmpora o sangue mui negro jorrou aos borbotões; 125
e deu-lhe a canhota na boca, e, cerrados, o dentes rangeram;
e, com ũa saraivada mais rápida e mais, devastava-lhe o rosto,
té que quebrou suas mandíbulas: todo por terra caiu
o outro, atordoado, e ergueu simultaneamente ambas
as mãos, desistindo da luta, pois perto já estava da morte.       130
E, embora o vencesse, não lhe fizeste nada maligno,
ó Pólux púgil; e ele votou-te solene promessa,
tendo de lá do ponto invocado Posídon, seu pai,
de nunca mais de propósito maltratar forasteiros.

Um hino, senhor, dediquei-te. A ti cantarei, ó Cástor,                135
lanceiro em couraça de bronze, de rápidos potros Tindárida.

O par de filhos de Zeus, após raptá-las, levava
as duas meninas do tio Leucipo, e a dupla, contudo,
de irmãos, de Afareu os rebentos, com ímpeto os perseguia,
noivos a um passo das bodas: Linceu e Idas, o forte.                   140
Quando à tumba chegaram, porém, do defunto Afareu,
todos uns contra os outros juntos saltaram dos carros,
armados pesadamente de lanças e ocos escudos.
Ao que Linceu declarou em voz alta de sob a couraça:
“Por que, infelizes, por guerra ansiais? Pra que com as noivas  145
alheias malévolos sois, e nas mãos tendes nuas adagas?
Conosco muito primeiro Leucipo comprometeu suas
filhas aí; conosco esta boda – e em juramento.
Mas vós indecorosamente a um outro partido,
com bois e com mulos e com muitíssimos outros bens,              150
o dito varão convertestes, e a boda roubastes com dons.
Ora, decerto bastantes vezes na cara de ambos
eu próprio vos disse, conquanto não fosse de muita prosa:
‘Caros varões, não assim desse modo a príncipes cabe
pleitear esposas cujos maridos já estão acertados.                       155
Há a vasta Esparta e, calcada por potros, a Élide vasta
e a Arcádia de boa ovelha e outrossim as cidades da Aqueia e
Messênia e Argos e a costa todinha, igualmente, de Sísifo:
onde milhares de moças na casa dos seus genitores
se criam não desprovidas de tino nem de beleza,                       160
das quais é-vos fácil casar com quem quer que então desejeis:
pois muitos quiseram ser sogros, decerto, de homens de escol,
e vós preclaríssimos sois dentre todos os ditos heróis, e
também vossos pais e de longe o vosso sangue paterno.
Então, companheiros, deixai isto aqui chegar ao seu termo    165
– a boda conosco; e juntos pensemos em outra pra vós’.
Tantas e tais declarei, mas o sopro do vento, espirando,
levou-as às úmidas ondas, e graça às palavras não houve.
Vós sois insensíveis e, mais, intratáveis; contudo, inda agora
ouvi; com efeito, por parte de pai ambos sois nossos primos.   170
Mas se o cor vosso anseia por guerra, e em sangue é mister
aos dirimentes de igual litígio lavar suas lanças,
Idas e este parente meu, Polideuces, o forte,
hão de deter suas mãos, abstendo-se, pois, da peleja;
e nós – Cástor e eu – decidi-lo-emos em Ares,                               175
sendo os mais jovens: de facto, pena tamanha não dêmos
aos nossos pais. É bastante um único morto de uma única
casa; mas todos os outros hão de alegrar os amigos,
e, noivos em vez de mortos, cantar o himeneu a estas moças.
Convém que tamanho litígio termine com o mínimo mal”.       180
Disse – palavras que o deus não tratou de tornar sem sentido.
E os dois mais velhos na idade dos ombros deitaram por terra
o seu armamento; e té o meio da liça Linceu avançou, sob
o círculo extremo do escudo brandindo a lança possante;
e assim igualmente agitava as pontas do dardo pontudo           185
Cástor; e de ambos então ondeava o penacho de plumas.
Com a lança atiçando primeiro de tudo, entraram na lida,
a ver se avistavam um do outro uma parte do corpo indefesa.
Contudo, eis senão que as pontas dos dardos, antes de alguém se
ferir, se partiram, plantadas em tão formidáveis escudos.        190
E os dois, da bainha a espada sacando, a morte um do outro
de novo buscaram, e tanto combate não tinha parada.
Muito o amplíssimo escudo e o elmo de crina de potro
Cástor golpeou, outro tanto Linceu de olhar aguçado
o escudo: chegou sua ponta somente ao purpúreo penacho.    195
Cujos dedos, o ferro afiado ao joelho esquerdo
do outro avançando, Cástor cortou, recuando esse mesmo
pé; e, ferido, largou o punhal, e logo se pôs a
fugir para a tumba do pai, lá onde o fortíssimo Idas,
sentado, assistia ao combate entre consanguíneos varões.      200
Mas, perseguindo-o, o ancho ferro cravou-lhe por entre
o flanco e o embigo o Tindárida; e, pois, suas vísceras, dentro, o
metal migalhou de imediato; e, recurvo, de boca caiu
Linceu, e desceu-lhe sôbolas pálpebras sono gravíssimo.
Nem o outro sequer dos seus filhos viu Laocoosa                      205
chegar à boda mui grata no seio do lar paterno.
Pois, com efeito, rapidamente arrancando a estela
de cima da tumba do pai Afareu, o messênio Idas
estava para atirá-la por sobre o assassino do irmão:
contudo, Zeus interveio, e arrancou-lhe das mãos o lavrado  210
mármor, e a ele, enfim, fulminou-o com fogo fulmíneo.

(Teócrito, trad. de Érico Nogueira)

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