clément marot (1496-1544), por andityas soares de moura

clément marot por corneille de lyon (c. 1537)
clément marot por corneille de lyon (c. 1537)

as obras eróticas do ocidente têm essa recorrência à brevidade.
pensem na lírica de catulo,
nos sonetos de aretino,
em bocage,
em bernardo guimarães,
em muitos etcéteras.
não é lei, é verdade, mas há uma recorrência.
hoje acordei com a cabeça em 5 pérolas
que andityas soares de moura (veja mais aqui) traduziu numa plaquete,
pela editora crisálida, em 2005:
à boa teta e outros quatro licenciosos poemas da frança renascentista.
escolhi dois poemas de clément marot (1496-1544)
que foram musicados por clément janequin (1485-1558)
& devidamente traduzidas por andityas, naquele ano da graça de 2005.

guilherme gontijo flores

ps: as gravações abaixo são todas de dominique visse com o ensemble clément janequin.

* * *

Tetin refaict, plus blanc q’un oeuf

Tetin refaict, plus blanc qu’un oeuf,
Tetin de satin blanc tout neuf,
Tetin qui fait honte à la rose,
Tetin plus beau que nulle chose ;
Tetin dur, non pas Tetin, voyre,
Mais petite boule d’Ivoire,
Au milieu duquel est assise
Une fraize ou une cerise,
Que nul ne voit, ne touche aussi,
Mais je gaige qu’il est ainsi.

Tetin donc au petit bout rouge
Tetin qui jamais ne se bouge,
Soit pour venir, soit pour aller,
Soit pour courir, soit pour baller.
Tetin gauche, tetin mignon,
Tousjours loing de son compaignon,
Tetin qui porte temoignaige
Du demourant du personnage.
Quand on te voit il vient à mainctz
Une envie dedans les mains
De te taster, de te tenir ;

Mais il se faut bien contenir
D’en approcher, bon gré ma vie,
Car il viendroit une aultre envie.
O tetin ni grand ni petit,
Tetin meur, tetin d’appetit,
Tetin qui nuict et jour criez
Mariez moy tost, mariez !
Tetin qui t’enfles, et repoulses
Ton gorgerin de deux bons poulses,
A bon droict heureux on dira
Celluy qui de laict t’emplira,
Faisant d’un tetin de pucelle
Tetin de femme entiere et belle.

Teta nova, mais branca que ovo,

Teta nova, mais branca que ovo,
teta de cetim branco novo,
teta que faz a rosa corar,
teta de beleza sem par,
teta firme, não teta, enfim,
pequena esfera de marfim,
no meio da qual se fareja
ua framboesa ou uma cereja,
que ninguém vê, tampouco toca,
mas assim é descrita em doce fofoca.

Teta, pois, da pontinha vermelha,
teta que sempre imóvel semelha,
no ir e vir de seu caminhar
ou para correr, ou para bailar.
Teta esquerda, teta sozinha,
teta separada da sua irmãzinha,
teta que é grande homenagem
para o resto da personagem.
Teta, que desperta em moço e ancião
um grão desejo lá dentro da mão:
de te provar, de te possuir.

Mas é preciso refrear o sentir,
o achegar-se assim tem que ser,
senão outras vontades verás florescer.
Ó teta nem grande nem pequena,
apetitosa, desenhada a bico-de-pena,
teta que noite e dia implora:
“Casa-me, casa-me agora!”
Felizardo, eis como se chamará
aquele que de leite de t’encherá
fazendo de teta de donzela
teta de mulher inteira e bela.

* * *

Martin menoit son pourceau au marché,

Martin menoit son pourceau au marché,
Avec Alix qui en la plaine grande
Pria Martin de faire le péché
De l’ung sur l’aultre, et Martin luy demande :
“Et qui tiendroit nostre pourceau, friande?”
“Qui, dist Alix, bon remede il y a”.
Lors le pourceau à sa jambe lya.
Et Martin juche qui lourdement engaine.
Le porc eut peur et Alix s’escria:
“Serre Martin, nostre pourceau m’entraine”

Martin levava seu porco ao mercado

Martin levava seu porco ao mercado
com Alix, que na relva formosa
rogou a Martin que lhe fizesse o pecado
da montaria gostosa. Disse Martin à fogosa:
“E quem cuidará do nosso porco, gulosa?”
“Quem? Dá-se um jeito…” ela arrematou.
E por estar ansiosa o porco à perna atou.
Martin s’empoleirou: pôs espada na bainha.
Mas eis que o porco se apavorou e Alix gritou:
“Aperta, Martin, ou o porco me arrasta c’a linha!”

(clément marot, clément janequin, via andityas soares de moura)

Marcial, por Décio Pignatari

MarcialTenho a impressão de que todos os alunos de latim (ou pelo menos os com algum senso de humor) vibram na primeira vez que leem em aula o infame verso, ou o poema todo, aliás, do pedicabo ego vos et irrumabo de Catulo (carmen XVI) – pois esse frisson é elevado à enésima potência quando se descobre Marco Valério Marcial (40 – 102/104). Posterior a Catulo, Marcial herda dele a forma do epigrama, o poema curto em dísticos elegíacos (alternando entre hexâmetros e pentâmetros datílicos), às vezes amoroso, às vezes invectivo, às vezes abertamente escatológico ou pornográfico, mas sempre afiado.

Seu primeiro livro, Liber spectaculorum, data da inauguração do Coliseu e tem a obra arquitetônica e os seus espetáculos como temática, como deixa claro o título. Depois foi autor de 12 volumes de epigramas satíricos, os Epigrammaton libri, mais dois últimos volumes, Xenia (Epigrammaton liber XIII) e Apophoreta (Epigrammaton liber XIV), palavras emprestadas do grego que podem ser traduzidas, como Décio fez, por “Presentes” e “Lembranças”, totalizando 1.561 epigramas. Sua obra influenciou Rabelais, Quevedo, Gregório de Matos, Bocage e inúmeros outros poetas. No entanto, em tradução, por pudor, costumava-se extirpar o seu lado pornô-escatológico. Em inglês, por exemplo, mesmo a edição de 1897 que atende pelo título enganoso de Complete Epigrams não contém os poemas mais safados, e basta um olhar casual no livro II (disponível online clicando aqui) para ver o tanto de títulos que estão como “[not translated]”. E em português também, como aponta Décio Pignatari, “censuradíssimo, [Marcial] só encontrou as primeiras traduções sem travas nos anos de 60 e 70, especialmente graças ao trabalho pioneiro de Guido Ceronetti (edições Eunaudi)”.

As traduções que compartilho neste post partem do volume clássico de traduções do Décio intitulado 31 poetas 214 poemas: de Rigveda e Safo a Apollinaire, publicado pela editora da UNICAMP. Além de Marcial, este volume conta com os Hinos do Rigveda, poetas-santos de Xiva, Safo, Alceu, Íbico, Praxila, Catulo, Horácio, Juvenal, Propércio, poetas da Dinastia Tang, Issa, os trovadores Vidal e Vogelweide, Burns, Byron, Leopardi, Heine, Browning, Rimbaud e Apollinaire… no entanto, apesar de todos esses nomes distribuídos ao longo de séculos de história literária, acaba sendo Marcial quem rouba a cena em 31 poetas 214 poemas, sendo 57 desses 214 poemas traduzidos dele.

Selecionei, portanto, oito dos epigramas presentes nesse livro. Não são necessariamente, como se poderia esperar, os mais eróticos – creio que nisso a Germina chegou lá antes de mim (sem trocadilho), e vocês podem conferir alguns dos poemas mais divertidos dessa seleção (como II, 62 e II, 73, bem como outros traduzidos por Jorge de Sena) clicando aqui. E a Modo de Usar & co. também tem algumas traduções feitas por João Angelo Oliva Neto (neste link).

As traduções a seguir estão acompanhadas dos originais, que não se encontram, porém, no livro, e foram extraídas das versões online disponíveis na wikisource latina (disponíveis clicando aqui). Desnecessário dizer, desde já, que o estilo aplicado pelo Décio nas traduções não se pretende filologicamente correto (vide as liberdades como traduzir Cloé por Beatriz ou o uso vocabular de termos como “vestido de soirée”), nem replicar a métrica do original… mas, assim como o Guilherme fez cá mais tarde com suas Catulices (postadas no escamandro mesmo no ano passado, depois reproduzidas também na Germina), ele visa empregar uma linguagem que poderia soar anacrônica (o que, no limite, toda tradução dos clássicos para línguas modernas acaba sendo, ainda que a maioria delas, recorrendo a um estilo mais empoeirado, finja que não), para ressaltar o quanto há de contemporâneo – e, no limite, talvez pudéssemos arriscar dizer atemporal, ou o mais próximo de algo assim – nesses poemas.

Adriano Scandolara

Priapo

           

I, 46

Se você exclama, Edilo: “Vou gozar –
Depressa!” – o meu tição se esfria, apaga.
Prolongue o ato que eu irei mais rápido.
Pra ir depressa, diga: “Devagar”.

           

Cum dicis ‘Propero, fac si facis,’ Hedyle, languet
Protinus et cessat debilitata Venus.
Expectare iube: velocius ibo retentus.
Hedyle, si properas, dic mihi, ne properem.

           

III, 53

Dispenso o seu rosto
Dispenso o pescoço
Dispenso suas mãos
Dispenso seus peitos
Dispenso suas coxas
Dispenso sua bunda
Dispenso seus quadris

– E para mencionar mais um detalhe,
Dispenso você, Beatriz.

           

Et voltu poteram tuo carere
Et collo manibusque cruribusque
Et mammis natibusque clunibusque,
Et, ne singula persequi laborem,
Tota te poteram, Chloe, carere.

           

III, 65

O que exala
            a maçã mordida
            por uma menina fofa
            a brisa que veio
            dos campos de açafrão da Corícia
            a vinha onde alvejam os primeiro racimos
            a campina por onde recém-pastou
            o rebanho de ovelhas
            a murta
            o especiarista árabe
            o âmbar friccionado
            o incenso do Oriente ao fogo brando
            a gleba chovida pela chuva de verão
            a grinalda há pouco retirada
            de cabelos olorando a nardo
– esse é o perfume dos seus beijos,
Diadumeno, garoto cruel.
E se você me desse tudo isso,
Espontaneamente?

           

Quod spirat tenera malum mordente puella,
Quod de Corycio quae venit aura croco;
Vinea quod primis floret cum cana racemis,
Gramina quod redolent, quae modo carpsit ovis;
Quod myrtus, quod messor Arabs, quod sucina trita,
Pallidus Eoo ture quod ignis olet;
Glaeba quod aestivo leviter cum spargitur imbre,
Quod madidas nardo passa corona comas:
Hoc tua, saeve puer Diadumene, basia fragrant.
Quid si tota dares illa sine invidia?

           

IV, 84

Ninguém pode provar, em Roma inteira,
Que já comeu Taís, embora todos
A cantem e cobicem. Mas, é santa?
Ao contrário: da boca faz boceta.

           

Non est in populo nec urbe tota,
A se Thaida qui probet fututam,
Cum multi cupiant rogentque multi.
Tam casta est, rogo, Thais? Immo fellat.

           

X, 29

O prato que você me dava, Sextílio,
     Nas festa saturnais,
     Você o deu à amante;
E aquela toga que sempre me enviava,
     Nas calendas de março,
     Trocou por um vestido
     Verde, de soirée:
As garotas saem grátis pra você,
Que vive fodendo com os meus presentes!

    

Quam mihi mittebas Saturni tempore lancem,
Misisti dominae, Sextiliane, tuae;
Et quam donabas dictis a Marte Kalendis,
De nostra prasina est synthesis empta toga.
Iam constare tibi gratis coepere puellae:
Muneribus futuis, Sextiliane, meis.

    

X, 81

Era manhã, vieram dois, queriam
Curtir a Fílis, nua, na trepada.
Mas, logo, a discussão: “Primeiro, eu!”
“Eu atendo os dois lados”, disse a Fílis.
Falou e fez: quatro dedões dos pés
Voltados para baixo e dois para cima.

    

Cum duo venissent ad Phyllida mane fututum
Et nudam cuperet sumere uterque prior,
Promisit pariter se Phyllis utrique daturam,
Et dedit: ille pedem sustulit, hic tunicam.

           

Presentes e Lembranças (Apophoreta)
    
Gitana de Cádiz (XIV, 203)

Rebola tanto,
A sem vergonha,
Que leva à bronha
Até um santo

    

Puella Gaditana

Tam tremulum crisat, tam blandum prurit, ut ipsum
Masturbatorem fecerit Hippolytum.

    

Louquinho bufão (XIV, 210)

Não finge o pasmo, não inventa que é chapado:
Quem pira além da piração não é pirado.
    
Morio

Non mendax stupor est, nec fingitur arte dolosa.
Quisquis plus iusto non sapit, ille sapit.

    

(poemas de Marcial, traduções de Décio Pignatari)

reverlaine, despudor: “les amies” por leo gonçalves

o post passado, feito por adriano scandolara, em homenagem ao aniverário de 168 anos de paul verlaine me fez pensar imediatamente em leo gonçalves. lembro o dia em que o conheci em bh, na livraria-editora crisálida, como o tradutor do doente imaginário de molière & da poesia de blake, mas principalmente como o tradutor de poemas eróticos, les amies, de verlaine ainda sem publicação (havia pouco, eu tinha lido a perdida versão da jahn pela brasiliense).

em resumo, pra mim, foi a melhor das primeiras impressões. vi aquelas traduções na época, tão suaves e sonoras, ouso dizer delicadas, na formulação, pra nunca mais: ele sampou, eu curitibei, não sei bem em qual ordem. & só o verlaine do scandolara é que me engatilhou a memória (finjamos um madeleine com chá, cruzei as pernas, ajustei meus óculos e cofiei o bigode), que se agraciou de receber do leo suas traduções, que vão aqui pra vocês.

ps: leo além de também ter publicado traduções de juan gelman (isso, em parceria com andityas soares de moura) e gerenciar o blog salamalandro, também é poeta, e já lançou dois livros próprios: o levíssimo das infimidades (2004) e wtc babel s.a. (2008), que muito, mas muito mesmo me impressionou. quem sabe um dia não nos agracia também com poesia própria neste humilde blog…

guilherme gontijo flores

LES AMIES, SCÈNES D’AMOUR SAPHIQUE
AS AMIGAS – CENAS DE AMOR SÁFICO

I. Sur le Balcon

Toutes deux regardaient s’enfuir les hirondelles:
L’une pâle aux cheveux de jais, et l’autre blonde
Et rose, et leurs peignoirs légers de vieille blonde
Vaguement serpentaient, nuages, autour d’elles.

Et toutes deux, avec des langueurs d’asphodèles,
Tandis qu’au ciel montait la lune molle et ronde,
Savouraient à longs traits l’émotion profonde
Du soir et le bonheur triste des coeurs fidèles.

Telles, leurs bras pressant, moites, leurs tailles souples,
Couple étrange qui prend pitié des autres couples,
Telles, sur le balcon, rêvaient les jeunes femmes.

Derrière elles, au fond du retrait riche et sombre,
Emphatique comme une trône de mélodrames
Et plein d’odeurs, le Lit, défait, s’ouvrait dans l’ombre.

I. Na sacada

Olhavam juntas o arribar das andorinhas.
Uma, branca, os cabelos de azeviche; loura
e rosa, a outra, e os penhoares de senhora
serpeavam sinuosos na pele das meninas.

E as duas, com uma volúpia asfodelina,
Enquanto, oval e mole, ia a lua lá fora,
Saboreavam profundas a emoção da hora
E dos amores fiéis a doce-triste sina.

Assim, úmidas, braços dados, finos talhes,
Estranho par que causa pena aos outros pares,
Na sacada, sonhavam essas jovens damas.

E atrás, ao fundo, no aposento escuro, alumbra,
Enfática qual ecoar de melodramas,
A Cama (ar e aroma), desfeita, na penumbra.

II. Pensionnaires

L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;
Toutes deux dormaient dans la même chambre.
C’était par un soir très lourd de septembre:
Frêles, des yeux bleus, deus rougeurs de fraise.

Chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,
La fine chemise au frais parfum d’ambre.
La plus jeune étend les  bras, et se cambre,
Et as soeur, les mains sur ses seins, la baise,

Puis tombe à genoux, puis devient farouche
Et tumultuose et folle, et sa bouche
Plonge sous l’or blonde, dans les ombres grises;

Et l’enfant, pendant ce temps-là, recense
Sur ses doigts mignons des valses promises,
Et, rose, sourit avec innocence.

II. As pensionistas

Uma tinha quinze, a outra dezesseis;
Dormiam no mesmo quarto. E no ar de
Outono caía, pesada, a tarde.
Olhos azuis, frágeis e a tenra tez.

Tiram, para estar mais à vontade,
A fina camisa de âmbar francês.
A mais nova espreguiça, e por sua vez,
Sua irmã lhe beija, e com a mão a invade.

Cai de joelhos, tumultuosa e louca;
E com ar selvagem, afunda a boca
No seu ouro louro, nas cinzas frestas.

E a criança, ao mesmo tempo, avalia,
Nos dedos singelos, valsas promessas,
E rosa, sorri, com inocência pia.

III. Per Amica Silentia

Les longs rideaux de blanche mousseline
Que la lueur pâle de veilleuse
Fait fluer comme une vague opaline
Dans l’ombre mollement mystérieuse,

Les grands rideaux du grand lit d’Adeline
Ont entendu, Claire, ta voix rieuse,
Ta douce voix argentine et câline
Qu’une autre voix enlace, furieuse.

“Aimons, aimons!” disaient vos voix melées,
Claire, Adeline, adorables victimes
Du noble voeu de vos âmes sublimes.

Aimez, aimez! Ô cheres Esseulées,
Puisqu’en ces jours de malheur, vous encore,
Le glorieux Stigmate vous décore.

III. Per amica silentia

Os cortinões de branca musselina
Que uma leve luz de pálida vela
Faz fluir como uma vaga opalina
Na sombra misteriosamente bela,

Os cortinões do leito de Adelina
Ouviram, Clara, tua voz sincera
A tua doce voz, argentina e fina,
Que uma outra voz enlaça feito fera.

“Amemos!” Eis suas falas misturadas,
Oh, Clara, Adelina, adoráveis vítimas
Da nobre sina de suas almas íntimas.

Amai, Amai! Queridas Insuladas!
Pois mesmo a vós, nesses tempos de azar,
O glorioso Estigma vem decorar.

IV. Printemps

Tendre, la jeune femme rousse,
Que tant d’innocence émoustille,
Dit à la blonde jeune fille
Ces mots, tout bas, d’une voix douce:

“Sève qui monte et fleur qui pousse,
Ton enfance est une charmille:
Laisse errer mes doigts dans la mousse
Où le bouton de rose brille,

“Laisse-moi, parmi l’herbe claire,
Boire les gouttes de rosée
Dont la fleur tendre est arrosée, –

“Afin que le plaisir, ma chère,
Illumine ton front candide
Comme l’aube l’azur timide.”

IV. Primavera

Terna, essa ruivinha donzela,
Que tanta inocência nos intriga,
Diz baixinho a sua loira amiga,
Essas palavras, a capela:

“Seiva que ergue e flor que anela,
Tua infância de magia instiga:
Deixa errar minha mão que irriga
O jardim da rosa mais bela.

“Deixa, no meio da erva clara,
Que eu beba as gotas do rocio
Esparsas no broto macio,

“Pra que o prazer, ó minha cara,
Te ilumine o rosto donzel
Como a aurora o tímido céu.”

V. Été

Et l’enfant répondit, pâmée
Sous la fourmillante caresse
De as pantelante maîtresse:
“Je me meurs, ô ma bien-aimée!

“Je me meurs; ta gorge enflammée
Et lourde me soûle et m’oppresse;
Ta forte chair d’où sort l’ivresse
Est étrangement parfumée;

“Elle a, ta chair, le charme sombre
Des maturités estivales, – 
Elle en a l’ambre, elle en a l’ombre;

“Ta voix tonne dans les rafales
Et ta chevelure sanglante
Fuit brusquement dans la nuit lente.”

V. Verão

E a jovem responde, pasmada,
Sob a carícia pululante
Dessa sua ansiosa amante:
“Eu morro, ó minha bem-amada

“Eu morro; teu colo me embriaga
E me oprime por um instante,
Tua forte carne inebriante
É estranhamente perfumada;

“Ela tem a delícia redonda
das madurezas estivais, –
possui ambos: âmbar e sombra;

“Tua voz troveja em vendavais,
E a cabeleira carmesim
Se esconde na noite sem fim.”

VI. Sappho

Furieuse, les yeux caves et les seins roides,
Sappho, que la langueur de son désir irrite,
Comme une louve court le long des grèves froides,

Elle songe à Phaon, Oublieuse du Rite,
Et, voyant à ce point ses larmes dédaignées,
Arrache ses cheveux immenses par poignées;

Puis elle évoque, en des romords sans accalmies,
Ces temps où rayonnait, pure, la jeune gloire
De ses amours chantés en vers que la mémoire
De l’âme va redire aux vierges endormies:

Et voilà qu’elle abat ses paupières blêmies
Et saute dans la mer où l’apelle la Moire, –
Tandis qu’au ciel éclate, incendiant l’eau noire,
La pâle Séléné qui venge les Amies.

VI. Safo

Olhos fundos, rígido seio, envolta em fúria,
Safo, a que na volúpia do desejo se atiça.
Como loba que corre pela praia escura,

Deseja Faon, já do Rito esquecidiça,
E ao ver naquele instante o desdenhoso pranto,
Arranca a cabeleira, pálida de espanto.

Em seguida ela evoca (o remorso a fustiga)
O tempo em que irradiava a jovem e pura glória
Do amor cantado em versos para que a memória
Da alma, às virgens dormentes, pra sempre rediga.

E eis que abate as pálpebras plenas de fadigas
E lança-se no mar onde lhe chama a Moira, –
E surge pois no céu, nesta parte da história,
Selene que incendeia o mar, e vinga as Amigas.

NOTAS AOS POEMAS

Na sacada

1. Asfodelinas: de asphodelus, designação comum às plantas da família das asfodeláceas, nativas do Mediterrâneo, cultivadas como ornamentais.)

Per Amica Silentia

1. O título um tanto sinestésico deste poema é o verso 21, do Livro II da Eneida de Virgílio: “a Tenedo, tacitae per amica silentia lunae [a Tenedo, sob a silente amiga lua]”.

2. O imperativo que inicia o 9º verso, ecoa o primeiro da “Carmina V” de Catullus: “Uiuamos, mea lesbea, atque amemus.”

Safo

1. Reza a lenda que Faon, jovem rapaz nascido na ilha de Lesbos, recebera como presente de Afrodite uma beleza sem igual. Safo, devota dos ritos da deusa, teria se apaixonado intensamente pelo jovem que, por sua vez, a desdenhou, fugindo para a Sicília. Ela o teria perseguido até a Leucádia onde, inconformada e enlouquecida, lançou-se ao mar do alto do monte Leucas. Na “Epístola XV das Heroidas, Ovídio conta que uma náiade, vendo o sofrimento da poeta, teria-lhe convidado, afirmando que as águas da daquele lugar possuíam a virtude de aliviar o coração das paixões arrebatadoras. Baudelaire também evoca esta lenda em seu poema intitulado “Lesbos”.

2. Selene: A personificação grega da lua.

(tradução e notas, leo gonçalves)

Aniversário de 168 anos de Paul Verlaine: sonetos eróticos

Há 168 anos, nascia o poeta maldito Paul-Marie Verlaine.  A maioria o conhece (i.e. dos que o conhecem) por sua poesia localizada entre o simbolismo e o parnasianismo – “Des sanglot longs /Des violons / De l’automne”, etc – e por seu relacionamento conturbado com o juvenilíssimo poeta revoluncionário Arthur Rimbaud, que resultou em seu encarceramento (lembremos que “sodomia” era crime à época), um tiro na mão e uma vida, em geral, bastante miserável – para os curiosos, fica a recomendação do filme Eclipse de uma Paixão, que embora tenha um título brega e o Leonardo DiCaprio no elenco (apesar de que eu acho que ele faz um Rimbaud bastante convincente… não tanto como seria o River Phoenix, que era a intenção do diretor, mas razoável ainda assim), funciona bem para apresentar a biografia dos dois poetas. Desse aspecto de sua poesia, temos traduções muito boas de autoria de Onestaldo de Pennafort (Poesias Escolhidas, pela Livraria do Globo, bastante antiga, de 1945) e de Guilherme de Almeida (A Voz dos Botequins e Outros Poemas, mais fácil de encontrar, pela editora Hedra).

Há um lado da obra de Verlaine, porém, que não sei se muitos conhecem, e que me parece ser o mais interessante, que é sua vertente erótica. Ela é interessante não tanto pela putaria em si ou pelo aspecto cômico (como no famoso “soneto do cu”, que ele escreveu com Rimbaud), mas porque ele consegue realmente poetizar o ato sexual e fazer dele algo lírico, ao mesmo tempo em que o faz sem perder o que há de eróticoe pornográfico.

Enfim, para ilustrar o que estou dizendo, posto 3 poemas da série “Amigas”. Em tradução minha e na de Heloisa Jahn (da edição completa intitulada Para ser caluniado, editora brasiliense, bastante difícil de se achar, por sinal).

PRIMAVERA

Tenra, a ruivinha jubilante
De viço e inocência pura
Diz, com voz baixa e de ternura,
Assim, à jovem, loura amante:

“Seiva ascendente e flor pulsante,
Uma alameda, a infância tua,
Deixa ao prado ir meu dedo errante
Onde a rosa em botão fulgura.

Deixa-me, em meio à relva clara,
Sorver as gotas orvalhadas
Das tenras pétalas molhadas

A fim que o prazer, minha cara,
A tua cândida fronte acenda,
Como a alva na nuvem pudenda.”

(trad. Adriano Scandolara)

PRIMAVERA

Com ternura, a jovem ruiva
Que tanta inocência estimula,
Diz baixinho à menina loura
Estas palavras, numa voz quente:

“Seiva que aflora e flor que cresce,
A tua infância é uma alameda:
Deixa meus dedos nesse musgo
Onde o botão de rosa brilha,

“Deixa que eu, nessa erva clara,
Vá beber as gotas do orvalho
Com que é regada a tenra flor, –

Para que o prazer, ó querida,
Ilumine tua fronte pura
Como a aurora o céu indeciso.”

(trad. Heloisa Jahn)

                                           PRINTEMPS

                                           Tendre, la jeune femme rousse,
                                           Que tant d’innocence émoustille,

                                           Dit à la blonde jeune fille
                                           Ces mots, tout bas, d’une voix douce:

                                           “Sève qui monte et fleur qui pousse,
                                           Ton enfance est une charmille:
                                           Laisse errer mes doigts dans la mousse
                                           Où le bouton de rose brille.

                                           Laisse-moi, parmi l’herbe claire,
                                           Boire les gouttes de rosée
                                           Dont la fleur tendre est arrosée;

                                           Afin qui le plaisir, ma chère,
                                           Illumine ton front candide,
                                           Comme l’aube l’azur timide.”

VERÃO

E a criança responde, espantada
Com tal afago fervilhante
De sua senhora ofegante
“Morro, ó, minha bem amada!

Morro; tua garganta abrasada
Pesa, opressora e sobejante,
Tua carne, de um ar embriagante,
É estranhamente perfumada.

Tua carne tem o encanto obscuro
Das madurezas estivais,
Tanto à luz do âmbar e no escuro.

Troa-te a voz nos vendavais
E a tua cabeleira sangrenta
Brilha brusca na noite lenta.”

(trad. Adriano Scandolara)

VERÃO

A menina disse, sem forças,
Com a formigante carícia
De sua amante, que arquejava:
“Ai que eu morro, minha adorada!

“Eu morro, teu colo inflamado
Me pesa, embriaga e apera;
Teu corpo forte, que inebria,
Que estranho perfume ele tem;

“Teu corpo tem o encanto turvo
Das madurezas estivais,
Feito de âmbar e de sombras;

“Tua voz repercute no vento
E tua cabeleira de sangue
Some toda na noite lenta.”

(trad. Heloisa Jahn)

                                           ÉTÉ

                                           Et l’enfant répondit, pâmée
                                           Sous la fourmillante caresse
                                           De sa pantelante maîtresse:
                                           “Je me meurs, ô ma bien-aimée!

                                           Je me meurs; ta gorge enflammée
                                           Et lourde me soûle et m’oppresse;
                                           Ta forte chair d’où sort l’ivresse
                                           Est étrangement parfumée.

                                           Elle a, ta chair, le charme sombre
                                           Des maturites estivales,
                                           Elle en a l’ambre, elle en a l’ombre.

                                           Ta voix tonne dans les rafales,
                                           Et ta chevelures sanglante
                                           Luit brusquement dans la nuit lente.”

NO INTERNATO

Com quinze e dezesseis anos de idade,
No mesmo quarto cada uma dormia
Em noite de setembro, tão sombria;
Rubores; olho azul; fragilidade.

Cada uma delas, pondo-se à vontade,
Da fina camisola se despia.
A mais nova, seus braços estendia,
E, mãos aos seios, beija-lhe a amizade.

Depois se ajoelha, e, depois, louca
Cola a cabeça ao ventre, e com a boca,
Entre as sombras, mergulha no ouro louro;

E enquanto isso, a menina vai, querida,
Com os dedos contar bailes vindouros,
E inocente sorri, enrubescida.

(trad. Adriano Scandolara)

INTERNATO

Uma quinze anos, dezesseis a outra,
Dormiam as duas no mesmo quarto.
Numa noite abafada de setembro:
Frágeis, olhos azuis, rubor de frutas.

Para ficar a gosto as duas tiram
As finas camisolas perfumadas.
A mais moça abre os braços e se arqueia
E a beija a irmã, com as mãos nos seus seios,

Depois cai de joelhos, fica atrevida
E tumultuosa e doida e sua boca
Afunda no ouro claro, em meio às sombras

Mas a menina, nos dedos mimosos
Vai recontando as valsas prometidas
E, corada, sorri com inocência.

(trad. Heloisa Jahn)

                                           PENSIONNAIRES

                                           L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;
                                           Toutes deux dormaient dans la même chambre;
                                           C’était par un soir très lourd de septembre;
                                           Frêles; des yeux bleus; des rougeurs de fraise.

                                           Chacune a quitté, pous se mettre à l’aise,
                                           Sa fine chemise au frais parfum d’ambre.
                                           La plus jeune étend les bras, et se cambre,
                                           Et sa soeur, les mains sur ses seins, la baise.

                                           Puis tombe à genoux, puis devient farouche,
                                           Et colle sa tête au ventre, et sa bouche
                                           Plonge sous l’or blond, dans les ombres grises;

                                           Et l’enfant pendant ce temps-là recense
                                           Sur ses doigts mignons des valses promises,
                                           Et, rose, sourit avec innocence.

 

(nota: para mais traduções de poesia erótica verlainiana, pelas mãos hábeis de Leo Gonçalves, ver o nosso outro post clicando aqui.)

catulices (caio valério catulo)

caio valério catulo (ca. 84-54 a.c.) é um dos poetas mais interessantes que a antiguidade produziu. não sabemos quase nada da sua vida, fora o fato de que sua família era de verona, e que o poeta veio posteriormente morar em roma. da sua obra, temos uma coletânea intitulada liber catulli (livro de catulo), que nos chegou com uma série de problemas textuais e com um a disposição de 116 poemas que leva alguns críticos a julgar que se trate de uma compilação póstuma; de modo que não sabemos ao certo o que ele teria publicado em vida. sua poesia é marcada por uma intensa expressão passional que é simultaneamente construída e explicitada dentro das mais rígidas regras da poesia romana (sobretudo pelo gosto de uma poesia refinada, erudita, trabalhada, ao modo dos poetas gregos alexandrinos, como calímaco, teócrito e apolônio de rodes, que floresceram no século III a.c.).

essa poesia antiga é marcada por uma grande afetação técnica – está a uma distância imensa da poesia contemporânea, ainda de matriz romântica (em maior ou menor grau) e subjetivista – e podemos dizer que se trata de uma arte muito regrada, não só pelo metro, mas por uma série de tópoi poéticos esperados que fariam com que os textos entrassem dentro da ordem do discurso poético. por isso digo mais uma vez que catulo é um dos mais interessantes: ele é um dos poucos que nos convence de que haja efetivamente uma vida borbulhando por trás da poesia (e não à toa tantos estudiosos tentaram ver sua obra como um resultado biográfico; leitura possível, mas que tanto faz para nós que o lemos agora, interessados nos textos); nesses poemas breves quase vemos um poeta de vanguarda, com uma linguagem leve, quase cotidiana, tratando de temas amorosos, políticos e míticos, ora numa verve mais delicada, ora com uma capacidade de agressão também surpreendente.

ao tentar traduzir esta pequena seleção, deixei-me levar por um ritmo pessoal e descartei a possibilidade de tentar recriar um padrão métrico para as variedades que aparecem entre um e outro poema (esse trabalho já foi feito, e muito bem feito, por joão angelo oliva neto no seu livro de catulo, (in)felizmente esgotado, mas a caminho da segunda edição). procurei uma poética mais nossa, um make it new tupiniquim, que desse conta de explicitar aquilo que vejo no latim catuliano, daí que as chame de catulices. talvez eu tenha exagerado em fazer uma coletânea de 16 poemas, mas não consegui deixar nenhum de lado – na verdade, estou mesmo é pensando em traduzir mais…

nota: há duas coisas que podem ajudar o leitor. 1) o poema 94 é uma invectiva contra mamurra, partidário de júlio césar (que é criticado em 93); e está embasado num trocadilho com seu nome, que em latim aparece como mentula (“cacete”), optei pelo singelo “pinto” por termos esse tipo de piada com o infeliz sobrenome da família pinto. 2) o poema 95, sobre o epílio entitulado esmirna do contemporâneo caio hélvio cina, é uma defesa da poética alexandrina que citei anteriormente: ao defender a obra do seu amigo, catulo a contrasta com a de outros escritores que faziam obras imensas (em geral de gênero épico) mas sem o devido cuidado com a materialidade poética.

3
chorem todas as vênus e cupidos
chorem os homens sedutores

morreu o pássaro da minha garota

o pássaro
           prazer da minha garota
que ela amava mais que os próprios olhos

era um doce de mel             conhecia
a sua dona
            como a garota conhece a própria
                                                mãe
e não saía do seu colo

mas circunsaltitava
                        daqui prali
e só piava para sua dona

agora segue a estrada tenebrosa
que
            – dizem –
                        nunca concedeu retorno

passar mal
                       trevas malditas
do inferno!
                        que devoram toda beleza
vocês roubaram este belo pássaro
que triste história
                        tadinho do pássaro
por sua culpa                         a minha garota
está com seus olhinhos vermelhos
            e inchados
            de tanto chorar

8
pobre catulo
                       deixe de bobagem
o que perdeu
                        aceite
                                    está perdido

antes brilharam-te o fulgor dos sóis
quando sempre seguia a tua garota
por mim amada
                        como ninguém jamais será
                                    amada
então cada prazer que acontecia
você queria e ela
                        não desquis

pois é
           brilharam-te o fulgor dos sóis

agora ela não quer
                       – você?
                                    desqueira
                                    impotente
não cerque quem te foge
            não viva como um pobre
aguenta obstinadamente
                        feito pedra dura

tchau garota!
                        catulo é pedra dura
não te procura
                        já não força a barra
mas você vai sofrer
                        sem quem te queira

tchau desgraçada!
                        o que te resta desta vida?
quem virá te ver?
            quem te achará bela?
quem você amará?
            quem será teu dono?
quem você beijará?
            que lábios morderá?

você catulo
           aguenta feito pedra dura.

11
fúrio e aurélio
                       amigos de catulo
se ele for parar no fim do mundo
ou onde quer que mande a vontade
dos deuses
                        – fiquem preparados –
eu quero que anunciem  pra minha garota
            estas poucas
            poucas nada boas

que viva e passe bem
           com os seus putos
que num abraço só bate trezentos
sem amar unzinho sequer
                        mas estourando todos
nos seus queridos membros

que nunca mais encare o meu amor
por sua culpa
            ele caiu no campo feito
a última flor depois de deflorada
            pelo passar do arado

16
eu vou comer seu cu e sua boca
aurélio bicha
                        e fúrio travecão
porque me imputaram
                                    pelos meus versinhos
– tão delicadinhos –
                        um senvergonha

o poeta só precisar ser decente
ele mesmo
            e fodam-se os versinhos
melhor que tenham o seu sal
            o seu tesão
porque delicadinhos            senvergonha
pra dar um comichão
– não digo nas crianças –
                        nos marmanjos
que já perderam todo requebrado

mas e vocês
           que leram meus milhões de
beijos – vão querer disputar?

eu vou comer seu cu e sua boca

32
eu vou amar
minha doce ipsitila
minha delícia meu prazer
– anda
peça para que eu venha ao meio-dia –
e se você pedir
só quero uma ajudinha

que ninguém tire a tabuleta da tua porta
e não me saia de casa logo agora
mas me espere e prepare-se
para nove contínuas fodelanças

pois se você quiser
                        só isso eu te peço
aqui deitado e almoçado de papo pro ar
já armo a barraca debaixo do pálio

43
olá
garota de nariz nada pequeno
de pés não belos
            de olhos pouco negros
sem dedos longos
             sem boca seca
sem nenhuma elegância na língua
amante do falido forminano

a província andou dizendo que você é bela?
ousam te comparar com minha lésbia?
mas que povo babaca e de mau gosto!

49
ó tu – o mais eloquente dos netos de rômulo
de tantos que já nasceram
                        ó marco túlio cícero
de tantos quando houverem de nascer
a ti agora faz mil graças
catulo – o pior de todos os poetas

e ele é tanto o pior de todos os poetas
quanto és o melhor de todos os patronos

58
célio
            a nossa lésbia
            aquela lésbia
a lésbia
            aquela
            a única que catulo
amava mais que a si mesmo
            mais que aos seus parentes
agora
            por entre esquinas
                                  e
                                  becos
esfola os netos do magânimo remo

70
minha mulher diz que só quer casar comigo
e que nem mesmo júpiter interessa
            é o que diz
mas o que diz uma mulher
                        ao seu amante apaixonado
é melhor escrever
            no vento
                        ou na água que passa

72
você dizia que só sabia de catulo
            lésbia
que não me trocaria nem por júpiter
então te quis
            não como o povo quer uma amante
mas como um pai
            olhando filhos e genros

agora eu te conheço
                       e queimo muito mais
por mais que você seja baixa e leviana
mas como pode?
            você pergunta
é que uma injúria dessas faz o amante
amar ainda mais
            mas bem querer bem menos

85
odeio
    e
amo
            por quê?
                        você pergunta
não sei – só sinto acontecer
                        e crucifico-me

92
lésbia sempre me agride e não consegue se
            calar
que eu morra se ela não me ama!
como sei?
            eu dou a mesma deixa
difamo sem parar
que eu morra se ela eu não amo!

93
eu não me esforço em nada
            césar
                        pra te agradar
pouco me importa se você
            é branco ou preto

94
o pinto putanha
                        putanha o pinto?
é claro!            é o que dizem
cada panela abriga o seus legumes

95
a esmirna do meu cina
esperou nove safras
esperou nove invernos
até ser publicada
enquanto hortênsio vomitou
num só ano
cinquenta mil versos!

esmirna vai chegar às ondas distantes do sátraco
esmirna será folheada por séculos gagás de velhos

mas os anais de volúsio vão morrer em pádua
            onde nasceram
e servirão de embrulho para os peixes do mercado

eu quero os breves monumentos do meu amigo
e para o povo deixo a empolação de antímaco

guilherme gontijo flores

soneto à intimidade sublimada – vinicius ferreira barth

a don rigoberto

quão longas horas nestes peitos, neste ninho,
despindo e redespindo minha amada!
cada gemido, quão valioso, cada
mamilo de amor róseo, safadinho.

ó vênus! me acelera! embaixo ou de ladinho,
me esgota! diz meu nome, grita, brada!

(nesse momento ela solta um peidinho)