A poética da comédia nova romana, por Rodrigo Tadeu Gonçalves e Leandro Cardoso

mosaico romano com cena de comédia. atores mascarados dançam ao som de percussão & sopro.
mosaico romano com cena de comédia. atores mascarados dançam ao som de percussão & sopro.

Introdução

A comédia latina, chamada pelos romanos de comedia palliata (a partir do termo “pálio”, um tipo de indumentária grega), foi um gênero muito importante e popular no período republicano romano desde sua introdução nos festivais públicos chamados ludi scaenici (literalmente “jogos de encenação”) em 240 a.C. até a morte de Terêncio em 159. Todos os textos produzidos para os festivais tinham como modelo uma ou mais peças gregas da tradição da néa komoidia (a comédia nova), gênero helenístico praticado por Menandro, Apolodoro de Caristo e Dífilo, entre outros. Da produção grega, restaram para nós somente algumas peças de Menandro (apenas uma completa, e todas recuperadas ao longo de descobertas papirológicas no século XX) e fragmentos dos outros autores. Da produção latina, restaram 21 comédias de Plauto (uma em estado fragmentário e algumas outras em estado lacunar) e as seis que Terêncio teria produzido, além de fragmentos de outros autores, como Ênio e Névio.

O assunto das comédias era quase sempre o mesmo: as aventuras de um jovem adulescens (literalmente “adolescente”)em busca do amor proibido de uma uirgo (“virgem”) ou de uma meretrix (“prostituta”) e as dificuldades para conseguir dinheiro para comprar a prostituta ou para obter a aprovação do pai para casar-se com uma moça de estatura social geralmente inferior – ou seja, não cidadã. As comédias possuem, em geral, final feliz, e quase sempre contam com um escravo protagonista, responsável por auxiliar o jovem senhor em maquinações eenganos para conseguir o dinheiro necessário à sua realização amorosa.

Do ponto de vista da encenação, as comédias romanas apresentavam características bastante singulares: atores homens representavam todos os personagens (a utilização de máscaras é incerta, porém bastante provável), vestidos com figurinos gregos e os textos, todos poéticos, eram encenados de maneiras variadas, sendo que sua estruturação métrica possui uma relação intrínseca com as diferentes possibilidades de encenação. Nas peças da comédia latina podemos encontrar uma estrutura métrica divida em dois grandes grupos de versos: os diuerbia, as partes dialogadas, e os cantica, as partes cantadas e recitadas. Essas estruturas, então relacionadas à forma de encenar as passagens nelas constituídas, obedecem a critérios específicos de composição.

Os diuerbia dizem respeito às partes compostas em versos de seis pés jâmbicos (os senários jâmbicos, na nomenclatura latina) e eram geralmente falados pelos personagens. Os cantica, por sua vez, são divididos em dois outros grupos: aquele dos recitativos, ou seja, dos versos recitados com o acompanhamento de instrumentos musicais (geralmente a tibia, uma espécie de flauta de corpo duplo) e o dos mutatis modis cantica (cânticos em versos múltiplos) ou simplesmente as canções, partes cantadas com o acompanhamento de música e de dança. Os recitativos eram geralmente compostos em metros longos (septenários ou octonários) de pés jâmbicos ou trocaicos e os mutatis modis em um modo poético altamente complexo envolvendo versos líricos cujas cadências criam um rol de nomes pitorescos: báquicos, anapestos, dátilos, créticos, proceleusmáticos, jônicos, eólicos, timélicos, entre outros.

Os diferentes modos de elocução, representados por diferentes tipos de metros poéticos, eram utilizados funcionalmente para caracterizar tipos de personagens e para convencionar situações e até mesmo estruturas de enredo. Em uma das traduções apresentadas a seguir, o lamento patético de Alcmena, a esposa enganada do general Anfitrião, por exemplo, com andamento anapéstico, quando cantado e dançado por um ator vestido de matrona grávida provavelmente causaria um efeito espetacular de grande impacto na audiência heterogênea que costumava assistir aos espetáculos, composta por todas as classes sociais romanas em seu momento de otium estatal.

As múltiplas possibilidades musicais e poéticas da comédia latina, parte indissociável de sua estrutura, raramente receberam tratamento literário em sua recepção moderna, gerando inúmeras traduções em prosa que mal logram recontar tais enredos rocambolescos. Algumas exceções tentam aclimatar a selvagem variedade rítmica das peças a tipos de versos mais adaptados a tradições poéticas posteriores, como a Aululária do Barão de Paranapiacaba, de fins do século XIX, que utiliza decassílabos, dodecassílabos e redondilhas para simular o efeito de alternância encontrado em Plauto.

O que apresentamos aqui é, pois, uma tentativa de transcriar Plauto e Terêncio em versos cuja cadência emule a variedade de seu teatro, fazendo isso por meio de propostas poéticas pouco usuais, ou quiçá ousadas. O que apresentamos são extratos representativos de alguns desses modos poéticos diferentes, retirados das traduções integrais do Anfitrião de Plauto, feita por Leandro Dorval Cardoso, e dos Adelfos de Terêncio, feita por Rodrigo Tadeu Gonçalves. As traduções, cujos princípios em muito se assemelham, ainda que sejam diferentes as suas soluções, ainda encontram-se inéditas, mas representam uma tentativa de resgatar a poeticidade do teatro antigo; pioneiras, portanto.

Por esse motivo, os tradutores pedem ouvidos vazios e atentos e benevolentes e um julgamento justo, pois justo é julgar bem e com justiça o justo trabalho de fazer justiça, ainda que tardia, à comédia romana, “já que não convém ao justo ser injusto / e dos injustos é loucura desejar o justo
/ porque o injusto desconhece e renuncia ao justo” (Anfitrião, 35-7).

Alguns trechos

Primeiro modo de elocução dramática: os senários jâmbicos

O senário jâmbico, variação latina do trímetro jâmbico grego, verso que Aristóteles considera o mais próximo da conversação, constitui-se de seis pés jâmbicos que, no teatro romano, poderiam assumir outras configurações, dadas as múltiplas possibilidades de substituição do jambo por espondeus (duas sílabas longas), tríbracos (três sílabas breves), anapestos (duas sílabas longas seguidas de uma breve), proceleusmáticos (quatro silabas breves) etc. Tal variação, problemática para as traduções a uma língua isenta de duração vocálica, foi substituída por um sistema de pés métricos baseados em tonicidade silábica – tal como experimentado por outros tradutores. Nesse contexto métrico, Leandro Cardoso preferiu iniciar todos os senários com uma sequência de átona e tônica, garantindo assim uma sequência jâmbica já no início do verso, e termina-los com uma duplicação dessa célula. O resultado é alguma variedade rítmica no interior do verso, mantendo-se a identidade jâmbica em posições-chave – embora, muitas vezes, a cadência jâmbica mantenha-se por toda a extensão do verso. Rodrigo Gonçalves, por sua vez, preferiu fixar a cadência jâmbica no verso todo e buscar alguma variedade na extensão do verso, aceitando seis ou sete tônicas seguidas de átonas.

O primeiro exemplo, uma passagem retirada do prólogo de Mercúrio na peça Anfitrião, além de ilustrar o verso escolhido para a tradução dos senários, ilustra também outro aspecto comum às peças plautinas: o jogo verbal e sonoro criado por meio da repetição de vocábulos iguais ou parecidos ao longo de alguns versos. Brincando não só com o significado das palavras, mas também com sua semelhança sonora, Plauto cria uma espécie de eco que ressoa no ouvido dos espectadores despertando sua atenção não apenas para o efeito cômico que podem criar a repetição e a intercalação de palavras antônimas, mas também para o trabalho poético (de poiesis) que encabeça o texto dramático. Eis o trecho (Anfitrião, 32-7):

Por isso venho em paz e trago a vós a paz:
eu vou pedir a vós que façam algo justo e simples,
pois sou um orador bem justo e aos justos peço
justiça, já que não convém ao justo ser injusto
e dos injustos é loucura desejar o justo
porque o injusto desconhece e renuncia ao justo.

propterea pace aduenio et pacem ad uos affero:
iustam rem et facilem esse oratam a uobis volo,
nam iusta ab iustis iustus sum orator datus.
nam iniusta ab iustis impetrari non decet,                                              
iusta autem ab iniustis petere insipientia est;
quippe illi iniqui ius ignorant neque tenent.

            Já o velho bonachão Micião, nos Adelfos,mostra toda sua preocupação e misoginia nos seguintes versos (Adelfos, 26-39):

MICIÃO: Storax! Não veio do banquete desde ontem Ésquino
o nem os escravinhos que o acompanhavam
de fato o adágio é verdadeiro: se estás fora ou se
demoras por aí, é bem melhor acontecerem
as coisas que a esposa diz e pensa irada
do que aquelas que os pais propícios temem.
A esposa, se demoras, pensa que tu amas
ou que és amado, ou bebes e o que dá na telha fazes
e a ti tudo de bom, enquanto a ela só há mal.
e eu, como meu filho não voltou, que coisas penso,
que males me atormentam! Pode ter pegado gripe,
e pode ter caído alhures ou quebrado
um osso. Ah, desgraça um homem decidir
que algo é mais caro a si do que si mesmo!

Storax! – non rediit hac nocte a cena Aeschinus
neque servolorum quisquam qui advorsum ierant.
profecto hoc vere dicunt: si absis uspiam
aut ibi si cesses, evenire ea satius est
quae in te uxor dicit et quae in animo cogitat
irata quam illa quae parentes propitii.
uxor, si cesses, aut te amare cogitat
aut tete amari aut potare atque animo obsequi
et tibi bene esse soli, quom sibi sit male.
ego quia non rediit filius quae cogito et
quibu’ nunc sollicitor rebu’! ne aut ille alserit
aut uspiam ceciderit aut praefregerit
aliquid. vah quemquamne hominem in animo instituere aut
parare quod sit carius quam ipsest sibi!

            O segundo modo básico de elocução poética e musical das comédias romanas utilizava vários tipos de versos longos, como o septenário trocaico e o octonário jâmbico, acompanhados ou não da música da tibia. Essas passagens, normalmente dialogadas, são o lugar privilegiado da ação e do desenvolvimento dos enredos. No exemplo a seguir, vemos Mercúrio travestido no escravo Sósia, de Anfitrião, para impedir a entrada do próprio Sósia em casa, onde Júpiter, travestido em Anfitrião, faz uso de Alcmena. O diálogo é impressionante pelo longo uso do artifício cênico dos apartes, outra das características marcantes de Plauto. Durante muitos versos, os dois personagens conversam sem conversar, antes de se engajarem em diálogo efetivo. Novamente, além do aspecto cômico da situação, a passagem demonstra o apuro técnico da composição plautina, pois, ao mesmo tempo em que os apartes eram, provavelmente, seguidos por caras e gestos burlescos, as falas continuavam movimentando a ação, encaminhando a cena para o seu desfecho sem deixar de explorar o potencial cômico de cada um dos versos.

O princípio utilizado na tradução desses septenários trocaicos é o mesmo adotado na tradução dos senários jâmbicos. Com o número de sílabas podendo variar, os versos são caracterizados pela obrigatoriedade de alguns acentos: a primeira sílaba de cada um deles é obrigatoriamente lida como tônica, o que cria uma identidade rítmica que, já no início, diferencia essa estrutura métrica daquela criada pelos senários, conforme anteriormente exposto. Aqui também, ao final do verso, manteve-se a duplicação da célula rítmica átona-tônica, garantindo-se, assim, uma recorrência rítmica mínima para o verso – deve-se ressaltar ainda que, nesse como nos outros, a alternância entre átonas e tônicas foi mantida, sempre que possível, em toda a extensão dos versos, embora não fosse obrigatória. A seguir, o trecho comentado (Anfitrião, 308-26):

{Sósia} Ele está se armando: se prepara! {Mercúrio} Pois não vai ficar sem surra.
{Sósia} Quem? {Mercúrio} Aquele que vier aqui degustará meus punhos!
{Sósia} Sai de mim! Não gosto de comer assim tão tarde. Já jantei.
Essa janta, se você tem senso, dê então a quem tem fome.
{Mercúrio} Nada mau o peso desse punho. {Sósia} Pronto:  pesa os punhos!
{Mercúrio} E se eu bater bastante, até que durma? {Sósia} Vai prestar socorro,
pois  três noites eu passei desperto . {Mercúrio} Mas que coisa feia,
como agimos mal: minha mão é muito ruim moendo maxilares.
Outra cara é necessária a quem você espia com o punho.
{Sósia} Esse homem vai me pôr em obras e ajustar a minha fuça.
{Mercúrio} Vai ficar sem osso o rosto em que você bater com gosto.
{Sósia} Vou pasmar se não tirar-me a espinha como fazem com moreias.
Esse aí desossa homens sem motivo! Se me encontra, morro.
{Merc.} ’Tô cheirando alguém…  coitado!  {Sós.} Ops! soltei algum cheirinho?
{Mercúrio} Longe não está, mas certamente veio para cá de longe.
{Sósia} Esse aí é bruxo. {Mercúrio} Meus punhos estão descontrolados!
{Sósia} Se quiser me usar pra sossegá-los, dome-os antes na parede.
{Mercúrio} Uma voz me voa aos meus ouvidos. {Sósia} Mas não sou um infeliz?
Tenho uma voz que voa só porque não dei um jeito nessa asa.

{Sosia} Cingitur: certe expedit se. {Mercurius}: Non feret quin uapulet.
{Sosia} Quis homo? {Mercurius}: Quisquis homo huc profecto uenerit, pugnos edet.
{Sosia} Apage, non placet me hoc noctis esse: cenaui modo;
proin tu istam cenam largire, si sapis, esurientibus.
{Mercurius}: Haud malum huic est pondus pugno. {Sosia} Perii, pugnos ponderat.
{Mercurius}: Quid si ego illum tractim tangam, ut dormiat? {Sosia} Seruaueris,
nam continuas has tris noctes peruigilaui. {Mercurius}: Pessumest,
facimus nequiter, ferire malam male discit manus;
alia forma esse oportet quem tu pugno legeris.
{Sosia} Illic homo me interpolabit meumque os finget denuo.
{Mercurius}: Exossatum os esse oportet quem probe percusseris.
{Sosia} Mirum ni hic me quasi murenam exossare cogitat.
ultro istunc qui exossat homines. perii, si me aspexerit.
{Mercurius}: Olet homo quidam malo suo. {Sosia} ei, numnam ego obolui?
{Mercurius}: Atque haud longe abesse oportet, uerum longe hinc afuit.
{Sosia} Illic homo superstitiosust. {Mercurius}: Gestiunt pugni mihi.
{Sosia} Si in me exercituru’s, quaeso in parietem ut primum domes.
{Mercurius}: Uox mi ad aures aduolauit. {Sosia} Ne ego homo infelix fui,
qui non alas interuelli: uolucrem uocem gestito.

            Na passagem abaixo, o escravo Geta, da casa da velha Sóstrata, mãe de uma jovem deflorada pelo adulescens impetuoso, revoltado com a família do criminoso, em um fluxo virtuoso de impropérios, demonstra toda sua lealdade à sua senhora. Os versos 309 a 316 são octonários jâmbicos; o 317 é um dímetro jâmbico (variação curta dos versos jâmbicos tradicionais) e os versos 318 e 319 são septenários trocaicos, com o 320 retomando os octonários jâmbicos. A tradução segue o princípio do senário jâmbico: septenários trocaicos podem ter sete ou oito pés trocaicos (tônica seguida de átona), enquanto o octonário jâmbico leva de oito a nove jambos. O dímetro jâmbico, com duas dipodias jâmbicas em latim, ganhou uma forma com cinco pés jâmbicos. O trecho ilustra a variedade métrica presente dentro da fala de um mesmo personagem dentro de um mesmo modo de elocução (recitativo acompanhado de tibia):

GETA: Ai!
de mim, ai! Quase perco a compostura, queimo de iracúndia!
não há nada que eu queira mais que ver essa família toda
pra que eu minha ira toda vomitasse enquanto o ódio é recente.
aceitaria o meu castigo, ao menos se eu pudesse me vingar.
Ao velho arrancaria a alma só por ter gerado o vagabundo;
então também o Siro instigador, ah, como eu dilaceraria!
eu pegaria o traste e viraria a testa sobre o chão
e espargiria o cérebro no chão;
arrancava ao jovem os olhos e jogava do penhasco;
quanto ao resto – eu atropelo, arrasto, espanco e prostro.
Por que me atraso pra contar os males à senhora? (…)
(Adelfos, 309-20)

                                                                                              {GE.} ah
me miserum, vix sum compos animi, ita ardeo iracundia.
nil est quod malim quăm ĭllam totam familiam darĭ mi obviam,
ut ego iram hanc in eos evomam omnem, dum aegritudo haec est recens.
satis mihi id habeam supplici dŭm illos ulciscar modo.
seni animam primum exstinguerem ipsi quĭ ĭllud produxit scelus;
tum autem Syrum inpulsorem, vah, quibus illum lacerarem modis!
sublime[m] medium primum arriperem et capite in terra statuerem,
ut cerebro dispergat viam;
adulescenti ipsi eriperem oculos, post haec praecipitem darem;
ceteros – ruerem agerem raperem tunderem et prosternerem.
sed cesso eram hoc malo inpertiri propere? (…)

            Finalmente, o terceiro modo de elocução poético-musical, também chamado de mutatis modis cantica (cantos em versos múltiplos). No Anfitrião, após a despedida do deus travestido em esposo, a esposa virtuosa, entristecida pela rápida passagem do suposto marido, canta em tom tragicômico um lamento em versos báquicos (uma sílaba breve seguida de duas longas, um pé de andamento arrastado, marcadamente patético) de tamanhos variados. Aqui, a perícia poética plautina sobrepõe diferentes elementos da peça criando uma estrutura complexa e duplamente eficiente.

O tom patético do verso escolhido para o lamento de Alcmena contrasta, num primeiro momento, com a própria encenação do trecho. Dado o fato de os personagens serem interpretados por homens, a figura de uma matrona romana em avançado estágio de gravidez – de duas crianças, diga-se de passagem (Íficles e Hércules) – sendo vivida por um homem já é, em si, potencialmente cômica – burlesca mesmo. A isso se soma ainda outro aspecto explorado pelo autor. Alcmena, durante toda a peça, demonstra ser uma esposa perfeita, que respeita seu marido, sua posição social e sua condição – esposa de um renomado general tebano – e que tem profundo conhecimento de seus deveres, seus direitos e seus valores. Em diferentes momentos, inclusive em seu lamento, Alcmena evoca a honra como uma de suas principais características, o que demonstra a autoconsciência que ela tem do caráter distintivo de seus valores.

A repetição das palavras uoluptas (literalmente “prazer”) e uirtus (“virtude”), que carrega em si o radical “uir” (“homem, varão, viril”), dá à fala da personagem um tom fortemente sexual, que, tal como a encenação, contrasta com a seriedade evocada pelo metro no qual a cena é composta e com a gravidade do assunto abordado. Eis, portanto, a sua dupla eficiência: para quem não fosse capaz de perceber a complexidade etimológica por trás da escolha vocabular, a cena correria vitoriosamente cômica somente por sua interpretação; mas aqueles que compreendessem o jogo criado por Plauto através das palavras contariam, também, com outro aspecto potencialmente cômico na passagem.

Para a tradução desse lamento, Leandro Cardoso escolheu dar ao texto um andamento anapéstico (átona-átona-tônica), outro tipo de metro patético e que, em português, e especialmente no contraste com as outras células rítmicas utilizadas na tradução – compostas apenas por duas sílabas métricas –, soa arrastado se não tal como o báquico, ao menos mais que o jambo e o troqueu utilizados. Como a tradução de “uirtus” por uma palavra que pudesse evocar “homem, varão, viril” de maneira mais direta mostrou-se, no momento, empresa impossível para o tradutor – porém, destaque-se que uma leitura mais detida pode encontrar, em “virtude”, as letras iniciais de “viril”, outra forma de eco etimológico utilizada por Plauto –, buscou-se aumentar o apelo sexual em outras partes do trecho, tal como no emprego de “recebi meu marido” no verso 639 e de “meu homem” no verso 647. Vale destacar, ainda, que, no verso 641, tentou-se, mesmo que de maneira velada, criar uma referência ao intercurso sexual com “a tristeza ao sair foi maior que o prazer ao entrar”.

Sem mais, segue o trecho (Anfitrião, 633-653):

{Alc} O prazer não é algo pequeno na vida e nos dias vividos
comparado aos pesares? Assim prepararam os dias dos homens,
decidiram os deuses assim, que a tristeza acompanhe o prazer:
acontece algo bom e depois aparecem tristezas e dor.
Pois agora que  em casa acontece comigo, eu sei bem o que é.
O prazer foi pequeno pra mim, pois durante somente uma noite
recebi meu marido, que parte daqui com o dia surgindo.
E eu pareço ficar tão sozinha na ausência do homem que eu amo.
A tristeza ao sair foi maior que o prazer ao entrar.
Mas eu fico feliz
porque ele venceu e voltou para casa coberto de glórias.
Eis aí um consolo:
que se ausente, mas volte com glórias
e que as traga pra casa. Eu supero e tolero
com coragem e espírito firme que ele se ausente se isso
me for dado: meu homem voltar vencedor da batalha –
já será o bastante.
A virtude é o melhor dos presentes.
A virtude vem antes de todas as coisas:
liberdade, país, segurança, riquezas e vida, os filhos e os pais,
protegidos, guardados por ela.
A virtude tem tudo, e quem tem a virtude
só vai ter o que é bom.

{ALC.} Satin parua res est uoluptatum in uita atque in aetate agunda
praequam quod molestum est? ita cuique comparatum est in aetate hominum;
ita diuis est placitum, uoluptatem ut maeror comes consequatur:                 
quin incommodi plus malique ilico adsit, boni si optigit quid.
nam ego id nunc experior domo atque ipsa de me scio, cui uoluptas
parumper datast, dum uiri mei mihi potestas uidendi fuit
noctem unam modo; atque is repente abiit a me hinc ante lucem.
sola hic mihi nunc uideor, quia ille hinc abest quem ego amo praeter omnes.
plus aegri ex abitu uiri, quam ex aduentu uoluptatis cepi.
sed hoc me beat
saltem, quom perduellis uicit et domum laudis compos reuenit:
id solacio est.
absit, dum modo laude parta
domum recipiat se; feram et perferam usque                                                 
abitum eius animo forti atque offirmato, id modo si mercedis
datur mi, ut meus uictor uir belli clueat.
satis mi esse ducam.
uirtus praemium est optimum;
uirtus omnibus rebus unteit profecto:                                                            
libertas salus uita res et parentes, patria et prognati
tutantur, seruantur:
uirtus omnia in sese habet, omnia adsunt
bona quem penest uirtus.

            Há também o cântico afetado e patético do jovem Ésquino nos Adelfos, um dos raros cânticos de metros variados em Terêncio. Na tradução, Rodrigo Gonçalves tenta manter, por meio de blocos espaciais, os tipos de pés mais frequentes na passagem –dátilos (uma sílaba longa seguida de duas breves), troqueus e metros longos em coriambos (uma sílaba longa, duas breves e outra longa). O ritmo, que vai se esfacelando no original latino, deu lugar a uma configuração concreta que tenta mimetizar o estado de espírito alterado do jovem apaixonado:

dói-me tanto                            meu coração:
como pode de improviso um mau tão grande em mim cair?
como não sei                           nem que farei
nem como agir                        certo não é!
os        membros de medo       débeis estão;
a          mente me foge                         tanto temor,
no coração       plano nenhum             cabe,                            ah!
como vou        desta desgraça                         escapulir?
tanta suspei-               ta agora de
mim aparece                não sem razão:
Sóstrata crê-                me a mim mesmo
tê-la comprado ­– a citarista –
isso a velha me disse.
(Adelfos,610-617)

Discrucior animi:
hocin de inproviso mali mihi obicĭ tantum
ut neque quid me faciam nec quid agam certu’ siem!
membra metu debilia sunt; animu’ timore obstipuit;
pectore consistere nil consilĭ quit.
vah
quo modo mĕ ĕx hac expediam turba?
tanta nunc suspiciŏ de me incidit neque ea inmerito:
Sostrata credit mihi me psaltriam hănc emisse; id anus mi indicium fecit.
(610-7)

Rodrigo Tadeu Gonçalves & Leandro Cardoso (o texto acima foi originalmente publicado na primeira edição impressa do escamandro.)

Rodrigo Tadeu Gonçalves (Jaú – SP, 1981) é classicista, tradutor e professor de Letras na UFPR desde 2005 e pós-doutor pelo Centre Léon Robin de Recherche sur la Pensée Antique do CNRS em Paris. Candidato a polímata, provavelmente em vão.

Leandro Dorval Cardoso (Apiaí – SP, 1984) é Mestre em Letras com ênfase em Estudos Literários pela UFPR. Autor de uma tradução polimétrica do Anfitrião de Plauto, dedica-se à tradução poética da literatura latina, mas também se arrisca pelas sendas do espanhol. Atualmente, é Professor Substituto de Língua e Literatura Latina na UFPR.

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lançamento em curitiba – escamandro #01

escamandro-1-capa

é com muita alegria que nós, os 4 coeditores do escamandro, convidamos a todos que estiverem em curitiba esta semana para participarem do lançamento em terra natal da primeira edição impressa de nossa revista-livro.

o lançamento será na sexta-feira (dia 4 de abril, o mês mais cruel), a partir das 19h nos círculos infernais do bar do dante (rua conselheiro carrão, esquina com alberto bolliger, 194, alto da xv).

nossa revista-livro, em capa dura, estará disponível por R$35,00 (por favor, levem em dinheiro ou cheque, de preferência com fundos).

clique aqui p/ mais informações sobre a revista (autores, isbn e tudo o mais)

clique aqui p/ postagens no blogue de poetas presentes nesta edição

clique aqui p/ o evento no facebook.

marcelo sandmann

Marcelo-Sandmann

Marcelo Sandmann é poeta, compositor e professor de literatura portuguesa na Universidade Federal do Paraná. Publicou os livros de poesia Lírico Renitente (2000), Criptógrafo Amador (2006) e Na Franja dos Dias (2012). Organizou o volume A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos sobre a Obra de Paulo Leminski (2010). Lançou, com Benito Rodriguez, o CD Cantos da Palavra, com interpretações de Silvia Contursi e produção de Paulo Brandão. Em 2014, saem os CDs Conselho do Bom, com canções em parceria com Benito Rodriguez e Cláudio Menandro, e No Silêncio da Canção, do grupo curitibano ZiriGdansk, com composições suas e parceiros.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: Marcelo Sandmann já marcou presença aqui no escamandro numa postagem anterior com o seu poema “Pato ao Tucupi” (clique aqui).

escamandro

           

GARÇON, POR GENTILEZA,
CANCELE A ÚLTIMA CERVEJA!

                para Nelio Waldy Koentopp Jr.
                e Carlos Alberto Lins

É preciso sair
da zona de conforto.

Um soneto pode ter trezentos versos.
Um poema concreto,
desabar como uma marquise.

A poesia mais dolorosamente satânica
é uma carícia
diante dos desígnios de Deus.

(E Deus não existe,
o que torna Seus desígnios
ainda mais sombrios.)

A realidade é um exagero constante,
margens soberbamente borradas,
trânsito atônito entre hemisférios.

Para que poemas comedidos?

“E eis que o sol se derreteu
na minha folha de papel azul…”

(Escrevi esses versos aos 19 anos,
um bom pretexto para
não mercar
armas
nem escravos.)

Mas vejo que continuo impune,
apesar de vivo.

E vivo, apesar
de ter nascido

(Marcelo Sandmann)

sérgio blank

sergio_blank

Sérgio Blank (Cariacica – ES, 1964) é poeta, autor dos volumes Estilo de ser assim, tampouco (1984), Pus (1987), Um, (1988), A Tabela Periódica (1993) e Vírgula (1996), além da fábula infanto-juvenil ilustrada Safira (1991). Toda sua obra foi reunida no volume Os Dias Ímpares (2011), publicado pela editora Cousa. Abandonou a escrita da poesia após seu último livro, mas continuou trabalhando com literatura como promotor de lançamentos de livros e coordenador de oficinas literárias, inclusive para pacientes com transtornos mentais do CPTT (Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos) e do CPAS (Centro de Atenção Psicossocial), instituições da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Vitória. Atualmente reside em Vitória e trabalha na Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo.

Logo abaixo, um de seus poemas (originalmente publicado em A Tabela Periódica) presentes em nosso dossiê Sérgio Blank a ser publicado logo no primeiro número impresso do escamandro, que conta também com um texto introdutório e retrospectivo de sua carreira poética, de autoria de Adriano Scandolara.

PS: Confiram nossas postagens anteriores sobre o livro Pus, de Blank, contendo poemas e comentário, clicando aqui e aqui.

escamandro

           

POEMA QUATRO
o amor platônico

armazém atacado & varejo
entrega a domicílio

os pulmões em plena pane
o amor platônico
o planeta sem plural & plêiades
de prazer longo & longe
a prazo preso na palavra
planta carnívora aos meus pés
sai da cauda desta fênix fajuta
pardal ao dia pavão na noite
pobre & podre no plano horizontal
naftalina & pulga em duelo
coração de platina ou plástico ou plutônio
problema plissado que não se desmancha
implode em silêncio aplicado
impune ao pulso de plutão

(Sérgio Blank)

dirceu villa

dirceu_villa

O poeta Dirceu Villa nasceu em São Paulo em junho de 1998 embrulhado numa capa vermelha que estampava o desenho de um camaleão. É o rei de Inscape e o melhor poeta de que você jamais ouviu falar. Tem poemas traduzidos para línguas nas quais ainda se lê poesia. As crianças o chamam de Medusa, e ele gosta de andar pela cidade porque detestaria ter de dirigir. Também não gosta de telefones nem de grupos em que só há pessoas do sexo masculino. Escreve o mais preguiçoso e duradouro blog da internet, O Demônio Amarelohttp://odemonioamarelo.blogspot.com.br/, porque finge que escreve para uma revista literária.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: Dirceu Villa já marcou presença aqui no escamandro anteriormente como tradutor dos Lustra, de Ezra Pound (clique aqui)

escamandro

           

psicopata superstar

15 minutos gravados a bala no american dream
injetado no sorriso da síndrome de estocolmo:
facas na sombra, forcas no teto, sangue no ralo,
eddie; fitas na juba, mandy; mãos nos ouvidos.

perfil fotográfico dos brancos bonzinhos com cara
de pôster, das boas meninas amáveis cheerleaders
de saia e meia calibre três quartos de ação de graça,
e o peitudo peru mutilado na casa do estupro,

nos gordos bigodes do médio papai na poltrona:
a corte decide te amar, o público compra teu corpo,
te beija na boca e estica o pescoço e te diz “inocente”
e protege o teu choro com riso, teus cães que têm sede

de sangue: chupam sorvetes vermelhos, enxugam
em toalha banheiros e cobrem o corpo com baba.
penduram seus brincos na carne da orelha, o martírio
de todo metal, vermelho grudento agradável de gozo.

(Dirceu Villa)

horácio fiebelkorn

horacio-fiebelkorn

Horacio Fiebelkorn nasceu em La Plata em 1958 e vive em Buenos Aires. Publicou Caballo en la catedral (ed. El Broche, La Plata, 1999), Zona muerta (La Bohemia, 2004), Elegías (2008), Tolosa (2010), Sobre o tempo que se perde em buscar o tempo perdido (publicado em plaquete com tradução de Virna Teixeira, São Paulo, 2011) e Pájaro en el palo (Uruguay, 2012). Integrou também uma antologia de poetas platenses em 1998 e a Antologia de poesia erótica argentina (Ed. Manantial, 2002). Foi co-editor do tablóide de poesia La novia de Tyson nos anos 90.

Logo abaixo, um poema em tradução de Vinicius Ferreira Barth. No primeiro número impresso do escamandro, que logo sairá, teremos mais traduções.

PS: Vinicius Ferreira Barth é de Curitiba e mora em Buenos Aires, nascido em 1986, graduado e com mestrado em fase de conclusão na área de estudos literários pela UFPR. É tradutor, entre outras coisas, das Argonáuticas de Apolônio de Rodes, e também é ilustrador e fotógrafo.

Para mais poemas de Fiebelkorn publicados numa postagem anterior aqui no escamandro, clique aqui.

escamandro

           

As cidades pequenas têm amplas zonas
de casas baixas. Por isso pode-se ver o horizonte,
tocado, apenas, por silhuetas de árvores e construções.
A presença contínua do horizonte
nas cidades pequenas convida à liberdade, e por isso
gera angústia, com uma carga de terror e reclusão
que não se pode nomear. Seus habitantes
não sabem ser livres.
Nas urbes, a ausência de horizonte visível
permite uma liberdade moderada e anônima,
sem cor e sem nenhuma expectativa.
Quando as cidades pequenas aprenderem a ser livres,
as cidades grandes desaparecerão.

           

Las ciudades chicas tienen amplias zonas
con casas chatas. Por eso se puede ver el horizonte,
apenas tocado por siluetas de árboles y construcciones.
La presencia continua del horizonte
en las ciudades chicas, invita a la libertad y por lo mismo
genera angustia, con una carga de terror y encierro
que no puede nombrarse. Sus habitantes
no saben ser libres.
En las urbes, la ausencia de horizonte visible
permite una libertad moderada y anónima,
sin color ni expectativa alguna.
Cuando las ciudades chicas aprendan a ser libres,
las ciudades grandes van a desaparecer.

(Horacio Fiebelkorn, tradução de Vinicius Ferreira Barth)

tarso de melo

tarso_de_melo

Tarso de Melo (Santo André, 1976) é autor de Caderno Inquieto (Dobra, 2012), seu sexto livro de poemas. É advogado e professor universitário, com doutorado em Filosofia do Direito pela USP.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: confirma mais poemas de Tarso de Melo, junto de um pequeno comentário crítico ao seu Caderno Inquieto, clicando aqui.

escamandro

           

3.

na calçada, nos rios, na turba,
no céu, nas sombras, na carne:
você diz ter medo e preme
aos cacos
os dias, as noites, as palavras
que um dia entregaria

você (seu próprio homem-do-saco,
sua íntima loira-do-banheiro)

agarrado, mais e mais,
aos galhos, como fiapos,
que impedem o abismo
de engolir os voos
de sua infinita
fuga

(Tarso de Melo)

dahlia ravikovitch

dahlia-ravikovitch

Dahlia Ravikovitch (דליה רביקוביץ) foi uma poeta israelense, nascida em 1936 num subúrbio de Tel Aviv, na época Mandato Britânico da Palestina. Foi uma das formadoras da poesia israelense contemporânea, ao lado de Yehuda Amichai (1924-2000), Natan Zach (1930) e David Avidan (1934-1995), publicando doze volumes de poesia, três coletâneas de contos e vários livros infantis, bem como traduções, para o hebraico, de autores como Yeats, Poe e T. S. Eliot. Além de poeta, foi jornalista, formada pela Universidade Hebraica de Jerusalém, ativista pela paz e pelos direitos dos palestinos. Morreu em agosto de 2005.

Logo abaixo, um poema em tradução de Adriano Scandolara, via tradução inglesa de Tsipi Keller. No primeiro número impresso do escamandro, que logo sairá, teremos mais traduções.

PS: Tsipi Keller (nascida em Praga, criada em Israel, mas residente nos EUA desde 1974) é prosadora e uma figura importante da tradução de autores israelenses, responsável por diversas coletâneas de tradução para o inglês de poesia e prosa em hebraico moderno, incluindo Poets on the Edge: An Anthology of Contemporary Hebrew Poetry (Suny Press, 2008), do qual foram retirados os poemas de Dahlia Ravikovitch aqui retraduzidos para o português.

Adriano Scandolara é poeta e tradutor de Curitiba, nascido em 1988, formado e mestre em estudos literários pela UFPR, onde pesquisou e traduziu a poesia do romântico Percy Bysshe Shelley (mais especificamente o poema Prometeu Desacorrentado, inédito). Publicou em 2013 seu primeiro livro de poemas, Lira de Lixo, pela editora Patuá.

Confiram mais alguns poemas de Ravikovitch em um post anterior no escamandro, clicando aqui.

escamandro

           

Presságios

Quando o copo cai
um caco dispara,
e um papel escorrega,
e algo mexe ou se move,
e algo se parte em sua estrutura ––
é preciso ficar sempre de guarda.

Agora escrevo e paro
para pensar
quantas folhas de papel entalaram na minha garganta.
Eu, se assim posso dizer, não sou mais eu.
Estou partida, definhando rápido.
Um tremor no ar. Falta um padrão.
Talvez seja eu que caia depressa.

E eu me recuso a acreditar.
Simplesmente me recuso a ver.

           

Omens

When the glass drops
a splinter shoots,
and a piece of paper slips,
and something shifts or stirs,
and something splits from the proper frames ––
one must always be on guard.

Now I write and pause,
to think,
many sheets of paper got stuck in my throat.
I, if I may say so, am no longer I.
I’m split, wasting fast.
A quiver in the air. The mould is missing.
Perhaps it is I who’s dropping quickly.

And I refuse to believe it.
I simply refuse to see.

           

סימנים

,כְּשֶׁהַכּוֹס נוֹפֶלֶת
,רְסִיס נִתָּז
וּפִסַּת נְיָר נִשְׁמֶטֶת
וּמַשֶּׁהוּ זֶח אוֹ זָז
וּמַשֶּׁהוּ חוֹרֵג מִן הַמִּסְגֶּרֶת הַנְּכוֹנָה
.צָרִיךְ לְהִשָּׁמֵר מִזֶּה מְאֹד

,עַכְשָׁו אֲנִי כּוֹחֶבֶת וּמַפְסִיקָה
,אֶפְשָר לַחְשׁׂב
.דַּפֵּי נְיָר רַבִּים נִתְקְעוּ לִי בִּגְרוֹנִי
.אֲנִי, אִם אֶפְשָׁר כָּךְ לוֹמַר, כְּבָר לֹא אֲנִי
.אֲנִי לְמֶחְצָה, פּוֹחֶתֶת בִּמְהירוּת
,יֵשׁ נִיעַ בָּאֲוִיר. הַתַּבְנִית חֲסֵרָה
.אוּלַי אֲני הִיא הַנּוֹפֶלֶת בִּמְהִירוּת

וַאֲנִי מְסָרֶבֶת לְהַאֲמִין
.אֲני מַמָּשׁ מְסָרֶבֶת לִרְאוֹת

           
(poemas de Dahlia Ravikovitch, traduções para o português de Adriano Scandolara, via tradução inglesa de Tsipi Keller)

maurício mendonça cardozo

Mauricio_Cardozo

Mauricio Mendonça Cardozo (Curitiba, 1971) é professor de tradução e tradutor de autores como Cummings, Celan, Rilke, Lasker-Schüler, Storm, Heine e Goethe.

Abaixo, o poema número iii dos 7 que compõem a sua série “destempo”, presente na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

escamandro

           

iii

do vinho
o mis en bouteille
selado de gole

da história
o caco do agora
velado de ontem

do amanhã −
que umedeça firme
na lápide das horas

(Mauricio Mendonça Cardozo)

uljana wolf

uljana-wolf

Uljana Wolf (Berlim, 1979) é poeta, tradutora e editora formada em Germanistik, Anglistik e Kulturswissenchaft, pela Humboldt Universität, em Berlim. Tem dois livros de poesia publicados: kochanie ich habe brot gekauft (2005) e falsche freunde (2009) e já recebeu alguns prêmios literários, tais como o Peter-Huchel-Preis, Dresdner Lyrikpreis e o Villa Aurora grant in Los Angeles. Além disso, traduziu para o alemão alguns poetas de língua inglesa, como Matthea Harvey, Christian Hawkey, Erín Moure e Cole Swensen, e coeditou o Jahrbuch der Lyrik (2009). Atualmente mora em Nova York.

Logo abaixo, um poema em tradução de Guilherme Gontijo Flores. No primeiro número impresso do escamandro, que logo sairá, teremos mais traduções, dentre as quais também de autoria de Ricardo Pozzo.

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é autor de brasa enganosa (Patuá, 2013), tradutor de Rainer Maria Rilke (As janelas, seguidas de poemas em prosa franceses) e de Robert Burton (A anatomia da melancolia, em 4 vols.) É professor na UFPR e atualmente prepara uma tradução das Elegias de Sexto Propércio.

Ricardo Pozzo é escritor, fotógrafo, músico e blefador. Participa do coletivo Pó & Teias. É editor assistente e responsável fotográfico pelo Jornal RelevO. Realiza a curadoria do projeto Vox Urbe do Wonka Bar, dedicado à literatura.

PS: confiram nosso post anterior sobre Wolf, com mais mais alguns poemas da autora, clicando aqui.

escamandro

           

aos cães de kreisau

ai minimatilhas de malhados cães de vila: falsos
rabos patas parcas focinhos sobre a cerca

a rua é sua junto ao pó na orla do asfalto
é sua a noite que ecoa no vale adormecido

cada eco é seu: a repercussão contorcida
do som dos montes do rosnar hierárquico

das ondas ladrantes: primeiro hercúleo então gigan
tesco no ressoar quase só uma galinha sabe:

aqui quem não brada nem baba é tomado
pelo bando em gargantas em chama perde o lugar

feito lobo etc. vocês medem o mundo na baixada
dominam cada estrada cada estranho e a mim –

é sua a minha trilha o meu passo sem compasso
a minha panturrilha         enfim fora da vila

           

nachtrag an die kreisauer hunde

wer sagt gedichte sind wie diese hunde
im dorfkern vom eignen echo umstellt

vom warten und scharren bei halbmond
vom sturen markieren im sprachrevier

der kennt euch nicht ihr rasenden kläffer
kassandren im lautrausch der wallachei

denn ihr fügt was wort ist und was wade
hinterrücks in tollkühnem biss

zusammen als wär ein bein nur ein blatt
und die ordnung der dinge ein tausch:

in meinem stiefel noch der abdruck
eurer zähne – vom tacker vier zwacken

so lohnt ihr dem vers der euch nachlief
folgt welt wohl der dichtung        bei fuß

(Uljana Wolf, tradução de Guilherme Gontijo Flores)