luis de góngora, por érico nogueira

gongora

Nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, Luis de Góngora y Argote viveu o ápice do chamado “siglo de oro” das letras espanholas. Escreveu, diz-se, em “castelhano imperial”, uma língua não raro obscura eivada de helenismos, latinismos, figuras retóricas e alusões mitológicas. Sua paixão pela metáfora – ou, antes, pelo processo analógico que Gracián chamou de agudeza e que propicia toda metáfora – chegou ao cúmulo do paroxismo e da obsessão.

Abaixo, segue um soneto de Góngora traduzido por Érico Nogueira  para a segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente (nela, Nogueira também traduz poemas de Hugo von Hofmannsthal e Torquato Tasso). Comenta o tradutor: “Aos vinte anos, contudo, [Góngora] escreveu sua profissão de fé. É um soneto à moda de Petrarca, com algo de Camões, e superior a ambos. Eu diria que é a cumulação da arte do soneto, de suas possibilidades formais e, por que não, também expressivas, e foi imitado por nosso Gregório de Matos”.

Érico Nogueira (Bragança Paulista – SP, 1979) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latinas na Universidade Federal de São Paulo. Autor de O Livro de Scardanelli (poesia, 2008), Dois (poesia, 2010) e Verdade, Contenda e Poesia nos Idílios de Teócrito (estudo e tradução, 2012), Poesia Bovina (poesia, 2015). Tem publicado artigos sobre versificação greco-latina e portuguesa. Nomes como Paulo Henriques Britto e João Angelo Oliva Neto já escreveram sobre sua poesia. Traduzido em inglês pelo crítico britânico Chris Miller, tem recebido destaque nas principais revistas literárias da Inglaterra, onde foi capa da The Warwick Review, editada pelo Department of English and Comparative Literary Studies da Universidade de Warwick. Vive e trabalha em São Paulo.

escamandro

 

Soneto

Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro brunido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que da rosa agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que esta que foi hora dourada
– ouro, lírio, rosal, cristal luzente –

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e tudo juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

 

Soneto

Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o vïola troncada
Se vuelva, más tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

(poema de Luis de Góngora y Argote, tradução de Érico Nogueira)

jacobo fijman, por nina rizzi

fijman

 

James/Jacobo Fijman (Orhei, Bessarábia, atual Moldova, 25 de janeiro de 1898 – Buenos Aires, 1970). De família judia-russa, mudou para Argentina aos seis anos. Fez parte da avant-garde literária de Martín Fierro, que também estava ligada a Jorge Luis Borges e Oliver Girondo. Além de poeta, foi ensaísta, tradutor, violinista e pintor; desenvolveu vários trabalhos irregulares, e a partir de 1921 começou a sofrer ‘colapsos mentais’, adepto do misticismo, se converteu ao catolicismo em 1930, e colaborou em diversas revistas religiosas antes de ser internado definitivamente com atestado de psicose delirante em 1942, até morrer em 1970 praticamente abandonado. Publicou: Molino Rojo (1926), Hecho de estampas (1930), Estrella de la mañana (1931) e San Julián el pobre (relatos, publicado postumamente em 1985).

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente. A tradução é de Nina Rizzi.

Nina Rizzi (SP, 1983), escritora historiadora e tradutora. Tem textos, traduções e poemas em diversas antologias, revistas e suplementos; publicou tambores pra n’zinga (poesia; Multifoco/ Orpheu, 2012), caderno-goiabada (prosa-ensaística; Edições Ellenismos); Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução; Edições Ellenismos, 2013) e A Duração do Deserto (poesia; Patuá, 2014).

PS: a Nina já apareceu aqui no blogue anteriormente, com poemas próprios e tradução.

escamandro

 

POEMA VI

Minha voz caiu, minha última voz, que ainda guarda meu nome.
Minha voz:
Pequena linha, pequena canção que nos separa das coisas.

Estamos distantes de minha voz e do mundo, vestidos de umidades brancas.
Estamos no mundo com os olhos na noite.
Minha voz fria e suja como a pele dos mortos.

 

POEMA VI

Ha caído mi voz, mi última voz, que aún guarda mi nombre.
Mi voz:
pequeña líneas, pequeña canción que nos separa de las cosas.

Estamos lejos de mi voz y el mundo, vestidos de humedades blancas.
Estamos en el mundo y con los ojos en la noche.
Mi voz fría y sucia como la piel de los muertos.

(poema de Jacobo Fijman, tradução de Nina Rizzi)

Roberto Bolaño, por Gustavo Petter

bolaño

Roberto Bolaño Ávalos nasceu em 28 de abril de 1953 na capital chilena Santiago, filho do motorista León Bolaño e da professora Victoria Ávalos. Aos 15 anos de idade muda-se com a família para a Cidade do México, onde o adolescente Roberto tem o encontro determinante com a literatura, ao consumir os dias em leituras na biblioteca pública. Deseja ser escritor. Antes ainda retorna ao Chile para viver uma dura experiência, a época precedia o golpe de estado, então une-se aos resistentes, é detido, passa oito dias encarcerado, só é libertado por ser reconhecido por dois ex-colegas de escola que agora eram investigadores. Volta ao México para dedicar-se somente à literatura. A capital mexicana foi decisiva para o encontro com o amigo Mario Santiago Paspaquiaro e outros jovens para formarem o Infrarrealismo, movimento literário que buscava uma nova relação perante a vida, a poesia, as convenções sociais. O poeta e crítico Octavio Paz serve de exemplo oposto ao que buscavam os Infra, como também eram chamados, ou seja, ante o academicismo propunham o livre trânsito entre poesia e vida. É ao lado dos infra que publica pela primeira vez, em 1975, na antologia Poetas infrarrealistas mexicanos.

Após, Roberto Bolaño parte em uma série de viagens que culminaram em Barcelona, onde se instala e vive todas as agruras pelas quais passam os imigrantes: trabalhos precários, falta de dinheiro, solidão. Só retorna ao Chile 25 anos depois da partida,  já como autor reconhecido.

Bolaño produziu grande parte de sua obra sob a incerteza que uma grave enfermidade hepática proporciona, descoberta em 1993, época em que se consolida como escritor. O pressentimento ou a possibilidade real de morrer o faz escrever desenfreadamente. Planejava deixar um bom legado de publicações, que garantissem o bem-estar de seus filhos e esposa após sua ausência. A obra que o tornou fenômeno literário é Os Detetives Selvagens, 1998, garantindo-lhe dois importantes prêmios literários. Segue produzindo até seu falecimento em 4 de Julho de 2003.

Roberto Bolaño é mais conhecido dos leitores como narrador, sua produção ficcional supera em número as publicações poéticas, que foram apenas duas: Los perros românticos e a obra póstuma La universidad desconocida, da qual traduzi os quatro poemas sob o tema comum do cotidiano. Em entrevistas, Bolaño sempre se assumiu como um obsessivo leitor de poesia. Escrever poemas representou sua “Universidade”. A característica prosaica de sua produção poética o une a outro chileno Nicanor Parra, que Bolaño cita como exemplo de grande poeta, e sua anti-poesia como ápice da produção atual. O tema comum que liga os quatro poemas aqui traduzidos é o cotidiano, situações simples, corriqueiras que nos lança na companhia de um eu-lírico palpável, que vive angústias, alegrias, ou seja, sentimentos semelhantes aos nossos e em situações que possivelmente todos já vivemos. Tal característica remete às ideias infrarrealistas de unir poesia e vida.

(Gustavo Petter)

Gustavo Petter mora em Araçatuba/SP, onde é professor da rede estadual de ensino. Mantém o blog Agradável Degradado, em que publica poemas seus e traduções.

(Também publicou traduções no blogue da Modo de Usar, com poemas de Leopoldo María Panero (clique aqui). Outros poemas de Bolaño traduzidos em seu blog podem ser conferidos aqui).

 

Segundo Alan Resnais
até o fim da vida
Lovecraft foi vigilante noturno
de um cinema em Providence.

Pálido,  sustentando um cigarro
entre os lábios, com um metro
e setenta e cinco de altura
leio isto na noite do camping
Estrela do Mar.

 

Según Alain Resnais
hacia el final de su vida
Lovecraft fue vigilante nocturno
de un cine em Providence.

Pálido, sosteniendo un cigarillo
entre los lábios, con un metro
setenta y cinco de estatura
leo esto en la noche del camping
Estrella de Mar.

 

UM SONETO

Faz 16 anos que Ted Berrigan publicou
seus Sonetos. Mario passeou o livro pelos
leprosários de Paris. Agora Mario
está no México e The Sonnets numa
estante que fabriquei com minhas próprias
mãos. Creio que a madeira encontrei
perto do asilo de anciãos de Montealegre
e com Lola fizemos a estante.
Num inverno de 78, em Barcelona, quando
ainda vivia com Lola! Já faz 16 anos
que Ted Berrigan publicou seu livro
e talvez 17 ou 18 que o escreveu
e eu certas manhãs, certas tardes,
perdido em um cinema de bairro tento lê-lo,
quando acaba o filme e acendem a luz.

 

UN SONETO

Hace 16 años que Ted Barrigan publicó
sus Sonetos. Mario passeó el libro por
los leprosarios de París. Ahora Mario
está en México y The Sonnets en
un librero que fabriqué con mis proprias
manos. Creo que la madera la encontré
certo del asilo de ancianos de Montealegre
y con Lola hicimos el librero. En
el invierno del 78, en Barcelona, cuando
aún vivía con Lola! Y ya hace 16 años
que Ted Barrigan publicó su libro
y tal vez 17 o 18 que lo escribió
y yo ciertas mañanas, ciertas tardes,
perdido en un cine de barrio intento leerlo,
cuando la película se acaba y encienden la luz.

 

O DINHEIRO

Trabalhei 16 horas no camping e às 8
da manhã tinha 2.200 pesetas ia ganhar
2.400 não sei o que fiz com as outras 200
suponho eu comi e bebi cervejas e café
com leite no bar do Pepe García dentro do
camping e choveu na noite de domingo e toda
a manhã de segunda e as 10 fui até
Javier Lentini e cobrei 2.500 pesetas por uma
antologia da jovem poesia mexicana que
aparecerá na sua revista e já tinha mais de
4.000 pesetas e decidi comprar um par
de fitas virgens para gravar Cecil Taylor
Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus
e comer uma boa bisteca de porco
com tomate e cebola e ovos fritos e escrever
este poema ou esta nota que é como um pulmão
ou uma boca transitória que diz que estou
feliz porque fazia muito que não tinha
tanto dinheiro nos bolsos

 

EL DINERO

Trabajé 16 horas en el camping y a las 8
de la mañana tenía 2.200 pesetas pese a ganar
2.400 nno sé qué hice con las otras 200
supongo que comí y bebí cervezas y café con
leche en el bar de Pepe García dentro del
camping y llovió la noche del domingo y toda
la mañana del lunes y a las 10 fui donde
Javier Lentini y cobré 2.500 pesetas por una
antología de poesía joven mexicana que
aparecerá en su revista y ya tenía más de
4.000 pesetas y decidí comprar un par de
cintas vírgenes para grabar a Cecil Taylor
Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus
y comerme un buen bistec de cerdo
con tomate y cebolla y huevos fritos y escribir
este poema o esta nota que es como un pulmón
o una boca transitoria que dice que estoy
feliz porque hace mucho que no tenía
tanto dinero en los bolsillos

 

Todos os comércios hoje estavam fechados
e mesmo assim tinha apenas 50 pesetas
Três tomates e um ovo
Isso foi tudo
softly as in a morning sunrise.
Coltrane ao vivo
E comi bem
Cigarros e chá ao meu alcance.
E paciência no compasso
do entardecer.

 

Todos los comércios hoy estaban cerrados
y además sólo tenía 50 pesetas
Tres tomates y un huevo
Eso fue todo
softly as in a morning sunrise.
Coltrane en vivo
Y comí bien
Cigarillos y té hubo a mi alcance.
Y paciencia en el compás
del atardecer.

(poemas de Roberto Bolaño, traduções e texto introdutório de Gustavo Petter)

Antonio Gamoneda (1931-) por Thiago Ponce de Moraes

Antonio-gamoneda-002_gris-recortado

Antonio Gamoneda é um poeta e crítico de arte espanhol nascido em 1931. A recepção crítica à sua obra é bastante positiva, especialmente a partir da publicação de Edad (1987), sendo hoje reconhecido como uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea espanhola. O prestígio crescente de sua escrita trouxe, entre outras distinções, o Prêmio Cervantes, em 2006. Alguns de seus livros foram traduzidos ao português e publicados pelas editoras Assírio & Alvim e Quasi Edições.

Grande parte de sua obra poética – referente ao período de 1947 a 2004 – está reunida no volume Esta luz (2004). Alguns anos mais tarde, Extravío en la luz (2009) reúne seis poemas inéditos acompanhados de gravuras de Juan Carlos Mestre; é sua última compilação de poemas até agora. Embora seja corrente a avaliação de que a voz poética de Gamoneda ocupa um lugar único no ambiente literário – e que, portanto, não pertence a nenhuma linhagem ou escola –, alguns críticos têm proposto diálogos aproximativos entre a sua obra e as de Georg Trakl e do último Garcia Lorca.

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 PENSA a luz, me ama
sob seus cabelos.

Põe seus lábios em
minhas feridas, sorri,

sob seus cabelos.

PIENSA la luz, me ama
bajo sus cabellos.

Pone sus labios en
mis heridas, sonríe,

bajo sus cabellos.

§

TU

Cair em um rosto, existir
com sua respiração e com sua boca…

Quando tu estavas em perigo,
tu gritaste, mas foi
na garganta de outro ser humano;
se levantou teu corpo
e foi nos braços de outro ser humano.

Então compreendias.

E tua necessidade e tua dor
não foram nunca como antes. Tu
já não vês signos. Agora, tu desprezas
todas as dúvidas. E teu pensamento
não é espelho que cala; já é amor
e destino e conduta e existência.

Caer en un rostro, existir
con su respiración y con su boca…

Cuando tú estabas en peligro,
tú gritaste, mas fue
en la garganta de otro ser humano;
se levantó tu cuerpo
y fue en los brazos de otro ser humano.

Entonces comprendías.

Y tu necesidad y tu dolor
no fueron nunca como antes. Tú
ya no ves signos. Ahora, tú desprecias
todas las dudas. Y tu pensamiento
no es espejo que calla; ya es amor
y destino y conducta y existencia.

§

OUVIR o coração
em um silêncio novo,
advertir o destino
onde estava o desejo.

Ah verdadeiro amor,
que sensação de tempo
possuído, pensar
no mundo e em ti
em um só pensamento.

OÍR el corazón
en un silencio nuevo,
advertir el destino
donde estaba el deseo.

Ah verdadero amor,
qué sensación de tiempo
poseído, pensar
el mundo y en ti
en sólo un pensamiento.

§

NOSSOS corpos se compreendem cada vez mais tristemente, mas eu amo esta púrpura desolada.

Ah a flor negra dos dormitórios, ah as pastilhas do amanhecer.

NUESTROS cuerpos se comprenden cada vez más tristemente, pero yo amo esta púrpura desolada.

Ah la flor negra de los dormitorios, ah las pastillas del amanecer.

§

A SOLIDÃO se desnuda em teus olhos,
menina interminável, extensa na amargura;
talvez um morto fugitivo te habita
e te cruza o sangue e, no sangue, anoitece.

LA SOLEDAD se desnuda en tus ojos,
muchacha interminale, extensa en la amargura;
quizá un muerto fugitivo te anida
y te cruza la sangre y, en la sangre, anochece.

§

RAINHA de meu sangue, vontade de amargura,
juventude derrotada por um reino de sombra,
te balanças em meus braços como um mar; incessante
como o mar me nomeia.

Em mim acaba teu corpo. Há palavras obscuras
habitando teus olhos. Desnuda-te em minhas mãos.

Vive a noite. É
a hora de perder-me em teu cabelo e em teu pranto.

REINA de mi sangre, voluntad de amargura,
juventud derrotada por un reino de sombra,
te meces en mis brazos como un mar; incesante
como el mar me nombras.

En mí acaba tu cuerpo. Hay palabras oscuras
habitando tus ojos. Desnúdate en mis manos.

Vive la noche. Es
la hora de perderme en tu cabello y tu llanto.

(traduções de Thiago Ponce de Moraes)

Aqui vocês podem ver outras traduções de Gamoneda, feitas por Vinícius Nicastro Honesko.

* * *

Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além do livro de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012). Atualmente, é doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Em lento progresso, prepara uma nova compilação de poemas sob o nome de Dobres sobre a luz; além de traduções de J.H Prynne, Basil Bunting, Emily Dickinson e R.W. Emerson.

Julián Axat (1976) por Pádua Fernandes

Julián-AxatJulián Axat (La Plata, 1976) é um dos nomes mais notáveis da poesia argentina contemporânea. Publicou os livros de poesia Peso formidable (Buenos Aires: Zama, 2003), Servarios (Buenos Aires: Zama, 2005), Médium (Poética belli) (Buenos Aires: Paradiso, 2006), Ylumynarya (City Bell: Libros de la talita dorada, 2008), Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado, 2013) e Musulmán o biopoética (City Bell: Libros de La Talita dorada, 2013). Organizou a antologia de poesia argentina contemporânea Si Hamet duda lo daremos muerte (City Bell: 2010) e edita a coleção Los detectives salvajes, na editora Libros de la talita dorada, que recupera os escritos dos mortos e desaparecidos pelo terror de Estado e publica autores contemporâneos atentos a essas práticas autoritárias.

Axat é membro da organização HIJOS, criada por filhos desses desaparecidos e mortos. Seus pais foram sequestrados pelos agentes da repressão quanto ele tinha seis meses, e jamais seus corpos foram encontrados. Como jurista, era Defensor Judicial para menores em Plata; agora atua como coordenador do programa Agencia Territorial de Acceso a La Justicia (ATAJO), de acesso comunitário à justiça, do Ministério Público argentino.

O livro musulmán o biopoética refere-se, desde o título, à biopolítica (a que a “biopoética”, nome criado por Axar, faz contraponto) e à figura do “muçulmano” segundo Agamben: não se trata de um islâmico, e sim do preso, nos campos de concentração, que já não mais falava, que estava apartado de tudo. Essa figura, no livro, é o menor em conflito com a lei e as instituições, ou o menor apanhado por instituições em conflito com os direitos humanos, empregando práticas autoritárias que remontam aos tempos da última ditadura.

No poema escolhido, há uma referência à ESMA, Escola Superior de Mecânica da Armada, que serviu de centro de tortura e execução, e foi transformada em um memorial dos crimes da última ditadura. Axat lida com o material de seus processos como defensor na primeira parte, “Mal sobre ruínas del bien”, e expõe na segunda parte do livro, “Pasajes em espejo”, os materiais (jornalísticos e jurídicos) que usou nos poemas da primeira. Trata-se de uma possibilidade de forma poética benjaminiana a partir do Livro das Passagens (que recebeu um texto aqui no escamandro como “extensa obra de colagem deixada inacabada”).

Neo alude ao filme Matrix e seus jogos entre planos de realidades. O poema escolhido alude ao imaginário de Bolaño e sua busca pela poesia e/ou pelos poetas, em um futuro após 2666 (esse ano deu o título do monumental romance do autor chileno publicado postumamente). Andrew Wylie é o agente literário que editou Bolaño em inglês.

O terceiro poema foi retirado de um dos blogues de Axat, El niño rizoma; seu outro é Detectives por la Memoria. Embora o primeiro se concentre em temas jurídicos e o segundo, em assuntos editoriais, em ambos se encontra poesia, e creio que esse é o fundo comum a todas as atividades de Axat.

(Pádua Fernandes)

 

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971) é autor dos livros de poesia O palco e o mundo (Lisboa: &etc, 2002), Cinco lugares da fúria (São Paulo: Hedra, 2008), Cálcio (Lisboa: Averno, 2012 e, na tradução para o espanhol de Anibal Cristobo, City Bell: Libros de la Talita Dorada, 2013) e Código negro (Desterro: Cultura e Barbárie, 2013). Organizou a única antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil, A encomenda do silêncio (São Paulo: Odradek, 2004). Escreve no blogue O palco e o mundo.

 

de musulmán o biopoética (City Bell: De la talita dorada, 2013)

Mal sobre ruínas do bem

33.
o futuro não / um ossário cheio de vermes

Nadando no extermínio encontrarás / a palavra
“extermínio” /
novamente submersa a encontrarás / e assim / em todas as
camadas do extermínio /
seguirás como possesso / até dar com o último verme /
a gota não exterminada que / levarás a tua garganta
em um gole /
para procurar / um novo dizer

 

Mal sobre ruinas del bien

33.
el futuro no / un osario agusanado

Nadando en el exterminio hallarás / la palabra
“exterminio” /
debajo otra vez la hallarás / y así / en todas las
capas del exterminio /
seguirás como poseso / hasta dar con el último gusano /
la perla no exterminada que / llevarás a tu garganta
de un sorbo /
para procurar / un nuevo decir

 

Passagens em espelho (Bitácora)

33. o futuro não é um ossário cheio de vermes

… cadáveres … / cemitérios de carros afogados no vazio / a memória dos crimes do passado / todo o tempo / a memória dos crimes do presente / como na poesia / escrever Direito depois da ESMA / encontrar “a palavra justa” / escrita / nos expedientes judiciais do porvir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

Pasajes en espejo

33. el futuro no es un osario agusanado

… cadáveres … / cementerios de fojas ahogados en vacio / la memoria de los crímenes del pasado / todo el tiempo / la memoria de los crímenes del presente / como en la poesía / escribir Derecho después de la ESMA / encontrar “la palabra justa” / escrita / en los expedientes judiciales del porvenir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

de Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado Ediciones, 2013)

Bolaño & co.

a Dani Krupa

na noite passada sonhei
com nossa fuga
visitávamos poetas
menores
perdidos
tomávamos vinho
com um poeta prestes a morrer
no ano 2745
nos dizia
já não têm retorno
nesta bolha do tempo
ou buraco ou terceiro olho
as portas da percepção
se se abriram
não se fecham
para vocês
e essa será sua felicidade
a viagem
até o último verso
de mãos dadas
o verso final
escrito com fogo
o verão apagar-se
e dizer
fumarão as cinzas
acharão a saída
para voltar a fugir

Despertei
com um manuscrito do meu lado
chamei Andrew Wylie
o negro literário era eu

Agora tomo daiquiris
e filmo o Ulisses de minha vida
dê-me um filho
que farei dele um criminoso ou um santo

 

Bolaño & co.

a Dani Krupa

anoche soñé
en nuestra fuga
visitábamos poetas
menores
perdidos
tomábamos vino
con un poeta a punto de morir
en el año 2745
nos decía
ya no tienen retorno
en esta burbuja del tiempo
o el agujero o tercer ojo
las puertas de la percepción
si se abrieron
no se cierran
para ustedes
y esa será su felicidad
el viaje
hasta el último verso
agarrados de la mano/
el verso final
escrito con fuego
lo verán apagarse
y decir
se tragarán las cenizas
hallarán la salida
para volverse a fugar

Desperté
con un manuscrito a mi lado
llamé a Andrew Wylie
el negro literario era yo

Ahora tomo daikiris
y filmo el Ulises de mi vida
dadme un niño
que yo haré de él un criminal o un santo

 

Antologia de maus poetas

(retirado do blogue El niño rizoma)

Quero montar una antologia de maus poetas mas ninguém se inclui

eu me incluiria sem falsa modéstia quem mais

os maus poetas buscam a lua e tropeçam no sol

se autoeditam pedem licença ou subornam para figurar em antologias

e na maior parte do tempo / como são maus / ferem o silêncio

até que um dia escrevem de passagem o verso da eternidade mas depois

continuam sendo maus

os maus poetas assaltam bancos perseguem moinhos se disfarçam de funcionários públicos buscam a palavra justa em lixeiras de que não saem senão injustos

por isso os maus poetas de minha futura antologia dão tudo o que têm

por um punhado de sonhos de absolutos escritos malformes segundo os bons poetas

esses que são bons e ponto

Antología de malos poetas

Quiero armar una antología de poetas malos pero nadie se anota

yo me anotaría sin falsa modestia quién más

los malos poetas buscan la luna y tropiezan con el sol

se autoeditan piden permiso o coimean para figurar en antologías

y la mayor parte del tiempo / como son malos / hieren el silencio

hasta que un día escriben al pasar el verso de la eternidad pero después

siguen siendo malos

los malos poetas asaltan bancos persiguen molinos se disfrazan de empleados públicos buscan la palabra justa en basurales de los que no salen sino injustos

por eso los malos poetas de mi futura antología se juegan todo lo que tienen a mano

por un puñado de sueños de absolutos escritos malformes a la vista de los buenos poetas

esos que son buenos y punto

 

(poemas de Julián Axat, tradução de Pádua Fernandes)

roque dalton por ernesto von artixzffski

roque dalton

Ahhh, o Roque Dalton, talvez um dos mais importantes, apesar de pouco conhecido, escritores da chamada Geração Comprometida. Junto com Salarrué (1899) e Jacinta Escudos (1961), ele integra a Trindade da literatura salvadorenha. Com um traço comum que os une: as variações da noção de morte.

El Salvador, o menor e mais denso país da Mesoamérica, possui uma vasta história de violência. Durante a guerra civil, por exemplo, estima-se que o número de mortos seja algo em torno de 40 mil. Superando, às vezes, o número de 100 mortos/dia. Após isso, El Pulgarcito viu o surgimento das chamadas Maras (a Salvatrucha 13 – MS13 – e a 18), que, segundo ONU, foram classificadas como os grupos organizados mais perigosos e violentos do mundo. Deixando pra trás o Talibã et cætera. Você pode ver mais sobre eles neste documentário: http://youtu.be/z8MMrUpzZYE . Mas agucem o espanhol & brace yourselves.

Enfim, Roque nasceu na capital San Salvador, em 1935, três anos após ser instaurada a ditadura militar no país (1932-79), filho do imigrante estadunidense Winnall Dalton e da enfermeira salvadorenha María Josefa García. Foi educado com de jesuítas no Colégio Externado de São José. Disso reflete o intenso diálogo bíblico dos seus poemas, como em Profecia sobre profetas, poema destinado àqueles que monopolizavam os veículos de mídia salvadorenhos. Aos dezoito anos, rumou ao Chile pra estudar Direito. Lá, encontrou o pintor Diego Rivera que, após receber um pedido para conceder uma entrevista, disparou:

– Quantos anos você tem?
– Dezoito.
– E já leu algum livro do Marx?
– Não.
– Então, você tem dezoito anos de ser um imbecil.

Isso, sem dúvida, alterou o jovencito Roque. Em 57, viaja com alguns amigos salvadorenhos para a URSS. Na volta para El Salvador, junta-se, clandestinamente, ao Partido Comunista e começa a escrever seus primeiros poemas políticos. Em 60, é preso por incitar revolta contra o governo e condenado à morte. Porém – ah, porém – consegue se safar devido à derrocada do presidente José María Lemus apenas um dia antes de ser cumprida a sentença.

Então, em 61, Roque parte para o exílio no México e lá escreve La Ventana en el rostro (1961) e El turno del ofendido (1962). Mas a vida, ah, a vida é uma caixinha de surpresas: para Joseph Klimber e Roque Dalton. No verão de 64, ao voltar pra El Salvador ele é preso e torturado e novamente sentenciado à morte. E então, como descreve o escritor nicaragüense Ernesto Cardenal, “naquela noite, ainda que não tivesse fé em deus, ele orou, ajoelhou-se em sua cela e orou. A ‘sorte louca’ – dizia ele – fez com que naquela noite houvesse um terremoto e as paredes da cela caíssem e ele pudesse escapar”.

Depois de escapar mais uma vez da morte, ele novamente se exila e viaja pra Cuba. De lá é enviado, pelo Partido Comunista, a Praga. Lá ele escreve Taberna y otros lugares, livro que ganhou o Prêmio de Poesia da Casa das Américas em 69.

Andou, também, pela Coréia e Vietnã, antes de, em 72, voltar clandestinamente pra El Salvador. Envolvido com o Ejército Revolucionario Del Pueblo (ERP), grupo que ajudou a fundar junto com Joaquín Villalobos. Com isso, a luta contra a ditadura se intensifica, o número de mortos cresce assustadoramente e Roque escreve o poema Todos. Talvez seu mais importante poema, sua mais fina representação da noção de morte. Vivo porque biologicamente respiro, morro porque não sou um indivíduo.

Em 75, devido a brigas internas, surge a RN (Las Fuerzas Armadas de la Resistencia Nacional), uma subdivisão do ERP, liderada por José Eduardo Sancho Castañeda, conhecido como Fermán Cienfuegos. No mesmo ano, apenas 4 dias antes de completar 40 anos, Roque Dalton é assassinado pelos próprios companheiros, junto com outras lideranças da ERP, acusado de ser um agente secreto a serviço da CIA. Anos mais tarde a própria CIA assumiu ter mantido contato com o poeta, porém negou tê-lo usado como agente duplo.

Não se sabe até hoje quem disparou a arma. Muitos menos o local exato de sua morte. Há duas versões: uma, a mais provável, é de que tenha sido no Bairro Santa Anita (lado sul da capital); a outra é de que tenha sido em El Palyón.

Em 80, a RN foi uma das 5 organizações marxistas a integrarem a Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional. A guerra civil durou 12 anos (1980-92), quando foi firmado o acordo de paz.

Sobre o Dalton, há dois documentários: um chamado Entre los muertos e é dirigido pelo seu filho, Jorge Dalton. O outro, Roque Dalton: fusilemos la noche, é dirigido pela Tina Leisch. E seu poema “Todos”  foi musicado por Luiz Lopez, o “monsenhor do rock”, como é conhecido em El Salvador:

Ernesto von Artixzffski

* * *

TODOS

Todos nacimos medio muertos en 1932
sobrevivimos pero medio vivos
cada uno con una cuenta de treinta mil muertos enteros
que se puso a engordar sus intereses
sus réditos
y que hoy alcanza para untar de muerte a los que siguen
……………..naciendo
medio muertos
medio vivos

Todos nacimos medio muertos en 1932

Ser salvadoreño es ser medio muerto
eso que se mueve
es la mitad de la vida que nos dejaron

Y como todos somos medio muertos
los asesinos presumen no solamente de estar totalmente
………………vivos
sino también de ser inmortales

Pero ellos también están medio muertos
y sólo vivos a medias

Unámonos medio muertos que somos la patria
para hijos suyos podernos llamar
en nombre de los asesinados
unámonos contra los asesinos de todos
contra los asesinos de los muertos y los mediomuertos.

Todos juntos
tenemos más muerte que aquellos
pero todos juntos
tenemos más vida que ellos

La todopoderosa unión de nuestras medias vidas
de las medias vidas de todos los que nacimos medio
…………………….muertos
en 1932

(Las historias prohibidas del Pulgarcito – 1974)

TODOS

Todos nascemos meio mortos em 1932
sobrevivemos porém meio vivos
cada um com uma soma de trinta mil mortos inteiros
que se pôs a engordar seus interesses
seus lucros
e que hoje alcança para ungir de morte os que seguem
……………………nascendo
meio mortos
meio vivos

Todos nascemos meio mortos em 1932

Ser salvadorenho é ser meio morto
isso que se move
é a metade da vida que nos deixaram

E como somos todos meio mortos
os assassinos presumem não somente estarem totalmente
……………………vivos
como também serem imortais

Mas eles também estão meio mortos
e apenas vivos às meias

Unamo-nos meio mortos que somos a pátria
para de filhos seus poder nos chamar
em nome dos assassinados
unamo-nos contra os assassinos de todos
contra os assassinos dos mortos e dos meiomortos

Todos juntos
temos mais morte que aqueles
porém todos juntos
temos mais vida que eles

A toda poderosa união de nossas meias vidas
das meias vidas de todos que nascemos meio
………………..mortos
em 1932

(As histórias proibidas do pequeno polegar)

ALTA HORA DE LA NOCHE

Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre
porque se detendrá la muerte y el reposo.

Tu voz, que es la campana de los cinco sentidos,
sería el tenue faro buscado por mi niebla.

Cuando sepas que he muerto di sílabas extrañas.
Pronuncia flor, abeja, lágrima, pan, tormenta.

No dejes que tus labios hallen mis once letras.
Tengo sueño, he amado, he ganado el silencio.

No pronuncies mi nombre cuando sepas que he muerto
desde la oscura tierra vendría por tu voz.

No pronuncies mi nombre, no pronuncies mi nombre,
Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre.

(Taberna y otros lugares – 1969)

ALTA HORA DA NOITE

Quando souberes que morri não pronuncies meu nome
porque se deterá a morte e o repouso.

Tua voz, que é o sino dos cinco sentidos,
seria o tênue farol buscado pela minha névoa.

Quando souberes que morri digas sílabas estranhas.
Pronuncies flor, abelha, lágrima, pão, tormenta.

Não deixes que teus lábios achem minhas onze letras.
Tenho sono, amei, ganhei o silêncio.

Não pronuncies meu nome quando souberes que morri
que da escura terra viria por tua voz.

Não pronuncies meu nome, não pronuncies meu nome,
Quando souberes que morri não pronuncies meu nome.

(Taberna e outros lugares)

DE NUEVO ACERCA DE LAS CONTRADICCIONES EN EL SENO DE LA POESÍA

Nuestra poesía es más puta que nuestra democracia
con sus párpados puede corromper a la juventud
trompeta de burdel sonada hacia el horizonte
a lomos de una vaca a punto de desintegrarse
pero ducha en el póker de los siglos.

Cristo con bello chaleco de jazzista
clavado químicamente a su propio milagro
el poeta simulará una espléndida mudez
pensando que tan sólo la ciudad es náufraga.

Rezo a tu tempestad imploro
suplico cara a cara por tu tempestad
gozne justo de goce flete de oro
hacia el desierto que clama por la sal.

Crema de lástima emboscada flagrante
todo esto es sólo una erizante broma
cuando no lloras eres espantoso
como un payaso de caucho descolorido por la corriente.

La poesía es el cubo de la leche de burra
donde cayó la estrella por quienes todos preguntan.

Otra jugarreta de la locura
y perdería mi puesto de centinela formidable
cayendo como la lengua de un ahorcado
hasta una jaula llena de lobos frágiles.

Una erizante broma nada más
emboscada flagrante
puta poesía para simular.

(Un libro levemente odioso – 1988)

DE NOVO ACERCA DAS CONTRADIÇÕES NO SEIO DA POESIA

Nossa poesia é mais puta que nossa democracia
com suas pálpebras pode corromper a juventude
trombeta de bordel tocada para horizonte
ao lombo de uma vaca a ponto de se desintegrar
porém perita no pôquer dos séculos.

Cristo com um belo colete de jazzista
pregado quimicamente a seu próprio milagre
o poeta simulará uma esplêndida mudez
pensando que apenas a cidade é náufraga.

Rezo à tua tempestade imploro
suplico cara a cara por tua tempestade
gonzo justo de gozo frete de ouro
para o deserto que clama pelo sal.

Creme de lástima emboscada flagrante
tudo isto é apenas uma estimulante piada
quando não choras és espantoso
como um palhaço de borracha descolorido pela corrente.

A poesia é o balde de leite da burra
onde caiu a estrela pela qual todos perguntam.

Outra rasteira da loucura
e perderia meu posto de sentinela formidável
caindo como a língua de um enforcado
numa jaula cheia de lobos frágeis.

Uma estimulante piada nada mais
emboscada flagrante
puta poesia para simular.

(Um livro levemente odioso – 1988)

PROFECIA SOBRE PROFETAS

A N.Altamirano y herederos,
a la familia Dutriz, a la familia Pinto.

Puesto que la palabra debería ser
como la mujer en el momento del amor
como lo que verdaderamente entregamos
en el momento de la muerte
(cuando se ilustra una manera de ser que es fuente de vida
el restablecimiento de la pureza
la gran construcción del descubrimiento )
los profetas tendrán que colocarse aquí
para ser juzgados
cada uno
esperando su turno de pasar al espejo
para apelar ante el gran coro de víctimas.

Ay entonces del grito
que no se emitió para dolerse de los hermanos
sino para corromper sus oídos al tiempo
que se loaba a su enemigo
ay entonces de la frivolidad
con que se apoyó la vigencia del becerro de oro
ay entonces de las mariposerías
con que se puso cortapisas
a la identificación y al ajusticiamiento del hambre
ay del traslado del crimen hacia los hombres de los débiles
ay de las complicidades ay de las delaciones
ay de los servilismos
ay de los soplos al oído del verdugo
ay de las tolerancias
ay de las mentiras matutinas y vespertinas

Porque toda esa miasma se derramó
sobre la inocencia del pueblo
sobre su blanco candor caído del cielo
del gran desalojado del paraíso
y no habrá rueda de molino suficientemente aplastante
para las cabezas de sus envenenadores
de quienes quemaron con perfume las pupilas de sus centinelas
de quienes rompieron sus tímpanos
de gritos de loras sobrevivientes de la experiencia de Jericó.

Ni de los vivos ni de los muertos
habrá perdón para ese uso de la palabra.
El inocente gigante justiciero
despertará de su ensordecimiento
abrirá sus profundos ojos anegados por los profetas
y los fulminará en sus propios asientos enraizados
a la derecha del Amo desenmascarado
por los siglos de los siglos
para nunca jamás.

(Poemas Clandestinos – 1975)

PROFECIA SOBRE PROFETAS

Para N. Altamirano e herdeiros,
para a família Dutriz, para a família Pinto.

Posto que a palavra deveria ser
como a mulher no momento do amor
como o que verdadeiramente entregamos
no momento da morte
(quando se aclara um modo de ser que é fonte de vida
o restabelecimento da pureza
a grande construção do descobrimento)
os profetas terão que se colocar aqui
em julgamento
cada um
esperando sua vez de passar ao espelho
para apelar ante o grande coro de vítimas.

Ai então do grito
que não se emitiu lamentar os irmãos
mas para corromper seus ouvidos ao tempo
em que se louvava o inimigo
ai então da frivolidade
em que se apoiou a vigência do bezerro de ouro
ai então das viadagens
com que puseram empecilhos
à identificação e à erradicação da fome
ai do traslado do crime que fazia homens dos fracos
ai das cumplicidades ai das delações
ai dos servilismos
ai dos sopros ao ouvido do carrasco
ai das tolerâncias
ai das mentiras matutinas e vespertinas.

Porque todo esse miasma se derramou
sobre a inocência do povo
sobre seu branco candor decaído do céu
do grande desalojado do paraíso
e não haverá roda de moinho suficientemente esmagadora
para a cabeça de seus envenenadores
daqueles que queimaram com perfume as pupilas de seus sentinelas
daqueles que romperam seu tímpanos
com gritos de cobras sobreviventes da experiência de Jericó.

Nem dos vivos nem dos mortos
haverá perdão para esse uso da palavra.
O inocente gigante justiceiro
despertará do seu ensurdecimento
abrirá seus profundos olhos inundados pelos profetas
e os fulminará em seus próprios assentos enraizados
à direita do Amo desmascarado
para todo o sempre
para nunca mais.

(Poemas clandestinos – 1975)

poemas de roque dalton, trad. de ernesto von artixzffski.

gustavo caso rosendi, por ricardo pozzo

soldados confederados mortos: batalha de antietam (1862, foto de alexander gardner)
soldados confederados mortos: batalha de antietam (1862, foto de alexander gardner)

nós já fizemos um post com poemas do argentino gustavo caso rosendi, em traduções de ronaldo cagiano. que vocês podem conferir aqui, com algumas informações. como nosso conterrâneo ricardo pozzo vem traduzindo alguns poemas de soldados, aqui estamos nós com mais 4 poesias desse livro violento sobre a guerra das malvinas.

guilherme gontijo flores

* * *

Monte Longdon

é como um desfile é como se fosse em fevereiro passado a partir de uma vitrola enferrujada canta castillo segue o baile uma mulher com rosto de íbis passeia em chingui-chingui chovem serpentinas a avenida com lampadinhas de cores carnavalescas tudo enevado, mas não lhe parece estranho porque sabe que lhe cabia olhar para frente e vontade de beber uma cerveja e um aceno de cabeça e outro e mais outro e aí está procurando marcela entre as pessoas mas uma estátua o detêm lhe beija a testa o cachecol lhe escapa como um pássaro cego vai enganchando entre os ramos se desfia escocês no céu e chega um frio escuro escuro escuro e já não pode inteirar-se daquele fio que lhe apóia a garganta justamente quando se acendem os primeiros gritos da noite

Monte Longdon

es como un corso es como si fuera el último febrero desde una vitrola oxidada canta castillo siga el baile una mujer con rostro de ibis pasea en el chingui-chingui llueven serpientes de papel la avenida con lamparitas de colores gualeguaychú todo nevado pero no le parece raro porque sabe que le tocaba mirar hacia el frente y ganas de tomarse una cerveza y un cabeceo y otro y otro más y ahí está bus-cando a la marcela entre la gente pero una estatua lo detiene le besa la frente la bufanda se le escapa como un pájaro ciego se va enganchando entre las ramas se deshilacha escocesa en el cielo y llega un frío oscuro oscuro oscuro y ya no puede enterarse de aquel filo que se le apoya en la garganta justo cuando se encienden los primeros alaridos de la noche

Despedida

Aguardava Caronte
em seu barco imundo
Enquanto a Liberdade rosto tostado
barrete frígio ensanguentado
beijava um soldado moribundo

Despedida

Aguardaba Caronte
en su bote inmundo
Mientras la Libertad rostro tiznado
gorro frigio ensangrentado
besaba a un soldado moribundo

 

Esse soldado nunca soube de qual
mordida maçã havia
surgido como um verme no mundo

Deve ter sido essa a causa pela qual
passeava sua elegância de salgueiro
na garoa escondendo um pouco
esses olhos de peixe seco
e parecia quicar na paisagem
com a insistência do inseto
que se choca contra uma lâmpada

Deve ter sido essa a causa pela qual
retirava-se para procurar-se para não
encontrar-se quando voltava
e não ver-se e essas coisas
que se pensam

Deve ter sido por isso
por isso, simplesmente, deve ter sido
que não ouviu a voz de alerta nem o apito
e quando o vento negro
meteu-se por seus buracos
esse soldado gritou
“mamãe”

A única coisa que gritou foi essa palavra

Ese soldado nunca supo de qué
mordisqueada manzana se había
asomado como gusano al mundo

Debió ser esa la causa por la que
paseaba su garbo de sauce
en la llovizna ocultando un poco
esos ojos de pescado reseco
y parecía rebotar en el paisaje
con la insistencia del bicho
que choca contra un farol

Debió ser esa la causa por la que
se retiraba a buscarse para no
encontrarse cuando regresara
y no verse y esas cosas
que se piensan

Debió haber sido así
Así nomás debió haber sido
que no oyó la voz de alerta ni el silbido
y cuando el viento negro
se le metió por los agujeros
ese soldado gritó
“mamá”

Lo único que gritó fue esa palabra

Brinde

Subia e descia colinas
até chegar ao soldado Sañisky
Dava-lhe um abraço
colocava entre suas mãos meu maço de Marlboro
este é teu – dizia –
é tudo que tenho
e nos dedicávamos a dar baforadas
igual àqueles orifícios
que repentinamente surgiam
no carvão em brasa como
acne irremediável

Hoje quando nos encontramos
em alguma festa de aniversário
e acendo um cigarro
sentimos que estamos lá novamente
Então meu amigo
– que já não fuma –
coloca entre minhas mãos
uma taça de vinho
e olhamos como correm
nossos filhos
como falam nossas mulheres

E porque ainda perdura
a tristeza é que estamos felizes
e porque sabemos que de alguma
maneira não nos venceram
é que brindamos

Brindis

Subía y bajaba colinas
hasta llegar al soldado Sañisky
Le daba un abrazo
le ponía entre las manos
mi paquete de Marlboro
esto es tuyo -le decía-
es todo lo que tengo
y nos dedicábamos a echar humo
igual que aquellos agujeros
que de pronto aparecían
en la turba como un
acné irremediable

Hoy cuando nos juntamos
en algún cumpleaños
y enciendo un cigarrillo
sentimos que estamos allá de nuevo
Entonces mi amigo
–que ya no fuma-
me pone en la mano
una copa de vino
y miramos cómo corren
nuestros hijos
cómo hablan nuestras mujeres

Y porque aún nos perdura
la tristeza es que estamos felices
y porque sabemos que de alguna
manera no nos han vencido
es que brindamos

(poemas de gustavo caso rosendi, trad. ricardo pozzo)

* * *

Gustavo Caso Rosendi nasceu en Esquel (Chubut) em 3 de agosto de 1962. Reside na cidade de La Plata. Foi declarado Ciudadano Ilustre de la ciudad de La Plata por sua participação como soldado na Guerra das Malvinas. Vinte e sete anos depois da guerra pôde terminar o livro Soldados, que foi publicado pelo Ministerio de Educación através de seu programa “Educación y Memoria”.

Ricardo Pozzo nasceu em Buenos Aires (1971) e mora em Curitiba. É poeta, fotógrafo, tradutor, músico e blefador. Curador responsável pelo Vox Urbe, projeto literário do WNK Bar e editor assistente do Jornal RelevO.

Fando y Lis (1968), de Jodorowsky, um filme-poema

fando y lis - titulo

Que bonito es un entierro
Que bonito es un entierro
Iré a verte al cementerio
Con una flor y un perro
Con una flor y un perro

É comum fazermos algum esforço aqui no escamandro para correlacionar a poesia e outras artes, como a música e as artes visuais. Eu, pessoalmente, se não faço muitos posts sobre essas temáticas, lhes digo que é menos por desinteresse nessa relação e mais por hesitação em tratar de assuntos sobre os quais não tenho maior domínio. No entanto, apesar de confessar não compreender muito de cinema, sinto que preciso dizer algumas palavras sobre o filme Fando y Lis (1968), do chileno Alejandro Jodorowsky – e, se a minha ignorância sobre a teoria e técnica cinematográfica me impediria de tecer qualquer comentário relevante sobre algum filme mais canônico como Cidadão Kane, por exemplo, em que essas sutilezas têm todo um peso crítico, tenho a impressão de que tal não é caso para um filme como esse de Jodorowsky, que à época era menos um estudante de cinema ou um cineasta profissional e mais um artista performático (ele ficou algo famoso na França por conta de seus happenings, realizados com o apoio do Movimento Pânico que fundou com o também cineasta e dramaturgo Fernando Arrabal, que, aliás, foi quem escreveu a peça sobre a qual este filme se baseia), poeta, mímico, diretor teatral e estudante de filosofia e psicologia que via no cinema uma oportunidade de, digamos, expandir a sua área de atuação artística. Minha hipótese aqui é a de que, em oposição à maioria dos filmes, que tendem ao prosaico, Fando y Lis é um filme-poema.

Fando y lis - 01Não emprego esse termo de forma qualitativa, porém, como uma afirmação do tipo “esse filme é tão bom que chega a ser poético”, mas de forma categórica, no sentido de que Fando y Lis segue uma lógica que é muito distinta da lógica convencional do realismo. Sobre isso, o trechinho do livro A Anatomia da Crítica de Northrop Frye que citei num outro post anterior (clique aqui) ajuda muito a formar uma imagem mais nítida desse tipo de distinção. Quando digo que a grande maioria dos filmes é prosaico é porque costumam se ater às expectativas de verossimilhança, de “realismo”, criando representações do mundo real, com personagens que costumam agir como se espera que pessoas reais ajam (ou, ao menos, se não de forma real, da forma convencionalizada que aos poucos acaba por substituir o real…), dotados de motivações e avançando enredos, que respeitam leis de causa e consequência. O tipo de narrativa “estilizada” de que Frye fala naquele trecho, por exemplo, costuma ter espaço, nesse tipo de filme mais prosaico, geralmente mais em cenas de sonho ou delírio, em que servem o propósito de caracterizar o estado psicológico do personagem – vide, por exemplo, um filme como Morangos Silvestres (1957), de Bergman, com a cena de sonho do Dr. Borg criando o tom de seu mal estar existencial (vide aqui), ou o filme Brazil (1985) de Terry Gilliam, que revela os anseios de liberdade de Sam Lowry sendo frustrados pelas representações do sistema burocrático (aqui). É nessas cenas que somos obrigados a pensar qual é o sentido por trás das imagens e que elas devem apontar para algo além de si próprias. Já o que acontece em Fando y Lis é que o filme inteiro opera via essa linguagem do sonho, do delírio, do mito e do poético.

De certa forma, ele é herdeiro de uma tradição que remete ao século XIX e de lá ao século V a.C. em Atenas – e eis aí algo que estudei com atenção e de que posso falar com algum grau de propriedade. Peças como Prometeu Desacorrentado, de Shelley, o Manfred, de Lorde Byron, ou o Fausto (especialmente a parte II) de Goethe, são todas obras sem maiores tensões dramáticas e onde as relações lógicas e causais são muito menos importantes do que as relações associativas e simbólicas e cujo desenvolvimento é menos a culminação das ações realizadas do que um desfile aparentemente gratuito de episódios, obedecendo a uma estrutura oculta. E daí elas remetem ao século V a.C. em Atenas, porque uma das primeiras peças a fazer isso de que temos notícia (e que foi uma influência clara para Shelley, como deve ter sido para os outros poetas) foi o Prometeu Acorrentado de Ésquilo, uma peça cujo protagonista, como nos informa o título, é uma figura imóvel, passiva, diferente, por exemplo, do Édipo de Sófocles, exemplo trágico clássico, que do alto de todo o seu poder procura ativamente a resposta para a dúvida que o atormenta no começo do peça – e cai em desgraça depois de encontrá-la.

Num nível literal, a narrativa aqui faz pouquíssimo sentido. Como diz a sinopse, o filme trata de um casal, Fando e Lis, atravessando uma paisagem “pós-apocalíptica” (já explico o motivo das aspas) em busca da cidade mítica de Tar, ao que tudo indica a única cidade sobrevivente nesse mundo bizarro que os dois habitam. Estamos muito longe, no entanto, de qualquer outro filme “pós-apocalíptico” como Mad Max ou A Estrada (ou o romance de Cormac McCarthy em que ele se baseou), e, apesar de Lis ser descrita como “paralítica” (ela não consegue andar, e Fando precisa carregá-la por aí num carrinho ou nas costas), este também não é um filme sobre a deficiência em si. O filme começa com uma imagem de Lis comendo uma flor, ao que se segue os créditos durante os quais, enquanto passam imagens, dentre as quais vê-se a ilustração de Aracne no Purgatório de Dante feita por Doré (aqui), um narrador (o próprio Jodorowsky, se reconheço bem sua voz) descreve a cidade de Tar:

Havia uma vez há muito tempo uma cidade maravilhosa chamada Tar. Nessa época todas as nossas cidades estavam intactas e não se via ruínas, porque a guerra final ainda não havia estourado, quando se deu a grande catástrofe e desapareceram todas as cidades, menos Tar. Tar ainda existe… se souberes buscá-la, tu a encontrarás… e quando chegares a Tar, as pessoas te trarão vinho e água e poderás brincar com um gramofone. Quando chegares a Tar, ajudarás na vindima e recolherás o escorpião que se oculta sob a pedra branca. Quando chegares a Tar, conhecerás a eternidade e verás o pássaro que a cada cem anos bebe uma gota d’água do oceano. Quando chegares a Tar, compreenderás a vida e serás gato e fênix e cisne e elefante e criança e velho, e estarás sozinho e acompanhado e amarás e serás amado, e estarás aqui e lá e possuirás o selo dos selos e, à medida que o futuro chegar, sentirás o êxtase te possuir para não te deixar nunca mais.

Há mais de Jorge Luis Borges do que Cormac McCarthy nessa descrição de Tar, e isso me parece muito significativo – e, além do quê, o tom desse parágrafo parece remeter à definição literária de “apocalipse”, não como a temos no senso comum (“pós-apocalíptico”, na linguagem cotidiana geralmente se refere apenas a um mundo posterior a um cataclisma), mas no sentido de “revelação do mistério” e, tal como formulado por Northrop Frye, representa um mundo de “metáfora total”. Mas há outras coisas também que criam a aura irreal sobre a qual a narrativa se constrói em Fando y Lis. Uma das mais chamativas numa primeira sentada é a continuidade. No canto segundo (sim, o filme é estruturado em “cantos”, como um poema), a figura de um Papa bizarro indica o caminho a Tar, passando por um rio de lama, que nos lembra a representação de Dante do rio Estinge, onde os melancólicos chafurdam eternamente. Segundo o Papa, aqui não há nenhuma diferença visível entre dia e noite, exceto que, à noite, ouve-se um imenso coração batendo, e os corpos caídos no caminho a Tar se levantam. Ok, isso já me parece bizarro o suficiente para descartar pretensões de verossimilhança, mas, quando se acompanha a jornada do casal pelo caminho, vê-se que eles abandonam o carrinho para atravessar o rio, e Lis suja os pés na lama quando ele a deixa lá de pé (nesse trecho, diz ele que ela pode ficar de pé, mas não andar, o que é muito esquisito). No momento imediatamente posterior, no entanto, o carrinho está de volta e, depois ainda, os pés de Lis estão limpos, o que pode nos levar a ver esse episódio como veríamos um delírio num filme realista, uma inserção que se passa numa representação irreal e não afeta a realidade em que o filme se passa.

Fando y lis - 02

Mas não é tão simples. O filme inteiro é mais composto de interrupções como essa do que de momentos de “realidade”, por assim dizer. No canto terceiro, por exemplo, temos uma cena em que a viagem do casal é interrompida por um grupo viajante de drag queens – e o que é assustador nesse episódio é que, quando elas falam com eles, em vez de vozes, a sonoplastia produz ruídos perturbadores, incompreensíveis, um efeito que ocorre também em outras cenas de “delírio” – que inverte as roupas do casal, transformando os dois em crossdressers. Na sequência, então, há outra cena enxertada em que os dois se encontram numa casa e pintam os seus nomes um sobre o corpo do outro, depois nas paredes da casa (e, nessa cena, a Lis consegue andar), mas depois a cena retorna à paisagem desolada pela qual eles andam sem que nenhuma das mudanças feitas nessas duas cenas os acompanhe, i.e. a Lis continua sem poder andar, eles não estão cobertos de tinta e voltaram a usar suas roupas de antes. Além disso, em alguns momentos temos cenas de violência, em que Fando chega a arrastar Lis pelo chão, antes de tentar abandoná-la, e depois é perseguido por várias figuras castradoras femininas, incluindo uma dominatrix com um chicote (!), que o levam à cova de seu pai, onde elas freudianamente o desenterram e enterram Fando em seu lugar. Outra vez, a realidade dessas cenas é contestável, e nenhuma das marcas dos atos de violência praticados tem qualquer persistência quando se passa de uma cena à outra.

Com todas essas coisas bizarras que acontecem, fica cada vez mais claro, ao longo do filme, que não temos uma realidade – um cenário “pós-apocalíptico” literal onde um casal procura hollywoodianamente pela última cidade que ainda resiste – interrompida por delírios metafóricos, onde sonham poder brincar de pintar seus nomes um no corpo do outro ou sofrem de pesadelos freudianos, mas que o filme todo se apresenta ele mesmo como um delírio metafórico, e temos bons motivos para acreditar que ele não é um filme “pós-apocalíptico” de fato, mas que se usa desse tipo de imagética para representar a condição mental de Fando e Lis. Os flashbacks que temos no primeiro canto também são muito reveladores: ao contrário do tipo de flashback que se vê no mais prosaico A Estrada, por exemplo, que explica como a situação do mundo chegou naquele ponto, os flashbacks de Fando y Lis são pessoais, intimistas. Fando se lembra de uma conversa profundamente lírica com seu pai, enquanto Lis se lembra de um episódio em que sofreu abuso sexual cometido pelos atores de um teatro infantil. Ao que tudo indica, essas talvez sejam as únicas cenas “reais” de fato deste filme, e elas explicam muita coisa (e é curiosíssimo que aqui só a memória seja real). Um dos estupradores diz à pequena Lis que ela tinha “belas pernas”. Parece-me, então, que o que temos em funcionamento é um clássico mecanismo de recalque psicológico, em que ela associa o abuso às pernas, logo elas aparecem inutilizadas em sua representação mental de si própria (o ego?). Essa simbologia das pernas está presente em vários momentos em que a questão do desejo sexual e da intimidade vêm à tona – questões, aliás, com as quais é muitíssimo comum vítimas de abuso terem problemas – na cena da pintura, no rio de lama (onde os corpos, aparentemente mortos, quando se levantam, começam de pronto um tipo de orgia) e na belíssima cena final. Os problemas de Lis não são as suas pernas paralisadas, mas um tipo generalizado de paralisia emocional, manifestada em sua postura passiva, submissa como uma das bonecas com as quais aparece brincando em algumas das cenas ou como o títere caído sem vida no chão do palco cujas cordas o próprio Jodorowsky corta na cena do flashback. Essa passividade só é quebrada numa das últimas cenas em que ela reage ao comportamento abusivo de Fando e quebra o tambor que ele carregava (uma imagem que, como o flashback deixa claro, remete ao pai, junto do gramofone que eles também carregam no carrinho e que aparece na representação de Tar) e desencadeia os eventos que levam à conclusão do filme.fando y lis - jodo

A falta de cidades e a desolação do cenário, primeiro representado por ruínas, um ferro-velho e um cemitério, depois por uma natureza seca e estéril, se encaixa no que Frye descreve não como uma imagética apocalíptica (lembrando o sentido mais positivo que essa palavra tem na leitura mítica), mas como uma imagética demoníaca. Diz Frye: “Oposto ao simbolismo apocalíptico, temos a apresentação de um mundo que o desejo rejeita por completo: o mundo do pesadelo e do bode expiatório, da escravidão (bondage) e dor e confusão; o mundo tal como é antes da imaginação humana começar a trabalhar sobre ele e anterior a qualquer imagem de desejo humano, tal como a cidade ou o jardim, se estabelecer com solidez; também o mundo do trabalho pervertido ou desperdiçado, ruínas e catacumbas, instrumentos de tortura e monumentos de insânia. E, assim como a imagética apocalíptica na poesia tem uma relação próxima com o paraíso religioso, também o seu oposto dialético tem uma relação próxima com o inferno existencial, como o Inferno de Dante ou com o inferno que o homem cria na Terra, como em 1984, Entre quatro paredes (Huis Clos), e O Zero e o Infinito“. Depois, algumas páginas adiante: “A relação erótica demoníaca se torna uma paixão destrutiva que trabalha contra a lealdade ou frustra quem a possui (…); A paródia demoníaca do casamento, ou a união de duas almas numa só carne, pode assumir a forma do hermafroditismo (…); A relação social é a da turba (…); O mundo inorgânico pode permanecer em sua forma virgem de desertos, rochas e terra inculta. Pertencem aqui também as cidades de destruição e a noite pavorosa e as grandes ruínas do orgulho”. Tais descrições e definições se aplicam a Fando y Lis como uma luva, na medida em que tudo isso trabalha para estabelecer uma representação metafórica dolorosa da solidão, que é também, na sua forma involuntária (em oposição à solidão necessária, por exemplo, para a meditação), um tipo de inferno.

E, realmente, todas as figuras que Fando e Lis encontram ao longo do caminho (sejam elas “reais” ou “imaginárias”) são perigosas, predatórias e querem algo deles, desde um médico que implora para poder tirar sangue de Lis e bebê-lo até as figuras religiosas que querem um pedaço dela em seu funeral. Fando e Lis estão absolutamente sozinhos, não têm ninguém com quem possam contar senão um com o outro, mas numa relação doentia, descrita pelo narrador no final do terceiro canto com essa imagem grotesca que Frye define como “a paródia demoníaca do casamento” que estampa a imagem do título do filme na sequência de abertura: …y cuando quise separarme de ella, me di cuenta de ya formábamos un solo cuerpo con dos cabezas.

fando y lis - 03Nem tudo, no entanto, está perdido para os dois, e a salvação para Fando e Lis vem na forma da morte – novamente, lembrando, não uma morte literal, mas metafórica, a noção da morte como é na astrologia e no tarô, no sentido de uma transformação profunda. E aqui em Jodorowsky essa morte coincide também a dissolução do ego da psicanálise lacaniana, como surge na tela após a cena final: cuando su imagen se borró del espejo, apareció en el vidrio la palabra “liberdad”. Lis morre primeiro, uma morte aparentemente causada por Fando. Um bando de fanáticos (outra turba demoníaca e predatória) a vela e tenta pegar pedaços de seu corpo como relíquias religiosas, mas Fando a resgata, e a cena corta para o seu funeral, onde, como ele havia prometido, cantarolando, ele comparece com uma flor e um cão – depois, cobrindo-se de folhas e implorando “hablame, Lis”, morre enfim. Porque, novamente, os dois são um só. No entanto, eis que algo acontece: como se para mostrar que essa não é uma morte literal, nos momentos finais do filme Fando e Lis renascem. Seus corpos se erguem, inteiramente nus, renovados, revigorados, duas figuras adâmicas. Lis não é mais paralítica, e Fando apresenta uma postura ereta, digna, viril, não mais a figura patética e emasculada que vimos ao longo do filme, e ela o segue enquanto os dois correm, não por aquele cenário desértico que dominou a tela ao longo dos últimos 90 minutos, mas para o mato espesso que cerca o cemitério – e lembremos que o mato e a floresta, quando não sinistros, são possíveis símbolos de fertilidade e sexualidade, algo com que os dois personagens demonstraram ter problemas o filme inteiro. Bonita e profundamente lírica, esta cena é antecipada por volta dos 17 minutos do filme, ainda no primeiro canto. Nela, Lis canta “Yo moriré e nadié / se acordará de mi“, ao que Fando responde com a canção que citei na epígrafe deste post e ao que se segue uma cena com várias imagens dos dois fazendo todo tipo de pose bizarra pelo cemitério ao som dessa canção, terminando com o casal encenando um o funeral do outro, com gestos exagerados, caricaturais – uma paródia infantil do luto, em alguma medida parecida com o jogo de Fort/Da do neto de Freud, para voltar aos termos psicanalíticos.

Descobrir essas coisas, essas amarrações ocultas, esses padrões no que pode parecer ser um caos de imagens “psicodélicas” ou “gratuitas” ou “surrealistas”, faz parte do prazer de assistir a Fando y Lis (e que essa interpretação faça sentido aplicada a ele, sem, ao que tudo indica, maiores problemas que a possam complicar, me parece validá-la). Por isso eu quis fazer este comentário e senti que ele tinha lugar aqui no escamandro. Com essas coisas em mente, então, imagino que, para um espectador que desconhece a obra de Jodorowsky, uma primeira experiência aqui passe a ser menos traumática – ou então, para quem viu e não gostou, essa leitura possa talvez convencer a dar-lhe uma segunda chance. Se você chega a Fando y Lis esperando literalmente o que a sinopse promete, um filme sobre um casal tentando sobreviver num mundo “pós-apocalíptico”, há muitas chances de você se decepcionar. Mas, enquadrando-o nessa visão poética de mundo e mantendo um olhar aberto para essas várias associações e ressonâncias que povoam o filme, encontra-se unidade, sentido e beleza nessas imagens, e o efeito todo é dos mais fascinantes. Certamente não foi isso que aconteceu na première do filme em 1968 no festival de Acapulco, que terminou com uma multidão furiosa (imagem demoníaca das relações sociais) querendo linchar o diretor. Mais tarde Jodorowsky viria a conquistar um grau maior de sucesso underground com seu western místico El Topo (1970), o clássico (e, para mim, um dos melhores filmes de todos os tempos) A Montanha Sagrada (1973), Tusk (1980) e Santa Sangre (1989). Sua carreira é complementada ainda por vários volumes de poesia, prosa, teatro, tarologia e quadrinhos, cimentando sua posição como uma das figuras artísticas mais interessantes nascidas no século XX.

Para quem tiver a curiosidade de assistir a esse que pode ser uma bela introdução à sua obra cinematográfica, compartilho abaixo o filme inteiro disponível, com múltiplas opções de legenda, no youtube:

(comentário de Adriano Scandolara, filme de Alejandro Jodorowsky)

horácio fiebelkorn

horacio-fiebelkorn

Horacio Fiebelkorn nasceu em La Plata em 1958 e vive em Buenos Aires. Publicou Caballo en la catedral (ed. El Broche, La Plata, 1999), Zona muerta (La Bohemia, 2004), Elegías (2008), Tolosa (2010), Sobre o tempo que se perde em buscar o tempo perdido (publicado em plaquete com tradução de Virna Teixeira, São Paulo, 2011) e Pájaro en el palo (Uruguay, 2012). Integrou também uma antologia de poetas platenses em 1998 e a Antologia de poesia erótica argentina (Ed. Manantial, 2002). Foi co-editor do tablóide de poesia La novia de Tyson nos anos 90.

Logo abaixo, um poema em tradução de Vinicius Ferreira Barth. No primeiro número impresso do escamandro, que logo sairá, teremos mais traduções.

PS: Vinicius Ferreira Barth é de Curitiba e mora em Buenos Aires, nascido em 1986, graduado e com mestrado em fase de conclusão na área de estudos literários pela UFPR. É tradutor, entre outras coisas, das Argonáuticas de Apolônio de Rodes, e também é ilustrador e fotógrafo.

Para mais poemas de Fiebelkorn publicados numa postagem anterior aqui no escamandro, clique aqui.

escamandro

           

As cidades pequenas têm amplas zonas
de casas baixas. Por isso pode-se ver o horizonte,
tocado, apenas, por silhuetas de árvores e construções.
A presença contínua do horizonte
nas cidades pequenas convida à liberdade, e por isso
gera angústia, com uma carga de terror e reclusão
que não se pode nomear. Seus habitantes
não sabem ser livres.
Nas urbes, a ausência de horizonte visível
permite uma liberdade moderada e anônima,
sem cor e sem nenhuma expectativa.
Quando as cidades pequenas aprenderem a ser livres,
as cidades grandes desaparecerão.

           

Las ciudades chicas tienen amplias zonas
con casas chatas. Por eso se puede ver el horizonte,
apenas tocado por siluetas de árboles y construcciones.
La presencia continua del horizonte
en las ciudades chicas, invita a la libertad y por lo mismo
genera angustia, con una carga de terror y encierro
que no puede nombrarse. Sus habitantes
no saben ser libres.
En las urbes, la ausencia de horizonte visible
permite una libertad moderada y anónima,
sin color ni expectativa alguna.
Cuando las ciudades chicas aprendan a ser libres,
las ciudades grandes van a desaparecer.

(Horacio Fiebelkorn, tradução de Vinicius Ferreira Barth)

nicanor parra (1914)

nicanor parra nasceu em 1914 em san fabián de alico, no chile. sua obra é das mais famosas na literatura chilena (ganhou o prêmio cervantes em 2011), mas reparei, faz pouco tempo, que ainda temos poucas traduções da sua poesia. por isso, optei por fazer esta seleção de traduções que encontrei & apresento também traduções minhas.

todos os poemas abaixo são extraídos do livro poemas y antipoemas, de 1954. um marco na sua carreira e na poesia chilena. trata-se do segundo livro de parra, depois de cancionero sin nombre (1937), um primeiro de pouco interesse e tom mais romântico. assim, com uma re-estreia tardia, aos 40 anos, os antipoemas de parra infundiram uma dessacralização radical da poesia, um tom simples, próximo à fala, avesso ao cantabile, que, neste livro vai crescendo também na força da sua autoironia. com isso, parra pode incorporar as tradições literárias das figuras canônicas de gabriela mistral e pablo neruda, mas desbancava a pompa e a seriedade da poesia laureada. não é à toa, penso, que a poesia de neruda a partir dos fins dos anos 50 passa por um desinflamento significativo, como nas odas elementales – parra tinha invertido a situação, já havia tomado o cânone.

guilherme gontijo flores

Sinfonia do Berço

Uma vez andando
por um parque inglês
com um angelorum
sem querer deparei,

Bom dia, disse,
e eu o contestei,
êle no castelhano,
mas eu em francês

Dites moi, dom anjo,
Comment va monsieur.

Ele me deu a mão,
eu o peguei pelo pé:
há que ver, senhores,
como um anjo é!

Fátuo como o cisne,
frio como um trilho,
gordo como um pavão,
feio como você.

Assustou-me um pouco
mas não me mandei.

Busquei-lhe as plumas
plumas encontrei,
duras como a dura
casca do peixe.

Melhor seria ter
encontrado o Lúcifer!

Chateou-se comigo,
atirou-me um revés
com sua espada de ouro,
mas eu me agachei.

Anjo mais absurdo
não voltarei a ver.

Morto de riso
disse good bye sir,
siga teu caminho,
que passes bem,
que te pise um auto,
que te mate um trem.

Já se acabou o conto,
um, dois, três.

(trad. de antonio miranda)

Sinfonía de cuna

Una vez andando
Por un parque inglés
Con un angelorum
Sin querer me hallé.

Buenos días, dijo,
Yo le contesté,
Él en castellano,
Pero yo en francés.

Dites moi, don angel.
Comment va monsieur.

Él me dio la mano,
Yo le tomé el pie
¡Hay que ver, señores,
Cómo un ángel es!

Fatuo como el cisne,
Frío como un riel,
Gordo como un pavo,
Feo como usted.

Susto me dio un poco
Pero no arranqué.

Le busqué las plumas,
Plumas encontré,
Duras como el duro
Cascarón de un pez.

¡Buenas con que hubiera
Sido Lucifer!

Se enojó conmigo,
Me tiró un revés
Con su espada de oro,
Yo me le agaché.

Ángel más absurdo
Non volveré a ver.

Muerto de la risa
Dije good bye sir,
Siga su camino,
Que le vaya bien,
Que la pise el auto,
Que la mate el tren.

Ya se acabó el cuento,
Uno, dos y tres.

Autorretrato

Considerem, garotos
Esta língua roída pelo câncer:
Sou professor nalguma escola obscura
Perdi a voz nas aulas, entre as classes.
(Depois de tudo ou nada
Quarenta horas semanais me invadem.)
O que acham desta cara esbofetada?
Verdade, inspira lástima de olhar-me!
E o que dizer deste nariz comido
Pelo cal deste giz mais degradante.

Em matéria de olhos,  três metros
Não reconheço nem a própria mãe.
O que me afeta?  – Nada.
Eles se arruinaram pelas classes.
A dura luz, o sol,
A venenosa lua miserável.
E tudo, para quê
Para ganhar um pão imperdoável
Duro que nem a cara do burguês.
E com perfume e com sabor de sangue.
Para que nós nascemos como homens
Se uma morte animal por fim nos cabe?

Graças ao excesso de trabalho, às vezes
Vejo formas estranhas se elevarem,
Ouço corridas loucas,
Risos, conversas criminais nos ares.
Observem minhas mãos
Minhas bochechas brancas de cadáver,
Meus cabelos escassos e caducos,
As negras rugas infernais que nascem!
E no entanto eu fui como vocês,
Jovem, dos ideais mais belos, grandes,
Sonhei fundir o cobre
Então limar as faces do diamante:
Aqui estou agora
Por trás desta pousada insuportável
Embrutecido pela cantilena
Dessas quinhentas horas semanais.

(trad. guilherme gontijo flores)

Autorretrato

Considerad, muchachos,
Este gabán de fraile mendicante: 
Soy profesor en un liceo obscuro, 
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales). 
¿Qué les dice mi cara abofeteada? 
¡Verdad que inspira lástima mirarme! 
Y qué les sugieren estos zapatos de cura 
Que envejecieron sin arte ni parte.

En materia de ojos, a tres metros 
No reconozco ni a mi propia madre. 
¿Qué me sucede? -¡Nada!
Me los he arruinado haciendo clases: 
La mala luz, el sol,
La venenosa luna miserable.
Y todo ¡para qué!
Para ganar un pan imperdonable
Duro como la cara del burgués
Y con olor y con sabor a sangre.
¡Para qué hemos nacido como hombres
Si nos dan una muerte de animales!

Por el exceso de trabajo, a veces
Veo formas extrañas en el aire,
Oigo carreras locas,
Risas, conversaciones criminales.
Observad estas manos
Y estas mejillas blancas de cadáver,
Estos escasos pelos que me quedan.
¡Estas negras arrugas infernales!
Sin embargo yo fui tal como ustedes,
Joven, lleno de bellos ideales
Soñé fundiendo el cobre
Y limando las caras del diamante:
Aquí me tienen hoy
Detrás de este mesón inconfortable
Embrutecido por el sonsonete
De las quinientas horas semanales.

Advertência ao leitor

O autor não responde pelos incômodos que possam causar seus escritos.
Apesar dos pesares
o leitor deverá dar-se sempre por satisfeito.
Salebius, que além de teólogo foi um humorista consumado,
depois de ter reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade
será que respondeu por sua heresia?
E se chegou a responder, como é que fez!
Em que forma desbaratada!
Apoiando-se em que cúmulo de contradições!

Segundo os doutores da lei este livro não deveria publicar-se:
a palavra arco-íris não aparece nele em parte alguma,
menos ainda a palavra dor,
a palavra torquato.
Cadeiras e mesas é que aparecem a granel,
Ataúdes!, utensílios de escritório!
o que me enche de orgulho
porque, no meu modo de ver, o céu está caindo aos pedaços.

Os mortais que leram o Tractus de Wittgenstein
podem bater com uma pedra no peito
porque é uma obra difícil de encontrar-se:
mas o Círculo de Viena foi dissolvido faz tempo,
seus membros dispersaram sem deixar rastro
e eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.

Minha poesia pode perfeitamente não levar a parte alguma:
“os risos deste livro são falsos!”, argumentam meus detratores,
“suas lágrimas, artificiais!”

“Em vez de suspirar, nestas páginas a gente boceja”.
“Dá patadas como criança de colo”.
“O autor faz-se entender pelos espirros.”
De acordo: convido-os a queimar vossas naves,
como os fenícios pretendo criar meu próprio alfabeto.

Então, por que molestar o público?, perguntarão os amigos leitores:
“Se o próprio autor começa desprestigiando seus escritos,
que se pode esperar deles!”
Cuidado, eu não desprestigio nada
ou, melhor dizendo, exalto meu ponto de vista,
vanglorio as minhas limitações
ponho nas nuvens minhas criações.

Os pássaros de Aristófanes
enterravam suas próprias cabeças
os cadáveres de seus pais
(cada pássaro era um verdadeiro cemitério voador).

No meu modo de ver
chegou a hora de modernizar esta cerimônia
e eu enterro minhas plumas na cabeça dos senhores leitores!

(trad. de antônio miranda)

Advertencia al lector

El autor no responde de las molestias que puedan ocasionar sus escritos:
Aunque le pese.
El lector tendrá que darse siempre por satisfecho. 
Sabelius, que además de teólogo fue un humorista consumado,
Después de haber reducido a polvo el dogma de la Santísima Trinidad
¿Respondió acaso de su herejía?
Y si llegó a responder, ¡cómo lo hizo! 
¡En qué forma descabellada! 
¡Basándose en qué cúmulo de contradicciones!

Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte, 
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel, 
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio! 
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.

Los mortales que hayan leído el Tractatus de Wittgenstein 
Pueden darse con una piedra en el pecho
Porque es una obra difícil de conseguir:
Pero el Círculo de Viena se disolvió hace años, 
Sus miembros se dispersaron sin dejar huella 
Y yo he decidido declarar la guerra a los cavalieri della luna.

Mi poesía puede perfectamente no conducir a ninguna parte:
“¡Las risas de este libro son falsas!”, argumentarán mis detractores
“Sus lágrimas, ¡artificiales!”
“En vez de suspirar, en estas páginas se bosteza”
“Se patalea como un niño de pecho”
“El autor se da a entender a estornudos” 
Conforme: os invito a quemar vuestras naves, 
Como los fenicios pretendo formarme mi propio alfabeto.
“¿A qué molestar al público entonces?”, se preguntarán los amigos lectores:
“Si el propio autor empieza por desprestigiar sus escritos, 
¡Qué podrá esperarse de ellos!”
Cuidado, yo no desprestigio nada
O, mejor dicho, yo exalto mi punto de vista,
Me vanaglorio de mis limitaciones
Pongo por las nubes mis creaciones.

Los pájaros de Aristófanes
Enterraban en sus propias cabezas
Los cadáveres de sus padres.
(Cada pájaro era un verdadero cementerio volante)
A mi modo de ver
Ha llegado la hora de modernizar esta ceremonia
¡Y yo entierro mis plumas en la cabeza de los señores lectores!

Cartas a uma desconhecida

Quando passarem os anos, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou,
Um ser que se deteve um instante diante dos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos?

(trad. de albano martins)

Cartas a una desconocida

Cuando pasen los años, cuando pasen 
Los años y el aire haya cavado un foso 
Entre tu alma y la mía; cuando pasen los años 
Y yo sólo sea un hombre que amó, 
Un ser que se detuvo un instante frente a tus labios, 
Un pobre hombre cansado de andar por los jardines, 
¿Dónde estarás tú? ¡Dónde 
Estarás, oh hija de mis besos!

Madrigal

Eu serei milionário uma noite
Graças a um truque que me permitirá fixar imagens
Sobre um espelho côncavo. Ou convexo.

Acredito que o êxito será completo
Quando enfim inventar um ataúde de fundo duplo
Que permita ao cadáver espremer-se a outro mundo.

Já queimei por demais as pestanas
Nesta absurda corrida de cavalos
Onde os ginetes são lançados pelas cavalgaduras
E vão cair entre espectadores.

Justo é, então, que trate de criar algo
Que me permita viver com folga
Ou que ao menos me permita morrer.

Estou certo de que minhas pernas tremem
Sonho que os dentes me caem
E que chego tarde a alguns funerais.

(trad. guilherme gontijo flores)

Madrigal

Yo me haré millonario una noche
Gracias a un truco que me permitirá fijar las imágenes               
En un espejo cóncavo. O convexo.

Me parece que el éxito será completo
Cuando logre inventar un ataúd de doble fondo               
Que permita al cadáver asomarse a otro mundo.

Ya me he quemado bastante las pestañas
En esta absurda carrera de caballos
En que los jinetes son arrojados de sus cabalgaduras               
Y van a caer entre los espectadores.

Justo es, entonces, que trate de crear algo
Que me permita vivir holgadamente
O que por lo menos me permita morir.
              
Estoy seguro de que mis piernas tiemblan,
Sueño que se me caen los dientes
Y que llego tarde a unos funerales.

Solo de Piano

Já que a vida do homem não é mais que uma ação a distância
Um pouco de espuma que brilha no interior de um copo;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam.
Não mais que cadeira e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós mesmos não somos mais que seres
(Como o próprio deus não é outra coisa senão deus);
Já que não falamos para ser escutados
Senão para que os outros falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo do caos
No jardim que boceja e se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para poder ressuscitar depois tranquilamente
Quando usamos a mulher em excesso;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixei que também eu faça algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que minha alma encontre seu corpo.

(trad. antonio miranda)

Solo de Piano

Ya que la vida del hombre no es sino una acción a distancia,
Un poco de espuma que brilla en el interior de un vaso;
Ya que los árboles no son sino muebles que se agitan:
No son sino sillas y mesas en movimiento perpetuo;
Ya que nosotros mismos no somos más que seres
(Como el dios mismo no es otra cosa que dios);
Ya que no hablamos para ser escuchados
Sino para que los demás hablen
Y el eco es anterior a las voces que lo producen;
Ya que ni siquiera tenemos el consuelo de un caos
En el jardín que bosteza y que se llena de aire,
Un rompecabezas que es preciso resolver antes de morir
Para poder resucitar después tranquilamente
Cuando se ha usado en exceso de la mujer;
Ya que también existe un cielo en el infiemo,
Dejad que yo también haga algunas cosas: 

Yo quiero hacer un ruido con los pies
Y quiero que mi alma encuentre su cuerpo.