crítica, xanto

XANTO| Os bois alados na poesia de Eustáquio Gorgone de Oliveira, por Prisca Agustoni

O presente trabalho pretende abordar a obra do poeta mineiro Eustáquio Gorgone de Oliveira – nascido em Caxambu, em 1949 e falecido em São Paulo, em 2012 –, considerando, particularmente, a coletânea Manuscritos de Pouso Alto (Juiz de Fora: Funalfa Edições; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004). O livro se apresenta rico em imagens enigmáticas, cifradas, nas quais é possível entrever um mundo em processo de distorção. Essa característica não é exclusiva apenas dessa coletânea de poemas, ao contrário, é possível encontrar rastros de uma representação da realidade transfigurada em função do impacto que esta provoca na sensibilidade do poeta desde a primeira recolha em livro de poemas do autor, em 1974, com o livro Delirium-tremens. Inúmeras vezes, a esse traço expessivo, traiçoeiro – por não representar um real “tal qual ele é”, mas “tal qual ele se dá” à percepção sensível do artista – , foi atribuída uma vinculação com a corrente estética do surrealismo (como nos textos críticos de Márcio Almeida e Luiz Ruffato).

No entanto, é nossa intenção mostrar aqui como a poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira se aproxima de uma estética expressionista, por revelar um processo de construção textual embasado numa percepção do mundo decorrente de uma sensibilidade próxima àquela manifestada pelos expressionistas alemães.

Vejamos, a esse respeito, e para introduzir nossa reflexão, este fragmento retirado do livro O expressionismo, de Roger Cardinal (1988, p. 63): quase todo pintor expressionista insiste ser fundamental que haja uma mudança de enfoque, no qual a visão do mundo real centrada no espírito (ou essencialista) prevaleça sobre a visão que se restringe ao olhar – “o olhar mítico é, para mim, o fundamento de todas as artes” – escreve Barlach, acrescentando que “ter visões é a capacidade de ver com os sentidos ” – aparentemente uma afirmação da preferência do artista por uma entrega quase mediúnica à experiência da percepção, em oposição aos estados de distanciamento crítico controlados intelectualmente.

Nos poemas de Gorgone, encontramos disseminados estranhamentos intraduzíveis pelo logos humano, uma manifestação que revela a origem sensível, toda interior, que gerou essas visões. A linguagem empregada, muitas vezes, trilha o percurso dos mitos – aqui ecoando as palavras do pintor alemão Barlach –, convocando o real e o imaginário para o desafio da apreensão e da estruturação desse mundo inteligível, uma vez que os mitos têm a vantagem de encarnar situações específicas de cada indivíduo, confrontando-o com os mitos de temas universais, aos quais o indivíduo se sente religado por identificação. Vejamos o fragmento do poema n.57, que coloca em vista exatamente essa questão: “mulher e lua alucinantes/ a executar a tarefa dos mitos/ em repetir o destino humano”. A condição humana, na sua tragédia, entre grandeza e finitude, ilusão e eternidade, e a constante ameaça da morte, está toda resumida no ateliê da memória, que “em seu veículo/ apenas reúne as perdas/ seculares” (poema 57).

Talvez seja por esse fundo de universalidade que a poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira nos fale tão próxima e conhecida. Esse encantamento provocado pelos seus versos é o mesmo que experimentamos ao ler o também mineiro Guimarães Rosa, ou o mexicano Juan Rulfo, o poeta italiano Giorgio Caproni ou, ainda, a poeta angolana Paula Tavares, autores que souberam construir a partir do olhar sobre o local uma poética universal, que traça o itinerário humano, entre peso e leveza, amor e abandono, cegueira e clarividência, fragilidade e vitalidade. Todos eles mostram esse itinerário através de uma linguagem que, ao invés de revelar apenas a claridade do mundo, faz alusão a elementos inexplicáveis. No caso do poeta mineiro, essa realidade apresenta traços de um real deformado – como se estivéssemos olhando uma pintura de Edward Munch –, pela subjetividade do poeta, que se volta em direção ao espaço da sua interioridade e da “realidade interna do fenômeno” (CARDINAL, 1988, p. 63).

Vejamos, no poema n.16, como a cena representada assume características que vão além do real, isto é, se aproximam daquilo que poderíamos chamar de “visões” ou de “segredos das sensações” (Macke Apud Cardinal, p. 63) do poeta: “eles se abraçavam na sala / como cobras que se picam / dando filhos de pedra / aos alicerces das casas. / em plena luz do dia / caranguejos órficos / dormiam em seus braços”.

Ao longo do livro, Gorgone revela uma grande habilidade para estabelecer uma mediação entre os “manuscritos plurais” de Pouso Alto: de um lado, o manuscrito intraduzível, subjacente ao texto poético e anterior à palavra, resultado de um “mergulho espiritual” do poeta; do outro, o manuscrito decifrado, traduzido e fixado em palavras, em que é cura e danação, já que o poeta invoca, no poema 17, “a cura pelo poema/ e o respeito às palavras” para poder cantar “a cicatriz da separação” (poema 13) e “a felicidade não tola/ de ser apenas palavra” (poema 19). Como destacou Ítalo Calvino, nas Seis propostas para o próximo milênio (1990, p.90), “a palavra põe em relação o desenho visível com a coisa invisível, com a coisa ausente, com a coisa desejada ou temida, como uma fragilíssima ponte lançada sobre o vazio. Por isso o correto emprego da linguagem é […] aquele que permite a aproximação às coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, com o respeito àquilo que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam sem palavras”.

Nesse sentido, a voz do poeta tem um valor epifânico, pois ao empregar determinadas imagens, sugere outro mundo, percebido apenas (e inicialmente) por seu olhar, que tem a dupla lucidez de pensamento e de sentimento. Da mesma forma, em relação ao sentimento, Santo Agostinho considerava o coração como o ápice da alma, o espaço da vida interior. E tal como Santo Agostinho nas Confissões, Eustáquio relata em Manuscritos de Pouso Alto a peregrinatio animae de um eu lírico que vive em tensão com o mundo, pois percebe o mundo mesmo como tensão, áspero e dulcíssimo. Nesse mundo apocalíptico e profético, de “laranjas cancerosas e perfumosas” (poema 25), a natureza cumpre o papel de mensageira, carregada de significantes prestes a serem consultados. Ela sabe ser uma mãe cúmplice do ser humano, amparando-o como a “bromélia [que é] pouso alto” (poema 2), a “rosa que resiste à ferrugem” (poema 3), ou as “sete montanhas de paina/ [que] já preparam o leito” (poema 61). No entanto, a outra cara da medalha revela uma natureza ameaçadora, onde surgem “filhos de pedra” (poema 16), “uma cabeça de gato cortada” (poema 6), “estrelas mortas e janelas grávidas” (poema 17) e “erva morta” (poema 11). Essa ambivalência da natureza responde aos câmbios que o olhar do eu lírico imprime sobre a realidade, já que ele orquestra o desvelar-se do mundo aos seus olhos.

A angústia do poeta, decorrente dessa constante tentativa de se reajustar ao real, dá lugar ao espanto, à maravilha, à medida que as suas relações com o real são renegociadas. Eis porque a “rosa que resiste à ferrugem” do poema 3 se torna “flor de tijolos” (poema 10), “estrela – pétalas de ferro – / em Pouso Alto florindo” (poema 15), “puras avencas de farpas” (poema 25), “flores negras” (poema 17), enfim, “flores calcinadas” (poema 4). Esse olhar recriador da realidade se dá sem defesas, isto é, o poeta está ciente da carga significante que condensa em cada imagem, já que sabe a hora exata de se misturar com o mundo num movimento de aproximação e de reconciliação, assim como a hora de se afastar. A partir dessa relação de fusão versus contemplação do mundo, o poeta adquire um olhar mais compenetrado em relação à vida, pois “em tarefas banais resultou/ o profundo entendimento” (poema 18).

É nesse momento que a sua poesia se aproxima mais da linha conceitual que sustenta a corrente estética do expressionismo, principalmente na maneira como se manifestou na pintura, na medida em que, de acordo com Cardinal (1988, p.31), “a transmissão direta das energias emocionais para a pincelada do pintor representa a expressão imediata de uma realidade fenomenológica, e seu imediatismo coloca-se de modo imperativo para o receptor”. A tensão manifesta pelo eu – lírico em relação ao mundo decorre daquilo que Franz Kafka chamara de “a vida interna imaginária” (apud CARDINAL, 1988, p.61), ou seja, o transbordamento do imaginário que transforma / deforma a representação do real, atribuindo-lhes cores que impressionam muito mais do que aquelas da percepção comum.

A esse respeito, podemos reparar como Eustáquio Gorgone de Oliveira escreve: “faço telas de tintas fortes/ amarelo de manga espada” (poema 36). Impossível aqui não lembrar as telas em que Vincent Van Gogh expressa os vórtices interiores através de uma realidade distorcida pelas suas pinceladas. Nas telas apresentando a natureza morta, os amarelos das flores expressam muito mais do que a luz do sol iluminando os girassóis: eles expressam, ou melhor, simbolizam a força com a qual surge, no pintor, a angústia perante determinadas imagens, e a ameaça desse mal-estar se faz explícito, nas telas, através do preto que escurece o azul usado como cor de fundo de muitas telas dos girassóis.

No caso do poeta, seus instrumentos – adjetivos, verbos, silêncios – são conjugados na medida necessária para atingir não apenas a retina, mas, como diria o filósofo Max Scheler (1996), o ordo amoris do leitor, ainda que isso se faça com a singeleza e força de uma “manga espada”, deliciosa, porém inquietante. O ordo amoris é o núcleo da ordem do mundo como ordem divina na qual o homem se situa. Antes de ser um ens cogitans ou um ens volens, o homem é um ens amans. Isso significa que aquilo em direção ao qual ele inclina o seu coração se torna para ele, a cada vez, a essência das coisas. A escala de suas preferências determina também a estrutura e o conteúdo da sua concepção do mundo, assim como sua disposição para atentar para as coisas ou para dominá-las. Mas, se a realidade é mutante, o sujeito se encontra numa situação de precariedade, pois não consegue encontrar apoio num espaço que se modifica e estremece à sua volta.

Por essas razões, a poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira foi apresentada, inúmeras vezes, como contendo evidentes aspectos da tradição do barroco mineiro, e isso principalmente nos momentos em que o poeta realiza uma erotização do contexto religioso da cultura mineira. Sem dúvida, a referência ao mundo distorcido nos lembra a figura do Aleijadinho e as tensões manifestadas pela estética barroca. O sentimento que perpassa o livro, intermitência de prazer e dor, luz e sombra, provoca no leitor encantamento e espanto e se abre para uma interessante leitura fenomenológica. No entanto, é preciso acrescentar que a tendência que privilegia, em termos estéticos, os momentos de êxtase, inclusive erótico, é evocada com freqüência como uma experiência central ao expressionismo. Nessa direção, o erotismo representaria a manifestação de uma energia transbordante (CARDINAL, 1988, p. 65) e, ao mesmo tempo, o êxtase encaminhar-se-ia, se estimulado sob determinados influxos, para “uma euforia generalizada de fundo místico” (CARDINAL, 1988, p. 66).

Nos poemas de Gorgone, descobrimos que a obscuridade luminosa desses versos (“a vista não alcança/ a luz interior”, poema 24) nos conduz à experiência dos místicos, na qual as visões do outro mundo se dão junto com o sangramento do corpo, como lemos no poema 11: “alguém tece o destino/ nos corpos que desfiam/ sangue após o corte”.   Assim sendo, fica para o leitor esse chamado para uma poética dos “loucos sem a loucura” (poema 12), em que “a carne retém o nome/ às vésperas de perdê-lo” (poema 53) e em que “expelimos a língua” (poema 38) para calar e assistir ao “amargo sortilégio” do “pinheiro que expele o verde” ou do “balé das coisas mortas” (poema 35).

O leitor atento dos Manuscritos de Pouso Alto perceberá que, atrás da aparente normalidade da “porta [que] se fecha” e do “quadro [que] está na parede” (poema 40), a natureza se exilou em um presente eterno como se, de repente, Medusa tivesse petrificado tudo ao redor, deixando “olhos fixos” (poema 8) e uma “meia lua” (poema 8) que logo se torna “de crepom” e “presa em ramos” (poema 36). No entanto, se o leitor aguçar melhor o ouvido, sentirá que há um mundo onde os sinais de vitalidade são gritos sottovoce de pessoas como “o vidraceiro [que] bebe vidros” (poema 41) ou os “casais de um só corpo/ à procura de seus membros” (poema 42). Pessoas que lembram as personagens dos quadros de Edvard Munch, silenciosos seres humanos gritando por dentro.

A urgência desses gritos humanos, desde sempre caracterizados pela perda, pela angústia e pela solidão, convoca na poesia ao convívio do real e do mítico a fim de recriar um mundo mais em acordo com a redescoberta da profundidade humana vivenciada no corpo e na alma graças ao movimento intencional do amar, que é “despir-se para exibir/ a carne a outro mortal” e “[ter] o apego profundo à frieza dos ossos” (poema 29). Em decorrência disso, não há razão para nos assustarmos com os “bois alados” que nascem atrás da igreja (poema 52), nem com os “caranguejos órficos” que dormem nos braços da amada (poema 16) e menos ainda com os “meninos de louça” surpreendidos no poema 9.

Ao longo do livro, o autor levanta questões e perguntas que tocam a definição ontológica do ser humano, como no poema 45: “o que o tempo busca em mim?/ eternidade na finitude?”. Ao fazer isso, ele questiona também a condição existencial de cada leitor que se aventura a consultar os Manuscritos de Pouso Alto. No entanto, o poeta deixa de sobreaviso o leitor, para que não procure respostas nos manuscritos já que, logo depois no poema 50, afirma: “não sabes a resposta/ quieto em teu olhar sincero./ aceito a dor e leio o salmo/ excluído dos Salmos”. Eis porque, para terminar, acredito que a única bússola capaz de nos orientar na paisagem poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira seja o impacto da emoção estética provocada pelos versos. Porque a felicidade que brota dessa emoção está relacionada ao sentimento de algo que, na obra, nos diz respeito a nós mesmos profundamente, mesmo que nós não saibamos exatamente qual tecla da nossa intimidade ele vem tocar e despertar, desde o “segredo das nossas sensações”.

 Referências bibliográficas

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CARDINAL, Roger. O Expressionismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
OLIVEIRA, Eustáquio Gorgone de. Manuscritos de Pouso Alto. Juiz de Fora / Rio de Janeiro, Funalfa / 7 Letras, 2004.
SCHELER, Max. Six essais de philosophie et de religion. Fribourg:Ed. Universitaires Fribourg, Suisse, 1996.

Prisca Agustoni

* * *

 EUSTÁQUIO GORGONE DE OLIVEIRA. POEMAS ESCOLHIDOS

Vejo Minas, chove.
Há Cristos de lama nas igrejas
e fardas no cinema.
Vejo águas, Gerais.
Há cidades imersas nos rios,
peixes nos hotéis de luxo.
Vejo Minas Gerais.
Depois da soleira,
o vento é de mármore.
Além das minas,
os amantes são estrábicos.

(Do livro: Minas, 1983)

§

A poesia vai sendo assim
escrita, cardo-santo no
estômago. Aos poucos,
outra luz na noite,
azul que costura o corpo
das crianças. Em glebas
os fonemas se encontram,
os amargos e doces.
A poesia vai sendo assim
escrita. Enquanto
houver tardes, âmbulas,
cada palavra será guardada
em óleos santos.

(Do livro: Exercício, 1983)

§

A idade vem nos envenenando
Da infância à velhice.
Alguns imigos são flores entre flores,
Imigos em garrafão de vidro opaco,
Escondidos na graveza existente.

É o crudelíssimo silêncio das escarradeiras
Onde flores se tornam cogumelos.

(Do livro: Comarca do Rio das Mortes, 1990)

§

Às vezes, antes do poema,
Vamos à janela.
O céo não está no céo,
Nem flores proliferam
Flores.
Já se formou o mundo
E agora a luz repete
A luz.
Amor e solidão apenas
Palavras móveis:
As duas mãos do esmoler.

(Do livro: Comarca do Rio das Mortes, 1990)

§

Olho a cidade que veio do solo.
………….Girassol fixo.
Seus moradores imóveis nos umbrais,
Suas mobílias fitando os enfermos.
………….Meio-dia.
Sobras de sonho formam monturos,
Cascalhos abarrotam nimbos.
………….Aragem fixa.
Rosas presas em papel couché.

(Do livro: Girassol fixo, 1995)

§

Deixa o poema germinar.
Depois, será esquecido.
Instrumento sem uso, terá repouso.
Procura no arco-íris a cor serva,
aquela que há muito te acompanha.
Dê nome às tuas jóias
antes que pertençam a outro.
Ao amor vindo à tona, inconsútil,
deixa-lhe marcas de azul-tártaro.
E enquanto houver incenso nas palavras
confirma o abraço que não existe.

(Do livro: Passagem na orfandade, 1999)

§

Quando o amor circula nas bocas,
ele se move entre os vermelhos.
Qual cidade é assim por dentro?
A primavera viaja sobre carris
e aonde vamos ela também leva
no toucado as suas flores.
Cornos forrados de abelhas
trazem o mel das liturgias.

Fossem todos os dias luminosos,
a quem distribuir as sombras?

(Do livro: Passagem na orfandade, 1999)

§

já não encontro o teu corpo
aquietado numa abside.

procuro-te entre as pedras
dentro dos tinteiros de chifre.

ficou a alma sobre a carne
como nas telas impressionistas.

o vazio agora me aperta
à medida que se revela
e a tinta mestra se apresenta
com pincéis dolorosos.

peço refúgio ao esquecimento
ao Conselho das Sombras.
nunca serei o livro iluminado
pelas cerdas de tuas mãos.

(Do livro: Ossos naives, 2004)

§

ó casa de muitos cômodos.
há sempre um quarto
que evitamos.
acaso são as palavras
contraprovas do ser?

non me tangere.
o verbo e os actos humanos
dispersam-se ao vento.

serei doado à solidão:
o nome numa cártula.

(Do livro: Ossos naives, 2004 )

§

auto-retrato em dezembro

agora usando corretor
para a bolsa ocular e a calva
já seguindo silencioso percurso;
o nariz bem feito e o sorriso triste
de quem há dias caminha
entre os muros de Utrillo;
cabelos brancos e u’a obstinada
crença de que a luz vive por si;
tez clara voz baixa e grave
enfim um rosto semelhante
àqueles que provaram as perdas.

(Do livro: Ossos naives, 2004)

§

por que não usar rosto ………….o arqueamento pode se dar
mui claro em pinturas. ………….entre os supercílios
………….………….………….………….e a tristeza vir à tona.

………….………….………….………….sob as sombras de face interna
………….………….………….………….o escuro pode alargar-se.

………….………….………….………….é inútil trabalhar os solventes
………….………….………….………….quando a secura dos lábios
………….………….………….………….espalha-se na luz dos olhos.

………….………….………….………….recomenda-se pano virgem
………….………….………….………….que nunca foi tingido
………….………….………….………….ou linho em trama firme
………….………….………….………….que suporte o sofrimento
………….………….………….………….dos pincéis.

(Do livro: Ossos naives, 2004)

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