poesia

Mac Adams, exposição e dois diálogos

 

No dia 18 de abril, quarta-feira, o artista britânico, naturalizado norte-americano, Mac Adams (Brynmawr, 1943) abrirá a exposição inédita Mens Rea: a cartografia do mistério, no Centro Cultural Fiesp. Além de apresentar dezessete obras e uma instalação in situ criada  para a exposição, a mostra conta também com a participação de textos literários. A partir de uma seleção de obras feita pela curadoria da exposição, foi realizado um convite para autores de diversos gêneros, faixas etárias e nacionalidades, com o objetivo de construir um diálogo com a narrativa visual de Mac Adams, um dos fundadores do Narrative Art, movimento artístico surgido nos Estados Unidos na década de 1970. Os nomes são Tal Nitzán (Israel), Ricardo Domeneck (Brasil), Dylan Thomas Hayden (Estados Unidos), Pascal Marquilly (França), Marcus Fabiano (Brasil), Johannes CS Frank (Reino Unido/ Alemanha), Victor Heringer (Brasil), Guilherme Gontijo Flores (Brasil) e Matilde Campilho (Portugal).

Os autores convidados tiveram a liberdade na interpretação da imagem e na escolha do gênero literário para cada texto. “O único desafio para cada autor foi usar o conceito Mens Rea na construção de cada texto, pois este é o elemento principal utilizado também pelo Mac Adams na sua obra”, com diz Luiz Gustavo Carvalho, curador da exposição junto com Anne-Céline Borey.

O período expositivo vai de 18 de abril a 8 de julho de 2018, na Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp: Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp), de terça a sábado, das 10h às 22h, e domingo, das 10h às 20h. Na abertura, no dia 17 de abril (terça-feira), às 18h, será feita a palestra “Fios soltos: construção e desconstrução de uma arte narrativa”, com o próprio Mac Adams e os curadores Luiz Gustavo Carvalho e Anne-Céline Borey.

Além de poder contribuir com um texto meu parao díptico “The Whisper”, tive a chance de traduzir os textos de Pascal Marquilly  e de Johannes CS Frank. Seguem abaixo o poema feito por Tal Nitzán, em tradução de Moacir Amâncio, para o díptico “Orian”.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Mac Adams, Díptico “Orianr”, 1980. Series Mysteries.


(Tal Nitzán)

Não é um banco verde no quarto das crianças
é um crocodilo
não é um crocodilo
é o futuro:

Eis o movimento lento dos seus olhos
Eis o bater das suas mandíbulas terríveis

Mas onde estão as crianças?
Este não é mesmo o quarto das crianças
Este é o quarto da infância.

Eis que tu te encontras nele
em teu vestido pequeno e a tua boca fechada
e todos os teus crocodilos diante de ti.

(trad. Moacir Amâncio)

§

Mac Adams, Díptico “The Whisper”, 1976-7. Series Mysteries.

Dito isso
a partir de “The Whisper” de Mac Adams
(Guilherme Gontijo Flores)

Mas escuta-me ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me. Muito embora no ofício de soldado eu já tenha matado muita gente, assunto considero de consciência premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em furá-lo aqui, sob a costela. Sim; porém ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma só coisa vos pergunto, senhor; estais realmente casado? Há segurança?

Dito isso.

Assim, de um tolo faço minha bolsa. Profanaria meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a não ser para proveito próprio ou distração. Odeio o Mouro. Há quem murmure que ele o meu trabalho já fez em meus lençóis. Se é certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo não, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vai atuar com mais certeza. Cássio é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Cássio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Cássio e seu todo insinuante o predispõem a tornar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. Ele a segura pela mão. Muito bem! Cochicha-lhe aos ouvidos. Com uma teiazinha tão pequena assim, pretendo pegar uma mosca do tamanho de Cássio. Sim, dirige-lhe sorrisos; mais um pouco, e eu te amarrarei com tuas próprias cortesias. Tendes razão: é assim mesmo. Se vierdes a perder o poste de tenente por umas frioleiras desse porte, melhor vos teria sido não ter beijado tantas vezes os três dedos, como ainda vos mostrais disposto a fazer, para vos apresentardes como senhor de respeito. Muito bem! Belo beijo! Excelente cortesia! É assim mesmo, não há dúvida. Levais mais uma vez os dedos à boca? Quiser que vos servisse com outras cânulas de clister… Oh! Por enquanto estais bem afinados, mas eu me incumbo de afrouxar as cordas que produzem tal música; tão certo como eu se gente honesta. Que amor lhe tenha Cássio, é o que acredito; que ela o ame, é quase certo e compreensível. O Mouro, embora eu suportar não o possa, por natureza é firme, nobre e amável, tendo eu plena certeza de que ele há de ser o marido ideal para Desdêmona. Mas eu também a amo, não por simples concupiscência, muito embora eu seja também passível dessa grande falta. Não; é para saciar minha vingança, pois suspeito que o Mouro luxurioso pulou na minha sela, pensamento esse que, como mineral nocivo, me corrói as entranhas, sem que nada possa ou deva deixar-me a alma aliviada antes de virmos nisso a ficar quites; é mulher por mulher. Falhando o plano, farei tal ciúme despertar no Mouro, que não possa curá-lo o raciocínio. Para obter isso — caso este sabujo de Veneza, que à trela sempre trago, saiba encontrar o rasto e correr firme — pegarei Miguel Cássio pelo flanco, pois temo que ele também tenha usado meu gorro de dormir. Assim, o Mouro me amará, ficar-me-á reconhecido, e um prêmio me dará por eu ter feito dele um asno completo, e o ter privado da paz e do sossego, até nas raias ir bater da loucura. Aqui está tudo. Meio confuso, é certo; mas inteira, nunca se mostra, nunca, a bandalheira.

Se eu puder empurrar-lhe mais um copo além do que ele já bebeu à tarde, ficará tão rixento e quereloso como uma cadelinha. Aquele tonto, Rodrigo, a quem o amor virou no avesso, esta noite, à saúde de Desdêmona bebeu potes seguidos. Vai dar guarda. Mais três rapazes de alto e nobre espírito, que em distância prudente a honra conservam, elementos desta ilha belicosa, esta noite deixei meio confusos com copos transbordantes. Todos eles irão também dar guarda. Ora, no meio de tantos bêbedos, farei que Cássio pratique qualquer ato que alboroto venha na ilha a causar. Ei-los que chegam. Se condisser com os sonhos a sequela, meu barco correrá com vento e vela. Fazei tinir a caneca! Fazei tinir a caneca!… A vida é quente, soldado é gente… Soldado… que leva a breca! Mais vinho, rapazes!

Quem poderá dizer que eu represento papel de celerado, se o conselho que eu dei é honesto e leal, muito plausível e em verdade o caminho para ao Mouro vir a reconquistar? Sim, porque é muito fácil de conseguir que a complacente Desdêmona se empenhe em qualquer súplica honesta; é dadivosa como a terra. E para obter do Mouro qualquer coisa — muito embora para ele se tratasse de abrir mão do batismo, das insígnias e símbolos de uma alma redimida — tanto ele o coração traz encadeado na afeição de Desdêmona, que tudo fazer ou desfazer ela consegue, como entender, reinando como deusa sua vontade sobre o fraco esposo. Estarei sendo, acaso, um celerado por ter mostrado a Cássio esse caminho que vai dar no seu bem, diretamente? Divindades do inferno! Quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhe emprestam, tal como agora faço. Pois, enquanto este imbecil honesto pede à bela Desdêmona que cure a sua sorte, e ela sobre isso insiste junto ao Mouro, veneno deitarei no ouvido dele, com dizer que ela o faz só por luxúria; quanto mais houver feito ela por ele, mais, junto ao Mouro, há de perder o crédito. Transformarei em pez sua virtude, e com a própria bondade apresto a rede que há de a todos pegar. E agora duas coisas: sobre Cássio falar minha mulher junto à senhora; vou concitá-la já. Nesse entrementes, chamarei o Mouro para que venha encontrar Cássio, quando falando estiver este com Desdêmona. Esse é o caminho certo; que a tardança não me faça perder a segurança.

Deveriam os homens ser somente o que parecem, ou então não parecer o que não fossem. Sendo assim, considero Cássio honesto. Acautelai-vos, senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras! Quem com sua pobreza está contente, é rico, muito rico; mas riquezas infinitas são como o frio inverno, para quem medo tem de ficar pobre. Livrai-me, céu bondoso, e as almas todas de minha tribo, de sentir ciúmes. Assim, já que o dever a isso me obriga, sincero vou falar, mas não de provas, por enquanto. Vigiai vossa consorte; observai bem como ela e Cássio falam; lançai-lhe olhar assim, nem enciumado, nem confiante demais. Não desejara que vossa natureza leal e nobre vítima viesse a ser por causa, apenas, da generosidade que lhe é própria. Vigiai-os bem. Conheço minha terra; em Veneza as mulheres não se correm de confessar ao céu as leviandades que ocultam dos maridos. Para todas a virtude consiste apenas nisto: não deixes de fazer, mas em segredo. Ao pai ela enganou com desposar-vos; ao fingir que tremia à vossa vista, mais vos era afeiçoada. Tirai a conclusão: uma donzela que finge a ponto de deixar os olhos do pai como vendados, obrigando-o a achar que era feitiço… Mas confesso-me passível de censura. Humildemente vos peço me perdoeis tanta amizade. Instantemente vos peço não tirar do meu discurso forçadas conclusões, nem distendê-lo senão até à suspeita.

Dito isso.

Dentro do quarto de Cássio jogarei o lenço, para que ele o venha a encontrar. As ninharias leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da Sagrada Escritura. Disto pode sair alguma coisa. Meu veneno já produziu alterações no Mouro. Certos conceitos são por natureza verdadeiros venenos que, de início, não provocam nenhuma repugnância, mas logo que no sangue atuam, queimam como mina de enxofre. Não me engano.

Quero crer que seria uma tarefa assaz dificultosa convencê-los a se deixarem ver sob esse aspecto. O demo os carregue, se possível for a olhar de mortais, tirante o deles, vê-los deitados juntos. Que me resta para dizer? Que provas posso dar-vos? Não vos será possível ver tal coisa, embora ardentes fossem como bodes, quentes como macacos, luxuriosos como lobos no cio e tão grosseiros como ser mais alvar, quando embriagado. Contudo vos direi, se alguns indícios, circunstâncias de peso, que conduzem diretamente à porta da verdade vos deixarem convicto, haveis de tê-las. Não me agrada esse ofício. Mas já que fui tão longe nesse caso, levado pela honestidade estúpida e a amizade, tão-só, não me detenho. Passei com Cássio uma das noites últimas, mas por estar sentindo dor de dentes, não podia dormir. Ora, há pessoas de alma tão largada que no sono revelam seus negócios. Cássio é dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmuravam “Desdêmona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!” Então, senhor, pegando-me das mãos e as apertando, suspirava: “Oh criatura adorável!” e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus lábios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: “Oh fado amaldiçoado, que te foi entregar para esse Mouro!” Mas tudo isso era somente sonho. Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não viste porventura não mão de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos? Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa. Ficai calmo. Ficai calmo, torno a dizer; podeis mudar de ideia. E eu me declaro vosso por toda a vida. Será crível tal coisa? Beijar às escondidas! Ou ficar uma hora ou duas nua no leito, ao lado de um amigo, sem ruins intenções. Se nada fazem, é um pecado venial. Porém no caso de eu dar um lenço à minha esposa… Ora, senhor; seria dela o lenço. E, dela sendo, penso que podia dá-lo a quem entendesse. A honra é uma essência que não cai na vista. Muitas vezes a tem quem nunca a teve. Mas quanto ao lenço… E que se dera se eu tivesse dito que ele vos ultrajara, ou que falara por aí fora, como certos biltres que — tendo conquistado alguma dama, ou por impertinência nos assaltos, ou com o consentimento dela própria, depois de convencida — de indiscretos falam por toda parte. Sim senhor. Mas podeis ter certeza de que não disse nada que não possa negar sob juramento. Oh céu! Que tinha… Que sei eu?… Que tinha… Deitado… Com ela ou em cima dela, o que quiserdes.

Dito isso.

Trabalha meu veneno! Trabalha! Desse modo é que pegamos os idiotas crédulos. E é assim, também, que muitas damas dignas e castas, sem senão, ficam faladas. Olá, senhor! Senhor, repito! Otelo! Não deveis recorrer a veneno; estrangulai-a no leito, no próprio leito que ela poluiu.

Dito isso.

Ide logo; não choreis; tudo ainda acaba bem.

Dito isso.

Não me pergunteis nada; o que sabeis, já sabeis. Não direi, de agora em diante, nem mais uma palavra.

( Todo o texto é feito de recortes de falas de Iago, no Otelo Shakespeare, a partir da tradução de Carlos Alberto Nunes.)

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Leo Silva

Foto de Lucianna Silveira

Leo Silva tem 22 anos, mora no Santa Filomena – Jangurussu, Fortaleza. É escritor, poeta e fotógrafo. Tem alguns escritos publicados em livros, como: POETAS DE LUGAR NENHUM – SARAU DA B1, e Vozes do Jangu. Faz parte da equipe do Tentalize e escreve aleatoriamente para a página GRITOS ALEATÓRIOS.

Os fragmentos abaixo fazem parte de um ciclo de poemas inéditos; as fotografias integram a exposição  “Simples Cidade – Simplicidade”, quarenta fotos que nos mostram um pouco mais do Jangurussu – suas localidades, rostos, sorrisos & cotocos, olhares & paisagens locais -, bairro periférico de Fortaleza/ Ceará, que abrange oito comunidades que carregam em seus nomes os mártires e os santos que acabam muitas vezes no esquecimento. Leia também o texto de Dani Guerra sobre a exposição na Revista Berro.

SIMPLICIDADE (6)

EM MEIO TERMO

em meio termo,
em meio tempo,
em meio a gente,

[…]
ficamos ali,
contemplando um ponto fixo,

[…]
em meio termo,
no meio tempo,
em meio a gente,

a gente se encolhe,
afasta, e continua a contemplar,
sem jeito,
[…]

 

ESTE NÃO SOU EU,

a gente se encontra por aqui,
a gente se encontra por ali,
todos me olham,
e eu olho todos,
estou em diversos lugares,
[…]
este não sou eu,

[…]

SIMPLICIDADE (4)

Nos corres da vida,
na volta de bike,
aquele suor que rebate todo o corpo,
é como este momento,
[…]

SIMPLICIDADE (37)
uma folga,
descansar,
descansar,
[…] o dia virá//

SIMPLICIDADE (14)

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