poesia, tradução

CARPE DIEM: 28 versões + 2, por Matheus Mavericco

Existem poemas que conseguem a tremenda felicidade de cravarem uma expressão ou uma palavra na cabeça dos leitores. Nem sempre é sinal de qualidade. Veja o caso de “passar pela vida em branca nuvem”, expressão usada por nossos avós e que foi retirada de um poema de Francisco Otaviano, patrono da cadeira de número 13 na Academia Brasileira de Letras e poeta medíocre, autor, quando muito, de um soneto hamletiano vagamente interessante. Exemplo ligeiramente diverso é o de “Depois de um longo e tenebroso inverno”, segundo verso de um soneto até comovente de Luís Guimarães Júnior, onde as assonâncias conseguem pelo menos desempenhar um papel curioso ao espichar a duração do verso. Nem um nem outro, todavia, capazes de rivalizar com o que o poeta mineiro conseguiu com seus “uma pedra no meio do caminho” e “E agora, José?”.

Com carpe diem é igual. Graças ao que o Ensino Médio cobra e ao que o professor Keating sussurra no ouvido dos alunos, mesmo quem não tenha a mínima noção da amplitude poética que a expressão alcançou consegue, ainda que por alto, mensurar sua importância. E no entanto, veja o leitor que quando Horácio escreveu o poema que a imortalizou, o décimo primeiro do primeiro livro de suas Odes, ele na verdade não estava estreando no assunto. Compor um poema que versasse sobre a brevidade da vida e que a partir de determinado ponto exortasse o ouvinte a vivê-la era ideia em voga antes mesmo de Horácio, o que, em absoluto, não deve causar estranheza. Embora hoje sejamos leitores acostumados a apreciar as últimas novidades e tendências da arte, em consumir o que nos vendem como único e feito só pra nós, é preciso entender que a situação era bem diversa na literatura antiga e na literatura clássica, onde o poeta lançava mão de um arcabouço de saberes, assuntos, procedimentos e técnicas comuns a toda a inteligência de seu tempo, e, a partir daí, compunha uma obra que a um só tempo respeitasse as convenções de cada gênero e o vivificasse, não no sentido de separar a obra de tudo o que veio antes e sim no de equiparar-se com os grandes mestres, contribuindo, pelo menos, com mais um espécime ilustre e genuíno para aquele departamento.

Não espanta, portanto, que a ode de Horácio tenha sido aludida inúmeras vezes por poetas variadíssimos. Dentro do lugar-comum antes mencionado, de se falar da brevidade da existência humana e exortar a que mexamos o esqueleto, Horácio foi, como dito por Francisco Achcar, um verdadeiro campeão do gênero, ou seja, ele criou, dentro daquela convenção poética específica, um poema de altíssima qualidade e competência que se tornou ele próprio um baluarte, um monumento.

Falemos do carpe diem. Que tenha sido a expressão que caiu na boca do povo é quase que um mérito esperado, afinal de contas ela guarda toda uma concisão e um garbo que a destacam daqueloutras que, verdade seja dita, também chamam nossa atenção para o mesmo tema (por exemplo spem longam reseces). Os sentidos aplicáveis ao verbo carpere são basicamente quatro. O leitor já deve saber que ele diz respeito a aproveitar o dia, gozá-lo de forma detida ou, pra citar as formulações admiráveis de Péricles Eugênio e de Nelson Ascher, desfrutá-lo, fruí-lo. Todavia, pode dizer também colhê-lo quase como se fosse um fruto. É um sentido preferível e forte, afinal de contas adiciona delicadeza à imagem ao sugerir uma relação metafórica implícita e sutil que trata os dias como flores. Camões, num soneto admirável, fala da Primavera que se traslada para o rosto da amada, ao que, no primeiro terceto, declara que se ela não aceitar o amor oferecido, então sua beleza perderá a graça: “Se agora não quereis que quem vos ama / Possa colher o fruito destas flores”. Estas, ou seja: “boninas, lírios, rosas”, todas encontradas no rosto dela depois que a Primavera para lá se mudou.

No entanto, podemos apontar outros dois sentidos menos óbvios. Celestino Massucco, intelectual italiano que viveu a transição do século XVIII para o XIX, ao comentar o poema menciona que carpere é prender o tempo que foge. “Apanhar”, usado por Nelson Ascher em sua primeira versão, consegue fazer jus a tal sentido e àqueloutro, botânico. Um quarto, por fim, é o que foi estudado por Alfonso Traina num importante ensaio de 1986 onde discute, precisamente, a semântica do carpe diem. Aqui, o ensaísta italiano defende que carpere, saído de um campo semântico que também envolve rapere e sumere, é um processo traumático, é um prender lacerante e progressivo que vai do todo à parte, quase como se desfolhasse uma margarida. Se a parte é o dia, o todo é claramente o tempo, o que torna a conclamação horaciana, pelo fato de que pede para que nos atenhamos no instante, um modo de neutralizar a fuga do tempo invejoso, afinal de contas, como o próprio autor diz, já na enunciação o tempo escapa.

À medida que traduzia o poema e o revisava, o que fiz com muita displicência, busquei dar ênfase a este último sentido, o que o uso do verbo “destacar” deixa bem claro, afinal de contas pode ser tomado tanto no sentido de separar o dia de algo maior (o tempo) ou de lhe dar destaque. Outras opções tradutórias, é claro, demandam mais comentários, por exemplo transformar sapias, no original, em “Te experiência”: aqui eu quis manter a proximidade que saber e sabor possuem no latim, bem o que o Guilherme evidenciou pro leitor na sua segunda versão. No entanto, a partir do momento em que o carpe diem é o grande chamariz da postagem, deixo de lado todas as outras questões pertinentes a este poderosíssimo e compacto poema.

Recompilo todas as versões anteriormente postadas, acrescidas de outras que descobri, por exemplo a feita no século XVI por um anônimo com propósito didático: o autor citava um trecho do poema e fornecia em seguida a tradução literal da passagem, às vezes comentando passagens dignas de nota. (Na reprodução abaixo, cortei os trechos em latim e atualizei a grafia.) Além de recompilá-las, organizei-as cronologicamente e indiquei suas respectivas datas, adicionando, por fim, os dados bibliográficos daquelas que ou não constavam na última postagem ou que não chegaram a ser compiladas e estudadas por Francisco Achcar em seu Lírica e lugar-comum (EdUSP, 2015). Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores, que me ajudou com algumas traduções que eu não tinha encontrado.

Matheus Mavericco

* * *

Carmina 1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

§

trad. André Falcão Resende [séc. XVI]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

………….Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
………….Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão de ser, se curtas, se compridas;

………….Se o escuro Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
………….Se neste hórrido inverno,
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

………….Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
………….Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

§

versão literal anônima [séc. XVI]. Adaptado e com grafia atualizada
em: Obras de Horácio, Officina de Ioam da Costa, 1668, p. 14/15. Disponível aqui.

(…) ó amigo Leuconoe (…) vós (…) não esquadrinheis, nem queirais (…) saber, (…) que fim (…) os deuses (…) me derem, ou também (…) que fim (…) vos terão dado ((…) porque é pecado querer saber isso) (…) nem esquadrinheis saber (…) os números matemáticos (porque os babilônios inventaram a matemática) (…) para que (…) tudo o que acontecer seja melhor de sofrer ((…) ou (…) o deus Júpiter (…) vos concedeu (…) este só ano, ou inverno de vida: (…) o qual inverno (…) agora causa [?] (…) o mar Mediterrâneo (…) com as pedras postas diante, em que quebra sua fúria) (…) uma só coisa é bem que saibais[:] (…) tirar, ou beber o vinho mais velho, e delicado, e isso quer dizer derreter o vinho, po[is] que ao vinho velho, e dessecado, chamavam, (…) e com o breve espaço da vida (…) corteis (…) a comprida esperança de viver (…) em quanto falamos, (…) a idade (…) invejada de todos (…) desaparecer deixando-nos velhos (…) aproveitai-vos do dia presente, (…) que de nenhum modo se confia ao de amanhã.

§

trad. Filinto Elísio [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

§

trad. José Agostinho de Macedo [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto,
Dos Vaticínios Babilónios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os acintes da Sorte.

Ou Jove te destine mais Invernos
A cuta Idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas Rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as Taças
De doce vinho, apouca as Esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a Idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no Futuro.

§

trad. Elpino Duriense [1807]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

§

versão de Marquesa de Alorna [1820]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não procures saber, querida Irene,
Se a mim, se a ti, os Deuses concederam
Da vida um tempo próximo ou distante:
……..Não convém tal exame.

Não indagues os cálculos incertos
Que produzem horóscopos confusos;
Melhor será sofrer que descobri-los:
……..O que vier aceita.

Ou nos dê Jove invernos numerosos,
Ou neste, que do Tejo açouta as águas,
Atropos corte o fio a nossos dias,
……..Recear é fraqueza.

Gosta os fructos da Quinta do Descanso:
Para longa esperança o espaço é breve;
A idade foge enquanto discorremos:
……..Aproveita os momentos.

§

versão de Ricardo Reis [séc. XX]
vide Francisco Achcar

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
……..O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
……..É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
……..O dia, porque és ele.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos [1964]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
……..a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
……..melhor é suportar
……..tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
……..quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
……..cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
……..corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
……..Enquanto conversamos
……..foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

§

trad. Aduíno Bolívar [1964]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não queiras perquirir, Leucônoe, (é vedado)
O fim que a ti ou a mim hajam predestinado
Os deuses. Dos Caldeus nos números obscuros
Não tentes deletrear os eventos futuros,
Quanto é melhor sofrer o que há de vir! Bom prazo
De anos Jove nos dê, ou seja o último, acaso,
Este que nos parcéis da praia o mar tirreno
Quebrante, saibas coar o teu vinho e em pequeno
Espaço confinar o teu ideal grandioso.
Ainda estamos falando, e já o tempo odioso
Terá fugido… E, pois, eia, colhe este dia
Como quem no amanhã de modo algum confia…

§

tradução de Marie Helena da Rocha Pereira [1976]
em: Romana: antologia da cultura latina, 6a. ed., Guimarães, 2010.

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

§

versão de Paulo Leminski [1984]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

 

 

§

versão de Augusto de Campos [1985]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

§

trad. Augusto Peterlini [1992]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não buscarás, saber é proibido, ó Leuconôe,
Que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;
Nem mesmo os babilônios números perscrutes…
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
Quer venha a conceder apenas este último,
Que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos,
Tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
De muito longa, faz caber m curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o ia de hoje e não te fies nunca,
Um momento sequer, no dia e amanhã…

§

trad. Nelson Ascher [1994; 1ª versão]
em: Poesia Alheia, Imago, 1998, p. 62-63.

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,
os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo
da babilônia e aceita: o que há de ser, será,
quer nos dê Jove mais invernos, quer só este
que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe
teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.
Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.
Apanha o dia e não confies no amanhã.

§

trad. David Mourão-Ferreira [2003]
em: Revista Colóquio/Letras, n.º 163, Jan. 2003, p. 103.

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

§

trad. Bento Prado de Almeida Ferraz [2003]
em: Odes e epodos, Martins Fontes, 2003, p.38-39

Indagar, não indagues, Leuconói
qual seja o meu destino, qual o teu;
nem consultes os astros, como sói
o astrólogo caldeu:

não cabe ao homem desvendar arcanos!
Como é melhor sofrer quanto aconteça!
Ou te conceda Jove muitos anos,
ou, agora, os teus últimos enganos,
– prudente, o vinho côa e, mui depressa
a essa longa esperança circunscreve
a tua vida breve.

Só o presente é verdade, os mais, promessa…
O tempo, enquanto discutimos, foge:
Colhe o teu dia, – não no percas! – hoje.

§

trad. Nelson Ascher [2006; 2ª versão]
em: Ilustrada, 04/12/06. Disponível aqui.

Não sondes (é tabu) que fim nos tramam,
Leucônoe, os deuses, nem consultes mapas
astrais caldeus. — O que será, será,
dê Jove outros ou, moendo o mar Tirreno
com rochas, este inverno e só. — Decanta,
lúcida, o vinho a ansiar quanto é cabível.
Mal falo e o tempo foge hostil: frui já
teus dias sem contar nem com o seguinte.

§

trad. Marcio Thamos [2006]
em: Letras clássicas, USP, n. 10, 2006. Disponível aqui.

Não queiras tu, Leucônoe, descobrir
que fim a ti e a mim darão os deuses
(nem é bom que se saibam essas coisas),
esquece a astrologia babilônia:
melhor deixar que seja lá o que for.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro este que agora
fatiga o mar Tirreno contra as fragas,
tem prudência: dilui o vinho e ajusta
a esperança – que é longa – ao breve instante.

Foge o tempo invejoso enquanto falo:
— Colhe o dia e não contes que haja outro.

§

trad. de Pedro Braga Falcão [2008]
em: Horácio, Odes, Cotovia, 2008.

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

§

trad. Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

§

versão de Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

HORÁCIO NO BAIXO

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

§

trad. Leandro Cardoso [2012]
vide postagem anterior

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2012; 1a versão]
vide postagem anterior

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

§

trad. Carlos Mendonça Lopes [2013]:
em: blog vício da poesia.

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2015; 2ª versão]

Tu nem vás perguntar (ímpio saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais,
quer invernos sem fim ou só mais um ceda-nos Júpiter,
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar.
Saibas saborear, coa este vinho, anda e num curto chão
poda o longo esperar! Nesta conversa, ínvido o tempo já
foge: colhe este dia, ai!, sem pensar nunca nos amanhãs.

*

Gravação Solo:

 

Performance do Pecora Loca:

 

§

trad. Daniel Fernandes da Silva [2017]
em: comentário à antiga postagem

Saber não busques, Leoconoe, que fim
Tenha o Fado prescrito a ti e a mim;
Nem tua sorte ler queiras nas estrelas
Para melhor sofreres-lhe as mazelas;
Quer de invernos te dê Jove um milheiro,
Ou quer então seja este o derradeiro
Que o Mar Tirreno contra as rochas lança,
Vive com sensatez: poda a esperança
Em vida assim tão breve, e o vinho coa;
Enquanto aqui discorro, o Tempo voa:
Faz do instante presente o teu tesouro,
Muito pouco esperando do vindouro.

§

versão de Tarso de Melo [2017]
em: rede social do poeta

Não esquenta, camarada,
tentando adivinhar quanto tempo
os deuses nos darão de vida.
Pouco importa se este é o último
ou só mais um verão batendo
sem dó na sua janela.
Vai, curta o que vier,
pega um copo e já era.
O amanhã não merece
tanto esforço da sua esperança.
Deixa rolar. E aproveita o dia.

§

trad. Matheus “Mavericco” [2017]

Não indagues (sabê-lo é nefasto) o que os deuses
tramam a ti e a mim, Leucônoe, nem recorra
a signos babilônios. Viva o que vier!
Se Júpiter te encher de invernos ou se um último
te der, que acerta e erode as rochas do Tirreno,
te experiencia, coa o vinho e corta em curto
espaço a espera! O tempo invejoso, ao falarmos,
foge: destaca o dia, crendo pouco no após.

§

trad. Ezra Pound
vide postagem anterior

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

*

trad. Adriano Scandolara da trad. de Pound
vide postagem anterior

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

Padrão
crítica, tradução

Albas, por Matheus Mavericco

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“Alba” é um gênero da poesia lírica medieval que traz a situação de dois amantes que passaram uma noite danada de boa e que, quando a aurora raia, precisam partir, se separar. Algo aparentemente banal, mas que possui alguns significados dignos de nota.

O negócio é que existe uma sensualidade na alba que não costuma aparecer muito em outros gêneros poéticos. A alba é um coito interrompido. Ou coito continuado. Explico: a aurora raia e os momentos aprazíveis entre os amantes são dissipados. Eles precisam fazer sabe-se lá o quê, cada qual pro seu lado. A questão é que, de todo modo, eles passaram a noite juntos, e isso incute uma carga considerável de sensualidade no poema, fazendo com que o eu lírico, mesmo que reclame da partida ou mesmo que aguarde por outra noite igual aquela, adote pelo menos uma postura um pouco mais alegre e feliz do que sói nos outros gêneros líricos medievais. Daí o que disse de coito interrompido/continuado. Coito hoje em dia é ato sexual; mas nos idos medievais, não custa lembrar, coito era o sofrimento amoroso. Daí uma palavra como “coitado”.

Das outras figurinhas que costumam aparecer nas albas, duas são dignas de nota. Primeiro o gaita, que é o vigia, o sentinela, o guarda que diz pros amantes que a noite acabou, a aurora vem e, bem, eles precisam tomar rumo. É a presença desagradável, em suma. Em segundo, é comum que as albas se relacionem a flores e tragam aves cantando consigo. Embora cantar a passarada tenha sido uma constante na poesia desde sempre, indo do pássaro de Lésbia aos rouxinóis de Milton, Coleridge ou Keats e até o nosso Mário de Andrade empalhador de passarinhos; embora assim tenha sido, poucas épocas literárias souberam dar com tanta mestria a voz e o tom para que a passarada cantasse. Com as albas não é diferente. Os passarinhos cantando ao longo do poema criam uma atmosfera amorosa marcante, como que representando a ideia de que tudo respira amor naquela situação (algo fundamental na sistemática do locus amoenus). Claro que a simples presença dos pássaros cantando já é um prenúncio claro do dia, de modo que esses mesmos pássaros, embora alegres, se imiscuem na mescla perfeita de alegria e de tristeza que a alba retrata. Daí também, eu digo, sua carga poética, meio que paralela à figura do gaita, que, se formos parar pra pensar bem, surge quando tecnicamente não deveria ser mais requisitada: vigias, sentinelas e guardas são pensados para situações noturnas. Surgirem de dia é uma espécie de reviravolta no plano temporal do texto, como que pra mostrar que a partida deve ser feita já.

Existem albas (embora não tantas de modo geral) na poesia occitana, na poesia portuguesa e na poesia alemã. Ela também pode ser chamada de aubade ou, no caso da poesia alemã, de Tagelied. Na poesia occitana temos exemplares de Raimbaut de Vaqueiras, Guiraut de Bornelh, Guiraut Riquer. Esta postagem que vocês leem é tripartida: trago primeiro uma alba anônima datada do século XII, talvez a mais famosa, trago logo abaixo para o leitor a célebre versão que Ezra Pound fez dela e, por fim, uma alba em galego-portuguesa.

Comecemos falando da alba occitana.

Seguindo o comentário de Hugh Kenner no capítulo Motz el Son de seu monumental livo The Pound Era, podemos observar nesta alba uma intrincada cadeia sonora que ultrapassa e muito o esquema rímico externo: veja-se por exemplo como ab sa, na segunda estrofe, ecoa escria do primeiro verso e antecipa dia no final. Esta cadeia sonora possui inclusive uma construção simbólica, qual seja: Kenner nota como a assonância em A ao longo do poema se mescla à assonância em O (esta última também contando, nos versos 4 e 5, de um jogo espelhado entre jos e tro, internamente, e flor e tor externamente) até que, no fim do texto, tenhamos l’alba contraposto a jorn, como que representando o embate entre o dia e a noite. (Num âmbito tradutório isso pode parecer algo difícil pra caramba de transpôr, mas surpreendentemente não achei: palavras como “aurora” e “claro” já possuem O’s e A’s suficientemente intercalados…)

O resto a ser apontado seria a estrutura paralelística em flashes que o poema apresenta. Três tomadas: o casal de rouxinóis, os amantes e o vigia chegando. Os rouxinóis cantam no alto e cantam o dia inteiro, ininterruptamente, algo que aconteceria também com os dois amantes não fosse a presença do vigia. E esse vigia, não custa lembra, escriaEscria é exatamente o mesmo que o rouxinol fazia a seu par. Uma ambiguidade que ajuda a demonstrar a superfície densamente lírica e amorosa da situação… (Isso sim já é difícil pra caramba de transpôr.)

A cadeia sonora que me referi antes, para passarmos da primeira parte da postagem pra segunda, explica as opções tomadas por Pound. E é a ele que mais cedo ou mais tarde, quando falamos de poesia provençal, acabamos chegando.

Pound publicou sua versão para esta alba anônima do século XII na Little Review em maio de 1918. Posteriormente ela seria inclusa numa sequência maior denominada Langue d’oc, com versões para outros autores provençais (Girart Bornello, Guilhem de Peitieu, Cerclamon e Arnaut Daniel). Antes, em The spirit of romance (1910), essa mesma alba havia aparecido numa tradução em prosa. Na ocasião, Pound menciona que as primeiras albas foram escritas em latim e com referências mitológicas no meio do texto. Depois, diz que a alba de sua preferência é a que começa com “En un vergier sotz fueilla d’albespi” (ela também é anônima, mas é do século XIII).

O espectro tradutório de Pound é vasto. A detração simplista ignora isso com uma facilidade estarrecedora… Mas eu me calo, senão fujo pela tangente e vou bater asas em outros campos. Onde quero chegar é: o caso de sua versão para a alba occitana talvez seja uma espécie de meio termo. A divisão estrófica inusual e o uso de uma linguagem prosaica exacerbam algumas características do original, mas isso não quer dizer que sejam mudanças gratuitas ou insossas. Esta versão de Pound nunca chegou a satisfazê-lo, conforme ele diz numa carta para Felix E. Schelling em 1922. Mas ele se mostrou bastante atento para a cadeia sonora do texto, de modo que a maneira como sua versão vai desfiando alguns momentos do original occitano possui correspondência direta na maneira como o próprio original interconecta suas palavras. Kenner nota como, por exemplo, day, no segundo verso, ecoa mate e lateBower com flower e tower, por sua vez, é uma maneira de corresponder à assonância em O que, como vimos, também é presente no texto occitano. E por aí vai.

Além desta alba anônima do século XII e da versão de Pound, eu disse que incluo para vocês uma alba em língua portuguesa. Infelizmente, a única que nos restou. Há quem diga que, devido ao fato dela não apresentar os penduricalhos típicos da alba (marcadamente o gaita), ela não seria 100% alba. Enfim. Ela é de autoria de Nuno Fernandes Torneol, um trovador do século XIII. Nós sabemos praticamente nada de sua vida, mas isso não quer dizer que ele seja um total desconhecido nosso. A primeira estrofe de sua cantiga “Pois nací nunca vi Amor” foi musicada pela banda Legião Urbana em Love Song. A alba Leda m’and’eu requer de nossa parte um tipo de sensibilidade meio que distinta do que aplicaríamos ao caso da alba anônima do século XII. Enquanto nesta a concisão é acima de tudo admirável, a par de sua estrutura fônica e do paralelismo direto e conciso que ela apresenta, no caso da alba de Torneol temos algo realmente mais dilatado, mas que nem por isso perde em musicalidade e pungência. É muito difícil analisar um texto que na verdade era letra de música, de modo que o que poderíamos pensar como sendo repetições talvez inúteis, possuem uma função, presumimos, importante na estrutura musicada do texto.

Tem uns versos aí desse poema que são de uma musicalidade espetacular. Por exemplo “toda-las aves do mundo d’amor dízian”. A rapidez que o poeta dá ao verso, vista facilmente no turbo que ele dá ao passar de dois dátilos para três iambos, ainda hoje em dia é um efeito que poucos teriam a felicidade de alcançar. A paranomásia entre Levad’ e Leda é igualmente digna de nota, comprimindo nesta mera justaposição o cerne da alba: a alegria e a despedida. Toribio Fuente Cornejo, numa leitura acurada do poema, nos remete também ao simbolismo duplo que as estações do ano representam no poema, ou seja, enquanto a primeira parte (duas primeiras estrofes) remete a um clima invernal, a segunda parte (estrofes três e quatro) traz um clima primaveral e a terceira parte (estrofes restantes) um clima certo modo outonal. Certo modo outonal pois há no poema uma destruição do locus amoenus, essa instância que durante muito tempo se demonstrou essencial, como nos lembra E. R. Curtius, para a construção de um ambiente lírico. Sua destruição, a destruição reiterada desse locus amoenus representaria um conturbamento interior profundo, ou, ainda mais precisamente, seguindo a leitura de Toribio, a destruição dos elementos carregados de simbologia erótica e, por conseguinte, a interrupção/prolongamento violento do coito.

As albas calaram fundo na sensibilidade lírica ocidental. Como nos lembra Segismundo Spina, depois das cruzadas contra os albigenses (1209), a alba adquiriu significados religiosos, onde a noite se associava ao pecado e o raiar do dia à pureza do coração. Esta vertente se desenvolveria e desembocaria, por exemplo, na noche escura de San Juan de la Cruz. Não chego a dizer, em relação ao vezo original das albas, que ele chegou a um patamar de dominância. Calar fundo eu realmente acho que calou. Mas dominância… Nah. A situação do amor como algo impàssipossível se enraizou e se enraíza forte demais na poesia amorosa, de modo que um gênero como a alba, que pressupõe uma carnalização prévia, não grassou tanto. As pessoas fruem apenas aquela poesia amorosa que pressupõe uma distância, no geral angustiante (catártica, eu diria), para com o objeto amado. A aproximação erótica é recalcada violentamente. Mas apesar disso, calar fundo, calou: veja: nós podemos encontrar a alba por exemplo na cena do balcão de Romeu e Julieta ou então num poema como The Sunne Rising de John Donne. Se aceitarmos a relativização da aurora e pensarmos o legado da alba como sendo apenas o de uma ocasião de prazer que teve de ser interrompida, então creio que o caso moderno de Konstantinos Kaváfis possa dar excelentes ensejos, por exemplo o de quando ele nos conta de dois amantes que tiveram de sair meio que às pressas de seu quarto, no final de tarde, enquanto o sol dourava só até metade da cama. Em solo satírico e amargo nós podemos nos lembrar de Aubade de Philip Larkin (o leitor pode encontrar uma ótima tradução de Alipio Correia Neto aqui). Já em solo nacional, para não me estender muito nos apontamentos, o Poema só para Jaime Ovalle de Manuel Bandeira guarda lembranças da alba, embora seja um poema para solteiros, e, mais recentemente, a sequência Cigarros na Cama, de Ricardo Domeneck, também entra em contato com a tradição.

Além de minhas traduções para a alba occitana e da versão de Pound, incluo, para o texto occitano, a tradução de Nelson Ascher, inclusa no livro Poesia Alheia, editora Imago, 1998, p. 71, e, para a versão de Pound, a tradução de Mário Faustino, inclusa no livro Poesia, editora Hucitec e UNB, 1983, p. 102 (a célebre força-tarefa Faustino-Siamesmos-Pignatari-Grünewald), e a de Rodrigo Garcia Lopes para a Zúnai (aqui).

Matheus Mavericco

§

ALBA
Anônimo, século XII.

trad. Matheus “Mavericco”.

Se ao par o rouxinol pia
Passa noite e passa dia,
Passeio com meu amor
……Flor a flor
Até gritar o vigia:
“Parou! Pois logo, eu reparo,
Raia a aurora e o dia claro.”

*

trad. Nelson Ascher.

Quando o rouxinol
canta ao par, do pôr
ao nascer do sol,
entre flor e flor
beijo o meu amor

até que o vigia
brade torre afora:
“Amantes, é dia;
acordem, que a aurora
manda a noite embora!”

*

Quan lo rosinhols escria
ab sa part la nueg e.l dia,
yeu suy ab ma bell’amia
……jos la flor,
tro la gaita de la tor
escria: “Drutz, al levar!
Qu’ieu vey l’alba e.l jorn clar”.

§

ALBA.
Ezra Pound.

trad. Matheus “Mavericco”.

Enquanto canta o rouxinol
A seu par, tanto à noite e ao sol,
Meu amor e eu, a gente se ama
Na rama,
Na grama,
‘Té que o guarda da torre exclama:
……“Ora
……Pois!
…………De pé, os dois!
…………A branca aurora
………………Pôs
…………O escuro para
………………Fora!”

*

trad. Mário Faustino.

Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
……“Levanta patife, sus!
…………Vê, já reluz
………………A luz
………………Depressa, corre,
………………Que a noite morre…”

*

trad. Rodrigo Garcia Lopes.

Quando o rouxinol pra sua amada
Canta o dia todo e a madrugada
Com minha amiga deito de mãos dadas
Sob folhas,
Sobre flores,
Até que lá da torre o sentinela
Berra:
……“De pé, malandro, Vai!
……Que eu vejo a jovem
…………Luz
…………E a manhã já
………………Vem”

*

ALBA.

When the nightingale to his mate
Sings day long and night late
My love and I keep state
In bower,
In flower,
Till the watchman on the tower
Cry:
……“Up! Thou rascal, Rise,
……I see the white
…………Light
…………And the night
………………Flies”

§

Nuno Fernandes Torneol.

Levad’, amigo, que dormides as manhanas frías;
toda-las aves do mundo d’amor dizían.
……Leda m’and’eu.

Levad’, amigo, que dormide-las frías manhanas;
toda-las aves do mundo d’amor cantavan.
……Leda m’and’eu.

Toda-las aves do mundo d’amor dizían;
do meu amor e do voss’en ment’havían.
……Leda m’and’eu.

Toda-las aves do mundo d’amor cantavan;
do meu amor e do voss’i enmentavan.
……Leda m’and’eu.

Do meu amor e do voss’en ment’havían;
vós lhi tolhestes os ramos en que siían.
……Leda m’and’eu.

Do meu amor e do voss’i enmentavan;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan.
……Leda m’and’eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que siían
e lhis secastes as fontes en que bevían.
……Leda m’and’eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan
e lhis secastes as fontes u se banhavan.
……Leda m’and’eu.

Padrão
poesia, tradução

Poetas e Poemas Tang a partir de William Carlos Williams (pt. 4), por Danilo Augusto

1 - li po

Li Po

 

este é o quarto & último texto da série preparada por danilo augusto para o escamandro, com um ensaio sobre a sua visão & experiência pessoais diante das traduções de poetas da dinastia tang feitas pelo poeta norte-americano william carlos williams em parceria com o sinólogo david rafael wang. a meu ver (aliás bem diverso do de danilo augusto), a grande importância de um projeto como esses é a possibilidade de ampliarmos nossa visão das visões sobre a poesia chinesa. para o leitor que chega até aqui, não se trata de criticar se o que chega até nós pelas traduções do danilo é fiel ou não, se realmente mostra os chineses “tal como eles escreveram”: isso certamente é um delírio de verdade, no campo da poesia. mais interessante é ver como diferentes lentes se adaptam ao texto chinês para a recriarem na língua inglesa: WCW & david r. wang são uma parte dessa história de tradução, aclimatação, recriação, reinvenção, transcriação, ou como quiserem chamar. mas a história é muito mais longa; por isso, danilo augusto ainda apresenta, no fim deste post, três traduções retraduzidas de um mesmo poema de li po: uma de ezra pound, uma de WCW/DRW & outra de david hinton. ao retraduzir, o que temos é a prova prática de que aquele corolário tradutório de walter benjamin (a saber, que traduções não merecem ser, por sua vez, traduzidas) não vale nada. traduções poderosas, que conseguem se estabelecer como novos textos (tenho certeza que as de pound e de WCW já são assim consideradas em língua inglesa), pelo contrário, pedem para ser traduzidas, porque interferem de tal modo na história do texto original, que se tornaram textos importantes por si próprias, agora nós temos uma nova lente que as traduz ao português, não como mera muleta por falta de conhecimento do chinês, mas pelo interesse que a leitura de WCW é capaz de produzir, o que sugere um jogo de espelhos & retraduções potencialmente infinito.

guilherme gontijo flores

* * *

Ensaio sobre a poesia e poetas da Dinastia Tang

Danilo Augusto

I

Em sua seleção e recriação dos poemas da Dinastia Tang, William Carlos Williams, com parco conhecimento do idioma, contou com a colaboração de David Wang, orientalista e poeta sino-americano, que lhe forneceu amplos comentários, notas e traduções a partir do original. A intenção do poeta, mais que uma “tradução propriamente dita”, era a de fazer uma adaptação destes poemas ao “idioma americano” – princípio que norteou boa parte da sua escrita – porém, mesmo com este objetivo, ele escreve para seu colega após alguns meses de trabalho em conjunto:

Tenho lutado com os poemas, porém falhei em obter uma réplica da língua antiga. Certamente, o que você me passou não corresponde a isso. (…) É uma poesia arcaica, cujo verdadeiro sentimento está muito distante de nós para ser por nós capturado. Mesmo se eu me imergisse – supondo que pudesse – na língua, seria um tarefa exaustiva que levaria toda a vida para se realizar. A única coisa que resta é retornar-lhe os poemas.

Ainda assim, Wang continuou remetendo seu trabalho para WCW, que se encarregou de “adaptá-los”, concedendo-lhes uma sintaxe americana e sintagmática, com o intuito de torná-los mais próximos de seu leitor.

O resultado desta empreitada foi apresentado em  The Complete Poems of William Carlos Williams, Vol. II, pela editora New Directions, que, chegando-me às mãos, me provocou grande impressão. A sensação, que primeiro adveio, de estranhamento daquela poesia e poetas tão distantes e diversos de mim se mesclou a uma segunda; a de sentir ler um poema liso e sem rugas, algo como a fluidez de uma boa fala em sua língua original.

Ao desvincular suas pretensões de qualquer impossível fidelidade formal, os poemas não deixam transparecer algum tropeço ou espaço vazio que, tantas vezes, nos vemos adivinhando em traduções de poesia. Se há algum jogo de compensação daquilo que entra ou sai do poema, daquilo que se renomeia ou simplesmente se modifica, isto não transparece ao leitor. Não há marcas dos processos de soma e subtração que visam a um encaixe em uma métrica e sistema tonal estabelecido – algo que permanece tão presente em nossos projetos de traduções, mesmo quando já abandonado qualquer intuito de fidelidade quanto ao “que o poeta quis dizer”. Com a aparência de ser reduzido às suas enunciações de conteúdo e contraste de contemplações, o poema nos chega como imagem completa e sem dívidas, eficaz naquilo que nos deixa a intuir.

A sensação é que WCW quis se ater firmemente àquilo que o poema diz em seu sentido mais material, imagem e enunciação, esperando que possamos encontrar na faceta substantiva das palavras norte-americanas o resíduo concreto de algo que nos foi remetido há quase dois milênios, em uma terra e cultura estrangeira. Era de se esperar que nos deparássemos com um trágico busto de Ozimândias, destruído, semienterrado, incompleto e tomado pelo amplo deserto; porém, esta não foi a sensação que me tomou ao primeiro ler os poemas recriados pelos dois.

 

II

Com grande ignorância da língua chinesa – fora um mero conteúdo de introdução formal e teórica – me deparei, como tradutor, com esta contingência exuberante: a de ser o terceiro elo desta corrente que me liga a uma literatura ininteligível para mim. Este é um fato que, embora enorme e incontestável, teve que ser posto em perspectiva daquilo que pretendi fazer em minha tradução: comunicar este sentimento material que senti.

Ao cotejar os resultados alcançados por WCW e Wang com outros (por vezes, com vastas anotações e exemplificações literais) confirmei que o intuito de conceder o “idioma americano” aos poemas foi tarefa bastante notável e que moldou profundamente o resultado, tornando-o distante das demais traduções disponíveis. Os poemas ganharam maior linearidade, centramento no enunciador e ordenação de enunciações, fatores que não vemos em outras traduções e que diferem da ideia de simultaneidade e heterogeneidade expostas nos comentários da poesia chinesa e que podemos ler ou intuir em seus exemplos em prosa e notas de tradução literal. A organização sintática dos versos, a firmeza do lugar e tom do enunciador, são características bastante ocidentais que podemos ver nos trabalho de WCW e que, portanto, são mantidas nestas traduções.

No entanto, vale frisar, estas são decorrências de uma opção tomada em frente a uma completa impossibilidade de intenções de “fidelidade” ou mesmo recriação de uma estrutura métrica e tonal com o original. Com diferenças fundamentais que nos trazem as línguas analíticas e sua correspondência na escrita logogramática, sem representação alfabética direta com a nossa língua (mais abstrata, próxima em sua referencia som-escrita), o chinês é uma língua evocativa em que as palavras simbolizam as coisas antes em sua forma (desenho) do que em sua transcrição fonética. Majoritariamente monossilábico, o chinês diferencia seus fonemas compostos por silabas idênticas em diversos tons musicais, sendo, assim, uma língua extremamente compacta. Cada fonema, isolado, é uma mônada sonora de sentido semântico. Essa composição do poema chinês é puramente intransponível para seu suporte no português; a diferença se estende para além de um plano de adaptação e conformação – ou melhor, o jogo de compensação que se dá, por exemplo, quando o tradutor se depara com a maior gama de vogais no idioma inglês e tem que transportar o poema para seu ambiente tonal reduzido, no português – e se depara com a irredutibilidade de dois suportes distintos em suas ferramentas primeiras de representação.

Assim, podemos dizer que os resultados fornecidos por WCW e Wang abrem mão do lado melódico do original[1] na busca por um sentido poético da enunciação, daquilo que o poeta está a nós declarar de forma mais objetiva: “há neve no chão”; “meus cabelos estão brancos”; “as árvores estão sem folhas” etc. Porém, o elencar e, principalmente, o contrastar dessas enunciações se mostram como suficientes para comunicar um sentido e/ou imagem poética que reconhecemos como potente e bela e, ainda, como não sendo própria de William Carlos Williams, mas vinda até nós de poetas outros, e que podemos começar a conhecer e vivenciar seus sentimentos, mesmo que as palavras que eles tenham usado para transmiti-los nos sejam irreconhecíveis.

Se, por um lado, tanto se perde, e se é permitido perder, nestas traduções – que, mesmo ainda no plano da linguagem escrita, mostram-se como verdadeiramente intersemióticas em seus movimentos irredutíveis de transposição chinês antigo > inglês > português –, gostaria de acreditar que muito também fica (transformado ou recomunicado) em possibilidades de leitura e de reconhecimento de um sentido poético arcaico e originalmente heterogêneo ao nosso modo de inteligir o mundo e a própria interioridade.

 

III

Nestes 10 poemas de 6 poetas apresentados[2], encontramos uma poesia de contemplação e constatação que pode nos comunicar sentidos poéticos ao simples elencar de duas imagens que se contrastam. O motivo destes contrastes, por vezes, parece ser pouco evidente, mais intuível do que simplesmente demonstrável, e, de fato, não captável “pelo entendimento”. O poeta está sempre nos mostrando coisas, sejam elas um movimento do seu interior ou acontecimento natural, jamais nos demonstrando como ou por que de algo; não há considerações ou mesmo comparações entre duas coisas, as duas imagens são elencadas em uma ordem que parecem se interpenetrar, completando-se, ou se divergirem em um contraste que, ao intuirmos, nos faz sentir seu sentido poético.

Os passarinhos voaram pra longe das montanhas,
A marca do homem sumiu de todos os caminhos,
Mas sob uma vela solitária um velho se agacha,
Pescando em meio à tempestade de neve.
(Liu Chung-Yuan)

Mesmo a metáfora não é, aqui, utilizada. Parece não haver sobreposições invisíveis nas palavras elencadas, mas sim nas relações maiores das imagens escolhidas. Neste exemplo acima, e em diversos outros, podemos perceber o centro do poema se estruturar a partir da partícula adversativa “mas”; talvez esta partícula tenha sido incluída por WCW para evidenciar este contraste que, aqui, se mostra bastante claro. Neste outro exemplo, o “mas” é ainda evidente, porém parece sugerir um contraste um tanto mais vago, que nos exige maiores poderes de intuição:

Retornando após ter deixado meu lar na infância,
Mantive meu sotaque mas não a cor dos meus cabelos.
Confrontando as crianças sorridentes que me cercam,
Sou inquirido de onde vim.
(Ho Chin-Chang)

“Mantive meu sotaque mas não a cor dos meus cabelos”, duas enunciações que, primeiramente, parecem conflitar por uma razão misteriosa, porém que, depois, nos comunicam um sentido poético que não conseguimos especificar exatamente onde se encontra (embora seja sentido de forma direta), mas que passeia junto ao tema do forasteiro que retorna, o lar abandonado na infância e essas novas crianças que não o reconhecem e, também, não são por ele conhecidas; embora uma parte dele permaneça idêntica – seu sotaque – como elo entre o presente e o passado, como marca de seu pertencimento, agora apagado pela idade.

Em alguns outros poemas este “mas” não chega a ser anunciado porém, ainda, pode ser intuído, mesmo embora, agora, pareça não sugerir a força de um contraste, e sim, talvez, algo mais fluido, como uma incompatibilidade que o poeta quer nos fazer vislumbrar a fim de que alcancemos o sentido de sua contemplação.

 

 

IV

Embora escritos em uma ordenação sintática bastante familiar, os poemas selecionados e, primeiro apresentados por WCW e, agora, por mim retraduzidos, nos comunicam uma sentimento poético único e autônomo. A primeira sensação que me adveio ao lê-los em conjunto foi a de constatar uma completa falta de subjetividade exposta. Quando os poetas dizem do seu interior, eles o fazem com o mesmo sentimento em que anunciam eventos naturais; eles antes contemplam a si mesmos, do que consideram ou entendem.

Guiando minha canoa a uma ilha nebulosa,
Assisto ao sol enquanto minhas dores se erguem;
(…)
(Meng Hao-Jan)

O interior e o exterior é ordenado em uma enunciação, porém não há julgamentos sobre o que se diz e, muito menos, explicações. O poeta nos concede uma imagem para que olhemos para ela, e não para que busquemos seu entendimento final.

A palavra “contemplação”, embora sempre utilizada ao se referir vagamente a uma grande “estética oriental”, ainda parece bastante adequada para pensarmos sobre esta poesia. A poesia chinesa foi base pra muitas outras tradições, como a da poesia antiga japonesa e suas formas popularizadas no Ocidente (como o waka e o haikai), onde melhor aprendemos a reconhecer este seu caráter contemplativo.

O andarilho, o lago, a folha de cerejeira que cai e o pássaro que anuncia cada uma das 4 estações foram temas que comunicaram ao Ocidente este modo de sentir deslocados de um eu interior supercentrado e sempre superior ao mundo externo e sensível. Porém, herdando parte de sua forma e temas da poesia chinesa, principalmente em seu centro canônico da Dinastia Tang, os mestres japoneses deram continuidade e modificaram uma tradição bastante anterior.

Esta tradição, visível e sensível nestes poemas apresentados, faz-nos perceber um legado gigantesco que eu, pelo menos, ainda mal comecei a vivenciar. Podemos sentir nesta seleção de poemas[3], que começa em 689 d.c com Meng Hao-Jan, um princípio e sensibilidade irmanando àquele expresso pelo mestre Hattori Tohō (1657 – 1730), um dos discípulos mais ilustres do poeta Bashō, quando o cita:

Aprenda sobre o pinheiro com o pinheiro, aprenda acerca do bambu a partir do bambu.} este dito do nosso instrutor significa que tu deves abandonar a subjetividade. Se interpretares {aprenderes} da tua maneira, acabarás por não aprender. {Aprender}, aqui, significa penetrar no objeto; então se sua essência se revelar e te comover, tu poderás talvez ter a inspiração para um verso. Mesmo quando parece que descreveste o objeto, o objeto e teu eu permanecerão separados, e a emoção que tiveres descrito não atingirá a sinceridade, porquanto esta terá sido de alguma maneira construída pela tua subjetividade.[4]

 

V

Porém, esta contemplação pode levar-nos a perspectivas poéticas e ontológicas bastante diversas. Com os andarilhos, budistas e sábios da poesia japonesa nos, percebemos constantemente um mundo em perpétuo movimento e mudança, onde o poeta busca (como o excerto anterior já nos diz) através de sua contemplação e exercício da arte, uma iluminação momentânea da verdade. No entanto, estes princípios ainda estão nascendo e se disseminando na China da Era da Dinastia Tang. Mudança e movimento, aqui, se embatem com uma forma anterior de inteligir o mundo e que pode se mostrar como sua verdadeira antítese: o confucionismo.

Para o confucionismo, o destino da terra e sua vida está invariavelmente traçado nos Céus imutáveis. O homem não evolui junto com o universo, mas sim sempre com ele se ajusta a fim de manter uma harmonia eterna. O estudioso Nissin Cohen nos diz sobre esta filosofia, que:

No coração de toda a especulação confuciana está a doutrina que afirma que o universo é um todo harmônico, no qual homem e natureza constantemente interagem um sobre o outro em todos os aspectos da vida. Dessa doutrina concluiu-se que as ações do homens afetam a ordem natural, que é sensível, acima de tudo, à qualidade ética dos seus atos. Se o homem falha em preencher sua própria função, a natureza age ou opera de modo a restaurar o equilíbrio total ou a harmonia.

A interação entre as ações e julgamentos éticos e o mundo exterior é completa e sempre age a fim de assegurar a permanência e a harmonia de um estado anterior. E, talvez, esta noção nos faça entender um pouco como poetas como Li Po, às vezes, parecem ver indiferenciadamente os movimentos do seu sentimento e pensamento interior e a neve que se deposita no chão, ou a lua que, enfim, se mostra sobre sua cabeceira.

O poeta parece sempre avistar algo total – talvez o mundo e a realidade como verdadeiramente são – por isso raramente percebemos alguma angústia por uma revelação oculta ou um por passo em caminho à evolução espiritual. Declarar aquilo que acontece no mundo e aquilo que acontece dentro de si é declarar estas relações que permitem a harmonia; e estas relações, em seus conflitos insolúveis ou inesperadamente complementares, nos comunicam a beleza de seu sentimento poético.

Porém, fossem só estes os sentimentos comunicados a nós pelos poetas, certamente, adviria um inescapável fatalismo. A harmonia confuciana é um fator (de grandíssimo peso, é verdade), no entanto, a ela se mesclam diversas outras doutrinas e modos de ver e sentir o mundo (o budismo em suas origens, o xintoísmo animista), compondo uma tradição que agrupa centenas de poetas por quase trezentos anos. Aqui me faltará conhecimento e capacidade para analisar estas facetas da poesia Tang em sua profundeza e amplitude.

Porém, acredito ter fornecido, com estes 6 poetas selecionados, uma oportunidade de conhecimento e introdução ao que é esta gigantesca e fascinante tradição da poesia chinesa a partir dos olhos criadores de WCW e Wang.

 

Notas

[1] Por exemplo, procure pelas declamações de poemas de Li Po, 李白, no youtube, e repare na cadência melódica composta pelos tons de cada fonema, ditos de forma modular e isolada.

[2] Este ensaio é seguido por 3 versões comparativas de um mesmo poema canônico de Li Po. Traduzidos do inglês, a partir de WCW, Pound e David Hinton, serão apresentadas, ao todos, 13 versões

[3] Onde a única metáfora só parece ocorrer de forma completa justamente no último verso do ultimo poema: “O sentimento da partida / Se agarra feito folha úmida ao meu coração”.

[4] Em Hiroaki Sato e Burton Watson. From the Country of Eight Islands: An Anthology of Japanese Poetry.

 * * *

A Esposa do Comerciante do Rio: Uma Carta

a partir de Ezra Pound

Na época em que ainda cortavam meu cabelo rente à testa
Eu brincava no portão da frente, colhendo flores,
Você veio sobre um pedaço de bambu, como um cavaleiro,
Você me cedeu um lugar ao seu lado, brincamos com as ameixas azuis.
E fomos viver na aldeia de Chokan:
Dois pequeninos livres de suspeitas ou antipatia.

Aos catorze me casei com você, meu Senhor.
Sendo acanhada, eu nunca ria.
Baixando minha cabeça, encarava a parede.
Mil vezes requerida, nunca olhei para trás.

Aos quinze deixei de cara feia,
Desejava que meu pó se misturasse ao seu.
Para sempre e sempre e sempre.
Para que precisaria de vigília?

Aos dezesseis você se foi,
Foi para o longínquo Ku-to-en, pelo rio dos redemoinhos,
Há cinco meses você se foi.
Os macacos fazem seus barulhos tristes lá em cima.

Você arrastou os pés quando partiu,
E agora no portão há musgos crescendo, diferentes,
Profundos demais para serem limpos!
As folhas caem mais cedo neste outono, pelo vento.
Os casais de borboletas já amarelaram com Agosto,
Ao longo da grama no Jardim Ocidental;
Eles me machucam. Eu envelheço.
Se você está retornando pelos estreitos do rio Kiang,
Por favor, me diga antes
E eu irei partir ao seu encontro
Até a longínqua Cho-Fu-Sa

The River-Merchant’s Wife: A Letter

While my hair was still cut straight across my forehead
I played about the front gate, pulling flowers.
You came by on bamboo stilts, playing horse,
You walked about my seat, playing with blue plums.
And we went on living in the village of Chokan:
Two small people, without dislike or suspicion.
At fourteen I married My Lord you.
I never laughed, being bashful.
Lowering my head, I looked at the wall.
Called to, a thousand times, I never looked back.

At fifteen I stopped scowling,
I desired my dust to be mingled with yours
Forever and forever and forever.
Why should I climb the look out?

At sixteen you departed,
You went into far Ku-to-en, by the river of swirling eddies,
And you have been gone five months.
The monkeys make sorrowful noise overhead.

You dragged your feet when you went out.
By the gate now, the moss is grown, the different mosses,
Too deep to clear them away!
The leaves fall early this autumn, in wind.
The paired butterflies are already yellow with August
Over the grass in the West garden;
They hurt me. I grow older.
If you are coming down through the narrows of the river Kiang,
Please let me know beforehand,
And I will come out to meet you
As far as Cho-fu-Sa.

Travessa do  Corrimão

a partir de William Carlos Williams

Na primeira vez que meu cabelo foi cortado rente à testa
Eu brinquei frente à minha porta, colhendo flores.
Você veio cavalgando um pedaço de bambu,
Dando voltas em meu jardim, brincando com as ameixas verdes.
Vivendo como vizinhos na Travessa do Corrimão
Tínhamos um grande carinho que ninguém suspeitava.

Aos quatorze virei sua esposa,
Com grande timidez, eu nunca sorria.
Baixava minha cabeça para uma parede escura,
E jamais atendia por mais que me chamassem.

Aos quinze passei a mostrar minha alegria,
Desejava ter meu pó misturado ao seu.
Com uma devoção inabalável,
Pra que procurar se tinha você?

Aos dezesseis você saiu de casa
Por vias íngremes e turbulentas rumo a uma terra longínqua
Que em maio era impossível alcançar,
E onde os macacos se queixavam tristemente para os céus.

As pegadas que deixou quando saiu pela porta
Foram cobertas pelo musgo verde,
Musgo novo e profundo demais pra ser varrido.
O vendo de outono chegou cedo e as folhas já começaram a cair.
As borboletas amarelaram em agosto,
Flutuam em pares no jardim ocidental,
Olhando pra elas sinto meu coração apertar
e quedo triste por minha juventude que desvanece.

Todo dia e toda noite eu espero seu retorno,
Espero sua carta que há de chegar ainda antes,
Para que eu possa partir e lhe encontrar no caminho
Até a longínqua Areia do Vento.

Long Banister Lane

When my hair was first trimmed across my forehead,
I played in front of my door, picking flowers.
You came riding a bamboo stilt for a horse,
Circling around my yard, playing with green plums.
Living as neighbors at Long Banister Lane
We had an affection for each other that none were suspicious of.

At fourteen I became your wife,
With lingering shyness, I never laughed.
Lowering my head towards a dark wall,
I never tamed, though called a thousand times.

At fifteen I began to show my happiness,
I desired to have my dust mingled with yours.
With a devotion ever unchanging,
Why should I look out when I had you?

At sixteen you left home
For a faraway land of steep pathways and eddies,
Which in May were impossible to traverse,
And where the monkeys whined sorrowfully towards the sky.

The footprints you made when you left the door
Have been covered by green moss,
New moss too deep to be swept away.
The autumn wind came early and the leaves started falling.
The butterflies, yellow with age in August,
Fluttered in pairs towards the western garden.
Looking at the scene, I felt a pang in my heart,
And I sat lamenting my fading youth.

Every day and night I wait for your return,
Expecting to receive your letter in advance,
So that I will come traveling to greet you
As far as Windy Sand.

Canção da vila Ch’ang Kan

a partir de David Hinton

Estas franjas ainda não atingiam meus olhos,
Eu brincava em nosso portão, colhendo flores,

E você veio sobre seu cavalo de bambu
Circulando o poço, arremessando ameixas.

Vivíamos juntos aqui em Ch’ang Kan
Dois pequeninos livres de suspeita.

Aos catorze, quando me tornei sua esposa,
Tão tímida e traída, jamais sorria,

Confrontei muros e sombras com olhos abatidos.
Milhares de apelos; a todos ignorei.

Aos quinze, minha careta passou a amolecer.
Queria-nos mesclados em cinzas e pó,

E você sempre em prontidão me respondia
Nenhuma sentinela aguardando seu retorno.

Aos dezesseis, você navegou para o distante
Rochedo de Yen-Yu no Desfiladeiro Ch’ü-tang,

Ferozes águas impossíveis de junho
Uivantes gibões clamando aos céus.

Em nosso portão, onde você hesitou,
Musgos sepultaram seus passos um a um.

Verdes e profundos, não posso livrar-me
E o outono se adianta. Folhas caem.

É setembro agora. Borboletas aparecem
no jardim oeste, voando em pares,

e isso me dói. Sento-me, coração aflito,
flor da juventude no meu antigo rosto.

Antes de partir em retorno do além,
tantos desfiladeiros, envie uma carta.

Não entenda que irei mais distante
Que as Areias de Chan’g-feng

Ch’ang-Kan Village Song

These bangs not yet reaching my eyes,
I played at our gate, picking flowers,

and you came on your horse of bamboo,
circling the well, tossing green plums.

We lived together here in Ch’ang-kan,
two little people without suspicions.

At fourteen, when I became your wife,
so timid and betrayed I never smiled,

I faced wall and shadow, eyes downcast.
A thousand pleas: I ignored them all.

At fifteen, my scowl began to soften.
I wanted us mingled as dust and ash,

and you always stood fast here for me,
no tower vigils awaiting your return.

At sixteen, you sailed far off to distant
Yen-yü Rock in Ch’ü-t’ang Gorge, fierce

June waters impossible, and howling
gibbons called out into the heavens.

At our gate, where you lingered long,
moss buried your tracks one by one,

deep green moss I can’t sweep away.
And autumn’s come early. Leaves fall.

It’s September now. Butterflies appear
in the west garden. They fly in pairs,

and it hurts. I sit heart-stricken
at the bloom of youth in my old face.

Before you start back from out beyond
all those gorges, send a letter home.

I’m not saying I’d go far to meet you,
no further than Ch’ang-feng Sands.

* * *

Li Po (já apareceu aqui,  em trads. de Danilo Augusto) também conhecido como Li Bai ou Li Bo, nasceu em 701, ao redor do atual Quirguistão, e é, hoje, referenciado como o maior poeta da Dinastia Tang (a “era de ouro” da poesia chinesa). Comumente carregando epítetos como “o imortal” ou “o transcendente”, Li Po tem sua vida e escrita rodeadas por lendas e idealizações. O poeta compôs cerca de mil poemas, sendo que muitos têm até hoje sua autoria contestada; esta obra exerceu uma influencia larguíssima em todo Oriente e, mais tarde, no Ocidente, por vias de autores e figuras canônicas como Ezra Pound e Gustav Mahler (no ABC da Literatura, Pound usará Li Po como o maior exemplo do uso da imagem em poesia) e, também, por vastas e múltiplas traduções e retraduções a partir de outras línguas (no Brasil, temos algumas traduções de Cecília Meireles). Sua realização é considerada, por muito, como de perfeição formal e, embora não tenha desenvolvido novos metros ou temas, é referenciado como o grande mestre e retomador das tradições da poesia chinesa anterior, sempre lembrado pelo seu virtuosismo singular. Li Po comumente assumia variados pontos de vistas ou “personas”, incluindo o de mulheres e crianças, e uma das características mais citadas em sua escrita é de uma profunda nostalgia aliada a um olhar infantil ou inocente, tendendo a personalizar e dialogar com elementos da natureza e, também, uma grande permeabilidade do Taoismo que, com suas noções de imutabilidade e reclusão, é bastante visível em seus poemas. Um dos temas mais recorrentes e característicos de Li Po, e que perfaz alguns de seus poemas mais populares, são o vinho e a embriaguez –   o poeta é considerado o fundador do estilo de Kung Fu “Os Oito Imortais”, que consistia, primariamente, na falta de linearidade aliado à extravagância e imprevisibilidades em seus movimentos, um “lutar bêbado” mais tarde popularizado por Jackie Chan no cinema.

(traduções de Danilo Augusto, com base nas traduções inglesas de Ezra Pound, William Carlos Williams e David Hinton)

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crítica

Marjorie Perloff e o Gênio Não Original

perloffTalvez eu pudesse comparar a atividade de ser tradutor – o símile vale para revisores também, mas na tradução a coisa é mais intensa – a um tipo de roleta russa. Muitas vezes você pode ser chamado para traduzir livros ruins, tediosos, ridículos, mal escritos, que te fazem desejar que eles nunca tivessem visto a luz do dia, que dirá sido traduzidos. Felizmente, porém, este ano não peguei nenhuma dessas bombas em mão, e, qualquer que seja o deus que rege as traduções, reconheço que ele tem sido muitíssimo benevolente comigo. Primeiro, porque no primeiro semestre tive a oportunidade de traduzir o romance pós-moderno Deuses Sem Homens, do britânico Hari Kunzru (editora Nossa Cultura, daqui de Curitiba), um livro excelente, sobre o qual não me estendo agora apenas pelo fato de que este aqui é um espaço para discussão de poesia mais do que prosa (de qualquer forma, porém, fica aqui a minha sugestão de leitura, sobretudo para quem gosta de autores como Kurt Vonnegut, Don DeLillo ou Thomas Pynchon). Na sequência, a editora da UFMG me contatou para a tradução de O Gênio Não Original, da professora e crítica literária Marjorie Perloff, autora de outros livros importantes da área como A Escada de Wittgenstein.

O assunto de O Gênio Não Original – que, por sinal, foi lançado hoje, exatamente, em Belo Horizonte – é a poesia conceitual e apropriativa, que Perloff chama de não original (unoriginal), não para desconsiderá-la, com ares pejorativos, considerando-se o quanto o nosso paradigma lírico firmado desde o começo do século XIX na poética romântica valoriza a originalidade, mas por ser uma poesia que renuncia à essa necessidade de originalidade e de expressão individual, gerada a partir do discurso alheio (às vezes literário, às vezes banal, ou então um misto dos dois) ou a partir de restrições experimentais. No primeiro capítulo, introdutório, Perloff trata do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, famoso justamente pela técnica de colagem literária à qual, como ela comenta, Eliot jamais retornou (posteriormente, a autora fala de Ezra Pound também). O capítulo seguinte se concentra sobre o Passagen-Werk (traduzido como Passagens, publicado também pela UFMG), de Walter Benjamin, uma obra colossal (e, o que é mais assustador, inacabada) composta quase que inteiramente de recortes, com alguns comentários do autor, que Benjamin planejava publicar com o título de Paris, Capital do Século XIX – o assunto que costura todo o livro, como se pode imaginar, é Paris e suas passagens ou arcadas, o lugar ideal para a prática da flânerie baudelairiana.

Na sequência, há uma discussão sobre poesia concreta, o que é surpreendente vindo de uma autora norte-americana, uma vez que no mundo anglófono o concretismo foi uma tendência que nunca pegou e até hoje é ainda muito mal-compreendida – e, como aponta Perloff, as acusações contra o concretismo variam entre ele ser uma “falácia icônica”, um “cratilismo” (em referência ao diálogo Crátilo, de Platão) ou de que esse tipo de poesia deveria ser discutido nos departamentos de design, em vez de letras. E, quando ela começa a falar das origens do concretismo, em países como Suíça, Suécia, Áustria, Escócia e o Brasil (além de falar do grupo Noigandres, ela menciona também Gomringer, Fahsltröm, Jandl e Finlay), de repente parece claro o porquê dessa rejeição, uma vez que se trata de um fenômeno do pós-guerra que surgiu em países periféricos, resistente à estética da introspecção existencialista que se desenvolveu nos países culturalmente centrais como a França, que foram o palco principal da Segunda Guerra. Outro conceito interessante que Perloff traz à tona, a partir da obra de William Marx, é o do concretismo como uma forma de arrière-garde, retaguarda, em vez de vanguarda, i.e. um movimento de consolidação (sobretudo no caso brasileiro, com a adoração a Pound, Mallarmé, cummings e Joyce) e não de ruptura, como foi o Futurismo, o Dada, o Surrealismo, etc. Enfim, sem querer valorizar o olhar estrangeiro mais do que o local, é, de qualquer modo, muito iluminador ter uma perspectiva externa sobre autores aos quais estamos mais do que acostumados e que parece que o restante do mundo está finalmente descobrindo – e, nesse sentido, a citação de Kenneth Goldsmith a respeito de uma mesa redonda com Décio Pignatari, de 2001, que abre esse capítulo 3, é curiosíssima: Eu fiquei atordoado. (…) De repente, fez sentido: como na famosa declaração de Kooning: “A história não me influencia. Eu que influencio a história”, demorou até a vinda da Web para vermos o quanto a poética concretista foi pré-ciente em prever sua própria e calorosa recepção meio século depois.

gênio não originalPelo bem da brevidade, não vou prosseguir dando descrições detalhadas de cada capítulo – me detive mais ao capítulo 3 justamente pela raridade que é um crítico estrangeiro não só voltar o olhar para a nossa produção, mas fazê-lo com a consideração e a abertura necessárias para se tecer comentários relevantes, ao contrário dos críticos que mantêm visões estereotipadas, preconceituosas e hipersimplificantes. O capítulo 4 elabora ainda essas questões concretistas, mas soma também uma discussão sobre a Oulipo francesa (com direito a comparações frutíferas entre os dois movimentos, com base no encontro de 1977 entre Jacques Roubaud e Haroldo de Campos) e parte disso para abordar a ópera Shadowtime, de Brian Ferneyhough, cujo libreto foi escrito pelo poeta Charles Bernstein, da poesia Language, e que tem como assunto a vida e pensamento de Walter Benjamin – uma obra sobra a qual planejo elaborar mais numa postagem futura. Perloff prossegue, então, para tratar do livro-poema The Midnight, de Susan Howe, depois da poética exofônica de Caroline Bergvall e Yoko Tawada, para enfim encerrar o livro com um capítulo sobre o livro Traffic, do polêmico Kenneth Goldsmith.

Traffic é provavelmente a obra mais indigesta contemplada aqui. Como um livro de poesia conceitual “pura”, ele consiste na transcrição de relatórios de trânsito anunciados no rádio de Nova York ao longo de 24 horas de uma véspera de fim de semana de feriado – e, o que é mais impressionante, faz parte de uma trilogia de livros desse tipo, junto com The Weather e Sports, além de outros volumes de poesia conceitual de transcrição como Soliloquy (disponível online clicando aqui), que registra tudo que o poeta falou ao longo de uma semana, mas sem registrar as falas dos interlocutores. Confesso que acho difícil partilhar do mesmo entusiasmo de Perloff por esse tipo de obra, ainda mais quando lembro que Goldsmith é responsável pelo projeto bizarro de tentar imprimir toda a internet, mas Perloff tem alguns insights reveladores… por exemplo, o de que Traffic, apesar de supostamente transcrever todos os relatórios ao longo de 24 horas de uma véspera de feriado, consegue apagar todas as referências a qual era esse feriado, além de (o que é mais surreal) o feriado acabar inexplicavelmente antes de começar, conforme revelado pelas referências às leis de estacionamento – o que meio que põe por terra a noção dessa transcrição “pura” e “fiel”. Por coincidência, há dois meses saiu um artigo no site da Poetry Foundation de autoria de Robert Archambeau, intitulado “Charmless and Interesting: What Conceptual Poetry Lacks and What It’s Got” (clique aqui), em que o autor expõe uma concepção de poesia com base no “encanto” (charm) e no “interesse”, que me parece uma boa introdução ao assunto, para quem se interessar.  Para Archambeau, a poesia mais tradicional (original, na concepção de Perloff) seria uma poesia dotada desse encanto, esse apelo sensorial (do qual a melopeia poundiana seria um exemplo), ausente na poesia conceitual, que, por sua vez, se torna interessante justamente por ser uma poética não para ser fruída normalmente através dos sentidos, mas para ser objeto de reflexão, invertendo o conceito mallarmaico de que a poesia é feita de palavras, não de ideias. Enfim, qualquer que seja o julgamento a ser feito sobre esse tipo de poesia, ela é um fato e apresenta alguns argumentos convincentes para a sua existência – e, o que é mais interessante para mim, pessoalmente, como estudioso do romantismo, seriam os sinais de uma possível ruptura com o paradigma da poética romântica que essa poesia conceitual parece promover.

Se eu pudesse apontar algo de que senti falta no livro (e eu já apontei isso para a própria Perloff, inclusive, via facebook) seria um elo entre essa poética conceitual e apropriativa não original moderna/contemporânea e os possíveis precedentes dela nos séculos passados, anteriores ao XIX, XX e XXI. Acredito que poderíamos encontrar um antecedente para o livro das Passagens de Benjamin na obra do século XV A Anatomia da Melancolia de Robert Burton (que o nosso colega escamandrista Guilherme Gontijo Flores traduziu integralmente e publicou pela editora da UFPR), também composta como um imenso patchwork de citações eruditas de obras de teologia, geografia, história e, claro, poesia, ao mesmo tempo em que a prática eliotiana do poema citacional não só já era realizada na antiguidade como era um gênero literário à parte, chamado de cento (centão), cujo exemplo mais ilustre é o Cento Nupcialis, de Ausônio (310-395), que compõe um poema erótico-pornográfico a partir de versos extraídos inteiramente de Virgílio. Mas, enfim, essas comparações e considerações ficam para um estudo posterior. De qualquer modo, como é, o livro de Perloff representa uma belíssima introdução para um assunto complicado e polêmico, na medida em que alguma coisa ainda consegue levantar poeira e polêmica no mundo da poesia contemporânea.

Adriano Scandolara

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horácios na ode 1.11 “a leuconoe”

a imagem acima resume o ponto: esta ode de horácio é a mais pop, mesmo que nem tanta gente a tenha lido integralmente. o mote expresso no carpe diem é o resumo de um topos clássico para viver o agora, sem confianças no que possa vir ou não, no dia seguinte.

não pretendo aqui fazer uma apresentação da poesia de quinto horácio flaco (65 a.c. – 8 a.c.), das suas quatro obras (epodos, sátiras, odes & epístolas); mas, como tem virado uma praxe aqui no blog, mostrar uma série de traduções & terminar com a minha.

não pretendo aqui fazer uma crítica digna de cada tradução. em resumo, eu diria que elas são bem variadas (amém!), mas tendem para duas escolhas mais gerais: a) o uso dos versos mais tradicionais (decassílabos e hexassílabos, em geral com mistura entre eles; com o caso do britto, que opta por dodecassílabos na sua recriação); e b) verso livre (tanto do augusto de campos e do paulo leminski, com a visualidade centralizando o texto, quanto o verso mais longo e de levada anapéstica de leandro cardoso). da minha parte, como projeto que tem me consumido ultimamente (a saber, traduzir TODAS as odes de horácio, para o doutorado), tentei recriar o poema com um verso mais longo, ligeiramente anapéstico, que pudesse recriar o efeito de estranheza que o metro original devia ter gerado num romano, pouco acostumado aos metros que horácio incorporou dos gregos em suas odes (catulo também já tinha feito isso com certa sistematicidade, mas com um uso bem mais restrito quanto ao número de formas poéticas). além disso, tentei passar um pouco da secura do poema, seu tom austero e moral, sem penduricalhos (ou, como diria horácio, persicos apparatus).

antologia tradutória, ou quantos horácios cabem num poema?

1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

(quintus horatius flaccus)

* * *

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

(filinto elísio)

* * *

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

(elpino duriense)

* * *

A Leucônidis

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto:
Os vaticínios babilônios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os assentes da Sorte.

Ou Jove te destine mais invernos
À curta idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as taças
De doce vinho, apouca as esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no futuro.

(josé agostinho de macedo)

* * *

A Leucótoe

            Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
            Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão-de ser, se curtas, se compridas;

            Se o escuro lago Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
            Se neste hórrido inverno
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

            Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
            Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

(andré falcão de resende)

* * *

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
            a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
            melhor é suportar
            tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
            quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
            cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
            corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
            Enquanto conversamos
            foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

(péricles eugênio da silva ramos)

* * *

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
            Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

(ezra pound)

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
            Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

(ezra pound via adriano scandolara)

* * *

não me perguntes
                                – é vedado saber –
o fim
que a mim
e a ti
                               darão os deuses
                                                           Leucônoe
                               nem babilônios
números consultes                           antes
                               o que for           recebe
quer te atribua Júpiter muitos invernos
quer o último
                        que o mar tirreno debilita com abruptas
r
o
c
h
a
s
bebe o vinho                      sabe a vida                       e corta
a longa esperança
                                    enquanto falamos
                                                                        foge
                                                                                  invejoso
o tempo:          
                 curte o dia
                                       desamando amanhãs

(augusto de campos)

* * *

não me perguntes
                                 saber não presta
Leuconoe
                    que fim os deuses nos preparam
nem arrisque
                        números de Babel
como se fosse o máximo – o que vier: fature

se o Pai te concedeu vários invernos
ou o último
                      agora o mar tyrrheno cepilha pedras de naufragar
filtre o vinho
                                                                 sorva os coos
                                                                        prazo breve
                                                                        corta
                                                                        a espera
a era já era
                                                                antes do tempo de dizer
estamos conversados

pega este dia
                        crer no próximo
                                                      não vale um nihil

(paulo leminski)

* * *

ODES I, 11

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

Horácio no Baixo
(Odes I, 11)

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

(paulo henriques britto)

* * *

I, 11

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

(leandro cardoso)

* * *

1.11

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

(guilherme gontijo flores)

* * *

para os obcecados que chegaram até aqui & não se saciaram, um link com um punhado de versões para o inglês

guilherme gontijo flores

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as oferendas de dirceu villa (lustra de ezra pound)

na abertura do lustra (1916) de ezra pound, lemos “Definição: Lustrum: uma oferenda pelos pecados de todo o povo, feita pelos censores ao expirarem cinco anos de serviço, etc.”, que dá boa parte do mote para compreendermos o livro como um todo (embora não tudo que o livro possa fazer, ou sequer metade dos seus problemas), bem como seus poemas. a poesia, aqui, está em função de resgate e compensação pela nossa existência – em geral – medíocre neste planeta. assim, a poesia, num sentido pagão, é o nosso elo possível com o divino ou o mistério, com a potência de renovar este mundo.

eu, porém, prefiro pensar a poesia como as oferendas dadas a todo povo como expiação dos pecados dos deuses; justificativa e celebração estética da vida, compensação pela dor, pelo sem sentido que nos é dado a cada dia. assim gosto de ver também a tradução – uma multiplicação dessa oferenda, na missão delirante de cumprir seu objetivo de oferenda a todo o povo.

esta nota é o resultado das oferendas de ezra pound multiplicadas, tranpostas em poesia por dirceu villa com um bom estudo introdutório, notas bem cuidadas & – sim, o mais importante – poesia. poesia duplicada, bilíngue, digna de ser bilíngue. e digo digna porque temos mesmo um problema na recepção de pound no brasil: a versão completa dos cantos feitas por josé lino grünewald é – apesar do louvor inegável da dedicação & do feito em si, encarar essa rocha de cabo a rabo – é indigna, é talvez um desfavor para pound, um desfavor porque não foi capaz de recriar o turbilhão de vozes, tons, sons, estilos agrupados e condensados pelo poeta norteamericano. em resumo, os cantos, em português, para o leitor que não consegue ler inglês, são um livro grande, difícil e feio, tedioso, uma massa rude e indigesta.

por outro lado, a tradução – ao seu modo recorrente de amostra grátis – dos irmãos campos & de décio pignatari (& também de mário faustino) é um primor; mas um primor em geral voltado para os interesses dos debates concretistas em desenvolvimento na segunda metade do século passado: em resumo, pound, no brasil, virou poeta pré-concreto, il miglior fabbro &c. &c.; ou simplesmente não é poeta (no caso grünewald). nesse cenário talvez nem espante que affonso romano santanna tenha escrito aquele disparate intitulado “o que fazer de ezra pound”, artigo publicado no livro homônimo de 2003. sobre esse artigo, calo-me para evitar o vitupério.

talvez por isso tudo pound seja um poeta tão citado, tão paideuma, & ao mesmo tempo tão, mas tão pouco lido, ou pelo menos bem lido no brasil; a não ser no caso dos seus ensaios (abc da literatura & arte da poesia), com aquela prosa, direto na jugular, do seu pensamento crítico.

A nota se alongou, mas chego ao ponto.

lustra, o lustra de dirceu villa, veio renovar ezra pound.

por ser um trabalho de fôlego de traduzir um livro inteiro, mas com uma tradução digna, poética. por tecer um estudo que amplie o espectro da poesia de pound sem focá-lo nos nichos dos grupos literários nacionais por pensar melhor sobre as relações das vanguardas europeias, americanas & europeico-americanas com o desenvolvimento da poesia de pound; por pensar na(s) sua(s) postura(s) política(s) para além da dicotomia que costumamos ouvir nos botecos acadêmicos: facista (os imbecis) X dane-se, era um grande poeta (os ingênuos, ou preguiçosos). por discutir as relações entre influência chinesa pré-fenollosa & cathay junto com a revisão de walt whitman, o uso do verso longo (afinal, quebrar o pentâmetro foi a primeira ânsia), as leituras da poesia francesa recente, de provençais, italianos, &c. por insistir na importância do epigrama grecolatino em fusão com a descoberta do haicai & somado às propostas do imagismo & do vorticismo. por atentar aos experimentos com o verso livre em poemas longos de tom semiépico. por explicitar o caráter “obsceno” que foi visto na obra ao tempo de seu lançamento. enfim, por tentar dar mais facetas, mais dignidade a pound (por isso deixo de exemplo três poemas por sua variedade). em resumo, por tantos &ceteras.

uma verdadeira oferenda.

ps: além disso, o livro – objeto a quem podemos amar “do amor táctil que votamos aos maços de cigarro” – é uma belezura, lindeza, como tudo que tem saído pela demônio negro. só peca num detalhe, também como sempre: preço. de qualquer modo, eu pagaria tudo outra vez. e mais um – villa merecia partilhar seu nome na capa.

ps2: dirceu villa (1975) é também poeta, com três livros publicados: mcmxcviii (Badaró, 1998), descort (hedra, 2003) e icterofagia (hedra, 2008). mantém o blog o demônio amarelo.

COMISSION

Go, my songs, to the lonely and the unsatisfied,
Go also to the nerve wracked, go to the enslaved by convention,
Bear to them my contempt for their oppressors.
Go as a great wave of cool water,
Bear my contempt of oppressors.

Speak against unconscious oppression,
Speak against the tyranny of the unimaginative,
Speak against bonds.
Go to the bourgeoise who is dying of her ennuis,
Go to the women in suburbs.
Go to the hideously wedded,
Go to them whose failure is concealed,
Go to the unluckily mated,
Go to the bought wife,
Go to the woman entailed.

Go to those who have delicate lust,
Go to those whose delicate desires are thwarted,
Go like a blight upon the dullness of the world,
Go with your edge against this,
Strengthen the subtle cords,
Bring confidence upon the algae and the tentacles of the soul.

Go in a friendly manner,
Go with an open speech.
Be eager to find new evils and new good,
Be against all forms of oppression.
Go to those who are thickened with middle age,
To those who have lost their interest.

Go to the adolescent who are smothered in family –
Oh how hideous it is
To see three generations of one house gathered together!
It is like an old tree with shoots,
And with some branches rotted and falling.

Go out and defy opinion,
Go against this vegetable bondage of the blood.
Be against all sorts of mortmain.

COMISSÃO

Vão, canções, ao solitário e ao insatisfeito,
Vão também ao neurótico, ao escravo por conveniência,
Levem-lhes meu desdém por seus opressores.
Vão como onda enorme de água fresca,
Levem meu desdém por opressores.

Falem contra a opressão inconsciente,
Falem contra a tirania dos sem imaginação,
Falem contra os laços.
Vão à burguesa que morre com seus ennuis,
Vão às mulheres nos subúrbios.
Vão aos muito mal-casados,
Vão aos de fracasso ainda oculto,
Vão à esposa comprada,
Vão à mulher comprometida.

Vão aos de luxúria delicada,
Vão aos de desejos delicados e impedidos,
Vão como praga sobre a estupidez do mundo;
Vão só lâmina contra isso,
Fortaleçam as cordas sutis,
Tragam confiança às algas e aos tentáculos da alma.

Vão de modo amigo,
Vão abertas ao diálogo.
Levem em conta novos males, novo bem,
Sejam contra toda forma de opressão.
Vão aos encrencados na meia-idade,
Aos que perderam o interesse.

Vão ao adolescente sufocado na família –
Ah como é horrendo
Ver três gerações de uma casa reunidas!
É como a velha árvore com brotos,
E com uns galhos podres e caducos.

Vão e desafiem a opinião.
Vão contra essa vegetal sanha do sangue.
Sejam contra todo tipo de mão-morta.

 MEDITATIO

When I carefully consider the curious habits of dogs
I am compelled to conclude
That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man
I confess, my friend, I am puzzled.

MEDITATIO

Quando considero com cuidado os curiosos hábitos dos cães
Sou compelido a concluir
Que o homem é o animal superior.

Quando considero os curiosos hábitos do homem
Confesso, meu jovem, fico perplexo.

THE ENCOUNTER

All the while they where talking the new morality
Her eyes explored me.
And when I arose to go
Her fingers were like the tissue
Of a Japanese paper napkin.

O ENCONTRO

O tempo todo em que falavam da nova moral
Os olhos dela me exploraram.
E ao me erguer para sair
Seus dedos foram como a fibra
De um guardanapo de papel japonês.

(traduções de dirceu villa)

guilherme gontijo flores

Padrão
tradução

old ezra for schoolboys

aviso: este post vai ser longo. não vou falar demais de pound, porque todo mundo sabe – & quem não sabe, vire-se.

só uma nota sobre as traduções. eu conheço duas: uma parcial dos irmãos campos com o décio pignatari (doravante, o trio). a tradução é apenas daquela parte mais famosa, que encerra o canto (“what thou lov’st well remains, &c.“), é uma bela duma tradução – só uma coisa eu teria a comentar/criticar: deixa de lado um dos poucos momentos em que o nosso amado pound decide escrever em pentâmetros jâmbicos, aí ficamos com uma bela tradução em verso livre.

sim, estou cometendo a pior das heresias (mea culpa, mea maxima culpa) em criticar o trio concreto como tradutor. mas considerem, é uma crítica bem leve, de um período em que eles ainda estavam vindo a se tornar o patrimônio que são.

eu também posso ser um idiota.

mas voltemos: a outra é completa, do josé lino grünewald. & a tradução dele, bem… a tradução dele não é bela; claro que já é louvável pelo ímpeto de ter traduzido todos os cantos, mas é uma tradução mequetrefe dum grande poeta. fica boa em várias partes, porque o original é tão bom que aguenta até tradução marromeno. o pior, talvez, seja o simples fato de que o grünewald achata aquela variedade de registros, tons e ritmos do velho pound – essa variedade é o pound.

agora venho eu com a minha: tentei manter esses aspectos de variedade rítmica, estilística, manter aquela linguagem mais formal e arcaizante na série final e mais famosa. se presta, deixo pra vocês.

eu também posso ser um idiota. até o pound era um idiota, às vezes.

1955 - fotógrafo não identificado

CANTO LXXXI

(Ezra Pound, tradução Guilherme Gontijo Flores)

Zeus no abraço de Ceres

Taishan cercado por amores

                                                sob Citera, antes da aurora

e disse: “Hay aquí mucho catolicismo – (soava catolitismo)

            y mui poco reliCHion”

e disse: “Yo creo que los reyes desaparecen”

(O reis, eu creio, vão sumir)

Era o Padre José Elizondo

                                                em 1906 e em 1917

ou lá por 1917

            e Dolores disse: “Come pan, niño”, coma pão, minino

Sargent a tinha pintado

                                                antes de descer

(i.e. se é que ele desceu)

            mas naquele tempo ele fazia esboços,

impressões de Velázquez no Museo del Prado

e os livros custavam uma peseta,

                        candelabros de bronze em proporção,

um vento quente vinha dos charcos

      e um frio mortal das montanhas.

E depois Bowers escreveu: “mas tanto ódio,

     eu nem sequer concebi”

e os vermelhos de Londres não revelavam seus amigos

                        (i.e. amigos de Franco

trabalhando em Londres) e em Alcázar

após quarenta anos, disseram: “volte pra estação e coma

pode dormir aqui por uma peseta”

                  sinos de cabra tilintando a noite inteira

                  e o sorriso amarelo da anfitriã: Eso es luto, uha!

mi marido es muerto

                  (é luto, meu marido está morto)

quando me deu um papel pra escrever

com bordas negras de mais de meia polegada,

      digamos 5/8 avos, da locanda

“Nós chamamos todos os estrangeiros de francezinhos”

e o ovo se quebrou no bolso de Cabranez,

            e fez história. Basil diz

que tocam tambores por três dias

até que estoure as peles

            (simples fiesta de aldeia)

e quanto à sua vida nas Canárias…

Possum observou que a dança folclórica prutuguesa

era dançada pelos mesmos dancarinos em locais diversos

            numa acolhida política…

a técnica da demonstração

            foi Cole que estudou (não G. D. H., Horace )

 “Você encontra” disse o velho André Spire,

que todos naquela repartição (Crédit Agricole)

têm um cunhado

                        “Você o único, eu os poucos”

                        disse John Adams

falando de medos em abstrato

    ao seu volátil amigo Mr. Jefferson.

(Quebrar o pentâmetro, eis a primeira ânsia)

ou como diz Jo Bard:                 ele nunca se falam,

se é visivelmente padeiro e porteiro

            é audivelmente La Rochefoucauld e de Maintenon.

“Te cavero le budella”

                        “La corata a te”

Em menos que uma era geológica

                             disse Henry Mencken

“Uns cozinham, outros não cozinham

            certas coisas não se alteram”

Ιυγξ ….. ἐμὸν ποτί δῶμα τὸν ἄνδρα

O que vale é o nível cultural,

     valeu Benin, pela mesa ex embalagens

     “num diga pa ninguém queu fiz”

                        de uma máscara qualquer de Frankfurt

“Vai ti tirá do chão”

                        Leve como a rama de Kuanon

E de cara, desapontado com aquele quais fajuto

e devastado, mas depois viu as

grandes rodas de carroça

                        e reconciliou-se,

Geoger Santayana ao chegar no porto de Boston

E conservou até o fim da vida o vago thethear

do espanhol

                        feito uma graça quase imperceptível

tal como Muss com o v e o u de Romagna

e dizia que a dor é um ato pleno

            renovado a cada condolência

crescendo até seu clímax.

E George Horace disse que “cooptaria Beveridge” (o senador)

Beveridge não falaria e ele não escreveria aos jornais

mas George o fisgou acampado em seu hotel

e assediando para almoço café e janta

                        três artigos

e o meu velho inda carpia o milho

      enquanto George lhe falava,

atravesse um terreno baldio

            onde se possa ver um coelho selvagem

ou tarveis um que escapou

      AOI!

      uma folha no fluxo

                                    em minhas grades nada de Althea

libretto

Mas

Antes que esfriasse a estação

Levado nos ombros dum zéfiro

Me alcei no céu dourado

                                    Que Lawes e Jenkins guardem teu descanso

                                    Que Dolmetsch em teu lar tenha remanso,

Será que temperou a madeira da viola

Pra reforçar            o grave                        e o agudo?

Será que nos curvou o bojo do alaúde?

                                    Que Lawes e Jenkins guardem teu descanso

                                    Que Dolmetsch em teu lar tenha remanso

Será que tu criaste um clima tão petiz

      Para extrair a folha da raiz?

Será que encontraste             a nuvem            tão leve

      Que não pareça sombra ou bruma?

                        Então me explica, fala curto e breve

                        Se Waller canta ou Dowland apruma.

            Teus ói matárume de súbito

            Num resisti a tal beauté

E por 180 anos quase nada.

Ed ascoltando al leggier mormorio

     veio uma nova sutileza de olho à minha tenda,

seja de espírito ou de hipóstase,

      mas o que a venda oculta

ou no carnaval

                        e nenhum par mostrou desgosto

      Só viu seus olhos e a postura entre os olhos,

cor, diástase,

      incauto e desatento de que não havia

   todo o espaço da tenda

nem havia lugar para um Ειδὼς completo

transpassar, penetrar

      lançando apenas sombra além das outras luzes

            clarão do céu

            maré da noite

            verde do poço na montanha

            brilhou do olhar desmascarado num espaço a meia máscara.

O que bem amas resta,

                                    o resto é pó

O que bem amas não será roubado

O que bem amas é a real herança

Mundo de quem: meu, deles,

                        de ninguém?

Veio o visível, depois o palpável

      Elísio, mas nas câmaras do inferno,

O que bem amas é a real herança.

O que bem amas não será roubado.

A formiga é um centauro em seu mundinho.

Abaixo à vaidade, não é o homem

Quem construiu coragem, ordem, graça,

      Abaixo à vaidade, eu disse abaixo.

No mundo verde vê teu posto e abraça

Na escala da invenção, ou no artifício,

Paquin, abaixo à vaidade,

                                              abaixo!

O casco verde venceu tua elegância.

“Domina-te, que os outros te suportam”

      Abaixo à vaidade

Tu és um cão surrado, no granizo,

U’a pega inchada sob um sol errático,

Que meio negra e meio branca

Confundes asa e rabo

Abaixo à vaidade

                        Os ódios vis,

Filhos da falsidade,

                        Abaixo à vaidade,

Veloz destróis, avaro em caridade,

Abaixo à vaidade,

                        eu digo abaixo.

Mas ter agido, em vez de calar

                        não é vaidade

Ter, com decência, batido

Para que um Blunt abrisse

            Ter recolhido do ar a tradição mais viva

ou de um belo olho velho a chama imbatível

Não é vaidade.

       Aqui o erro consiste em não agir,

em timidez que vacilou…

 

(tradução guilherme gontijo flores)

ps1: ouçam o velho ezra declamando, http://mp3bear.com/canto-lxxxi-second-reading-ezra-pound-spoleto-1967

ps2: pra quem quiser conferir, o texto original com notas – http://www.uncg.edu/eng/pound/canto.htm

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