poesia, tradução

charles bukowski por fabiano calixto

Buk And Linda

A sua voz na minha boca Ou duas doses de conhaque vagabundo com Bukowski

Sempre curti muito ler o velho Buk. Desde muito jovem. Primeiro a prosa, depois a poesia. O primeiro livro que li, quando trabalhava numa biblioteca pública no ABC paulista e lá pegara emprestado um exemplar do maldito cujo, foi Crônica de um amor louco – o primeiro volume da obra Ereções, ejaculações e exibicionismos. Tudo naquela prosa me encantava e, muito mais importante, me divertia – o que no final deve dar no mesmíssimo mesmo. Ria alto lendo aquilo, seja no velho suburbano lotado dos finais de expediente, seja nos botecos pé-de-rato onde parava para molhar a goela nos dias quentes daquele verão. Os personagens dele sempre me cativaram, talvez por sermos todos da mesma laia. Ainda bem. A vida é curta pra ser pequena. São os desvalidos, os vagabundos, os poetas fracassados, os pirados, levando a solidão pra passear sob a chuva, dormindo em espeluncas de quinta categoria, entornando copos e copos em bares escuros e sujos, gente doida fazendo sexo adoidadadamente com a vida. O fracasso do teatro conhecido por american dream encenado em todos os lugares onde há alguém com um livro do velho Buk em mãos, num fim de tarde de sábado, tomando rabo-de-galo e cerveja, ouvindo a chuva dar conselhos à solidão geral e irrestrita.

As traduções dos poemas que ora seguem foram feitas por conta de encontros totalmente ao acaso. Livro neste país sempre foi muito caro. Poeta, se não é herdeiro, é um completo pé-rapado. Então, com o advento da internet, tudo se modifica, tudo se socializa, se compartilha, se abre a quem quiser. Livros, obras completas, tudo em pdf, tudo livre, tudo no-vasco. Daí, lendo, aqui e ali, seus poemas, alguns me chamaram muito a atenção, outros me deixaram completamente apaixonado. Acho que, como no caso de Bolaño, a poesia e a prosa de Bukowski se entreperfumam. São poucos os poemas que traduzi, e por puro prazer mesmo. De boa na lagoa, sussa na montanha-russa. Ou só por sacanagem. No Brasil, quem traduz muito bem a lírica de Bukowski é o poeta paranaense Fernando Koproski, que publicou as antologias Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7Letras, 2005) e Amor é tudo que nós dissemos que não era (7Letras, 2012) – ambos imperdíveis. Aqui, apenas mais uns exercícios de estilhaço e de afeto. Uma maneira de dizer: Bukowski, seu filho da puta, tou contigo, velho! a conta tu coloca na do Abreu, se ele não pagar, nem eu! valeu!

* * *

faz algum tempo

era quase manhã
melros no fio do telefone
esperando
enquanto eu comia
um sanduíche de ontem
às 6 da matina
dum calmo domingo.

um sapato no canto
de pé
o outro ao
lado

sim, algumas vidas foram feitas para ser
perdidas.

it was just a little while ago

almost dawn
blackbirds on the telephone wire
waiting
as I eat yesterday’s
forgotten sandwich
at 6 a.m.
an a quiet Sunday morning.

one shoe in the corner
standing upright
the other laying on it’s
side.

yes, some lives were made to be
wasted.

a geração perdida

tava lendo um livro sobre uma literata rica
dos anos vinte e seu marido
beberam, comeram e curtiram por toda a
Europa
encontrando-se com Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway e muitos
outros.
as celebridades eram como brinquedinhos para
eles
e pelo que li
as celebridades curtiram a ideia de ser
brinquedinhos.
durante todo o livro
esperei que ao menos uma das celebridades
dissesse para a literata rica e seu
rico literato marido
que caíssem fora
mas, pelo jeito, nenhum deles
o fez.
Em vez disso, deixaram-se fotografar com a senhora
e seu marido
em várias praias
com cara de inteligente
como se tudo isso fizesse parte
da Arte.
talvez o fato de a mulher e seu marido
serem donos de uma grande mídia
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou na calçada da livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles eram
artistas ótimos e/ou originais
mas tudo parecia tão esnobe e
afetado,
e o marido finalmente cometeu
seu tão anunciado suicídio
e a senhora publicou um dos meus
primeiros contos
nos anos 40 e agora
está morta, mas
não consigo perdoar nenhum dos dois
por suas vidas ricas e imbecis
também não consigo perdoar seus brinquedinhos
por se sujeitarem
a isso.

the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally committed his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40′s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

definindo a mágica

um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está na fissura
um bom poema é como um delicioso
sanduíche quando você está
faminto
um bom poema é uma arma quando
a bandidagem te cerca
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas da
morte
um bom poema faz a morte derreter como
manteiga
um bom poema emoldura a agonia e
a pendura na parede
um bom poema faz seus pés tocarem
a China
um bom poema faz a mente estilhaçada
voar
um bom poema torna possível cumprimentar
Mozart
um bom poema possibilita que você jogue dados
com o diabo
e vença
um bom poema pode quase tudo
e o mais importante
um bom poema sabe quando
parar

defining the magic

a good poem is like a cold beer
when you need it,
a good poem is a hot turkey
sandwich when you’re
hungry,
a good poem is a gun when
the mob corners you,
a good poem is something that
allows you to walk through the streets of
death,
a good poem can make death melt like
hot butter,
a good poem can frame agony and
hang it on a wall,
a good poem can let your feet touch
China,
a good poem can make a broken mind
fly,
a good poem can let you shake hands
with Mozart,
a good poem can let you shoot craps
with the devil
and win,
a good poem can do almost anything,
and most important
a good poem knows when to
stop.

sim

há coisas piores que
estar só
mas nos custam décadas
até que percebamos
e geralmente
quando conseguimos
é tarde demais
e não há nada pior
que
ser tarde demais

oh yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it’s too late
and there’s nothing worse
than
too late.

estar sozinho

quando a gente pensa no tanto
que deu errado
de novo e novamente
a gente começa a olhar pras paredes
e fica por lá
porque as ruas são aquele
mesmo velho filme
e todos os heróis acabam como
heróis de velhos filmes:
bunda gorda, cara gorda e o cérebro
de uma lagartixa.

não é de se admirar que
um homem sábio escalará
uma montanha de 3 mil metros
e sentará lá esperando
vivendo de frutinhas selvagens
em vez de confiar no bagaço dos joelhos
que certamente não durarão a vida toda
e em duas de cada três vezes
não sobreviverá uma noite sequer.

montanhas são difíceis de escalar.
as paredes são suas amigas.
aprenda com elas.

o que eles nos dão lá fora
nas ruas
é algo que mesmo as crianças
se encheram.

fique com suas paredes.
elas são o amor mais verdadeiro.

construa onde ninguém constrói.
é o último caminho que resta.

be alone

when you think about how often
it all goes wrong
again and again
you begin to look at the walls
and yearn to stay inside
because the streets are the
same old movie
and the heroes all end up like
old movie heroes:
fat ass, fat face and the brain
of a lizard.

it’s no wonder that
a wise man will
climb a 10,000 foot mountain
and sit there waiting
living off of berry bush leaves
rather than bet it all on two dimpled knees
that surely won’t last a lifetime
and 2 times out of 3
won’t remain even for one long night.

mountains are hard to climb.
thus the walls are your friends.
learn your walls.

what they have given us out there
in the streets
is something that even children
get tired of.

stay within your walls.
they are the truest love.

build where few others build.
it’s the last way left.

cometi um erro

me estiquei todo até a prateleira mais alta do armário
e puxei de lá um par de calcinhas azuis, minúsculas
e mostrei a ela
e perguntei: são suas?

ela olhou e disse:
não, devem ser da vadia

depois disso, ela se foi e não a vi
nunca mais. não está em sua casa.
continuo passando por lá, colocando bilhetes
por debaixo da porta. volto e os bilhetes
continuam lá. tiro a Nossa Senhora Aparecida
do retrovisor do meu carro e a amarro
em sua maçaneta com um cadarço, deixo
um livro de poemas.
na noite seguinte, quando retorno, tudo
continua no mesmo lugar.

continuo rondando as ruas à caça
daquele encouraçado roxo que ela dirige
sempre com a bateria fraca e as portas
penduradas, estropiadas.

dirijo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado com meu sentimentalismo e
possível amor.

um homem velho e confuso dirigindo na chuva
se perguntando onde é que a sorte
foi parar.

I made a mistake

I reached up into the top of the closet
and took out a pair of blue panties
and showed them to her and
asked “are these yours?”

and she looked and said,
“no, those belong to a dog.”

she left after that and I haven’t seen
her since. she’s not at her place.
I keep going there, leaving notes stuck
into the door. I go back and the notes
are still there. I take the Maltese cross
cut it down from my car mirror, tie it
to her doorknob with a shoelace, leave
a book of poems.
when I go back the next night everything
is still there.

I keep searching the streets for that
blood-wine battleship she drives
with a weak battery, and the doors
hanging from broken hinges.

I drive around the streets
an inch away from weeping,
ashamed of my sentimentality and
possible love.

a confused old man driving in the rain
wondering where the good luck
went.

Traduções & introdução: Fabiano Calixto

* * *

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns, PE, em 8 de junho de 1973. Vive em São Paulo. É doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, USP. Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998); Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000); Um mundo só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001) – com Kleber Mantovani e Tarso de Melo; Música possível (CosacNaify/ 7Letras, 2006); Sangüínea (Editora 34, 2007); A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013); Para ninar o nosso naufrágio (Corsário-Satã, 2013); Equatorial (Edições Tinta-da-China, 2014) e Nominata morfina (Corsário-Satã/Córrego/Pitomba, 2014).

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poesia

fabiano calixto

calixto

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns, PE, em 1973. É mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Tem poemas e artigos publicados em vários jornais e suplementos do Brasil e do exterior. Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Um mundo só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001), Música possível (CosacNaify/7Letras, 2006), Sangüínea (Editora 34, 2007) – este finalista do Prêmio Jabuti de 2008 na Categoria Melhor Livro de Poesia – e  A canção do vendedor de pipocas – Antologia poética (7Letras, 2013). Publicou também o livro de poemas infantis Pão com bife (Edições SM, 2007). Organizou, com André Dick, o livro de crítica A linha que nunca termina – Pensando Paulo Leminski (Lamparina, 2005). Traduziu poemas de Gonzalo Rojas, Allen Ginsberg, John Lennon, Laurie Anderson, entre outros. Traduz atualmente a obra de Benjamín Prado. Editou, com Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, a revista de poesia Modo de Usar & Co. Seu novo livro de poemas, intitulado Nominata morfina, sairá em breve.

PS: nesse ínterim, o poeta também lançou, muito recentemente, uma plaquete intitulada Para ninar o nosso naufrágio, disponível gratuitamente para download em seu blog Meu pé de laranja mecânica (clique aqui)

Abaixo, um dos poemas em prosa presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

escamandro

           

It’s time to taste what you most fear

Aprenda a falar os nomes dos jogadores da Copa do Mundo! Gisele Bündchen aconselha a fazer xixi no banho! Geisy Arruda detona emissora por rejeitá-la em reality! Benny Novak ensina espaguete com vôngole! Palpite sobre a lista da Fazenda 3! Frete sempre grátis! Procure viver o dia com mais tranqüilidade, não vai dar pra resolver tudo de uma vez! Pequenas chateações diárias têm tudo a ver com falta de clareza ao dar ordens ou sugerir encaminhamentos! Valorize-se mais e curta a vida! Conheça as opções de pousadas e spas holísticos para deixar o estresse de lado neste feriadão! Qual o tipo de perfume combina com sua personalidade? Relembre as gafes dos famosos e escolha e melhor! Baixe os hinos do seu time do coração no celular! Fale com nossos corretores on-line! Por que não morar em Nova York? Pato está com nova namorada, a atriz Débora Lyra! Em busca do seu ídolo favorito? Kara DioGuardi deixará American Idol! Siga @victorfasano no Twitter! Ômega-3 protege mesmo o coração? Quer saber mais sobre a cadeia produtiva do petróleo? Clique aqui! Sua webcam não está funcionando? Você é super fã de Justin Bieber? Faça o teste! Escreva pra gente dizendo que tema você gostaria de ver no programa! Oi, você quer me ver? Um novo conceito em namoro on-line! Grave vídeos com discrição com um elegante relógio! Orar pode mudar tudo! Igreja Universal inaugura novo templo em Nairóbi, no Quênia! Bebês, separações, hospital e novos namoros marcam a semana! Os 100 melhores artistas da década! Tudo sob medida, escolha!

(Fabiano Calixto)

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crítica, poesia

Alguns poemas sobre mendigos

foto de Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

A ideia me ocorreu outro dia, no ônibus, e me dei conta de que alguns poetas contemporâneos, especialmente poetas que trabalham com a questão da urbanidade e cuja produção muito me agrada, tinham pelo menos um poema sobre a temática do mendigo. Não sei dizer agora o quanto se estuda isso, de fato, se o mendigo realmente constitui um lugar comum recorrente na literatura, mas a curiosidade me pareceu interessante, digna, ao menos, de uma postagem no escamandro. Não lembro de muitas menções na literatura clássica ao mendigo, embora tenha claro nesta memória falha o episódio da Odisseia em que Ulisses se passa por mendigo (com ajuda de Atena) para entrar em Ítaca despercebido, e que os filósofos da estirpe de Diógenes (que morava, como o Chaves, num barril) e Menipo (que deu origem ao gênero literário da sátira menipeia) viviam como mendigos e formavam a escola dos filósofos cínicos (do grego kynos, “cão”). Na literatura moderna, eu sei que Victor Hugo e Shelley têm cada um pelo menos um poema curto e de tom meio sentimental a respeito (“Le Mendiant” e “Summer and Winter”, respectivamente), Castro Alves aproxima a figura do poeta e do mendigo em “Poesia e Mendicidade” (“Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante… / Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.”), Cruz e Souza lhes dedica um poema inteiro, repleto de suas imagens simbolistas e transcendentais, e Baudelaire, em seu “A uma mendiga ruiva”, faz da figura um alvo de sua luxúria imaginada (depois revisita o tema da mendicância nos poemas em prosa de Spleen de Paris). E há também o choque de Manuel Bandeira no poema “O Bicho” (nos comentários), ao constatar que o que fuçava no lixo não era cão, gato ou rato, mas um homem. Já Wordsworth, notavelmente, nos quase 200 versos de seu “The Old Cumberland Beggar”, compõe o que deve ser provavelmente o retrato mais jubilante da figura do mendigo da história da literatura. Wordsworth, “poeta da natureza”, como é chamado, e um dos poucos poetas que escreveram sobre a alegria, vê num velho mendigo – evidentemente um andarilho mais rural do que urbano, comendo seus restos de comida (junto com os passarinhos) ao lado da estrada – a figura do homem natural, um homem em comunhão com a natureza, que foi desde o começo de sua produção o foco de sua melhor poesia. E, mais do que isso, havia também um sentido ético na visão de Wordsworth desse homem natural, na medida em que a situação abria portas para bons atos em relação ao mendigo, atos de caridade que faziam dele, portanto, um veículo de benevolência. É um belíssimo poema de Wordsworth, que esperamos apresentar em breve aqui no escamandro em tradução minha ou talvez do Guilherme.

É claro, no entanto, que, num cenário urbano, as coisas mudam muito de figura. Wordsworth, escrevendo nesse momento muito próximo da modernidade, mas anterior ainda à completa urbanização, teve uma das poucas oportunidades para realmente se escrever poesia séria sobre a natureza (ao passo que o que nos resta hoje é a nostalgia, o bucolismo retirado ou o ativismo ecológico). Poderíamos, talvez, pensar no mendigo no cenário urbano como uma figura que encarna completamente a urbanidade (ainda que, paradoxalmente, eles se encontrem fora do sistema frenético de produção e consumo das cidades) do mesmo jeito que o mendigo rural de Wordsworth pode ser visto como um “homem natural”: a sujeira das cidades se encrusta neles, os lugares que para nós são locais de passagem são onde eles dormem e veem a vida passar, a indiferença que domina a vida empilhada em apartamentos se manifesta neles simultaneamente no modo como se pode vê-los dormir, sem perturbações, debaixo do pleno sol do meio dia, e no modo como a indiferença de boa parte dos passantes faz com que, aos seus olhos, eles sejam não mais do que parte da paisagem (quando não um incômodo ou ameaça). Mas há vida ainda por baixo dos trapos (existem mendigos esquizofrênicos e drogados, claro, mas eu arrisco dizer que a maioria é lúcida, muito lúcida), como uma prova da resistência e persistência do humano – e, algo sombriamente, uma lembrança constante de que qualquer um está sujeito aos riscos de ser engolido pela cidade e tornar-se parte dela à força.

foto por Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

Pensando nisso, preparei uma pequena seleção aqui de poetas contemporâneos que, de maneiras todas muito distintas, abordaram o tema dentro de sua obra. Incluo, então, em ordem alfabética de sobrenome, poemas de: Francisco Alvim, de O Metro Nenhum (2011, Cia das Letras); Fabiano Calixto, de Sanguínea (2007, Editora 34); do nosso colega de escamandro Guilherme Gontijo Flores, do seu livro no prelo Brasa enganosa (2013, Editora Patuá), do Tarso de Melo (cujo último livro comentamos já aqui, enquanto estava no prelo, e já foi lançado), de Exames de Rotina (2008, Editora da Casa), Paulo de Toledo, de 51 Mendicantos, um livro de poemas curtos (de 3 versos apenas cada um), todos inspirados por essa temática (2007, Editora Éblis) e, por fim, Dirceu Villa, de Icterofagia (2007, Editora Hedra). Para dar um aspecto mais focado ao post, desta vez me concentrei especificamente em poetas brasileiros contemporâneos, por isso Wordsworth e Baudelaire ainda vão ter de esperar a sua vez. Provavelmente esqueci alguns nomes para cada um de quem lembrei (mea culpa), mas a internet infelizmente falha conosco nessas horas, e uma pesquisa acabou me levando a poemas absolutamente terríveis.

Não vou me demorar aqui em fazer uma crítica profunda sobre os poemas, até porque falar de cada um daria assunto para páginas e páginas de texto, mas gostaria de apontar neles para algumas coisas de que tratei acima, a fim de, primeiramente, afirmar mais uma vez a diversidade dos modos de tratamento de cada um desses poetas, e, em segundo lugar, demonstrar que não tirei do chapéu as coisas que disse acima. Podemos observar a transformação do homem em mera paisagem no poema fúnebre de Calixto, cuja declaração de que “antes da chuva,  o mendigo / já estava morto” traz sugestões dolorosas de morte em vida em sua apropriação pela cidade, ao mesmo tempo em que o poema de Tarso de Melo aponta para o contrário: “pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos”, uma afirmação da vida que “persiste” (como é o próprio verbo usado pelo poeta no verso final), mesmo nessas condições extremas. Dirceu Villa faz um vívido retrato visual dos mendigos, focado na sujeira e repleto de imagens fortes (como a das árvores secas como “mãos esqueléticas” e a da calçada bebendo os corpos dos mendigos, à noite), algo também explorado pelo Gontijo, ao se concentrar na imagem de um único mendigo (em vez de mendigos) confrontado por um eu (ainda que seja um eu bastante sublimado e ausente no próprio texto), que o destaca sensoriamente da paisagem ao fundo (como se essa paisagem fosse um mar, e o próprio título “ptokhos anadyomenos” ecoa isso, significando, em grego, “mendigo saído do mar”, uma paródia do título da Vênus Anadiômene) e enxerga na cena toda uma visão transcendente. Já o foco de Paulo de Toledo é no humor, trabalhando com o trocadilho (numa das instâncias em que essa técnica, tão explorada já, consegue funcionar e bem) e uma forma de riso que lembra o leitor de que, como parte de sua humanidade, é possível manter o senso de humor na mendicância (o que aparece sobretudo nos poemas do livro que dão voz ao mendigo) como forma de persistência, ao mesmo tempo em que essa ironia acaba ressaltando a situação de negligência e abandono – fazendo com que seja um uso doloroso do humor, especialmente em poemas como “globalizado”. Por último (e primeiro), Francisco Alvim, num poema tão curto quanto os mendicantos do Paulo, acaba, talvez não conscientemente, sendo quem mais se aproxima de Wordsworth, agradecendo a quem lhe pede esmola pela oportunidade de realizar um ato de benevolência, que tira o eu-lírico do poema de seu estado de distração com o mar cinzento e homogêneo da paisagem urbana e o aproxima de uma maior humanidade, enquanto ele próprio no poema humaniza o pedinte – é, talvez, só uma suposição minha, mas me parece razoável – ao dar-lhe um nome próprio, Roberto, e dedicar o poema a ele.

A temática é mendicante, mas, ao que tudo indica, não sofremos, ao menos, de uma indigência de boa poesia.

(Adriano Scandolara)

em-casa-de-menino-de-rua

 

Acontecimento

                                    Ao Roberto

Quando estou distraído no semáforo
e me pedem esmola
me acontece agradecer

(Francisco Alvim)

         *

UMA PAISAGEM DE SÃO PAULO

antes da chuva, o mendigo
já estava morto

(uma flor suja – pétalas
despencando de sua camiseta – sua

única coroa)
antes da morte

o viaduto já abarrotava
antes da enchente

a boca já estava cheia
de sangue, de formigas,

de
granizo

(Fabiano Calixto)

         *

PTOKHOS ANADYOMENOS

quando atravessa a esquina
o olhar como que escapa
do amontoado
                         casa-ambulante
de mantas panos mantras
delirantes
                  que acaso brotam
em seu murmúrio

nos passos emerge & chacoalha
as moedas na mão
                  (que as do bolso se escondem
                  num diverso tilintar)
o seu cheiro resplende
no asfalto
                calando
as olências dos outros perfumes

& desse mar emerge
forjando em seu talhe
a súbita imagem de um monge
            mendicante

(Guilherme Gontijo Flores)

         *

FÓSSIL

pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos,
algo respira embaixo, dentro, através dessa carcaça,
a luz não reflete, o cheiro não chega até aqui, ruído
algum escapa da manta ensopada, da peça de carne
exposta diante da imensa porta fechada da catedral.
depois, apenas depois do último trem, dos últimos
passos, dos últimos olhos e medos e sustos passarem,
algum movimento, urros, alguma nova migração
pelo centro da cidade denunciará o que persiste.

(Tarso de Melo)

         *

o papel do jornal

o vento investe contra o lar do
mendigo e seu teto voa junto
com a manchete: alta do dólar

globalizado

a tv o mendigo olha
na tela o reflexo dele
desculpem a nossa falha

que eme!

no lixão um mesquinho minidicionário
mostra ao mendigo que a miséria
infelizmente vem antes da misericórdia

(Paulo de Toledo)

         *

OS MENDIGOS

Eles imploram diante dos carros,
vivem com ratos nas vias expressas;
erguem barracos entre as árvores
secas de poluição, como mãos esqueléticas.
O sabor da fuligem, o espesso cinzento
dos escapamentos de metal fervente
direto no rosto com fendas de calor:
arrastam trapos que fedem a excremento.
Crianças com cabelos emplastrados;
que olhares mortais na doçura redonda
do rosto! Têm dentes que fraturam um osso.
À noite as calçadas bebem seus corpos,
vultos das bocas-de-lobo e esgotos;
bêbados dormem, coçam os escrotos.

(Dirceu Villa)

PS: para quem chegou agora, há toda ainda uma riqueza de poemas e crítica nos nossos comentários abaixo, com poemas ainda de Fabio Weintraub, Alberto Martins e Alberto da Cunha Melo, cortesia do poeta Rodrigo Madeira.

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