poesia

Naiana Gomes

Naiana Gomes estudou um pouco de algumas coisas, jornalismos literaturas fotografias. está tropegamente aprendendo crochê com a avó, de forma que o ano vai mesmo começar todo torto. ainda assim, vive da teima em acreditar na dúvida, na pessoa e no mundo que se move pelo mundo. as imagens e vídeopoema abaixo são de sua autoria.

*

um outro fim do mundo é possível
intelectuais franceses afirmaram
há dois minutos e trinta segundos
talvez tomados pelo otimismo
que pede um começo de século
no despontar do milênio
eu sempre desconfiei
de tudo que vivesse além daquele peixe
cinco metros de comprimento
movendo-se pelo universo
durante trezentos e noventa e dois anos
fazem do tubarão da groenlândia
o vertebrado mais longevo
(pescado acidentalmente)
de que se tem notícia
mas confesso quis escrever um poema
que não sentisse nada por você
ignorando completamente
sua passagem pelo mundo
o fim do mundo
e o mundo

§

Dínamo

você sob o sol
ao toque tão forte do sol
você que se move
veloz feito um cão um gato
um lagarto
um bicho alado
atravessando a cidade de skate aos trinta anos
um peixe preto e dourado
deslizando rio rua abaixo
enquanto lá do quintal este peito se expande
vê lá vem eu meu alvoroço
ondeando os panos nos varais
tão suavemente quanto
foguete, peixe-espada, guitarra
rasgando o ar
e outra vez
o corpo todo no jogo
e uma vez mais
tomando fôlego
um balanço elevando-se
além das árvores
dos muros das torres dos edifícios comerciais
para alcançar o mar
tudo tão alto tão rápido
quase não percebemos
uma ligeira variação
entre as minhas as suas
coordenadas
uma fração de grau
partícula de luz
gota, grão
migalha
um quase nada
que nos afasta
um
do
outro
por inteiro
atravessados, entretanto, somos
de coisas muito pequenas
porém alarmantes
pólvora ou purpurina
tantas outras coisas vivas
besouros, nuvens, piabas, ranhuras
certezas mínimas
de que tudo pode mudar
existe o encontro e existe a distância
nesta manhã em que continuamos
nem sei como
mas continuamos
pelo mundo
e o mundo continua

uma grande confusão.

o avô nunca falou do fim do mundo
mas diante do mar calculava
eita água que ninguém acaba
e terra adentro apontava o bicho
que comia veneno e antídoto
sempre combinados
tentei procurar no google
mas nada é páreo ao inventário
do avô
morcegos subaquáticos
(nas goteiras de casa)
toupeiras que se alimentam
de grandes barcos
lagartos dados a peixe
amores longevos
essas coisas a gente prova
com pimenta e sal

§

é possível inclinar-se
alinhando o tronco ao horizonte
mover os dois braços
e sentir o ar
entrar e pender e erguer
um pássaro
isto eu sei
de te ver dançar
e naquele dia
quebrei cento e cinquenta taças
de uma vez

§

está no horóscopo de hoje
ou da semana passada
o ponto onde teu signo
e meu signo
contam como somos
diferentes
sob um mesmo sol
sentimos muito
sobrevoamos ilhas
visitamos as casas de nossa infância
vem, há esta árvore que eu quis te dar
quando ainda não te conhecia
cresce acima dos telhados
em fevereiro
frutifica
pequeninos sóis
resplandescentes
em cada geografia
colecionamos potinhos imaginários
neles queríamos
guardar B. e R. e M. e
guardar N.
e guardar T.
não os guardamos
os potinhos todos
vão preenchendo-se
de vazios
e os vazios contam
de uma cidade
atravessamos a rua
juntos
respirando
entre um passo e outro passo
há algo
que eu gostaria de te dizer
e digo.

*

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Mac Adams, exposição e dois diálogos

 

No dia 18 de abril, quarta-feira, o artista britânico, naturalizado norte-americano, Mac Adams (Brynmawr, 1943) abrirá a exposição inédita Mens Rea: a cartografia do mistério, no Centro Cultural Fiesp. Além de apresentar dezessete obras e uma instalação in situ criada  para a exposição, a mostra conta também com a participação de textos literários. A partir de uma seleção de obras feita pela curadoria da exposição, foi realizado um convite para autores de diversos gêneros, faixas etárias e nacionalidades, com o objetivo de construir um diálogo com a narrativa visual de Mac Adams, um dos fundadores do Narrative Art, movimento artístico surgido nos Estados Unidos na década de 1970. Os nomes são Tal Nitzán (Israel), Ricardo Domeneck (Brasil), Dylan Thomas Hayden (Estados Unidos), Pascal Marquilly (França), Marcus Fabiano (Brasil), Johannes CS Frank (Reino Unido/ Alemanha), Victor Heringer (Brasil), Guilherme Gontijo Flores (Brasil) e Matilde Campilho (Portugal).

Os autores convidados tiveram a liberdade na interpretação da imagem e na escolha do gênero literário para cada texto. “O único desafio para cada autor foi usar o conceito Mens Rea na construção de cada texto, pois este é o elemento principal utilizado também pelo Mac Adams na sua obra”, com diz Luiz Gustavo Carvalho, curador da exposição junto com Anne-Céline Borey.

O período expositivo vai de 18 de abril a 8 de julho de 2018, na Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp: Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp), de terça a sábado, das 10h às 22h, e domingo, das 10h às 20h. Na abertura, no dia 17 de abril (terça-feira), às 18h, será feita a palestra “Fios soltos: construção e desconstrução de uma arte narrativa”, com o próprio Mac Adams e os curadores Luiz Gustavo Carvalho e Anne-Céline Borey.

Além de poder contribuir com um texto meu parao díptico “The Whisper”, tive a chance de traduzir os textos de Pascal Marquilly  e de Johannes CS Frank. Seguem abaixo o poema feito por Tal Nitzán, em tradução de Moacir Amâncio, para o díptico “Orian”.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Mac Adams, Díptico “Orianr”, 1980. Series Mysteries.


(Tal Nitzán)

Não é um banco verde no quarto das crianças
é um crocodilo
não é um crocodilo
é o futuro:

Eis o movimento lento dos seus olhos
Eis o bater das suas mandíbulas terríveis

Mas onde estão as crianças?
Este não é mesmo o quarto das crianças
Este é o quarto da infância.

Eis que tu te encontras nele
em teu vestido pequeno e a tua boca fechada
e todos os teus crocodilos diante de ti.

(trad. Moacir Amâncio)

§

Mac Adams, Díptico “The Whisper”, 1976-7. Series Mysteries.

Dito isso
a partir de “The Whisper” de Mac Adams
(Guilherme Gontijo Flores)

Mas escuta-me ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me. Muito embora no ofício de soldado eu já tenha matado muita gente, assunto considero de consciência premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em furá-lo aqui, sob a costela. Sim; porém ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma só coisa vos pergunto, senhor; estais realmente casado? Há segurança?

Dito isso.

Assim, de um tolo faço minha bolsa. Profanaria meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a não ser para proveito próprio ou distração. Odeio o Mouro. Há quem murmure que ele o meu trabalho já fez em meus lençóis. Se é certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo não, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vai atuar com mais certeza. Cássio é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Cássio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Cássio e seu todo insinuante o predispõem a tornar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. Ele a segura pela mão. Muito bem! Cochicha-lhe aos ouvidos. Com uma teiazinha tão pequena assim, pretendo pegar uma mosca do tamanho de Cássio. Sim, dirige-lhe sorrisos; mais um pouco, e eu te amarrarei com tuas próprias cortesias. Tendes razão: é assim mesmo. Se vierdes a perder o poste de tenente por umas frioleiras desse porte, melhor vos teria sido não ter beijado tantas vezes os três dedos, como ainda vos mostrais disposto a fazer, para vos apresentardes como senhor de respeito. Muito bem! Belo beijo! Excelente cortesia! É assim mesmo, não há dúvida. Levais mais uma vez os dedos à boca? Quiser que vos servisse com outras cânulas de clister… Oh! Por enquanto estais bem afinados, mas eu me incumbo de afrouxar as cordas que produzem tal música; tão certo como eu se gente honesta. Que amor lhe tenha Cássio, é o que acredito; que ela o ame, é quase certo e compreensível. O Mouro, embora eu suportar não o possa, por natureza é firme, nobre e amável, tendo eu plena certeza de que ele há de ser o marido ideal para Desdêmona. Mas eu também a amo, não por simples concupiscência, muito embora eu seja também passível dessa grande falta. Não; é para saciar minha vingança, pois suspeito que o Mouro luxurioso pulou na minha sela, pensamento esse que, como mineral nocivo, me corrói as entranhas, sem que nada possa ou deva deixar-me a alma aliviada antes de virmos nisso a ficar quites; é mulher por mulher. Falhando o plano, farei tal ciúme despertar no Mouro, que não possa curá-lo o raciocínio. Para obter isso — caso este sabujo de Veneza, que à trela sempre trago, saiba encontrar o rasto e correr firme — pegarei Miguel Cássio pelo flanco, pois temo que ele também tenha usado meu gorro de dormir. Assim, o Mouro me amará, ficar-me-á reconhecido, e um prêmio me dará por eu ter feito dele um asno completo, e o ter privado da paz e do sossego, até nas raias ir bater da loucura. Aqui está tudo. Meio confuso, é certo; mas inteira, nunca se mostra, nunca, a bandalheira.

Se eu puder empurrar-lhe mais um copo além do que ele já bebeu à tarde, ficará tão rixento e quereloso como uma cadelinha. Aquele tonto, Rodrigo, a quem o amor virou no avesso, esta noite, à saúde de Desdêmona bebeu potes seguidos. Vai dar guarda. Mais três rapazes de alto e nobre espírito, que em distância prudente a honra conservam, elementos desta ilha belicosa, esta noite deixei meio confusos com copos transbordantes. Todos eles irão também dar guarda. Ora, no meio de tantos bêbedos, farei que Cássio pratique qualquer ato que alboroto venha na ilha a causar. Ei-los que chegam. Se condisser com os sonhos a sequela, meu barco correrá com vento e vela. Fazei tinir a caneca! Fazei tinir a caneca!… A vida é quente, soldado é gente… Soldado… que leva a breca! Mais vinho, rapazes!

Quem poderá dizer que eu represento papel de celerado, se o conselho que eu dei é honesto e leal, muito plausível e em verdade o caminho para ao Mouro vir a reconquistar? Sim, porque é muito fácil de conseguir que a complacente Desdêmona se empenhe em qualquer súplica honesta; é dadivosa como a terra. E para obter do Mouro qualquer coisa — muito embora para ele se tratasse de abrir mão do batismo, das insígnias e símbolos de uma alma redimida — tanto ele o coração traz encadeado na afeição de Desdêmona, que tudo fazer ou desfazer ela consegue, como entender, reinando como deusa sua vontade sobre o fraco esposo. Estarei sendo, acaso, um celerado por ter mostrado a Cássio esse caminho que vai dar no seu bem, diretamente? Divindades do inferno! Quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhe emprestam, tal como agora faço. Pois, enquanto este imbecil honesto pede à bela Desdêmona que cure a sua sorte, e ela sobre isso insiste junto ao Mouro, veneno deitarei no ouvido dele, com dizer que ela o faz só por luxúria; quanto mais houver feito ela por ele, mais, junto ao Mouro, há de perder o crédito. Transformarei em pez sua virtude, e com a própria bondade apresto a rede que há de a todos pegar. E agora duas coisas: sobre Cássio falar minha mulher junto à senhora; vou concitá-la já. Nesse entrementes, chamarei o Mouro para que venha encontrar Cássio, quando falando estiver este com Desdêmona. Esse é o caminho certo; que a tardança não me faça perder a segurança.

Deveriam os homens ser somente o que parecem, ou então não parecer o que não fossem. Sendo assim, considero Cássio honesto. Acautelai-vos, senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras! Quem com sua pobreza está contente, é rico, muito rico; mas riquezas infinitas são como o frio inverno, para quem medo tem de ficar pobre. Livrai-me, céu bondoso, e as almas todas de minha tribo, de sentir ciúmes. Assim, já que o dever a isso me obriga, sincero vou falar, mas não de provas, por enquanto. Vigiai vossa consorte; observai bem como ela e Cássio falam; lançai-lhe olhar assim, nem enciumado, nem confiante demais. Não desejara que vossa natureza leal e nobre vítima viesse a ser por causa, apenas, da generosidade que lhe é própria. Vigiai-os bem. Conheço minha terra; em Veneza as mulheres não se correm de confessar ao céu as leviandades que ocultam dos maridos. Para todas a virtude consiste apenas nisto: não deixes de fazer, mas em segredo. Ao pai ela enganou com desposar-vos; ao fingir que tremia à vossa vista, mais vos era afeiçoada. Tirai a conclusão: uma donzela que finge a ponto de deixar os olhos do pai como vendados, obrigando-o a achar que era feitiço… Mas confesso-me passível de censura. Humildemente vos peço me perdoeis tanta amizade. Instantemente vos peço não tirar do meu discurso forçadas conclusões, nem distendê-lo senão até à suspeita.

Dito isso.

Dentro do quarto de Cássio jogarei o lenço, para que ele o venha a encontrar. As ninharias leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da Sagrada Escritura. Disto pode sair alguma coisa. Meu veneno já produziu alterações no Mouro. Certos conceitos são por natureza verdadeiros venenos que, de início, não provocam nenhuma repugnância, mas logo que no sangue atuam, queimam como mina de enxofre. Não me engano.

Quero crer que seria uma tarefa assaz dificultosa convencê-los a se deixarem ver sob esse aspecto. O demo os carregue, se possível for a olhar de mortais, tirante o deles, vê-los deitados juntos. Que me resta para dizer? Que provas posso dar-vos? Não vos será possível ver tal coisa, embora ardentes fossem como bodes, quentes como macacos, luxuriosos como lobos no cio e tão grosseiros como ser mais alvar, quando embriagado. Contudo vos direi, se alguns indícios, circunstâncias de peso, que conduzem diretamente à porta da verdade vos deixarem convicto, haveis de tê-las. Não me agrada esse ofício. Mas já que fui tão longe nesse caso, levado pela honestidade estúpida e a amizade, tão-só, não me detenho. Passei com Cássio uma das noites últimas, mas por estar sentindo dor de dentes, não podia dormir. Ora, há pessoas de alma tão largada que no sono revelam seus negócios. Cássio é dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmuravam “Desdêmona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!” Então, senhor, pegando-me das mãos e as apertando, suspirava: “Oh criatura adorável!” e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus lábios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: “Oh fado amaldiçoado, que te foi entregar para esse Mouro!” Mas tudo isso era somente sonho. Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não viste porventura não mão de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos? Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa. Ficai calmo. Ficai calmo, torno a dizer; podeis mudar de ideia. E eu me declaro vosso por toda a vida. Será crível tal coisa? Beijar às escondidas! Ou ficar uma hora ou duas nua no leito, ao lado de um amigo, sem ruins intenções. Se nada fazem, é um pecado venial. Porém no caso de eu dar um lenço à minha esposa… Ora, senhor; seria dela o lenço. E, dela sendo, penso que podia dá-lo a quem entendesse. A honra é uma essência que não cai na vista. Muitas vezes a tem quem nunca a teve. Mas quanto ao lenço… E que se dera se eu tivesse dito que ele vos ultrajara, ou que falara por aí fora, como certos biltres que — tendo conquistado alguma dama, ou por impertinência nos assaltos, ou com o consentimento dela própria, depois de convencida — de indiscretos falam por toda parte. Sim senhor. Mas podeis ter certeza de que não disse nada que não possa negar sob juramento. Oh céu! Que tinha… Que sei eu?… Que tinha… Deitado… Com ela ou em cima dela, o que quiserdes.

Dito isso.

Trabalha meu veneno! Trabalha! Desse modo é que pegamos os idiotas crédulos. E é assim, também, que muitas damas dignas e castas, sem senão, ficam faladas. Olá, senhor! Senhor, repito! Otelo! Não deveis recorrer a veneno; estrangulai-a no leito, no próprio leito que ela poluiu.

Dito isso.

Ide logo; não choreis; tudo ainda acaba bem.

Dito isso.

Não me pergunteis nada; o que sabeis, já sabeis. Não direi, de agora em diante, nem mais uma palavra.

( Todo o texto é feito de recortes de falas de Iago, no Otelo Shakespeare, a partir da tradução de Carlos Alberto Nunes.)

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Luiza Romão: Ave Sangria!

Luiza e Sangria

Em Sangria, a poeta Luiza Romão, busca revisitar a história do Brasil sob a ótica de um útero. Para isso, o livro é dividido em 28 poemas/28 dias, como um ciclo menstrual. Alternando entre experiências pessoais e episódios históricos, a poeta costura uma narrativa labiríntica, a fim de decifrar a identidade brasileira. A história é conduzida pelo ponto de vista do corpo feminino. Os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) se misturam com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção); o “país do futuro” se sintetiza numa gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”); a figura do patriarca é contraposta com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais”. Com linguajar urbano, os poemas carregam fortes marcas de oralidade.

DIA 1

A edição é bilíngue (português e espanhol) e o prefácio foi escrito pela estudiosa Heloisa Buarque de Hollanda. O livro tem um formato quadrado (20x20cm) e abre para cima, retomando a forma de um calendário.

Além disso, cada poema é acompanhado por uma fotografia em preto, branco e vermelho. Como procedimento, o fotógrafo Sérgio Silva registrou partes do corpo de Luiza: seios, pernas, mãos, punhos, pescoço, boca, olhos, umbigo. Cada uma das 28 fotos foi impressa em tamanho 30×30 e costurada à mão pela artista. Materiais metálicos (correntes, talheres, fechaduras, pregos, espelhos) e barbante vermelho criam uma nova tessitura para as imagens em preto e branco. A anatomia é reinventada e o corpo se torna suporte de uma denúncia histórica. 

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SÉRIE DE VIDEOPERFORMANCE

É impossível desvincular a poesia de Luiza Romão da oralidade. Vinda de uma tradição de spoken word, sua escrita se completa na fala, no encontro com o público e com a cena. A fim de manter os ritmos, variações melódicas e intensidades vocais, sua obra navega constantemente entre publicações físicas (livros e antologias) e vídeo-poemas.

Em Sangria, essa pesquisa se radicalizou através da produção de uma série inédita de 28 vídeos-performances: todos os poemas do livro foram gravados em estúdio, e, posteriormente, um duo de baixo acústico (Vânia Ornelas) e percussão (Juba Carvalho) os musicou.

Além disso, o projeto convidou 28 mulheres de diferentes áreas artísticas (grafite, pintura, xilogravura, circo, dança, tecido acrobático, teatro de bonecos, bordado, teatro, intervenção urbana, linguagem de sinais, música) para participar: cada uma das artistas escolheu um dos textos e propôs uma performance. Durantes meses, essas intervenções foram criadas e filmadas, tendo como balizador estético a fricção entre campos do saber.

Dessa forma, Sangria se torna mais do que um livro de poemas ou uma iniciativa individual. É um trabalho coletivo e inédito, com mais de 50 mulheres envolvidas.

PREFÁCIO

[Por Heloisa Buarque de Hollanda] 

Luiza Romão avisa logo de início: não purifiquem o meu sangue, não quero que limpem minhas veias. Minha sangria, eu mesma produzo.

Bem, estamos diante de uma poeta que quer atuar no limite. Melhor, no limite máximo. Da política, da linguagem, da performance subjetiva. Voltarei a esses pontos mais à frente.

Agora, quero falar sobre minha primeira sensação diante de Luiza e de sua poesia. Sinto Luiza como uma expressão absolutamente contemporânea da história e da cultura indignada e comprometida com a política estética desta segunda década do século XXI.

Luiza escreve e intervém hoje, sobre hoje. Atua com força e também com disfarçada delicadeza.

São várias as formas como este trabalho pode ser lido e sentido. Escolho o de uma estética militante, inovadora e radical. Em jogo, estão o corpo, a história e seus intérpretes e a falta de ar, num dos mais complexos momentos políticos do país. No fundo, um agitado jogo de sombras que projetam formas de colonização violentas e opressoras, perpetuando-se num eterno fluxo e refluxo.

O ritmo deste trabalho se cumpre a partir da lógica de um calendário que descreve, com diferentes intensidades narrativas, os 28 dias do ciclo menstrual que conduzem o óvulo a suas fases decisivas para a reprodução da vida: a gravidez ou a menstruação. É mais ou menos este o caminho de Sangria, que desliza em direção a um final incerto, que tanto poderá ser de construção ou de perda.

Foi assim que atravessei os poemas de Sangria.

A hipótese do projeto é perigosa. Difícil. Pode não dar certo.

Nas palavras da autora, “com este trabalho, procuro  desvendar como a colonização, seus mecanismos exploratórios, repressões e golpes de estado, construíram sentidos do feminino, absolutamente silenciados e apagados”.

O caminho eleito foi o de ativar um processo de tecer contínuo (à moda das mulheres bordadeiras e tecelãs), entre o ciclo menstrual, ou seja, o organismo feminino a partir de sua potência reprodutiva e a revisita a episódios opressores da história brasileira. São 28 poemas/dias, revelações, ritos de passagem, insights políticos/históricos, dores, sangue. Sangria.

Já que sublinhei a forte presença do ethos político do período pós junho de 2013 correndo nas veias dessa poesia, alguns procedimentos se destacam. Inicialmente, chamo atenção para o trabalho artístico que utiliza prioritariamente o organismo/corpo da mulher, locus, por excelência, da manifestação e criação  dessa nova geração feminista.

Esse mesmo corpo feminino, milenarmente construído e controlado por uma perspectiva e sensibilidade masculinas, que agora volta, vigoroso, como plataforma mais adequada para a expressão e o enfrentamento feministas.

(…)

Sangria não é apenas mais um livro de poemas, Sangria é um projeto literário sobre a História do Brasil vista pelas entranhas de uma feminista contemporânea.

Digo projeto, porque o grito que Sangria faz ecoar não se realiza apenas na páginas impressas deste livro escrito por uma atriz-poeta-performer. Qualquer verso aqui revela o desejo de saltar da página, pede som, pede movimento, pede imagem, pede, sobretudo, ação. Assim como a linguagem, a edição do livro também trouxe demandas de expansão. Temos intervenções, costuras, fotos e uma webnovela.

A poesia em diálogo com a performance e o livro em diálogo com outras mídias é um dos aspectos do que observei como o trabalho em Sangria no limite das linguagens e das categorias. Uma poesia que tira sua força estética de cruzamentos possíveis: a passagem destemida do lírico para a oralidade áspera, do cíclico para o mosaico, da palavra para o movimento, da palavra para a imagem. Contemporâneo. Inadiável.

Enfim, em Sangria, a nova poesia feminista se revela como um de seus melhores momentos.

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4 POEMAS DE SANGRIA

DIA 1. NOME COMPLETO

eu queria escrever a palavra br*+^%
a palavra br*+^% queria escrever eu
palavra eu br*+^% escrever queria
BRASIL
eu queria escrever a palavra brasil

aquela em nome da qual
tanto homem se faz bicho
tanto bandido general

aquele em nome de quem
a borracha vira bala

a perversidade qualidade de bem

aquela empunhado em canto
atestada em docs
que esconde pranto
mãe do dops

eu queria escrever a palavra brasil
mas a caneta
num ato de legítima revolta
feito quem se cansa

de narrar sempre a mesma trajetória
me disse “PARA
e VOLTA
pro começo da frase
do livro

da história
volta pra cabral e as cruzes lusitanas
e se pergunte
DA ONDE VEM ESSE NOME?”

palavra-mercadoria
brasil

PAU-BRASIL

o pau-branco hegemônico
enfiado à torto e à direto
suposto direito
de violar mulheres
o pau-a-pique
o pau-de-arara
o pau-de-araque
o pau-de-sebo
o pau-de-selfie
o pau-de-fogo
o pau-de-fita
O PAU
face e orgulho nacional

A COLONIZAÇÃO COMEÇOU PELO ÚTERO
matas virgens
virgens mortas
A COLONIZAÇÃO FOI UM ESTUPRO

pedro ejaculando-se
dom precoce
deodoro metendo a espada
entre as pernas
de uma princesa babel
costa e silva gemendo cinco vezes
AI AI AI AI AI

getúlio juscelino geisel
collor jânio sarney
a decisão parte da cabeça
do membro ereto
de quem é a favor da redução
mas vê vida num feto

é o pau-brasil
multiplicado trinta e três vezes
e enterrado numa só garota

olho pra caneta e tenho certeza
não escreverei mais o nome desse país
enquanto estupro for prática cotidiana
e o modelo de mulher
a mãe gentil

§

DIA 10. 1a MASTURBAÇÃO

o erotismo é só a casca do meu peito
é muita lábia
pra pouco lábio
que oferece água
com três beijos sara
e se eu não quiser casar?
será eterna essa chaga
de carregar o ventre livre
e a carne viva?

mesmo quando intactos os joelhos
há algo que lateja pra além do útero

sei que assusta tanto erotismo envolvido
mas só te peço humanidade
vem comigo
deixemos os arcos do triunfo
o céu é suficiente pra quem tem boca
e entre tantas nenhum respiro
(minha saliva não é purpurina)

sou mais seiva do que água
apesar da anemia aparente
são camadas e camadas de células-vivas
camadas e camadas de paetê dourado

e se eu entrar
descalça na igreja
o vestido manchado de suor
celebraremos juntos o pecado de cada dia?

no pescoço
coleciono fraquezas
poemas pra não enforcar

uma corda (vocal) desafina enquanto visto armaduras

não há heroísmo em ser tantas
mulher-origami
sempre metade do esperado

eu rasparia os ossos até virar lança
mas falta gordura sob a pele
comeria blush como quem experimenta terra
mas perdi os dentes-de-leite

sabe
de todas as armas
(brancas ou não)
o espelho é a que mais dói

§

DIA 12. 1a PAIXÃO

você tem a delicadeza
de um açougueiro
que antes de fatiar
separa a carne do osso

sabe que os lábios
é a melhor parte
de uma mulher
que palavras moídas
causam indigestão
e que um coração
dura até dois meses
no congelador

você amacia peitos
e troca em miúdos
como quem esquece
cozinha lento
e me come de
boca fechada

você inteiro
é um pedaço
refolgado
de passado
(mal passado)

sabe de hormônios
em demasia
e assuntos carnais

você é minha
anemia
sangrando
gota-à-gota
na pia

carrega o sonso
de um bife de soja
ou de uma feijoada light

desfiado
te observo
atentamente
e mastigo
com prazer
mais uma cenoura crua

§

 

DIA 20. FADIGA

/sozinha
penélope desfia
desafia
(abutres, o filho, a multidão)

mas os deuses aplaudem ulisses

***

 

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Adelaide Ivánova (1982-)

Adelaide Ivánova, por Jakob Ganslmeier

Adelaide Ivánova, por Jakob Ganslmeier

Adelaide Ivánova (Recife, 1982)é poeta e fotógrafa brasileira, lançou os livros Autotomia (Pingado-prés, fotos) e Polaróides (e negativos das mesmas imagens) (Cesárea, 2014, poemas e crônicas), Erste Lektionen in Hydrologie (und andere Bemerkungen) (edição da autora, 2014, fotos)  e O martelo (Douda correria, 2016, poemas). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais. Adelaide Ivánova vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha. Há ainda mais material que vale a pena conferir no site https://adelaideivanova.com.

* * *

para vaniela

o lugar mais longe que
eu tinha ido era tão perto
que foi só pra lá que eu
pensei em ir meu nome
é vaniela da silva e o lugar
mais longe que fui foi a paraíba
saquei o que tinha
calcei as sandálias
bebi um café e fui
trabalhar mas dei um
perdido e não voltei pra
casa fui andando
pra frente que é pra onde
se deve andar se eu fosse
um homem branco ninguém ia nem
perceber “fugiu com uma nêga”
“tá apagado
no bar”
“tinha dívidas no banco
no boteco no agiota”
mas não sou travis e
isso aqui não é paris
nem é texas
não tem glamour de
cinema tem a delegada
gleide que adora aparecer
nas fotos e tem
toda sorte de infelizes
pra me julgar que eu saiba
tenho o direito de sumir
de dar meus perdidos
eu não esperava
tamanho alarido
me diga mesmo desde
quando essa terra se
importa com seus mortos
com seus desaparecidos
se eu fosse um homem preto
e tivesse sumido
todo mundo ia rir
“deve ter feito merda
grande”
“esse é o fim
de todo ladrão”
“devia ter dívida
com um traficante”
mas sou mulher
e fica ainda pior
me odeiam por não ter sido estuprada
e me odiariam se tivesse sido
iam perguntar
o que eu teria feito
que foi bem feito
que devo ter merecido
nesse road movie
perverso em que meu papel é
ao mesmo tempo
geni e super star
não sou soberana
sou um particípio
nos jornais dizem
“teria roubado”
“teria falsificado”
“teria fugido”
ninguém considera
que eu, vaniela,
fugi porque pude
porque quis
fosse sozinha
com a namorada
ou com o tal do juiz
cada um vai e se vira
como pode eu comprei
umas passagens
e fui pra rodoviária
eu só queria vazar.

Autotomy

Autotomy

para laura

em 1998 quando encontraram
o corpo gay de matthew shepard
sua cara tinha sangue por todo lado
menos duas listras
perpendiculares
que era por onde suas lágrimas
haviam escorrido
naquele dia o ciclista
que o encontrou não
ligou para polícia logo que o viu
porque o corpo de matthew
estava tão deformado
que o ciclista achou ter visto
um espantalho

sábado passado em são paulo
a polícia matou laura
não sem antes
torturá-la laura
foi filmada ainda viva
por outro sujeito
que em vez de ajudá-la
postou no youtube o vídeo
d’uma laura desorientada
e quem não estaria
tendo sangue na boca e na parte
de trás do vestido

laura tem um corpo
e um nome que lhe pertencem
laura de vermont presente!
foi assassinada pela nossa indiferença
e pela polícia brasileira
tinha 18 anos
sábado passado.

Erste Lektionen in Hydrologie

 o ministro

pudessem os homens brancos em bruxelas
e thomas de maizière ouvir este meu poema
estaria resolvida o problema das fronteiras
veja bem sr. ministro
em minha cama não se pede visto já troquei
lençóis e fronhas sujos de sêmen made in
espanha hungria áustria zimbábue iraque
alemanha fazemos a alegria uns dos outros
e diga-me sr. ministro
se não fôssemos nós quem mais a faria? e quem
faria o crescimento dos seus índices demográficos?
segundo fatou diome somos responsáveis por 40%
diga mesmo sr. ministro
sem nós expatriados de onde viriam tantas delícias
as teses os ensaios a vida as baladas os bares os
quadros com os quais lucram vossos museus
de onde viriam os livros premiados com os quais
lucram (ou lucravam) suas poeirentas livrarias?
haveria para pasolini este homem europeu um futuro
mais duradouro tivesse pasolini se refugiado?
talvez fosse morto na síria na líbia ou na casa
de caralho menos por ser refugee e mais por ser
viado (sim outro grande problema mas esse não é
hoje o tema do poema) já deitei em futons tapetes
colchões e carpetes de toda sorte de gente inclusive
os de budapeste os mais cabrões atualmente
(os jogadores de golf de melilla não são menos sinistros)
o segredo sr. ministro
deixa eu explicar é abrir fronteiras e coração sermos
bons como lou salomé que fez a caridade de comer
nietzsche e para o próprio deleite ainda deu pra rée e (dizem)
rilke sermos bons com quem vier não importando a cor
do passaporte nem do sujeito apenas dando muito seja lá
do quê – um visto um teto um trabalho um hallo um meio
de transporte mais seguro e ventilado que um caminhão
e um destino mais humano que o injusto e raso para onde
eu você e petra laszlo mandamos o pai em fuga e seu filho
(o chão).

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poesia

Ricardo Pozzo

Ricardo PozzoRicardo Pozzo, além de um autodeclarado “abstêmio” e “blefador”, é um poeta, tradutor, músico e fotógrafo nascido em 1971 na Argentina e radicado em Curitiba. É o organizador do Vox Urbe, as noites de poesia que ocorrem toda terça-feira às 22h no Wonka Bar em Curitiba (tem uma matéria interessante a respeito no Caderno G da Gazeta do Povo, de 2011: link aqui), colaborador do Jornal RelevO, editado por Daniel Zanella, e membro do coletivo literário Pó&Teias, idealizado pela professora e escritora Glória Kirinus, que completa 10 anos este ano.

Seus poemas estão reunidos no caderno UrbeFagoCitoZ (aludindo, convém glosar, à fagocitose celular como metáfora para o engolimento do ser pela cidade, a urbe), que inclui ainda traduções e fotografias, além dos seus poemas próprios, e circula já desde 2011 por Curitiba através da editora artesanal Rock Leituras. Também podemos encontrar alRicardo Pozzo - El vuelo de la golondrinaguns de seus poemas aqui e acolá em periódicos de respeito, como o Cronópios e Germina Literatura. Como parte de seu trabalho fotográfico – intitulado Urbe Fágica –, sua poesia se concentra bastante sobre a temática da cidade, em tudo que ela tem de “obsceno, feérico, apocalíptico, espetacular”, como diria o nosso ilustre Fausto Fawcett – com privilégio para as figuras marginais como a(o) prostituta(o) e o mendigo, não por acaso protagonista constante de muitas das fotos em sua galeria do Flickr, como as que ilustraram minha postagem de dezembro de 2012 de poemas sobre mendigos – já a outra face de sua fotografia, a de natureza mais noturna e erótica, você pode acompanhar clicando aqui.

           

Ricardo Pozzo - Urbe fachada

Junto com alguns dos seus poemas que selecionei, deixo aqui também na sequência uma seleção de links para outros sites com trabalhos do Sr. Pozzo:

Poemas na Germina Literatura

Poemas no Portal Cronópios

“Fotocorpos”, fotografias de nu artístico, na revista Mallarmargens

Dois poemas em prosa na última edição (março/2013) do Jornal RelevO

Um projeto musical, com Rodrigo Madeira e Tullio Stefano, intitulado Cartografia da Hesitação entre o Som e o Sentido.

E, para encerrar, uma entrevista para o site Curitiba Cultura sobre poesia e a cena cultural de Curitiba

Adriano Scandolara

           

Per. Plexos

Michês desfilam esculpidas. Carcaças. Na interjecional estreita. Voluntários da Pátria. Entre o estereotípico Instituto e a praça Osório. Inspecionados por. Automóveis olhos. Circunda-os. Diluídos latrocidas indiciados. Por uma jaqueta, trinta reais e alguns centavos. Ilegítima defesa. Da honra garden-party à sombra. Em ambos. Lados de falsos efebos para evitar. Que sonhos de consumo tornem-se pesadelos; ou. O remédio dos velhos. Traquejados em liquescer homopétalos gametas. Ainda vale o ditado. Homem que trabalha será dignificado.

            urbe under construction

Alvéolos de petit pavê

Um drone
observa-me
por entre
alvéolos
de petit pavê
na cidade
tipo exportação
feita
pra ninguém

E meu irmão,
que
encontra-se
jogado
para fora do
espetáculo

: cidadania
examinada,

saca de
vísceras
instituídas
em álcool,

lamenta
que a vida
é rinha
sem saída;

e a
infância
invisível,
tal qual
o mendigo,

por entre
alvéolos
de petit pavê

            urbemorpheu

Falsa Varsóvia

Sorve a turba
o compulsivo maná
do sheol adicto,

Herdeiros
de um deserto
sinuoso
no gueto
do esgoto

ao qual escoam
a hipocrisia
e a solidão da
solidariedade
interesseira.

Antes bons pais,
bons funcionários,
boas filhas,
hoje acocorados
em manilhas,
sob o tronco
dos Chorões,
festejam
um ritual lascivo

na micro sinagoga
de alumínio,
a menorá
de isqueiros.

Irmãos da nóia
desorientados
pelo Inimigo,
crêem estar,
a Terra Prometida,
além dos portões
de uma psíquica
Treblinka.

            

Tanatologia das Relações Humanas

Para melhor compor
o puzzle
das fantasias
nostálgicas
acerca do futuro,
horas em dedicado
estudo
ao feixe solar
que incide sobre a colcha
ou ao intervalo
entre fusas e semibreves
no minueto
calha sob chuva.

farta
de sua máscara hipócrita,
aguarda
o habeas corpus
que a liberte do mundo real;

hypnos sussurra
em seus ouvidos
enquanto felinos
festejam a sua volta

o mundo
ao seu redor
sempre lhe pareceu
um tanto
fora de órbita.

O contestado é agora

           

Anthropocetáceo

Igual a
personagem
desconfia
do ator
que é,
em voz
e carne,
ao remover
a primeira
camada
de maquilagem,

anthropocetáceo
emerjo,

do frívolo
mar
espesso
das
convenções
sociais.

(poemas e fotografias de Ricardo Pozzo)

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