poesia, tradução

UM ANO DEPOIS DE ISTAMBUL, por Francesca Cricelli

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Fotografia de Francesca Cricelli

Um texto meu permaneceu engavetado por um ano. Ontem, por acaso, assistindo a um filme de Ferzan Özpetek Rosso Istambul senti-me invadida pela saudade do Bósforo, seus azuis, as luzes do dia nele se refletindo e tudo sendo alterado a partir dela – a luz. Decidi reler a crônica que havia escrito quando voltei de lá sob a luz de hoje, maio de 2018 – há um ano de Istambul e 50 de ´68 – e propor a publicação à revista escamando, acrescida de alguns poemas que traduzi em razão e emoção da viagem. Agradeço aos editores pela acolhida. Onde escrevo “no ano passado” leia-se retrasado. Em maio de 2017 eu me preocupava com os destinos do conservadorismo turco e pensava em algum paralelo com o Brasil, mas ainda me parecia algo distante. Falava do bairro onde estava hospedada como uma “ilha progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia.” Este mar encrespado tem batido seus golpes sobre outros rochedos. Desde que escrevi este texto houve o golpe, houve o assassinato de Marielle, houve a prisão de Lula, houve o ataque norte-americano sobre a Síria. Houve também o descolamento dos vítreos dos meus olhos, mas houve muita poesia escrita e traduzida, houve minha volta à China, minha ida à Galícia, o lançamento de três livros, houve festival em Nova York, passagem por Miami, houve minha primeira ida à Islândia. Houve capítulos escritos da tese, paixões, desilusões e enamoramento. Doença e morte. Diante do porvir, diante do desconhecido, que estejamos prontos e dispostos a nos movermos, escrevermos, traduzirmos, viajarmos, denunciarmos. Que se mantenha um espaço com alguma graça, luz e esperança para ter forças de olhar para trás – um pouco – e seguir adiante.

Ribeirão Preto, maio de 2018

*

AS VOZES DE ISTAMBUL

No ano passado, narrando minha viagem à Qinghai, na China, [revista Cult n.° 2018, novembro de 2016] contei como havia escapado, por pouco, à tentativa de golpe militar na Turquia, dia 15 de julho de 2016, mudando instintiva e inconscientemente minha conexão de voo até Pequim, não passando por Istambul, mas por Roma. Desde então, ou talvez muito antes disto, venho fantasiando uma viagem à antiga capital oriental do império romano repartida pelo Bósforo. Mas é a poesia, Senhora das minhas andanças, que decide o momento e os percursos a serem traçados. Tive que esperar até maio para conhecer Istambul.

E como escrever sobre o encontro real com um lugar imaginado, aquele já sonhado e visitado em versos e prosas? Talvez só evocando Drummond de antemão, e não Nazim Hikmet, quase pedindo licença, para então enunciar as impressões dos dias fugazes, pois “lutar com palavras é a luta mais vã”; “entretanto lutamos/ mal rompe a manhã”. “São muitas/ eu pouco”. Tantas são as cidades e civilizações que habitam Istambul. Esta multiplicidade sincrônica evoca uma orquestração de sentidos. Percepção sensorial que cruza a história enquanto nos ouvidos ressoam os versos dos poetas em tantas línguas inteligíveis e o azan, a chamada à prece que desce dos minaretes e atravessa as leituras. São estas algumas das vozes de Istambul que evoco, como se quisesse citar Canetti em Marraquexe, ouço-as quando se juntam ao coro das manifestações do primeiro de maio, suas ruas ocupadas, centenas de pessoas presas, ou quando harmonizam com a canção bella ciao, hino antifascista da resistência italiana, cantada a plenos pulmões pelos poetas turcos durante o cruzeiro noturno no braço de mar que divide a cidade.

Tudo é pouco diante da antiga metrópole alçada entre continentes, duas faces voltadas para um estreito de mar que divide o Ocidente do Oriente e liga ao Mar Negro o Mar de Mármara, antecâmara do Mediterrâneo. Tantos impérios erguidos e desfeitos entre o céu e o Bósforo. Os percursos narrativos possíveis são infinitos, um para cada paleta de azul que reflete sobre os palácios, casas e mesquitas. Ampla variação que percorre as cores do céu do alvorecer até as últimas luzes do pôr-do-sol visto da Torre de Gálata, tantos tons quanto os vitrais da Mesquita Azul em sua ação caleidoscópica sobre seus azulejos que revestem suas paredes.

Entre o final de abril e os primeiros dias de maio participei do Bahar ve Şiir Festivali, festival da Primavera e da Poesia do bairro de Beşiktaş. Fizemos várias leituras pelos parques da cidade. Em Istambul, os bairros são “municipalidades”, como nossas subprefeituras, mas com maior autonomia, podendo, assim, gerir seus recursos com maior liberdade. Talvez seja esta separação de poderes o que faz coexistir uma ilha tão progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia. Enfim, Beşiktaş, situada na costa europeia da cidade, não é distante de Beyoğlu, bairro que abriga a praça de Taksim, palco das principais manifestações e ferozes retaliações policiais de 2013. Com todas as devidas diferenças, há algo em comum nos destinos que tomaram Istambul e São Paulo, a Turquia e o Brasil, desde 2013.

A alma do festival é seu diretor artístico, o poeta, tradutor de literatura russa e acadêmico Ataol Behramoğlu. Seu braço direito na organização é seu sobrinho, também poeta, Onur Behramoğlu. Ataol viveu por anos em exílio após o golpe de estado de 1980. Seu livro Nem chuva … nem poemas foi então confiscado, e o poeta, tendo vivido na Grécia, na França e na Rússia traduziu autores como Louis Aragon, Bertold Brecht, Atila József, García Lorca, José Martí, Maiakovski, Neruda, Pushkin, Yiannis Sitsos reunindo-os no volume Balada da irmandade e levando estas vozes à Turquia. Por sua própria história de vida, Ataol tem a inclinação de carregar as vozes da poesia de um lado ao outro do mundo, de uma língua a outra. Talvez por isso o festival mostrou uma abertura especial às vozes dos refugiados e exilados. Contou-se com a presença de diversos poetas em exílio, sobretudo sírios que hoje vivem na Turquia, e da poeta e militante iraquiana Amal Al Jubouri, hoje residente em Londres. Não podemos esquecer que aproximadamente três milhões de sírios vivem exilados na Turquia, que de alguma forma, age como uma membrana de contenção para a Europa. Questões nebulosas e delicadas que talvez indiquem algo sobre a falta de um posicionamento claro quando se fala de Erdoğan. Beşiktaş significa, literalmente, “berço de pedras”. O nome é uma herança da igreja bizantina Kounopetra, construída nesta parte da cidade, com o intuito de abrigar uma pedra supostamente vinda da manjedoura em que nasceu Jesus. A mesma relíquia foi posteriormente levada para Hagia Sophia – Santa Sabedoria, mas desapareceu durante a Quarta Cruzada, foi provavelmente vendida no mercado europeu de relíquias religiosas. Outra narrativa diz que a pedra era, na verdade, a pia batismal de Cristo e teria sido trazida para Istambul após uma peregrinação originada em Jerusalém. Há ainda uma terceira e mais interessante narrativa que tem como fundo a distorção linguística da expressão beş taş, ou seja “cinco pedras”, que se refere às cinco pedras utilizadas para amarrar os barcos na época do Khayr al-Din Barba Ruiva. Quantas vozes e versões há por trás do nome de um bairro de Istambul? A presença de muitas camadas narrativas soa como uma música de Jun Miyake, “Integral Silence”, cujo poema inicial diz “how do we begin to know the unknown?” Como começamos a conhecer o desconhecido? Como a pergunta à sentinela nos versos de Isaías “em que pé está a noite?” Vem a manhã e vem a noite. O poema-música de Miyake continua dizendo que há ainda tantas perguntas, “movo-me dentro delas” diz, as indagações são “minhas mãos e meus pés”, “são o que lhe devolvo”. É difícil falar com leveza sobre Istambul após tão poucos dias, e seria esta a saída mais fácil, pois sua beleza é tão ensurdecedora que ofusca o que vai além da percepção imediata. Não é um acaso misturar visão e audição ao falar de Istambul. Não passa batido à memória, nem com a deslumbrante beleza e sedutora culinária, que o mesmo país que acolhe tantos refugiados sírios é também responsável por um dos maiores genocídios da história, pela diáspora armênia, pelos conflitos irresolutos com o povo curdo. Temos alguns poderosos registros artísticos sobre este drama em nosso próprio país, pela arte de Norair Chahinian, seus registros fotográficos em O poder do vazio: conversando com as pedras na Armênia histórica [livro impresso em Istambul pela editora Aras em abril de 2015] ou nos versos do jovem poeta brasileiro William Zeytounlian [Diáspora, Selo Demônio Negro, 2015], ambos de ascendência armênia.

Uma noite, após uma longa leitura e jantar num pequeno restaurante nos becos da cidade, passei algumas horas no terraço do hotel cuja vista era a Ponte do Bósforo conversando com o poeta Onur Behramoğlu. Falamos principalmente sobre questões políticas que parecem afligir uma camada da população turca assim como, aqui, a brasileira: vários amigos de Onur estão presos ou já foram presos, muitos jornalistas, professores e intelectuais. Inevitavelmente, tocamos na questão armênia e relatei algumas histórias que conheço pessoalmente. Foi então que o jovem poeta me disse ter marchado em solidariedade à memória do jornalista armênio, Hrant Dink, assassinado em Istambul em 2007. Foi então que também me disse que seu avô – otomano -, como o pai de uma amiga armênia, ficou órfão durante o mesmo conflito. Aos cinco anos estava sozinho na vida. O filho deste órfão, pai de Onur, irmão do poeta Ataol, é um advogado trabalhista e ganhou a primeira ação em defesa de operário morto na construção da mesma ponte que víamos do terraço do hotel. Sentia então uma estranha sensação, invertendo o título do último romance do prêmio Nobel Orhan Pamuk, quão real era aquele conflito que havia ditado o mesmo destino às duas crianças de diversas etnias? Lembrei-me então de um trecho do romance de Luigi Pirandello, Um, nenhum, cem mil, no qual diz que nossa capacidade de nos iludir que a realidade de hoje seja a única verdadeira é algo que “por um lado nos sustenta, por outro atira-nos num vazio sem fim”, diz, “porque a realidade de hoje tem como destino descobrir-se a ilusão de amanhã”. Sim, “a vida não conclui. Não pode concluir. Se amanhã conclui, acabou.” Ainda bem que diante deste vazio sem fim me vem à mente outro texto, um poema chamado O grilo, de um amigo poeta cubano, o poema diz: “sob a noite cósmica/ na vasta solidão do descampado,/ o grilo canta./ O peregrino escuta/ e já não teme.”

Francesca Cricelli
São Paulo, maio de 2017

 *

Na vida e na morte nos dividimos
nossos corpos estão divididos
nossas almas divididas
nossas vozes divididas, uma da outra

nossas mãos separadas
nossos cheiros
acordar junto na mesma cama
nossos sorrisos
nossas lagrimas
divididos nossos sonhos uns dos outros

no breu da noite
improvisamente, tudo se faz um.

[Ataol Behramoğlu, Turquia]

 

 

We parted in life and death
Two bodies separated
Our hearts separated
Our voices separated, one from the other

Our hands separated
Our smells
Our waking up together in bed
Our laughing together
Our tears
Our dreams separated, one from the other
The dark night of the soul
Suddenly occluded everything

§

TODA MULHER QUE TRANSA

a uma mulher que ama Sopor Aeternus

toda mulher que transa, transa porque sofre
cai num dilema de busca do amor pelas camas
seus punhos, seu pulso, sua sobrancelha
o que lhe treme, onde sente frio
lá quer ser beijada
beijada por quem ela dá valor
deixa o vapor no espelho ser o seu nome
sabendo que logo será apagado
deixa a navalha, uma vez por todas, cortar o rosto dele enquanto pensa nela
deixa que recolha o cabelo dela do chão e redima sua prece
toda mulher que transa, é pelo afeto
como um rio abre-se à curva de caverna
num esforço para que não murche
o manjericão à espera frente à janela
comprando flores para sua solidão no caminho
escondo-a em segredo numa caixa de sapato

toda mulher que transa
gostaria de reprimir o seu pesar
move sua carne como uma garra
finge um xeque-mate
seu entorpecimento não se diferencia
do entorpecimento dos que fazem rindo
— comporta-se como uma garota má —
como as tranças, os rabos-de-cavalo, dois rabos-de-cavalo
rasgavam-se como uma corda nas palmas —
como as fibras entretecidas e a terra remexida
do seu jardim, carregada em sua testa
toda mulher que transa, o faz por amor
em algum momento a hora arbitrária estanca
ela apresenta seu pertencimento à estátua vertical que admira
ela prega com fotos emolduradas
no ventre ofendido que gostaria de dar à luz
enquanto tenta apagar o cansaço da nuca dele
ela quebra os berços das crianças fantasmas que chorou

toda mulher que transa, é para não enlouquecer
e está exposta às ameaças do seu companheiro
ela teme que a loucura se agarre
à luta que ela já não tem forças para aturar

toda mulher que transa, transa por não morrer
ela pode se enganar tanto quanto um homem

[Neslihan Yalman, Turquia]

 

WHICHEVER WOMAN MAKES LOVE

                   — to a woman who loves Sopor Aeternus… —

 whichever woman makes love, it is because of suffering
she falls in a dilemma of searching love in beds
her wrists, pulse, eyebrows
whatever she trembles, feels cold
she would like him to kiss
someone on whom she values
let the steam on the mirror be her name
by knowing that it will be erased at that second
let the razor blade, at once, cut his face while he is thinking of her
let he take her hair off ground and redeem it blessing
whichever woman makes love, it is because of affection
like a river opens to bend of cave
in an effort not to make wither
the basil of waiting in front of window
buying flower to her loneliness on the way
and drying it secretly in shoebox

whichever woman makes love
she would like to repress her sorrow
she moves her flesh like a pawn
as she pretends to check-mate
her getting numb does not make any difference
from the people who gets numb by laughter
-she behaves like a naughty girl-
as braids, pony tails, two ponytails
were getting torn like a rope in palms-
as the grasses were weeded and its earth was raked
of her garden she cared on her forehead

 whichever woman makes love, it is because of love
at some point the hour of arbitrariness stops
she presents her belonging to the vertical statue that she admires
she nails photo frames
to the offended womb that she would like to give birth
while she tries to erase the tiredness off his back of neck
she breaks the cradles of the baby ghosts on which she cried

whichever woman makes love, it is for the sake of not getting mad
and she is exposed to her fellow’s threats
she fears that madness claws
to the struggle that she does not have any strength to endure

whichever woman makes love, it is in order not to die
she can deceive herself as much as a man

[traduzido do turco ao inglês por Müesser Yeniay]

§

ESSÊNCIA

das águas mortas só se espera o veneno
            [W. Blake]

estagnado, diria sem razão,
mas no fundo há uma tristeza escondida
há a nudez do outono
os arrepios que a visão provoca

dentro, aquele dia, o que sobrou
tão diferente em mim do que há em você?
e qual passado usamos para chamá-lo
detido assim há tanto tempo?

seu espírito envelhece feito vinho
todo embrulhado em suas feridas
a neblina espalhada dispersa
com seu próprio ímpeto

certos estão os poetas sábios
que encontram nas penas o segredo
veneno é tudo o que colhemos
na seca desta abundância

caminhar rebelde de si,
o mau humor, impertinente e curioso
é passageiro, roçamos no calor
o amor de todos os lugares

[Onur Behramoğlu, Turquia]

 

NELL’ESSENZA

        dalle acque morte solo veleno aspetta
[William Blake]

fermo, diresti senza una ragione
eppure in fondo una tristezza sta nascosta
in quella nudità d’autunno spoglio
che i brividi ci dà solo a guardarla

dentro quel giorno, che cosa è mai rimasto
diverso in me da quello in te
e che passato usiamo noi chiamarlo
tenuto prigioniero dentro al tempo

lo spirito a te invecchia come il vino
ed è fasciato tutto di ferite
si è sparsa ed è dispersa quella nebbia
nell’irruenza sua propria

nel giusto sono i poeti saggi
che nella pena trovano il segreto
veleno è tutto quanto raccogliamo
in siccità di benessere e di agio

è un camminare in sé ribelle
un malumore, scontroso eppur curioso
e di passaggio ciascun posto noi?
nel caldo lo sfioriamo dell’amore.

[traduzido do turco ao italiano por Giampiero Bellingeri]

§

VÉU DAS RELIGIÕES

Se és um
e se seus ensinamentos são um
por que inscrever nossa infância no Torah?
Por que adornar nossa juventude no Evangelho?
Só para apagar, tudo isso, em seu último livro?
Por que levar à discórdia, nós, que o reconhecemos como Um?
Por que multiplicar-se dentro de nós se és Um e Único?

[Amal Al Jabouri, Iraque]

 

VEILS OF RELIGION

 If You are One
And Your teachings are one,
Why did You engrave our infancy in the tablets of the Torah,
And ornament our youth with the Gospels
Only to erase all that in Your Final Book?
Why did You draw us, the ones who acknowledge Your Oneness,
Into disagreement?
Why did You multiply in us
When You are the One and Only?

[traduzido do árabe ao inglês por Seema Atalla]

§

DIZ-ME, AMAS OS DAMASQUEIROS?

Abraça-me e
conta
assemelha-se às tuas costas
a terra?

Não tenho vontade
de sair
basta-me
o que me contas

Diz-me,
amas os damasqueiros
e a chuva que banha os
teus cabelos?

Tu digas que os ama
e eu te escreverei
longamente, como um rio
ou chuva que faz os cavalos
esquecerem
seus próprios deuses.

Abraça-me
e conta-me,
assemelha às tuas costas
a terra?

[Gökçenur Çelebioğlu, Turquia]

 

DIMMI, AMI GLI ALBICOCCHI?

 Abbracciami e
racconta
somiglia alle tue spalle
la terra?

Non ho voglia
di uscire
il tuo racconto
mi basta

Dimmi, ami gli albicocchi
e la pioggia che bagna i
tuoi capelli?

Tu dì che li ami
e io ti scriverò
a lungo, come un fiume
o una pioggia che fa
dimenticare ai cavalli
I propri dei.

Tu abbracciami
e raccontami,
somiglia alle tue spalle
la terra?

 [traduzido do turco ao italiano por Nicola Verderame]

*

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Seus poemas foram recentemente publicados numa coletânea do Museu Minsheng em Xangai, na China. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP. Lecionou intecção literária na Casa Guilherme de Almeida e é professora do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas. Já apareceu aqui na escamandro com diversas traduções e poemas próprios.

***

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crítica

Trocos, recibos & resenhas. Um 2017 por Sergio Maciel (parte 2)

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para ler a parte 1, onde, aliás, explico os procedimentos em jogo, clique aqui.

sergio maciel

* * *

 

Francesca Cricelli (16 poemas + 1, edição da autora: 2017).: Esse livro da Francesca dá um pano pra manga. Há coisa a ser dita sobre a questão editorial, comercial, poética e tradutória, afinal, aquilo que Caroline Micaelia diz sobre a poeta, sobre ter o mundo por nacionalidade, também vai se aplicar ao livro. Lançado, salvo engano, nos Estados Unidos, o projeto, que conta com a mescla entre poemas publicados sob égide do seu segundo livro, Repátria (Selo Demônio Negro, 2015), e poemas inéditos, se apresenta vário. Em Repátria, Francesca já assinalava o caráter ambíguo de sua poética ao apresentar-nos um livro bilíngue. Quando digo ambíguo quero me referir a uma dificuldade de definição dos limites identitários do objeto poético semelhante à apresentada pela poética de Frederico Klumb – texto a seguir. Isto é, há um espelhamento, uma duplicação que não nos permite identificar o discurso original.

Mas para além dessa questão problemática de tradução, que nos força a olhar o livro como vários, eu vejo um outro tipo de domínio do mundo. Francesca tem a capacidade de evidenciar, sem pedantismo, o caráter de suas leituras. Ainda que se apresentasse monolíngue, sua poética certamente deixaria claro os diálogos que estão em jogo.

Disso resulta que Francesca opta pela observação dos acontecimentos, pela compreensão que os gestos e os afetos também desconhecem pátrias. Vejamos o poema da página 31:

CAMINHA INVISÍVEL

Caminha invisível o amor
na multidão doída e apressada
entre olhares dispersos.

O amor caminha só,
anjo atravessado por passos rápidos.

É menos do que um mendigo o amor
na hora do rush, na plataforma dos trens
e a cidade incandesce
minutos antes do pôr do sol.

Isso, pra mim, é quase aquilo que Drummond fala em Versos à boca da noite, “Um pedaço de ti rompe a neblina,/ voa talvez para a Bahia e deixa/ outros pedaços, dissolvidos no atlas,”. Isto é, trata-se quase da comunhão dos espaços poéticos num só corpo. Ver o amor andar por aí, quase como um flanêur, não necessita localização geográfica ou poética. Estamos falando da captação da poesia que acontece em meio ao susto, da transformação da observação em beleza.

Frederico Klumb (Arena, Megamíni: 2017).: Há um problema na poética do Frederico Klumb – fato, aliás, que me levou a entrevista-lo (clique aqui) – que é tentar resolver, na minha cabeça, essa questão da diferença dos registros das mídias. Escrevo aqui-agora apenas sobre o livro Arena, publicado pela Megamíni, ou escrevo sobre o vídeopoema arena (clique aqui), postado no vimeo? As duas coisas?

Vamos começar o problema assim: na ficha catalográfica do livro aparece “Arena na tela”, seguido do link para o vídeo. Mas aí, minha camaradagem, você vai ver o vídeo e, rá!, não está lá o poema todo, ou seja, não é o livro jogado pra tela. A coisa aparece fragmentada, reordenada. Outras ferramentas estão em jogo. Na tela, da parte I do livro temos apenas os três primeiros versos:

I.

de finas patas
…………atadas
os urubus

Aí há o corte, no vídeo, para aquilo que se apresenta como a parte II. Vejamos:

II.

teus olhos inteiro
………….não escondem

tal as explosões
com a beleza
de seus cogumelos

não

No livro, esses versos correspondem ainda à parte I. O primeiro verso, no entanto, difere na versão impressa, sendo “e os olhos inteiros”. Além disso, é preciso dizer que há quase 40s entre o quadro no qual aparecem os cincos primeiros versos dessa segunda parte e o quadro desse “não”, sozinho. Novamente, esse “não”, desse modo, não consta no livro. A parte III, no vídeo, que é a última – ao passo que no livro são 5 divisões, começa assim:

III.

não vejo
nessa cidade

paletas combinadas
às cores
de luzes
………..artificiais

No livro, temos:

III.

não vejo
nessa cidade

paletas
combinadas

às cores noturnas
de luzes e salas pianas bandejas de prata.

Quase 30s depois, no vídeo, temos:

nos subúrbios ainda
os garotos
tatuam sua carne
com pedras

duram todo
o tempo
de beber este leite
correr a manhã

Que corresponderá, com algumas alterações na disposição dos versos, à abertura da parte II no livro. Acredito que a partir desses exemplos já podemos discutir algo importante aqui: trata-se, afinal, do mesmo poema? A mim me parece evidentemente que não, porque, creio, há uma sintaxe toda outra na relação entre essas mídias que parece estar em jogo. O que me perturba, portanto, é buscar compreender que coisas tornam-se descartáveis nessa transposição de mídias, a ponto de a primeira parte resumir-se a meros três versos. Isto é, que formas do dizer, que formas de um objeto, são capazes de se transpor num outro, distinto, mantendo-lhe a identidade? Estamos claramente diante de um problema tradutório.

A metáfora do mundo, da cidade como arena, como palco, espaço de representação e jogo não é, certamente, nova. Tá em Freud, afinal. Tá, poeticamente, n’A rosa do povo. Klumb, eu diria, sobretudo por conta desse rasgo entre os registros, pretende tornar suas poéticas um território, espaço de fuga ao qual o leitor, diante desse imenso tédio, desse imenso cotidiano, evadir-se-ia. É uma tentativa de fraturar as linguagens possíveis um discurso, inserindo-o num momento-contínuo. Essa é a força do poético, afinal, a criação de uma linguagem que nunca se repete e que exige o exame constante de suas formas.

Frederico Spada (Arqueologias do olhar, Funalfa: 2011 | Coleção de ruínas, Edição do autor: 2013).: O primeiro livro de Fred Spada, Arqueologias do olhar, parece sofrer do mesmo mal que Pádua assinalou sobre meu livro: um excesso de justificativa. Isto é, prefácio, orelha e tudo mais. Desculpai, povo. A gente publica, às vezes, o primeiro livro na inocência mesmo. No livro de estréia de Spada, porém, ao contrário daquilo que Helena Maria Rodrigues Gonçalves diz, o palimpsesto a que se propõe sua poética me parece ainda um in progress. Há um tanto de uma tentativa ingênua de emulação de um passado poético, mesmo que esse passado se apresente quase imediato, como nas reformulações leminskianas de “MARGINAL”: “Réu confesso,/ roubo apenas versos./ Os corações, eu sequestro”. Não há ranço ou receio de minha parte, portanto, ao dizer que se trata aqui de uma poética juvenil, afinal é um desafio mesmo lidar com tantas vozes em meio às nossas leituras. Além disso, há que se notar uma valorização do ‘silêncio’. Desde o L’azur blasé, de Gontijo, toda vez que leio louvores ao silêncio, só consigo lembrar de que “poesia é comer o cu do silêncio”. Tudo isso, aliado ao uso de outras línguas, como o alemão, por exemplo, denotam uma tentativa de erudição que, se não tomado o devido cuidado, pode vir a esbarrar num pedantismo. Atentem, todavia, eu disse se tratar de um livro de estreia, um work-in-progress.

Coleção de ruínas, no entanto, aparece dois anos após Arqueologias. Trata-se de um projeto bem mais enxuto, quase reduzido ao essencial. Uma plaquette publicada pelo próprio autor. O momento político se apresentava totalmente outro (final de 2013), e é através dele que leio o livro. A ideia do silêncio vai se apresentar distinta. Pra quem estava atento, 2013 já anunciava o cansaço político que sentimos agora. Ou seja, Fred não mais trata daquele silêncio literário, romantizado. É outra coisa a que ele se refere quando diz que “A cortina, inerte, pouco revela:/ nada aqui se apresenta -/ o último monólogo em cena,/ ainda a ecoar,/ é o silêncio”. Esse silêncio vai significar o próprio esvaziamento do discurso, “o vazio que os habitaria”.

Se o projeto do primeiro livro era arqueológico, resgatar um passado – projeto que, na minha leitura, não funciona –, este outro projeto revela que o poeta muda a visada e passa a aceitar os fragmentos, as ruínas ao redor. Não se trata mais de encontrar algo em meio aos escombros, senão olhar para o próprio entulho.

Guilherme Gontijo Flores (carvão :: capim, Artefacto: 2017 | naharia, Kotter: 2017).: Sobre o naharia acho que tenho pouco a comentar, afinal Rafael Zacca, que escreve a orelha e o posfácio, e Gustavo Silveira Ribeiro, que escreve o prefácio – gente muito mais competente que eu –, já deram a letra e me parece que eu só choveria no molhado. Vou tentar achar aqui um elo que conduza ao comentário do carvão :: capim, portanto.

naharia é o livro que fecha a tetralogia Todos os nomes que talvez tivéssemos (sobre a qual ainda escreverei), iniciada em 2013 com o livro Brasa enganosa. É importante dizer isso porque aquilo que esses quatro livros assinalam, dentro da poética de Gontijo, é uma tentativa expandir sua voz poética. Na contramão do já dito, não concebo que se trate de uma busca pela voz poética. Quem tinha dúvida era Cabral, em Pedra do sono, que não sabia se se queria construtivista ou surrealista e por isso botou três poéticas pra brigar em Os três mal-amados e disso resultou o descarte de João e o embate eterno entre Raimundo e Joaquim (clique aqui para ler o texto em que trato deste livro de Cabral). Gontijo, a meu ver, experimenta modos de insinuar a palavra poética. Isto é, o resgate da tradição, a revisão do passado aqui ocorre através um movimento que busca forçar o limite dos gêneros poéticos, reorganizando-os a partir de uma consciência poética de seus funcionamentos. Vejamos, rapidamente (e já adianto aqui alguns apontamentos que desdobrarei no texto sobre a tetralogia): Brasa enganosa é a lírica de alegria quase infantil que estabelece uma aproximação com aquela lírica horaciana que vemos na ode 1.11, por exemplo. Tróiades – remix para o próximo milênio, é uma colagem que força o limite do trágico, do drama, força o limite do luto, do pathos, do kommos. É um experimento, afinal, pós-steineriano de voltar a sentir. Por isso seu caráter é mais violento. Poeticamente, algo como um furor juvenil. L’Azur blasé, por sua vez, é mais melancólico – apesar do humor. O poema satírico, o poema piada volta-se contra o próprio eu-lírico (eu fiz um comentário bem breve sobre essa questão do eu-lírico lá na Modo de Usar, clique aqui). O riso cansa-se. É uma madureza que se apresenta melancólica e abre espaço pra imaginação. Imaginação essa que vai ganhar plenos pulmões na velhice de naharia. É o inverno do Ser. A memória passa a operar, contando a vida. E é isso que me interessa: esse dialogismo.

Se em cada um dos livros Gontijo fez uso de um modo poético pra cumprir certas medidas de tempo, certos humores, certos caráteres, em naharia é o limite da épica que é explorado. Toda narrativa épica vai narrar algo que não está inserido no tempo da narrativa. Mas o tempo, em naharia, não é o tempo do imemorial do diz que me disse ouvir falar e agora vou te contar. É o tempo da vida humana, de uma vida humana. Por isso, o narrado que se apresenta só pode ser tão banal (e tão épico) quanto é a própria dimensão de vida de cada um. Além disso, uma épica denota, realizando efetivamente um modo de práxis, uma noção de cultura. Não é o caso de naharia. Não há aqui o arquivamento de um tempo histórico coletivo. Novamente, trata-se do pequeno, do mínimo.

carvão :: capim, por sua vez, é o primeiro livro fora dessa tetralogia – particularmente, meu preferido. Neste livro, o húmus do passado poético germina uma coisa toda outra. Dos cinco livros publicados até aqui, este parece ser o que possui o melhor projeto que-se-baste-em-si. Diferente dos outros, este funciona como uma unidade em si. Fisicamente, o poema “Sator/Rotas” fica exatamente no meio do livro, páginas 44-45. Dividindo, pro começo, “Petrografia esparsa” e “História dos animais”, e, pro final, “Quatro cantatas fúnebres” e “Lo ferm voler”. Ou seja, na primeira metade temos os reinos do mineral, vegetal e animal, enquanto na segunda parte está inscrito o morrer e o amor. Interessante, não? Tudo isso cortado pela lâmina dum palíndromo recriado, um contorno:rascunho.

A secura do poema de abertura, paródia de um trecho da Farsália, épica de Lucano, que retrata a agonia pela falta d’água

Sedentos primeiro procuram por fontes secretas
cavando terras ribeiras subterrâneas
perfuram chão com enxadas ancinhos
com suas armas e o poço escavado no monte
desce ao profundo dos campos irrigados

Mas nem no curso oculto os rios ressoam
nada reflui das pedras brancas abatidas

contrapõe-se à enxurrada do poema final, em que

tudo desce feito rio lamacento
transbordando enxurrada revirando terra
para as voragens do relâmpago na noite

& tudo esbarra nas barrancas desse rio
para açular açudes todos contra tudo
que em torno vive & é mais sagrado que as palavras

quase como se ao decorrer das páginas tudo fosse se iluminando de imenso, partindo da uma secura absurda, incapaz, passando pela consideração dos elementos mais fundamentais à vida na terra, inclusive pela morte, pra se entupir, transbordar de amor, de paixão, de devoção na última parte. A vida, e a celebração dela, afinal, consagram-se superior às palavras. Mas evidentemente não se trata de uma alegria ingênua, afinal tudo desce feito rio lamacento. Aliás, o “rio” é um topos fundamental na obra de Gontijo. Ele se apresenta como metáfora da própria vida. Vide o poema da página 18 de Brasa enganosa:

não basta o rio……..murmúrio
adocicado das águas
rumo certeiro transparência
do olho d’água
desaguar suave sua torrente
não adianta fonte pura
ou perpétuo devir dos rios
como se fosse foz
seu único destino

não basta o rio –
cruzar a vida como esquina
sem banzeiro que revire a via estreita
nem
sorrir pra cantilena ilusória do mar –

carece macaréu em barro & areia
arrancando as árvores revendo
o próprio rumo………… estrondo só
sal revoluto
o corpo inteiro em pororoca

Enfim, é por isso que considero este livro um objeto mais bem acabado, pois vejo uma travessia, uma isomorfia, uma progressão dialética na coisa toda.

Júlia de Carvalho Hansen (O túnel e o acordeom: diário fóssil encontrado após a explosão, Livros Fantasma: 2017 | Seiva veneno ou fruto, Chão da Feira: 2016).: Há poucos dias eu disse à Júlia que eu achava que a música Horse with no name poderia ser algo como um approach à poética dela. Por isso, vou usá-la como uma chave de leitura, às explicando umas coisas a partir da letra. Não estranhem. Ou estranhem, sei lá.

Em O túnel e o acordeom foi um texto proposto para o encontro com a artista plástica Mayana Redin, para a exposição Aluvião, na cidade de Porto, em dezembro de 2010. A primeira edição impressa é de 2013. Ainda que não biografias assuma-se que cantos de estima seja seu primeiro livro, estamos tratando aqui de poemas de formação, quiça até mesmo um primeiro livro. Nesse sentido, como ocorre na maior parte das poéticas, há a presença de temas fundamentais, que servirão de base para os próximos livros, mas que aqui se apresentam ainda em estágio incubatório.  E é aqui que entra a música da banda America, porque pra mim esse livro é a “first part of the journey” (primeira parte da travessia). A poeta afirma-se como sua própria terra, como seu próprio território, e é nele que plantará a palavra poética para colher a palavra xamânica em Seiva veneno ou fruto.

Neste livro, semelhante a Adão nomeando as coisas e, por isso, tomando posse delas, Júlia, “looking at all the life” (olhando pra tudo quanto é vida), toma posse da vida através da enunciação. A palavra aqui funciona semelhante à palavra para Lewis Carroll em Alice. Tomemos como exemplo um trecho do poema da página 9: “Tracei por risco: PORTA: entrei pela palavra”. Ao modo da teoria austiniana, a palavra cria coisas. A palavra para Júlia é a própria poiesis. Por isso eu disse que ela planta a palavra poética no próprio solo, porque a ideia é que isto fecunde, gere qualquer coisa. É um movimento de instauração de mundo completamente próprio. Transforma-se a palavra em ambiente.

Em Seiva veneno ou fruto, (pensando ainda na metáfora com a música) já passou um bom tempo no deserto, em seu estado de contemplação. Ela  the horse run free, ‘cause the desert had turned to sea. A ideia de humanidade se expande e atinge um retorno a tudo quanto é animal, mineral e vegetal, “os níveis do corpo vão todos para o mais básico possível e o movimento e a força dos gestos adquirem uma velocidade vegetal“. A palavra construtora, que criava a porta ao nomeá-la, agora se converte em encanto, buscando consagrar os códigos, a natureza, o transe, as potências da linguagem no corpo. E aqui vai, nas palavras da própria autora, aquilo que eu compreendo como palavra xamânica: “Podemos traçar relações com o xamã, que por sua força operativa entre mundos e sensibilidades, sua atualização constante de tradições, também seria a placa de platina, um meio, um acesso. Mas penso que podemos precisar isto mais um pouco. Isto porque não é exatamente o xamã que canta para o paciente. Embora seja isto sim, é um pouco além disto: é através do canto do ícaro, que foi aprendido pelo convívio com as plantas, que as plantas que convivem no corpo-espírito do xamã cantam com ele o vegetal que está no paciente. É nesta interligação de sentidos e comunicações que se faz esta medicina, cuja parte vegetal da ligação é estabelecida pela ayahuasca que sensibiliza os sentidos; e a parte humana, sensibilizada, canta. Se os ícaros funcionam como rede da comunicação entre as espécies, a ayahuasca é um agenciador simbiótico e o xamã que canta um meio, um intermediário. Com isto, não há um sujeito desta relação que não esteja ligado a outro, não há um protagonista, tudo é a placa de platina. Durante um ícaro o xamã é o meio, a planta é o meio, o canto é o meio e o paciente é o meio. É tudo meio, mídia, médium. Interligado”.

É através do canto, portanto, que a poeta opera um movimento ao primitivo, ao repasto do Ser. A palavra aqui passar a servir de balança, intermédio entre os estados, os mundos possíveis, os corpos e as consciências. A palavra tem ânima. A palavra tem necessidade, essa urgência, de recriar o acontecer. Mire, veja: é o espetáculo do mistério que interessa agora. Júlia alcança a tal da terceira margem, aquela que não se vê, mas ainda dá conta de atravessar nossos sentidos. Mas Júlia faz tudo isso com a precisão telúrica.

Leonardo Antunes (João & Maria – Dúplice coroa de sonetos fúnebres, Patuá: 2017).: Ao contrário daquilo que costuma dizer certa parte da crítica, o tal do “verso livre modernista” não vem sufocando porra nenhuma nos últimos cem anos. Se pegarmos somente o agora-agora, posso dizer que há um bocado de gente tentando entender e praticando os metros, as particularidades de tudo quanto é tipo de verso produzido. O caso mais saliente seja talvez o do poeta Paulo Henriques Britto, que vem pesquisando as formas do verso contemporâneo, além de desenvolver, poeticamente, uma pesquisa sobre os limites da própria forma do soneto. Posso jogar no bolo aqui também o poeta André Capilé que, numa mirada rápida e ingênua, pode ser colocado num balaio de adeptos do “verso livre modernista”, mas que na verdade está na mesma tradição de uma pesquisa rítmica do verso de Britto, apesar de semelhar-se mais à estrutura fluida do Poema sujo, de Gullar, por exemplo, que gira ao redor das redondilhas. Mas mais importante que esses dois casos é compreender que essa balela de “verso livre modernista” não gesta nada. Bandeira, por exemplo, é um paradigma pra que se compreenda que há uma musicalidade absurda nesse tipo de verso. Lembremo-nos do poema Debussy, de Belo belo, que o Milton musicou, et alii. Cabral, preciso comentar? Lembremo-nos, também, do álbum do Belchior a partir de Drummond. Lembremo-nos de que as canções mais célebres de Chico (canção, nossa forma mais popular de poesia) são todas metrificadas: dodecassílabos em Construção, redondilha maior em A banda et alii. Ou seja, só diz que o metro e o ritmo estão “retornando” à poesia quem é desatento. Afinal, eles sempre estiveram por aqui.

Agora, certamente há, nestes tempos, uma retomada mais intensa de formas e temas poéticos clássicos – sobretudo se compararmos com a poesia dos anos 90/2000. E esse “clássico” vem se ampliando cada vez mais. Vide aquilo que acabei de falar sobre a poesia de Gonijo. Adriano Scandolara, por exemplo, parte de um classicismo judaico, retomando uma poética que se aproxime da poética bíblica. André Capilé retoma o clássico do candomblé, aproximando-se muito mais daquilo que é tradicionalmente oral. Nesse sentido, Leonardo Antunes vai recuperar uma forma poética medieval – a coroa de sonetos, que consiste numa “espécie de ciclo de sonetos, cujos poemas, além de tratarem de temas correlatos (ou de desenvolvimentos de um mesmo tema), observam ainda outras regras de composição entre si” – para tratar de um tema contemporâneo, ainda outra forma do “clássico”. Logo nessa escolha podemos estabelecer uma tensão. O que implica, hoje, empregar uma forma como essa? Acredito que, para além do estranhamento no leitor, há uma tentativa poética de ordenar o caos. Algo similar como ocorre em Construção de Chico Buarque. Há uma tentativa estilística de enquadrar o convencional, de enquadrar um “testemunho doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho”, pra dizer com Adélia Bezerra Meneses. Trata-se, reitero, da ordenação do caótico via estética.

Temos em João & Maria, uma narrativa. As histórias, contudo, se apresentam fragmentadas pela forma. Algo no andamento dos sonetos intensifica e dificulta a apreensão trágica, pois o verso, nesse caso, numa cadência incoerente ao tema, me parece servir como ferramenta de entrave e estranhamento. Dizendo melhor, intensifica, pois, conforme a narrativa avança – e se repete/reitera –, ela vai reforçando a castração dos valores essencialmente humanos. Vide os versos: “Existe alguma coisa que se abala/ Alguma coisa fundamentalmente/ Humana posta à luz num desgraçado// Que grita mesmo quando a boca cala”. Mas, ao mesmo tempo, dificulta, pois, quase ao modo do teatro senequiano, assinala constantemente através da composição do verso seu caráter fictício. Botando em palavras mais banais, não é a isso que se presta o soneto. A forma do soneto não conta, tradicionalmente, uma desgraça. O soneto é luz, é raio, estrela e luar. Manhã de sol. Soneto é coisa bonita. No máximo fala de uma dor pessoal. E é aí, creio, que o livro de Antunes nos dá um nó. É nessa união inusitada entre o rigor formal e uma narrativa popular, tantas vezes presente na nossa música popular (vide Pedro pedreiro e Geni e o Zepelim, de Chico; De frente pro crime, de João Bosco e Aldir Blanc; ou, de modo mais exemplar, Comprimido, de Paulinho da Viola, que também retrata um suicídio de uma figura desgraçada) que a expectativa vai se corrompendo. Afinal, a mídia para esse tipo de narrativa tem sido, tradicionalmente, a canção popular, não o soneto, não uma coroa de sonetos, nunca uma forma poética medieval.

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José Miguel Gómez Acosta (1975—), por Francesca Cricelli e Luciano Dutra

José Miguel Gómez Acosta (Almería, Espanha, 1975–), é poeta, arquiteto, tradutor e pintor. Vive atualmente em Granada onde dirige a revista Márgenes Arquitectura. Como escritor, começou publicando contos e poemas no jornal La Voz de Almería a partir de 1997, além de ensaios sobre arquitetura e construção. Conquistou com o seu terceiro livro Reescritura (2016) o IV Prêmio de Poesia Experimental Francisco Pino, da Fundação Jorge Guillén, na Espanha. Também recebeu o prêmio Federico García Lorca em 1997 pelo conto “El pabellón de los elefantes”. Seu segundo poemário, El Gran Norte, publicado originalmente em Granada em 2015, foi recentemente lançado em edição bilíngue castelhano-islandês em Reykjavík numa cooperação entre as duas Cidades da Literatura da Unesco, Granada e Reykjavík, em tradução islandesa de Elías Knörr e Guðrún H. Tulinius. É dessa edição que foram selecionados pelo próprio autor os poemas de tema islandês aqui traduzidos.

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

4 poemas islandeses do ciclo El gran norte

ETERNIDADE ANTERIOR

A eternidade anterior se acaba.
Não há ninguém que se lembre, nem resenha nem sorte nem letras nem calor.
Eternidade anterior, prados cor de cinza.

ETERNIDAD ANTERIOR

La eternidad anterior se acaba.
Nada hay que la recuerde, ni reseña ni suerte ni letras ni calor.
Eternidad anterior, prados color ceniza.

§

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

No fundo do homem mais afável dormem os assassinos olho vivo alerta.
No fundo repousa uma tumba de grama nunca pisada, ocidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos da fumaça que brota da terra, teus olhos desenhadores mestres da palavra.
No fundo do homem, em suas costas longínquas, sonolento intranquilo o estratega
um plano para hospedar os escondidos.
No fundo do homem uma entrada assinala o início descida queda voo ao centro
da terra.

VIAJE AL CENTRO DE LA TIERRA

En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada, occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída vuelo al centro
de la tierra.

§

PRIMEIRA CARTA DOS APÓSTOLOS

Difundindo a palavra chegamos à costa dos gelos
Vivem nove pessoas e todas elas cantam pelas tardes
Águas negras abrigam os defuntos que agarram com suas mãos as alturas
E todos cegos mudos dançam ao redor das fogueiras
Cada dia leva o nome de um ataque mortal e as cimeiras são portas
Há uma deusa
Recordamo-nos muito de ti mas já não lembramos se vives ou não
Com imensa tristeza o favorito em sonho manda-te um abraço
Todos nossos navios reduziram-se a escombros e concreto esgarçado
Lascas que alimentam as fogueiras nevasca temporal anticiclone tormenta
Ameaça de chuva vivem nove pessoas nove casas
À noite lemos os nossos livros e eles ainda nos batizam mil vezes menos uma
E páginas escritas com teu sangue tornaram-se finos troncos vegetais
As mulheres regam-nos a cada noite com seus cabelos e sua chuva água clara dor
O riso se apodera de nós
Tu que nunca riste
Todas as tuas fotografias estão emolduradas mas a umidade erode as rugas
Voltaste a ser um garoto
Na terra do tremor trovão das entranhas lagoa da cor da tua palavra
Lhes contamos ontem a última coisa que disseste ao te despedir
Entre vapores e rugidos

PRIMERA CARTA DE LOS APÓSTOLOS

Difundiendo la palabra llegamos a la costa de los hielos
Viven nueve personas y todas ellas cantan por las tardes
Aguas de color negro cobijan los difuntos que agarran con sus manos las alturas
Y todos ciegos mudos bailan alrededor de las hogueras
Cada día lleva el nombre de un ataque mortal y las cumbres son puertas
Hay una diosa
Nos acordamos mucho de ti pero no recordamos si ya vives o no
Con inmensa tristeza el favorito en sueños te envía un abrazo
Todos nuestros navíos quedaron reducidos a escombros y hormigón deshilachado
Astillas que alimentan las hogueras ventisca temporal anticiclón borrasca
Amenaza de lluvia viven nueve personas nueve casas
Por las noches leemos nuestros libros y ellos aún nos bautizan mil veces menos una
Y páginas escritas con tu sangre se han vuelto finos troncos vegetales
Las mujeres los riegan cada noche con su pelo y su lluvia agua clara dolor
La risa se apodera de nosotros
Tú que nunca reíste
Todas tus fotografías se encuentran enmarcadas pero la humedad erosiona las arrugas
Has vuelto a ser un niño
En la tierra temblor trueno de las entrañas laguna del color de tu palabra
Les contamos ayer lo último que dijiste al despedirte
En medio de vapores y rugidos

§

AQUI ONDE ESTOU NINGUÉM NUNCA ESTEVE

Onde o mapa termina é ali onde começa.
E para chegar não há sequer um trem, apenas uma rodovia, alguns carros.
O clima é bastante frio; pelas manhãs neva sob o dossel das casas.
A luz só se vê de tarde em tarde partindo as janelas em cruzes amarelas por um instante.
Há duchas nas ruas, água quente e garotos nus que nunca te cumprimentam.
Um pequeno Yago prodigioso presenteia a cidade com centenas de aves.
No Café Paris descendo o sótão um mapa nos recorda que a Europa existe.
A catedral católica é o castelo sujo das crianças.
Neva pela manhã e a neve esgueira-se sob a terra negra das ruas levemente empinadas.
Às vezes chega um barco e todos desabotoam suas camisas sinal de alegria.
Às vezes toca a hora na torre vigia tremendamente antiga erguida há dez anos.
Às vezes as montanhas não tão altas conseguem aparecer por trás das estátuas.
São doces as estátuas, uma para cada mês, são todas pretas.
O clima é bastante frio; neva pelas manhãs e pelas tardes chove, o guarda-chuva não faz falta.
Acendem-se pela tarde as luzes das ruas, passam alguns carros.

AQUÍ DONDE YO ESTOY NO HA ESTADO NADIE NUNCA

Donde termina el mapa es allí donde empieza.
Y no hay para llegar ni un solo tren, sólo una carretera, algunos coches.
Es un clima muy frío; por las mañanas nieva bajo los alerones de las casas.
La luz sólo se ve de tarde en tarde partiendo las ventanas en cruces amarillas un instante.
Hay duchas en las calles, agua caliente y muchachos desnudos que nunca te saludan.
Un Iago pequeño y prodigioso regala a la ciudad cientos de aves.
En el café París al bajar a los sótanos un mapa nos recuerda la existencia de Europa.
La catedral católica es el castillo sucio de los niños.
Nieva por la mañana y la nieve se cuela bajo la tierra negra de las calles levemente
empinadas.
A veces llega un barco y todos desabrochan sus camisas en señal de alegría.
A veces suena el tiempo en la torre vigía inmensamente antigua construida hace
diez años.
A veces las montañas no muy altas logran aparecer detrás de las estatuas.
Son doce las estatuas, una por cada mes, todas son negras.
Es un clima muy frío; nieva por las mañanas y por la tarde llueve, no hace falta
paraguas.
Se encienden por las tardes las luces de las calles, pasan algunos coches.

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4 poemas inéditos de Francesca Cricelli

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Fotografia de Erica Viggiani Bicudo

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP. Leciona intecção literária na Casa Guilherme de Almeida e foi professora do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas. Já apareceu aqui no escamandro com diversas traduções e poemas próprios.

Os poemas abaixo foram escritos a partir de exercícios ministrados aos alunos do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas, Cricelli nos conta que “no processo desnudei meus próprios mecanismos de escrita, as tramas das minhas referências e leituras por trás destes textos”; provavelmente vão integrar seu novo livro, Inventário de Ébano.

***

À MINHA CAIXA TORÁCICA

What will endure here the longest
must be thoughtfully provided for
[Zbigniew Herbert, To my bones]
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
[Vasko Popa, Osso a Osso]

 

Expande no meu sono quando respiro
sob a pele selada pela noite
e oculta os cortes invisíveis da carne
o que nesta cavidade permanece desenraiza o quarto
duas caixas torácicas em paralelo, algo incompleto

se o peito é pródigo
mas cala a fala e seca lágrimas
o que perdura é esta moldura
gaiola de ar e batimento

esta ossada não estará
no Museu Nacional, não,
estes ossos nossos não serão encontrados por arqueólogos
não foram feitos para vitrines
porque quando vivos abrigaram o pássaro

à esquerda de cada um no desencontro do abraço frontal
um canto da serra do mar, um canto de outro lugar

debaixo da terra ou sob o sol dos nossos nada sabemos
só existem aqui no agora e no silêncio os ossos
esta caixa que tudo cinge no escuro
tudo que hoje arde e descompassa
já contém os vermes da terra
contém o pedaço da vértebra de nascença
passado e futuro

nem entalar a garganta dos cães
nem ser o hiato dos séculos

enquanto há seiva e sangue
estar eretos
roçar as costelas celestes
já que nada mais sei.

§


MURMÚRIO DO BRANCO
[sobre um desenho da cidade de Krumau de Egon Schiele]

Chove sobre as cores,
é um auto-retrato
o amaranhado do ocre e do laranja
uma lança que perfura o olho divino a falta.
Colore a densidade populacional nos mapas, o ocre,
mas as casas andam vazias
e no interior das coisas cantamos nus como Sophia.

Está no murmúrio do branco
o caminho do carvão
e eu o persigo pelas linhas, com os dedos
firmes sobre as janelas e as tuas costelas
as casas andam desabitadas de ti
da desordem vital
que confere têmpera à luz oblíqua da tarde.

Não há sismo
e os jardins são todos internos
os desertos todos interiores e anteriores,
eles resistem ao regar das horas
resistem
ao esmiuçar com os dedos os pastéis a óleo sobre a folha de papel.

Arden las pérdidas
como na praia as labaredas vulcânicas sob a lua cheia de Reykjavík
e aporta
aporta
aporta também o esquecimento
esta casa velha.

§

 

PRELÚDIO

Entro nos teus olhos como num bosque/ cheio de sol
[Nazim Hikmet]

É na ausência do pássaro
que se compõe o canto,

ou na recusa da fruta
de vir à rama quando não estás?

A orquídea do quarto
represa em suas raízes
toda a água para varar a noite;
eu caminho deslocando ponteiros.

Não há hora que falte
nem tempo de sobra;
o silêncio é a tua medida
e mantém-me o passo.

O resto é voo.

§

 

ENSEADA

Afora/ o teu olhar/ nenhuma lâmina me atrai com seu brilho
[Vladimir Maiakovski, Lílitchka!]

Trovoa ao longe
e um lampejo filtra o pano violáceo do céu
iluminando o quarto.

É um prenúncio,
sussurro de gotas sobre as costelas de Adão.

Na pele e na rua
deslizam os carros
deslizam teus dedos
deslizam sanguíneos
nas úmidas superfícies e cavidades —
n’algum lugar em mim e na cidade
chove torrencialmente;

mas para além
do recosto oblíquo dos olhos
para além da rotação dos planetas
no ponto em que não se vê e está
há a música
regência cósmica das esferas
ali por trás da curva do globo.

Ir ao fim do mundo
para apanhar a concha da vida,
e colocá-la aqui
no arco infinito dos teus lábios.

Na enseada da Costa da Morte
a vida quebra mais viva.

*

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tradução

Maddalena Lotter (1990-), por Francesca Cricelli

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Maddalena Lotter (1990-) nasceu e vive em Veneza. É musicista, flautista, formada em música e letras clássicas pela Universidade Ca’ Foscari de Veneza. Integra a Orquestra de Câmara de Veneza. Ganhou o prêmio Taglio de poesia na Itália e foi finalista de inúmeros outros como o prêmio Carducci.

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demonio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017). Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP.

 

sergio maciel

* * *

Há um respeito entre os troncos
podem florir um ao lado do outro
mas devagar, com a devida distância
deixar espaço ao hálito das ramas;
queria aprender com as árvores
como se deter sem fusão mas
veio então a tempestade, a mesma
água, pensei, que molha agora
tua casa vale abaixo.

C’è un rispetto fra i tronchi
si può fiorire l’uno accanto all’altro
ma piano, a dovuta distanza
lasciare spazio al respiro dei rami;
volevo imparare dagli alberi
come si sta senza fusione ma poi
è arrivata la tempesta, la stessa
acqua, ho pensato, che ora bagna
la tua casa a valle.

§

Faz escuro em Veneza,
os telhados antigos das casas se debruçam
rubros e cor-de-rosa sobre a água enquanto fecha
o mercado do peixe
e são de ouro nossas vontades mudas.

Si fa buio a Venezia,
i tetti antichi delle case si affacciano
rossi e rosa sull’acqua mentre chiude
il mercato del pesce
e d’oro son le nostre voglie mute.

§

Os corpos nos anos, isso faz curiosas as minhas mãos
à procura de idades diferentes
quero tocá-los todos, os outros
com seus mundos de pele.
Só a pele responde à demanda do tempo.
O corpo sabe de casas não minhas
nas quais entra-se com educação
tirando os sapatos;
horas e horas numa cama acariciando
as costas, muros de vértebras
e a coluna é uma rodovia
dos teus anos de ontem
dos quais não participei.

Mas te viras no escuro e nos olhamos
tenho então um nome,
eu sou o hoje imortal.

I corpi negli anni, questo fa curiose le mie mani
alla ricerca di età diverse
voglio toccarli tutti, gli altri
con i loro mondi di pelle.
Solo la pelle risponde alla domanda sul tempo
Il corpo sa di case non mie
dove si entra con educazione
togliendosi le scarpe;
ore ed ore in un letto a carezzarsi
le schiene, muri di vertebre
e la colonna è un’autostrada
dei tuoi anni di ieri
a cui non ho partecipato.

Ma se ti volti nel buio e ci guardiamo
allora ho un nome,
io sono l’oggi immortale.

§

Saber ficar sem; nasce-se para isso
para desatar as mãos dos quadris
tornar-se distância. Ninguém permanece
mais do que um átimo, há átimos com distinta
duração mas com o mesmo procedimento.
Havia um que parecia infinito
e o amamos muito.

Uma vez compreendido exercitar-se
para unidade mínima do fôlego, manter
o ar e também isto, depois, soltar.

Saper fare a meno; si nasce per questo
per sciogliere le mani lungo i fianchi
diventare distacco. Nessuno rimane
più di un attimo, ci sono attimi con diversa
durata ma con la stessa procedura.
Ce n’era una che pareva infinita
e molto l’avevamo amata.

Ma una volta capito esercitarsi
all’unità minima del respiro, tenere
l’aria e anche quella, poi, lasciare.

§

Aconteceu
quando o dia inteiro tentei
me isolar e só respirar
vertical e não ouvi-los nunca
em seus medos e exterminadas pretensões;
finalmente esquecida
veio-me por cima o sono quieto e fundo
como a mão do mar.

Avvenne
quando per tutto il giorno cercai
di isolarmi e solo respirare
verticale e non ascoltarli mai
nelle loro paure e sterminate pretese;
finalmente dimenticata
il sonno mi fu sora zitto e fondo
come la mano del mare.

Padrão
poesia, tradução

Abhay K., por Francesca Cricelli

Foto de Alina Medvedeva

Abhay K. é o autor de The Seduction of Delhi e editor de CAPITALS – uma antologia poética em 185 capitais do mundo, ambas obras publicadas pela Bloomsbury. Ele foi homenageado com o Prêmio Literário SAARC (Associação Sul-Asiática para a Cooperação Regional) em 2013 por sua contribuição para a poesia contemporânea do Sul da Ásia e, no mesmo ano, nomeado para o Prêmio Pushcart. Além disso, Abhay integrou a lista de autores celebridade da Forbes em 2014, recebeu um certificado em poesia do International Writing Program, da Universidade de Iowa em 2015, sendo também um escritor reconhecido pelo projeto Silk Routes dessa mesma universidade. Seus poemas apareceram em mais de vinte revistas literárias, incluindo Poetry Salzburg Review e The Asia Literary Review. Seu chamado para um Hino Oficial da Terra foi denominado pela UNESCO como uma iniciativa criativa e inspiradora que contribuiria para aproximar o mundo. O hino da terra escrito por ele é usado por muitas escolas ao redor do globo. Ele também escreveu uma canção para a SAARC estimulando também a busca por um hino oficial da Associação.

Abhay K. leu seus poemas em Kitaabnama, um programa literário no canal de TV nacional da Índia; no Festival de Literatura do Nepal na capital Katmandu; no Festival de Literatura SAARC em Agra; no Festival Internacional de Poesia Kritya em Wardha; no Festival de Poesia do Sul da Ásia, em Kathmandu; no British Council, em Nova Delhi; na Academia Nacional de Literatura da Índia (Sahitya Akademi), em Nova Delhi; no Basha Sangam nepalês, em Darjeeling; na Sikkim Academy, em Gangtok; na casa de escritores Dom Pishatelov, em São Petersburgo, na Rússia; no Goa Art and Lit Fest 2014; no Jaipur Literature Festival 2015 e 2017; Mountain Echoes Literature Festival 2015 no Butão; na Casa Peruana de Literatura em Lima 2016; na Universidade Interamericana em Buenos Aires 2016 e no Festival Internacional de Poesia, Granada, Nicarágua 2017. Seus poemas foram traduzidos para o russo, chinês, nepali, hindi, irlandês, polaco, português, esloveno, espanhol, turco, entre outras línguas. Seu poema canção Hino da Terra foi traduzido para mais de 28 idiomas.

* * *

Os Bárbaros Finalmente Chegaram

(Após “À espera dos bárbaros” de Kostantinos Kavafis)

Esperamos por muito, muito tempo.

Os bárbaros finalmente chegaram.

Por que nada acontece na montanha?
Por que ficamos sentados e não fazemos nada?

Os bárbaros já chegaram hoje.
O que devemos fazer, agora?
Os bárbaros estão aqui, cometendo atos desprezíveis

Por que nos despertamos tão cedo, hoje?
e por que ainda estamos nos despertando, subindo mais alto
com nossas próprias asas, vestidos de nada?

Porque os bárbaros já estão aqui, hoje,
e nossa consciência finalmente nos diz: faça
até lhes preparamos um rolo
cheio de notas, com abundantes humilhações

Por que nós, cônsules e diplomatas, saímos hoje
algemados, insultados, revistados, lavados
por que nossos rostos estão amarrados em lágrimas
caindo como pérolas?
Por que carregamos convenções
entalhadas claramente no gesso e na areia?

Porque os bárbaros já chegaram
e eles adoram estas coisas.

Por que nossos parceiros estratégicos e amigos não se mostram como sempre
encerando com eloquência o levantar e permanecer ao nosso lado na hora do apuro?

Porque os bárbaros já chegaram
e não ouvem ninguém.

Por que esse despertar repentino, esse zelo?
(Como nos tornamos conscientes)
Por que as salas de imprensa e o espaço cibernético se lotam tão rapidamente
e todos se lamentam a todo volume?

Porque o dia raiou e os bárbaros finalmente foram avistados
e alguns que acabaram de voltar da terra dos sonhos dizem
os bárbaros têm um novo endereço.

O que vai acontecer, agora que avistamos os bárbaros?
Eles, aquelas pessoas, querem mesmo uma solução?

Tradução: Francesca Cricelli

The Barbarians Are Finally Here

(After ‘Waiting for the Barbarians’ by C.P. Cavafy)

We have waited long, very long.

The barbarians are finally here.

Why isn’t anything happening on the hill?
Why do we sit doing nothing?

The barbarians are already here today
What should we do now?
The barbarians are already here, committing despicable acts.

Why did we rise so early today
and why are we still rising, soaring higher
on our own wings, wearing nothing?

Because the barbarians are already here today
and our conscience is finally telling us to act
we have even prepared a scroll to give them
replete with scores, with humiliations galore.

Why have we consuls and diplomats come out today
wearing handcuffs, insulted with cavity-search, swabbing
why are our faces laced with tears
dropping like pearls?
Why are we carrying conventions
carved clearly in chalk and sand?

Because the barbarians are already here
and things like that they adore.

Why don’t our strategic partners and natural friends come forward as usual
to wax eloquent that we have risen and stand by us in the hour of need?

Because the barbarians are already here
and they listen to no one.

Why this sudden awakening, this zeal?
(How conscientious we have become)
Why are the media-rooms and cyber-space crowding so fast
and everyone wailing at the top of one’s voice?

Because the day has dawned and the barbarians have been finally sighted
and some who have just returned from the dreamland say
barbarians have a new address.

And now, what’s going to happen to us we have sighted barbarians?
They, those people, do ever want a solution?

Padrão
tradução

Sergio García Zamora (1986-), por Francesca Cricelli

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POETAS DE GRANADA

Seleção de poemas e poetas que participaram do Festival Internacional de Poesia de Granada, Nicarágua, dirigido pelo poeta Francisco de Asís Fernandez em fevereiro de 2017. A ideia é trazer aos leitores brasileiros poetas que aqui ainda não são conhecidos.

POESIA:

Sergio García Zamora [Cuba, Esperanza, Villa Clara, 1986], jovem poeta, filólogo, multipremiado. Entre seus livros há Tiempo de siega (Premio Poesía de Primavera 2009, Ediciones Ávila, 2010); Poda (Premio Calendario 2010, Casa Editora Abril, 2011); El Valle de Acor (Premio Fundación de la Ciudad de Santa Clara 2011, Editorial Capiro, 2012); Día mambí (Premio Digdora Alonso 2011, Ediciones Vigía, 2012); Libro del amor feliz (Premio Emilio Ballagas 2012, Editorial Ácana, 2013); Las espléndidas ciudades (Premio Eliseo Diego 2012, Ediciones Ávila, 2013); La violencia de las horas (Premio José Jacinto Milanés 2012, Ediciones Matanzas, 2013) e Caballería insurrecta (Premio Manuel Navarro Luna 2012, Ediciones Orto, 2013). Recebeu o Prêmio Ruben Darío em 2016 e o Prêmio da Fundação Loewe, categoria jovem, em 2016. Seus poemas foram publicados em Honduras, Porto Rico, México, Estados Unidos, Espanha.

Seleção e tradução

Francesca Cricelli [Ribeirão Preto, SP, 1982]. Poeta, tradutora e pesquisadora. Publicou os livros de poemas Repátria (Selo Demônio Negro, 2015), Tudo que toca o olhar (Casa Impresora Almería, 2013). Organizou a correspondência de Giuseppe Ungaretti e Edoardo Bizzarri em Cartas – Bizzarri Ungaretti 1966-1968 (Scriptorium, 2013) e o livro das missívas amorosas de Ungaretti para Bruna Bianco (no prelo pela Mondadori, 2017). É doutoranda em Estudos das Tradução (USP), leciona intelecção de literatura italiana na Casa Guilherme de Almeida e colabora com a Revista Cult. Está preparando o livro 16 poemas +1 (Edição de autora, 2017) que será apresentado em Nova York em junho no festival ALLOVER5, coleção trilíngue (PT/EN/ES) de alguns poemas do livro Repátria e outros inéditos.

 

* * *

CUMPLEAÑOS DE CÉSAR VALLEJO

César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Un dolor que él no sufría como César Vallejo por eso resultaba un dolor más triste y un dolor más dulce. Había que decirlo con el idioma de la infancia. César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Era el cumpleaños doloroso del Hombre, los poetas eran los niños invitados a la fiesta y los niños siempre quieren llevarse un dolor a casa. Las personas mayores velaban que cada poeta agarrara su dolor sin disputarse el dolor ajeno. A mí que todavía soy un niño, me tocó en suerte el dolor de la nostalgia. Escribo en el momento menos grave de mi vida. César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Había que darle duro con un palo.

ANIVERSÁRIO DE CÉSAR VALLEJO

César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Uma dor não sofriada como César Vallejo, por isso parecia uma dor mais triste, uma dor mais doce. Havia de ser dita no idioma da infância. César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Era o dolorido aniversário do Homem, os poetas eram as crianças convidadas à festa, as crianças sempre querem levar à casa uma dor. Os mais velhos cuidavam para que cada poeta agarrasse sua dor sem disputar pela dor alheia. A mim, que ainda sou um menino, tocou, por sorte, a dor da saudade. Escrevo no momento menos grave de minha vida. César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Havia que lhe dar uma paulada forte.

§

LA USURA

Uno empeña las palabras por el miserable dinero editorial creyendo que las recobrará algún día, pero la deuda crece sin remedio. uno pide a Ezra Pound un préstamo hasta que logre hacer fortuna y poseer un verso propio, un verso respaldado en oro, una línea como el hilo de los billetes que prueba su autenticidad. Ezra Pound, partidario de Mussolini, acusado de alta traición, te dice: «Con usura no tiene el hombre casa de buena piedra». pero tú le replicas: sin usura no tiene el hombre casa de mala piedra ni casa alguna. Ezra Pound, viejo zorro, ojalá te pudras en el manicomio, acusado de inhumano con tus poemas llenos de humanidad. uno empeña las palabras por el miserable dinero editorial y es toda la traición que comete.

USURA

Uma pessoa penhora as palavras pela miserável grana editorial, acreditando que será, um dia, recuperada, mas a dívida cresce irremediavelmente. Uma pessoa pede a Ezra Pound um préstimo até que possa fazer fortuna e possuir um verso próprio, um verso ancorado no ouro, uma linha como um fio de notas que prova sua autenticidade. Ezra Pound, partidário de Mussolini, acusado de alta traição, diz: “Com usura, o homem não possui uma casa de boa pedra”. Mas você responde: sem usura o homem não tem casa de pedra ruim, nem casa alguma. Ezra Pound, velha raposa, tomara que te putrefaças no manicômio, acusado de ser desumano com teus poemas cheios de humanidade. Uma pessoa penhora suas palavras pela miserável grana editorial e esta é toda a traição que comete.

[do livro Resurrección del cisne, prêmio Ruben Darío 2016]

§

MORDER LA MANO

Morder la mano que te alimenta,
el lenguaje común que te alimenta.
La mano entendida como dependencia
y el lenguaje entendido como sumisión.
Morder la mano hasta el hueso. Triturarlo.
Transformar el crujido en música.
Morder. Hasta el hueso. O no morder.
Esperar por la palabra que echan en tu plato.
Salivar por la palabra si demora.
Darle el gusto a Pávlov. Agradecido.

MORDER A MÃO

Morder a mão que te alimenta,
a linguaguem comúm que te alimenta.
A mão compreendida como dependência
e a linguagem entendida como submissão.
Morder a mão até o osso. Triturá-lo.
Transformar o tritado em música.
Morder. Até o osso. Ou não morder.
Esperar pela palavra que te colocam no prato.
Salivar pela palavra, se demorar.
Dar um gostinho a Pávlov. Agradecido.

§

CONTROL DE SANIDAD

El hombre que recoge los perros
tiene alma de poeta, alma de miserable,
lo que se dice un total miserable desalmado.
Mientras él goza atrapando al animal,
la gente le mira y lo abomina,
la gente que jamás recogió un animal.
Este es mi consejo, mi lección.
Escribir como el hombre que recoge los perros:
tomar al lector por el cuello y levantarlo en vilo;
reírse aunque chille, reírse porque chilla;
echarlo en la jaula, perro entre perros;
hacerle ver que no era otra su verdad
ni otro su destino

CONTROLE DE SANEAMENTO

O homem que recolhe os cães
tem alma de poeta, alma de miserável,
o que se diria um completo miserável desalmado.
Enquanto se diverte aprisionando o animal,
o povo olha e abomina,
o povo que nunca recolheu um animal.
Este é meu conselho, minha lição.
Escrever como o homem que recolhe cães:
tomar o leitor pelo pescoço e levantá-lo no ar;
rir mesmo que faça um grunhido, rir porque o faz;
atirá-lo na jaula, cão entre cães;
fazer ver que não era outra sua verdade
nem outro o seu destino.

§

LOS RECLUTAS

El verde militar está en los ojos:
muchachos que piden autorización
para ir al carnaval y abordan los camiones,
las máquinas de alquiler en Jagüey o Santa Clara
con el dinero último, con el único dinero.
Regresan las cabezas podadas por el verde militar,
los rostros que lastima la cuchilla:
el hermano mayor, el novio, el hijo de vecino.
En la noche de provincia son príncipes,
reyes que han vuelto de Troya o Las Cruzadas.
Bajo el fuego artificial, bajo la vida artificial
respiran el aire último, el único aire,
y entran al verde militar con sus amores.
Como los reclutas anhelas un pase,
un gesto dispensador de tu perenne servicio;
un pase, una tregua, un salvoconducto
para tu vida siempre. Como los reclutas.
Solo que ellos no saben disimular.

OS RECRUTAS

O verde militar está nos olhos:
garotos que pedem autorização
para pular o carnaval e abordam os caminhões,
os carros de aluguel em Jagüey ou Santa Clara
com a última grana, a única grana.
Voltam com as cabeças podadas pelo verde militar,
os rostos feridos pela lâmina:
o irmão mais velho, o namorado, o filho do vizinho.
Na noite da província são príncipes,
reis que voltaram de Troia ou das Cruzadas.
Sob o fogo artificial, sob a vida artificial
Respiram o último ar, o único ar,
e entram no verde militar com seus amores.
Como os recrutas, anseias um passe,
um gesto que te dispense do perene serviço;
um passe, uma trégua, um salvo-conduto
para tua vida, sempre. Como os recrutas.
Só que eles não sabem dissimular.

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