poesia

Maria Lúcia Alvim (1932)

Algumas famílias nos pasmam. Veja esta Alvim: gerou o mais reconhecido, Francisco (1938—), Maria Ângela (1926-1959, cf. post na Modo de usar & co.) e só há pouco fui descobrir, gerou também Maria Lúcia Alvim (1932—), essa poeta impressionante, versátil, tesa, pontilhista, de virtuoso domínio técnico (passando pelo haiku à la Guilherme de Almeida, o soneto na melhor estirpe de Jorge de Lima, o rondó renascentista, a sextina enxuta, o verso livre etc.), derivas metafísicas tensas e sutis, a colagem etc. A sua reunião de poesia, Vivenda, publicada pela coleção Claro Enigma em 1989, nos diz apenas o seguinte: “Nasceu a 4 de outubro de 1932 na cidade mineira de Araxá. Autodidata, abandona a escola para se dedicar exclusivamente  a poesia e a pintura. Realiza exposições de artes plásticas e publicou cinco livros de poesia. Atualmente divide seu tempo entre a cidade do Rio de Janeiro e uma fazenda no interior do estado.” Mas consegui confirmar que realmente é da família, talvez a poeta mais vigorosa dessa família de poetas absurdos. 

Por isso fiz a maior antologia online possível: não é possível que estejamos vivendo há mais de 30 anos sem nova edição da poesia de Maria Lúcia Alvim. Seguiremos sem os XX Sonetos (1959) com sabor de Sá de Miranda e Mário de Sá-Carneiro, com sua metafísica de sujeito cindido, sua homenagem à irmã suicida, em XVII? Sem os jogos ágeis pré-leminskianos de Pose (1968), e seu modo fotográfico reflexivo, como em “Mágico desafio”? Sem a construção dissonante e cristalina do magistral Romance de Dona Beja (1979) que ora tensiona Cabral (“O fim do quilombo do Tengo-Tengo”), ora Cecília (“Rondó da desilusão”), ora Drummond (o sutilíssimo “Lúcida rendição”), sem os pastiches seríssimos e multilíngues de A rosa malvada (1980), como a série dedicada ao irmão, ou a pérola de “Num átimo de amor”, ou o resultado complexo a partir das rimas banais de “Somatização do soneto”? Sem as potências concretas, entre o sublime e o irônico, de Coração incólume (1968), como em “Cartão postal”?Para se ter uma ideia, não consegui nem uma imagem da poeta, e só uns pouquíssimos poemas transcritos na rede, como o que está no site do Antônio Miranda

E mais, não podemos estar há 40 anos sem poemas novos dessa mulher. Onde o baú, onde o borralho do que ela andou fazendo, se está viva, sem nos mostrar. Creio estarmos diante de um caso que merece revisão imediata, dessa poesia que, por ter se aproximado muito da Geração de 45, foi de pronto dispensada pelo rolo concretista e a demanda do estritamente coloquial dos anos 60-80. A sua poesia é precisamente o que uma recusa da voz única pode oferecer como poética e ética. 

guilherme gontijo flores

* * *

NUM ÁTIMO DE AMOR

ao velho Oswaldo

Sem pompa, subimos pela rampa
Que dá para o sonho. Flamba o olhar
Entre sumárias palavras: alma,
Garante um lugar ao sol. Aqui
Ao toque da mão, discriminados
Os elementos da terra se abrem
Consanguíneos, em cheiro e tato:
E apalpam no ar as tenras partes
Em lufadas de espinho e magnólia.

A volúpia de Paris se evola
No spleen das redes, nos rudimentos
Do tempo — Danaïde ou begônia?
Tufo de nádegas debulhando
A cor dos lábios, sombra de dentro —
Em teu exíguo espaço viajamos
Sem idade, sem lamúria, contra
O peito de Spinoza e o compasso
De Brancusi: “Excelentíssima,

Já viu samambaia azul?” Assim,
Submetidos ao rigor abstrato
Camuflamos no painel do medo
Um tom impressionista: nenúfar,
Ser-Em-Memória, marulho d’água.
Na tarantela da trapoeraba
Aspereza de adeuses e vinho.
Aqui te brindei: eternamente
— Trincar de cristais em meus sentidos.

(De A rosa malvada, 1980)

§

SOMATIZAÇÃO DO SONETO

O Amor está na cara: em carne viva.
Há uma porta batendo sem parar.
Palavras entram. Saem. Persuasiva,
a Loucura preserva seu lugar.

Soprarei o humor desta ferida
aberta para só me ver sangrar.
Há um golpe de ar em minha vida,
uma quina de esquina: quebra mar.

Visito. Se me vou. Irei voltar?
Entre papéis colados, sob medida,
há sempre uma paixão a recortar.

E o colo lembra a glosa, par a par.
Contraditória Rosa, assim perdida,
que te expulsa e te trava, devagar.

(De A rosa malvada, 1980)

§

NOITE DE GALA
[Série “Tapa de luva: poemas de meu irmão”, pastiche de Francisco Alvim]

Um país inteiramente nu
Pelo tempo que estamos aqui sentados
Um país que não houvesse
Nem pai nem mãe
Sem sobrenome

(De A rosa malvada, 1980)

§

DANÇA DOS ESPÍRITOS BEATOS

A navalha. O Verbo. O movimento
O Menino de barba crespa e basta.
O Cavalo-Marinho (aquele passe
de nunca ser tomada de surpresa!)

Grávido de mim. Quem? Senão a Ti
faria? Onde o Mal, em tal sacrifício?
A tua cabeleira negra e casta.
Os meus cabelos tesos e metálicos.

Chamamos pelo nome esse pecado
Amor: — penetra fundo na palavra
e reboa no ar: Amaldiçoado!…

E quanto mais te ouço mais me encorpo
cerzida ao teu Corpo, que é meu corpo,
que não vejo, não cheiro, que não toco.

(De A rosa malvada, 1980)

§

FIM DO QUILOMBO DO TENGO-TENGO

Grimpa o quilombo
pela chapada —
cobre a Canastra
desce a Zagaia.

É cativeiro
em revoada —
é Tengo-Tengo
dos urucungos.

O rei Ambrósio
polarizava
de seu harém
entre savanas,

tantãs, marimbas
deusas de javre
ocres, oblongas;
sobre os turbantes

imperturbáveis
— Serra Leoa
era tão longe!
— ao mesmo tempo

ali estava
na trajetória
dos orixás,
gatos selvagens

mulas e bás,
chitas, missangas,
dengos e figas —
nas bailarinas

em atabales
redemoinhos —
cumplicidades
alvas das canas

dos travesseiros
de paina e fronha
com monograma
em ponto cheio.

Ó africanas
amenidades!
ó malabar
torre de ébano!

que por vinte anos
se equilibrara
— e de um só golpe
era tombada.

Onde o tesouro
desenterrado?
— em moçambiques
baús, borralhos.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

FÁBULA

A terra traz o ventre trepidante
a fecundar, parir, a sepultar —
a fronte prepotente a ostentar
a grinalda de vermes cintilantes.
A terra é o animal pensante — diante
da própria sombra para a conspirar —
das feras tem o olfato e o paladar
e dos homens a espora penetrante.
— Sementes? São caixeiras-viajantes
de ilusão a ilusão, a germinar.
As raízes são falsas postulantes
e a seiva suculenta faz golfar
não só flores falcões e diamantes
mas dilúvios, leões, rinocerontes.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

SOLAR DO LAGO DA MATRIZ
(seleta)

Salão

Fechado em si mesmo
Opacidade dos olhos
No espelho do assoalho.

Corredores

As finas alcovas
Espreitam, de porta em porta
São almas penadas.

Despensa

Que servem as sílfides
Sobre a prata da bandeja ?
Broas de fubá.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

AQUAVIA

Como a fonte que jorra, ambivalente,
marejados de sono, navegamos —
que esse rio de amor e de abandono
seja leito comum para quem morre.

Impelidos à margem da corrente
sacudimos a tarja temporária –
e a alma se evapora: tarlatana
sobre a nossa nudez contraditória.

Na umidade do riso, no desejo
impreciso e profuso, pelo pranto
que no calor das órbitas poreja,

Ah, transidos de frio, patinamos
entre quiosques, domos e coretos
sem nada surpreender ou consumar.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

LÚCIDA RENDIÇÃO

Sei que é amor, embora dura
seja a perfeição de sua face. Sei do
frio sândalo que exala a palma reluzente
do timbre de seu riso
da madura
solidão que o aperta entre os braços.

Sei que é amor. Nenhum disfarce
diante do claro labirinto —
a voz, o gesto escasso
a velatura cúmplice dos cílios
e o secreto crivo
                                a capitular
dúctil e vivo.

Sei que é amor, conheço o passo
do gnomo solerte
o sopro exausto
a lenta
curvatura do corpo, quando espreita a própria fome,
e a língua presa
pelas palavras pálidas e tristes.
Sei que é amor. Sei e consinto
em sua lícita usura

na severa parábola ds múltiplos equívocos
— enquanto a fluida escolta

desamor
deflagra minha sombra ao seu redor.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

RONDÓ DA DESILUSÃO

Viver é um torvelinho sem motivo,
Palavras vazias, amor sem crivo —
A vida, como a flor, não se resume
Na evidência da cor ou no perfume
Mas num tempo de sonho fugitivo.

Ao rumor da ilusão, ronda cativo
O turvo coração, e tece crivo
Na fímbria das palavras, dor sem lume —

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

DO MAL PELO MAL

O molejo da alma se forma na bruma.
Entre duas estrelas finco meus pés.
Direi ao mata-burro: mata, ó ceifeiro, tenho a primazia dos párias,
ao chão pedirei: quero ser um dos teus.
— Foi de dura que bati com os olhos.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

TÍMIDA CONFIDÊNCIA DE UM POEMA

Em tudo há um sentimento
vigilante
que procura vir à luz do dia —
raro nos é dado
saber quando
devemos acender-lhe a boca fria.
É por isso que vamos ficando
cada vez mais fechados —
covardia
ou surdo magnetismo
palpitando
entre o que fala e o que silencia.

(De Pose, 1968)

§

MÁGICO DESAFIO

Um filho não deveria
ser feito
para cumprir mandamentos, para
povoar
a solidária solidão
de pares amorosos, improvisados
e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido
seria para
provar
apenas isto: 
a matéria ou
mistério
ou vida
desafiando o pensamento.

(De Pose, 1968)

§

CARTÃO POSTAL

para Chico

Repente de tarde. Plana. Ceifada.
Âncoras amortecem o peso
e se liquefazem.
Apagam-se ruivos outeiros.

Dois namorados olham o mar.

Um pássaro de insólito voo
roçou-lhes o ombro.
— Seremos assim potentes?
E subitamente puseram-se
a ferir-se a ferir-se
                               a ferir-se

(De Coração incólume, 1968)

§

POEMA SATURNIANO

I

Ferimos e somos feridos
— sob mares avulsos
marinheiros de
ondulantes patins
semeiam naufrágios.

II

De pai para filho
de irmão para irmão
de igual para igual
— o mal
possui os olhos grandes da complacência
em cuja pupila
um dia
nos perdermos.

III

Na fúria de ferir
iluminados,
celebramos — efusivamente
abraçados — nosso
aniversário.

IV

Há pássaros voando no ar contaminado 
mecanicamente
braços envolvem cinturas
pesadas de indiferença.

V

Na primavera
distribuiremos pêsames
como pétalas de rosas.

(De Coração incólume, 1968)

§

XVII

para Ângela, minha irmã [Maria Ângela Alvim]

És no tempo o que passa mas flutuas
noutro tempo mais livre e permanente
onde ausente serias tu somente
a ser e demorar nas coisas tuas;
novos espaços te cercam — recua
também aquela ausência — consciente
projetas o teu gesto transparente
que vai além de ti e continua;
se viver não te basta nem situa
a forma de teu mundo inexistente
fizeste mais alheia a espera tua
neste andar pela vida descontente;
perduras incontida e insinuas
a vontade de ser em ti presente

(De XX Sonetos, 1959)

§

XVIII

Verbena (mas coisa vã)
imponderável alfaquim
numa imatura manhã
em breve azul de calim
talvez precária e malsã
quase prenúncio de mim
olho tangido (avelã)
implacável serafim.
Fora tempo infância — agora
grave sucinto demora —
e tudo se faz silente
sonhos ou canto de ausente
instantes resvalam onde
o verso acode e responde.

(De XX Sonetos, 1959)

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crítica, poesia

Alguns poemas sobre mendigos

foto de Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

A ideia me ocorreu outro dia, no ônibus, e me dei conta de que alguns poetas contemporâneos, especialmente poetas que trabalham com a questão da urbanidade e cuja produção muito me agrada, tinham pelo menos um poema sobre a temática do mendigo. Não sei dizer agora o quanto se estuda isso, de fato, se o mendigo realmente constitui um lugar comum recorrente na literatura, mas a curiosidade me pareceu interessante, digna, ao menos, de uma postagem no escamandro. Não lembro de muitas menções na literatura clássica ao mendigo, embora tenha claro nesta memória falha o episódio da Odisseia em que Ulisses se passa por mendigo (com ajuda de Atena) para entrar em Ítaca despercebido, e que os filósofos da estirpe de Diógenes (que morava, como o Chaves, num barril) e Menipo (que deu origem ao gênero literário da sátira menipeia) viviam como mendigos e formavam a escola dos filósofos cínicos (do grego kynos, “cão”). Na literatura moderna, eu sei que Victor Hugo e Shelley têm cada um pelo menos um poema curto e de tom meio sentimental a respeito (“Le Mendiant” e “Summer and Winter”, respectivamente), Castro Alves aproxima a figura do poeta e do mendigo em “Poesia e Mendicidade” (“Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante… / Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.”), Cruz e Souza lhes dedica um poema inteiro, repleto de suas imagens simbolistas e transcendentais, e Baudelaire, em seu “A uma mendiga ruiva”, faz da figura um alvo de sua luxúria imaginada (depois revisita o tema da mendicância nos poemas em prosa de Spleen de Paris). E há também o choque de Manuel Bandeira no poema “O Bicho” (nos comentários), ao constatar que o que fuçava no lixo não era cão, gato ou rato, mas um homem. Já Wordsworth, notavelmente, nos quase 200 versos de seu “The Old Cumberland Beggar”, compõe o que deve ser provavelmente o retrato mais jubilante da figura do mendigo da história da literatura. Wordsworth, “poeta da natureza”, como é chamado, e um dos poucos poetas que escreveram sobre a alegria, vê num velho mendigo – evidentemente um andarilho mais rural do que urbano, comendo seus restos de comida (junto com os passarinhos) ao lado da estrada – a figura do homem natural, um homem em comunhão com a natureza, que foi desde o começo de sua produção o foco de sua melhor poesia. E, mais do que isso, havia também um sentido ético na visão de Wordsworth desse homem natural, na medida em que a situação abria portas para bons atos em relação ao mendigo, atos de caridade que faziam dele, portanto, um veículo de benevolência. É um belíssimo poema de Wordsworth, que esperamos apresentar em breve aqui no escamandro em tradução minha ou talvez do Guilherme.

É claro, no entanto, que, num cenário urbano, as coisas mudam muito de figura. Wordsworth, escrevendo nesse momento muito próximo da modernidade, mas anterior ainda à completa urbanização, teve uma das poucas oportunidades para realmente se escrever poesia séria sobre a natureza (ao passo que o que nos resta hoje é a nostalgia, o bucolismo retirado ou o ativismo ecológico). Poderíamos, talvez, pensar no mendigo no cenário urbano como uma figura que encarna completamente a urbanidade (ainda que, paradoxalmente, eles se encontrem fora do sistema frenético de produção e consumo das cidades) do mesmo jeito que o mendigo rural de Wordsworth pode ser visto como um “homem natural”: a sujeira das cidades se encrusta neles, os lugares que para nós são locais de passagem são onde eles dormem e veem a vida passar, a indiferença que domina a vida empilhada em apartamentos se manifesta neles simultaneamente no modo como se pode vê-los dormir, sem perturbações, debaixo do pleno sol do meio dia, e no modo como a indiferença de boa parte dos passantes faz com que, aos seus olhos, eles sejam não mais do que parte da paisagem (quando não um incômodo ou ameaça). Mas há vida ainda por baixo dos trapos (existem mendigos esquizofrênicos e drogados, claro, mas eu arrisco dizer que a maioria é lúcida, muito lúcida), como uma prova da resistência e persistência do humano – e, algo sombriamente, uma lembrança constante de que qualquer um está sujeito aos riscos de ser engolido pela cidade e tornar-se parte dela à força.

foto por Ricardo Pozzo

foto por Ricardo Pozzo

Pensando nisso, preparei uma pequena seleção aqui de poetas contemporâneos que, de maneiras todas muito distintas, abordaram o tema dentro de sua obra. Incluo, então, em ordem alfabética de sobrenome, poemas de: Francisco Alvim, de O Metro Nenhum (2011, Cia das Letras); Fabiano Calixto, de Sanguínea (2007, Editora 34); do nosso colega de escamandro Guilherme Gontijo Flores, do seu livro no prelo Brasa enganosa (2013, Editora Patuá), do Tarso de Melo (cujo último livro comentamos já aqui, enquanto estava no prelo, e já foi lançado), de Exames de Rotina (2008, Editora da Casa), Paulo de Toledo, de 51 Mendicantos, um livro de poemas curtos (de 3 versos apenas cada um), todos inspirados por essa temática (2007, Editora Éblis) e, por fim, Dirceu Villa, de Icterofagia (2007, Editora Hedra). Para dar um aspecto mais focado ao post, desta vez me concentrei especificamente em poetas brasileiros contemporâneos, por isso Wordsworth e Baudelaire ainda vão ter de esperar a sua vez. Provavelmente esqueci alguns nomes para cada um de quem lembrei (mea culpa), mas a internet infelizmente falha conosco nessas horas, e uma pesquisa acabou me levando a poemas absolutamente terríveis.

Não vou me demorar aqui em fazer uma crítica profunda sobre os poemas, até porque falar de cada um daria assunto para páginas e páginas de texto, mas gostaria de apontar neles para algumas coisas de que tratei acima, a fim de, primeiramente, afirmar mais uma vez a diversidade dos modos de tratamento de cada um desses poetas, e, em segundo lugar, demonstrar que não tirei do chapéu as coisas que disse acima. Podemos observar a transformação do homem em mera paisagem no poema fúnebre de Calixto, cuja declaração de que “antes da chuva,  o mendigo / já estava morto” traz sugestões dolorosas de morte em vida em sua apropriação pela cidade, ao mesmo tempo em que o poema de Tarso de Melo aponta para o contrário: “pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos”, uma afirmação da vida que “persiste” (como é o próprio verbo usado pelo poeta no verso final), mesmo nessas condições extremas. Dirceu Villa faz um vívido retrato visual dos mendigos, focado na sujeira e repleto de imagens fortes (como a das árvores secas como “mãos esqueléticas” e a da calçada bebendo os corpos dos mendigos, à noite), algo também explorado pelo Gontijo, ao se concentrar na imagem de um único mendigo (em vez de mendigos) confrontado por um eu (ainda que seja um eu bastante sublimado e ausente no próprio texto), que o destaca sensoriamente da paisagem ao fundo (como se essa paisagem fosse um mar, e o próprio título “ptokhos anadyomenos” ecoa isso, significando, em grego, “mendigo saído do mar”, uma paródia do título da Vênus Anadiômene) e enxerga na cena toda uma visão transcendente. Já o foco de Paulo de Toledo é no humor, trabalhando com o trocadilho (numa das instâncias em que essa técnica, tão explorada já, consegue funcionar e bem) e uma forma de riso que lembra o leitor de que, como parte de sua humanidade, é possível manter o senso de humor na mendicância (o que aparece sobretudo nos poemas do livro que dão voz ao mendigo) como forma de persistência, ao mesmo tempo em que essa ironia acaba ressaltando a situação de negligência e abandono – fazendo com que seja um uso doloroso do humor, especialmente em poemas como “globalizado”. Por último (e primeiro), Francisco Alvim, num poema tão curto quanto os mendicantos do Paulo, acaba, talvez não conscientemente, sendo quem mais se aproxima de Wordsworth, agradecendo a quem lhe pede esmola pela oportunidade de realizar um ato de benevolência, que tira o eu-lírico do poema de seu estado de distração com o mar cinzento e homogêneo da paisagem urbana e o aproxima de uma maior humanidade, enquanto ele próprio no poema humaniza o pedinte – é, talvez, só uma suposição minha, mas me parece razoável – ao dar-lhe um nome próprio, Roberto, e dedicar o poema a ele.

A temática é mendicante, mas, ao que tudo indica, não sofremos, ao menos, de uma indigência de boa poesia.

(Adriano Scandolara)

em-casa-de-menino-de-rua

 

Acontecimento

                                    Ao Roberto

Quando estou distraído no semáforo
e me pedem esmola
me acontece agradecer

(Francisco Alvim)

         *

UMA PAISAGEM DE SÃO PAULO

antes da chuva, o mendigo
já estava morto

(uma flor suja – pétalas
despencando de sua camiseta – sua

única coroa)
antes da morte

o viaduto já abarrotava
antes da enchente

a boca já estava cheia
de sangue, de formigas,

de
granizo

(Fabiano Calixto)

         *

PTOKHOS ANADYOMENOS

quando atravessa a esquina
o olhar como que escapa
do amontoado
                         casa-ambulante
de mantas panos mantras
delirantes
                  que acaso brotam
em seu murmúrio

nos passos emerge & chacoalha
as moedas na mão
                  (que as do bolso se escondem
                  num diverso tilintar)
o seu cheiro resplende
no asfalto
                calando
as olências dos outros perfumes

& desse mar emerge
forjando em seu talhe
a súbita imagem de um monge
            mendicante

(Guilherme Gontijo Flores)

         *

FÓSSIL

pedra fundida à calçada? não, há fôlego nos andrajos,
algo respira embaixo, dentro, através dessa carcaça,
a luz não reflete, o cheiro não chega até aqui, ruído
algum escapa da manta ensopada, da peça de carne
exposta diante da imensa porta fechada da catedral.
depois, apenas depois do último trem, dos últimos
passos, dos últimos olhos e medos e sustos passarem,
algum movimento, urros, alguma nova migração
pelo centro da cidade denunciará o que persiste.

(Tarso de Melo)

         *

o papel do jornal

o vento investe contra o lar do
mendigo e seu teto voa junto
com a manchete: alta do dólar

globalizado

a tv o mendigo olha
na tela o reflexo dele
desculpem a nossa falha

que eme!

no lixão um mesquinho minidicionário
mostra ao mendigo que a miséria
infelizmente vem antes da misericórdia

(Paulo de Toledo)

         *

OS MENDIGOS

Eles imploram diante dos carros,
vivem com ratos nas vias expressas;
erguem barracos entre as árvores
secas de poluição, como mãos esqueléticas.
O sabor da fuligem, o espesso cinzento
dos escapamentos de metal fervente
direto no rosto com fendas de calor:
arrastam trapos que fedem a excremento.
Crianças com cabelos emplastrados;
que olhares mortais na doçura redonda
do rosto! Têm dentes que fraturam um osso.
À noite as calçadas bebem seus corpos,
vultos das bocas-de-lobo e esgotos;
bêbados dormem, coçam os escrotos.

(Dirceu Villa)

PS: para quem chegou agora, há toda ainda uma riqueza de poemas e crítica nos nossos comentários abaixo, com poemas ainda de Fabio Weintraub, Alberto Martins e Alberto da Cunha Melo, cortesia do poeta Rodrigo Madeira.

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