poesia, tradução

CARPE DIEM: 28 versões + 2, por Matheus Mavericco

Existem poemas que conseguem a tremenda felicidade de cravarem uma expressão ou uma palavra na cabeça dos leitores. Nem sempre é sinal de qualidade. Veja o caso de “passar pela vida em branca nuvem”, expressão usada por nossos avós e que foi retirada de um poema de Francisco Otaviano, patrono da cadeira de número 13 na Academia Brasileira de Letras e poeta medíocre, autor, quando muito, de um soneto hamletiano vagamente interessante. Exemplo ligeiramente diverso é o de “Depois de um longo e tenebroso inverno”, segundo verso de um soneto até comovente de Luís Guimarães Júnior, onde as assonâncias conseguem pelo menos desempenhar um papel curioso ao espichar a duração do verso. Nem um nem outro, todavia, capazes de rivalizar com o que o poeta mineiro conseguiu com seus “uma pedra no meio do caminho” e “E agora, José?”.

Com carpe diem é igual. Graças ao que o Ensino Médio cobra e ao que o professor Keating sussurra no ouvido dos alunos, mesmo quem não tenha a mínima noção da amplitude poética que a expressão alcançou consegue, ainda que por alto, mensurar sua importância. E no entanto, veja o leitor que quando Horácio escreveu o poema que a imortalizou, o décimo primeiro do primeiro livro de suas Odes, ele na verdade não estava estreando no assunto. Compor um poema que versasse sobre a brevidade da vida e que a partir de determinado ponto exortasse o ouvinte a vivê-la era ideia em voga antes mesmo de Horácio, o que, em absoluto, não deve causar estranheza. Embora hoje sejamos leitores acostumados a apreciar as últimas novidades e tendências da arte, em consumir o que nos vendem como único e feito só pra nós, é preciso entender que a situação era bem diversa na literatura antiga e na literatura clássica, onde o poeta lançava mão de um arcabouço de saberes, assuntos, procedimentos e técnicas comuns a toda a inteligência de seu tempo, e, a partir daí, compunha uma obra que a um só tempo respeitasse as convenções de cada gênero e o vivificasse, não no sentido de separar a obra de tudo o que veio antes e sim no de equiparar-se com os grandes mestres, contribuindo, pelo menos, com mais um espécime ilustre e genuíno para aquele departamento.

Não espanta, portanto, que a ode de Horácio tenha sido aludida inúmeras vezes por poetas variadíssimos. Dentro do lugar-comum antes mencionado, de se falar da brevidade da existência humana e exortar a que mexamos o esqueleto, Horácio foi, como dito por Francisco Achcar, um verdadeiro campeão do gênero, ou seja, ele criou, dentro daquela convenção poética específica, um poema de altíssima qualidade e competência que se tornou ele próprio um baluarte, um monumento.

Falemos do carpe diem. Que tenha sido a expressão que caiu na boca do povo é quase que um mérito esperado, afinal de contas ela guarda toda uma concisão e um garbo que a destacam daqueloutras que, verdade seja dita, também chamam nossa atenção para o mesmo tema (por exemplo spem longam reseces). Os sentidos aplicáveis ao verbo carpere são basicamente quatro. O leitor já deve saber que ele diz respeito a aproveitar o dia, gozá-lo de forma detida ou, pra citar as formulações admiráveis de Péricles Eugênio e de Nelson Ascher, desfrutá-lo, fruí-lo. Todavia, pode dizer também colhê-lo quase como se fosse um fruto. É um sentido preferível e forte, afinal de contas adiciona delicadeza à imagem ao sugerir uma relação metafórica implícita e sutil que trata os dias como flores. Camões, num soneto admirável, fala da Primavera que se traslada para o rosto da amada, ao que, no primeiro terceto, declara que se ela não aceitar o amor oferecido, então sua beleza perderá a graça: “Se agora não quereis que quem vos ama / Possa colher o fruito destas flores”. Estas, ou seja: “boninas, lírios, rosas”, todas encontradas no rosto dela depois que a Primavera para lá se mudou.

No entanto, podemos apontar outros dois sentidos menos óbvios. Celestino Massucco, intelectual italiano que viveu a transição do século XVIII para o XIX, ao comentar o poema menciona que carpere é prender o tempo que foge. “Apanhar”, usado por Nelson Ascher em sua primeira versão, consegue fazer jus a tal sentido e àqueloutro, botânico. Um quarto, por fim, é o que foi estudado por Alfonso Traina num importante ensaio de 1986 onde discute, precisamente, a semântica do carpe diem. Aqui, o ensaísta italiano defende que carpere, saído de um campo semântico que também envolve rapere e sumere, é um processo traumático, é um prender lacerante e progressivo que vai do todo à parte, quase como se desfolhasse uma margarida. Se a parte é o dia, o todo é claramente o tempo, o que torna a conclamação horaciana, pelo fato de que pede para que nos atenhamos no instante, um modo de neutralizar a fuga do tempo invejoso, afinal de contas, como o próprio autor diz, já na enunciação o tempo escapa.

À medida que traduzia o poema e o revisava, o que fiz com muita displicência, busquei dar ênfase a este último sentido, o que o uso do verbo “destacar” deixa bem claro, afinal de contas pode ser tomado tanto no sentido de separar o dia de algo maior (o tempo) ou de lhe dar destaque. Outras opções tradutórias, é claro, demandam mais comentários, por exemplo transformar sapias, no original, em “Te experiência”: aqui eu quis manter a proximidade que saber e sabor possuem no latim, bem o que o Guilherme evidenciou pro leitor na sua segunda versão. No entanto, a partir do momento em que o carpe diem é o grande chamariz da postagem, deixo de lado todas as outras questões pertinentes a este poderosíssimo e compacto poema.

Recompilo todas as versões anteriormente postadas, acrescidas de outras que descobri, por exemplo a feita no século XVI por um anônimo com propósito didático: o autor citava um trecho do poema e fornecia em seguida a tradução literal da passagem, às vezes comentando passagens dignas de nota. (Na reprodução abaixo, cortei os trechos em latim e atualizei a grafia.) Além de recompilá-las, organizei-as cronologicamente e indiquei suas respectivas datas, adicionando, por fim, os dados bibliográficos daquelas que ou não constavam na última postagem ou que não chegaram a ser compiladas e estudadas por Francisco Achcar em seu Lírica e lugar-comum (EdUSP, 2015). Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores, que me ajudou com algumas traduções que eu não tinha encontrado.

Matheus Mavericco

* * *

Carmina 1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

§

trad. André Falcão Resende [séc. XVI]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

………….Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
………….Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão de ser, se curtas, se compridas;

………….Se o escuro Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
………….Se neste hórrido inverno,
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

………….Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
………….Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

§

versão literal anônima [séc. XVI]. Adaptado e com grafia atualizada
em: Obras de Horácio, Officina de Ioam da Costa, 1668, p. 14/15. Disponível aqui.

(…) ó amigo Leuconoe (…) vós (…) não esquadrinheis, nem queirais (…) saber, (…) que fim (…) os deuses (…) me derem, ou também (…) que fim (…) vos terão dado ((…) porque é pecado querer saber isso) (…) nem esquadrinheis saber (…) os números matemáticos (porque os babilônios inventaram a matemática) (…) para que (…) tudo o que acontecer seja melhor de sofrer ((…) ou (…) o deus Júpiter (…) vos concedeu (…) este só ano, ou inverno de vida: (…) o qual inverno (…) agora causa [?] (…) o mar Mediterrâneo (…) com as pedras postas diante, em que quebra sua fúria) (…) uma só coisa é bem que saibais[:] (…) tirar, ou beber o vinho mais velho, e delicado, e isso quer dizer derreter o vinho, po[is] que ao vinho velho, e dessecado, chamavam, (…) e com o breve espaço da vida (…) corteis (…) a comprida esperança de viver (…) em quanto falamos, (…) a idade (…) invejada de todos (…) desaparecer deixando-nos velhos (…) aproveitai-vos do dia presente, (…) que de nenhum modo se confia ao de amanhã.

§

trad. Filinto Elísio [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

§

trad. José Agostinho de Macedo [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto,
Dos Vaticínios Babilónios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os acintes da Sorte.

Ou Jove te destine mais Invernos
A cuta Idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas Rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as Taças
De doce vinho, apouca as Esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a Idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no Futuro.

§

trad. Elpino Duriense [1807]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

§

versão de Marquesa de Alorna [1820]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não procures saber, querida Irene,
Se a mim, se a ti, os Deuses concederam
Da vida um tempo próximo ou distante:
……..Não convém tal exame.

Não indagues os cálculos incertos
Que produzem horóscopos confusos;
Melhor será sofrer que descobri-los:
……..O que vier aceita.

Ou nos dê Jove invernos numerosos,
Ou neste, que do Tejo açouta as águas,
Atropos corte o fio a nossos dias,
……..Recear é fraqueza.

Gosta os fructos da Quinta do Descanso:
Para longa esperança o espaço é breve;
A idade foge enquanto discorremos:
……..Aproveita os momentos.

§

versão de Ricardo Reis [séc. XX]
vide Francisco Achcar

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
……..O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
……..É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
……..O dia, porque és ele.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos [1964]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
……..a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
……..melhor é suportar
……..tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
……..quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
……..cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
……..corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
……..Enquanto conversamos
……..foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

§

trad. Aduíno Bolívar [1964]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não queiras perquirir, Leucônoe, (é vedado)
O fim que a ti ou a mim hajam predestinado
Os deuses. Dos Caldeus nos números obscuros
Não tentes deletrear os eventos futuros,
Quanto é melhor sofrer o que há de vir! Bom prazo
De anos Jove nos dê, ou seja o último, acaso,
Este que nos parcéis da praia o mar tirreno
Quebrante, saibas coar o teu vinho e em pequeno
Espaço confinar o teu ideal grandioso.
Ainda estamos falando, e já o tempo odioso
Terá fugido… E, pois, eia, colhe este dia
Como quem no amanhã de modo algum confia…

§

tradução de Marie Helena da Rocha Pereira [1976]
em: Romana: antologia da cultura latina, 6a. ed., Guimarães, 2010.

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

§

versão de Paulo Leminski [1984]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

 

 

§

versão de Augusto de Campos [1985]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

§

trad. Augusto Peterlini [1992]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não buscarás, saber é proibido, ó Leuconôe,
Que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;
Nem mesmo os babilônios números perscrutes…
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
Quer venha a conceder apenas este último,
Que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos,
Tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
De muito longa, faz caber m curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o ia de hoje e não te fies nunca,
Um momento sequer, no dia e amanhã…

§

trad. Nelson Ascher [1994; 1ª versão]
em: Poesia Alheia, Imago, 1998, p. 62-63.

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,
os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo
da babilônia e aceita: o que há de ser, será,
quer nos dê Jove mais invernos, quer só este
que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe
teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.
Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.
Apanha o dia e não confies no amanhã.

§

trad. David Mourão-Ferreira [2003]
em: Revista Colóquio/Letras, n.º 163, Jan. 2003, p. 103.

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

§

trad. Bento Prado de Almeida Ferraz [2003]
em: Odes e epodos, Martins Fontes, 2003, p.38-39

Indagar, não indagues, Leuconói
qual seja o meu destino, qual o teu;
nem consultes os astros, como sói
o astrólogo caldeu:

não cabe ao homem desvendar arcanos!
Como é melhor sofrer quanto aconteça!
Ou te conceda Jove muitos anos,
ou, agora, os teus últimos enganos,
– prudente, o vinho côa e, mui depressa
a essa longa esperança circunscreve
a tua vida breve.

Só o presente é verdade, os mais, promessa…
O tempo, enquanto discutimos, foge:
Colhe o teu dia, – não no percas! – hoje.

§

trad. Nelson Ascher [2006; 2ª versão]
em: Ilustrada, 04/12/06. Disponível aqui.

Não sondes (é tabu) que fim nos tramam,
Leucônoe, os deuses, nem consultes mapas
astrais caldeus. — O que será, será,
dê Jove outros ou, moendo o mar Tirreno
com rochas, este inverno e só. — Decanta,
lúcida, o vinho a ansiar quanto é cabível.
Mal falo e o tempo foge hostil: frui já
teus dias sem contar nem com o seguinte.

§

trad. Marcio Thamos [2006]
em: Letras clássicas, USP, n. 10, 2006. Disponível aqui.

Não queiras tu, Leucônoe, descobrir
que fim a ti e a mim darão os deuses
(nem é bom que se saibam essas coisas),
esquece a astrologia babilônia:
melhor deixar que seja lá o que for.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro este que agora
fatiga o mar Tirreno contra as fragas,
tem prudência: dilui o vinho e ajusta
a esperança – que é longa – ao breve instante.

Foge o tempo invejoso enquanto falo:
— Colhe o dia e não contes que haja outro.

§

trad. de Pedro Braga Falcão [2008]
em: Horácio, Odes, Cotovia, 2008.

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

§

trad. Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

§

versão de Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

HORÁCIO NO BAIXO

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

§

trad. Leandro Cardoso [2012]
vide postagem anterior

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2012; 1a versão]
vide postagem anterior

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

§

trad. Carlos Mendonça Lopes [2013]:
em: blog vício da poesia.

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2015; 2ª versão]

Tu nem vás perguntar (ímpio saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais,
quer invernos sem fim ou só mais um ceda-nos Júpiter,
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar.
Saibas saborear, coa este vinho, anda e num curto chão
poda o longo esperar! Nesta conversa, ínvido o tempo já
foge: colhe este dia, ai!, sem pensar nunca nos amanhãs.

*

Gravação Solo:

 

Performance do Pecora Loca:

 

§

trad. Daniel Fernandes da Silva [2017]
em: comentário à antiga postagem

Saber não busques, Leoconoe, que fim
Tenha o Fado prescrito a ti e a mim;
Nem tua sorte ler queiras nas estrelas
Para melhor sofreres-lhe as mazelas;
Quer de invernos te dê Jove um milheiro,
Ou quer então seja este o derradeiro
Que o Mar Tirreno contra as rochas lança,
Vive com sensatez: poda a esperança
Em vida assim tão breve, e o vinho coa;
Enquanto aqui discorro, o Tempo voa:
Faz do instante presente o teu tesouro,
Muito pouco esperando do vindouro.

§

versão de Tarso de Melo [2017]
em: rede social do poeta

Não esquenta, camarada,
tentando adivinhar quanto tempo
os deuses nos darão de vida.
Pouco importa se este é o último
ou só mais um verão batendo
sem dó na sua janela.
Vai, curta o que vier,
pega um copo e já era.
O amanhã não merece
tanto esforço da sua esperança.
Deixa rolar. E aproveita o dia.

§

trad. Matheus “Mavericco” [2017]

Não indagues (sabê-lo é nefasto) o que os deuses
tramam a ti e a mim, Leucônoe, nem recorra
a signos babilônios. Viva o que vier!
Se Júpiter te encher de invernos ou se um último
te der, que acerta e erode as rochas do Tirreno,
te experiencia, coa o vinho e corta em curto
espaço a espera! O tempo invejoso, ao falarmos,
foge: destaca o dia, crendo pouco no após.

§

trad. Ezra Pound
vide postagem anterior

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

*

trad. Adriano Scandolara da trad. de Pound
vide postagem anterior

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

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Padrão
poesia, tradução

Hermesíanax de Colofão (séc. III a.C.), O catálogo amoroso

“Safo e Alceu”, pintura de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1881.

Nada sabemos sobre Hermesíanax, fora sua procedência da cidade de Colofão e o fato de que foi discípulo do poeta Filetas de Cós, um dos poetas mais importantes do período helenístico, que eu traduzi há mais de dez anos aqui. Como Filetas nasceu em torno de 340 a.C., podemos afirmar com certeza que o período da produção de Hermesíanax se deu no século III a.C. Ele ficou famoso pelo longo poema em três livros e composto em dísticos elegíacos, intitulado Leontion, dedicado a sua amada homônima, e parece ter sido uma das maiores influências dos poetas elegíacos romanos, tais como Propércio, Tibulo e Ovídio. Dessa obra, restaram apenas 13 fragmentos, sendo que este, comumente numerado como frag. 3 e atribuído ao livro 3 de Leontion, é o mais significativo em tamanho; ele que se constitui numa espécie de catálogo de amores dos poetas, a começar pelo mítico Orfeu, confirmando o poder avassalador da paixão amorosa.

O trecho sobreviveu apenas porque foi citado por Ateneu (Deipnosophistae/O banquete dos sofistas, 13.597).Eu o traduzi  em 2013, por pedido e sugestão de João Angelo Oliva Neto; tinha já me esquecido desse trabalho, que agora lanço aqui, também pensando no furor por listas que de tempos em tempos assola a literatura. Para o presente trabalho, consultei a edição de Lightfoot, Hellenistic collection e a tradução espanhola de José Martín García em Poesía helenística menor.

• • •

Ateneu, Deip. 13.597b

No terceiro livro, ele faz um catálogo amoroso, assim dizendo:

Tal como a que o rebento de Eagro levara
pra com a cítara alçar a trácia Agríope
do Hades, pois navegou à dura terra hostil
onde Caronte comumente embarca
as almas de quem parte e no lago bradava      5
entre fluxo fremente e imensos juncos.
Sofreu nas ondas solitário o citarista
Orfeu, mas convenceu diversos deuses,
o ilícito Cocito, rindo sob o cenho,
e suportou o olhar do horrendo cão               10
com sua voz afiada em fogo e em fogo os olhos
temíveis sobre a tríplice cabeça;
então venceu por canto os grandes soberanos,
pra Agríope reviver o seu frescor.

Nem o filho de Mene, o guardião das Graças, 15
Museu deixou sem dons a sua Antíope :
que para iniciados nas margens de Elêusis
clamava seus oráculos secretos,
guiando a rária procissão segundo o rito
de Deméter, famosa mesmo no Hades.           20

E digo que ao abandonar seu lar Beócio
Hesíodo, o guardião de toda história,
amoroso rumou para a helicônia Ascra
e a fim de seduzir a Ascraide Eoia
muito sofreu cantando os livros dos catálogos 25
de hinos, a começar pela garota.

Mesmo o aedo que os planos de Zeus decretaram
o mais suave nume da poesia,
o divo Homero desdobrou a ínfima Ítaca
em versos por Penélope prudente.                    30
Por ela suportou viver naquela ilhota,
após deixar sua espaçosa pátria.
Louvou a gente Icária e a aldeia de Amiclas
além de Esparta, só por seu sofrer .

Mimnermo após as dores descobriu o doce     35
eco e o frescor gentil que há no pentâmetro,
ardeu por Nano e ao som de sua flauta senil
celebrava festins junto de Exâmias ,
mas detestava o sempre grave Hermóbio e a Férecles,
seu inimigo, odiava pelas réplicas.                     40

Lide da Lídia fora amada por Antímaco,
que atordoado passou o rio Pactolo;
… morta a sepultou em terra firme
num lamento e ao partir enfim chegou
ao monte Colofão e encheu de pranto os livros 45
santos quando acabou seu sofrimento .

O lésbio Alceu passou muitos festins cantando
junto ao forminge seu afã por Safo,
você já sabe: o aedo amava o rouxinol
e com hinos irritava o homem teio:                   50
por ela disputava o mélico Anacreonte
enquanto ela vagava com outras lésbias;
por vez vinha de Samos e por vez da própria
pátria já barrancada de videiras,
para a vinosa Lesbos e assim via a mísia           55
Lectos quando singrava o mar Eólio.

E como a abelha da Ática ao deixar Colono
montanhosa entre dança e coro trágicos
cantava Baco e seu amor por Teóris […]
que Zeus determinara ao velho Sófocles .          60

Digo que mesmo do homem multiprecavido
e odiado por todos por suas críticas
contra as mulheres: foi ferido pelo arco
curvo e não se livrou da dor noturna,
mas vagava por toda a Macedônia egeia           65
perseguindo a criada de Arquelau
até que um deus urdiu a tua ruína, Eurípides,
quando enfrentou os feros cães de Arríbio .

E aquele de Citera, que as Musas nutriram
pra ser o mais fiel servo da flauta                       70
e de Baco, Filóxeno e como abalado
em Ortígia correu toda cidade:
você sabe que Galateia grande dor
dava até nos filhotes cabritinhos .

E conhece o aedo, que o povo de Eurípilo        75
em Cós gravou em bronze sob um plátano,
cantando a ágil Bítis: Filetas que todo
assunto dominava e toda forma .

Nem mesmo aqueles homens que seguiram vida
dura na busca de um saber sombrio,                80
oprimidos nas falas pela densa astúcia
e pela hábil virtude dos discursos,
nem eles afastaram clamor amoroso
e louco, afeitos ao cruel auriga .

Essa loucura por Teano prende o sâmio           85
Pitágoras, que vira as elegantes
espirais geométricas e o ciclo do éter
configurado na pequena esfera .

Também ardeu àquele que Apolo indicara
como um superior dos sábios — Sócrates —    90
furiosa a Cípria em fogo forte e fatigou-lhe
o fundo d’alma de aflições levianas
ao visitar o lar de Aspásia: e não achou
remédio quem achava duplas vias .

Ao cirenaico uma paixão cruel levara               95
no Istmo, amando a Apidânia Laís,
o afiado Aristipo recusou conversas
em sua fuga levando vida insana.

Athen. Deipn. 13.597b

. . . ὧν ἐν τῷ τρίτῳ κατάλογον ποιεῖται ἐρωτικῶν, οὑτωσί πως λέγων·

Οἵην μὲν φίλος υἱὸς ἀνήγαγεν Οἰάγροιο
Ἀργιόπην Θρῇσσαν στειλάμενος κιθάρην
Ἁιδόθεν· ἔπλευσεν δὲ κακὸν καὶ ἀπειθέα χῶρον,
ἔνθα Χάρων κοινὴν ἕλκεται εἰς ἄκατον
ψυχὰς οἰχομένων, λίμνῃ δ’ ἐπὶ μακρὸν ἀϋτεῖ               5
ῥεῦμα διὲκ μεγάλων ῥυομένῃ δονάκων.
Ἀλλ’ ἔτλη παρὰ κῦμα μονόζωστος κιθαρίζων
Ὀρφεύς, παντοίους δ’ ἐξανέπεισε θεούς,
Κωκυτόν τ’ ἀθέμιστον ὑπ’ ὀφρύσι μειδήσαντα·
ἠδὲ καὶ αἰνοτάτου βλέμμ’ ὑπέμεινε κυνός,                   10
ἐν πυρὶ μὲν φωνὴν τεθοωμένου, ἐν πυρὶ δ’ ὄμμα
σκληρόν, τριστοίχοις δεῖμα φέρον κεφαλαῖς.
Ἔνθεν ἀοιδιάων μεγάλους ἀνέπεισεν ἄνακτας
Ἀργιόπην μαλακοῦ πνεῦμα λαβεῖν βιότου.

Οὐ μὴν οὐδ’ υἱὸς Μήνης ἀγέραστον ἔθηκε                    15
Μουσαῖος Χαρίτων ἤρανος Ἀντιόπην,
ἥ τε πολὺν μύστῃσιν Ἐλευσῖνος παρὰ πέζαν
εὐασμὸν κρυφίων ἐξεφόρει λογίων,
Ράριον ὀργειῶνα νόμῳ διαπομπεύουσα
Δημήτρᾳ· γνωστὴ δ’ ἐστὶ καὶ εἰν Ἀΐδῃ.                            20

Φημὶ δὲ καὶ Βοιωτὸν ἀποπρολιπόντα μέλαθρον
Ἡσίοδον πάσης ἤρανον ἱστορίης
Ἀσκραίων ἐσικέσθαι ἐρῶνθ’ Ἑλικωνίδα κώμην·
ἔνθεν ὅ γ’ Ἠοίην μνώμενος Ἀσκραϊκὴν
πόλλ’ ἔπαθεν, πάσας δὲ λόγων ἀνεγράψατο βίβλους   25
ὑμνῶν, ἐκ πρώτης παιδὸς ἀνερχόμενος.

Αὐτὸς δ’ οὗτος ἀοιδός, ὃν ἐκ Διὸς αἶσα φυλάσσει
ἥδιστον πάντων δαίμονα μουσοπόλων
λεπτὴν ᾗς Ἰθάκην ἐνετείνατο θεῖος Ὅμηρος
ᾠδῇσιν πινυτῆς εἵνεκα Πηνελόπης,                                 30
ἣν διὰ πολλὰ παθὼν ὀλίγην ἐσενάσσατο νῆσον,
πολλὸν ἀπ’ εὐρείης λειπόμενος πατρίδος·
ἔκλεε δ’ Ἰκαρίου τε γένος καὶ δῆμον Ἀμύκλου
καὶ Σπάρτην, ἰδίων ἁπτόμενος παθέων.

Μίμνερμος δέ, τὸν ἡδὺν ὃς εὕρετο πολλὸν ἀνατλὰς    35
ἦχον καὶ μαλακοῦ πνεῦμα τὸ πενταμέτρου,
καίετο μὲν Ναννοῦς, πολιῷ δ’ ἐπὶ πολλάκι λωτῷ
κημωθεὶς κώμους εἶχε σὺν Ἐξαμύῃ,
ἤχθεε δ’ Ἑρμόβιον τὸν ἀεὶ βαρὺν ἠδὲ Φερεκλῆν
ἐχθρόν, μισήσας οἷ’ ἀνέπεμψεν ἔπη.                               40

Λυδῆς δ’ Ἀντίμαχος Λυδηίδος ἐκ μὲν ἔρωτος
πληγεὶς Πακτωλοῦ ῥεῦμ’ ἐπέβη ποταμοῦ·
†δαρδανη δὲ θανοῦσαν ὑπὸ ξηρὴν θέτο γαῖαν
κλαίων, αιζαον† δ’ ἦλθεν ἀποπρολιπὼν
ἄκρην ἐς Κολοφῶνα, γόων δ’ ἐνεπλήσατο βίβλους      45
ἱράς, ἐκ παντὸς παυσάμενος καμάτου.

Λέσβιος Ἀλκαῖος δὲ πόσους ἀνεδέξατο κώμους
Σαπφοῦς φορμίζων ἱμερόεντα πόθον,
γιγνώσκεις· ὁ δ’ ἀοιδὸς ἀηδόνος ἠράσαθ’, ὕμνων
Τήϊον ἀλγύνων ἄνδρα πολυφραδίῃ.                                50
Καὶ γὰρ τὴν ὁ μελιχρὸς ἐφημίλλητ’ Ἀνακρείων
στελλομένην πολλαῖς ἄμμιγα Λεσβιάσιν·
φοίτα δ’ ἄλλοτε μὲν λείπων Σάμον, ἄλλοτε δ’ αὐτὴν
οἰνηρῇ δειρῇ κεκλιμένην πατρίδα
Λέσβον ἐς εὔοινον· τὸ δὲ Μύσιον εἴσιδε Λεκτὸν          55
πολλάκις Αἰολικοῦ κύματος ἀντιπέρας.

Ἀτθὶς δ’ οἷα μέλισσα πολυπρήωνα Κολωνὸν
λείπουσ’ ἐν τραγικαῖς ᾖδε χοροστασίαις
Βάκχον καὶ τὸν Ἔρωτα Θεωρίδος <. . . . .
ἥν ποτε γηραιῷ Ζεὺς ἔπορεν Σοφοκλεῖ.                        60

Φημὶ δὲ κἀκεῖνον τὸν ἀεὶ πεφυλαγμένον ἄνδρα
καὶ πάντων μῖσος κτώμενον ἐκ †συνοχῶν
πάσας ἀμφὶ γυναῖκας, ὑπὸ σκολιοῖο τυπέντα
τόξου νυκτερινὰς οὐκ ἀποθέσθ’ ὀδύνας·
ἀλλὰ Μακηδονίης πάσας κατενίσατο λαύρας              65
Αιγάων, μέθεπεν δ’ Ἀρχέλεω ταμίην,
εἰσόκε <σοι> δαίμων Εὐριπίδῃ εὕρετ’ ὄλεθρον
Ἀρριβίου στυγνῶν ἀντιάσαντι κυνῶν.

Ἄνδρα δὲ τὸν Κυθέρηθεν, ὃν ἐθρέψαντο τιθῆναι
Βάκχου καὶ λωτοῦ πιστότατον ταμίην                           70
Μοῦσαι παιδευθέντα Φιλόξενον, οἷα τιναχθεὶς
Ὀρτυγίῃ ταύτης ἦλθε διὰ πτόλεως
γιγνώσκεις, ἀΐουσα μέγαν πόθον ὃν Γαλατείη
αὐτοῖς μηλείοις θήκαθ’ ὑπὸ προγόνοις.

Οἶσθα δὲ καὶ τὸν ἀοιδόν, ὃν Εὐρυπύλου πολιῆται       75
Κῷοι χάλκειον στῆσαν ὑπὸ πλατάνῳ
Βιττίδα μολπάζοντα θοήν, περὶ πάντα Φιλίταν
ῥήματα καὶ πᾶσαν τρυόμενον λαλιήν.

Οὐδὲ μὲν οὐδ’ ὁπόσοι σκληρὸν βίον ἐστήσαντο
ἀνθρώπων, σκοτίην μαιόμενοι σοφίην,                        80
οὓς αὐτὴ περὶ πυκνὰ λόγοις ἐσφίγξατο μῆτις,
καὶ δεινὴ μύθων κῆδος ἔχουσ’ ἀρετή,
οὐδ’ οἵδ’ αἰνὸν ἔρωτος ἀπεστρέψαντο κυδοιμὸν
μαινομένου, δεινὸν δ’ ἦλθον ὑφ’ ἡνίοχον.

Οἵη μὲν Σάμιον μανίη κατέδησε Θεανοῦς                     85
Πυθαγόρην, ἑλίκων κομψὰ γεωμετρίης
εὑρόμενον, καὶ κύκλον ὅσον περιβάλλεται αἰθὴρ
βαιῇ ἐνὶ σφαίρῃ πάντ’ ἀποπλασσάμενον.
Οἵῳ δ’ ἐχλίηνεν ὃν ἔξοχον ἔχρη Ἀπόλλων
ἀνθρώπων εἶναι Σωκράτη ἐν σοφίῃ,                               90
Κύπρις μηνίουσα πυρὸς μένει· ἐκ δὲ βαθείης
ψυχῆς κουφοτέρας ἐξεπόνησ’ ἀνίας,
οἰκί’ ἐς Ἀσπασίης πωλεύμενος· οὐδέ τι τέκμαρ
εὗρε, λόγων πολλὰς εὑρόμενος διόδους.

Ἄνδρα <δὲ> Κυρηναῖον ἔσω πόθος ἔσπασεν Ἰσθμοῦ  95
δεινός, ὅτ’ Ἀπιδανῆς Λαΐδος ἠράσατο
ὀξὺς Ἀρίστιππος, πάσας δ’ ἠνήνατο λέσχας
φεύγων, †ουδαμενον εξεφορησε βίῳ.

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poesia, tradução

O amor segundo Robert Creeley, parte 2

Há cinco (5!, gente, 5!) anos atrás, eu declarei aqui, uma vez mais, em tradução, o meu amor. E prometi — os amantes prometem tanto — que continuaria a série O amor segundo Robert Creeley com os dois poemas longos, lindos, loucos, de RC, que não cabiam lá, “The act of love” e “For love”. Como nos erros que a gente faz no amor, larguei esses poemas na gaveta, que hoje saem do limbo simplesmente porque o Italo Diblasi veio me perguntar por eles, veio sem querer me lembrar da existência deles, e das traduções. Sei que também, como todo mundo, já deixei coisas do amor na gaveta, do jeito mais torto, e quero acreditar que vou tirando na hora certa, ainda em tempo, como estes poemas, estas renovações de promessas. Ainda para a Nanda.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Por amor

para Bobbie

Ontem, eu quis falar
dele, o sentido acima
dos outros para mim,
importante porque tudo

que conheço deriva
do que ele me ensina.
Hoje o que é que está
finalmente sem remédio,

diferente, desesperado
da própria afirmação, quer
afastar-se, infinitamente
afastar-se.

Se a lua não . . .
não, se você não,
então nem eu,
mas eu não

faria, que prevenção, que
coisa fácil de parar.
Eis o amor ontem
ou amanhã, não

agora. Posso comer
o que você me der?
Não mereci. Devo
pensar em tudo

como mérito? Agora o amor
também vira um prêmio tão
distante de mim que eu
o fiz somente em minha mente.

Aqui está o tédio,
desespero, um doloroso
senso de isolação e
excêntrico de autocrítica

pomposa. Mas a imagem
pertence à vaga estrutura
da mente, vaga para mim
porque é minha mesma.

Amor, o que eu penso
em dizer, não sei dizê-lo.
O que você virou pra perguntar,
no que eu te transformei,

parceira, boa companhia,
pernas cruzadas de saia, ou
tenro corpo sob
os ossos da cama?

Nada diz algo
senão o que ele deseja
que aconteça, teme
tudo que possa acontecer em

outro lugar, outro
espaço que não este.
Uma voz no meu lugar, um
eco do que é apenas no teu.

Me deixe tropeçar,
não na confissão, mas
na obsessão que agora
eu começo. Por você

também (também)
um tempo além do espaço, ou
espaço além do tempo, sem
mente que reste pra

dizer alguma coisa,
foi-se aquela face, agora.
Na companhia do amor
tudo retorna.

For Love

for Bobbie

Yesterday I wanted to
speak of it, that sense above
the others to me
important because all

that I know derives
from what it teaches me.
Today, what is it that
is finally so helpless,

different, despairs of its own
statement, wants to
turn away, endlessly
to turn away.

If the moon did not …
no, if you did not
I wouldn’t either, but
what would I not

do, what prevention, what
thing so quickly stopped.
That is love yesterday
or tomorrow, not

now. Can I eat
what you give me. I
have not earned it. Must
I think of everything

as earned. Now love also
becomes a reward so
remote from me I have
only made it with my mind.

Here is tedium,
despair, a painful
sense of isolation and
whimsical if pompous

self-regard. But that image
is only of the mind’s
vague structure, vague to me
because it is my own.

Love, what do I think
to say. I cannot say it.
What have you become to ask,
what have I made you into,

companion, good company,
crossed legs with skirt, or
soft body under
the bones of the bed.

Nothing says anything
but that which it wishes
would come true, fears
what else might happen in

some other place, some
other time not this one.
A voice in my place, an
echo of that only in yours.

Let me stumble into
not the confession but
the obsession I begin with
now. For you

also (also)
some time beyond place, or
place beyond time, no
mind left to

say anything at all,
that face gone, now.
Into the company of love
it all returns.

§

O Ato Amoroso

O que constitui
o ato amoroso,
fora o encontro

físico, você
é o meu bem,
não um valor como

o dos bancos –
mas um sentido auto-
suficiente, seco

por vezes como areia,
ou então árvores,
pigando de

chuva. Como alguém,
essa por assim dizer
pessoa, poderia

dizê-lo? Ele
ama, a mente
está ocupada, as

mãos se movem,
escrevem palavras
que lhe vêm
à cabeça.
Mas aqui,
o dia envolve

esse homem,
essa mulher,
sentados a pequena

distância.
O amor não
resolve – mas

aproxima,
sempre, faz
a umidade das

suas bocas e corpos
atuar
ativamente. Se eu

quisesse
uma imagem suja,
seria sempre

a de uma
mulher montada?
Sim

e não, são
opostos verdadeiros,
um você e eu

de non-
sense,
por nosso amor.

Mas, diz
alguém, o vento
alça, o céu

é muito azul, a
água acima
de mim faz

seus sons amáveis.
Você é
o meu

bem, que amá-
vel é todo o
teu corpo, como

todos esses
sentidos se
misturam, pra

que mesmo nos
teus braços eu
pense em você.

The Act of Love

Whatever constitutes
the act of love,
save physical

encounter, you are
dear to me,
not value as

with banks –
but a meaning self-
sufficient, dry

at times as sand,
or else the trees,
dripping with

rain. How shall
one, this so-
called person,

say it? He
loves, his mind
is occupied, his

hands move
writing words
which come

into his head.
Now here,
the day surrounds

this man
and woman
sitting a small

distance apart.
Love will not
solve it – but

draws closer
always, makes
the moisture of their

mouths and bodies
actively
engage. If I

wanted
a dirty picture
would it always

be of a
woman straddled?
Yes

and no, these
are true opposites
a you and me

of non-
sens,
for our love.

Now, one
says, the wind
lifts, the sky

is very blue,
the water just
beyond me makes

its lovely sounds.
How dear
you are

to me, how love-
ly all your
body is, how

all these
senses do
commingle, so

that in your very
arms I still
can think of you.

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tradução

3 traduções para 1 poema de Paul Celan

celan-paul

recentemente eu conversava com a poeta adelaide ivánova sobre o poema “engführung” do celan. ela me explicava os versos bonitos e falava sobre as traduções existentes para o português. fiquei encafifado com o dito poema e no começo dessa semana pedi ao guilherme gontijo flores que o traduzisse. ele, pronta e maniacamente, traduziu. em pouquíssimas horas. o resultado é esse que vocês podem conferir abaixo.

como o poema é demasiado grande, deixarei linkadas as outras traduções que encontrei na internet, pra não deixar o post irritantemente longo. encontrei, na revista zunái, uma tradução feita por simone homem de mello (clique aqui). uma outra tradução encontrada foi a feita por claudia cavalcante (clique aqui). infelizmente, não consegui encontrar online a tradução feita por flávio kothe.

 

sergio maciel

 

* * *

 

ENGFÜHRUNG

VERBRACHT ins
Gelände
mit der untrüglichen Spur:

Gras, auseinandergeschrieben. Die Steine, weiß,
mit den Schatten der Halme:
Lies nicht mehr – schau!
Schau nicht mehr – geh!

Geh, deine Stunde
hat keine Schwestern, du bist –
bist zuhause. Ein Rad, langsam,
rollt aus sich selber, die Speichen
klettern,
klettern auf schwärzlichem Feld, die Nacht
braucht keine Sterne, nirgends
fragt es nach dir.
*

Nirgends
fragt es nach dir –

Der Ort, wo sie lagen, er hat
einen Namen – er hat
keinen. Sie lagen nicht dort. Etwas
lag zwischen ihnen. Sie
sahn nicht hindurch.

Sahn nicht, nein,
redeten von
Worten. Keines
erwachte, der
Schlaf
kam über sie.
*

Kam, kam. Nirgends
fragt es –

Ich bins, ich,
ich lag zwischen euch, ich war
offen, war
hörbar, ich tickte euch zu, euer Atem
gehorchte, ich
bin es noch immer, ihr
schlaft ja.
*

Bin es noch immer –

Jahre.
Jahre, Jahre, ein Finger
tastet hinab und hinan, tastet
umher:
Nahtstellen, fühlbar, hier
klafft es weit auseinander, hier
wuchs es wieder zusammen – wer
deckte es zu?
*

Deckte es
zu – wer?

Kam, kam.
Kam ein Wort, kam,
kam durch die Nacht,
wollt leuchten, wollt leuchten.

Asche.
Asche, Asche.
Nacht.
Nacht-und-Nacht. – Zum
Aug geh, zum feuchten.
*

Zum
Aug geh,
zum feuchten –

Orkane.
Orkane, von je,
Partikelgestöber, das andre,
du
weißts ja, wir
lasens im Buche, war
Meinung.

War, war
Meinung. Wie
faßten wir uns
an – an mit
diesen
Händen?

Es stand auch geschrieben, daß.
Wo? Wir
taten ein Schweigen darüber,
giftgestillt, groß,
ein
grünes
Schweigen, ein Kelchblatt, es
hing ein Gedanke an Pflanzliches dran –

grün, ja
hing, ja
unter hämischem
Himmel.

An, ja,
Pflanzliches.

Ja.
Orkane, Par-
tikelgestöber, es blieb
Zeit, blieb,
es beim Stein zu versuchen – er
war gastlich, er
fiel nicht ins Wort. Wie
gut wir es hatten:

Körnig,
körnig und faserig. Stengelig,
dicht;
traubig und strahlig; nierig,
plattig und
klumpig; locker, ver-
ästelt –: er, es
fiel nicht ins Wort, es
sprach,
sprach gerne zu trockenen Augen, eh es sie schloß.

Sprach, sprach.
War, war.

Wir
ließen nicht locker, standen
inmitten, ein
Porenbau, und
es kam.

Kam auf uns zu, kam
hindurch, flickte
unsichtbar, flickte
an der letzten Membran,
und
die Welt, ein Tausendkristall,
schoß an, schoß an.
*

Schoß an, schoß an.
Dann –

Nächte, entmischt. Kreise,
grün oder blau, rote
Quadrate: die
Welt setzt ihr Innerstes ein
im Spiel mit den neuen
Stunden. – Kreise,

rot oder schwarz, helle
Quadrate, kein
Flugschatten,
kein
Meßtisch, keine
Rauchseele steigt und spielt mit.

*

Steigt und
spielt mit –

In der Eulenflucht, beim
versteinerten Aussatz,
bei
unsern geflohenen Händen, in
der jüngsten Verwerfung,
überm
Kugelfang an
der verschütteten Mauer:

sichtbar, aufs
neue: die
Rillen, die

Chöre, damals, die
Psalmen. Ho, ho-
sianna.

Also
stehen noch Tempel. Ein
Stern
hat wohl noch Licht.
Nichts,
nichts ist verloren.

Ho-
sianna.

In der Eulenflucht, hier,
die Gespräche, taggrau,
der Grundwasserspuren.
*

(– – taggrau,
der
Grundwasserspuren –
Verbracht
ins Gelände
mit
der untrüglichen
Spur:

Gras.
Gras,
auseinandergeschrieben.)

 

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Ruínas da Grande Sinagoga do Gueto de Varsóvia, 16 de maio de 1943.

ESTREITO

Enviados ao
terreno
com o inequívoco rastro:

capim, escrito à parte. As pedras, brancas,
com as sombras dos talos:
Leia não — olhe!
Olhe não — vá!

Vá, tua hora
não tem irmãs, você está —
está em casa. Uma roda, lenta,
gira em si mesma, os raios
sobem,
sobem em campo breu, a noite
não pede estrela, nenhures
perguntam por você.

*

Nenhures
perguntam por você —

O lugar onde jaziam tem
um nome — tem
nenhum. Não jaziam ali. Algo
jazia entre eles. Não
viam através.

Não viam, não,
falavam de
palavras. Nenhum
despertou, o
sono
veio sobre todos.

*

Veio, veio. Nenhures
perguntam —

Eu sou, eu,
eu jazia entre vocês, estava
aberto, estava
audível, tiquei pra vocês, seu alento
assentiu, sou
eu ainda, vocês
dormem sim.

*

Sou eu ainda —

anos.
Anos, anos, um dedo
tateia acima, abaixo, tateia
em torno:
Suturas, palpáveis, aqui
tudo se fende à parte, aqui
tudo se junta outra vez — quem
o cobriu?

*

O cobriu —
quem?

Veio, veio.
Veio uma palavra, veio,
veio pela noite.
queria luzir, queria luzir.

Cinzas.
Cinzas, cinzas.
Noite.
Noite-e-noite. — Vá
no olho, no úmido.


no olho,
no úmido —

ciclones.
ciclones, desde sempre,
borrasca de partículas, o outro,
você
bem sabe, nós
o lemos no livro, era
opinião.

Era, era
opinião. Como
nos tocamos —
como com
estas
mãos?

Também está escrito que.
Onde? Nós
fizemos silêncio sobre isso,
veneno-estático, imenso,
um
verde
silêncio, um sépalo, nele
pende um pensamento de vegetal —

verde, sim
pende, sim
sob um perverso
céu.

De, sim,
vegetal.

Sim.
Ciclones, borras-
cas de partículas, sobrou
tempo, sobrou,
pra tentar com a pedra – ela
foi acolhedora, ela
não cortava a palavra. Como
estávamos bem:

granulada,
granulada e fibrosa. Hasteada,
densa;
uval e radiante; renal,
plana e
grumosa; porosa, rami
ficada – ela, isso
não cortava a palavra,
falava:
falava com gosto a olhos secos, antes de cerrá-los.

Falava, falava.
era, era.

Nós
não cedemos, paramos
de pé no meio, um
prédio-poro, e
ele veio.

Veio sobre nós, veio
através, remendou
invisível, remendou
na última membrana,
e
o mundo, um milicristal,
medrou, medrou.

Medrou, medrou.
Então —

Noites, desmistas. Círculos
azuis ou verdes, rubros
quadrados: o
mundo põe seu mais íntimo
em jogo com as novas
horas. — Círculos,
rubros ou negros, claros
quadrados, sem
sombra de voo,
sem
prancheta, sem
alma-fumo que sobe e segue o jogo.

Sobe e
segue o jogo —

No voo da coruja, junto
à lepra pétrea,
junto
às nossas mãos fugidas, na
mais nova recusa,
sobre
o para-balas no
paredão enterrado:

visível, de
novo: os
sulcos, os

coros, outrora, os
salmos. Ho, ho-
sianna.

Assim
estão de pé os templos. Uma
estrela
talvez mantenha a luz.
Nada,
nada está perdido.

Ho-
sianna.

No voo da coruja, aqui
as conversas, gris-dia,
dos rastros de aquíferos.

( — — gris-dia,
dos rastros de aquíferos —

Enviados ao
terreno
com
o inequívoco
rastro:

Capim.
Capim,
escrito à parte.)

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crítica, crítica de tradução, poesia, tradução

O urubu, de Edgar Allan Poe – uma tradução-exu

tumblr_urubu rei

“The Raven”, de Edgar Allan Poe, é uma das peças fundamentais da modernidade poética, que costuma ver seu auge na obra de Baudelaire (que traduziu a obra de Poe ao francês); mais que isso, “The Raven” é um poema repetidamente traduzido e comentado em língua portuguesa, um texto que já passou pelas mãos de Machado de Assis, Fernando Pessoa e Haroldo de Campos, dentre tantos outros, e que encarna uma certa noção do que é poesia moderna. Trata-se de uma pedra de toque, pela ourivesaria do verso obsessivo, bem como pelo enfrentamento de um eu-lírico diante da falta de sentido que a morte apresenta. A importância da forma do poema já foi bem demonstrada pelo próprio Poe em seu ensaio “Filosofia da composição”, onde explicou como tinha criado o poema; e tudo indica que essa apresentação formal do próprio Poe moldou parte significativa de sua recepção.

No entanto, poderíamos fazer uma pergunta crucial: é possível a recriação obsessiva de uma forma poética ir além do servilismo que diviniza o original? Não seria mesmo isso o que poderíamos supor a partir das críticas à tradução de Fernando Pessoa (poeta que mais emulou a forma do original), que insistem em nos lembrar como as rimas em -ais seriam mais abertas e, portanto, menos pesadas e soturnas do que as rimas em -ore? Daí as visões de intraduzibilidade, que caem num simbolismo fonético intransponível: para elas, no limite, o original é santo e intocável; toda tradução pode, no máximo, emular o que se perde. Mas e se a recriação obsessiva da forma for em si uma forma de perversão? Se -ore anunciava o horror diante da falta de sentido da morte, seria possível rimar ainda mais fechado? O que estaria em jogo nessa escolha, ou na recriação do ritmo original? Tendo inúmeras vezes compulsado as versões de outrora de Machado e de Pessoa, este poema nos semblava intraduzível. Mas a pulga atrás da orelha se acendia igual centelha lamentando a eterna falta de uma bela rima em –u.

Se, por um lado, a insistência na recuperação estrita feita por Pessoa das estrofes em octonários trocaicos e septenários trocaicos cataléticos e das complexas rimas internas em posições de cesuras hemistíquias de Poe* nos parece demasiado servil e, por conta dessa mesma obsessão, perder a força das vogais médio-altas arredondadas das inúmeras rimas ominosas em -ore — o que corroboraria a ideia de que uma tradução perfeita não existe —, a própria percepção dessa impossibilidade da perfeição tradutória imanente nos instiga a partir da falta, da impossibilidade de rimar nevermore com nuncamais, e, aceitando perder justamente o sentido — noteucu não é a mesma coisa que nuncamais — fazemos a mesma recuperação: ritmo, rimas, forma. Mas algo mudou.

A escolha de urubu e noteucu, à primeira vista, parece mero jogo (pré-)adolescente de prazer escatológico. Mas a tradução como paródia é também possibilidade de política. No poema original de Poe, já víamos o germe de um homem branco burguês romântico que lamentava a morte de sua amada angélica (Lenore=nevermore), porém enfrentado pelo mote antiaristotélico do discurso nevermore do corvo. Aliás, não podemos nos furtar a aceitar que, se o sentido se constrói no ponto da recepção, não conseguimos mais ler este poema de Poe sem pensar e visualizar as várias camadas de (pseudo)paródia propostas por artistas ricos, complexos e muito diversos como Sopor Aeternus e Tim Burton. Seria possível, no entanto, ver nessa insistência de um animal já elevado na literatura fúnebre e na palavra evocada, nevermore, um apelo à transcendência: “nunca mais” se iguala a “mais além”. Mas um raven pouco diz para a cultura latino-americana, assim como o frio de dezembro nos parece paradoxal; por isso, o deslocamento de raven em urubu é também a desmistificação transcendental das identidades animais (Lévi-Strauss nos mostra com os mitos da raposa na América do Sul refletem os mitos do coiote na América do Norte — haveria uma traduzibilidade mítica entre corvo e urubu?). Mas o urubu nos leva além na imanência, sugere uma possibilidade de reversão anticolonial (contra o colonialismo norte-americano), já que sempre foi um animal associado ao negro, escravo, social-sexual-simbolicamente oprimido; sua insistência em pousar sobre o busto de Palas Atena (deusa da filosofia e símbolo da democracia ateniense/ocidental), num gesto arrogante de contrassentido**, pode ganhar ainda mais com um insistente “noteucu” (Lulu=noteucu) — nome, palavra, frase — que, tal como nevermore, desregula as expectativas racionais; porém, para além do apontamento ao nunca mais, “noteucu” rompe as cadeias do sentido e termina a conversa nunca iniciada; “noteucu”, nome e mote do urubu, é também uma resposta via tradução aos nossos modelos colonizados de saber, corresponde a uma recusa do branco filosófico transcendental — tradução-exu.

Este risco de tradução paródica se deseja ao mesmo tempo como homenagem e perversão. O ritmo rímico do raven de Poe, recriado com toda obsessão formal, como abertura do sentido, como chance de reversão desse mesmo sentido. Urge o urubu do corvo-Poe. Pra quem pensava que, dada a tanta bela e intocável tradição, nunca mais dever-se-ia — assim, na mesóclise golpista — refazer.

Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves

PS: Esta tradução não aconteceria sem uma conversa ominosa com nossos alunos Sérgio, Guilherme, Mariana, Diego  e João. A eles o nosso agradecimento.

Notas

* — u — u — u — u | — u — u — u — u
— u — u — u — u | — u — u — u —
— u — u — u — u | — u — u — u — u
— u — u — u — u | — u — u — u —
— u — u — u — u | — u — u — u —
— u — u — u —
[— = sílaba tônica; u = sílaba átona; | = cesura obrigatória]

**Antecipando, em uma cadeia construída por “discourse”, “meaning”, “relevancy” (nona estrofe), mais de um século de estudos das teorias linguísticas, em uma teleologia que envolve a cadeia filologia > estruturalismo > discurso > pragmática > cognição. O discurso do corvo/urubu, ao mesmo tempo que sugere uma teoria contemporânea da relevância discursiva, desestabiliza a relação entre signo/significante e significado/uso/recepção na resposta agourenta do eu-lírico.

* * *

O URUBU

(Edgar Allan Poe, trad. Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves)

Meia noite em meu terreiro — eu cansado e já cabreiro
compulsava por inteiro velhos livros de vodu;
já pescava, adormecendo, quando ouvi alguém batendo,
gentilmente me rangendo, range em meu vestíbulo.
“Deve ser uma visita junto ao meu vestíbulo”,
eu dizia “sem rebu”.

Eu me lembro com desgosto, num moroso mês de agosto,
quando o fogo no seu posto fenecia ainda cru;
e eu varava a noite escura procurando na leitura
um remédio para dura, dura falta de Lulu —
essa moça radiante – nome angélico – Lulu,
jaz num pouso anônimo.

E a sedosa triste sina que corria na cortina
já me invade e me alucina com pavor de algum exu,
quando o coração batia, e eu, corado, repetia:
“É visita em noite fria junto ao meu vestíbulo,
só visita que tardia bate em meu vestíbulo,
é só isso, sem rebu”.

Mas então fiquei mais forte, mais altivo no meu porte
“Moço ou moça, me desculpa, peço por obséquio;
fato é que eu, adormecendo, vem você aqui batendo
de levinho aqui rangendo e range em meu vestíbulo,
mal ouvi, abri a porta” – aqui do meu vestíbulo,
só o escuro, sem rebu.

Nesse escuro tão profundo, resto triste e tremebundo,
duvidando dos demônios que podiam dar chabu;
mas silêncio ali reinava e mais parado o ar ficava
e esse som que martelava, era o nome da “Lulu”?
Sussurrei o nome dela e ouço o eco, só “Lulu” –
simples, isso, sem rebu.

Para dentro já voltando, toda a alma me queimando,
logo escuto alguém batendo, pulo feito um cururu.
“Deve ser vento que encana e passa na veneziana;
anda logo, desencana, e já desfaço todo o angu,
fico calmo num instante e já desfaço todo o angu;–
foi o vento, sem rebu!”

Abro a tranca da janela sem deixar de pensar nela,
ali pousa, majestoso belo, arcaico – um urubu;
não fez gesto de respeito, só pousou no parapeito,
com orgulho no seu peito; e eu no meu vestíbulo
vejo o ser empoleirar-se em Palas no vestíbulo,
repousando sem rebu.

Esse bicho tez-noturna logo alegra a dor soturna
com o sério e decoroso ar de um ser impávido.
“Tua crista sem alarde diz que tu não és covarde,
urubu da cinza tarde dessa eterna noite azul,
dize enfim qual é teu nome na plutônia noite azul!”
Urubu diz: “Noteucu”.

Galináceo petulante, se pasmei de o ver falante,
seu discurso irrelevante pareceu ridículo.
Ora, vamos e venhamos, que jamais nós encontramos,
nesta vida que levamos, ave num vestíbulo –
bicho ou besta sobre um busto belo no vestíbulo,
com tal nome: “Noteucu”.

E o urubu tão solitário sem sequer um dicionário
inseria a sua alma nesse termo críptico.
Sem palavras mais amenas, nem mexia suas penas,
murmurei a duras penas: “Aves passam sem tabu,
passam todas esperanças que guardei no meu tabu”.
A ave insiste “Noteucu”.

Assustado pela rara intervenção que me tomara,
eu falei “O que essa fera fala vem do seu baú,
que algum dono distraído, desastrado e destruído
ensinara por ruído em canto melancólico,
‘té que em desespero resta o canto melancólico:
‘Noteucu’ e ‘Noteucu’”.

E o urubu de tez noturna logo alegra a dor soturna,
e eu me sento em frente a busto e besta em meu vestíbulo.
Me afundei nessa cadeira e meditei uma hora inteira
sobre a fala sobranceira e ominosa do urubu
sobre o som insano, seco e ominoso do urubu
com aquele “Noteucu”.

Eu me engajo matutando, som nenhum articulando
para a fera cujos olhos cravam meu espírito;
e eu pensava nisso tudo com o couro cabeludo
na almofada de veludo sob a luz de um abajur;
ela sobre esse veludo, sob a luz desse abajur
nunca mais porá o cu!

Pareceu-me o ar mais denso perfumado por incenso
que algum anjo ali passando porta em seu turíbulo.
“Deus mandou-te de repente por um anjo penitente
como alívios e nepente pras lembranças de Lulu;
Bebe, bebe o bom nepente, esquece a morte da Lulu!”
O urubu diz “Noteucu”.

“Mau profeta, ó ser trevoso!–seja bicho ou o tinhoso!–
se te trouxe um tentador ou se és de longe um náufrago,
desolado mas ousado, neste deserto encantado,
num castelo enfeitiçado – conta, por obséquio –
Tem alívio em Gileade? Diz, diz, por obséquio!”
“Tem alívio Noteucu.”

“Mau profeta, ó ser trevoso! – seja bicho ou o tinhoso! –
Pelo santo paraíso – por bom Deus ou por Jesu –
dize ao peito que hoje impedem dores, lá no arcaico Éden
onde encontra quanto pede, em nome angélico, Lulu,
onde encontra alguma sede, em nome angélico, Lulu.”
O urubu diz “Noteucu”.

“Que isso seja a despedida!”, eu gritei, “Ave atrevida,
vai, retorna à tempestade da plutônia noite azul!
Não me deixes pluma rude da mentira que me ilude!
Deixa a minha solitude! Sai do meu vestíbulo!
Tira o bico deste peito e some do vestíbulo!”
O urubu diz “Noteucu”.

E o urubu jamais revoa, mas repousa nessa proa
sobre o busto da alva Palas junto ao meu vestíbulo;
no seu olho já centelha algum demônio que se espelha,
e a lanterna agora velha lança a sombra do urubu,
e minha alma dessa sombra persistente do urubu
se liberta? Noteucu!

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poesia, tradução

Uma janela de Rilke em várias versões

Franz Ludwig Catel (German, 1788–1856) A View of Naples through a Window, 1824

Franz Ludwig Catel (German, 1788–1856)
“Vista de Nápoles por uma Janela”, 1824

Eu já disse, num passado nem tão distante, que a poesia francesa de Rilke era pouco conhecida no Brasil, na língua portuguesa como um todo. Começo a ver que não era, ou que certamente já não é verdade. Como prova cabal disso, eis logo abaixo cinco (sim, eu disse 5) versões lusófonas para um mesmo poema que aparece tanto na série Vergers quanto na Fenêtres. Três delas apareceram em livros: a de Fernando Santoro em 1995, a de Maria Gabriela Llansol saiu em 1998 (na verdade, uma bitradução), e a minha em 2009. Além disso, descobri recentemente a de a de Carlos R. Monteiro de Andrade, que tinha saído numa revista de arquitetura, em 2006. Por fim, William Zeytounlian, que vem traduzindo toda a série Vergers, apresentou uma nova versão. Rilke vai bem, obrigado.

Guilherme Gontijo Flores

ps: olhem este post aqui, que vale a pena.

* * *

N’es-tu pas notre géométrie,
fenêtre, très simple forme
qui sans effort circonscris
notre vie énorme ?

Celle qu’on aime n’est jamais plus belle
que lorsqu’on la voit apparaître
encadrée de toi ; c’est, ô fenêtre,
que tu la rends presque éternelle.

Tous les hasards sont abolis. L’être
se tient au milieu de l’amour,
avec ce peu d’espace autour
dont on est maître.

(Rainer Maria Rilke)

§

2 Versões de Maria Gabriela Llansol, no livro Frutos e apontamentos.

a) Em Vergéis:

I

Janela — o teu nome lembra geometria!
Não és tu essa forma simplicíssima
que, sem forçar, circunscreve
a nossa vida desmedida?

A mulher que amamos nunca foi tão bela
como que quando no-la mostras a surgir
do teu enquadramento! Ó janela,
quase que a tornas eterna. A ela.

Todos os acasos são suspendidos. O ente
amado, centrado no amor, só
tem, em seu redor, esse quase nada de espaço
de que somos donos e senhores.

b) Em As janelas: [é o mesmo poema, mas a tradução muda apenas na primeira estrofe]

III

É verdade, janela, que és a forma
Simplicíssima da nossa geometria,
E que, sem tensão, circunscreves
A amplidão da nossa vida?

A mulher que amamos nunca foi tão bela
como que quando no-la mostras a surgir
do teu enquadramento! Ó janela,
quase que a tornas eterna. A ela.

Todos os acasos são suspendidos. O ente
amado, centrado no amor, só
tem, em seu redor, esse quase nada de espaço
de que somos donos e senhores.

§

Versão de Fernando Santoro, no livro Jardins.

I

Não és tu a nossa geometria,
janela, tão simples forma
que sem esforço delimita
Nossa vida enorme?

Aquela a quem se ama nunca é tão bela
como quando entre em cena
enquadrada por ti; é que, ó janela,
tu quase a tornas eterna.

Todo acaso é abolido. O ser
permanece no meio do amor,
com este pouco espaço ao redor
onde nos cabe o poder.

§

Versão de Carlos R. Monteiro de Andrade, publicada num artigo online, na “Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo”

Não és tu nossa geometria,
janela, tão simples forma
que sem esforço delimita
nossa vida enorme?

Aquela a quem se ama nunca é tão bela
como quando a vemos surgir
enquadrada por ti; é que, ó janela,
tu a tornas quase eterna.

Todos os acasos são abolidos. O ser
permanece no meio do amor,
com este pouco espaço ao redor
do qual se é senhor.

§

Versão de Guilherme Gontijo Flores, no livro As janelas, seguida de poemas em prosa franceses

Não és a nossa geometria,
janela, tão uniforme
que fácil circunscrevia
nossa vida enorme?

Quem amamos nunca é mais bela
do que se a vemos aparecer na
tua bancada, quase eterna
em teu enquadramento, ó janela.

Todo o acaso é abolido. O ser
se insere no centro do amor,
sem muito espaço ao seu redor,
onde se pode vencer.

§

Versão de William Zeytounlian, inédita

Você não é nossa geometria,
janela, singela e uniforme
que de pronto conteria
a nossa vida enorme?

Nunca a amada é tão bela
do que quando vem aparecer
enquadrada só por você;
que a faz parecer eterna.

Todo acaso é abolido.
O ser vem ao cerne do amor,
com o pouco espaço ao redor
sobre o qual tem domínio

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poesia, tradução

“The typewriter revolution”, de D. J. Enright

enright foto

Dennis Joseph Enright (1920-2002) foi dessas figuras que produziram muito: professor, ensaísta, romancista, poeta, etc.  Na poesia, ele participou do movimento inglês autointitulado The Movement, para o qual fez em 1955 uma primeira antologia, Poets of the 1950’s. Um de seus trabalhos mais famosos é The typewriter revolution and other poems, de 1971, donde tiramos o poema abaixo e traduzimos.

Trata-se de um experimento no limite da tipografia, em que desvios ortográficos apontam simultaneamente para a disposição física do teclado, sugerindo erros criativos (crating, em vez de creating), enquanto possibilidades sonoras também se desdobram (TAB or not TAB para o famoso to be or not to be).

Guilherme Gontijo Flores & Daniel Martineschen

 

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