Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. IV

Billie Holiday
Billie Holiday

FENTON JOHNSON

Fenton Johnson (1888-1958), nascido em Chicago, era, além de poeta, educador, contista e editor, e foi um dos pioneiros e grandes inspiradores do Harlem Renaissance, embora sua poesia, talvez pelo tom irônico presente em boa parte dela, não costume ser relacionada hoje entre as principais do movimento.

The banjo player

There is music in me, the music of a peasant people.

I wander through the levee, picking my banjo and singing my songs of the cabin and the field. At the Last Chance Saloon I am welcome as the violets in March; there is always food and drink for me there, and the dimes of those who love honest music. Behind the railroad tracks the little children clap their hands and love as they love Kris Kringle.

But I fear that I am a failure. Last night a woman called me a troubadour.

What is a troubadour?

O tocador de banjo

Há em mim música, a música da gente do campo.

Eu vagueio pelo molhe, levando meu banjo e cantando minhas canções da cabana e do campo. No Last Chance Saloon sou recebido como as violetas de março; sempre tem comida e bebida para mim lá, e as moedas dos que amam música honesta. Atrás dos trilhos do trem as criancinhas batem as mãos e amam do jeito que elas amam Papai Noel.

Mas tenho medo de ser um fracassado. Noite passada uma mulher me chamou de trovador.

O que é um trovador?

§

GEORGIA DOUGLAS JOHNSON

Georgia Blanche Douglas Camp Johnson (1880-1966), foi poeta e dramaturga. Ela Nasceu em Atlanta, na Geórgia, e fez parte do Harlem Renaissance mais ou menos à distância, pois como seu marido (que estava longe de incentivar sua poesia) fosse um funcionário federal em Washington, era nessa cidade que ela residia. Georgia passou a se dedicar mais à escrita apenas após a morte dele, em 1925. Mesmo assim, com dois filhos para criar, ela pouco viajava, o que não impediu que sua casa se tornasse uma espécie de filial do movimento em Washington, ponto de encontro dos artistas quando viajavam à capital federal.

Black Woman

Don’t knock at my door, little child,
I cannot let you in,
You know not what a world this is
Of cruelty and sin.
Wait in the still eternity
Until I come to you,
The world is cruel, cruel, child,
I cannot let you in!

Don’t knock at my heart, little one,
I cannot bear the pain
Of turning deaf-ear to your call
Time and time again!
You do not know the monster men
Inhabiting the earth,
Be still, be still, my precious child,
I must not give you birth!

Mulher negra

Não bata na minha porta, criança,
       Eu não posso deixá-la entrar,
Você não sabe nada do que é o mundo
       Da crueldade e do pecado.
Aguarde na imóvel eternidade
       Até que eu vá até você,
O mundo é cruel, cruel, criança,
       Eu não posso deixá-la entrar!

Não bata no meu coração, pequena,
       Eu não posso suportar a dor
De me fazer de surda aos seus chamados
       Uma vez, e outra e outra!
Você não conhece os homens monstruosos
       Que habitam a Terra,
Fique quieta, fique quieta, minha criança preciosa,
       Eu não devo lhe dar à luz!

§

 

HELENE JOHNSON

Helene Johnson (1906-1995), nascida em Boston, estudou na Universidade Columbia e foi uma das poetas de maior destaque do movimento, nas décadas de 20 e 30, ganhando prêmios e resenhas elogiosas, inclusive de revistas do mainstream, como a Vanity Fair. Depois que se casou, porém, em 1937, ela parou de publicar, passando a escrever (um poema por dia, até a morte) apenas para si mesma.

My Race

Ah my race,
Hungry race,
Throbbing and young—
Ah, my race,
Wonder race,
Sobbing with song—
Ah, my race,
Laughing race,
Careless in mirth—
Ah, my veiled
Unformed race,
Fumbling in birth.

Minha Raça

Ah, minha raça,
Faminta raça,
Maltratada e jovem –
Ah, minha raça,
Admirável raça
Soluçante com música –
Ah, minha raça.
Gargalhante raça,
Em jovialidade descuidada –
Ah, minha dissimulada
Amorfa raça,
Desajeitada por nascença.

Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. III

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WARING CUNEY

William Waring Cuney (1906-1976) foi um dos poetas mais refinados do Harlem Renaissance, mas sua temática, “decadentista”, ecoando o romantismo europeu do século anterior, era provavelmente a menos claramente identificada com uma afirmação negra. Talvez por isso ele seja, hoje, um dos nomes menos lembrados do movimento.

The death bed

All the time they were praying
He watched the shadow of a tree
Flicker on the wall.

There is no need of prayer,
He said,
No need at all.

The kin-folk thought it strange
That he should ask them from a dying bed.
But they left all in a row
And it seemed to ease him
To see them go.

There were some who kept on praying
In a room across the hall
And some who listened to the breeze
That made the shadows waver
On the wall

He tried his nerve
On a song he knew
And made an empty note
That might have come,
From a bird’s harsh throat.

And all the time it worried him
That they were in there praying
And all the time he wondered
What it was they could be saying.

O leito de morte

Por todo o tempo em que eles oraram
Ele olhou para a sombra de uma árvore
Refletida na parede.

As orações não são necessárias,
Ele disse,
Não mesmo.

A parentada achou estranho
Que ele lhes pedisse de um leito de morte.
Mas todos eles saíram em fila
E pareceu acalmá-lo
Vê-los sair.

Houve alguns que continuaram a orar
No quarto vizinho
E alguns que ficaram ouvindo a brisa
Que faziam as sombras balançarem
Na parede.

Ele enfrentou o medo
Com uma canção que conhecia
E criou uma nota vazia
Que deve ter vindo,
Da áspera garganta de um pássaro.

E por todo o tempo ele se preocupou
Que eles estivessem ali, orando
E por todo tempo ele pensou
O que é que eles poderiam estar dizendo.

§

GWENDOLYN BENNETT

Gwendolyn Bennetta Bennett (1902-1981) nasceu no Texas, onde seus pais eram professores em uma reserva indígena. Mais conhecida como contista, Bennett foi, no entanto, uma consumada poeta, de versos fortes e diretos.

Hatred

I shall hate you
Like a dart of singing steel
Shot through still air
At even-tide.
Or solemnly
As pines are sober
When they stand etched
Against the sky.
Hating you shall be a game
Played with cool hands
And slim fingers.
Your heart will yearn
For the lonely splendor
Of the pine tree;
While rekindled fires
In my eyes
Shall wound you like swift arrows.
Memory will lay its hands
Upon your breast
And you will understand
My hatred.

Ódio

Eu devo odiar você
Como um dardo de aço cantante
Voando pelo ar imóvel
No entardecer.
Ou solenemente
Como pinheiros que são sóbrios
Quando eles estão gravados
Contra o céu.
Odiar você deverá ser um jogo
Jogado com mãos frias
E dedos delgados.
Seu coração irá se compadecer
Do solitário esplendor
Do pinheiro;
Enquanto fogos reavivados
Em meus olhos
Deverão feri-lo como flechas ligeiras.
A memória repousará as mãos
Sobre o seu peito
E você irá compreender
O meu ódio.

§

JOSEPH S. COTTER

Jospeh Seamon Cotter (1861-1949), nascido no sul bem no início da Guerra da Secessão, de família muito pobre, não teve vida fácil e só conseguiu ter educação formal a partir dos 22 anos de idade. Foi professor e é hoje um dos nomes menos lembrados do Harlem Renaissance, embora seja difícil entender o porquê.

The wayside well

A fancy halts my feet at the way-side well.

It is not to drink, for they say the water is brackish.

It is not to tryst, for a heart at the mile’s-end beckons me on.

It is not to rest, for what feet could be weary when a heart at the mile’s-end keeps time with their tread?

It is not to muse, for the heart at the mile’s-end is food for my being.

I will question the well for my secret by dropping a pebble into it.

Ah, it is dry.

Strike lightning to the road, my feet, for hearts are like wells. You may not know they are dry ‘til you question their depths.

Fancies clog the way to heaven, and saints miss their crowns.

O poço na beira da estrada

Um desejo interrompe meu passo junto ao poço da beira da estrada.

Não é de beber, pois dizem que a água é salobra.

Não é de romance, pois um coração no fim da estrada me chama.

Não é de descansar, pois que pés poderiam se cansar quando um coração no fim da estrada marca o tempo com seus passos?

Não é para meditar, porque o coração no fim da estrada é alimento para o meu ser.

Eu vou perguntar ao poço sobre meu segredo jogando uma pedrinha dentro dele.

Ah, está seco.

Ataco ligeiro a estrada com meus pés, pois corações são como poços. Você não sabe que eles estão secos até que queira saber sobre o que eles têm no fundo.

Desejos bloqueiam o caminho para o paraíso, e santos perdem suas coroas.

Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. IΙ

"Nightlife", por Archibald John Motley Jr.
“Nightlife”, por Archibald John Motley Jr.

JAMES WELDON JOHNSON

James Weldon Johnson (1871-1938), logrou o paradoxo de, sendo ateu, produzir uma poesia extremamente carregada da religiosidade (e da musicalidade) dos negros do sul. Ele foi também um pioneiro no rompimento de barreiras do universo branco: foi cônsul, nomeado por Theodore Roosevelt, na Venezuela e na Nicarágua, e o primeiro negro a ser aceito como professor na Universidade de Nova York.

The color sergeant
(On an incident at the Battle of San Juan Hill)

Under a burning tropic sun,
With comrades around him lying,
A trooper of the sable Tenth
Lay wounded, bleeding, dying.

First in the charge up the fort-crowned hill,
His company’s guidon bearing,
He had rushed where the leaden hail fell fast,
Not death nor danger fearing.

He fell in the front where the fight grew fierce,
Still faithful in life’s last labor;
Black though his skin, yet his heart as true
As the steel of his blood-stained saber.

And while the battle around him rolled,
Like the roar of a sullen breaker,
He closed his eyes on the bloody scene,
And presented arms to his Maker.

There he lay, without honor or rank,
But, still, in a grim-like beauty;
Despised of men for his humble race,
Yet true, in death, to his duty.

 O sargento de cor
(Sobre um fato ocorrido na Batalha da Colina de San Juan)

Sob um fervente sol tropical,
Com camaradas caindo em volta dele,
Um soldado do Décimo dos Búfalos
Jaz ferido, sangrando, morrendo.

Primeiro na carga contra o forte da colina,
A bandeira de sua companhia levando,
Ele avançou para onde a metralha caía rápida,
Sem a morte nem o perigo temendo.

Ele caiu no front onde a luta foi mais feroz,
Sempre confiante no serviço derradeiro;
Negro em sua pele, e em seu coração tão verdadeiro
quanto o aço de seu sabre, de sangue manchado.

E enquanto a batalha em volta dele prosseguia,
Como o rugido de quem rompe com o mau humor,
Ele fechou seus olhos diante da sangrenta cena,
E apresentou armas ao seu Criador.

Ali ele jaz, sem honras ou patente,
Mas, ainda assim, em uma inflexível beleza do ser:
Desprezado pelos homens por sua humilde raça,
Mas dedicado, na morte, ao seu dever.

§

ANNE SPENCER

A poesia da sulista Anne Spencer (1882-1975), mostra, com frequência, uma forte marca feminista, mas que está longe de ser simplista ou panfletária. Considerada como um dos maiores talentos da Harlem Renaissance, ela foi também uma agregadora, e sua casa foi um dos principais pontos de encontro dos membros do movimento.

Lady, Lady

Lady, Lady, I saw your face,
Dark as night withholding a star…
The chisel fell, or it might have been
You had borne so long the yoke of men.

Lady, Lady, I saw your hands,
Twisted, awry, like crumpled roots,
Bleached poor white in a sudsy tub,
Wrinkled and drawn from your rub-a-dub.

Lady, Lady, I saw your heart,
And altared there in its darksome place
Were the tongues of flame the ancient knew,
Where the good God sits to spangle through.

Mulher, Mulher

Mulher, mulher, eu vi o seu rosto,
Negro como noite escondendo uma estrela…
Caiu o cinzel, ou poderia ter caído
Você carregou por tanto tempo a canga dos homens.

Mulher, mulher, eu vi as suas mãos,
Deformadas, tortas, como uma explosão de raízes,
O pobre branco lavado num tanque ensaboado,
Enrugado e arrancado da sua canção de ninar.

Mulher, mulher, eu vi o seu coração,
E o pus naquele lugar escuro do altar
Eram as línguas de fogo que os antigos sabiam,
Onde o bom Deus se senta para espalhar centelhas.

§

CLAUDE McKAY

O jamaicano radicado em Nova York Claude McKay (1889-1948) foi um dos principais inspiradores do Harlem Renaissance e um dos poetas mais claramente identificados com a questão racial e a ancestralidade africana.

The tropics in New York

Bananas ripe and green, and ginger-root,
Cocoa in pods and alligator pears,
And tangerines and mangoes and grape fruit,
Fit for the highest prize at parish fairs,

Set in window, bringing memories
Of fruit-trees laden by low-singing rills,
And dewy dawns, and mystical blue skies
In benediction over the nun-like hills.

My eyes grew dim, and I could no more gaze;
A wave of longing through my body swept,
And, hungry for the old, familiar ways,
I turned aside and bowed my head and wept.

Os trópicos em Nova York

Bananas suculentas e verdes, e gengibre,
Cacau em cachos e abacates,
E tangerinas e mangas e toranjas,
Feitos para pegar preço alto nas feiras paroquiais,

Apoiado na janela, buscando lembranças
De árvores frutíferas trazidas por riachos serenos,
E manhãs brilhantes, e místicos céus azuis
Abençoando as colinas que pareciam freiras.

Meus olhos se turvaram, e eu não pude mais olhar;
Uma onda de saudade varreu meu corpo,
E, faminto por caminhos antigos, familiares,
Eu me voltei para o lado, abaixei minha cabeça e chorei.

Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. I

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Uma introdução

A poesia norte-americana do século XX tem quatro “movimentos”, ou “escolas” mais importantes, ou, ao menos, mais conhecidas: a Beat, a New York School, a San Francisco Renaissance e a Black Mountain. Mas, ainda que hoje menos lembrado, um outro movimento, o Harlem Renaissance, desempenhou um papel gigantesca na evolução da cena cultural dos Estados Unidos, pois foi o primeiro esforço estético, sólido e consciente, conduzido por poetas, ensaístas, romancistas e artistas negros naquele país. Normalmente dividido pela crítica em três fases (1917-1923, 1924-1926 e 1926-1935), o movimento surgiu e se frutificou a partir de três fatores principais:

Em primeiro lugar, houve a Primeira Grande Guerra. Muitos dos soldados enviados à Europa eram negros, e eles não só mataram e morreram pelo país como tiveram contato com europeus; em muitos casos, gente, na época, com mente mais arejada do que os americanos. Na volta para casa, era natural que eles exigissem um papel de maior protagonismo em todos os campos, incluindo a cultura.

Em segundo lugar, houve o fator demográfico. Há décadas as populações negras abandonavam o sul racista, subindo o Mississippi em direção a Chicago e, dali, em parte, para Nova York. Esse grande movimento migratório, como nos mostra o Harlem Renaissance, geraria mais do que “apenas” o blues, o jazz e o rock and roll…

Finalmente, eram anos de modernismo. E o modernismo, em não poucas de suas vertentes estéticas (penso logo de cara em Picasso, em Matisse, em Mário de Andrade), era sedento por enriquecer e arejar a estética ocidental com elementos exóticos. Poesia chinesa, tradições indígenas, cânticos hindus, lendas árabes, arte africana, causos sertanejos… O cânone europeu perdia sua hegemonia na pintura, na música e na literatura. Assim, no momento em que artistas negros, em Nova York, pretendiam que sua voz fosse ouvida, havia gente disposta a ouvir. E, mais importante, entusiasmada por poder publicar, divulgar e, claro, incorporar tudo o que achasse interessante naquelas novidades todas.

É claro que, passados oitenta anos desde o fim do movimento, nossa visão sobre o que se produziu naquele espaço físico e temporal não é a mesma. Alguns dos poemas que mais fizeram sucesso na época, por mais explicitamente defenderem, política e ideologicamente, a causa negra, acabaram não resistindo bem ao tempo. Mas muitas das coisas que ali se produziram, por outro lado, reverberaram não apenas na época como resistiram excepcionalmente bem aos anos e seguiram, sólidas, ocupando um espaço fundamental na cena poética norte-americana.

Reuni, para esta pequena introdução à Harlem Renaissance, um ou dois poemas de alguns dos principais nomes do movimento: Gwendolyn Bennett, Joseph S. Cotter, Waring Cuney, Countee Cullen, Langston Hughes, Fenton Johnson, Georgia Douglas Johnson, Helene Johnson, James Weldon Johnson, Claude McKay e Anne Spencer.

André Caramuru Aubert

* * *

COUNTEE CULLEN

Countee Cullen (1903-1946) foi um dos poetas do Harlem Renaissance que obtiveram mais repercussão fora do movimento, provavelmente porque sua temática, que não se furtava a abordar aspectos às vezes quase folclóricos, evocava, de certa forma, o que as pessoas em geral esperavam de um poeta negro. Não obstante, sua poesia é forte e marcante, e o julgamento cruel da passagem do tempo o manteve como um dos principais poetas do movimento.

For a lady I know

She even thinks that up in heaven
       Her class lies late and snores,

While poor black cherubs rise at seven
.       To do celestial chores

Para uma dama que eu conheço

Ela até mesmo pensa que lá em cima no céu
       Pessoas como ela dormem até tarde e roncam

Enquanto pobres querubins negros se levantam às sete
       Para dar conta das tarefas celestiais.

Incident
for Eric Walrond

Once riding in old Baltimore,
       Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
       Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
       And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
       His tongue, and called me, “Nigger.”

I saw the whole of Baltimore
       From May until December;
Of all the things that happened there
       That’s all that I remember.

Incidente
para Eric Walrond

Certa vez, vagando pela velha Baltimore,
       O coração repleto, a cabeça repleta, de alegria,
Eu vi um baltimoreano
       Olhando diretamente para mim.

Eu tinha oito anos e era bem pequeno,
       E ele não era nem um pouco maior
E então eu sorri, mas ele tirou a língua para
       Fora, e me chamou de “Crioulo.”

Eu conheci Baltimore inteira
       De maio até dezembro.
De tudo o que aconteceu lá
       Isso é tudo de que eu me lembro.

§

LANGSTON HUGHES

James Mercer Langston Hughes (1902-1967), de poesia inventiva e lírica, é hoje, provavelmente, o nome mais conhecido do Harlem Renaissance. Nascido no Missouri, foi militante comunista e também ensaísta, romancista e dramaturgo.

The Negro speaks of rivers

I’ve known rivers:
       I’ve known rivers ancient as the world and older than the flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln went down to New Orleans, and I’ve seen its muddy bosom turn all golden in the sunset.

I’ve know rivers:
       Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like rivers.

O Negro fala de rios

Eu conheci rios:
       Eu conheci rios tão antigos quanto o mundo e mais velhos que o sangue que corre nas veias humanas.

Minha alma se tornou profunda como os rios.

Eu me banhei no Eufrates quando as auroras eram jovens.
Eu ergui minha cabana perto do Congo e ela embalou meu sono.
Eu observei o Nilo e ergui as pirâmides acima dele.
Eu ouvi as canções do Mississippi quando Abe Lincoln foi até New Orleans, e eu vi o seu âmago barrento ficar dourado ao pôr do sol.

Eu conheci rios:
       Antigos, escuros rios.

Minha alma se tornou profunda como rios.

Elevator Boy

I got a job now
Runnin’ an elevator
In the Dennison Hotel in Jersey,
Job aint no good though.
No money around.
       Jobs are just chances
       Like everything else.
       Maybe a little luck now,
       Maybe not.
       Maybe a good job sometimes:
       Step out o’ the barrel, boy.
Two new suits an’
A woman to sleep with.
       Maybe no luck for a long time.
       Only the elevators
       Goin’ up an’ down,

       Up an’ down,
       Or somebody else’s shoes
       To shine,
       Or greasy pots in a dirty kitchen.
I been runnin’ this
Elevator too long.
Guess I’ll quit now.

Ascensorista

Eu consegui um emprego
Conduzo um elevador
No Hotel Dennison em Jersey
Mas o trabalho não é muito bom.
Não rola grana.
       Empregos são apenas chances
       Como todo o resto.
       De repente você tem sorte
       De repente não.
       De repente um bom emprego às vezes:
       Saia fora do caminho, garoto.
Dois novos paletós e
uma mulher com quem dormir.
       De repente sem sorte por muito tempo.
       Só os elevadores
       Indo pra cima, indo pra baixo,

       Pra cima e pra baixo,
       Ou os sapatos de alguém
       Para engraxar,
       Ou panelas gordurentas numa cozinha suja.
Eu tenho conduzido este
Elevador por muito tempo.
Acho que agora eu vou me mandar.