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Beatriz Bastos: 5 poemas de Hilda Hilst em tradução inglesa

hilda-hilstHilda Hilst é uma poeta que dispensa apresentações – fato, claro, que não me isenta da obrigação de dizer algumas palavras introdutórias, no entanto. Nascida em Jaú em 1930, ela estudou direito na Universidade de São Paulo e publicou seu primeiro livro, Presságio, em 1950.  Mas é a partir da década de 60 (quando abandona a vida movimentada da cidade pela sua bucólica Casa do Sol) que ela floresceu e se afirmou como uma das maiores vozes da literatura brasileira do século XX, publicando diversos volumes de poesia, além de teatro e, a partir de 1970, prosa também, com o experimental Fluxo-Floema. Só de poesia, conto 18 volumes em sua obra (mais 2 coletâneas), são eles: Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1959), Ode fragmentária (1961), Sete cantos do poeta para o anjo (1962), Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), Da Morte. Odes mínimas (1980), Cantares de perda e predileção (1980), Poemas malditos, gozosos e devotos (1984), Sobre a tua grande face (1986), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Do desejo (1992), Bufólicas (1992), Cantares do sem nome e de partidas (1995) e Do amor (1999). Ela morreu em 2004, e desde então sua Casa do Sol vem sido cuidada pelo pessoal do Instituto Hilda Hilst, encarregado de preservar a memória da poeta.

Como fica evidente já desde os títulos de seus volumes inclusive, o amor, o desejo e o sexo são temas recorrentes de sua obra poética, e, apesar de ela ter tido pouca circulação a princípio, com volumes em tiragens pequenas, eu arriscaria dizer que o seu impacto sobre a nossa poesia foi grande o bastante para que boa parte das tentativas hoje ainda de se abordar essa temática em português de um modo ou de outro acabe por esbarrar na poética hilstiana, consciente ou inconscientemente.

Hilda Hilst foi traduzida para línguas como o francês, o inglês, o alemão e o italiano (para uma referência dos títulos, conferir aqui). No entanto, parece-me que os tradutores e editores estrangeiros têm uma preferência pela sua obra em prosa, particularmente a da sua fase da “bandalheira”, como é conhecida, quando Hilda, nos anos 90, farta de não ser lida, decidiu escrever romances absurdamente pornográficos (O Caderno Rosa de Lori Lamby, por exemplo, relata as experiências sexuais da protagonista, que tem 8 anos de idade) numa tentativa de, simultaneamente, criticar o mercado editorial brasileiro e chamar uma atenção que a sua poesia não estava conseguindo atrair – um objetivo que ela, de fato, realizou.

Felizmente, porém, há uma poeta e tradutora daqui do Brasil mesmo que vem fazendo um trabalho interessantíssimo de tradução da poesia da Hilda para o inglês. Seu nome é Beatriz Bastos, nascida no Rio de Janeiro (1979) e autora de 4 livros – Areia (2003), Flor do sal (2005) Pandora – Fósforos de segurança (2006) e Da Ilha (2009). Esbarrei em sua tese de doutorado por acaso outro dia, intitulada Um Corpo a Corpo com a Poesia: Traduzindo Hilda Hilst e Adília Lopes, orientada pelo também poeta Paulo Henriques Britto (PUC/RJ), e, como é uma pena confinar um trabalho tão importante desses aos corredores da academia, gostaria de compartilhar algumas dessas traduções com os nossos leitores do escamandro.

São 5 poemas, todos retirados de Júbilo, memória, noviciado da paixão. Dentre esses cinco, dois (os dois primeiros aqui) fazem parte da série “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé. De Ariana para Dioniso”, famosa por ter sido musicada por Zeca Baleiro. Como comenta o poeta Ricardo Domeneck na revista Modo de Usar & Co., uma das influências sobre a poética da Hilda foi Catulo, e, de fato, isso transparece nesse ciclo de poemas, quando Hilda se vale do recurso clássico (remetendo, em nossa referência mais direta, ao arcadismo brasileiro, e, de lá, à poesia latina) de utilizar pseudônimos para representar as situações e os topói também clássicos da poesia amorosa. É claro, no entanto, que o modo como Hilda faz isso é absolutamente moderno. Na tradução para o inglês de Beatriz Bastos, as soluções que a tradutora encontra para reproduzir o efeito sintático dos versos de Hilda se aproximam muito, na minha opinião, do que faz e. e. cummings (mas sem o trabalho gráfico mais imediatamente reconhecível de cummings, isto é, o que faz com que a semelhança não seja tão óbvia).

Sem mais delongas, então, seguem os poemas com suas traduções para o inglês. Quem quiser conferir os pormenores das justificativas por trás das soluções da tradutora pode consultar o capítulo 4 de sua tese, clicando aqui. Essas traduções também foram publicadas na edição de janeiro de 2012 da revista literária estrangeira Asymptote, que pode ser conferida clicando aqui.

P.S: temos outras duas postagens aqui no escamandro com poemas em português traduzidos para o inglês: uma sobre as traduções feitas por Elizabeth Bishop e outra com o poema “O Velho Chico”, de Raimundo Carvalho.

Adriano Scandolara

          

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar a tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

           

It is as it should be, Dionysus: do not come
Voice and wind only
Of the out there

Supposing alone
That if you were inside

This important voice, this wind
of the branches out there

Would never reach me. Absorbed
I would listen
To the essence of your song. Do not come, Dionysus,
For it is better to dream your roughness
And every night, savour victory anew
Thinking: tomorrow, yes, you will come
And tomorrow will be a time of plenty:
Every night, I Ariana, making ready
Fragrance and body. And a verse every night
Unfolding from the wisdom of your absence.

           

           

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio,
Se me amas, podes dizer que não. Pouco me importa
Ser nada à tua volta, sombra, coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã. A mim me importa,
Dionísio, o que dizes deitado, ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor
E no meu verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor.

           

When Beatrice and Cayanna ask you, Dionysus,
If you love me, you may say you love me not.
It little matters to me
Being nothing around you, a shadow, tattered stuff
In the judgement of your mother and sister. What matters to me,
Dionysus, is what you say in bed, to my ear
And what you say can not be sung
Because they are shameless, raging words
And in my verse they would sound wrong

And in my room love is the word.

           

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso
Distanciado
Dos teus livros políticos
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

           

I smile when I wonder
Where in your room
You keep my verse.
Away from your
Political books?
In the first drawer
Close to the window?
Do you smile when you read
Or are you tired of seeing
Such abandon
Amorous spark
On my ripened face?
Do I seem beautiful
Or am I to you
Too much of a poet, perhaps,
And not serious enough?
What does the man think
Of the poet? That there’s no truth
In my drunkenness
And that you prefer
A friend more peaceful
And less adventurous?
That you simply cannot
Keep in your room
Worldly traces
Of my passionate words?
Do you see me as mad?
Do you see me as pure?
Do you see me as young?

Or is it real
That you never knew me?

           

           

Se for possível, manda-me dizer
– É lua cheia, a casa está vazia. –
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
– É lua nova –
E revestida de luz te volto a ver.

           

Send me word, if you can,
“The moon is full, the house is clear.”
Send me word, and paradise
Shall be nearer, and your uncertain face
Shall seem more recent.
Send for me if your day
Is as long as your night. If it’s true
Without me you see nothing but monotony.
If you remember the gleam of tides
Some pale red fish
In certain seas
And my wet feet, send me word:
“It’s a moonless night”
And dressed in light, I come to see you again.

           

Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo.

Também isso te devo.

           

This mournful moon, this unease
Inner turbulence, lagoon,
Inside the solitude, a dying body,
All this I owe to you. Such immense
Plans and future, ships,
Walls of ivory, words full
Always consented to. It would be December.
A jade horse beneath the waters
A double transparency, a line in mid-air
All these things at your fingertips
All undone through the portal of time
Silent and blue. Mornings of glass,
Wind, a hollow soul, a sun I can not see

This, too, I owe to you.

           

(poemas de Hilda Hilst, traduções para o inglês de Beatriz Bastos)

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alejandra pizarnik: un signo en tu sombra (1955)

o amor, que com creeley, como visto no post abaixo, assume variadas formas e atos, e pelas nossas próprias mãos veste trapos ou ilustres mantos, torna-se sublime ou sujo ou vulgar ou natural, poeticamente ou não, o amor, enfim, encontra em pizarnik uma realização obscurecida e angustiante. não à toa os leitores de hilda hilst se encontrarão bastante familiarizados com essa poesia do amor ao outro, do vazio, da perda, do escuro e, não devemos esquecer, de uma esperança gasta e envelhecida. esses mesmos leitores reconhecerão o surreal, a subjetividade que flutua e deságua em sentimentos que às vezes, de tão pouco claros, são imediatamente reconhecíveis àquele que identifica em si mesmo o mínimo tom agoniado de uma alma em desespero na busca do toque amado/amoroso. portanto, nessa pequena coleção de seis poemas intutulada ‘un signo en tu sombra’, veremos uma pizarnik bastante próxima ainda da que vimos em ‘la tierra más ajena’ (obra que traduzi integralmente e postei em duas partes neste blog; clique para ler a pt. 1 e a pt. 2). sendo do mesmo ano, estilisticamente ainda vemos a mesma pizarnik, embora tematicamente vejamos uma poesia bastante mais concentrada em uma única temática: o TU. em ‘un signo en tu sombra’, pizarnik dedica toda a sua poesia a esse outro ausente, ansiando pelo toque, dualisticamente comparando a sujeira de seu amor terreno ao limpo amor celeste, frequentemente se utilizando de imagens relativas à noite e à fumaça, ao vinho, aos barcos e ao borbulhar das águas. o silêncio, como no primeiro livro, continua incomodamente presente, como o amor que espera e “chora, com seu coração por dentro atado” (argonáuticas, 1.274) de tamanho dano que sofreu. assim, como uma apresentação a este livro de alejandra pizarnik, publico como um tipo de epígrafe o poema de hilda hilst intitulado ‘roteiro do silêncio’, da obra homônima publicada em 1959.

vinicius ferreira barth


hilda hilst – roteiro do silêncio

Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

gabriel pacheco

arte por: gabriel pacheco (2011) – link

ALEJANDRA PIZARNIK
UM SIGNO EM TUA SOMBRA (1955)


IR-ME EM UM BARCO NEGRO

as sombras amparam a fumaça veloz que
dança na trama
deste festival silencioso
as sombras escondem vários pontos escuros que
giram e giram entre teus olhos
minha pena retarda o TU ofegante
minha têmpora pulsa mil vezes TEU nome
se teus olhos pudessem vir!
aqui sim amor aqui
entre as sombras a fumaça e a dança
entre as sombras o escuro e eu

CÉU

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de uma ducha gelada)

as nuvens se movem

penso em teu rosto e em ti e em tuas mãos e
e no ruído de tua pena e em ti
mas teu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo aderido a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro de tela adesiva
sigo caminhando

um coquetel mental ladrilha minha fronte
não sei se pensar no céu ou em ti
e se jogasse uma moeda? (cara tu coroa céu)
não! teu ser não se arrisca e
eu te desejo te de-se-jo!
céu pedaço de cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos de meu amor

pensemos nos dois

os dois tu + céu = minhas galopantes sensações
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes

longe

sim amor estás longe como o mosquito
sim! esse que persegue a uma mosquita junto
ao farol amarelosujo que vigia sob o
céu negrolimpo esta noite angustiosa
cheia de dualismos

VOU CAINDO

1

o vinho é como um choro desolado que
umedece minha juventude frente a teus beijos que
outra engole
o vinho é o elixir que pulveriza os
pestilentos desejos de
meu corpo que
esvoaça gemendo frente à tua efígie de
sombra estrovinhada

2

o vinho se aclara misturado às minhas
lágrimas tão mudas
teu rosto de cigano enfarinhado aparece em
cada borbulho
minha garganta é um arquipélago maldito
minha fronte a tampa de um poço imundo
desejar-te amor e enfrentar tua altura com
bregas angústias!

SÓ UM AMOR

meu amor se amplia.
é um paraquedas perfeito.
é um clique que se exala e
seu peito se faz imenso.
meu amor não ruge
não clama
não roga
não ri.
seu corpo é um olho.
sua pele um mapamundi.
minhas palavras perfuram o
último sinal de seu nome.
meus beijos são enguias que ele
se ufana em deixar resvalar.
minhas carícias um jorro reminiscente de
música sobre fontes de Roma.
ninguém pôde fugir ainda de seu território
anímico.
não há rotas nem dobras nem insetos.
tudo é tão limpo que minhas lágrimas se
sublevam.
minha criação é uma pantomimice junto a
sua loura carroceria.
nestes momentos o tinteiro alça voo e
se alinha até os limites inacabáveis de
mosquitos fazendo amor.
soa o fatídico som. já não voo.
é meu amor que se amplia.

ALÉM DO ESQUECIMENTO

alguma vez de uma borda da lua
verás cair os beijos que brilham em mim
as sombras sorrirão altivas
brilhando o segredo que geme vagando
virão as folhas impávidas que
algum dia foram o que meus olhos
virão as murchas fragrâncias que
inatas descenderam do alado ser
virão as rubras alegrias que
borbulham intensas no sol que
redondeia as harmonias equidistantes
na fumaça dançante do cachimbo de meu amor.

DISTÂNCIA

meu ser repleto de barcos brancos.
meu ser rebentando sentires.
toda eu sob as reminiscências de
teus olhos.
quero destruir o comichão de tuas
pestanas.
quero evitar a inquietude de teus
lábios.
por que tua visão fantasmagórica re-
dondeia os cálices
destas horas?

(traduções de vinicius ferreira barth)

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poesia, tradução

Um micro-panorama de poetas mulheres

Aproveitando a data do dia da mulher, nós do escamandro gostaríamos de compartilhar alguns poemas de nossas poetas mulheres favoritas. A ideia não é fazer um post para elaborar um comentário mais a fundo agora (o que seria, aliás, será feito melhor no futuro, com maior atenção… eu mesmo estava tentando uma tradução da Bishop, mas a tarefa acabou sendo mais difícil do que eu pensava), mas demonstrar nossa apreciação pela presença de mulheres na poesia. Apesar das raízes da lírica repousarem em Safo, o gênero acabou dominado por homens a ponto de chegar a se tornar algo separado, criando-se, assim, possivelmente como golpe de marketing, o gênero da “escrita feminina”. Pois não é assim que Bishop se via, e não é assim que nós vemos: as mulheres representadas aqui são, antes de tudo, autoras de excelente Poesia, assim, com P maiúsculo, e por isso são dignas de reconhecimento.

E vocês, nossos leitores e leitoras, se sentirem a falta de alguma autora (e com certeza falta gente aqui), sintam-se livres para contribuir nos comentários abaixo.

 

 

Emily Dickinson nasceu em 1830, morreu em 1886, e nesse tempo viveu uma vida absolutamente excêntrica e reclusa. Sua poesia foi escrita nessa reclusão e publicada muito tardiamente, chocando os editores pela versificação simples (predominância quase exclusiva do metro de balada inglês) e pela sintaxe estranha e cheia de travessões.

11

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!

(tradução de Augusto de Campos, Não Sou Ninguém, )

 

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é algo famosa por sua relação com o nosso país, tendo vindo ao Brasil e tido contato com poesia nossa como a de Manuel Bandeira, que conheceu pessoalmente, Drummond e até mesmo de nossas canções populares, que ela traduziu. Também famoso foi seu caso homossexual com a brasileira Lota de Macedo Soares, que teve um desfecho trágico. Sua obra é distinta por ser concisa, cabendo inteira em um único volume.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas)

 

Sylvia Plath (1932 – 1963), a autora do famoso romance The Bell Jar é conhecida por ter sido casada com o também poeta Ted Hughes e por ter lutado com a depressão durante toda sua brevíssima vida. Sua poesia partilha da tendência confessional do período, e assim, não surpreende que predomine as temáticas de morte e do suicídio.

Palavras

Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho —

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, Sylvia Plath: Poemas, Illuminuras)

 

A ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska (1923 – 2012) morreu este ano. A polonesa, que viu a Segunda Guerra, o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista, nas palavras de Nelson Ascher, “mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.

Retrato de mulher

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d´água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

(tradução de Regina Przybycien, Poemas, Companhia das Letras)

 

Ingeborg Bachmann (1926-1973), poeta austríaca, doutora em filosofia, estudiosa de Heidegger e Wittgenstein. Teve um relacionamento com o poeta Paul Celan.

Uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967), Assírio & Alvim)

 

Hilda Hilst (1930 – 2004) tem uma obra extensa, entre diversos volumes de poesia, prosa e teatro, traduzida para diversas outras línguas e recentemente republicada pela editora Globo. O momento mais curioso de sua carreira foi o “adeus à literatura séria” dado nos anos 90, quando começa sua fase da “bandalheira”, marcada pela sua revolta com a falta de reconhecimento do público em geral. É nesta época em que publica Bufólicas, livro de poemas cômicos, e romances eróticos de diversas naturezas, como O Caderno Rosa de Lory Lamby e Cartas de um Sedutor.

Ária Amaríssima de um instante

SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa
Camada-transparência sobre as gentes. Vê só:
Eu não te olho com o teu olho que sabe
Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez
Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Tempo alongado onde te fizeste em viuvez.
Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto
E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso
AGORA
Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada.
Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti
Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala
E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union?
Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui?
Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo?
A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final…
Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade
O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai,
Entre o papel e eu, entre esta mesa e eu
E essa boca inteira debulhada, entre eu mesmo e aquele
Que repete Union Union, que filamento? Âncora,
Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu… que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura, que… que sim, que sim… Olha:
Diga que sim a esses da Extens Union.

(do encarte à edição de “Cadernos da Literatura Brasileira”, editado pelo Instituto Moreira Salles – São Paulo, número 8 – Outubro de 1999)

 

Claudia Roquette-Pinto, carioca, nascida em 1963, é formada em tradução literária pela PUC-RJ e publicou os volumes de poesia Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001, ganhador do Jabuti de Poesia) e Margem de Manobra (2005).

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pêlos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância     seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(de Zona de Sombra)

 

Nascida em Curitiba em 1957, Josely Vianna Baptista é estudiosa e tradutora de literatura hispano-americana. Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, 2001) e Roça Barroca (2011), em que, de maneira notável, funde seu trabalho de poeta com o estudo e tradução do mito poético da criação do mundo dos índios Mbyá-guarani.

Moradas Nômades

carunchos e cupins roem,
vorazes, a choupana de ripas

pendem do esteio ramos de trigo,
feito amuleto para celeiros cheios;
tachos esfarelam crostas de grãos moídos
e redes balançam seus esgarços,
perto do chão onde uma nódoa preta
mostra o antigo fogo

tudo abandono, e, no entanto,
lá fora o pomar semeado
para os que agora cruzam
(trouxas vazias), um
por um, os onze mil
guapuruvus

(de Roça Barroca)

 

Angélica Freitas, nascida em abril de 1973 em Pelotas – RS, tem poemas publicados em diversas antologias e em 2007 publicou seu primeiro livro Rilke Shake (Cosac Naify/7Letras). Anda a caminho de publicar um livro novo.

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

(de Rilke Shake)

 

P.S.: vale a pena conferir também os posts aqui no escamandro sobre Orides Fontela e os 3 poemas de Laura Antillano traduzidos pelo nosso Guilherme Gontijo Flores.

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