poesia, tradução

6 icebergs imaginários

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é um caso interessante, sobretudo para nós brasileiros: tendo recebido uma espécie de bolsa de viagem em 1951, ela veio ao Brasil, onde era para passar apenas 2 semanas, mas acabou ficando por 15 anos. Por aqui ela morou em Petrópolis e Ouro Preto, tendo um longo relacionamento com a arquiteta Lota de Macedo Soares e conhecendo (tanto literaria quanto pessoalmente) vários poetas brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, entre outros. Ela mesma fez traduções para o inglês – que planejo ainda apresentar aqui no blog – de poemas como “Poema de sete faces”, “Tragédia brasileira” e trechos de “Morte e vida severina” e ainda sambas e marchinhas carnavalescas.

Mas, apesar da alegria das viagens (entre a Europa, o Brasil, os EUA), sua história de vida foi bastante sofrida, com a morte do pai e a loucura da mãe, na infância, e, na idade adulta, a luta contra o alcoolismo e o suicídio de Lota em 1967. No entanto, ao contrário de tantos outros poetas de sua geração, que recorreram a um estilo altamente confessional, incluindo detalhes sórdidos de sua vida em seus poemas, Bishop ficou conhecida pelo caráter “objetivo” de sua poesia. De fato, ela raramente recorre a detalhes biográficos, exceto talvez em alguns detalhes, como a referência às três casas que ela perdeu no poema “Uma arte”, já postado aqui, (sendo elas as casas em Key West, Petrópolis e Ouro Preto) ou ao ritual do banho de xampu com Lota no terraço em Petrópolis no poema “Banho de xampu”. Sobre esse aspecto objetivo de sua poética, Paulo Henriques Britto – que traduziu cerca de 60 de seus poemas (ou seja, cerca de metade de toda a reduzida obra de Bishop) no volume O Iceberg Imaginário e outros poemas, lamentavelmente esgotado e com o preço extremamente inflacionado nos sebos – comenta que essa sua objetividade de observação deriva da influência do modernismo americano e que, nela, deriva de um “efeito do ‘interesse interiorizante’ que a guia na contemplação do mundo”.

Na minha opinião, a habilidade de Bishop repousa em um dom de romancista para captar detalhes narrativos, que ela passa a desenvolver cada vez mais a partir do 3º livro, Questões de Viagem, escrito já no Brasil. Poucos poemas seus são do tipo contemplativo-focado-no-próprio-umbigo, por assim dizer, e tendem a expor um rico mundo exterior com personagens, histórias e fundos interessantes. Vide, por exemplo, o poema “Posto de gasolina” (“Filling station”), onde as latas de óleo esso sugerem um “so, so, so” para os carros, que, em inglês, é o que se diz para se acalmar um cavalo nervoso, e esse tipo de detalhe prosaico, acredito, não seria estranho em um grande romancista americano.

O poema que compartilhamos aqui vem de seu primeiro livro, Norte e Sul, e é talvez o mais famoso (depois de “Uma arte”) e o apresentamos em 5 versões diferentes – mais o original, portanto, seis icebergs imaginários, à moda dos nossos muitos carrinhos de mão de William Carlos Williams. São traduções de Paulo Henriques Britto (retirada do volume homônimo e supracitado) e de Horácio Costa, mais uma minha e do Guilherme Gontijo Flores, daqui do escamandro, além de uma de um nome inédito por aqui que é o de Anderson Lucarezi. Lucarezi é um poeta novo, só um ano mais velho que eu, que tem poemas publicados na antologia do III Festival de Literatura da Letras/USP e muito recentemente lançou seu primeiro livro, Réquiem, pela editora Patuá. Ele também mantém o blog literário Tudo Está Dito, onde posta principalmente traduções de poemas (de Hart Crane, cummings, Jerome Rothenberg, entre outros), além de alguns poemas próprios.

Como com os carrinhos de mão de Williams, a ideia não é tentar superar-nos uns aos outros, mas de apresentar várias possibilidades da inesgotabilidade da tradução – várias facetas, talvez, cortadas por dentro.

Adriano Scandolara

The Imaginary Iceberg

We’d rather have the iceberg than the ship,
although it meant the end of travel.
Although it stood stock-still like cloudy rock
and all the sea were moving marble.
We’d rather have the iceberg than the ship;
we’d rather own this breathing plain of snow
though the ship’s sails were laid upon the sea
as the snow lies undissolved upon the water.
O solemn, floating field,
are you aware an iceberg takes repose
with you, and when it wakes may pasture on your snows?

This is a scene a sailor’d give his eyes for.
The ship’s ignored. The iceberg rises
and sinks again; its glassy pinnacles
correct elliptics in the sky.
This is a scene where he who treads the boards
is artlessly rhetorical. The curtain
is light enough to rise on finest ropes
that airy twists of snow provide.
The wits of these white peaks
spar with the sun. Its weight the iceberg dares
upon a shifting stage and stands and stares.

The iceberg cuts its facets from within.
Like jewelry from a grave
it saves itself perpetually and adorns
only itself, perhaps the snows
which so surprise us lying on the sea.
Good-bye, we say, good-bye, the ship steers off
where waves give in to one another’s waves
and clouds run in a warmer sky.
Icebergs behoove the soul
(both being self-made from elements least visible)
to see them so: fleshed, fair, erected indivisible.

Elizabeth Bishop. North & South. 1946.

O Iceberg Imaginário

    por Paulo Henriques Britto:

O iceberg nos atrai mais que o navio,
mesmo acabando com a viagem.
Mesmo pairando imóvel, nuvem pétrea,
e o mar um mármore revolto.
O iceberg nos atrai mais que o navio:
queremos esse chão vivo de neve,
mesmo comm as velas do navio tombadas
qual neve indissoluta sobre a água.
Ó calmo campo flutuante,
sabes que um iceberg dorme em ti, e em breve
vai despertar e talvez pastar na tua neve?

Esta cena um marujo daria os olhos
pra ver. Esquece-se o navio. O iceberg
sobe e desce; seus píncaros de vidro
corrigem elípticas no céu.
Este cenário empresta a quem o pisa
uma retórica fácil. O pano leve
é levantado por cordas finíssimas
de aéreas espirais de neve.
Duelo de argúcia entre as alvas agulhas
e o sol. O seu peso o iceberg enfrenta
no palco instável e incerto onde se assenta.

É por dentro que o iceberg se faceta.
Tal como jóias numa tumba
ele se salva para sempre, e adorna
só a si, talvez também as neves
que nos assombram tanto sobre o mar.
Adeus, adeus, dizemos, e o navio
segue viagem, e as ondas se sucedem,
e as nuvens buscam um céu mais quente.
O iceberg seduz a alma
(pois os dois se inventam do quase invisível)
a vê-lo assim: concreto, ereto, indivisível.

Bishop, E. O Iceberg Imaginário e outros poemas. SP: Companhia das Letras, 2001.

    por Horácio Costa:

Preferimos o iceberg ao navio,
embora isto significasse o fim da viagem.
Embora ele estivesse melancólico, como pedra de nuvem
e todo o mar em volta fosse moção de mármore.
Preferimos o iceberg ao navio;
preferimos esta planície de neve que respira,
embora as velas do navio jazessem no mar
como segue no mar sem dissolver-se a neve.
Campo flutuante, solene, perceberás
que contigo um iceberg repousa,
que a seu despertar pastará as tuas neves?

Por esta cena um marinheiro daria os olhos.
O navio é ignorado. O iceberg sobe
e afunda de novo; seus pináculos de vidro
corrigem elípticas no céu.
Quem dissimular ante esta cena parecerá
artificialmente retórico. A cortina é o suficiente leve
para levantar-se a partir dos fios invisíveis
que as volutas de neve inventam.
As centelhas destas arestas brancas
competem com as do sol. O iceberg invade
com seu peso um cenário cambiante, e pára, e observa.

Este iceberg lapida-se de dentro as faces.
Como jóias deixadas num sarcófago
preserva-se perpetuamente e só a si
enfeita; talvez também o faça a neve
que tanto nos surpreendeu à flor d’água, inteira.
Adeus, dizemos, adeus, o navio se afasta
até onde as ondas a outras ondas cedem passo
e as nuvens correm por um céu mais cálido.
Os icebergs pedem à alma
(ambos se autoproduzem com elementos pouco visíveis)
vê-los assim: corpóreos, puros, eretos, indivisíveis.

Bishop, E. Poesias. SP: Companhia das Letras, 1990.

    por Guilherme Gontijo Flores:

Melhor seria o iceberg que o navio,
mesmo que fosse o fim da viagem.
Mesmo parado feito pedra, nuvem-pedra,
num mar de mármore revolto.
Melhor seria o iceberg que o navio;
melhor é este chão de neve, vivo,
mesmo que as velas tombem sobre o mar
feito neve insoluta sobre as ondas.
Solene campo flutuante,
sabe que um iceberg dorme contigo e, em breve
quando acordar, só pasta em tua neve?

Pela cena um marujo daria seus olhos.
Ignora-se o navio. O iceberg sobe
e afunda; o píncaro de vidro
corrige elípticas no céu.
Pela cena, quem passa nesta prancha
tem retórica tosca. A leve
cortina sobe em cordas finas
criadas no ar convulso em neve.
A astúcia das agulhas brancas
confronta o sol. Seu peso, o iceberg ousa
num palco instável, então olha e pousa.

O iceberg corta as facetas que há por dentro.
Feito joias na tumba,
eternamente salva-se e adorna
somente a si, talvez à neve,
que nos surpreende sobre o mar.
Adeus, dizemos,  e o navio parte
onde as ondas dão ondas uma à outra,
e as nuvens correm para um céu mais quente.
Um iceberg cabe à alma
(os dois se inventam do menos visível),
por vê-lo assim: carnal, concreto, indivisível.

    por Adriano Scandolara:

Preferíamos o iceberg ao navio,
ainda que fosse o fim da viagem.
Ainda que imóvel, nebulosa rocha,
e o mar todo fosse ondas de mármore.
Preferíamos o iceberg ao navio;
esta planície tão viva de neve
por mais que as velas estejam ao mar
como na água a neve indissoluta.
Campo flutuante e solene,
tens ciência de que o iceberg descansa
contigo e pasta sua neve quando levanta?

Pela cena um marujo daria os olhos.
Ignorado o navio. O iceberg sobe
E afunda outra vez. Seus píncaros vítreos
corrigem elipses no céu.
Pela cena quem pisa no convés
Vira um retórico sem arte. Leve,
Sobe a cortina nas mais finas cordas
das voltas aéreas da neve.
A astúcia desses alvos cumes
enfrenta o sol. Num palco móvel, para
O iceberg, disputa seu peso e encara.

O iceberg corta suas facetas por dentro.
Como joia tumular
ele salva a si, sempre, e adorna
somente a si, talvez as neves
que tanto surpreendem sobre o mar.
Adeus, damos adeus, parte o navio
aonde as ondas a outras ondas cedem
e as nuvens correm num céu mais morno.
Icerbergs clamam à alma
(ambos são de elementos invisíveis)
que os veja assim: carnais, firmes, indivisíveis.

    por Anderson Lucarezi:

Preferimos o iceberg ao navio,
embora indique o fim da viagem.
embora seja fixo em nuvem pétrea
e o mar um mármore que é móvel.
Preferimos o iceberg ao navio;
Preferimos ar do campo nevado
embora as velas tombem sobre o mar
enquanto jaz a neve sobre as águas.
Ó solene campo flutuante,
tens noção de que junto a ti repousa um iceberg
que ao acordar poderá pastar em tuas neves?

Tal cena um marujo paga pra ver.
O navio obscuro. O iceberg sobe
e afunda de novo; seu pico vítreo
corrige as elipses céu acima.
Quem quer que pise dentro desta cena
expõe retórica reles . O pano
é leve o bastante pras finas cordas
que frágeis flocos de neve fornecem.
Todo o engenho destes lumes brancos
duela com o sol. Seu peso o iceberg enfrenta
em cima do palco instável no qual se assenta.

O iceberg corta facetas por dentro.
Tal joias que há em um jazigo
ele se salva eternamente e adorna
apenas a si, talvez as neves
que surpreendem ao jazer no mar.
dizemos adeus, o navio se afasta
onde ondas cedem a outras ondas
e nuvens correm em um céu mais morno.
Estes icebergs incumbem à alma
(ambos feitos de elementos pouco visíveis)
de assim vê-los: encorpados, indivisíveis.

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