poesia, tradução

CARPE DIEM: 28 versões + 2, por Matheus Mavericco

Existem poemas que conseguem a tremenda felicidade de cravarem uma expressão ou uma palavra na cabeça dos leitores. Nem sempre é sinal de qualidade. Veja o caso de “passar pela vida em branca nuvem”, expressão usada por nossos avós e que foi retirada de um poema de Francisco Otaviano, patrono da cadeira de número 13 na Academia Brasileira de Letras e poeta medíocre, autor, quando muito, de um soneto hamletiano vagamente interessante. Exemplo ligeiramente diverso é o de “Depois de um longo e tenebroso inverno”, segundo verso de um soneto até comovente de Luís Guimarães Júnior, onde as assonâncias conseguem pelo menos desempenhar um papel curioso ao espichar a duração do verso. Nem um nem outro, todavia, capazes de rivalizar com o que o poeta mineiro conseguiu com seus “uma pedra no meio do caminho” e “E agora, José?”.

Com carpe diem é igual. Graças ao que o Ensino Médio cobra e ao que o professor Keating sussurra no ouvido dos alunos, mesmo quem não tenha a mínima noção da amplitude poética que a expressão alcançou consegue, ainda que por alto, mensurar sua importância. E no entanto, veja o leitor que quando Horácio escreveu o poema que a imortalizou, o décimo primeiro do primeiro livro de suas Odes, ele na verdade não estava estreando no assunto. Compor um poema que versasse sobre a brevidade da vida e que a partir de determinado ponto exortasse o ouvinte a vivê-la era ideia em voga antes mesmo de Horácio, o que, em absoluto, não deve causar estranheza. Embora hoje sejamos leitores acostumados a apreciar as últimas novidades e tendências da arte, em consumir o que nos vendem como único e feito só pra nós, é preciso entender que a situação era bem diversa na literatura antiga e na literatura clássica, onde o poeta lançava mão de um arcabouço de saberes, assuntos, procedimentos e técnicas comuns a toda a inteligência de seu tempo, e, a partir daí, compunha uma obra que a um só tempo respeitasse as convenções de cada gênero e o vivificasse, não no sentido de separar a obra de tudo o que veio antes e sim no de equiparar-se com os grandes mestres, contribuindo, pelo menos, com mais um espécime ilustre e genuíno para aquele departamento.

Não espanta, portanto, que a ode de Horácio tenha sido aludida inúmeras vezes por poetas variadíssimos. Dentro do lugar-comum antes mencionado, de se falar da brevidade da existência humana e exortar a que mexamos o esqueleto, Horácio foi, como dito por Francisco Achcar, um verdadeiro campeão do gênero, ou seja, ele criou, dentro daquela convenção poética específica, um poema de altíssima qualidade e competência que se tornou ele próprio um baluarte, um monumento.

Falemos do carpe diem. Que tenha sido a expressão que caiu na boca do povo é quase que um mérito esperado, afinal de contas ela guarda toda uma concisão e um garbo que a destacam daqueloutras que, verdade seja dita, também chamam nossa atenção para o mesmo tema (por exemplo spem longam reseces). Os sentidos aplicáveis ao verbo carpere são basicamente quatro. O leitor já deve saber que ele diz respeito a aproveitar o dia, gozá-lo de forma detida ou, pra citar as formulações admiráveis de Péricles Eugênio e de Nelson Ascher, desfrutá-lo, fruí-lo. Todavia, pode dizer também colhê-lo quase como se fosse um fruto. É um sentido preferível e forte, afinal de contas adiciona delicadeza à imagem ao sugerir uma relação metafórica implícita e sutil que trata os dias como flores. Camões, num soneto admirável, fala da Primavera que se traslada para o rosto da amada, ao que, no primeiro terceto, declara que se ela não aceitar o amor oferecido, então sua beleza perderá a graça: “Se agora não quereis que quem vos ama / Possa colher o fruito destas flores”. Estas, ou seja: “boninas, lírios, rosas”, todas encontradas no rosto dela depois que a Primavera para lá se mudou.

No entanto, podemos apontar outros dois sentidos menos óbvios. Celestino Massucco, intelectual italiano que viveu a transição do século XVIII para o XIX, ao comentar o poema menciona que carpere é prender o tempo que foge. “Apanhar”, usado por Nelson Ascher em sua primeira versão, consegue fazer jus a tal sentido e àqueloutro, botânico. Um quarto, por fim, é o que foi estudado por Alfonso Traina num importante ensaio de 1986 onde discute, precisamente, a semântica do carpe diem. Aqui, o ensaísta italiano defende que carpere, saído de um campo semântico que também envolve rapere e sumere, é um processo traumático, é um prender lacerante e progressivo que vai do todo à parte, quase como se desfolhasse uma margarida. Se a parte é o dia, o todo é claramente o tempo, o que torna a conclamação horaciana, pelo fato de que pede para que nos atenhamos no instante, um modo de neutralizar a fuga do tempo invejoso, afinal de contas, como o próprio autor diz, já na enunciação o tempo escapa.

À medida que traduzia o poema e o revisava, o que fiz com muita displicência, busquei dar ênfase a este último sentido, o que o uso do verbo “destacar” deixa bem claro, afinal de contas pode ser tomado tanto no sentido de separar o dia de algo maior (o tempo) ou de lhe dar destaque. Outras opções tradutórias, é claro, demandam mais comentários, por exemplo transformar sapias, no original, em “Te experiência”: aqui eu quis manter a proximidade que saber e sabor possuem no latim, bem o que o Guilherme evidenciou pro leitor na sua segunda versão. No entanto, a partir do momento em que o carpe diem é o grande chamariz da postagem, deixo de lado todas as outras questões pertinentes a este poderosíssimo e compacto poema.

Recompilo todas as versões anteriormente postadas, acrescidas de outras que descobri, por exemplo a feita no século XVI por um anônimo com propósito didático: o autor citava um trecho do poema e fornecia em seguida a tradução literal da passagem, às vezes comentando passagens dignas de nota. (Na reprodução abaixo, cortei os trechos em latim e atualizei a grafia.) Além de recompilá-las, organizei-as cronologicamente e indiquei suas respectivas datas, adicionando, por fim, os dados bibliográficos daquelas que ou não constavam na última postagem ou que não chegaram a ser compiladas e estudadas por Francisco Achcar em seu Lírica e lugar-comum (EdUSP, 2015). Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores, que me ajudou com algumas traduções que eu não tinha encontrado.

Matheus Mavericco

* * *

Carmina 1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

§

trad. André Falcão Resende [séc. XVI]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

………….Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
………….Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão de ser, se curtas, se compridas;

………….Se o escuro Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
………….Se neste hórrido inverno,
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

………….Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
………….Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

§

versão literal anônima [séc. XVI]. Adaptado e com grafia atualizada
em: Obras de Horácio, Officina de Ioam da Costa, 1668, p. 14/15. Disponível aqui.

(…) ó amigo Leuconoe (…) vós (…) não esquadrinheis, nem queirais (…) saber, (…) que fim (…) os deuses (…) me derem, ou também (…) que fim (…) vos terão dado ((…) porque é pecado querer saber isso) (…) nem esquadrinheis saber (…) os números matemáticos (porque os babilônios inventaram a matemática) (…) para que (…) tudo o que acontecer seja melhor de sofrer ((…) ou (…) o deus Júpiter (…) vos concedeu (…) este só ano, ou inverno de vida: (…) o qual inverno (…) agora causa [?] (…) o mar Mediterrâneo (…) com as pedras postas diante, em que quebra sua fúria) (…) uma só coisa é bem que saibais[:] (…) tirar, ou beber o vinho mais velho, e delicado, e isso quer dizer derreter o vinho, po[is] que ao vinho velho, e dessecado, chamavam, (…) e com o breve espaço da vida (…) corteis (…) a comprida esperança de viver (…) em quanto falamos, (…) a idade (…) invejada de todos (…) desaparecer deixando-nos velhos (…) aproveitai-vos do dia presente, (…) que de nenhum modo se confia ao de amanhã.

§

trad. Filinto Elísio [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

§

trad. José Agostinho de Macedo [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto,
Dos Vaticínios Babilónios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os acintes da Sorte.

Ou Jove te destine mais Invernos
A cuta Idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas Rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as Taças
De doce vinho, apouca as Esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a Idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no Futuro.

§

trad. Elpino Duriense [1807]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

§

versão de Marquesa de Alorna [1820]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não procures saber, querida Irene,
Se a mim, se a ti, os Deuses concederam
Da vida um tempo próximo ou distante:
……..Não convém tal exame.

Não indagues os cálculos incertos
Que produzem horóscopos confusos;
Melhor será sofrer que descobri-los:
……..O que vier aceita.

Ou nos dê Jove invernos numerosos,
Ou neste, que do Tejo açouta as águas,
Atropos corte o fio a nossos dias,
……..Recear é fraqueza.

Gosta os fructos da Quinta do Descanso:
Para longa esperança o espaço é breve;
A idade foge enquanto discorremos:
……..Aproveita os momentos.

§

versão de Ricardo Reis [séc. XX]
vide Francisco Achcar

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
……..O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
……..É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
……..O dia, porque és ele.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos [1964]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
……..a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
……..melhor é suportar
……..tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
……..quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
……..cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
……..corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
……..Enquanto conversamos
……..foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

§

trad. Aduíno Bolívar [1964]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não queiras perquirir, Leucônoe, (é vedado)
O fim que a ti ou a mim hajam predestinado
Os deuses. Dos Caldeus nos números obscuros
Não tentes deletrear os eventos futuros,
Quanto é melhor sofrer o que há de vir! Bom prazo
De anos Jove nos dê, ou seja o último, acaso,
Este que nos parcéis da praia o mar tirreno
Quebrante, saibas coar o teu vinho e em pequeno
Espaço confinar o teu ideal grandioso.
Ainda estamos falando, e já o tempo odioso
Terá fugido… E, pois, eia, colhe este dia
Como quem no amanhã de modo algum confia…

§

tradução de Marie Helena da Rocha Pereira [1976]
em: Romana: antologia da cultura latina, 6a. ed., Guimarães, 2010.

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

§

versão de Paulo Leminski [1984]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

 

 

§

versão de Augusto de Campos [1985]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

§

trad. Augusto Peterlini [1992]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não buscarás, saber é proibido, ó Leuconôe,
Que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;
Nem mesmo os babilônios números perscrutes…
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
Quer venha a conceder apenas este último,
Que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos,
Tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
De muito longa, faz caber m curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o ia de hoje e não te fies nunca,
Um momento sequer, no dia e amanhã…

§

trad. Nelson Ascher [1994; 1ª versão]
em: Poesia Alheia, Imago, 1998, p. 62-63.

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,
os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo
da babilônia e aceita: o que há de ser, será,
quer nos dê Jove mais invernos, quer só este
que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe
teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.
Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.
Apanha o dia e não confies no amanhã.

§

trad. David Mourão-Ferreira [2003]
em: Revista Colóquio/Letras, n.º 163, Jan. 2003, p. 103.

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

§

trad. Bento Prado de Almeida Ferraz [2003]
em: Odes e epodos, Martins Fontes, 2003, p.38-39

Indagar, não indagues, Leuconói
qual seja o meu destino, qual o teu;
nem consultes os astros, como sói
o astrólogo caldeu:

não cabe ao homem desvendar arcanos!
Como é melhor sofrer quanto aconteça!
Ou te conceda Jove muitos anos,
ou, agora, os teus últimos enganos,
– prudente, o vinho côa e, mui depressa
a essa longa esperança circunscreve
a tua vida breve.

Só o presente é verdade, os mais, promessa…
O tempo, enquanto discutimos, foge:
Colhe o teu dia, – não no percas! – hoje.

§

trad. Nelson Ascher [2006; 2ª versão]
em: Ilustrada, 04/12/06. Disponível aqui.

Não sondes (é tabu) que fim nos tramam,
Leucônoe, os deuses, nem consultes mapas
astrais caldeus. — O que será, será,
dê Jove outros ou, moendo o mar Tirreno
com rochas, este inverno e só. — Decanta,
lúcida, o vinho a ansiar quanto é cabível.
Mal falo e o tempo foge hostil: frui já
teus dias sem contar nem com o seguinte.

§

trad. Marcio Thamos [2006]
em: Letras clássicas, USP, n. 10, 2006. Disponível aqui.

Não queiras tu, Leucônoe, descobrir
que fim a ti e a mim darão os deuses
(nem é bom que se saibam essas coisas),
esquece a astrologia babilônia:
melhor deixar que seja lá o que for.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro este que agora
fatiga o mar Tirreno contra as fragas,
tem prudência: dilui o vinho e ajusta
a esperança – que é longa – ao breve instante.

Foge o tempo invejoso enquanto falo:
— Colhe o dia e não contes que haja outro.

§

trad. de Pedro Braga Falcão [2008]
em: Horácio, Odes, Cotovia, 2008.

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

§

trad. Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

§

versão de Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

HORÁCIO NO BAIXO

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

§

trad. Leandro Cardoso [2012]
vide postagem anterior

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2012; 1a versão]
vide postagem anterior

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

§

trad. Carlos Mendonça Lopes [2013]:
em: blog vício da poesia.

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2015; 2ª versão]

Tu nem vás perguntar (ímpio saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais,
quer invernos sem fim ou só mais um ceda-nos Júpiter,
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar.
Saibas saborear, coa este vinho, anda e num curto chão
poda o longo esperar! Nesta conversa, ínvido o tempo já
foge: colhe este dia, ai!, sem pensar nunca nos amanhãs.

*

Gravação Solo:

 

Performance do Pecora Loca:

 

§

trad. Daniel Fernandes da Silva [2017]
em: comentário à antiga postagem

Saber não busques, Leoconoe, que fim
Tenha o Fado prescrito a ti e a mim;
Nem tua sorte ler queiras nas estrelas
Para melhor sofreres-lhe as mazelas;
Quer de invernos te dê Jove um milheiro,
Ou quer então seja este o derradeiro
Que o Mar Tirreno contra as rochas lança,
Vive com sensatez: poda a esperança
Em vida assim tão breve, e o vinho coa;
Enquanto aqui discorro, o Tempo voa:
Faz do instante presente o teu tesouro,
Muito pouco esperando do vindouro.

§

versão de Tarso de Melo [2017]
em: rede social do poeta

Não esquenta, camarada,
tentando adivinhar quanto tempo
os deuses nos darão de vida.
Pouco importa se este é o último
ou só mais um verão batendo
sem dó na sua janela.
Vai, curta o que vier,
pega um copo e já era.
O amanhã não merece
tanto esforço da sua esperança.
Deixa rolar. E aproveita o dia.

§

trad. Matheus “Mavericco” [2017]

Não indagues (sabê-lo é nefasto) o que os deuses
tramam a ti e a mim, Leucônoe, nem recorra
a signos babilônios. Viva o que vier!
Se Júpiter te encher de invernos ou se um último
te der, que acerta e erode as rochas do Tirreno,
te experiencia, coa o vinho e corta em curto
espaço a espera! O tempo invejoso, ao falarmos,
foge: destaca o dia, crendo pouco no após.

§

trad. Ezra Pound
vide postagem anterior

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

*

trad. Adriano Scandolara da trad. de Pound
vide postagem anterior

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

Padrão
crítica, poesia

Do šīmtu ao fātum: sobre poesia, astrologia e noções de destino na antiguidade

Andreas Cellarius - Atlas Coelestis (1660)

Andreas Cellarius – Atlas Coelestis (1660)

…we make guilty of our disasters the sun, the moon, and the stars; as if we were villains on necessity; fools by heavenly compulsion; (…) My father compounded with my mother under the dragon’s tail, and my nativity was under ursa major; so that it follows I am rough and lecherous. —Tut! I should have been that I am, had the maidenliest star in the firmament twinkled on my bastardizing.

– Edmund, o bastardo, em Rei Lear

Este texto vai ser meio estranho, imagino, porque desta vez vou tratar de um tema que não é bem literário em si, que é a astrologia, mas o literário passa por ele, que é o motivo pelo qual eu acredito que ele tenha lugar aqui no escamandro ainda – e basta dar uma olhada nos motivos astrológicos na produção sonetística e dramática de um autor como Shakespeare para ter uma ideia disso, acredito. Não sei ao certo nem por onde começar a falar de algo tão espinhoso como astrologia, então vou partir do que me motivou a escrever isto, que foi ter discutido o assunto recentemente com alguns amigos quando veio à tona da questão de “os astrólogos acreditam mesmo que os planetas influenciam a gente?”. A resposta curta é que a maioria dos astrólogos modernos não acredita mais nisso (a lógica atual parece ser mais próxima da noção esotérica do As above, so below ou de algo como a teoria das correspondências swedenborguiana, algo de uma filosofia de sincronia entre a vida humana e o universo que se manifesta em arquétipos, mas não vai ser esse meu foco aqui), mas a astrologia moderna/contemporânea é o que aconteceu com a astrologia clássica depois de perder o seu estatuto como ciência considerada séria lá pelos meados do Iluminismo (adeus, astrologia, adeus, alquimia!) e ser sujeita a descobertas como as da física newtoniana, da psicologia (difícil imaginar que astrólogos falariam tanto em ego antes de Freud e Jung) e a existência dos planetas além de Saturno, para não falar nada da questão da preocupação da sociedade burguesa com o indivíduo que começa a despontar a partir do XIX.

Mas o interessante mesmo, pelo menos para mim, é observar as origens desses conceitos astrológicos. Todo mundo mais ou menos tem alguma ideia deles, quais são os 12 signos, a simbologia dos planetas, os elementos de cada signo, etc., mas o fato é que, apesar de tudo chegar a nós como algo pronto, é óbvio que nada disso surgiu assim. Áries é considerado um signo de fogo, Touro de terra, Gêmeos de ar, Câncer de água, etc., só que a noção dos quatro elementos clássicos é invenção do filósofo pré-socrático Empédocles (490 – 430 a.C.), o que significa, evidentemente, que antes dele sequer faria sentido falar nos elementos dos signos – e existe uma longa história da astrologia anterior à Grécia clássica. Mesmo o que cada constelação/signo (a diferença entre um e outro é que o signo zodiacal não ocupa o mesmo espaço no céu do que a constelação de fato, mas um espaço que é matematicamente especificado e dividido de forma igual pela eclíptica) representa é algo que variou um pouco até chegarmos nesses 12 signos especificamente: algumas como Escorpião (GIR.TAB, em sumério… o cuneiforme parece de fato um escorpião) permaneceram inalteradas desde muito tempo antes, mas outras tiveram outros nomes, como Áries,girtab que antes de ser um carneiro foi um LU.HUN.GA, i.e. um empregado. Mas, além disso, vários outros conceitos foram se transformando ao longo do caminho (inclusive o de destino), e a minha ideia aqui com este texto é dar uma olhada neles. Para isso vamos ter que voltar um tanto mais ainda no tempo.

A observação da natureza é um elemento crucial para toda cultura humana. Acho que esse é um ponto pacífico para tomarmos de partida: observar qual flor desabrocha em qual época, quando tal espécie de animal pode ser caçada, quando é o período das cheias, etc. é importante para a sobrevivência da sua tribo, aldeia ou cidade. O céu também não deixa de ser parte do mundo natural, e é provável que a observação do céu seja também um hábito desenvolvido separadamente por todas as culturas que tenham acesso a um céu observável. No entanto, porque foram os primeiros a desenvolver um sistema de escrita que se tem registro (por volta de 4000 a.C.), são os sumérios, na Mesopotâmia, o primeiro povo que nos deu os primeiros indícios de um conhecimento de astronomia/astrologia. Eles tinham já vários conceitos matemáticos (como o de teorema de Pitágoras), uma rica cultura divinatória, e deram nomes aos sete “planetas” conhecidos – de Mercúrio a Saturno, incluindo o Sol e a Lua – e às constelações e várias estrelas, mas esse conhecimento não chegou a se cristalizar num sistema coeso. Temos indícios aqui e ali – alguns portentos relacionados a eclipses lunares, o Cilindro A de Gudeia de Lagaš, o poema “A Bênção de Nisaba”, em que a deusa Nisaba aparece com uma tabuleta de lápis-lazúli, em que consulta “a escrita sacra das estrelas celestiais” –, mas realmente nada de muita substância. A cultura suméria desaparece por volta do segundo milênio, absorvida pela cultura babilônica, que falava acádio (uma língua semítica, diferente do sumério, que é uma língua isolada) e que desenvolveu um sistema de escrita cuneiforme com base num silabário mais abstrato (i.e. os símbolos se referem a sons sem se parecer com um objeto representado) e simplificado (i.e. uma quantidade menor de símbolos) do que o sumério.

Já entre os sumérios havia alguma associação dos astros com os deuses – por exemplo, Utu era o deus do Sol (que se diz ud), e Nana o deus da Lua –, mas é difícil dizer até onde ia essa associação, que na cultura babilônica já é devidamente estabelecida: além dos deuses para o Sol e a Lua (chamados Šamaš e Sin, respectivamente, mas no mais iguais a Utu e Nana), temos ainda Ištar (Inana, entre os sumérios) que é associada ao planeta Vênus (chamado dilbat em acádio), bem como Marduk e Júpiter (MUL.SAG.ME.GAR, no cuneiforme sumério, ou dāpinu em acádio), etc. É entre os babilônios que podemos começar a falar de astrologia como algo como uma disciplina propriamente. Antes disso, porém, precisamos ver como os babilônios entendiam o conceito de destino, porque é inevitável tocar no assunto de predestinação quando se fala de um método de adivinhação, que era então o principal uso da astrologia, visto que a genetlialogia, i.e. a confecção de mapas astrais, foi uma invenção posterior.

kudurru, ou pedra de fronteira, do período cassita na Babilônia

kudurru, ou pedra de fronteira, do período cassita na Babilônia, com motivos astrais: note a presença do disco do sol, a crescente da lua e a estrela de Inana

Para nós hoje falar em destino é complicado, porque herdamos a discussão toda a partir dos gregos e romanos, mas filtrada pelo cristianismo (para o qual a questão predestinação e onisciência divina versus livre-arbítrio é um problema teológico cabeludíssimo) e pela ciência moderna (sociologia, genética, nurture versus nature, etc., que também oferece sérios problemas éticos), mas o que tínhamos na Babilônia era um pouco mais simples. Para a religião suméria (que é herdada pelos babilônios, com modificações, claro, mais ou menos como os romanos herdaram o panteão grego), o destino era decretado pelos deuses. A palavra suméria para “destino” era nam ou nam-tar, cuja etimologia é algo obscura. Como prefixo, nam é utilizado para gerar conceitos abstratos a partir de palavras concretas, de modo que de lugal, “rei”, tira-se nam-lugal, “realeza”, ou de arad, “escravo”, nam-arad, “escravidão”, etc. Poderíamos entender nam-tar então como “decreto”, porque tar significa “cortar”, “decidir”, e então o conceito de nam sozinho como destino seria um encurtamento de nam-tar, mas nam aparece sozinho com mais frequência do que nam-tar e em textos mais antigos. Ou talvez nam-lugal seja “realeza” no sentido de “destino (nam) do rei”. É complicado. Mas, enfim. O que sabemos é que na mitologia suméria tinha algo chamado de “tabuletas do destino”, ou dub-nam-tar, que aparecem no poema “Ninurta e a Tartaruga”, que era um tipo de me (representações de decretos do mundo no formato de artefatos, como vimos em “A descida de Inana ao mundo dos mortos”) e quem quer que possuísse esse artefato decretaria o destino do mundo. Assim lemos em “Ninurta e a Tartaruga”:

dug4-ga-ni-ta ĝištukul-zu hul-a mu-ni-in-tag
me šu-ĝa2 šu ba-ba-ĝu10-de3 me-bi abzu-ce3 ba-an-gi4
ĝiš-hur šu-ĝa2 šu ba-ba-ju10-de3 ĝiš-hur-bi abzu-še3 ba-an-gi4
dub nam-tar-ra-/bi\ abzu-še3 ba-an-gi4 me ab-la2-e-en

 

às suas ordens, tangeu-me tua arma funesta
ao abrir mão do dom em minha mão, o dom voltou a Abzu
ao abrir mão dos desígnios em minha mão, os desígnios voltaram a Abzu
a tabuleta do destino voltou a Abzu e eu me vi sem meu dom

 

Na mitologia babilônica, as tabuletas do destino (com o nome de dup šīmati) aparecem no Enuma Elish, poema cosmogônico em acádio escrito entre 1100 e 700 a.C., onde elas são tomadas das bestas primordiais Tiamat e Abzu por Marduk, principal deus do panteão e um tipo de deus nacional, que através desse ato é elevado acima de todos os outros, inclusive Ilu (Anu em sumério), Ea (Enki) e Enlil. Assim, para um babilônio, o destino – šīmtu, do verbo šâmu, “decretar” – era um decreto divino, e a relação dos deuses com o ser humano espelhava a relação do rei com os seus súditos (mais sobre isso pode ser lido em detalhes no livro da Francesca Rochberg, In the Path of the Moon, que eu listo aqui na bibliografia), mas em nível cosmológico – inclusive a função do ser humano na religião mesopotâmica é unicamente a de servir aos deuses. Eles mandam, o mundo natural obedece.

E o que isso tem a ver com astrologia? Pois bem, a astrologia antiga era uma dentre várias formas de adivinhação. Ao lado da haruspicia (previsão feita com base nas vísceras de animais), a astrologia é considerada uma forma de adivinhação indutiva, i.e. que depende da observação sistematizada de sinais do mundo natural, em oposição ao tipo não-indutivo que é a oneiromancia (visões em sonhos) e a profecia (quando o deus dá uma mensagem diretamente), do qual os exemplos bíblicos são os mais marcantes, como Isaías, Jeremias e Ezequiel, mas que era um fenômeno comum no Oriente Médio (inclusive havia guildas, como uma profissão qualquer), com as tabuletas descobertas na cidade de Mari, na Síria, sendo um indício disso… o que encontra ecos também no mundo grego, com os oráculos. Para um babilônio então, os deuses decretavam o que iria acontecer, mas se você prestasse atenção aos sinais – e cada deus estava relacionado a um planeta, como vimos, ou a uma constelação, que mandam esses sinais – você poderia evitar desgraças ou aproveitar melhor as suas dádivas. Alguns portentos notáveis, como lista Ulla Koch-Westenholz, têm a ver com a posição de Marte, desde sempre um planeta ligado à violência, à guerra e à pestilência (não por acaso o planeta do deus Nergal). Mais de uma vez recomenda-se ao rei que tome cuidado e não se exponha muito enquanto Marte estiver em Escorpião. E é claro que a maioria desses portentos diziam respeito ao rei e à nação e não ao indivíduo, e muito da astrologia babilônica é visivelmente territorializada, na medida em que certos sinais indicavam possíveis invasões vindas de algum dos quatro pontos cardeais, que apontavam para outros povos vizinhos como os assírios ou os persas. Assim, não eram os planetas que causavam os acontecimentos, do mesmo modo como, por exemplo, não é o semáforo que move os carros ou os faz parar nos cruzamentos, mas o motor e o condutor. No entanto, não deixa de ser prudente parar ou seguir conforme as luzes indicarem. Acredito que essa seja a lógica por trás da relação entre o šīmtu babilônico e os astros, ou a “escrita divina” – uma metáfora recorrente na literatura da época e que aponta para esse caráter linguístico e sobretudo letrado do sistema astrológico em desenvolvimento na mesopotâmia.

Vamos pular agora uns mil e poucos anos para o início da era cristã. A grande figura da astrologia desse período final da Antiguidade clássica foi o Cláudio Ptolomeu, polímata grego que viveu em Alexandria entre 100 e 170 d.C., à época território romano (sente o tamanho da salada cultural) e que escreveu em grego koiné sobre astronomia, astrologia, música, óptica e geografia. Sua obra mais importante para o nosso assunto aqui foi o Tetrabiblos, a contraparte astrológica do seu tratado de astronomia, o Almagesto. E se você pegar lá o Tetrabiblos para ler, vai achar bem clara a noção de influência. Basta olhar a seção 4, “Dos poderes dos planetas”, que começa com: “O poder ativo da essência natural do Sol se encontra em aquecer e, em certo grau, em secar”, e depois afirma, da Lua, que o seu poder consiste em “umedecer, claramente porque está próxima à Terra e por conta das exalações úmidas que dela emanam”, o que me parece muito próximo daquela noção das avós de que não se deve sair de noite para “não apanhar sereno”. Enfim, pode-se ver que Ptolomeu trabalha com as noções de quente, frio, seco e úmido que também fazem parte da medicina grega clássica e têm a ver com a teoria dos humores, o que pode ajudar a entender porque no período medieval a astrologia foi tão importante para a medicina (felizmente esta é uma fase da cultura ocidental que foi superada, mas se você procurar bem você acha vários tratados astrológicos de medicina, inclusive no mundo árabe-judaico). As outras noções que tiveram vida mais longa na história da astrologia, sobretudo na prática, como a dos elementos nos signos, as casas astrológicas e os aspectos entre planetas, podem ser lidas na obra de um outro astrólogo, contemporâneo de Ptolomeu, mas um pouco mais novo e mais profissional do que ele (Ptolomeu, no fundo, é um matemático preocupado com os mecanismos por trás da operação dos astros), chamado Vétio Valente (120 – 175), autor das Antologias. Em Valente, vemos já não só a regência como já é bem conhecida agora (Marte rege Áries e Escorpião, Vênus rege Touro e Libra, etc), mas também como cada planeta rege cada parte do corpo e objetos inanimados. Daí que o Sol rege o ouro e a Lua a prata, como se pode ver nos símbolos alquímicos, a alquimia sendo na época uma outra disciplina que estava começando a dar seus primeiros passos (apesar de alegar origens bem mais antigas), de modo que os primeiros textos alquímicos seriam escritos por Zósimo de Panópolis, da virada do século III para o IV, mas isso já é tema para outra ocasião. Em todo caso, é fascinante poder observar como isso tudo vai se construindo cronologicamente. Como dito, para nós tudo já chegou pronto, mas observando assim pode-se notar em que ponto vão se dando os diálogos entre as várias áreas do conhecimento humano (mesmo que algumas delas venham a ser desconsideradas no futuro) para formá-las como as conhecemos hoje.

shamash

Mas, indo da Idade do Bronze para a era cristã, tivemos um salto temporal imenso aqui, e óbvio que muita coisa aconteceu nesse ínterim. Os grandes astrólogos que deram origem às tradições astrológicas posteriores são gregos e latinos, mas a astrologia não é bem uma prática nativa aos gregos, ou, se foi, certamente se perdeu no meio de caminho. Que eu saiba, não temos informação sobre observação astrológica/astronômica no período anterior ao período homérico (1100-800 a.C.), quando os povos do Mediterrâneo perderam as formas de escrita que tinham (os chamados Linear A, Linear B e os hieroglifos cretenses). Considerando o tanto de matemática envolvida para abstrair o movimento dos astros de modo a prevê-los com precisão para saber suas posições, mesmo quando o céu não é observável, é lógico que ter um sistema de escrita é indispensável para se desenvolver a astronomia e a astrologia, e os gregos só foram ter um alfabeto de novo muito depois, trazido famosamente pelos fenícios e adaptado para a realidade grega por volta do século VIII a.C.. E é do oriente também que vem a astrologia, e, como aponta Barton, há notáveis influências mesopotâmicas nos comentários de Hesíodo sobre a observação dos céus já em Os trabalhos e os dias. inclusive a relação que cada deus estabelece com cada planeta parece ter sido herdada diretamente. Ištar era a deusa do planeta dilbat/Vênus, e ela tem claros paralelos com a deusa Vênus (Afrodite, em grego, que viria a ser seu nome também mais tarde, mas antes do período helenístico o planeta tinha dois nomes: Phosphoros e Hesperos, porque os gregos achavam que eram dois planetas diferentes), inclusive é em seu mito com o deus Tâmuz que se encontra a origem para o mito de Vênus e Adônis. Também é possível encontrar paralelos entre o deus assírio Nabu (que vem a substituir a deusa suméria Nisaba como divindade padroeira da escrita), associado ao planeta Mercúrio, e Hermes, ambos sendo deuses que regem a escrita, mensagens, comunicação, etc. Marduk, associado a Júpiter, tem igualmente óbvias semelhanças com Zeus em seu papel como deus principal, e assim por diante.

No entanto, a falta de tratados ou mapas astrológicos gregos faz com que seja difícil apontar como a disciplina se transformou exatamente nessa viagem, e ela precisou se transformar, inclusive porque o conceito grego de destino – personificado nas três Moiras, chamadas Cloto, Laquesis e Atropos, responsáveis por separar o quinhão que cabe a cada um – difere muito do šīmtu babilônico. Falemos disso agora.

Como vimos, para um babilônico o destino é decidido pelos deuses, e essa decisão dá sinais no mundo natural para que o rei possa evitar se desgraçar e, com ele, toda a nação. Agora, para um grego a noção de que é possível fugir do destino soaria muito estranha, e a história de Édipo é o clássico exemplo disso: seus pais o levam para visitar um oráculo, o oráculo pronuncia que seu destino é matar o pai e casar com a mãe. Então eles tentam se livrar do filho, mas tudo dá errado e o destino é cumprido de qualquer forma. Nem mesmo os deuses são capazes de fugir do seu destino, como esbraveja Prometeu na tragédia Prometeu Acorrentado, a única peça sobrevivente da trilogia de Ésquilo sobre o titã ladrão do fogo. Diz ele sobre o destino funesto de Zeus:

Prometeu
Ainda não chegou a hora prefixada
pelas Parcas para a reconciliação;
somente após haver sofrido neste ermo
milhares de dores pungentes e outras tantas
calamidades, livro-me destas correntes.
O Destino supera minhas aptidões.

Corifeu
E por quem o destino é governado? Dize!

Prometeu
Pelas três Parcas e também pelas três Fúrias,
cuja memória jamais esquece os erros.

Corifeu
Os poderes de Zeus, então, cedem aos delas?

Prometeu
Nem ele mesmo pode fugir ao Destino.

(vv. 659-69, tradução de Mário da Gama Kury)

 

…ou então como podemos ver também, alguns séculos antes, na Teogonia de Hesíodo:

Noite pariu hediondo Lote, Sorte negra
e Morte, pariu Sono e pariu a grei de Sonhos.
A seguir Escárnio e Miséria cheia de dor.
Com nenhum conúbio divina pariu-os Noite trevosa.
As Hespérides que vigiam além do ínclito Oceano
belas maçãs de ouro e as árvores frutiferantes
pariu e as Partes e as Sortes que punem sem dó:
Fiandeira, Distributriz e Inflexível que aos mortais
tão logo nascidos dão os haveres de bem e de mal,
elas perseguem transgressões de homens e Deuses
e jamais repousam as Deusas da terrível cólera
até que dêem com o olho maligno naquele que erra.

(tradução de Jaa Torrano)

 

Fiandeira, Distributriz e Inflexível sendo os nomes traduzidos das três Moiras (Partes). O caso de Prometeu e Zeus é um pouco mais problemático, porque, apesar do que diz Prometeu, o que acontece ao fim da trilogia acaba contradizendo-o, visto que Zeus de fato escapa do destino de ser destronado por um filho mais forte que ele, como Prometeu prevê, justo porque Prometeu acaba revelando o segredo e permitindo que Zeus altere seu destino… mas não convém glosar mais esse caso e, de todo modo, ele serve para indicar que o conceito grego é um pouco mais complexo e traz consigo já uma potencialidade maior para problemas, exceções e contradições. Pois, se o destino é inescapável, para que serviriam os oráculos? para aceitar melhor o destino? ou essa lógica do “aceita que dói menos” seria uma interpretação estoica (posterior, portanto)? ou seriam os oráculos, com seus transes e frenesis, os resquícios de um período mais primitivo da cultura grega? Bem, não vai ser num texto breve e resumido como o meu que alguém vai descobrir a resposta para uma pergunta cabeluda dessas, mas eis algo para se pensar. Talvez a introdução da astrologia nesse outro contexto cultural tenha pesado para que os planetas deixassem de ser vistos como sinais e mais como influências propriamente: menos o caso de procurar previsões do que culpados, sobretudo os planetas chamados de maléficos como Marte e Saturno. Se você comete um crime por causa da influência de Marte, por exemplo, eis um culpado (além de você mesmo), e não deixa de ser o destino operando e te levando a isso através dos astros e/ou dos deuses. Além disso, nesse período pós-homérico temos os primeiros passos dos gregos no desenvolvimento da filosofia e dos princípios da física, como é observado no comentário de Ptolomeu. O sol esquenta e seca, eis aí uma influência observável de um corpo celeste. Seria possível, então, que os outros planetas (lembrando que, para a astrologia, Sol, Lua, Mercúrio, etc. são todos planetas, visto que a palavra vem do verbo planáō, πλανάω, que significa “vagar”, porque eles vagam pelo céu) também tivessem a capacidade de emitir forças e energias invisíveis. Como eu disse, também temos Empédocles desenvolvendo a teoria dos quatro elementos, Hipócrates com os quatro humores, e a cosmologia aristotélica. Por fim, segundo Roger Beck, a disseminação da cultura e língua grega durante o período helenístico permitiu que a astrologia/astronomia se desenvolvesse e fosse divulgada ainda mais, graças à facilidade de comunicação possibilitada entre a Grécia e o Oriente Médio, do Egito até a Pérsia. É perto desse período também, cerca de 100 anos antes, por volta de 410 a.C., que a genetlialogia começa a surgir na Babilônia, e fica claro que o conceito de influência dos astros casa perfeitamente com a ideia do mapa astral – a coisa de se atribuir os maus hábitos a ter nascido sob um astro ruim. Daí que Robert Burton, no século XVII, na Anatomia da Melancolia, comenta a relação entre a sua disposição melancólica e o seu signo zodiacal, Aquário, à época regido por Saturno (porque Urano ainda não havia sido descoberto), o astro dos melancólicos.

mapa-babilonicoPor fim, vale lembrar também que é essa noção de destino que é passada adiante para a cultura romana, que passa a chamar as Moiras pelo nome de Parcas e o destino por fātum – palavra cuja origem, como šīmtu, vem de fātus, do verbo for, “falar”, e que resulta nos nossos “fado”, “fatal”, “fatídico”, etc. Virgílio nos dá o melhor exemplo disso em sua Eneida, conforme acompanhamos a fuga de Eneias de uma Troia invadida e saqueada rumo a Cartago, um império de origem fenícia onde hoje é a Tunísia, e de lá para a península itálica onde é seu destino fundar Roma. Tanto no mundo grego quanto no latino, o destino oferece um esboço esquemático dos acontecimentos por vir e nos diz o que vai acontecer, mas não como ou quando. Seja o que for, Eneias está fadado a fundar Roma, e o resto é detalhe: Dido, a rainha de Cartago que se apaixona por ele, pode levá-lo a postergar seu destino, e as forças de Turno, na Itália, podem atrasá-lo e causar-lhe graves perdas (como a da vida de seu amigo Palas, morto em combate), mas não podem impedir esse destino de se concretizar – e nem mesmo Juno, que é uma deusa e está contra Eneias, é capaz disso. O próprio Eneias poderia resistir e se debater contra o seu destino, mas, quanto mais resistisse, pior seria – e que ele é uma figura que aceita o seu destino é uma das virtudes do personagem para o seu público romano. Daí que surge a noção do amor fati, amar o próprio destino, não importa qual seja, mesmo que envolva dor e perda. No caso de Eneias, temos a tensão entre esse amor fati e o amor erótico, pois enquanto estava em Cartago, ele se envolve com Dido, mas não pôde ficar, e ela, atormentada pela rejeição e desonra, acaba se suicidando após sua partida, o que nos rende uma cena dolorosíssima quando ele desce ao mundo dos mortos no livro VI e a reencontra lá. Óbvio, no entanto, que mesmo que o destino de Eneias acabe trazendo essas agruras, ele ainda é um destino grandioso. Fica um pouco mais difícil de se falar em amor fati no caso, para voltar no exemplo, de um Édipo da vida, fadado a casar com a mãe e matar o pai. Mas a concepção trágica que sustenta a narrativa de Édipo não é bem um elemento constituinte da visão de mundo latina, pelo visto.

Algo desse tipo também pode ser visto em Horácio. E, sim, perdoem o clichê, mas eu vou citar o poema do carpe diem:

Odes

I.11

Tu nem vás perguntar (ímpio é saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais.
Quer invernos sem fim, ou só mais um, ceado Júpiter
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar,
saibas saborear, coa este vinho, eis que num curto chão
poda o longo esperar; nesta conversa, ínvido o tempo já
foge. Colhe este dia, ah!, sem pensar nunca nos amanhãs.

(tradução de Guilherme Gontijo Flores)

 

(ó de novo a menção à Babilônia como referência para a astrologia)

Não precisamos ser extremos como Horácio, no entanto, em desprezar todo aparato divinatório, para sermos bons romanos. A astrologia, no caso, poderia hipoteticamente, dentro dessa mentalidade, servir não tanto para se tentar evitar o destino, mas para descobrir que destino seria esse para que ele possa ser aceito – e este é o tom geral, inclusive, do discurso dos astrólogos modernos quando falam de um elemento do mapa astral chamado de nodo norte, uma abstração matemática que define o ponto em que a Lua cruza a eclíptica e que teria a ver com o nosso destino (na literatura da renascença, o nodo norte é chamado de “a Cauda do Dragão” a que Edmund se refere na epígrafe desta postagem, mas a sua interpretação, à moda renascentista, segue a linha da coisa das influências benéficas ou maléficas de que falamos anteriormente). Horácio parece fazer companhia às outras figuras letradas de sua cultura, como Cícero, que escreveu um tratado sobre o assunto, De Divinatione, em seu desprezo pelas artes divinatórias. E, vale lembrar ainda, o personagem de Trimalquião, a caricatura de um noveau riche e uma das grandes invenções cômicas de Petrônio em seu Satíricon, aparece, entre os seus vários excessos de mau gosto, decorando os pratos de seu banquete com as formas dos 12 signos do zodíaco (cap. 46). A popularidade da prática de astrólogos como Vétio Valente, porém, aponta para a possibilidade de que talvez fosse o caso de haver uma distinção de classe no assunto de se levar a sério a astrologia. Mas estamos apenas especulando, claro.

mosaico de uma sinagoga do século VI em Beit Alpha representando o zodíaco

mosaico de uma sinagoga do século VI em Beit Alpha representando o zodíaco

Tem mais algumas coisas que poderíamos incluir nessa discussão, como a concepção judaica de destino e influência dos astros. Destino, em hebraico bíblico, se diz goral (גורל), que é o termo usado para a prática de se tirar a sorte (tipo tirar a sorte no palitinho), como se observa na Bíblia em Jonas 1:7, mas o conceito é válido também, assim como o das Moiras, para se referir ao nosso quinhão na vida, que é como a palavra aparece em Isaías 17:14. No entanto, o destino é regido por YHWH, porque, para a cosmovisão judaica, absolutamente tudo é regido por YHWH, mas ainda assim há espaço para o conceito grego de influência dos astros (contanto que com o devido consenso de YHWH), considerando como o período helenístico influenciou a cultura judaica (com obras como o livro de Eclesiastes sendo resultado disso), mas também há referências às estrelas como um tipo de escrita ou portento, na medida em que a palavra do hebraico talmúdico mazal (מזל), “sorte”, é derivado do termo bíblico mazalot (מזלות), “constelação”, da onde parte a expressão mazal tov, que, apesar de equivalente ao nosso “parabéns”, significa literalmente “sorte boa” ou “boa estrela”. E claro que a invenção rabínica do HaOlam HaBa (העולם הבא) “O mundo por vir”, complica as coisas também, porque dá uma dimensão extra ao destino, ao conceber uma outra vida após a morte – e eu a chamo aqui de uma invenção rabínica, porque a expressão aparece no Talmude, ao passo que o conceito de existência post-mortem no texto bíblico em si, o Sheol (שאול), é semelhante ao Hades grego ou ao mundo dos mortos mesopotâmico. Mas essas conjecturas todas são difíceis de se fazer, especialmente porque a halakhá, a lei rabínica, proíbe a astrologia, bem como outras formas de adivinhação – só que, para piorar, apesar da proibição, a astrologia foi muito praticada entre os judeus ainda assim, o que serve para dificultar qualquer tentativa de se chegar numa visão unívoca e oficial. Mesmo no período medieval, você vai ter figuras tanto defendendo e praticando a astrologia (Abraham Ibn Ezra) quanto condenando-a (Maimônides). O buraco é bem mais embaixo.

E isso conclui o nosso pequeno tour pela astrologia da Grécia e Babilônia antigas. Essas noções todas podem não lançar muita luz sobre como funciona a astrologia hoje, e talvez tudo acabe trazendo mais dúvidas do que podemos responder, mas creio que ajudam a explicar como ela se tornou o que é, sendo um exemplo dos mais fascinantes da passagem de ideias entre culturas e o seu refinamento ao longo dos séculos. E obviamente essas noções todas sobre destino e adivinhação deixam marcas na literatura dos povos, que seria uma demonstração de miopia literária ignorar.

Adriano Scandolara

 

Bibliografia teórica

BARTON, Tamsyn. Ancient Astrology. Londres: Routledge, 1994
BECK, Roger. A Brief History of Ancient Astrology. Oxford: Blackwell Publishing, 2007.
GRAFTON, Anthony & NEWMAN, William R. (ed.). Secrets of Nature: Astrology and Alchemy in Early Modern Europe. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2001.
KOCH-WESTENHOLZ, Ulla. Mesopotamian Astrology: An Introduction to Babylonian and Assyrian Celestial Divination. Copenhague: Museum Tusculanum Press, 1995.
ROCHBERG, Francesca. In the Path of the Moon: Studies in Ancient Magic and Divination. Leiden: Koninklijke Brill, 2010.
___________________. Heavenly Writing: Divination and Horoscopy, and Astronomy in Mesopotamian Culture. Cambridge: Cambridge UP, 2004

Padrão
crítica de tradução, poesia, tradução

horácios na ode 1.11 “a leuconoe”

a imagem acima resume o ponto: esta ode de horácio é a mais pop, mesmo que nem tanta gente a tenha lido integralmente. o mote expresso no carpe diem é o resumo de um topos clássico para viver o agora, sem confianças no que possa vir ou não, no dia seguinte.

não pretendo aqui fazer uma apresentação da poesia de quinto horácio flaco (65 a.c. – 8 a.c.), das suas quatro obras (epodos, sátiras, odes & epístolas); mas, como tem virado uma praxe aqui no blog, mostrar uma série de traduções & terminar com a minha.

não pretendo aqui fazer uma crítica digna de cada tradução. em resumo, eu diria que elas são bem variadas (amém!), mas tendem para duas escolhas mais gerais: a) o uso dos versos mais tradicionais (decassílabos e hexassílabos, em geral com mistura entre eles; com o caso do britto, que opta por dodecassílabos na sua recriação); e b) verso livre (tanto do augusto de campos e do paulo leminski, com a visualidade centralizando o texto, quanto o verso mais longo e de levada anapéstica de leandro cardoso). da minha parte, como projeto que tem me consumido ultimamente (a saber, traduzir TODAS as odes de horácio, para o doutorado), tentei recriar o poema com um verso mais longo, ligeiramente anapéstico, que pudesse recriar o efeito de estranheza que o metro original devia ter gerado num romano, pouco acostumado aos metros que horácio incorporou dos gregos em suas odes (catulo também já tinha feito isso com certa sistematicidade, mas com um uso bem mais restrito quanto ao número de formas poéticas). além disso, tentei passar um pouco da secura do poema, seu tom austero e moral, sem penduricalhos (ou, como diria horácio, persicos apparatus).

antologia tradutória, ou quantos horácios cabem num poema?

1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

(quintus horatius flaccus)

* * *

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

(filinto elísio)

* * *

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

(elpino duriense)

* * *

A Leucônidis

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto:
Os vaticínios babilônios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os assentes da Sorte.

Ou Jove te destine mais invernos
À curta idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as taças
De doce vinho, apouca as esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no futuro.

(josé agostinho de macedo)

* * *

A Leucótoe

            Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
            Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão-de ser, se curtas, se compridas;

            Se o escuro lago Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
            Se neste hórrido inverno
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

            Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
            Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

(andré falcão de resende)

* * *

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
            a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
            melhor é suportar
            tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
            quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
            cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
            corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
            Enquanto conversamos
            foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

(péricles eugênio da silva ramos)

* * *

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
            Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

(ezra pound)

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
            Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

(ezra pound via adriano scandolara)

* * *

não me perguntes
                                – é vedado saber –
o fim
que a mim
e a ti
                               darão os deuses
                                                           Leucônoe
                               nem babilônios
números consultes                           antes
                               o que for           recebe
quer te atribua Júpiter muitos invernos
quer o último
                        que o mar tirreno debilita com abruptas
r
o
c
h
a
s
bebe o vinho                      sabe a vida                       e corta
a longa esperança
                                    enquanto falamos
                                                                        foge
                                                                                  invejoso
o tempo:          
                 curte o dia
                                       desamando amanhãs

(augusto de campos)

* * *

não me perguntes
                                 saber não presta
Leuconoe
                    que fim os deuses nos preparam
nem arrisque
                        números de Babel
como se fosse o máximo – o que vier: fature

se o Pai te concedeu vários invernos
ou o último
                      agora o mar tyrrheno cepilha pedras de naufragar
filtre o vinho
                                                                 sorva os coos
                                                                        prazo breve
                                                                        corta
                                                                        a espera
a era já era
                                                                antes do tempo de dizer
estamos conversados

pega este dia
                        crer no próximo
                                                      não vale um nihil

(paulo leminski)

* * *

ODES I, 11

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

Horácio no Baixo
(Odes I, 11)

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

(paulo henriques britto)

* * *

I, 11

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

(leandro cardoso)

* * *

1.11

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

(guilherme gontijo flores)

* * *

para os obcecados que chegaram até aqui & não se saciaram, um link com um punhado de versões para o inglês

guilherme gontijo flores

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