poesia, tradução

H.D. (1886 – 1961)

hilda-doolittle

Hilda Doolittle, conhecida pelas iniciais H.D. com as quais assinava suas obras e apelidada de H.D. Imagiste por Ezra Pound, foi uma figura importante do imagismo e da poesia modernista em geral. Além de poeta, foi também romancista e tradutora do grego antigo, deixando uma obra vasta que não foi ainda explorada direito em português – e, de fato, parece que, a não ser que eu tenha me enganado, a única obra dela disponível em português é o livro de memórias Por amor a Freud (editora Zahar). Pois é, ela se consultou com Freud nos anos 30, numa tentativa de superar um bloqueio de escritora, e o seu círculo social foi também basicamente o pessoal de Meia Noite em Paris (ok, eu não vi o filme, na verdade, mas vocês têm uma ideia: Pound, Eliot, Marianne Moore, Williams, D. H. Lawrence, Djuna Barnes, Gertrude Stein, etc.). Quando ela começou a se encontrar com Pound, com quem teve um noivado malogrado em 1907, a poesia de língua inglesa ainda estava sob forte dominação da estética tardo-romântica vitoriana, muito bem representada já por Tennyson e Browning no século XIX – uma das principais influências sobre o Pound de início de carreira –, mas que no começo do século XX se encontrava já bastante desgastada. É contra isso que percebiam como um excesso de sentimentalismo e ornamentação verbal que a poética imagista se apresentava, propondo, famosamente, o tratamento mais direto possível do assunto dos poemas e “não usar absolutamente nenhuma palavra que não contribua para a apresentação”. Daí o emprego dos versos livres fragmentários e a influência do simbolismo francês e de formas japonesas, como o haicai e o tanka, visando essa secura e concisão. No caso da H.D., visivelmente, a essas referências se soma ainda um repertório clássico de autores gregos, por quem Pound e Aldington também se interessavam, como Safo e Eurípedes, que ela traduziu para o inglês.

A história do movimento imagista é meio complicadinha, pois haveria um proto-imagismo, constituído por um grupo de poetas reunidos por T. E. Hulme (outro poeta pouquíssimo lido hoje, talvez por ter morrido jovem e deixado uma obra pequena e discreta). Pound logo assume o controle do grupo, editando a antologia Des Imagistes em 1914 (ano em que Hulme se alista na Primeira Guerra, onde seria letalmente ferido por um morteiro), mas Amy Lowell, que teve poemas publicados nesse volume, acaba tomando para si o movimento, decidindo torná-lo mais fechado, ainda que menos rígido formalmente. Entre 1915 e 1917, Lowell publica então as três edições da revista/antologia Some Imagist Poets, o que leva Pound a abandonar o imagismo. H.D., porém, começa a escrever mais a sério só depois de vir para a Europa (tanto ela quanto o Pound e o Eliot, vale lembrar, são poetas norte-americanos que desenvolveram sua carreira na Europa) e começar a se reunir com esse grupo de poetas, e, sendo mais tolerante do que Pound (o que não era difícil…), tem poemas seus publicados nas três edições da antologia. Boa parte desses poemas (as edições de 1915 e 1916 podem ser conferidas no Project Gutenberg, clicando aqui e aqui) foram publicados também em seu primeiro volume, Sea Garden (também disponível pelo Project Gutenberg), de 1916, e parece que outros poemas também aparecem no seu segundo livro, The God, de 1917, mas não pude confirmar, infelizmente.

sea-garden-h-dAs influências clássicas começam a aparecer de modo mais forte a partir do seu terceiro livro de poesia, Hymen (1921), como se pode notar já a partir dos títulos dos poemas nele (“Demeter”, “Leda”, “Hippolytus temporizes”, “Phaedra”, etc). Eu estou longe de ser um estudioso da H.D., e a minha opinião aqui é meramente impressionística, mas eu diria que Hymen parece marcar um afastamento maior da sua poética imagista de começo de carreira, incorporando um maior número de elementos retóricos e modos poéticos que vão além do retrato detalhista de Sea Garden. Hymen parece ser o começo de um segundo momento de construção de uma “mitologia da mulher”, como chama a crítica Sandra Gilbert, que culmina em seu Helen in Egypt (1961) e que consiste numa abordagem da perspectiva feminina do mito grego e da construção, via a exploração do subconsciente (lembremos de novo da presença de Freud), de uma mitologia própria.

Boa parte de sua obra (especialmente a prosa) não circulou enquanto H.D. estava viva, e por um tempo ela foi vista meio que como uma figura secundária do imagismo (que também não é o mais popular dos movimentos de vanguarda do século XX). A crítica feminista, porém, desde os anos 70 vem recuperando esse seu lado da exploração da temática da mulher e da sua sexualidade – seu ciclo de romances HERmione, Bid Me to Live, Paint It Today e Asphodel, por exemplo, é em grande parte autobiográfico e trata das tensões em torno das suas relações amorosas com homens e mulheres. Essa redescoberta da poeta tem sido notável no tocante à sua prosa e nos círculos acadêmicos. Na poesia, porém, apesar de ela ter tido influência sobre figuras contemporâneas importantes como Barbara Guest, Denise Levertov, Susan Howe e Robert Creeley, H.D. parece ser muito pouco lida hoje. É numa tentativa de começar um pouco a retificar isso que eu traduzi abaixo alguns poemas de seu primeiro livro, Sea Garden.

(Adriano Scandolara)

 

Os que dormem ao vento

Brancos
mais que a crosta
que a maré arrasta,
ardem-nos a areia revirada
e as conchas partidas.

Não dormimos mais
ao vento —
despertamos, fugindo
ao portão da cidade.

Arranquem —
arranquem um altar pra nós,
puxem os rochedos,
empilhem-nos com pedras brutas —
não dormimos
mais ao vento,
propiciem-nos.

Entoem um ululuar
que nunca cessa,
tracem um círculo e homenageiem
com uma canção.

Quando o rugir da vaga em queda
a interromper,
jorre medido o verbo
de águias-marinhas e gaivotas
e aves marinhas clamando
discórdias.

 

The wind sleepers

Whiter
than the crust
left by the tide,
we are stung by the hurled sand
and the broken shells.

We no longer sleep
in the wind—
we awoke and fled
through the city gate.

Tear—
tear us an altar,
tug at the cliff-boulders,
pile them with the rough stones—
we no longer
sleep in the wind,
propitiate us.

Chant in a wail
that never halts,
pace a circle and pay tribute
with a song.

When the roar of a dropped wave
breaks into it,
pour meted words
of sea-hawks and gulls
and sea-birds that cry
discords.

 

Entardecer

A luz passa
de crista em crista
de flor em flor —
as hepáticas, abertas
sob a luz
vão sumindo —
as pétalas se introvertem,
as pontas azuis se curvam
ao mais azul do seu âmago
e as flores se perdem.

Ainda brancos os cornisos em botão,
mas sombras se lançam
das raízes dos cornisos —
rasteja o negror de raiz em raiz,
cada folha
corta outra folha no capim,
sombra segue sombra,
e tanto folha quanto
sombra-de-folha se perdem.

 

Evening

The light passes
from ridge to ridge,
from flower to flower—
the hypaticas, wide-spread
under the light
grow faint—
the petals reach inward,
the blue tips bend
toward the bluer heart
and the flowers are lost.

The cornel-buds are still white,
but shadows dart
from the cornel-roots—
black creeps from root to root,
each leaf
cuts another leaf on the grass,
shadow seeks shadow,
then both leaf
and leaf-shadow are lost.

 

Violeta do mar

A violeta branca
é perfumada na haste,
a violeta-do-mar,
feito ágata, frágil,
jaz de frente a todo vento
entre as conchas rotas
na areia da barra.

Grandes violetas azuis
pairam na colina,
mas quem daria por elas
quem daria por elas
uma raiz das outras que fosse?

Violeta
frágil te agarras
à borda da barra,
mas pegas a luz —
geada, um astro bordeja em seu fogo.

 

Sea violet

The white violet
is scented on its stalk,
the sea-violet
fragile as agate,
lies fronting all the wind
among the torn shells
on the sand-bank.

The greater blue violets
flutter on the hill,
but who would change for these
who would change for these
one root of the white sort?

Violet
your grasp is frail
on the edge of the sand-hill,
but you catch the light—
frost, a star edges with its fire.

 

Noite

A noite cindiu
uma doutra
e enrugou as pétalas
de volta à haste
e bem enfileiradas embaixo dela;

embaixo em ritmo inquebrantável,
embaixo até partir-se a casca,
e até cada folha curvada
ser arrancada da haste;

embaixo em ritmo grave,
embaixo até as folhas
se recurvarem
até caírem sobre a terra,
e até estarem todas partidas.

Ó noite,
toma as pétalas
das rosas na mão,
mas deixa o carpelo firme
da rosa
a perecer no ramo.

 

Night

The night has cut
each from each
and curled the petals
back from the stalk
and under it in crisp rows;

under at an unfaltering pace,
under till the rinds break,
back till each bent leaf
is parted from its stalk;

under at a grave pace,
under till the leaves
are bent back
till they drop upon earth,
back till they are all broken.

O night,
you take the petals
of the roses in your hand,
but leave the stark core
of the rose
to perish on the branch.

(poemas de Hilda Doolittle, tradução de Adriano Scandolara)

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“uma canção de amor” de william carlos williams

um viva à deriva!

lendo os poemas completos de robert creeley passei por um poema que citava uma linha do wcw que me levou ao dito poema citado que me levou ao impulso gratuito de traduzi-lo que me traz ao blogue antes de qualquer estimativa.

com o poema, é claro.

Uma Canção de Amor
(william carlos williams)

 O que é que tenho pra dizer
quando nos encontrarmos?
Mas –
Aqui estou eu pensando em você.

A mancha do amor
Recobre o mundo.
Amarela amarela,
Ela carcome as folhas,
Lambuza de açafrão
Os córneos galhos que pendem
Pesados
Contra um suave céu de púrpura.

Não há luz –
Só uma mancha melada
Que pinga de folha em folha
De membro em membro
E estraga as cores
Do mundo inteiro.

Estou sozinho.
O peso do amor
Me fez boiar
Até a cabeça
Bater contra o céu.

Veja!
Meu cabelo pinga de néctar –
Passarinhos o levam
Em suas asas negras.
Veja enfim
Meus braços minhas mãos
Aqui ociosos.

Como posso dizer
Se ainda vou te amar
Como amo agora?

(trad. guilherme gontijo flores)

A Love Song

What have I to say to you
When we shall meet?
Yet—
I lie here thinking of you.

The stain of love
Is upon the world.
Yellow, yellow, yellow,
It eats into the leaves,
Smears with saffron
The horned branches that lean
Heavily
Against a smooth purple sky.

There is no light—
Only a honey-thick stain
That drips from leaf to leaf
And limb to limb
Spoiling the colours
Of the whole world.

I am alone.
The weight of love
Has buoyed me up
Till my head
Knocks against the sky.

See me!
My hair is dripping with nectar—
Starlings carry it
On their black wings.
See, at last
My arms and my hands
Are lying idle.

How can I tell
If I shall ever love you again
As I do now?

(post tirado do finado blog viagem de cabeceira)

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crítica de tradução, poesia, tradução

7 + 4 vermelhos carrinhos de mão (william carlos williams)

se pensarmos a tradução (segundo a já famosa metáfora) como a foto de uma estátua, sempre capaz de resolver uma  parte da sua tridimensionalidade, mas também sempre incapaz de esgotar as possibilidades de visão do original, ficamos com dois belos corolários:

1 – como a foto, a tradução é uma outra arte, que em grande parte vale por si só, mesmo quando aponta para uma obra que tenha um apelo próprio e que não se esgote na foto. o que se busca na experiência com a foto e com a escultura não deve ser resumido na mera correlação de igualdade – é a própria diferença que legitima a existência da tradução e, portanto, uma tradução perfeita não seria de fato tradução.

2 – todo original pede um número infinito de traduções, não só das várias línguas, mas de cada língua. e, ao contrário do que postula benjamin, as traduções reativam o gatilho e pedem, cada uma, novos infinitos tradutórios: a tradução (ou pelo menos a boa tradução) é traduzível, um novo convite ao traduzir.

e assim chegamos à poesia de william carlos williams. o poema the red wheelbarrow é um clássico na sua singeleza, ou melhor, na sua falsa singeleza; & como tal já recebeu um bom número de traduções em português. eu pude achar 4 (josé paulo paes, josé agostinho baptista, haroldo de campos e luís dohlnikoff), que me incentivaram a fazer a minha e a cooptar mais dois tradutores (nosso já conhecido coeditor adriano scandolara e o em breve postado felipe paradizzo).

o plano, é claro, não é fazer uma competição pela melhor tradução do poema. creio que os pontos 1 e 2 deixam isso implícito, mas preferi a redundância para evitar a má fé dos maus entendedores.

mesmo assim, estas 3 novas traduções vêm com uma breve justificativa do tradutor, com o intuito de demarcar sua historicidade, o porquê de uma outra tradução, como ela pode se inserir nesse corpus como nova foto, nova obra.

THE RED WHEELBARROW



so much depends
upon



a red wheel
barrow



glazed with rain
water



beside the white
chickens.

(william carlos williams)

* * * 

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé paulo paes)

* * *


O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

reluzente de gotas de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé agostinho baptista)

* * *

O CARRINHO DE MÃO MARROM

Tanta coisa depende
desse

carrinho de mão
marrom

reluzindo sob a
chuva

junto às galinhas
brancas.

(trad. luís dohlnikoff)

* * *

CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanto depende
de um

carrinho de mão
vermelho

vidrado pela água
da chuva

perto das galinhas
brancas.

(trad. haroldo de campos)

* * *

CARRIM DE MÃO

tanto depende
de um

carrim de
mão

no verniz da
chuva

entre os frangos
brancos.

(trad. guilherme gontijo flores)

ao analisar o poema, notei que ele se dupliestruturava: por um lado, visualmente, com suas 4 estrofes de 2 versos e sempre uma palavra apenas no segundo verso. porém simultaneamente, uma estrutura melódica dava harmonia ao poema, ele pode ser lido como apenas 2 versos decassilábicos: so much depends upon a red wheel barrow / glazed with rain water beside the white chickens. apesar do alongamento do português, tentei manter esse aspecto rítmico; para tanto, optei pelo oral “carmim” por dois motivos: manutenção do metro (sabendo que certo oralismo não seria completamente estranho à poesia de wcw), e pelo fato de carrim ser um quase anagrama perfeito de carmim, onde poderia estar o “vermelho” desaparecido da minha tradução.

* * *

O CARRINHO VERMELHO DE MÃO

tanto depende
de um

carrinho vermelho
de mão

lustroso d’água
da chuva

ao lado do branco
dos frangos

(trad. adriano scandolara)

“Minha justificativa é a da quebra de versos. Nas 3 últimas estrofes do poema, o Williams cria um esquema de fazer um verso mais longo onde o enjambément cria uma expectativa que não se cumpre totalmente no verso mais curto a seguir. Aí, em vez da roda vermelha (the red wheel), tem-se o carrinho de mão vermelho: o leitor espera uma coisa, mas vem outra, e assim o ritmo da leitura fica mais irregular, meio soluçante. O mesmo vale para a chuva da 3ª estrofe, que não é a chuva caindo, mas uma água de chuva parada, que deixa o carrinho lustroso, e para o branco da última estrofe, que só revela ser das galinhas no último verso e cria um efeito de contraposição de cor com o vermelho do 3º verso.”

* * *

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

Tanto depende
de

um carrinho de mão
vermelho

orvalhado com água
de chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. felipe paradizzo)

“Minha tentativa foi reproduzir a relevância da imagem para o poeta norte americano em alguns detalhes da tradução. Acredito haver nas três últimas estrofes, blocos de imagens que se articulam entre si e orbitam “um carrinho de mão vermelho”, além de também oferecem às fortes imagens de WCW singularmente. Por isso, optei por manter o artigo indefinido na segunda estrofe, a fim de marcar a singularidade da imagem poética em questão. Quanto ao “orvalhado” na terceira estrofe, tomei a liberdade de deslocar o sentido da palavra inglesa “glazed”, em busca da imagem cotidiana de Williams, trazendo o adjetivo o mais próximo possível do cenário, da imagem.”

* * *

o convite a novas traduções/justificativas/comentários/críticas fica a partir de agora aberto ao infinito

APÊNDICE: 4 novas traduções.

O VERMELHO CARRINHO DE MÃO

muito depen-
de

um vermelho carrinho
de mão

vitrea da
chuva

ao lado dos brancos
frangos

(trad. leonardo MAthias)

“Procurei destacar, na tradução, o fator relacional entre versos e estrófes, responsável pela mutação nos sentidos da leitura. O peoma parece, a cada palavra posteriormente lida, estar constantemente se auto-descontextualizando. Aínda, foi preciso manter um certo caráter ruidoso, presente no poema original, qual potencializa as possibilidades sintéticas misteriosas, inerentes ao magnetismo estranho de suas peças e espaços.”

* * *

O RUBRO CARRINHO

tanto depen-
de de um

rubro carri-
nho

molhado de
chuva

lá com as gali-
nhas brancas

(trad. rodrigo gonçalves)

“mímese de som e ritmo, imagem e concisão. exercício de sintese. ludus.”

* * *

A CARRIOLA VERMELHA

há muito a pesar
sobre

a vermelha
carriola

lustrada pela
chuva

entre brancos
frangos.

(trad. tarso de melo)

segundo o próprio,  “uma tradução injustificável”!

* * *

CARRIM-DE-MÃO VERMEIO

tanta coisa depende
dum

carrim-de-mão
vermeio

moiado da
chuva

do lado dos frango
branco.

(trad. daniel martineschen)

“Sei lá, pensei no que diria um pedreiro (ou eu mesmo na reforma de casa), logo após parar de chover e o sol brilhar de novo, ao ver umas galinhas que saíram pro terreiro pra tomar sol depois da chuva. simplicidade, oralidade (bem curitibana, eu diria), brincadeira sem ofensa. e descaradamente roubei a opção do guilherme por ‘carrim’.”

* * *

guilherme gontijo flores

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