poesia

5 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985—)

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Nasceu no Rio de Janeiro a 1985; vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os livros synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados, todos pela 7Letras.

* * *

Disciplina da extinção

Devem já ser desoras no mundo

Com os mesmos passos
cuidados com que costumávamos
deixar agosto
faz-se agora o torno do ano
inteiro, impensável

Neste poema ao menos
vencem
as tropas inimigas

Uma aragem má
destelha nossos galpões,
corre toda a alegria

Da linguagem
para os muros da cidade

No apagado arrabalde
(no apagado arrebol)
catar
palavras para dizê-lo

§

Enrique Lihn em Manhattan, II

O móbil do crime talvez seja a clareza
O que nos faz enxergar impérios no pó da mariposa
Capinar aporias
Comprimir
Os poemas até
A desumana exposição
Das linhas de força
De uma qualquer situação
Em tela
Citareiros jogados pelos corredores do metrô
Servos do sopro, de nada
Proliferando
Ascese de escadas rolantes
Que rompem claraboias cinzentas
Vamos, vamos
Irradiar mais uma metrópole
Perder os sinais na chuva negra
À mulher sentada a meu lado
Conto que acabo de ser expulso da República
Ela tem o bom gosto de me ignorar
Ela efabula
Faxinas que lhe roubaram a manhã
As varizes, o preço do extrato de tomate
Os tapumes crivados de balas
A esperança, ela diz, por pouco
Não dá cabo de si própria
E do marido também idoso
Noite passada
Esqueceu aberta uma das bocas do fogão
Depois da janta
Pegou no sono
Embalada pelo perfeito rolamento do veículo

§

Disciplina da extinção, II

Já neste poema
Circunstanciou-se que nós
Vencemos a guerra

Contudo
O problema da narrativa
Continua
A fazer-nos frente

Neste silêncio, cesura
Procuramos
Palavra de elevação
As palavras sonantes
Palavra de uma inocência
Emudecedora

Tomamos de sua fome
Para escrever saciedade

Para escrever sáfaro

Para escrever
O sol presidia vermelho sobre os campos
(Ao desincumbir-se
Era vermelho também)

§

Comparecimento diante do Provador

Descenso com pernas.
Não “ocaso”.
Não “crepuscular”, o verbo, não
Chamemos
Astro vestigial.
Não o tornar-se vestigial.
Não entre panejamentos.
Não o ter uma imagem
Tão demorada
Em nos atingir.
Não a tarde devagar
Desfibrada.
Descenso com pernas, com peso
De pernas.
Descenso
De cepas roliças
Comprimindo
Coxas
Que florem
Em pé
Inculto com
Sem caminho
Com
Solidão de jaula
Com
Fumos de centro
Com ócios
De preferido

Descenso

Descenso

Descenso

§

As andanças a que venho me referindo dão-se no mais dos casos em prejuízo dos pés.
Que poderá sobreviver à descoberta profunda, para além dos tipos, à redescoberta de que as estrelas não são senão os mortos,
senão revérberos?
Digressiona-se.
Tentei estabelecer as balizas mágicas desta excursão.
No Planetário, veem-se uns aos outros, não veem nada.
Que testemunham, afinal, os espelhos dos banheiros do Planetário?
Que eficácia?
Tentei dizer “baldio”, um substantivo.
Tentei dizer “engodados”, “engodados pela luz”.
Este Planetário é antigo. Bem como as crianças lá levadas em excursão.
Este Planetário é também o meu passado.
Estas crianças que entram, saem, dão a informação altiva e irracional.
Tentei dizer “baldio”, tento.
Esvaziar a ostra, ouvir atentamente ao ditado.
De seguida, a redação.
As crianças regressam de minhas notas com um Planetário, deixam-no aos meus pés.
Digo-lhes, os globos são caros.
Os ossários são caros.
Os revérberos, o passado… Tarde demais.
Entraram já para as notas.

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entrevista

Entrevista com Ismar Tirelli Neto (parte 1) + 2 poemas inéditos

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Montagem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: Ann Guilbert & Renee Taylor.

esta é a quarta parte da série de entrevistas que blábláblá…vocês já sabem. para ler as outras, clique aqui, aqui & aqui. diferentemente das demais entrevistas, feitas virtualmente, esta se deu num contato de horas – uma tarde inteira e um pedaço da noite – de conversa entre mim e ismar, em seu apartamento, a dezembro do ano passado. a conversa foi longa e ainda estou em processo de transcrição. obviamente, nem tudo que foi dito é digno de luz – afinal, somo humanos e falamos merda. por isso, esta entrevista, como eu já disse ser distinta das outras, será trazida a público aos pedaços, conforme eu for transcrevendo e selecionando os pedaços que julgar mais relevantes. esta é a parte 1 da nossa conversa.

eu havia pensado em fazer algumas considerações, mas acredito que a melhor fala já foi feita por júlia de carvalho hansen, em sua primeira coluna na revista pessoa (clique aqui): “Todos os dias me apavora o crescimento do mal estar entre os viventes. O sinto como o sabor do tempo, um travo que não sai da boca, amargor trocado e proferido na saliva & na respiração dos convívios. Sei com isto que mora aí o tema poético deste tempo (e de todos os tempos? onde existir humanidade?), mas eu mesma sou incapaz agora de escrever versos com este mal estar. Não tenho saúde, tenho carregado um escanfandro lírico no lugar de cabeça — diante do peso dos acontecimentos tenho escrito poemas de amor. Entre notícias, conversas, opiniões e posts de facebook me revejo tentando observar a realidade sem me acovardar diante dos ferozes que renascem todos os dias e certo sempre está que a poesia é a respiração do tempo. A poesia é capaz de capturar os instantâneos do mal. Então convidei para publicarem nesta primeira coluna três poetas que conheço neste momento escrevendo lúcidos & irrefreáveis poema. Com o ar intragável deste tempo eles assopram círculos de fumaça, transformam carbono em oxigênio, fazem rir e doer”.

sem mais, com a palavra: ismar tirelli neto, senhoras e senhores.

 

sergio maciel

 

* * *

SM – Recentemente, falávamos sobre uma espécie de “vazio fúnebre” que, talvez, a morte de alguns dos ícones do século xx poderia causar, algo quase como um “período de desamparo”; para além disso, falávamos também sobre uma tendência nossa (e quiçá dos nossos pares) a uma certa incapacidade de concentração diante dos acontecimentos. Como você vem lidando com isso?

ITN – Eu tenho reparado que isso tem sido um ponto de encontro.

SM – Das poéticas?

ITN – Não só das poéticas, mas das vivências também – se é que uma coisa pode ser separada da outra. Mas esse é o pátio onde as pessoas estão indo fumar, sabe? Entreolhando-se e pensando: “Meu deus!”. As possibilidades de refúgio estão cada vez menores. E é terrível, inclusive, estarmos recuperando, sem querer, esse repertório vocabular que é do campo do “refúgio”, do “abrigo”, do “salvífico”, do “balsâmico”. Essas coisas talvez pareçam da ordem do narcotizante. Ao mesmo tempo, eu acho também terrivelmente irresponsável ficar nesse local de total objetivade e lucidez. Ter, o tempo todo, esse olhar que não pisca diante de um mundo que está claramente caindo aos pedaços. Diante de dois mundos.

SM – Retomamos aqui o “mundo caduco” do Drummond.

ITN – Exato. E é por isso que eu irei à minha cova cantando loas a esse poema, acho ainda a coisa mais bonita cometida nos últimos tempos. Mas é exatamente isso: o trabalho sem alegria para um mundo caduco.

SM – Você falava há pouco sobre a questão do desejo, sobre uma ideia de que ele nos é tomado. Ou seja, tem a questão de que quando se vai produzir algo, no campo do artístico, rola uma espécie de privação do prazer e que o ato de criação artística se torna, diante do mundo, uma mera autosalvação.

ITN – Eu tenho também essa terrível impressão de que cada vez mais o “ato criativo”, entre várias aspas, já não se trata quase daquilo que se passa no poema mas apenas do fato de ele existir, porque é tão improvável escrever atualmente, sabe? É tão improvável criar. A sensação de exaustão, de cansaço, de abatimento geral é tão grande que já não se trata mais de escrever um poema bom. Trata-se de escrever, apenas. E eu tenho a impressão de que em situações de emergência isso é o máximo que se pode pedir. Eu me sinto aquém inclusive disso.

SM – Aquém da escrita?

ITN – É. Eu não estou conseguindo. É aquilo que eu já te falei: se eu consegui escrever três poemas em 2016 foi muito. Ao mesmo tempo, como falar sobre essas coisas sem adotar o discurso vaidoso do autor em crise? Porque não é um autor em crise, é um mundo. A crise é comunal, possui isso de democrático. Todo mundo está na merda. Todo mundo está infeliz em algum sentido e isto é muito claro. Então, eu tenho visto cada vez mais pessoas que, assim como eu, têm essa impressão horrível de que passaram o ano inteiro com a janta no fogo, de que não fizeram mais nada. E quando fazem, pelo menos comigo é assim, é tão pequeno, tão nada. De alguma forma, na hora aquilo faz senso, mas no cômputo geral o fato é que se passou um ano e eu consegui tão somente não me endividar. Eu consegui não me endividar e consegui não ser enviado para um manicômio.

SM – Fato que em 2016 é um grande feito a ser comemorado.

ITN – Exato. Mas ao mesmo tempo é duro pensar que isto é tudo que eu tenho para contar de bom, sabe? Essa sensação de progressiva exiguidade no campo do possível. Eu vejo que não se trata apenas de mim, mas é um lugar no qual as pessoas estão se encontrando, falando e tendo esses breves momentos de saúde. Mesmo que se trate de uma aliança contra o mundo, isso não deixa de ser uma aliança. Há algo que sempre me ocorre: seria preferível formar alianças a favor de qualquer coisa, mas se as coisas não se circunstanciam de modo a favorecer estas alianças, aquelas que sobram são as contrárias a algo. É o que se tem. E talvez seja mais saudável isto a uma vivência completamente desvinculada da ideia do Outro, da ideia do companheiro, da ideia do comparsa. Da ideia da comunhão, entende?

SM – De algum modo, e eu acho isso particularmente curioso, esse ponto de encontro nos conduz a uma “suposta compreensão” daquilo que falava Adorno sobre a impossibilidade de se escrever poesia após Auschwitz. Parecemos concordar que é forçosamente difícil escrever quando nos deparamos com as notícias de Aleppo, por exemplo. O ato da escrita, ao menos para mim, em alguma medida está se figurando como uma espécie de benesse.

ITN – A questão é: como você consegue dar conta do seu dia após ler uma notícia como essas de Aleppo? Ao mesmo tempo, eu tenho a impressão de que um desafio muito grande está sendo colocado na mesa e eu vejo, entre os nossos, pessoas que estão ombreadas com esse desafio. Mesmo no horror, mesmo no pasmo elas ainda estão conseguindo articular algo. E aí nós temos, por exemplo, o Ricardo Domeneck, o Guilherme Gontijo, sabe? São pessoas que mantêm uma produção contínua e que não silenciam diante de todas essas catástrofes que estão o tempo inteiro colocando a nossa própria noção de articulação em risco. Agora, falando de um lugar de pessoalismo abjeto, eu não me sinto facultado a escrever, apesar de estar ciente do desafio que se coloca, e nós temos precedente histórico. As pessoas não pararam de escrever, de criar, elas só reformularam isso para tentar dar conta do horror cada vez mais integrado à própria construção do poema, daquilo que se pode dizer, articular. Todas essas questões poderiam estar sendo rediscutidas e revitalizadas agora. Diante da notícia constante do horror, não da vivência, porque a vivência do horror talvez ainda custe um bocado a chegar até nós, uma articulação sintática perfeita faz senso ainda? Este é o momento em que deveríamos ser o mais claro possível ou que deveríamos tentar plasmar na página a confusão de não conseguir abarcar o acontecimento? Ou seja, que diabos seria um poema escrito agora? Ele é dizível? Ele é legível? Se ele possui a menor conexão com a experiência vivida – e eu acho que tem, porque ele não é apenas um joguete lógico nas mãos dos racionalistas de plantão –, se ele ainda tem que ver com a vida, então, como deve ser agora? São essas questões, acho, que deveriam estar voltando à mesa. Inclusive porque seria saudável uma admissão coletiva de que os tempos estão ficando cada vez mais sombrios, sim. Mas não se trata de uma admissão histriônica do tipo “ai meu deus são os piores tempos”. Não se trata disso, claro. Eu acho que é interessante tentar encontrar um tom que nos permita falar sobre essas coisas com preocupação, mas não com alarde.

SM – Pensando em tudo isso que você acabou de dizer, questionando o que seria o próprio poema e como seria produzí-lo agora, eu preciso repetir aqui a mesma pergunta que tenho feitos a outros tantos poetas: como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje? Você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos? Trocando em miúdos, qual é, para você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

ITN – Como você tem lidado com isso? No seu trabalho, você está se vendo indo para um lugar que é o da articulação e da clareza ou da inarticulação e fúria?

SM – Supostamente, eu não deveria ser aquele que responde as perguntas aqui (risos). Mas eu acho que não sei dizer para onde estou indo enquanto pessoa que escreve poemas. Talvez esse meu surto repentino, essa minha vontade de querer ouvir meus pares diga algo sobre para onde eu estou indo. Desse modo, talvez seja possível dizer que estou, mesmo não deliberadamente, tentando aclarar as coisas. Mas eu realmente não sei. Acho que a grande pergunta que espero responder em mim é a seguinte: “que diabos nós fazemos com aquilo que sabemos fazer, ou seja, com a escrita?” sabe? De que modo nossa prática acha meios de fazer-se possível a cada dia? Para onde estamos conduzindo nossos caminhos? O que nossas leituras estão fazendo, performando? Penso no nosso papel como tradutor, por exemplo, me interessa muito saber qual é o sentido, que coisa significa eu pegar o Sêneca, que está inscríto temporalmente há 2000 anos, e torná-lo relevante agora? Fazê-lo ter senso, sabe?

ITN – Sim. Que coisas nós estamos selecionando, que coisas nós estamos tentando colocar à mostra, sabe? Acho isso muito importante e eu acho também que isso ainda não foi colocado em questão. Eu ainda tenho a certeza de que a atenção é um ato político: a que tipo de coisas você atenta, o que você circula. Acho que todas essas coisas são de uma densidade incrível e penso, ainda, que isso seja, talvez, intocável. Não há horror que venha esvaziar a densidade política da atenção. Da atenção e da curadoria, ainda que este termo parece esnobe. Como você seleciona guinar aquilo que resta de energia do seu dia? A questão é: eu tenho 15% de energia de vida, mas ainda assim eu vou me dedicar a traduzir um autor de vivência homoafetiva do final dos anos 70 porque tem me siderado o fato de que temos pouquíssima informação traduzida da vivência gay no mundo depois dos casos de mais sucesso de escândalo, tipo Tennessee Williams, Jean Genet, Pasolini &c. Então, de alguma forma, eu ainda acho que esses atos, por mais ínfimos que sejam, são uma maneira não boçal de empregar tempo e energia.

 

§

Um novo começo

Prometi a mim mesmo que me absteria do annilingus até consertar os dentes
Que fazer, no entanto, ante a beleza de um corpo que retesa e rompe em outro
Aos trinta anos, uma vontade vesgando, tarda a derrocar
Aos trinta anos
Ó modesta choça de palavras que tanto sonhei pôr de pé não a construí
Nem coisa que fosse ela própria o salto
Cultivei sim ao longo desta temporada em que pouco ou nada fiz senão
Trabalhar e enterrar parentes:
Língua, dedos
A comunicação de certas torções
Os domingos cavados sob os pés dizer adeusinho
Cantar como a Dietrich os rapazes à sala dos fundos
Por mais de uma vez em tempos recentes a República viu-se ameaçada
E minha boca a ocupar-se de estranhos
A História desgarrava-se de nós que numa República ameaçada nos ocupávamos
Que nos ocupávamos de estranhos com as bocas as ruas a se povoarem de
Língua, dedos
Não, eu jamais lá estive
Prometi a mim mesmo que só voltaria a escrever poemas quando
Aprendesse os leões
Contra todas as expectativas, julgo estar no caminho certo

 

§

Palavras às vésperas de uma guerra

Antes do biombo havia a casa
Estes poucos metros quadrados a estacada verdade do sono
Alguém em obscena função remoçando
Todos os sulcos satisfeitos

Vivíamos à insciência destes móveis
Reproduções estantes
Xícaras esmaltadas de negro todas
As nações

Era impossível prever
Todas as nações
Em todo caso, inteiriças, ultimadas
As coisas ultimadas conosco

(to be continued…)

Padrão
tradução

3 traduções para o ‘task of the translator’ da Antigonick de Anne Carson

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parece evidente afirmarmos que as fronteiras entre tradução, reescrita, adaptação e performance são de difícil estabelecimento, parecendo não haver critérios conceitualmente muito sólidos que distingam essas atividades além de perspectivas um tanto quanto subjetivas que as delimitam; sobretudo quando tratamos de peças teatrais que parecem figurar no limiar entre meros textos literários, pra nós, e acontecimentos espetaculares, rituais, jogos (os ludi), pros romanos and gregos, por exemplo.

na história das artes, esse processo de adaptação/tradução/reescrita do imaginário greco-latino sempre ficou ali colado na gente. os mitos e narrativas literárias que vieram da tal antiguidade clássica figuraram como uma fonte inesgotável pra a criação artística em todas as épocas. no teatro contemporâneo, por exemplo, é possível perceber um crescimento, nas últimas décadas, do interesse de dramaturgos e encenadores pelos mitos e textos gregos e romanos, e diversos estudiosos vêm analisando as relações entre a cena contemporânea e esse imaginário. esses enredos têm se mostrado um importante elemento pra criação poética, teatral e política das últimas décadas e alguns dos principais encenadores do período têm dialogado com esse universo.

no caso específico de anne carson, por exemplo, poeta fortemente influenciada pela literatura grega antiga e de sua peça antigonick (2012), a irresolução sobre o caráter do texto (tradução? reescrita? adaptação?) e a performance, centrada no corpo (estático) e na voz (monótona) (clique aqui), buscam recuperar a dimensão ritual das práticas teatrais e performáticas. o pathos trágico é recuperado na medida em que a performance evidencia “a imagem da mulher e mesmo a identidade de ‘gênero’ como uma construção que projeta o olhar masculino”, como bem disse hans lehmann. ou seja, quando o coro – essa entidade tão problemática – se manifesta no corpo e na voz de carson, ainda que sem a recuperação dos rituais de canto e dança, é possível perceber o contínuo drama social feminino, que tem sua fonte direta no incessante conflito das estruturas sociais.

portanto, é a partir dessa relação dialética mutável em que o presente não cessa de lançar luz sobre o passado que se funda a tradição e, consequentemente, o mito – e, com isso, a história das reescritas. a própria poesia romana, com os conceitos de aemulatio, imitatio e contaminatio, já mantinha uma forte relação dialética com a tradição, e no teatro romano os textos produzidos para os festivais públicos, chamados ludi scaenici (“jogos cênicos”, literalmente), que vigoraram por volta de 240 a.C. até a morte de terêncio em 159 a.C., tinham todos como modelo uma ou mais peças gregas.

o ato de verter (a uertit plautina), desse modo, opera um tipo de metamorfose no texto. muda radicalmente a forma, faz algo que, na aparência, resulta totalmente “outro” em comparação ao que era antes. essas traduções, portanto, tratam-se na verdade de relações ativas com a exterioridade, de “adaptações” e “apropriações” da tradição que possuem a capacidade de interferir politicamente no presente. isso equivale a dizer que as peças apropriadas passam a falar mais sobre quem as verteu ao bárbaro e ao tempo em que estão sendo encenadas do que sobre os próprios modelos originais. e o riso e a comiseração sobre o outro tornam-se o riso e a comiseração sobre nós mesmos. sobre os nossos modelos, sobre o nosso tempo e sobre as nossas falhas.

sem mais, passemos às três apropriações.

 

sergio maciel

* * *

the task of the translator of antigone

dear Antigone:
your name in Greek means something like “against birth” or “instead of being born”
what is there instead of being born?
it’s not that we want to understand everything
or even to understand anything
we want to understand something else

I keep returning to Brecht
who made you do the whole play with a door strapped to your back
a door can have diverse meanings
I stand outside your door
the odd thing is, you stand outside your door too

that door has no inside
or if it has an inside, you are the one person who cannot enter it
for the family who lives there, things have gone irretrievably wrong
to have a father who is also your brother
means having a mother who is your grandmother

a sister who is both your nice and your aunt
and another brother you love so much you want to lie down with him
“thigh to thigh in the grave”
or so you say glancingly early in the play
but no one mentions it again afterwards

oh you always exaggerate! my father use to tell me
and let’s footnote here Hegel calling Woman “the eternal irony of the community”
how seriouly can we take you?
are you “Antigone between two deaths” as Lacan puts it
or a parody of Kreon’s law and Kreon’s language – so Judith Butler

who also finds in you “the occasion for a new field of the human”?
then again, “an exemplar of masculine intellect and moral sense”
is George Eliot’s judgment, while to several moderno scholars you
(perhaps predictably)
sound like a terrorist

and Žižek compares you triumphantly with Tito
the leader of Yugoslavia saying NO! to Stalin in 1942
speaking of the ’40s, you made a good impression on the Nazi high command
and simultaneously on the leaders of the French Resistance
when they all sat in the audience
of Jean Anouilh’s Antigone

opening night Paris 1944: I don’t know what color your eyes were
but I can imagine you rolling them now
let’s return to Brecht, maybe he got you best
to carry one’s own door will make a person
clumsy, tired and strange

on the other hand, it may come in useful
if you go places that don’t have an obvious way in, like normality
or an obvious way out, like the classic double bind
well that’s your problem
my problem is to get you and your problem
across into English from ancient Greek
all that lies hidden in these people, your people
crimes and horror and years together, a family, what we call a family
“one of my earliest memories,” wrote John Ashbery in New York magazine 1980,
“is trying to peel off the wallpaper in my room,
not out of animosity
but because it seemed there must be something fascinating

behind its galleons and globes and telecospes”
this reminds me of Samuel Beckett who described in a letter
his own aspirations toward the language
“to bore hole after hole in it until what cowers behind it seeps through”
dear Antigone: you also are someone keeping faith

with a deeply other organization that lies just beneath what we see or what we say
to quote Kreon you are autonomos
a word made up of autos “self” and nomos “law”
autonomy sounds like a kind of freedom
but you aren’t interested in freedom
your plan

is to sew yourself into your own shroud using the tiniest of stitches
how to translate this?
I take inspiration from John Cage who, when asked
how he composed 4’33”, answered
“I built it up gradually out of many small pieces of silence”
Antigone, you do not,

any more than John Cage, aspire to a condition of silence
you want us to listen to the sound of what happens
when everything normal/ musical/ careful/ conventional or pious is taken away
oh sister and daughter of Oidipous,
who can be innocent in dealing with you
there was never a blank slate

we were always already anxious about you
perhaps you know that Ingeborg Bachmann poem
from the last years of her life that begins
“I lose my screams”
dear Antigone,
I take it as the task of the translator
to forbid that you should ever lose your screams

 

a tarefa do tradutor de antígona (tradução buana)

antígona, mulher:
em grego teu nome significa algo tipo “contra o nascer” ou “ao contrário de nascer”
mas o que existe ao invés de nascer?
não que a gente queira entender tudo
ou mesmo entender alguma coisa
a gente quer entender uma outra coisa

eu fico voltando pra brecht
que te fez passar a peça toda com uma porta colada nas costas
uma porta tem vários significados
eu fico parada diante dessa porta
e o estranho é, tu fica do lado de fora da tua porta também

a porta não tem parte de dentro
ou se tiver, tu és a pessoa que não pode entrar
porque pra família que vive lá, as coisas deram bem errado
ter um pai que é também teu irmão
significa ter uma mãe que é tua avó

uma irmã que é ao mermo tempo tua sobrinha e tua tia
e um outro irmão que tu ama tanto que tu quer pegar ele
“coxa com coxa na cova”
ou ao menos você diz que quer, bem no comecinho da peça
mas ninguém fala disso de novo, depois

e como tu sempre exagera! meu pai me dizia
e aqui bora enfiar uma nota de hegel chamando a mulher de “a eterna piada da comunidade”
quão a sério a gente pode te levar?
tu és “antígona entre duas mortes” como lacan diz
ou uma paródia da lei e da língua de kreon — tão judith butler

que inclusive encontra em você “a ocasião para um novo campo do humano”?
e mermo assim, “um exemplo de intelecto masculino e senso moral”
é o julgamento de george eliot, enquanto que para vários estudiosos você
(talvez previsivelmente)
soa como uma terrorista

e zizek te compara afetadamente com tito
o líder iuguslavo que disse não! pra stálin em 1942
falando nisso, tu causasse uma boa impressão no alto comando nazista
e ao mesmo tempo entre os líderes da resistência francesa
quando eles todos se sentaram na plateia
da antígona de jean anouilh

noite de estreia paris 1944: eu não sei a cor dos teus olhos
mas posso imaginar tu girando eles com tédio
bora voltar pra brecht, talvez ele tenha sido o que melhor te entendeu
carregar a própria porta faz de alguém
um sujeito desastrado, cansado e estranho

por outro lado, pode ser proveitoso
se tu for para lugares que não têm uma entrada óbvia, tipo a normalidade
ou uma saída óbvia, tipo síndrome de estocolmo
bom problema teu
meu problema é entender tu e teu problema
cruzando do grego antigo para o inglês
tudo que se mantém escondido nesse povo, teu povo
crimes e horrores e anos tudo misturado, uma família, ou o que chamamos de família
“uma das minhas primeiras memórias”, escreveu john ashbery na new york magazine em 1980,
“é eu tentando descascar o papel de parede do meu quarto,
não porque tivesse irritado
mas porque parecia haver algo fascinante

atrás daqueles navios e planetas e telescópios”
isso me lembra samuel beckett que mais tarde descreveu
suas aspirações em relação à língua
“cavar um buraco atrás do outro, até que aquilo que se esconde escorra pelo furo”
antígona, mulher: tu também és alguém de fé

com uma organização profundamente própria que se encontra logo abaixo daquilo que a gente vê ou diz
para citar kreon, tu és autônoma
uma palavra feita de autos (o self) e nomos (a lei)
autonomia soa como um tipo de liberdade
teu plano

“é costurar tu mesma na tua própria mortalha usando a linha mais fina”
como traduzir isso?
eu me inspiro em john cage que, quando perguntado
como ele compôs 4’33”, disse
“eu fiz gradualmente juntando muitos pedacinhos de silêncio”
antígona, tu não aspira,

mais do que john cage, a uma condição de silêncio
tu queres é que a gente escute o som dos acontecimentos
quando tudo que for normal/musical/cauteloso/convencional ou piedoso nos for tirado
ai, irmã e filha de édipo
quem é que pode ser inocente ao dar rolê contigo?
nunca houve uma tábula rasa

a gente sempre ficou passado com a senhora
talvez tu conheça aquele poema de ingeborg bachmann
dos fim da vida dela que começa
“perdi meus gritos”
antígona, mulher,
eu tomo como a tarefa do tradutor a seguinte:
fazer com que tu nunca perca teus gritos

(trad. adelaide ivánova)

a tarefa de quem traduz antígona

cara Antígona:
seu nome em grego significa algo como “contra a progenitura” ou “em vez de nascer”
que existirá em vez de nascer?
não que desejemos compreender tudo
ou mesmo compreender alguma coisa
desejamos compreender algo mais

torno sempre ao Brecht
que fez você atravessar a peça inteira com uma porta amarrada às costas
uma porta pode comportar diversos significados
posto-me do lado de fora de sua porta
o estranho é que você também se acha postada do lado de fora de sua porta

a porta não tem um lado de dentro
ou, caso o tenha, é você a única pessoa que não pode adentrá-lo
para a família que reside lá as coisas resultaram irrevogavelmente más
ter um pai que é também seu irmão
significa ter uma mãe que é também sua avó

uma irmã tão sobrinha quanto tia
e um outro irmão que você ama a ponto de querer deitar-se com ele
“na cova coxa contra coxa”
pelo menos é o que diz de relance no início da peça
mas ninguém o menciona depois

ora você sempre exagerando! costumava dizer o meu pai
e aqui convocamos Hegel em nota de rodapé chamando a Mulher de “eterna ironia da comunidade”
até que ponto devemos levá-la a sério?
será você “Antígona entre duas mortes” tal como o quis Lacan
ou uma paródia da lei de Kreonte e da linguagem de Kreonte – conforme Judith Butler

que também lhe descobre “ocasião para um novo campo do humano”?
no entretanto, “um exemplo de intelecto masculino e senso moral”
é o juízo de George Eliot, ao passo que para diversos acadêmicos contemporâneos você
(previsivelmente, talvez)
soa como uma terrorista

e Zizek a compara triunfantemente a Tito
líder da Iugoslávia dizendo NÃO! a Stalin em 1942
falando dos anos 1940, que boa impressão causou você junto ao alto comando nazi
e simultaneamente aos líderes da Resistência Francesa
quando sentaram-se todos na plateia
aquando da estreia da Antígona

de Anouilh Paris 1944: não sei de que cor eram seus olhos
mas posso imaginá-la revirando-os agora
voltemos a Brecht, talvez ele tenha sido o que melhor a compreendeu
carregar a própria porta tornará uma pessoa
desastrada, cansada e estranha

por outro lado, pode resultar útil
se se vai a lugares que não têm entrada óbvia, como a normalidade
ou uma saída óbvia, como o clássico impasse
bom eis aí o seu problema
o meu problema é transportar a você e a seu problema
até o Inglês do Grego Antigo
tudo o que jaz oculto nestas pessoas, os seus
crimes horror anos conjuntos, uma família, aquilo a que nomeamos família
“uma das minhas primeiras memórias”, escreveu John Asbhery 1980 na revista New York
“é de tentar arrancar o papel de parede do meu quarto
não por animosidade
mas porque me parecia que devia haver algo fascinante

atrás de seus galeões e globos e telescópios”
isto me lembra o Samuel Beckett que descreveu em uma carta
sua própria aspiração no que concerne a linguagem
“abrir nela sucessivos buracos até que aquilo que se acovardava por detrás escorra para fora”
cara Antígona: você é também alguém que mantém a fé

com uma organização profundamente outra que subjaz ao que vemos ou dizemos, bem no limite
citando Kreonte você é autônoma
palavra composta de autos “eu” e nomos “lei”
autonomia soa como uma espécie de liberdade
mas não é a liberdade que a interessa
seu plano

é costurar a si em sua própria mortalha usando o menor dos pontos
como traduzi-lo?
extraio inspiração de John Cage, o qual, quando lhe perguntaram
como havia composto o 4’33”, respondeu
“Eu o construí gradualmente usando muitos pequenos pedaços de silêncio”
Antígona, você não,

não mais que John Cage, aspira a uma condição de silêncio
você quer que escutemos o som do que se passa
quando tudo que é normal/musical/cuidadoso/convencional ou piedoso é eliminado
ó irmã e filha de Édipo
quem poderá ser inocente no trato consigo
nunca houve tábula rasa

sempre estivemos ansiosos de antemão a seu respeito
talvez conheça aquele poema de Ingeborg Bachmann
de seus últimos anos de vida que começa com
“Eu perco meus gritos”
cara Antígona
tomo como a tarefa de quem traduz
impedir que jamais perca os seus gritos

(trad. ismar tirelli neto)

 

a tarefa da tradutora de antígone

cara Antígone:
seu nome em grego quer dizer algo como “contra o nascimento” ou “ao invés de ter nascido”
o que existe ao invés de ter nascido?
não é que a gente queira entender tudo
ou mesmo entender alguma coisa
o que a gente quer é entender algo mais

estou sempre voltando ao Brecht
que botou você a peça inteira com uma porta amarrada nas costas
uma porta pode ter sentidos diversos
eu aqui fora da sua porta
engraçado é que você também está fora da sua porta

essa porta não tem lado de dentro
ou se tem um lado de dentro, você é a única que não pode entrar
pra família que mora ali, as coisas deram irremediavelmente mal
ter um pai que é seu irmão
é ter uma mãe que é sua avó

uma irmã que é sua sobrinha e é sua tia
e outro irmão que você ama tanto que você quer deitar com ele
“coxa com coxa na cova”
você que diz de relance lá no começo da peça
mas ninguém toca no assunto depois

ai você é uma exagerada! meu pai sempre me dizia
citemos Hegel em nota aqui chamando a Mulher de “eterna ironia da comunidade”
dá pra te levar a sério?
você é a “Antígone entre duas mortes”, como diz Lacan
ou uma paródia da lei de Kreon e da linguagem de Kreon – ouJudith Butler,

que também te encontra na “ocasião para um novo campo do humano”?
ou então “um exemplar do intelecto masculino e sentido moral”
é o julgamento de George Eliot, enquanto pra vários críticos contemporâneos você (meio previsivelmente)
soa meio terrorista

e o Žižek triunfante compara você com Tito
o líder iugoslavo dizendo NÃO! pro Stalin em 1942
falando nos anos 40, você causou boa impressão no alto escalão nazista
e ao mesmo tempo nos líderes da resistência francesa
quando eles sentaram juntos pra assistir
a Antigone de Jean Anouilh

noite de estreia, Paris 1944: não sei qual era a cor dos seus olhos
mas posso imaginar você rolando eles de tédio agora
vamos voltar pro Brecht então, ele foi quem te fez melhor
carregar a própria porta faz alguém ficar
esquisito, cansado, estranho

por outro lado, pode ser que seja útil
se você frequenta lugares sem uma entrada óbvia, como a normalidade
ou uma saída óbvia, como o clássico double bind
bom, isso é problema seu
o meu problema é trazer você e o seu problema
pro inglês do grego antigo
tudo que se esconde nesse povo, o seu povo
horror e crimes e tantos anos juntos, uma família, o que nós chamamos de família
“uma de minhas memórias mais remotas”, escreveu John Ashbery na revista New York em 1980,
“é a de tentar descascar o papel de parede no meu quarto,
não por animosidade
mas porque parecia que devia ter alguma coisa fascinante
atrás dos globos, galeões e telescópios”
isso me lembra Samuel Beckett que descreveu numa carta
suas próprias aspirações quanto à linguagem
“gastar lacuna após lacuna até que vaze tudo aquilo que estiver acuado detrás dela”
cara Antígone: você também é alguém que mantém a fé

com uma organização profundamente outra que subjaz o que vemos e o que falamos
citando Kreon, você é autonomos
palavra composta de autos, “própria”, e nomos, “lei”
autonomia soa como uma certa liberdade
mas você não está interessada em liberdade
seu plano

é se costurar em sua própria mortalha com os pontos mais diminutos
como traduzir isso?
eu me inspiro em John Cage que, quando perguntado
sobre como ele compôs 4’33”, respondeu
“Eu construí essa música com muitos pedacinhos de silêncio”
Antígone, você não

não mais que John Cage, aspira a uma condição de silêncio
você quer que escutemos o som do que acontece
quando tudo que é normal/musical/cuidadoso/convencional ou pio é levado embora
ó irmã e filha de Oidipous,
quem pode ser inocente ao lidar com você
nunca houve uma tabula rasa

nós sempre estivemos ansiosos por causa de você
talvez você conheça aquele poema de Ingeborg Bachmann
dos últimos anos da vida dela que começa
“perdi meus gritos”
cara Antígone,
considero a tarefa do tradutor
não deixar você jamais perder seus gritos

(trad. rodrigo tadeu gonçalves)

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poesia

6 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985-)

bartleby

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro; vive atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopioRamerrão, Alguns Dias Violentos Os Ilhados.

Março, 2016

Tampouco ele pode pôr-se de pé
Tampouco consegue despegar da infirme terra a testa da grave superfície da pilastra
Tampouco ele encontra a brochura
Tampouco ele capaz de dar nó
Tampouco lhe ocorre
Tampouco consegue carrear os embrulhos avenida abaixo
Tampouco ele com os caixotes de papelão
Tampouco ele na tarde tamisada
Tampouco cães, carroceiros
Tampouco nesta carnadura
Ele contorna
Tampouco consegue exculpar-se
Tampouco bordar, bordear
Tampouco falta

§

Pequena Galeria

Os rapazes daqui
o muito que emudecem
de seus “senhores”

estão pelas esquinas chupando
smoothies de carvão
nos olhos um fosco sem dor

(cinza venoso)

pernas espapaçadas
sobre os frades da calçada
dedos de papel-carbono e

o asfalto a trepar-lhes pelos jeans
sapatos sujos compondo
nas caras uma fixidez diabólica

§

Dois Postais Catastróficos

I.

Cores trompeteando
montanhas
tomadas em gesto
de atirar qualquer coisa de volta ao mar
(doze picos, doze apóstolos)

indefensibilidade de um céu
rosa ritz

ante as rochas as ondas
mantêm as espinhas eretas
alunos bem-comportados

II.

Este o seu rosto comprido quando o outono entrava
colhia-se um cheiro a peixe
este o seu rosto a oscilar com os números oficiais
às toneladas toneladas?
levados em caminhões de noite
aos outeiros da periferia

esta a sua carranca estampando-se asfáltica
água, montanhas treliçadas
aquilo que não ejaculava transparente?

§

“World Music”

Sou tão interessante quanto qualquer outro sujeito do meu tempo
Um pouco mais, talvez, porque raramente prestava atenção
Nos pequenos cinemas do centro da cidade
Aquele que empalideceu por anos
As costas supliciadas, clarão cambaleante, concluía
O sol lá fora
Tira um avermelhado de folhas verdes, atina-se
Com alguma coisa que as luzes logo vêm
pôr sob luz diversa,
enfim, uma lata de particularidades que ignoro
(No centro de particularidades que ignoro)
Porém, se a certos fenômenos tornei-me praticamente insuscetível
Outros tantos parecem interessar-me cada vez mais
No rebordo, braços cruzados, é terrivelmente pitoresco
Dar cobro de si num parque gramado
Fazendo planos, catando uma estação de world music

§

Passeio um Pouco Grave

Caminho caminho só
a contextura deste museu
acontece-me vez por outra
pisar numa coruja
a maravilha
ante todo o insepulto caminho
caminho só
a qualidade de minha própria atenção
poucas palavras a luz
repastada no mundo
caminho caminho só
talvez meus braços percam
um dia algo
desta terrível formalidade

§

 

Possível Siroco

Começa a continuar
todas as tardes, estendido o agasalho sobre um barranco
o parque a sentar-se os rangidos
pesavam-lhe
quem sabe?
cortinadas de neve este ano ainda
quem sabe?
paciência
todas as tardes
o agasalho, o parque todo fosco
começa a projeção
começa poucos espectadores continua
recolhendo palavras do emprego todo fosco
torrista escreve muita vez no verso de uma circular
todas as noites a mesma coletânea intitulada
The Blitz Years
numa noite de vento quente recosto-me à janela
penso em você sobretudo na solidez do clima

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