nota crítica: “Poemas” de pier paolo pasolini, por ernesto von artixzffski

pasolini

saiu há pouquíssimo tempo, coisa de um mês só, o livro Poemas de pasolini; uma seleção poética organizada pelo trio que vem encabeçando as recentes publicações italianas da cosac: maria betânia amoroso (escrevendo o posfácio), alfonso berardinelli (na organização e introdução) e maurício santana dias (tradução e notas).

tendo a oportunidade de ter trabalhado com a editora na feira literária do sesc, que acontece todo ano aqui em curitiba, onde o livro foi posto à venda pela primeira vez, e vendo que a maior parte do público desconhecia o fato de pasolini ter escrito poesia,  fica impossível negar o louvor da publicação. o livro, me parece, surge em bom momento: pasolini poeta não existia no brasil! e somente 40 anos após seu brutal assassinato – até hoje um bocado obscuro e misterioso – é que nos chega uma primeira tradução. isso nos diz muito sobre nós mesmos: a poesia de pasolini parece-nos fundamental hoje.

nessa primeira edição brasileira, temos poemas de sete livros de poesia publicados em vida pelo autor (“a melhor juventude”, escrito em dialeto friulano, “o rouxinol da igreja católica”, “diários [1943-53]”, “as cinzas de gramsci”, “a religião do meu tempo”, “poesia em forma de rosa”, “trasumanar e organizar” e “a nova juventude”), seguido por excertos de três obras ensaísticas, “empirismo herético”, “escritos corsários” e “cartas luteranas”. ou seja, isso nos dá um panorama significativo, ainda que pequeno, claro, diante da vastíssima obra de pasolini, de pelo menos 30 anos de produção poética, e com isso é dado ao leitor acompanhar o percurso do quase puro lirismo dos primeiros poemas em friulano à perfeita indistinção entre poesia e prosa, com uma maior liberdade temática e formal, dos últimos livros e dos ensaios-poéticos

dito isso, tenho cá minhas ressalvas. ressalvas que, a meu ver, servem  de modo algum para depreciar o projeto em si, mas para pensar o modo de se conceber e apresentar antologias de poetas inéditos (ou mesmo dos não inéditos). críticas, duas, que se constituam talvez como mero desdobramento duma mesma: tradução e crítica (ou tradução-crítica).

embora haja “sempre uma violência contida no gesto de antologizar”, como bem disse davi pessoa, em sua resenha para o jornal o globo (clique aqui), essa violência se dará (ou ao menos assim deveria) sempre de modo consciente. a questão, portanto, não é pensar que esse ou aquele poema ficaram de fora, mas sim lidar com suas ausências, balizadas pelos motivos antológicos que justificam a seleção. é nesse sentido que, dado o caráter pioneiro do projeto, uma antologia – essa antologia! – não poderia deixar de justificar suas violências. essas justificativas, penso, que poderiam figurar como uma espécie de aporte crítico, seriam menos um mea culpa dos organizadores que uma abertura de leitura crítico-interpretativa a um leitor menos competente (ou menos pleno, ou monolíngue) no que diz respeito à poesia.

pasolini nasceu-nos sem maiores explicações.

penso que traduzir um poeta pela primeira vez é, sobretudo, fundar-lhe numa determinada cultura, fundando, também, através da tradução, sua primeira fortuna crítica, sua gramática poética, seu discurso (afinal, “com a tradução, não se crê em passar de um código a outro, mas, uma vez que sempre se traduzem discursos, textos particulares, e não línguas, são as relações com a língua, em cada caso diferentes, tanto do texto traduzido quanto do tradutor, que são evidenciadas e interrogadas”). mas essa ideia de tradução-fundadora deve, acredito, estar ligada a uma tradução que se proponha poética, e portanto crítica.

por certo a obra poética de pasolini não é uma obra de assimilação imediata. isso equivale a dizer que sua poesia, seu estilo, não se encerram num determinado modelo poético definido e amplamente praticado. pasolini foge a movimentos e escolas. seu experimentalismo comporta uma grande quantidade de engajamento; o emprego de recursos poéticos nitidamente modernos entra em choque com sua monstruosa máscara de “força do passado”; sua forma próxima à prosa ainda guarda recursos inerentes à poesia, como a rima, por exemplo. ou seja, a poesia de pasolini apresenta um caráter “onívoro”, “híbrido”, uma enorme variedade de procedimentos formais, compreendida por muitos como uma recusa à modernidade.

partindo disso tudo que foi dito, a tradução de maurício santana dias (nossa primeira tradução, acho importante sempre relembrar) não me parece muito preocupada em resolver muitos desses problemas. não me parece, até certo ponto, dar conta dessa multiplicidade de formas e procedimentos presentes na poesia do italiano. isso, claro, não é mesmo que dizer que se trate de uma tradução mediana, para usar um termo de haroldo de campos, ou que nivele os poemas por baixo, ou algo que o valha. considero apenas não se tratar de uma tradução poética (e portanto crítica). nada recriminável por si só, obviamente, mas que parece pesar um pouco quando esbarra num aporte crítico conciso demais.

alguns exemplos, talvez, ajudem um bocado a entendermos. em “balada do delírio” (p. 42), por exemplo, as rimas presentes no original são postas à parte na tradução, ainda que o tradutor, numa nota (p. 270), nos informe que segundo o próprio pasolini o esquema formal seria derivado de villon. vejamos:

Solo, solo, una statua di cera
indurita dal vecchio raggio
della mia vita già leggera…
E torna l’aria della sera
muta nel cuore del linguaggio.
Con sospiri d’anni è svanita
in lucidi orizzonti, aria
alitata da gole d’angeli,
l’esistenza – e torna alle nari
del mio cadavere, mare
di giorni dagli Ave agli Angelus.
[…]

Só, só, uma estátua de cera
endurecida pelo velho raio
de minha vida passageira…
E torna o ar da tarde
mudo no coração da linguagem.
Em anos de suspiros dissipou-se
em claros horizontes, ar
bafejado por gorjas de anjos,
a existência – e volta às narinas
de meu cadáver, mar
de horas da Ave-Maria ao Ângelus.
[…]

bem mais à frente, no poema “a poesia da tradição”, do livro “transumanar e organizar”, o verso ché organizzar significar per verba non si poria é traduzido por “porque organizar significar per verba não poderia”, constando apenas a seguinte nota: “Aqui Pasolini faz um jogo intertextual com a Commedia de Dante (“Transumanar significar per verba non si poria” Paraíso, 1, vv. 70-71), a que o título do volume Transumanar e organizar remete.”. esse caso específico eu vejo menos como problema formal (ou seja, a opção de manter o per verba) que propriamente de extensão crítica a um leitor menos experiente.

enfim & em suma, ao meu ver, é nisso que peca um pouco essa antologia: considerar pasolini parte de um cânone poético prescindível de maiores explicações. mas cânone pra quem? não para um não-leitor de italiano, ou para um leitor monolíngue. essa é nossa primeira tradução do pasolini poeta, e isso só já constitui um puta mérito, mas é justamente por ser a primeira que muita coisa permanece um tanto quanto vaga: os “hendecassílabos hipotéticos” permanecem obscuros, as oscilações líricas de certo modo tendem a se padronizar, a “desesperada vitalidade” e a “força do passado” são entrevistas com um certo esforço. a crítica não valida a tradução, nem a tradução se propõe crítica.

contudo, e do modo que for, teje fundado nosso pier paolo! nosso poeta pasolini. e isso temos muito que comemorar.

Trilussa, por Daniel Dago

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Trilussa, pseudônimo de Carlo Alberto Camillo Mariano Salustri (1871-1950) – Trilussa é anagrama de Salustri –, foi um dos maiores poetas satíricos da Itália. Apesar da enorme fama em seu país natal, não alcançou sucesso no exterior, em grande por ter escrito especialmente em dialeto romano. Suas inúmeras “favole” (fábulas) são conhecidíssimas até hoje.

Escrito em italiano, “L’uccelletto” (literalmente, “o passarinho”, mas escolhemos “o pintinho” a fim de manter a conotação sexual do original) tem duas versões, ambas atribuídas a Trilussa. Escolhemos a mais conhecida, que se tornou viral na internet com a hilária interpretação feita numa rádio pelo tenor Andrea Bocelli. Dá para escutá-la aqui:

“Er porco e er somaro” (O porco e o burro) faz parte das “fábulas” escritas em dialeto romano. “Avarizzia” (Avareza), também em romano, faz parte de um círculo de poesias sobre os sete pecados capitais.

Daniel Dago

* * *

L’UCCELLETTO

Era d’Agosto e un povero uccelletto
ferito dallo fionda di un maschietto
andò per riposare l’ala offesa,
sulla finestra aperta di una chiesa.

Dalle tendine del confessionale
il parroco intravide l’animale
ma, pressato dal ministero urgente,
rimase intento a confessar la gente.

Mentre in ginocchio alcuni altri a sedere
dicevano i fedeli le preghiere,
una donna, notato l’uccelletto,
lo prese al caldo e se lo mise al petto.

D’un tratto un cinguettio ruppe il silenzio e il prete a quel rumore
il ruolo abbandonò di confessore.
Scuro in viso peggio della pece,
s’arrampicò sul pulpito e poi fece:

“Fratelli! Chi ha l’uccello per favore
esca fuori dal tempio del Signore!”
I maschi, un po’ stupiti a tal parole,
lenti s’accinsero ad alzar le suole,

ma il prete a quell’errore madornale
“Fermi” gridò “mi sono espresso male!
Rientrate tutti e statemi a sentire,
solo chi ha preso l’uccello deve uscire!”

A testa bassa, la corona in mano,
cento donne s’alzarono pian piano.
Ma mentre se ne andavano ecco allora che il parroco strillò:
“Sbagliate ancora, rientrate tutte quante figlie amate
che io non volevo dir quel che pensate!

Ecco, quello che ho detto torno a dire,
solo chi ha preso l’uccello deve uscire,
ma, mi rivolgo, non ci sia sorpresa,
soltanto a chi l’uccello l’ha preso in chiesa!”

Finì la frase e nello stesso istante
le monache s’alzarono tutte quante
e con il volto pieno di rossore
lasciavano la casa del Signore.

“O Santa Vergine!” esclamo il buon prete
“Fatemi la grazia se potete.
Poi senza fare rumore dico, piano piano
s’alzi soltanto chi ha l’uccello in mano!”

Una ragazza che col fidanzato
s’era messa in un angolo appartato
sommessa mormorò con viso smorto
“Che ti dicevo, hai visto? Se n’è accorto!”

O PINTINHO

Era agosto e um pobre pintinho,
ferido por um estilingue de um menininho,
pousou com a asa quebrada
na janela aberta de uma igreja lotada.

Pela cortina do confessionário
entreviu o animal o pároco solidário,
mas pressionado pela urgência,
foi obrigado às pessoas prestar assistência.

Enquanto de joelho alguns ficavam
e os fiéis rezavam,
uma mulher, notando o pintinho,
num ímpeto, o pegou e o colocou entre seus peitinhos.

Certo momento, um gorjeio quebra o silêncio e o padre, nesse ruído minoritário,
abandona as pessoas no confessionário.
Com a cara vermelha, pior do que de um visceral,
sobe no púlpito e diz a todos no local:

“Irmãos! Quem tiver um pintinho, por favor,
que vá embora do templo do Senhor!”
Os homens, um pouco pasmos com tal declaração,
já se preparavam para rua tomar direção,

mas o padre disse sobre erro fatal:
“Esperem” gritou “me expressei mal!
Entrem todos e fiquem a me ouvir,
só quem pegou no pintinho deve sair.”

Com a cabeça baixa e o véu na mão,
devagarzinho, cem mulheres se foram em vão.
E, enquanto iam-se, o padre gritou:
“Errei novamente, entrem todos os filhos amados,
pois não falei aquilo que vocês tinham pensado!

Bom, repito o que havia dito.
Só quem pegou no pintinho daqui deve ser expelido,
mas me dirijo, não sem surpresa,
apenas a quem pegou no pintinho dentro da igreja!”

Quando terminou a frase, naquele mesmo instante,
as freiras se levantaram e seguiram adiante,
e com rosto cheio de rubor
deixavam a casa do Senhor.

“Ó Virgem Maria!” exclamou o bom padre
“Dê-me uma graça, por piedade.
Sem fazer barulho, digo devagarzinho, devagarzinho,
que se vá somente quem na mão está com o pintinho!”

Uma menina com seu namorado
estava em um canto isolado
quando disse calmamente, mas com o rosto assombrado:
“Não te falei, viu? Sabia que ele tinha notado!”

§

ER PORCO E ER SOMARO

Una matina un povero Somaro
Ner vede un Porco amico annà ar macello,
Sbottò in un pianto e disse: – Addio, fratello,
Nun ce vedremo più nun c’è riparo!

– Bisogna esse’ filosofo, bisogna:
– Je disse er Porco – via nun fa’ lo scemo,
Chè forse un giorno ce ritroveremo
In quarche mortatella de Bologna!

O PORCO E O BURRO

Uma manhã, um pobre Burro,
vendo um Porco amigo ao matadouro tomar direção,
estourou em lágrimas e disse: – Adeus, irmão,
não nos veremos mais, não tem zurro!

– Se recomponha, calma, se recomponha
– disse o Porco – não seja ingênuo.
Talvez um dia nos encontraremos
em alguma mortadela de Bolonha!

§

AVARIZZIA

Ho conosciuto un vecchio
ricco, ma avaro: avaro a un punto tale
che guarda li quatrini ne lo specchio
pe’ vede raddoppiato er capitale.

Allora dice: — Quelli li do via
perché ce faccio la beneficenza;
ma questi me li tengo pe’ prudenza… —
E li ripone ne la scrivania.

AVAREZA

Conheci um velho
rico, mas avarento: avarento a ponto tal
que olha o dinheiro no espelho
para ver duplicado o capital.

Então diz: – Aquele dou para alguém
porque o faço por beneficência;
mas fico com este por prudência… –
E na escrivaninha o mantém.

(Trilussa, trad. Daniel Dago)

 

3 poemas de francesca cricelli

francesca cricelli

Francesca Cricelli (Ribeirão Preto, 1982) tradutora e pesquisadora, seu livro de poemas Repátria será lançado em julho de 2015 (Selo Demônio Negro). Doutoranda em Estudos da Tradução (USP), organizou e traduziu as cartas trocadas entre Ungaretti e Bizzarri 66-68 (Scriptorium, 2013) e é curadora das cartas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco (Mondadori, 2016). Sócia fundadora do Hussardos Clube Literário com Vanderley Mendonça, traduziu plaquettes de Luzi, Pasolini, Ungaretti, Leopardi, Jacopone da Todi presentes na coleção do clube. Adora cozinhar.

* * *

REMOVER DO CORPO AS CROSTAS DO SILÊNCIO

No se puede contemplar sin pasión.
(Borges)

Remover do corpo as crostas do silêncio
tudo que é vivo e exposto grita
e gira, pela avenida
a dor se junta ao rumor.

Para chegar à clarividência
procura-se um ritmo, qualquer um,
que descompasse as artérias —

a vida enverga sobre a avenida
no peito só a voragem do eterno,
a fração do abalo sísmico,
desenha na mão cataclismos.

§

RIMUOVERE DAL CORPO LE CROSTE DEL SILENZIO

No se puede contemplar sin pasión.
(Borges)

Rimuovere dal corpo le croste del silenzio,
ciò che è vivo ed esposto grida
e gira, lungo il Viale
il dolore si mescola al rumore.

Per giungere alla chiaroveggenza
si cerca un ritmo, uno qualunque,
che disallinei le arterie —

sul viale la vita si piega
nel petto solo la voragine d’eterno,
la frazione dello sbalzo sismico,
disegna nel palmo cataclismi.

§

CATEDRAIS

Força sutil e estrondosa
a nossa, catedral
erguida no peito vazio –

no silêncio dos olhos,
sós e incessantes
construímos um penhasco,
ponte de uma dor a outra.

Como todo ser vivo,
hoje estamos
cada um com seu vício.

CATTEDRALI

Forza sottile e scrosciante
la nostra, cattedrale
innalzata sul vuoto del petto –

nel silenzio degli occhi,
soli e incessanti,
abbiamo fatto una scogliera
ponte da un dolore all’altro.

Come ogni essere vivo,
oggi stiamo
ognuno col suo vizio.

§

RISCO

O tempo se arrisca
no mistério
da prece.
O resto é mar.

RISCHIO

Il tempo s’arrischia
nel mistero
del pregare.
Il resto è mare.

2 poemas de pasolini

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pier paolo pasolini (1922-1975) é figurinha conhecida & dispensa apresentações: seus trabalhos como cineasta, crítico & romancista são muitíssimo divulgados, & talvez a faceta menos conhecida de sua obra seja mesmo a poesia, por onde ele começou sua carreira. mas vejam bem, vejam bem: menos conhecida, aqui, certamente não coincide com menos interessante.por isso logo abaixo vão dois poemas- até onde eu saiba – inéditos  em português. as traduções são de cide piquet, davi pessoa & pedro heise.

guilherme gontijo flores

* * *

Versos do testamento

A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.

(Tradução de Cide Piquet e Davi Pessoa)

Versi del testamento

La solitudine: bisogna essere molto forti
per amare la solitudine; bisogna avere buone gambe
e una resistenza fuori del comune; non si deve rischiare
raffreddore, influenza o mal di gola; non si devono temere
rapinatori o assassini; se tocca camminare
per tutto il pomeriggio o magari per tutta la sera
bisogna saperlo fare senza accorgersene; da sedersi non c’è;
specie d’inverno; col vento che tira sull’erba bagnata,
e coi pietroni tra l’immondizia umidi e fangosi;
non c’è proprio nessun conforto, su ciò non c’è dubbio,
oltre a quello di avere davanti tutto un giorno e una notte
senza doveri o limiti di qualsiasi genere.
Il sesso è un pretesto. Per quanti siano gli incontri
– e anche d’inverno, per le strade abbandonate al vento,
tra le distese d’immondizia contro i palazzi lontani,
essi sono molti – non sono che momenti della solitudine;
più caldo e vivo è il corpo gentile
che unge di seme e se ne va,
più freddo e mortale è intorno il diletto deserto;
è esso che riempie di gioia, come un vento miracoloso,
non il sorriso innocente o la torbida prepotenza
di chi poi se ne va; egli si porta dietro una giovinezza
enormemente giovane; e in questo è disumano,
perché non lascia tracce, o meglio, lascia una sola traccia
che è sempre la stessa in tutte le stagioni.
Un ragazzo ai suoi primi amori
altro non è che la fecondità del mondo.
È il mondo che così arriva con lui; appare e scompare,
come una forma che muta. Restano intatte tutte le cose,
e tu potrai percorrere mezza città, non lo ritroverai più;
l’atto è compiuto, la sua ripetizione è un rito. Dunque
la solitudine è ancora più grande se una folla intera
attende il suo turno: cresce infatti il numero delle sparizioni –
l’andarsene è fuggire – e il seguente incombe sul presente
come un dovere, un sacrificio da compiere alla voglia di morte.
Invecchiando, però, la stanchezza comincia a farsi sentire,
specie nel momento in cui è appena passata l’ora di cena,
e per te non è mutato niente; allora per un soffio non urli o piangi;
e ciò sarebbe enorme se non fosse appunto solo stanchezza,
e forse un po’ di fame. Enorme, perché vorrebbe dire
che il tuo desiderio di solitudine non potrebbe esser più soddisfatto,
e allora cosa ti aspetta, se ciò che non è considerato solitudine
è la solitudine vera, quella che non puoi accettare?
Non c’è cena o pranzo o soddisfazione del mondo,
che valga una camminata senza fine per le strade povere,
dove bisogna essere disgraziati e forti, fratelli dei cani.

(Pier Paolo Pasolini,  Trasumanar e organizzar)

§

A um papa

Poucos dias antes de você morrer, a morte
havia posto os olhos sobre um seu coetâneo:
aos vinte anos, você era estudante, ele operário,
você nobre, rico, ele um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre os dois
na velha Roma que voltava a ser tão nova.
Eu vi os seus restos, pobre Zucchetto.
Zanzava de noite bêbado perto do Mercado,
e um bonde que vinha de San Paolo o apanhou
e arrastou um tanto pelos trilhos entre os plátanos:
ficou ali algumas horas, embaixo das rodas:
algumas pessoas se juntaram ao redor para olhar,
em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.
Um dos homens que existem porque você existe,
um velho policial escrachado como um louco,
a quem se aproximava muito gritava: “Fora, cambada!”.
Depois veio o automóvel de um hospital para levá-lo:
o povo foi embora, ficaram uns trapos aqui e ali,
e a dona de um bar noturno pouco adiante,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha sido pego por um bonde, tinha morrido.
Poucos dias depois você morria: Zucchetto era um
do seu grande rebanho romano e humano,
um pobre bebum, sem família e sem cama,
que vagava de noite, vivendo quem sabe como.
Você não sabia nada sobre ele: como não sabia nada
sobre outros milhares de cristos como ele.
Talvez eu seja cruel ao me perguntar por que razão
pessoas como Zucchetto eram indignas do seu amor.
Existem lugares infames, onde mães e crianças
vivem numa poeira antiga, numa lama de outras épocas.
Não muito longe de onde você viveu,
à vista da bela cúpula de São Pedro,
há um desses lugares, o Gelsomino…
Um morro partido ao meio por uma pedreira, e embaixo,
entre um canal e uma fila de prédios novos,
um monte de construções miseráveis, não casas, mas pocilgas.
Bastava apenas um gesto seu, uma palavra,
para aqueles seus filhos terem uma casa:
você não fez um gesto, não disse uma palavra.
Não lhe pediam que perdoasse Marx! Uma onda
imensa que se refrata por milênios de vida
o separava dele, da sua religião:
mas na sua religião não se fala de piedade?
Milhares de homens sob o seu pontificado,
diante dos seus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Você sabia, pecar não significa fazer o mal:
não fazer o bem, isto significa pecar.
Quanto bem você podia ter feito! E não fez:
nunca houve um pecador maior que você.

(Tradução de Pedro Heise e Cide Piquet)

A un papa

Pochi giorni prima che tu morissi, la morte
aveva messo gli occhi su un tuo coetaneo:
a vent’anni, tu eri studente, lui manovale,
tu nobile, ricco, lui un ragazzaccio plebeo:
ma gli stessi giorni hanno dorato su voi
la vecchia Roma che stava tornando così nuova.
Ho veduto le sue spoglie, povero Zucchetto.
Girava di notte ubriaco intorno ai Mercati,
e un tram che veniva da San Paolo, l’ha travolto
e trascinato un pezzo pei binari tra i platani:
per qualche ora restò lì, sotto le ruote:
un po’ di gente si radunò intorno a guardarlo,
in silenzio: era tardi, c’erano pochi passanti.
Uno degli uomini che esistono perché esisti tu,
un vecchio poliziotto sbracato come un guappo,
a chi s’accostava troppo gridava: “Fuori dai coglioni!”.
Poi venne l’automobile d’un ospedale a caricarlo:
la gente se ne andò, restò qualche brandello qua e là,
e la padrona di un bar notturno, più avanti,
che lo conosceva, disse a un nuovo venuto
che Zucchetto era andato sotto un tram, era finito.
Pochi giorni dopo finivi tu: Zucchetto era uno
della tua grande greggia romana ed umana,
un povero ubriacone, senza famiglia e senza letto,
che girava di notte, vivendo chissà come.
Tu non ne sapevi niente: come non sapevi niente
di altri mille e mille cristi come lui.
Forse io sono feroce a chiedermi per che ragione
la gente come Zucchetto fosse indegna del tuo amore.
Ci sono posti infami, dove madri e bambini
vivono in una polvere antica, in un fango d’altre epoche.
Proprio non lontano da dove tu sei vissuto,
in vista della bella cupola di San Pietro,
c’è uno di questi posti, il Gelsomino…
Un monte tagliato a metà da una cava, e sotto,
tra una marana e una fila di nuovi palazzi,
un mucchio di misere costruzioni, non case ma porcili.
Bastava soltanto un tuo gesto, una tua parola,
perché quei tuoi figli avessero una casa:
tu non hai fatto un gesto, non hai detto una parola.
Non ti si chiedeva di perdonare Marx! Un’onda
immensa che si rifrange da millenni di vita
ti separava da lui, dalla sua religione:
ma nella tua religione non si parla di pietà?
Migliaia di uomini sotto il tuo pontificato,
davanti ai tuoi occhi, son vissuti in stabbi e porcili.
Lo sapevi, peccare non significa fare il male:
non fare il bene, questo significa peccare.
Quanto bene tu potevi fare! E non l’hai fatto:
non c’è stato un peccatore più grande di te.

(Pier Paolo Pasolini, La religione del mio tempo.)

salvatore quasimodo, por ernesto von artixzffski

Salvatore Quasimodo

salvatore quasimodo (Sicília, 1901-68) ainda não é muito conhecido por aqui, mas tem sobre sua obra uma aura poética imponente, construída a partir de uma poesia de absoluta beleza e simplicidade. parte da crítica disse: quasimodo é a década de trinta. um exagero, certamente. afinal, se em 32 sai o enigmático oboè sommerso, é no ano seguinte que ungaretti nos brinda com sentimento del tempo. é, também, no mesmíssimo 32 que sai isola de alfonso gatto, um hermetismo surreal; e é de 28 a 39 que montale escreve le occasioni e de 30 a 40 que pavese se dedica a lavorare stanca.

mas ainda que a crítica tenha exagerado, quasimodo de fato se diferencia dos ditos herméticos e foge ao enquadramento fácil. se o hermetismo – que vinha se afirmando mais como um modo fragmentário de se fazer poesia do que como escola ou movimento – era a desforra da palavra sobre a ação, o obscurecimento do significado por uma linguagem que criava a expressão do eu e do indizível, sublimado da essencialidade formal, quasimodo não era apenas isso. o hermetismo quasimodiano cria quase uma religião da palavra, eliminando artigos, isolando substantivos em versos breves, suspendendo verbos com elisões, ou seja, uma forma de poesia tão absoluta que transfigura tudo em palavra poética – uma névoa, uma sombra, uma cadência musical.

em 42 quasimodo junta suas nuove poesie, produzidas entre 36 e 42, aos três primeiros livros, numa edição intitulada ed è subito sera. as novas poesias já apontam uma tentativa de aproximação à realidade, a uma reação antihermética, com as palavras tomando contornos mais discursivos. contudo é em 40, com a tradução de suas lirici greci, que nasce a nova poesia quasimodiana, com uma maior abertura à vida e ao cotidiano. as lições dos gregos se mesclam, se unem, amalgamam com outras lições contemporâneas e igualmente atrozes e funestas. é disso que surge o novo quasimodo, com uma “poesia lírica que com o fogo clássico expressa a trágica experiência da vida em nosso tempo”, como diz a motivação do nobel em 59.

vale lembrar ainda que o poeta se dedicou à tradução: além dos líricos gregos, verteu também alguns carmina do catulo, teatro de shakespeare e molière, e poesia de neruda e cummings.

ernesto von artixzffski

* * *

RIDE LA GAZZA, NERA
SUGLI ARANCI

Forse è un segno vero della vita:
intorno a me fanciulli con leggeri
moti del capo danzano in un gioco
di cadenze e di voci lungo il prato
della chiesa. Pietà della sera, ombre
riaccese sopra l’erba cosí verde,
bellissime nel fuoco della luna!
Memoria vi concede breve sonno;
ora, destatevi. Ecco, scroscia il pozzo
per la prima marea. Questa è l’ora:
non più mia, arsi, remoti simulacri.
E tu vento del sud forte di zàgare,
spingi la luna dove nudi dormono
fanciulli, forza il puledro sui campi
umidi d’orme di cavalle, apri
il mare, alza le nuvole dagli alberi:
giá l’airone s’avanza verso l’acqua
e fiuta lento il fango tra le spine,
ride la gazza, nera sugli aranci.

(Ed è subito sera, 1942)

RI O CORVO, NEGRO
SOBRE AS LARANJEIRAS

Talvez seja um signo verdadeiro da vida:
ao meu redor meninos com ligeiros
movimentos de cabeça dançam num jogo
de cadência e vozes ao longo do prado
da igreja. Piedade da tarde, sombras
reacesas sobre a grama tão verde,
belíssimas ao fogo da lua!
Memória vos concede breve sono;
Agora, desperta! Aqui, despejado o poço
pela primeira maré. Esta é a hora:
não mais minha, ársis, remotos simulacros.
E tu vento do sul forte de azares
empurra a lua onde dormem desnudos
meninos, força o potro aos campos
úmidos de passos de cavalos, abre
o mar, levanta as nuvens das árvores:
já a garça avança para a água
e fareja, lenta, o barro entre os espinhos,
ri o corvo, negro sobre as laranjeiras.

RIPOSO DELL’ERBA

Deriva di luce; labili vortici,
aeree zone di soli,
risalgono abissi: apro la zolla
ch’è mia e m’adagio. E dormo:
da secoli l’erba riposa
il suo cuore con me.

Mi desta la morte:
piú uno, piú solo,
battere fondo del vento:
di notte.

(Òboe sommerso, 1930)

REPOUSO DO CAMPIM

Deriva da luz; lábeis vórtices,
aéreas zonas de sóis,
ressobem abismos: abro a gleba
que é minha e me alento. E durmo:
por séculos o capim repousa
seu coração com o meu.

Me excita a morte:
mais um, mais só,
bater fundo no vento,
à noite.

ED È SUBITO SERA

Ognuno sta solo sul cuor della terra
trafitto da un raggio di sole:
ed è subito sera.

(Acque e terre, 1930)

E DE REPENTE É NOITE

Todos estão sós sobre o centro da terra
furados por um raio de sol:
e de repente é noite.

BASTA UN GIORNO
A EQUILIBRARE IL MONDO

L’intelligenza la morte il sogno
negano la speranza. In questa notte
a Brasov nei Carpazi, fra alberi
non miei cerco nel tempo
una donna d’amore. L’afa spacca
le foglie dei pioppi ed io
mi dico parole che non conosco,
rovescio terre di memoria.
Un jazz buio, canzoni italiane
passano capovolte sul colore degli iris.
Nello scroscio delle fontane
s’è perduta la tua voce:
basta un giorno a equilibrare il mondo.

BASTA UM DIA
PARA EQUILIBRAR O MUNDO

A inteligência a morte o sonho
negam a esperança. Nesta noite
em Brasov, nos Cárpatos, entre árvores
não minhas, busco no tempo
uma mulher de amor. O calor sufoca
as folhas dos álamos e eu
me digo palavras que não conheço,
reviro terras da memória.
Um jazz escuro, canções italianas
passam invertidas sob as cores dos arcos-íris.
No rugido das fontes
perdeu-se tua voz:
basta um dia para equilibrar o mundo.

(poemas de salvatore quasimodo, traduções de ernesto von artixffski)

Via, de Caroline Bergvall

Caroline_Bergvall

Caroline Bergvall é uma poeta nascida em 1962 na Alemanha, filha de um casal franco-norueguês, e radicada na Inglaterra desde 1989. Como era de se esperar, com um background cultural desses, sua produção se foca em temas como multilinguismo, bem como também feminismo e questões de identidade cultural, muitas vezes trabalhando não só com o texto escrito, mas também performance, poesia sonora e instalações multimídia. Sua instalação Say: ‘Parsley’, por exemplo, tem como foco conflitos entre registros de fala e foi comissionada e exibida pela primeira vez pela Spacex Gallery em Exeter em 2001. Sua obra escrita inclui os livros Strange Passage: A Choral Poem (1993), Goan Atom (2001), Fig (2005) – onde está incluído o texto de Say: ‘Parsley’, junto do texto anglo-francófono “About Face” e do poema “Via”, de que falaremos aqui –, Alyson Singes (2008), uma versão sincrética de inglês moderno com inglês médio do conto da Mulher de Bath de Chaucer, e Meddle English (2010), onde Bergvall dá continuidade a esse trabalho de exploração do inglês médio em contato com o inglês moderno, o francês e o norueguês.

“Via”, em referência ao verso “che la diritta via era smarrita” do primeiro terceto do Inferno, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, é um poema conceitual já bastante notório. Como aponta esse comentário de Genevieve Kaplan na revista Jacket, ele é algo anômalo em Fig, porque é um poema com “cara de poema”, no meio de outros textos poéticos em formatos mais prosaicos e fragmentários. Sua proposta é simples: pegar todas as 47 traduções registradas do Inferno na British Library e transcrever o primeiro terceto de cada uma, com o sobrenome do tradutor e ano de publicação abaixo, organizando-os em ordem alfabética (primeiro uma tradução cujo primeiro verso é “Along the journey of our life half way”, depois outro que começa com “At the midpoint in the journey of our life” e assim por diante). A ideia é algo incomum, mas o efeito é hipnótico, com a figura de Dante constantemente reentrando a e se perdendo na floresta escura, o “sujeito da escrita desaparecendo infinitamente nas palavras de tradutores de Dante”, como diz Marjorie Perloff, em O Gênio Não Original. Continua ela depois:

“Ao organizar as traduções em ordem alfabética (pela primeira letra do primeiro verso, começando com “Along the journey of our life halfway”), ignorando a cronologia e inserindo o nome e a data do autor em parênteses após a citação, Bergvall produziu um texto estarrecedor que demonstra o quanto é impossível – e, no entanto, inevitável – a tarefa da tradução. A selva oscura de Dante é ao mesmo tempo escura [dark], sem sol [sunless], sombria [darkling], tenebrosa [gloomy], grande [great], obscura [obscure], umbrosa [shadowy] e fosca [darksome]; sua via diritta pode ser o caminho mais próximo ou o correto, a estrada direta ou o caminho adequado; essa estrada está smarrita – perdida [lost], bloqueada [blocked], desviada [strayed from], impossível de encontrar [not to be found]. Os tradutores citados variam de poetas famosos do século 19 como Longfellow (1867) a contemporâneos como Robert Pinsky (1994) e inclui tradutores já estabelecidos, de Henry Francis Cary (1805) a Allen Mandelbaum (1980), a figuras obscuras, tais como James Innis Minchin (1885) ou Geoffrey L. Bickersteth (1955). Igualados pelo jogo alfabético e desindividualizados pela omissão do primeiro nome do tradutor, esses tercetos citados (alguns rimados em esquema aba como na terça rima, alguns em verso livre ou prosa) transmitem a genialidade do original, cujas palavras, cada uma delas, encontram ressonâncias com possíveis sentidos mesmo ao produzirem um poema independente escrito num nonsense curioso de “meio de caminho”, variantes de rimas repetidas midway/astray e versos iniciais com “amid”, “in the middle of” e “half-way”, de modo que o badalar dos sons produz um tipo de salmodia, perturbada a cada quatro versos pelo som e imagem discordantes de um nome próprio e data ordinários.”

Ilustração de William Blake para o Canto I
Ilustração do Canto I, por William Blake

 

Para a tradução, Bergvall então cria um problema curioso. Talvez seja possível fazer uma tradução poética, digamos, “normal” de “Via”, se atentando para as diferentes refrações das palavras do italiano na língua inglesa e no modo como dá para reproduzir esse efeito no português sem acabar se prendendo ao original de Dante… o que pode ser particularmente complicado no caso das 17 destas traduções que são rimadas (e um número maior que ainda é metrificado). A coisa da ordem alfabética, porém, seria um problema. No entanto, eu imagino que a graça esteja em refazer o mesmo movimento que Bergvall fez, uma recriação se valendo do mesmo princípio: pegar as traduções disponíveis de Dante para o português (o que, infelizmente, dá um número menor do que 47), transcrevê-las, com sobrenome e data, e dispô-las em ordem alfabética. Foi o que fez, no ano passado, no espanhol, o tradutor Carlos Soto Román para a revista Letras En Línea, cuja tradução pode ser lida clicando aqui.

E isso nos leva a pensar uma questão do conceitualismo que é a sua relação tensa com a possibilidade da tradução. A poesia conceitual, especialmente a do conceitualismo mais de raiz, como praticado por Kenneth Goldsmith, Vanessa Place e outras figuras infames da contemporaneidade, inverte a dinâmica estabelecida por Mallarmé de que poesia se faz com palavras e não com ideias, constituindo uma poética de fato de ideias (mais sobre aqui neste artigo de Archambeau). Na prática, isso significa que, se pensarmos numa dicotomia entre projeto e execução – em que um poeta começa com uma ideia sobre um poema e elabora sobre ela – a poesia moderna mais tradicional, canônica, apesar de vir exigindo cada vez mais originalidade dos projetos (literalmente pode-se dizer que não se faz mais poemas pastorais como antigamente), privilegia a execução (que pode ser mal feita mesmo quando um poeta tem um projeto bom, o que dá sempre aquela sensação horrível de potencial desperdiçado), ao passo que, para a poesia conceitual, a execução (que, como diz Goldsmith, talvez de piada, mas não dá para ter certeza, não é para ser lida) é menos importante do que o projeto – e isso, no limite, faz com que cada poema conceitual seja irrepetível. Você pode escrever um livro inteiro de poemas amorosos, com a variação dos poemas entre si repousando em sua execução, mas não é possível repetir um poema como “Via” e menos ainda um livro absurdo como Traffic, de Goldsmith, porque a novidade por trás da ideia se esgota muito rapidamente. Desse modo, a linha entre tradução e criação (não-)original é cada vez mais borrada, mais ainda do que no caso das traduções “normais” de poesia, porque, ao mesmo tempo em que eu posso apresentar o “meu” “Via” como uma tradução, eu também posso dizer que se trata de um novo poema conceitual em português que segue os mesmos parâmetros, mas envolvendo as traduções de Dante para o português – mais ou menos como eu poderia aproveitar a ideia por trás dos poemas amorosos altamente imagéticos de cummings, por exemplo, para escrever os meus próprios poemas amorosos em português. Talvez seja por isso que Goldsmith tenha dado declarações difíceis de engolir como a de que a tradução está “ultrapassada” e que o “deslocamento” (displacement) é o que deverá tomar o seu lugar (clique aqui). Diz ele:

“A tradução é o grande gesto humanista. Educada e razoável, é uma construtora de pontes exageradamamente cautelosa. Sempre pedindo licença, ela roga por compreensão e amizade. É otimista, porém provisória, apostando as esperanças num resultado harmonioso. No final, sempre fracassa, pois o discurso que propõe acaba sendo inevitavelmente fora de registro; a tradução é uma aproximação do discurso.”

Óbvio que devemos ler as opiniões de Goldsmith com um grão (ou um caminhão) de sal (é difícil não enxergá-lo como um tipo de troll literário, afinal de contas, o que é muito interessante dum ponto de vista bakhtiniano, mas isso é assunto para outra ocasião), e eu inclusive tenho um pé atrás com esse discurso num nível ético, especialmente quando essa empolgação dele pelo modernismo do século XXI me traz flashbacks incômodos de Marinetti. Mas, em todo caso, serve de provocação, e a discussão, creio, há de ser frutífera.

Voltando a Bergvall agora, a “minha” tradução (já explico o porquê das aspas) talvez destoe um pouco da proposta dela. As 47 traduções em “Via” estão todas registradas na British Library, ao passo que, das 16 aqui, 5 são, digamos, extra-oficiais. O trabalho aqui começou com um post nessa famigerada rede social que é o facebook, procurando as traduções disponíveis de Dante (um assunto em que, até então, eu era bastante leigo) e eis que o pessoal se empolgou, e o Guilherme Gontijo Flores, o Rubens Canarim, o Daniel Martineschen e o Ademir Demarchi me mandaram as suas traduções desse primeiro terceto (e eu, por fim, cedi e acabei fazendo a minha também). Como, mesmo assim, ainda estamos desfalcados em número de traduções, achei por bem ir contra a letra do projeto do poema (mas seguindo-o em espírito, porque o que há de mais modernismo-século-XXI do que um poema feito no facebook?) e incluí-las, com um agradecimento aos tradutores e também ao poeta Pádua Fernandes e a Gustavo Petter por terem todos me ajudado a encontrar as edições. A que eu tenho é a do Italo Eugênio Mauro, da editora 34, por isso ela e a tradução em domínio público de Xavier Pinheiro foram o meu ponto de partida, ao qual as outras traduções foram sendo somadas depois. No entanto, eu estou ciente de que não consegui localizar todas as traduções. Falta, por exemplo, a do Barão da Vila da Barra, do século XIX, e também me foram apontados nomes como Yan Dargent, Rui Viana Pereira, Fábio M Alberti, Fernanda Botelho, Sophia de Mello Breyner, Armindo Rodrigues, Teixeira de Aguilar, Cordélia Dias D’Aguiar e Cecilia Casas. Esta tradução, portanto, acaba sem querer confirmando o que disse Goldsmith e sendo provisória, um work-in-progress ao qual todos os leitores do escamandro estão convidados a participar – e que pode muito bem, contrariando o Goldsmith, derivar a sua força dessa situação provisória. E por isso eu hesito em dizer que essa tradução seja minha, o que talvez seja a postura mais adequada dentro do conceitualismo.

O original de Bergvall, que não transcrevo aqui por conta do tamanho, pode ser visto no site da Poetry Foundation, clicando aqui.

Adriano Scandolara

Ilustração do Canto I, por Salvador Dali.

Via

17 Variações de Dante

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita

A Divina Comédia – Pt. 1 Inferno – Canto 1 – (1-3)

1. À meia-idade da terrena vida,
perdido achei-me numa selva escura,
a senda certa estando já perdida
               (Ziller, 1953)
2. A meio caminhar de nossa vida
fui me encontrar em uma selva escura:
estava a reta minha via perdida.
               (Mauro, 1998)
3. Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa.
               (Donato, 1978)
4. Ao meio das quebradas desta vida
Me vi perdido pelo breu das brenhas
Extraviado de qualquer saída.
               (Flores, 2014)
5. Aos meus 35 annos, termo medio commum da nossa vida, dei accordo de mim n’uma selva escura, porque do recto caminho me afastára.
               (Pinto de Campos, 1886)
6. DA nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
               (Pinheiro, 1907)
7. Dos dias no mear desta jornada,
Embrenho-me num verde e negro umbral,
Desvio à via reta, irretornada.
               (Canarim, 2014)
8. Em meio do caminho de nossa vida,
encontrei-me por uma selva escura…
Porque o reto (direito) caminho era perdido
               (Tahan, 1947)
9. Era ao mei’ traçado da nossa vida
que me embrenhei numa quiçaça
que a via destra já se via evadida.
               (Martineschen, 2014)
10. No meio do caminho de nossa vida
encontrei-me numa selva escura
porque me tinha extraviado da via do bem
               (Braga, 1955)
11. No meio do caminho desta vida
desencontrei-me numa selva escura
que do rumo direito vi perdida
               (Wanderley, 2004)
12. No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.
               (Campos, 1986)
13. no meio do caminho e da vida
perdi o amor na selva obscura
errando dor, sem direção e saída
               (Demarchi, 2014)
14. No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida
               (Moura, 2011)
15. Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo.
               (Rocha, 1999)
16. Tendo já meia vida palmilhado,
Numa escura floresta me flagrei,
E da correta via fui desviado
               (Scandolara, 2014)

 

(poema de Caroline Bergvall em cima de Dante Alighieri, em tradução de vários tradutores, organizada por Adriano Scandolara)

“cantico delle creature”, de são francisco de assis

hoje nasceu nosso segundo filho. mais um motivo pra louvar a tudo, mesmo sem metafísica.
(what thou lovest well remains, the rest is dross)
até cercados pela dor do mundo, haverá – assim eu digo – haverá espaço para um cântico.

guilherme gontijo flores

Cantico_delle_Creature 1.djvu

Cantico_delle_Creature 2.djvu

Manuscrito mais antigo do poema, séc. XIII. Códice 338, f.f. 33r - 34r, sec. XIII - Biblioteca del Sacro Convento di San Francesco, Assisi
Manuscrito mais antigo do poema, séc. XIII. Códice 338, f.f. 33r – 34r, sec. XIII – Biblioteca del Sacro Convento di San Francesco, Assisi

 

Cantico delle creature / Cantico di fratre Sole

Altissimo, onnipotente, bon Signore,
tue so’ le laude, la gloria e l’ honore et onne benedictione.
Ad te solo , Altissimo, se konfano
e nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue criature,
spetialmente messer lo frate sole,
lo qual’ è iorno, et allumini noi per lui
Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore:
de te, Altissimo, porta significatione.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora luna e le stelle:
in celu l’ ài formate clarite e pretiose e belle.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento
e per aere nubilo e sereno et onne tempo,
per lo quale a le tue creature dài sostentamento.
Laudato si’, mi’ Signore, per sor’ acqua,
la quale è molto utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate focu,
per lo quale ennallumini la nocte:
et ello è bello et iocondo e robustoso e forte.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra madre terra,
la quale ne sustenta et governa,
e produce diversi frutti con coloriti fiori et herba.
Laudato si’, mi’ Signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore
e sostengono infirmitate e tribulatione.
Beati quelli ke’l sosterranno in pace
ca da te, Altissimo, sirano incoronati.
Laudato si, mi’ Signore, per sora nostra morte corporale
da la quale nullu homo vivente po’ scappare:
guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali;
beati quelli ke trovarà ne le tue sanctissime voluntati,
ca la morte secunda no ‘l farà male.
Laudate et benedicete mi’ Signore et rengratiate
e serviateli cum grande humilitate.

(São Francisco de Assis)

Cantico das criaturas / Cântico do irmão Sol

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
Somente a ti, altíssimo, convêm,
e ninguém mais é digno de te nomear.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas tuas criaturas,
especialmente o nobre irmão sol,
que faz o dia e com ele nos ilumina.
É belo e radiante num grande esplendor:
carrega a tua face.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas,
que no céu formaste, claras e preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento,
pelo ar nublado e sereno e todo o clima
donde tiram sustento as tuas criaturas.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é muito útil e humilde e preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
com que a noite se alumia,
pois ele é belo e alegre e vigoroso e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã mãe terra,
que nos sustenta e governa
e produz diversos frutos com flores furta-cores e ervas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor
e suportam doenças e aflições.
Felizes aqueles que as sustentam em paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal,
da qual ninguém que vive pode escapar.
Ai daqueles que morrem em pecados mortais,
felizes os que ela achar na tua santíssima vontade,
pois a morte segunda não lhes fará mal.
Louvai e bendizei ao meu Senhor,
e agradecei e servi-o com toda humildade.

(Tradução: Guilherme Gontijo Flores)

Trabalhar cansa

Cesare_Pavese_2Do poeta, prosador e tradutor italiano Cesare Pavese (1908 – 1950) nós já apresentamos aqui um conto – ou, bem, um poema em prosa ou obra de prosa poética – anteriormente no escamandro, na tradução da Nina Rizzi (clique aqui). Agora seria interessante darmos uma olhadinha breve numa parte da sua obra em verso. Resultado do trabalho de tradução e pesquisa de Maurício Santana Dias e publicada em 2009 pela Cosac Naify, na coleção Ás de Colete, Trabalhar cansa é a tradução para o português do primeiríssimo livro de poemas de Pavese, Lavorare stanca, publicado inicialmente em 1936 e ampliado depois, com quase o dobro do tamanho, em 1943.  No ensaio introdutório escrito pelo tradutor, “A Oficina Irritada de Cesare Pavese” (um título que remete, como se pode ver, a Drummond), Dias descreve Lavorare  como um livro marginal e diz que ele foi pouco lido pelos contemporâneos de Pavese e menos ainda entendido em seu projeto poético, visto que a sua proposta destoava muito das principais linhas da poética modernista e do hermetismo dominante na poesia italiana – tal como se pode observar, por exemplo, em Ungaretti. Sua biografia no site da Poetry Foundation descreve sua linguagem como, ao mesmo tempo “convencional” e “coloquial”, mais próxima de um tom “americano”, o que faz sentido quando se lembra que o autor fez a sua tese na Universidade de Turim sobre Walt Whitman e deixou à sua língua uma extensa obra tradutória de autores ingleses, incluindo nomes como DeFoe, Melville, Dickens, Joyce, Faulkner, Gertrude Stein, John Steinbeck além do poeta modernista americano pouco conhecido que foi Edgar Lee Masters – o que faz com que possamos, curiosamente, enxergar em Pavese uma forma de antecessor dos poetas/tradutores/acadêmicos que são (cof cof) comuns atualmente.

No entanto, mesmo que ele pudesse ter absorvido algo da dicção americanizada, é limitada a influência desses autores em Lavorare stanca. Diz Dias:

Moderno sem aderir às experiências mais radicais da modernidade, clássico sem evidentemente participar da Grécia antiga ou da Itália de Dante, consciente dessas antinomias insolúveis e vivendo o período histórico mais conturbado do século XX, o entre guerras, Pavese se propôs o projeto impossível de construir uma obra literária que condensasse tudo isso de maneira equilibrada. Mas para atingir suas intenções era necessário isolar cuidadosamente os elementos que pudessem pôr em risco a estabilidade do conjunto: o verso livre de Walt Whitman, a redescoberta do barroco pela geração espanhola de 1927 e o uso abundante da enumeração caótica, as colagens do futurismo, a página em branco de Mallarmé, a escrita automática do surrealismo francês, o fluxo de consciência de Joyce e Faulkner (pelos quais o autor não tinha especial predileção, embora os tenha traduzido), o “alusivo e fragmentário” dos herméticos italianos, enfim, todas as experiências que confrontavam os homens de sua geração com a perda de sentidos estáveis.

É nessa postura de ser “moderno sem aderir às experiência mais radicais da modernidade” que acredito que a obra de Pavese se destaque e aponte para algo no moderno que vai além do que as experimentações evidentes – algo, talvez, mais essencial, que o aproxima dos primeiros românticos como Wordsworth. Uma retomada da “poesia-racconto”, metrificada (em pés métricos anapésticos, como aponta o tradutor, um efeito que ele fez questão de se esforçar para reproduzir, ao que todos agradecemos) numa linguagem ao mesmo tempo cultivada e popular, oralizada, com alguma incorporação, ainda que mínima, de elementos do dialeto piemontês, tendo como foco figuras marginais como “trabalhadores rurais, prostitutas, operários de Turim, vagabundos solitários, bêbados e adolescentes descobrindo a sexualidade”, Pavese não retornaria a essa poética na sua obra posterior, vista como mais lírica e musical, o que faz com que a problemática desse projeto concluído – ou talvez fosse melhor dizer abandonado – de Lavorare stanca seja ainda mais interessante.

(Adriano Scandolara)

 

LUA DE AGOSTO

Para além das douradas colinas há o mar,
para além dessas nuvens. Mas tremendas jornadas
de ondulantes colinas que crepitam no céu
se interpõem na frente do mar. Aqui em cima há a oliveira
e esta encharcada que não serve de espelho
e os restolhos, restolhos que nunca terminam.

Eis que a lua aparece. O marido se estende
em um campo, seu crânio partido de sol
— uma esposa não pode arrastar um cadáver
como um saco. Levanta-se a lua lançando uma sombra
sob os galhos torcidos. Na sombra a mulher
lança um guincho de horror ao carão dessangrado
que coagula inundando as ravinas dos montes.
Não se move o cadáver caído nos campos
nem na sombra a mulher. Mas o olho de sangue
quase pisca a alguém indicando-lhe um rumo.

Calafrios percorrem as nuas colinas
à distância, e a mulher os recebe nos ombros
como quando corriam os mares de trigo.
Também vibram os ramos da oliveira perdida
nesses mares de lua, e a sombra da árvore
já parece fechar-se, ameaçando engoli-la.
Ela corre ao aberto, ao terror dessa lua,
e o gemido da brisa na pedra a persegue,
e uma forma suave lhe morde as pegadas,
e uma dor no regaço. Volta curva no escuro
e se joga nas pedras mordendo-se a boca.
Mais embaixo esta terra se lava de sangue.

(Agosto de 1935)

 

LUNA D’AGOSTO

Al di là delle gaie colline c’è il mare,
al di là delle nubi. Ma giornate tremende
di colline ondeggianti e crepitanti nel cielo
si frammettono prima del mare. Quassù c’è l’ulivo
con la pozza d’acqua che non basta a specchiarsi,
e le stoppie, le stoppie, che non cessano mai.

E si leva la luna. Il marito è disteso
in un campo, col cranio spaccato dal sole
— una sposa non può trascinare un cadavere come un sacco —
Si leva la luna, che getta un po’ d’ombra
sotto i rami contorti. La donna nell’ombra
leva un ghigno atterrito al faccione di sangue
che coagula e inonda ogni piega dei colli.
Non si muove il cadavere disteso nei campi
né la donna nell’ombra. Pure l’occhio di sangue
pare ammicchi a qualcuno e gli segni una strada.

Vengono brividi lunghi per le nude colline
di lontano, e la donna se li sente alle spalle,
come quando correvano il mare del grano.
Anche invadono i rami dell’ulivo sperduto
in quel mare di luna, e già l’ombra dell’albero
pare stia per contrarsi e inghiottire anche lei.
Si precipita fuori, nell’orrore lunare,
e la segue il fruscio della brezza sui sassi
e una sagoma tenue che le morde le piante,
e la doglia nel grembo. Rientra curva nell’ombra
e si butta sui sassi e si morde la bocca.
Sotto, scura la terra, si bagna di sangue.

 

DOIS CIGARROS

Cada noite é uma libertação. Os reflexos do asfalto
se destacam nas ruas que se abrem brilhantes ao vento.
Cada raro passante tem rosto e uma história.
A esta hora não há mais cansaço: milhares de postes
estão lá pra quem passa e precisa riscar seu fósforo.

A chaminha se apaga em frente à mulher
que me pede um fósforo. Apaga-se ao vento,
e a mulher, que se frustra, me pede um segundo,
que se apaga. A mulher então ri, acanhada.
Onde estamos podemos falar e gritar,
que ninguém nos escuta. Erguemos a vista
para as muitas janelas — com olhos que dormem —
e esperamos. Então ela encolhe seus ombros
e se queixa da perda da echarpe bonita
que a aquecia nas noites. Mas basta apoiar-se
contra a esquina que o vento de chofre arrefece.
Sobre o asfalto roído se vê uma guimba.
Essa echarpe viera do Rio, mas diz a mulher
que está alegre por tê-la perdido porque me encontrou.
Se a echarpe viera do Rio, cruzou muitas noites
o oceano inundado de luz, em algum transatlântico.
Sim, em noites de vento. É o presente de algum marinheiro.
Já não há marinheiro, e a mulher me sussurra
que, se subo com ela, me mostra sua foto,
cacheado e queimado. Zarpava em imundos vapores
e cuidava das máquinas: sou mais bonito.

Sobre o asfalto estão duas baganas. Olhamos pro céu:
a janela lá em cima — me aponta a mulher — é a nossa.
Mas não há aquecimento. De noite, os vapores perdidos
veem poucos faróis ou somente as estrelas.
Abraçados cruzamos o asfalto, tentando aquecer-nos.

(1933)

 

DUE SIGARETTE

Ogni notte è la liberazione. Si guarda i riflessi
dell’asfalto sui corsi che si aprono lucidi al vento.
Ogni rado passante ha una faccia e una storia.
Ma a quest’ora non c’è più stanchezza: i lampioni a migliaia
sono tutti per chi si sofferma a sfregare un cerino.

La fiammella si spegne sul volto alla donna
che mi ha chiesto un cerino. Si spegne nel vento
e la donna delusa ne chiede un secondo
che si spegne: la donna ora ride sommessa.
Qui possiamo parlare a voce alta e gridare,
che nessuno ci sente. Leviamo gli sguardi
alle tante finestre — occhi spenti che dormono —
e attendiamo. La donna si stringe le spalle
e si lagna che ha perso la sciarpa a colori
che la notte faceva da stufa. Ma basta appoggiarci
contro l’angolo e il vento non è più che un soffio.
Sull’asfalto consunto c’è già un mozzicone.
Questa sciarpa veniva da Rio, ma dice la donna
che è contenta d’averla perduta, perchè mi ha incontrato.
Se la sciarpa veniva da Rio, è passata di notte
sull’oceano inondato di luce dal gran transatlantico.
Certo, notti di vento. E’ il regalo di un suo marinaio.
Non c’è più il marinaio. La donna bisbiglia
che, se salgo con lei, me ne mostra il ritratto
ricciolino e abbronzato. Viaggiava su sporchi vapori
e puliva le macchine: io sono più bello.

Sull’asfalto c’è due mozziconi. Guardiamo nel cielo:
la finestra là in alto — mi addita la donna — la nostra.
Ma lassù non c’è stufa. La notte, i vapori sperduti
hanno pochi fanali o soltanto le stelle.
Traversiamo l’asfalto a braccetto, giocando a scaldarci.

 

PRAZERES NOTURNOS

Nós também nos detemos à escuta da noite
no instante em que o vento é mais cru: as estradas
estão frias de vento, e os odores se calam;
as narinas se erguem ao brilho oscilante.

Todos temos a casa que espera no escuro
nossa volta: no escuro uma mulher no espera
estendida no sono. O aposento se aquece de cheiros.
Nada sabe do vento a mulher que descansa
e respira: o brando calor do seu corpo
é o mesmo do sangue que corre na gente.

Este vento nos lava, ele chega do fundo
das estradas abertas no escuro; as luzes
oscilantes e as nossas narinas crispadas
se debatem expostas. Cada cheiro, uma lembrança.
Desde longe, do escuro, soltou-se este vento
que castiga a cidade — colinas e prados
onde grassa uma relva que o sol escaldou,
uma terra entranhada de humores. Um áspero
cheiro é a nossa lembrança, esta pouca doçura
de uma terra estripada que exala no inverno
um alento profundo. No escuro apagou-se
todo cheiro, e só o vento nos chega à cidade.

Voltaremos de noite à mulher que descansa,
procurando o seu corpo com dedos gelados,
e um calor vibrará nosso sangue, um calor que é da terra
entranhada de humores: um sopro de vida.
Também ela aqueceu-se ao sol e descobre
na nudez desta hora sua vida mais doce,
que de dia se perde e tem gosto de terra.

(1933)

 

PIACERI NOTTURNI

Anche noi ci fermiamo a sentire la notte
nell’istante che il vento è piú nudo: le vie
sono fredde di vento, ogni odore è caduto;
le narici si levano verso le luci oscillanti.

Abbiam tutti una casa che attende nel buio
che torniamo: una donna ci attende nel buio
stesa al sonno: la camera è calda di odori.
Non sa nulla del vento la donna che dorme
e respira; il tepore del corpo di lei
è lo stesso del sangue che mormora in noi.

Questo vento ci lava, che giunge dal fondo
delle vie spalancate nel buio; le luci
oscillanti e le nostre narici contratte
si dibattono nude. Ogni odore è un ricordo.
Da lontano nel buio sbucò questo vento
che s’abbatte in città: giú per prati e colline,
dove pure c’è un’erba che il sole ha scaldato
e una terra annerita di umori. Il ricordo
nostro è un aspro sentore, la poca dolcezza
della terra sventrata che esala all’inverno
il respiro del fondo. Si è spento ogni odore
lungo il buio, e in città non ci giunge che il vento.

Torneremo stanotte alla donna che dorme,
con le dita gelate a cercare il suo corpo,
e un calore ci scuoterà il sangue, un calore di terra
annerita di umori: un respiro di vita.
Anche lei si è scaldata nel sole e ora scopre
nella sua nudità la sua vita piú dolce,
che nel giorno scompare, e ha sapore di terra.

(poemas de Cesare Pavese, tradução de Maurício Santana Dias)

“anos”, de cesare pavese

em micromonumento a mais um aniversário póstumo do escritor italiano cesare pavese, eis este conto – eu quero dizer, este belo poema em prosa narrativo – apresentado & traduzido pela poeta & editora nina rizzi (aguardem alguns poemas dela aqui, meus caros).

guilherme gontijo flores

AVE CESARE! UM ESCRITOR SOFRIDO

por Nina Rizzi

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo.

Escritor de vasta obra em prosa e verso, Pavese completaria hoje 105 anos. Quando publicou seu livro mais famoso Lavorare Stanca/ Trabalhar Cansa, já era reconhecido, tanto por sua literatura quanto por seus estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea (reunidos num volume La letteratura americana e altri saggi, publicado postumamente em 1951), e por suas traduções de Daniel Defoe (Moll Flanders), Charles Dickens, Herman Melville (Moby Dick e Benito Cereno), James Joyce (Dedalus), Sinclair Lewis, John dos Passos, e Gertrude Stein.

Pavese foi uma alma atormentada e nada, ou muito pouco, feliz em sua vida amorosa. Criou uma obra impressionante em que vivem — sim, em sua escrita tudo está vivo, morre, e pronto a ressuscitar — demônios interiores e exteriores que o assolaram física, moral e mentalmente. Sua literatura está repleta de reflexões sobre a solidão, família, sexo, amor e, sobretudo, a morte.

Além de sua poesia, em especial seu mais famoso título “Verrà la morte e avrà i tuoi occhi/ Virá a morte e terá seus olhos” (escrito pouco antes de ele morrer), seu diário revela o lado trágico da vida a que perseguiu: “o suicídio é um homicídio tímido”. Suas últimas palavras foram à imprensa italiana: “Sem mais palavras, só um gesto. Nunca voltarei a escrever”.

Suicidou-se aos 41 anos em 1950, em um hotel de Turim, sua cidade natal e literária. Essa morte tão jovem sempre foi creditada à solidão amorosa que sentia, mas pensamos que esta estava aliada também aos acontecimentos políticos de seu país – lembremos que sua obra foi escrita entre a 2ª Guerra mundial e a Guerra Fria e que ficou preso por um ano em Brancaleone.

paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950
paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950

ANOS

Do que eu era então não resta nada: apenas homem, era ainda um menino. Eu sabia há muito tempo, mas tudo aconteceu no final do inverno, uma tarde e uma manhã. Vivíamos juntos, quase escondidos, em uma casa que dava para uma avenida. Silvia me disse naquela noite que eu tinha que ir, ou ela iria: já não tínhamos nada que fazer juntos. Supliquei que deixasse que tentássemos de novo, estava deitado ao seu lado e a abraçava. Ela me disse:

– Para quê? – Falávamos com a voz baixa, às escuras.

Logo Silvia dormiu e eu fiquei até de manhã com um joelho colado ao seu. A manhã apareceu como sempre havia aparecido e fazia muito frio; Silvia tinha o cabelo sobre os olhos e não se movia. Na penumbra eu olhava passar o tempo, sabia que passava e corria e que lá fora havia névoa. Todo o tempo que havia vivido com Silvia naquele quarto era como um só dia e uma noite, que agora terminava pela manhã. Então compreendi que nunca voltaria a sair comigo por entre a névoa fresca.

Era melhor que me vestisse e partisse sem despertá-la. Mas agora tinha uma coisa em mente para lhe perguntar. Esperei, tentando adormecer.

Quando despertou, Silvia me sorriu. Seguimos conversando. Ela disse:

– É bonito ser sincero, como nós.

– Oh, Silvia! – sussurrei -, que farei ao sair daqui? Para onde irei?

Era isto que tinha para lhe perguntar. Sem tirar a nuca do travesseiro, ela sorriu de novo, beatífica:

– Bobo – disse – irá para onde quiser. Não é fabuloso ser livre? Conhecerá muitas garotas, fará todas as coisas que quiser. Palavra que te invejo!

Agora a manhã enchia o quarto e só havia um pouco de calor na cama. Silvia esperava paciente.

– Você é como uma prostituta – disse a ela – e sempre foi.

Silvia não abriu os olhos.

– Sente-se melhor por me dizer isto? – me disse.

Então fiquei ali como se ela não estivesse, olhava o teto e chorava sem ruído. As lágrimas me enchiam os olhos e corriam sobre a almofada. Não valia a pena que notasse. Muito tempo passou, e agora sei que aquelas lágrimas mudas foram a única coisa de homem que fiz com Silvia; sei que chorava não por ela, senão porque havia entrevisto meu destino. Do que eu era então não restou nada. Apenas que havia compreendido quem seria no futuro.

Depois Silvia me disse:

– Já basta. Tenho que me levantar.

Levantamo-nos juntos, os dois. Não a vi se vestir. Fiquei logo de pé, na janela; e olhava vislumbrando as plantas. Detrás da névoa estava o sol, o sol que tantas vezes havia entibiado o quarto. Também Silvia se vestiu rápido, e me perguntou se não levaria minhas coisas. Disse que primeiro queria esquentar o café, e acendi o fornilho.

Silvia, sentada na borda da cama, começou a fazer as unhas. No passado sempre as fez na mesa. Parecia absorta e o cabelo lhe caía continuamente sobre os olhos. Então sacudia a cabeça e se liberava. Eu perambulei pelo quarto e recolhi minhas coisas. Fiz um amontoado sobre uma cadeira e de repente Silvia levantou e correu para apagar o café que derramava.

Depois peguei a maleta e coloquei as coisas. Enquanto isso, por dentro me esforçava em recolher todas as recordações desagradáveis que tinha de Silvia: suas futilidades, seus mal-humores, suas frases irritantes, suas rugas. Isso me levava de seu quarto. O que deixava era uma névoa.

Quando terminei, o café estava pronto. O tomamos em pé, junto do fornilho. Silvia disse algo, que neste dia iria ver um sujeito, para falar de um assunto. Pouco depois deixei a xícara e parti com a maleta. Lá fora a névoa e sol cegavam.

(Cesare Pavese, trad. de Nina Rizzi)

***

GLI ANNI

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo. Lo sapevo da un pezzo, ma tutto avvenne alla fine dell’inverno, una sera e un mattino. Stavamo insieme, quasi nascosti, in una stanza che dava su un viale. Silvia mi disse, quella notte, che dovevo andarmene, o andarsene lei -non avevamo più niente da fare insieme. La supplicai di lasciare che provassimo ancora; ero disteso al suo fianco e l’abbracciavo. Lei mi disse:

– A che scopo? – Parlavamo a voce bassa, nel buio.

Poi Silvia s’addormentò, e io tenni sino al mattino un ginocchio contro il suo. Comparve il mattino com’era sempre comparso, e faceva molto freddo; Silvia aveva i capelli negli occhi e non si muoveva. Nella penombra io guardavo il tempo passare, sapevo che passava e correva, e che fuori c’era la nebbia. Tutto il tempo che ero stato con Silvia in quella stanza, era come una sola giornata e una notte, che adesso finiva al mattino. Allora capii che non sarebbe mai piu’ uscita con me nella nebbia fresca.
Era meglio se mi vestivo e me ne andavo senza svegliarla. Ma adesso avevo in mente ancora una cosa da chiederle. Aspettai, cercando di assopirmi.

Quando fu sveglia, Silvia mi fece un sorriso. Riprendemmo a parlare.
Lei disse:

– E’ bello essere sinceri come noi.

– Oh Silvia, – bisbigliai, – che cosa farò uscendo di qui? dove andrò? – Era questo che avevo da chiederle.

Senza staccar la nuca dal cuscino, lei sorrise di nuovo, beatamente.

– Sciocco, – disse, – andrai dove vuoi. Non è bello esser liberi? Conoscerai tante ragazze, farai tutte le cose che vuoi. Parola, che t’invidio.

Adesso il mattino riempiva la stanza e non c’era un po’ di calore che
nel letto. Silvia aspettava paziente.

– Tu sei come una prostituta, – le dissi, – e lo sei sempre stata.

Silvia non aprì gli occhi.

– Ora che lo hai detto stai meglio? – mi disse.

Allora me ne stetti come se lei non ci fosse, e guardavo il soffitto e piangevo senza rumore. Le lacrime mi riempivano gli occhi e colavano sul guanciale. Non valeva la pena di farmene accorgere. Tanto tempo è passato, e adesso so che quelle lacrime mute furon l’unica cosa da uomo che feci con Silvia; so che piangevo non per lei ma perchè avevo intravisto il mio destino. Di quel che ero allora non resta piu’ niente. Resta soltanto Che avevo capito chi sarei stato in avvenire.

Poi Silvia mi disse:

– Adesso basta. Devo alzarmi.

Ci alzammo insieme, tutt’e due. Non la vidi vestirsi. Fui presto in piedi, alla finestra, e guardavo le piante trasparire. Dietro la nebbia c’era il sole, il sole che tante volte aveva intiepidito la stanza. Anche Silvia fu presto vestita, e mi chiese se non portavo con me la mia roba. Le dissi che prima volevo scaldarmi il caffè, e accesi il fornello.

Silvia, seduta alla sponda del letto, si mise a rifarsi le unghie. In passato se l’era sempre rifatte al tavolino. Sembrava soprapensiero e i capelli le cadevano continuamente negli occhi. Allora dava scosse con La testa e si liberava. Io girai per la stanza e raccolsi la roba. Ne feci um mucchio su una sedia e a un tratto Silvia saltò in piedi e corse a spegnere il caffè che versava.

Poi tirai la valigia e ci misi la roba. Intanto, dentro mi sforzavo di raccogliere tutti i ricordi spiacevoli che avevo di Silvia – le futilità, i malumori, le parole irritanti, le rughe. Questo portavo via dalla sua stanza. Quel che lasciavo era una nebbia.

Quande’ebbi finito era pronto il caffè. Lo prendemmo in piedi, accanto al fornello. Silvia disse qualcosa, che quel giorno sarebbe andata da um tale, a parlare di una faccenda. Poco dopo, deposi la tazza e me ne andai con la  valigia. Fuori la nebbia e il sole accecavano.

Cesare_Pavese_Signature

IN: PAVESE, Cesare. Racconti (fragmentos de histórias e contos inéditos, seguidos de Notte di festa e Feria d’agosto). Raccolta póstuma. Torino: Einaudi, 1960.

gaspara stampa (1523-54)

gaspara stampa, edição de 1738
gaspara stampa, edição de 1738

gaspara stampa (1523-54) é provavelmente a maior poetisa italiana do renascimento; mas insistir especificamente no fato de que seria a maior “poeta mulher” pode parecer prêmio de consolação, já que não havia tantas escrevendo em seu tempo, num espaço patriarcal como se pode imaginar para a itália dos séculos xv & xvi.

não se trata disso, portanto. ela é uma poeta maior, sem qualquer distinção de gênero (não à toa, recebeu elogios de rainer maria rilke & de grabriele d’annunzio); porém que fez do seu gênero, de sua feminilidade amorosa, a chave-mestra do jogo do poético. a maior parte dos seus poemas, publicados postumamente por sua irmã cassandra, no ano de sua morte, tratam do seu amor por collaltino di collalto, conde de treviso. nesses poemas, dois problemas principais entram em jogo: 1) a diferença de status entre os dois, já que gaspara – apesar de ter recebido a melhor das educações & de ser uma virtuose na música & na poesia – provinha de uma antiga família nobre já empobrecida & próxima de uma certa classe média (seu pai teve de se tornar joalheiro para sustentar a família); enquanto collaltino vivia a plenitude de sua nobreza, criando uma espécie de abismo para o relacionamento dos dois; fato que levou, & ainda leva, muitos comentadores a pensarem que gaspara stampa talvez fosse uma espécie de cortesã (pessoalmente, prefiro acreditar que sua educação & sua vida de musicista a poderiam deixar mais livre na vida amorosa). 2) a diferença dos sexos, que por ela é invertida: collaltino, embora nobre, aparece na poesia de gaspara como uma figura fugidia, que despreza a sua amante, bem na linha esperada do petrarquismo que assolava toda a itália (&, por que não? quase toda a europa); de modo que gaspara parecia tentar – & conseguir – criar uma certa originalidade dentro do modelo, com o crescimento da figura feminina, que supera a masculina tanto no intelecto quanto no sentimento, atravessando o abismo social e sexual, ao mesmo tempo que o desvela no seu sofrimento de modo mais violento que a média dos escritores de seu tempo.

como se pode esperar, pouco sabemos da vida de gaspara stampa, mas seu relacionamento com collaltino di collalto foi, além de conturbado, muito curto.  muito curta também, infelizmente, foi a sua vida, & e a jovem morreu com apenas 31 anos, ao que tudo indica por envenenamento, enquanto sofria uma doença aparentemente crônica. sobre sua morte, muito se discutiu & ainda pouco ou nada se sabe: alguns supõe envenenamento acidental, outros suicídio (ninguém, creio, insistiu na ideia de assassinato); das hipóteses de suicídio, por muito tempo se julgou que estaria relacionado com o casamento de collaltino, mas hoje sabemos que ele só veio a se casar 3 anos depois da morte da poeta; & também é importante lembrar que gaspara já havia passado por outro relacionamento, que parece ter sido muito mais tranquilo – até pela falta de poemas sobre o assunto…

importa, portanto, ler nessa poesia não a biografia que nela se possa encontrar (& que, ao que tudo indica, de fato se encontra), mas a potência que as emoções retratadas alcançam no seu texto. para isso, traduzi alguns sonetos & coletei outras traduções, de éric ponty (no blog o paideuma de zenão), de ivo barroso &, finalmente, de sérgio duarte, o único que publicou em livro algumas traduções numa obra interessantíssima intitulada três mulheres apaixonadas (cia. das letras, 1999), onde, além de gaspara stampa, aparecem também poemas de louise labé e de elizabeth barrett browning. por fim, acrescentei ainda um madrigal, por considerar de grande importância o aspecto musical da sua obra, já que parte dela foi conhecida em vida, não apenas pelas declamações nas rodas poéticas, como também em apresentações musicais, muitas delas performadas pela própria gaspara stampa. por fim, julgo interessante fazer uma breve citação da edição americana que sigo (sellected poems, de 1994), feita por laura stortoni & mary lillie, & que parece resumir o que eu pretenderia expressar aqui:

“Seus poemas reunidos têm um fio narrativo, solto que seja, e tal como nos poemas de Petrarca, cada um é um arco de seu amor. Porém, enquanto ela trabalhava dentro da tradição petrarquista – que era praticamente obrigatória para um poeta lírico de seu tempo – ela transcendeu os limites com sua natureza original e tempestuosa. Sua educação musical e seu ouvido excepcional concederam-lhe o dom de escrever versos altamente musicais e, ao mesmo tempo, ela desdenhava do excesso de polimento, do excesso de melodia. Sua paixão era agressiva, e os versos que a expressavam eram diretos e fortes. Também a persona que ela escolheu assumir na história de amor era ”masculina’, ela era a perseguidora, ela era a caçadora.”

deixo então com vocês, em nossas tentativas de recriação, um pouco do som (& que som) & da fúria da sua poesia.

guilherme gontijo flores

suposto retrato de gaspara stampa
suposto retrato de gaspara stampa

2

É próximo do fez-se do Criador,
que nem a alteza honrada restou dor,
da forma humana vem se explicar,
ventre virginal parir cena dar.
Quando fez do honrado do meu senhor,
por que eu fiz tantos prantos esparsos,
pode alçar-me ninho mais presunçosos,
tecer ninhos e amparo interior.
Onde eu dela fiz rara alta ventura,
aceite alegre, que meu sol se tarda,
é minha fé de lei de eterna cura.
Meu pensamento só faz com olhares,
recua eles todos, dúbio alcance ares,
claro e belo, com sol gira resguarda.

(trad. éric ponty)

Era vicino il dì che ‘l Creatore,
che ne l’altezza sua potea restarsi,
in forma umana venne a dimostrarsi,
dal ventre virginal uscendo fore,
quando degnò l’illustre mio signore,
per cui ho tanti poi lamenti sparsi,
potendo in luogo più alto annidarsi,
farsi nido e ricetto del mio core.
Ond’io sì rara e sì alta ventura
accolsi lieta; e duolmi sol che tardi
mi fè degna di lei l’eterna cura.
Da indi in qua pensieri e speme e sguardi
volsi a lui tutti, fuor d’ogni misura
chiaro e gentil, quanto ‘l sol giri e guardi.

SONETO DE AMOR (6)

Se quereis conhecer o meu senhor,
Suponde alguém de vago e doce aspecto,
Jovem na idade e velho no intelecto,
A imagem do triunfo e do valor;
Claro o cabelo e a tez de viva cor,
De boa altura e de garboso peito,
Em tudo quanto faz um ser perfeito,
Só que um pouco (ai de mim!) cruel no amor.
E se quiserdes conhecer meu porte,
Vede alguém que nos gestos e semblante
É a imagem dos martírios e da morte;
Fortaleza da fé, pura e constante,
Alguém que embora sofra, arda e suporte,
Não faz piedoso ao seu cruel amante.

(trad. ivo barroso)

Chi vuol conoscer, donne, il mio signore,
Miri un signor di vago e dolce aspetto,
Giovane d’anni e vecchio d’intelletto,
Imagin della gloria e del valore.
Di pelo biodo, e di vivo colore,
Di persona alta e spazioso petto,
E finalmente in ogni opra perfetto,
Fuor ch ‘un poco (oimè lassa!) empio in amore.
E chi vuol poi conoscer me, rimiri
Una donna in effetti ed in sembiante
Imagin de la morte e de’ martìri,
Un albergo di fé salda e costante,
Una, che, perché pianga, arda e sospiri,
Non fa pietoso il suo crudel amante.

9

Se acaso Amor me devolver-me um dia
para afastar-me deste ímpio senhor;
pois mais do que desejo, incita horror
este gozo que à dor já se alicia;
em vão me invocarás a idolatria,
a fé, o imenso e desmedido amor,
por tua crueldade e teu error
tardo em remorso; e quem pois te ouviria?
Mas eu, cantando a minha liberdade,
solta de nós cruéis e sem esp’rança,
alegre alcançarei futura idade.
E se a um justo pedido o céu afiança,
até verei nas mãos da Crueldade
a tua vida envolta em minha vingança.

(trad. guilherme gontijo flores)

S’avien ch’un giorno Amor a me mi renda,
e mi ritolga a questo empio signore;
di che paventa, e non vorrebbe, il core,
tal gioia del penar suo par che prenda;
voi chiamerete invan la mia stupenda
fede, e l’immenso e smisurato amore,
di vostra crudeltá, di vostro errore
tardi pentito, ove non è chi intenda.
Ed io, cantando la mia libertade,
da cosí duri lacci e crudi sciolta,
passerò lieta a la futura etade.
E, se giusto pregar in ciel s’ascolta,
vedrò forse anco in man di crudeltade
la vita vostra a mia vendetta involta.

56

Fazei depois também o meu retrato,
Como vereis que sou na realidade:
Sem alma e coração, pela vontade
Do milagroso Amor, que não combato.
Sou nave sem comando ou imediato
Sem vela ou mastro, em meio à tempestade,
Buscando essa bendita claridade
Que em toda parte aponta o rumo exato.
E prestai atenção que meu semblante
Seja do lado esquerdo aflito e incerto
E do direito, alegre e triunfante;
A dupla face exprimirá, decerto,
Tanto o prazer de estar com meu amante
Quanto o temor de que outra ande por perto.

(trad. sérgio duarte)

Ritraggete poi me da l’altra parte,
come vedrete ch’io sono in effetto:
viva senz’alma e senza cor nel petto
per miracol d’Amor raro e nov’arte;
quasi nave che vada senza sarte,
senza timon, senza vele e trinchetto,
mirando sempre al lume benedetto
de la sua tramontana, ovunque parte.
Ed avvertite che sia ‘l mio sembiante
da la parte sinistra afflitto e mesto;
e da la destra allegro e trionfante:
il mio stato felice vuol dir questo,
or che mi trovo il mio signor davante;
quello, il timor che sarà d’altra presto.

104

Ó noite, em mim mais clara e abençoada
que os mais abençoados dias claros,
noite digna dos grandes e mais raros
engenhos, não só meu, por ser louvada;
tu, a fiel ministra para cada
um dos gozos; os prantos mais amaros
da vida tu trouxeste doces, caros,
para os meus braços, quando acorrentada.
Pois só faltava transformar-me agora
na afortunada Alcmena, pra quem tanto
se demorou em retornar a aurora.
Não sei falar de ti com tanto espanto
ó noite branca, pra que então não fora
vencido pelo assunto o dom do canto.

(trad. guilherme gontijo flores)

O notte, a me più chiara e più beata
che i più beati giorni ed i più chiari,
notte degna da’ primi e da’ più rari
ingegni esser, non pur de ma, lodata;
tu de le gioie mie sola sei stata
fida ministra; tu tutti gli amari
de la mia vita hai fatto dolci e cari,
resomi in braccio lui che m’ha legata.
Sol mi mancò che non divenni allora

la fortunata Alcmena, a cui stè tanto
più de l’usato a ritornar l’aurora.
Pur così bene io non potrò mai tanto
dir di te, notte candida, ch’ancora
da la materia non sia vinto il canto.

208

Amor me arrasa até que viva em brasa,
qual nova salamandra ao mundo, e igual
àquele outro estranhíssimo animal,
que vive e morre nesta mesma casa.
Minha delícia é onde eu abro a asa:
viver ardendo e não sentir seu mal,
sem nem pensar que quem me induz a tal
com meu bem ou meu mal já se compraza.
Mal se extinguira o meu primeiro ardor,
queimou-me um outro Amor, que agora sinto
e chega a ser mais vivo e bem maior.
Mas eu de arder amando não ressinto,
desde que aquele que me deu fervor
encontre em meu ardor um bem distinto.

(trad. guilherme gontijo flores)

Amor m’ha fatto tal ch’io vivo in foco,
qual nova salamandra al mondo, e quale
l’altro di lei non men stranio animale,
che vive e spira nel medesmo loco.
Le mie delizie son tutte e ‘l mio gioco
viver ardendo e non sentire il male,
e non curar ch’ei che m’induce a tale
abbia di me pietà molto né poco.
A pena era anche estinto il primo ardore,
che accese l’altro Amore, a quel ch’io sento
fin qui per prova, più vivo e maggiore.
Ed io d’arder amando non mi pento,
pur che chi m’ha di novo tolto il core
resti de l’arder mio pago e contento.

221

Para o alto-mar, onde vaguei três anos
Em traiçoeiro vento, e quase aporto,
Reconduziu-me Amor, por meus enganos
Tão generoso em dar-me desconforto.
E exarcebando os sonhos meus arcanos
Pôs em meus olhos a visão de um porto
Que me consola os prantos mais insanos
E do sofrer sem fim me traz conforto.
Calor como o primeiro agora sinto;
E se em tão pouco tempo há tanto ardor
Temo que este arda mais que o fogo extinto.
Mas como hei de deixar arder de amor
Se por desejo meu passar consinto
De um fogo a outro, e de uma dor a outra dor?

(trad. sérgio duarte)

A mezzo il mare, ch’io varcai tre anni
fra dubbi venti, ed era quasi in porto,
m’ha ricondotta Amor, che a sì gran torto
è ne’ travagli miei pronto e ne’ danni;
e per doppiare a’ miei disiri i vanni
un sì chiaro oriente agli occhi ha pòrto,
che, rimirando lui, prendo conforto,
e par che manco il travagliar m’affanni.
Un foco eguale al primo foco io sento,
e, se in sì poco spazio questo è tale,
che de l’altro non sia maggior, pavento.
Ma che poss’io, se m’è l’arder fatale,
se volontariamente andar consento
d’un foco in altro, e d’un in altro male?

232

Se o prato que aos seus servos nutre Amor
é de dor e sofrer,
como posso eu morrer
nutrida pela dor?
O peixe mais vulgar,
que vive dentro d’água e ali respira,
num só instante expira
se sair do seu lar;
e o animal que vive em flama e brasa,
morre ao trocar de casa.
Se tu queres que eu morra,
Amor, dá gozo e tira-me a modorra;
porque com o pranto, o meu prato vital,
tu não me fazes mal.

(trad. guilherme gontijo flores)

Se ’l cibo, onde i suoi servi nutre Amore,
è ’l dolore e ’l martìre,
come poss’io morire
nodrita dal dolore?
Il semplicetto pesce,
che solo ne l’umor vive e respira,
in un momento spira
tosto che de l’acqua esce;
e l’animal, che vive in fiamma e ’n foco,
muor come cangia loco.
Or, se tu vòi ch’io moia,
Amor, trammi di guai e pommi in gioia;
perché col pianto, mio cibo vitale,
tu non mi puoi far male.