crítica, poesia, tradução

Tigres e cordeiros de Blake – parte II

Semana passada eu fiz a primeira parte desta postagem sobre o poeta William Blake, com uma brevíssima introdução e algumas traduções do célebre poema do cordeiro. Agora é a vez do tigre.

Primeiramente, acredito que seja importante apontar como os dois poemas dialogam entre si. Como dito já, “O cordeiro” é um poema das Canções de inocência, e “O tigre” é a sua contraparte das Canções de experiência. Ao contrário de, por exemplo, “O limpador de chaminés”, que é o título de dois poemas que também aparecem nos dois livros, onde o diálogo estabelecido é bastante claro (por conta da temática, das imagens e, óbvio, pelo próprio título), a relação entre “O tigre” e “O cordeiro” é um pouco mais sutil. A começar pela métrica: como eu disse anteriormente, “O cordeiro” é composto de tetrâmetros trocaicos, pelo menos em sua maior parte (a exceção é os refrões que se repetem, abrindo e encerrando as suas duas estrofes). Note como a escansão é clara:

GAVE / thee / LIFE / and / BID / thee / FEED
BY / the / STREAM / and / O’ER / the / MEAD
…etc.

Curiosamente, podemos observar como “O tigre” é composto em sua maior parte (pois há algumas variações) na mesma métrica:

TY / ger! / TY / ger! / BURN / ing / BRIGHT
IN / the / FOR / ests / OF / the / NIGHT,
…etc

No entanto, apesar de compartilharem seus tetrâmetros trocaicos, o efeito que os dois poemas obtêm é completamente distinto. “O cordeiro” é suave, lento e melódico, beirando a canção de ninar, enquanto “O tigre” é rápido e violento, e seu começo, repetindo duas vezes a palavra “tigre” e encerrando as palavras e as orações no final dos pés métricos, marca uma cesura, definindo um hemistíquio,  que divide o verso em duas metades e marca com maior força as batidas dos troqueus. Essas interjeições funcionam como um aviso, então, como se fosse o grito de um camponês no mato que avista um tigre e grita para avisar os outros camponeses. É um efeito de urgência, que a aliteração de oclusivas em “burning bright” reforça. E, observando o poema inteiro, vê-se que tudo contribui para manter essa agilidade da versificação: os versos de menor discursividade organizados de 4 em 4 em estrofes curtas, com frases (estruturas sintáticas) que não se estendem por mais de 2 versos. A única exceção é a 5ª estrofe, que é justamente o clímax do poema.

É também no clímax que fica evidente a relação entre o cordeiro e o tigre. As estrofes 2, 3 e 4 funcionam como uma glosa do dístico que encerra a primeira estrofe, com perguntas sobre a criação do tigre e imagens derivadas da ferraria, com fogo, forjas, bigornas, martelos, etc – uma deturpação, em tons brutais e beirando o grotesco, dos fofos trajes e da voz terna que o criador deu ao cordeiro, que surge, então, nomeado, na 5ª estrofe. A imagem é grandiloquente: as estrelas arremessando suas lanças e molhando o céu de lágrimas, e um criador, não mais benevolente, mas perverso, sorrindo ao ver a ferocidade de sua obra. A consequência é sinistra: a mesma entidade que fez a mansidão e a bondade é igualmente responsável pela criação do mal, que o tigre acabar por representar neste poema. É, no final, a questão do problema teológico milenar de conciliar a existência de um Deus infinitamente bom com a existência do mal no mundo. Em Blake, a constatação desse problema não leva, pelo menos a princípio, a nenhuma conclusão. Muito pelo contrário: todos os versos aqui culminam em perguntas, e, no momento em que chegamos à mais dramática das questões, o poema fecha seu ciclo e retoma a estrofe inicial, com uma pequena alteração. Se tínhamos, então, na inocência, uma resposta pronta aos questionamentos (“Little Lamb, who made thee? // Little Lamb, I’ll tell thee“), na experiência reina a dúvida.

O resultado é um poema muito forte e expressivo, e sua popularidade, acredito, é plenamente justificada. Não é à toa, também, que ele tenha sido traduzido muitas e muitas vezes em português, por diversos tradutores diferentes. No meu post anterior, vimos as traduções de Leo Gonçalves & Mário Coutinho, Renato Suttana e Sidnei Schneider (além de uma tradução minha e do Guilherme Gontijo Flores, daqui do escamandro)… agora, além desses nomes, temos ainda Augusto de Campos, José Paulo Paes, Alberto Marsicano & John Milton, e o português Vasco Graça Moura. Certamente há muitos outros tradutores que omito aqui por ignorância. Se alguém dentre vós, leitores do escamandro, sentir falta de algum nome em particular, não hesite em postá-lo nos comentários. Fica aberta a proposta também para quem sentir vontade (a pulsão tradutória, como se diz) de contribuir para essa verdadeira alcateia de tigres com uma tradução inédita.

E por fim, como sugestão do poeta e tradutor Gabriel Resende Santos, deixo também aqui esse pequeno e impressionante curta, dirigido por Guilherme Marcondes, intitulado “Tyger”:

Adriano Scandolara

O Tigre

Tigre! Tigre! Claro cresta
Chama em noturnal floresta,
Que olho eterno ou mão podia
Forjar-te a torva simetria?

Em que extremo vão ou céu
Do teu olho o fogo ardeu?
Sobre que asa audaz se alçou?
Mão audaz que o ardor tomou?

E qual braço & com quais artes
Torceu do teu peito as partes?
E ao bater teu coração,
Que pés sombrios, sombria mão?

Qual marrão & qual a malha?
Teu cérebro em qual fornalha?
Qual bigorna, o punho audaz
Cinge os terrores mortais?

Quando os astros dardejaram
E em seu pranto o céu molharam,
A obra dele o fez sorrir?
Ele o cordeiro fez & a ti?

Tigre! Tigre! Claro cresta
Chama em noturnal floresta
Que olho eterno ou mão ousaria
Forjar-te a torva simetria?

Tradução de Adriano Scandolara

O Tigre

Tigre tigre, luz ardida
Na floresta anoitecida,
Que olho, ou que mão forjaria
Tua terrível simetria?

Na distância, ou entre escolhos
Brilha o fogo dos teus olhos?
Com que asas faz seu jogo?
Com que mão apalpa o fogo?

Com que ombro & com que arte,
Teu coração se comparte?
E se teu peito bater,
Com que mão e com que pé?

Que martelo & que corrente?
Em que forno arde tua mente?
Que bigorna? Qual criador
Ousa encerrar teu terror?

Quando os astros lançam lança,
E o céu líquido se cansa,
Ri de orgulho o teu ferreiro?
Quem te fez, fez o cordeiro?

Tigre tigre, luz ardida
Na floresta anoitecida;
Que olho, ou que mão ousaria
Tua terrível simetria?

Tradução de Guilherme Gontijo Flores

Tygre

Tygre Tygre fogo ativo,
Nas florestas da noite vivo,
Que olho ou mão tramaria
Tua temível simetria?

Que profundezas, que céus
Acendem os olhos teus?
Aspirar quais asas ousa?
Qual mão em tua chama pousa?

Por que braço & que arte é feito
Cada nervo de teu peito?
E teu peito ao palpitar,
Que horríveis mãos? & pés sem par?

Que martelo? Que elo? Tua mente
Vem de qual fornalha ardente?
Qual bigorna? Que mão forte
Prende o teu terror de morte?

Quando as lanças das estrelas
Molharam o céu, ao vê-las:
Ele sorriu da obra que fez?
Quem fez o cordeiro te fez?

Tygre Tygre fogo ativo,
Nas florestas da noite, vivo,
Que olho ou mão tramaria
Tua terrível simetria?

Tradução de Leonardo Gonçalves & Mário Alves Coutinho

O Tigre

Tigre! Tigre! clarão feroz
nas florestas da noite atroz,
que mão, que olho imortal teria
forjado a tua simetria?

Em que funduras, em que céus
o fogo ardeu dos olhos teus?
Em que asa ousou ele aspirar?
Que mão ousou o fogo atear?

Que ombro, que arte deu tal torção
às fibras do teu coração?
E, o teu coração já batendo,
que horrenda mão? que pé horrendo?

E qual martelo? E qual corrente?
Em que forja esteve tua mente?
Qual bigorna? Que ousado ater
seus terrores ousou conter?

Quando os astros se desarmaram
e o céu de lágrimas rociaram,
riu-se ao ver sua obra talvez?
Fez o Cordeiro quem te fez?

Tigre! Tigre! clarão feroz
nas florestas da noite atroz,
que mão, que olho imortal teria
forjado a tua simetria?

Tradução de Renato Suttana

O Tigre

Tigre! Tigre, ardendo grave
Pelas florestas do entrave,
Que mão ou olho imortal
Modulou-te simetria tal?

Em abismos ou céus quais
Forjou teus olhos fatais?
A qual asa ousou imitar?
Que mão pôde o fogo apanhar?

Diga-me, qual braço, e qual arte,
O cárdio-tendão veio trançar-te?
Quando ele começou a bater,
Que terrível mão, e que ser?

Que martelo? Qual corrente?
Que fornalha forjou-te a mente?
Que bigorna e que tenaz
Tuas unhas tornou capaz?

Quando as estrelas com suas lanças
Cobriram de lágrimas as crianças,
Sorriu ao ver o seu trabalho?
Quem fez o Cordeiro, deu-te talho?

Tigre! Tigre, ardendo grave
Pelas florestas do entrave,
Que mão ou olho imortal
Ousou dar-te simetria tal?

Tradução de Sidnei Schneider

O Tygre

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Tradução de Augusto de Campos

O Tygre

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas de noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas atreveu ao vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?

Que cadeia? que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-te os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

Tradução de José Paulo Paes

O Tigre

Tigre! Tigre! Luz brilhante
Nas florestas da noite,
Que olho ou mão imortal ousaria
Criar tua terrível simetria?

Em que céus ou abismos
Flamejou o fogo de teus olhos?
Sobre que asas ousou se alçar?
Que mão ousou esse fogo tomar?

E que ombro & que saber
Foram as fibras do teu coração torcer?
E o primeiro pulso de teu coração
Que pé ou terrível mão?

Que martelo, que corrente?
Que forno forjou tua mente?
Que bigorna? Que punho magistral
Captou teu terror mortal?

Quando os astros arrojam seus raios,
cobrindo de lágrimas os céus,
Sorriu ao sua obra contemplar?
Quem te criou o cordeiro foi criar?

Tigre! Tigre! Luz brilhante
Nas florestas da noite,
Que olho ou mão imortal ousaria
Criar tua rerrível simetria?

Tradução de Alberto Marsicano e John Milton

O Tigre

Tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

De que abismo ou céu distante
vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
e que mão se atreve ao fogo?

Que ombro & arte te armarão
fibra a fibra o coração?
E ao bater ele no que és,
que mão terrível? que pés?

E que martelo? que torno?
E o teu cérebro em que forno?
Que bigorna? que tenaz
Pro terror mortal que traz?

Quando os astros lançam dardos
E seu choro os céus põem pardos,
vendo a obra ele sorri?
Fez o anho e fez-te a ti?

Tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

Tradução de Vasco Graça Moura

Atualização de 17/10/12: acrescento abaixo ainda a tradução deixada no comentário de autoria de Danilo Augusto, que, apesar de tê-la feito por “espírito de aventura e iniciação”, não deixou a desejar:

O Tygre

Tygre Tygre, ardente luz,
A floresta noturna conduz;
Que mão imortal poderia
Forjar tua terrível simetria?

Nos abismos e céus longe,
Acenderam teus olhos onde?
Em quais asas da aspiração
Tocaram-te a chama com as mãos?

Por qual arte, & quais dedos
Trançaram-te as fibras do peito?
Iniciando teu coração o tambor,
Que temíveis pés? Que mãos de temor?

Qual martelo? qual corrente,
Em qual fornalha a tua mente?
Qual bigorna? que tenaz
Cinge teus terrores mortais?

Quando as estrelas o alvejaram
E com lagrimas o céu banharam
Ele sorriu ao ver seu trabalho?
Ele fez o Cordeiro & a ti ao lado?

Tygre Tygre, ardente luz,
A floresta noturna conduz;
Que mão imortal ousaria
Tua terrível simetria?

Tradução de Danilo Augusto

 

The Tyger

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, & what art.
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

William Blake

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Paladas de Alexandria

Gostaria apresentar aqui três epigramas de Paladas de Alexandria, na tradução de José Paulo Paes. Paladas foi um epigramista do século IV d.C., um escritor de Alexandria que, em seus poemas, nas palavras de Willis Barnstone (citadas por Paes) “reflete sobre a vida no tempo em que as turbas cristãs estavam destruindo a Antiguidade”. Ainda que não compartilhe da visão daqueles que, de Gibbons a Barnstone, encaram negativamente o avanço do cristianismo na Antiguidade tardia (nem daqueles que, como Dodds, encaram negativamente toda a Antigudiade tardia como uma “idade da ansiedade” e da superstição), não deixam de me encantar esses poemas, “inocentes pagãos da decadência” e o olhar grego que lançam sobre a existência humana.

 

1.

Acaso estamos mortos e só aparentamos

Estar vivos, nós gregos caídos em desgraça,

Que imaginamos a vida semelhante a um sonho,

Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?

 

2.

Um palco, a vida, e uma comédia; ou aprendes a dançar, deixando

A sisudez de lado, ou lhe aguentarás as dores.

 

3.

Só isso, a vida: um instante de prazer. Para longe, mágoas.

Se é tão breve a existência dos homens, que venha Baco

Com suas danças, coroas de flores, mulheres.

Hoje quero ser feliz – ninguém sabe nada do amanhã.

 

 

bernardo brandão

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7 + 4 vermelhos carrinhos de mão (william carlos williams)

se pensarmos a tradução (segundo a já famosa metáfora) como a foto de uma estátua, sempre capaz de resolver uma  parte da sua tridimensionalidade, mas também sempre incapaz de esgotar as possibilidades de visão do original, ficamos com dois belos corolários:

1 – como a foto, a tradução é uma outra arte, que em grande parte vale por si só, mesmo quando aponta para uma obra que tenha um apelo próprio e que não se esgote na foto. o que se busca na experiência com a foto e com a escultura não deve ser resumido na mera correlação de igualdade – é a própria diferença que legitima a existência da tradução e, portanto, uma tradução perfeita não seria de fato tradução.

2 – todo original pede um número infinito de traduções, não só das várias línguas, mas de cada língua. e, ao contrário do que postula benjamin, as traduções reativam o gatilho e pedem, cada uma, novos infinitos tradutórios: a tradução (ou pelo menos a boa tradução) é traduzível, um novo convite ao traduzir.

e assim chegamos à poesia de william carlos williams. o poema the red wheelbarrow é um clássico na sua singeleza, ou melhor, na sua falsa singeleza; & como tal já recebeu um bom número de traduções em português. eu pude achar 4 (josé paulo paes, josé agostinho baptista, haroldo de campos e luís dohlnikoff), que me incentivaram a fazer a minha e a cooptar mais dois tradutores (nosso já conhecido coeditor adriano scandolara e o em breve postado felipe paradizzo).

o plano, é claro, não é fazer uma competição pela melhor tradução do poema. creio que os pontos 1 e 2 deixam isso implícito, mas preferi a redundância para evitar a má fé dos maus entendedores.

mesmo assim, estas 3 novas traduções vêm com uma breve justificativa do tradutor, com o intuito de demarcar sua historicidade, o porquê de uma outra tradução, como ela pode se inserir nesse corpus como nova foto, nova obra.

THE RED WHEELBARROW



so much depends
upon



a red wheel
barrow



glazed with rain
water



beside the white
chickens.

(william carlos williams)

* * * 

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé paulo paes)

* * *


O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

reluzente de gotas de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé agostinho baptista)

* * *

O CARRINHO DE MÃO MARROM

Tanta coisa depende
desse

carrinho de mão
marrom

reluzindo sob a
chuva

junto às galinhas
brancas.

(trad. luís dohlnikoff)

* * *

CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanto depende
de um

carrinho de mão
vermelho

vidrado pela água
da chuva

perto das galinhas
brancas.

(trad. haroldo de campos)

* * *

CARRIM DE MÃO

tanto depende
de um

carrim de
mão

no verniz da
chuva

entre os frangos
brancos.

(trad. guilherme gontijo flores)

ao analisar o poema, notei que ele se dupliestruturava: por um lado, visualmente, com suas 4 estrofes de 2 versos e sempre uma palavra apenas no segundo verso. porém simultaneamente, uma estrutura melódica dava harmonia ao poema, ele pode ser lido como apenas 2 versos decassilábicos: so much depends upon a red wheel barrow / glazed with rain water beside the white chickens. apesar do alongamento do português, tentei manter esse aspecto rítmico; para tanto, optei pelo oral “carmim” por dois motivos: manutenção do metro (sabendo que certo oralismo não seria completamente estranho à poesia de wcw), e pelo fato de carrim ser um quase anagrama perfeito de carmim, onde poderia estar o “vermelho” desaparecido da minha tradução.

* * *

O CARRINHO VERMELHO DE MÃO

tanto depende
de um

carrinho vermelho
de mão

lustroso d’água
da chuva

ao lado do branco
dos frangos

(trad. adriano scandolara)

“Minha justificativa é a da quebra de versos. Nas 3 últimas estrofes do poema, o Williams cria um esquema de fazer um verso mais longo onde o enjambément cria uma expectativa que não se cumpre totalmente no verso mais curto a seguir. Aí, em vez da roda vermelha (the red wheel), tem-se o carrinho de mão vermelho: o leitor espera uma coisa, mas vem outra, e assim o ritmo da leitura fica mais irregular, meio soluçante. O mesmo vale para a chuva da 3ª estrofe, que não é a chuva caindo, mas uma água de chuva parada, que deixa o carrinho lustroso, e para o branco da última estrofe, que só revela ser das galinhas no último verso e cria um efeito de contraposição de cor com o vermelho do 3º verso.”

* * *

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

Tanto depende
de

um carrinho de mão
vermelho

orvalhado com água
de chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. felipe paradizzo)

“Minha tentativa foi reproduzir a relevância da imagem para o poeta norte americano em alguns detalhes da tradução. Acredito haver nas três últimas estrofes, blocos de imagens que se articulam entre si e orbitam “um carrinho de mão vermelho”, além de também oferecem às fortes imagens de WCW singularmente. Por isso, optei por manter o artigo indefinido na segunda estrofe, a fim de marcar a singularidade da imagem poética em questão. Quanto ao “orvalhado” na terceira estrofe, tomei a liberdade de deslocar o sentido da palavra inglesa “glazed”, em busca da imagem cotidiana de Williams, trazendo o adjetivo o mais próximo possível do cenário, da imagem.”

* * *

o convite a novas traduções/justificativas/comentários/críticas fica a partir de agora aberto ao infinito

APÊNDICE: 4 novas traduções.

O VERMELHO CARRINHO DE MÃO

muito depen-
de

um vermelho carrinho
de mão

vitrea da
chuva

ao lado dos brancos
frangos

(trad. leonardo MAthias)

“Procurei destacar, na tradução, o fator relacional entre versos e estrófes, responsável pela mutação nos sentidos da leitura. O peoma parece, a cada palavra posteriormente lida, estar constantemente se auto-descontextualizando. Aínda, foi preciso manter um certo caráter ruidoso, presente no poema original, qual potencializa as possibilidades sintéticas misteriosas, inerentes ao magnetismo estranho de suas peças e espaços.”

* * *

O RUBRO CARRINHO

tanto depen-
de de um

rubro carri-
nho

molhado de
chuva

lá com as gali-
nhas brancas

(trad. rodrigo gonçalves)

“mímese de som e ritmo, imagem e concisão. exercício de sintese. ludus.”

* * *

A CARRIOLA VERMELHA

há muito a pesar
sobre

a vermelha
carriola

lustrada pela
chuva

entre brancos
frangos.

(trad. tarso de melo)

segundo o próprio,  “uma tradução injustificável”!

* * *

CARRIM-DE-MÃO VERMEIO

tanta coisa depende
dum

carrim-de-mão
vermeio

moiado da
chuva

do lado dos frango
branco.

(trad. daniel martineschen)

“Sei lá, pensei no que diria um pedreiro (ou eu mesmo na reforma de casa), logo após parar de chover e o sol brilhar de novo, ao ver umas galinhas que saíram pro terreiro pra tomar sol depois da chuva. simplicidade, oralidade (bem curitibana, eu diria), brincadeira sem ofensa. e descaradamente roubei a opção do guilherme por ‘carrim’.”

* * *

guilherme gontijo flores

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