crítica, poesia, tradução

“O diálogo do pessimismo”

escravos-babilonia

“O diálogo do pessimismo” é um poema babilônico que fazia um tempo que eu queria traduzir. Também chamado de arad mitanguranni (o primeiro verso do poema no original: “vem servir-me, escravo” ou “escuta, escravo”) ou “O diálogo de um senhor e seu escravo”, por motivos óbvios, ele consiste nisso mesmo. São 10 ou 11 estrofes, cada uma com uma estrutura bastante simples, mas eficaz: elas começam com o chamado do senhor e a resposta do escravo. Então o senhor diz que quer fazer alguma coisa (ir ao palácio, jantar, fazer um sacrifício ao seu deus) e o escravo responde comentando as vantagens disso que ele deseja fazer. Depois o senhor muda de ideia, e o escravo comenta as vantagens de não fazê-lo. A literatura chamada sapiencial era um gênero respeitável na Mesopotâmia e muito popular entre a classe de escribas, que treinavam seu ofício com provérbios e consideravam secreto o conhecimento que registravam nas tabuletas, algo só para a pequena elite capaz de ler a complexa escrita cuneiforme do sumério e do acádio – os iniciados. Há algo de literatura sapiencial no poema, e durante algum tempo (até 1954, como comenta Lambert) os pesquisadores o incluíram como parte do gênero. De fato, nota-se um verniz de profundidade nas falas do escravo: “Comer alegra o coração”, “Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”, “o cão de rua sempre encontra o osso”. São versos que têm toda a carinha de provérbios e frases de efeito (e suas subversões resultam em versos poderosos como “Terra nua é o leito do onagro”, “olha as caveiras dos nobres e da plebe, / quais foram vilões e quais os benfeitores?”). Há citações e alusões a um poema religioso chamado “Hino a Šamaš” (o deus do sol) e ao Épico de Gilgámeš. Esse movimento argumentativo que oscila entre o desejo da ação e da inação também já levou os estudiosos a compará-lo com o livro do Eclesiastes.

No entanto, como já apontou Frye sobre o gênero cômico, uma das origens do efeito cômico é a repetição, e é isso o que temos aqui. Se, ao lermos suas estrofes separadamente, fica a impressão de que o tom dos versos poderia ser tido como mais pura e seriamente filosófico, é inevitável, conforme avançamos, a sensação de que o autor não está sendo de todo sério. A cada repetição, o escravo parece menos um sábio e mais um bajulador tentando a todo custo obter os favores do seu mestre (e, né, na situação dele, quem pode culpá-lo?), o que lembra muito o estereótipo da comédia latina (uma invenção, porém, muito posterior) do seruus currens, o escravo ardiloso de comédia que vemos em Plauto e Terêncio. O próprio texto parece reconhecer isso, e caminha num crescendo – que leva à comparação ridícula e blasfema entre os deuses e cachorros e ao desespero da relatividade moral da penúltima estrofe – até culminar na piada de humor negro que encerra o poema, que eu não consigo ler sem pensar nas discussões de suicídio de Esperando Godot (no ato 1 eles pensam as possibilidades de se enforcarem no galho, aparentemente frágil, da única árvore no palco. Gogo comenta que Didi é mais pesado, então se ele se enforcar antes e o galho quebrar, Gogo vai ficar sozinho e sem galho para poder se enforcar também). E tudo isso é ancorado num problema que talvez não seja tanto diretamente ético, mas mais linguístico, na medida em que a linguagem nos dá a capacidade de justificar qualquer ação ou inação. Ainda há discussão entre estudiosos sobre qual o tom exato do poema, se solene, cínico, fanfarrão ou de fato pessimista. Em todo caso, fica a impressão do quanto é tênue a fronteira entre a sabedoria e o cômico.

Por fim, algumas informações bibliográficas: o poema foi escrito por volta de 1000 a.C. (a menção a uma adaga de ferro exclui a possibilidade de ser uma composição mais antiga, do período paleobabilônico) em acádio, a língua do Império Babilônico e principal língua da Mesopotâmia até ser substituída, mais tarde, pelo aramaico como língua franca do antigo Oriente Médio. Esquecido ao longo dos séculos, ele é redescoberto aparentemente no final do século XIX (quando o processo de deciframento da língua estava já em estágio razoavelmente avançado) em cinco manuscritos diferentes, dos quais um está quase completo, de modo que dos 86 versos do poema apenas 15 estão danificados (porém seu possível conteúdo é em parte recuperável pelo contexto). Ele foi transcrito e publicado nos círculos de especialistas por G. Reisner e E. Ebeling entre 1896 e 1919 e desde então tem sido traduzido em diversas edições, uma das mais célebres sendo a de Wilfred G. Lambert, Babylonian Wisdom Literature, de 1960 (pp. 139-149), que conta com uma introdução, transcrição (incluindo das variações) e uma tradução literal. Em 19 de novembro de 1987, saiu uma tradução poética do poema no The New York Review of Books, de autoria de ninguém menos que Joseph Brodsky, com o título ‘Slave, Come to My Service!’, com base na edição de Lambert e de James B. Pritchard. Brodsky se equivoca, porém, ao se referir ao poema como um poema sumério, mas é uma confusão compreensível. Não tinha internet nos anos 80 para esclarecer esse tipo de dúvida em cinco minutos. Neste caso, para a minha tradução, eu me baseei na de Brodsky, porque o poeta eliminou as lacunas (é tão frustrante ler poema com verso faltando) e especialmente porque ela funciona muito bem, que é o critério mais importante. No entanto, onde Brodsky se desvia demais (por exemplo, o que ele traduz como “do some evil” costuma ser interpretado pelos estudiosos como “liderar uma revolução”), eu preferi me aproximar mais das traduções acadêmicas. No tocante ao tom do poema, numa tentativa de fazer jus à sua ambiguidade entre seriedade e humor, eu procurei manter ao mesmo tempo algum grau de poeticidade (com o uso algo arcaizante do “tu”, aliterações, vocabulário) e uma oralidade à brasileira que eu acho que funcionam para esse propósito.

 

Arad mitanguranni: o Diálogo do Pessimismo
ou: um Senhor e seu Escravo

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei ao palácio!”
“Vai ao palácio, meu senhor. Vai ao palácio.
O rei ficará feliz em te ver e será benevolente”.
“Não, meu escravo. Não irei ao palácio!”
“Não vás, meu senhor. Não vás ao palácio.
Serás mandado pelo rei a alguma missão longínqua,
por estradas estranhas, montanhas hostis;
dia e noite sujeito a mazelas e dor”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Busca a água e derrama-a em minhas mãos: quero jantar”.
“Janta, meu senhor. Janta.
Comer alegra o coração. O jantar de um homem
é o jantar de seu deus, e mãos limpas fisgam o olhar de Šamaš”.
“Não, meu escravo. Não jantarei!”
“Não jantes, senhor. Não jantes.
Bebida e sede, comida e fome
nunca abandonam o homem, nem a si próprias”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei passear pelo campo”
“Isso, meu senhor, isso. Despreocupado, o caçador
tem sempre a barriga cheia, o cão de rua sempre
encontra o osso, a andorinha que migra domina a arte de fazer ninhos
o onagro encontra a relva no mais seco dos desertos”.
“Não, meu escravo, não irei passear pelo campo”.
“Não vás, meu mestre. Não te dês ao trabalho.
É sempre fugaz a sorte do caçador,
o cão de rua perde os dentes. O ninho
da andorinha que migra é enterrado pela argamassa.
Terra nua é o leito do onagro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Tenho vontade de constituir família, desejo ter filhos”.
“Bem pensado, meu senhor. Isso, tem filhos.
Quem constitui família garante o seu nome, orações póstumas o repetem”.
“Não, meu escravo. Não constituirei família, não terei filhos!”
“Não o faças, meu senhor. Não os tenhas!
Uma família é uma porta torta, sua dobradiça range.
De cada três filhos, só um é sadio; os outros dois, doentes.”
“Mas devo constituir família?” “Não, não o faças.
Quem constitui família desperdiça seu lar ancestral”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Vou ceder aos meus inimigos; calarei diante das acusações no tribunal”.
“Isso, meu senhor, isso. Cede aos inimigos;
guarda teu silêncio, meu senhor, diante das acusações”.
“Não, meu escravo! Não irei calar e não cederei!”
“Não cedas, meu senhor, e não te cales.
Mesmo que não abras a boca
impiedosos teus inimigos serão e cruéis,
além de numerosos”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo liderar uma revolução”.
“Ótimo, meu senhor. Isso, lidera a revolução.
Pois, do contrário, como tu hás de encher tua barriga?
Como poderás vestir o corpo sem revolução?”
“Não, meu escravo. De modo algum serei um revolucionário!”
“Os revolucionários acabam mortos ou cegos e esfolados vivos
ou cegos, esfolados vivos e trancados na masmorra”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero amar uma mulher”. “Ama, senhor, ama!”
Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”.
“Não, meu escravo. Não quero amar mulher nenhuma!”
“Não ames, meu senhor. Não ames.
Mulher é cilada, tocaia, fosso sem luz,
o ferro afiado de uma adaga para cortar-te a garganta no escuro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca água para lavar-me as mãos: farei oferenda ao meu deus”.
“Isso, faz oferenda, faz oferenda.
Quem sacrifica ao seu deus enche o coração de riquezas;
sente-se generoso, abre-se a sua bolsa”.
“Não, meu escravo. Não farei oferenda alguma!”
“Tem razão, meu senhor. Tem toda razão!
Treina teu deus para te seguir como um cãozinho,
com suas carências de servidão, rituais, sacrifícios”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero fazer um investimento, vou emprestar com juros”.
“Ah, sim, investe, empresta com juros.
Quem investe preserva o que tem, e seu lucro é enorme”.
“Não, meu escravo, não emprestarei, nem investirei!”
“Não invistas, meu senhor. Não emprestes.
Emprestar é como amar, e receber de volta, gerar maus filhos:
todos maldizem o dono do pão que comem.
Ficarão ressentidos e diminuirão teu lucro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo fazer uma boa ação pela minha pátria!”
“Muito bom, meu senhor, muito bom. Faz isso!
Quem faz boas ações pela pátria grava seu nome no ouro do anel de Marduk”.
“Não, meu escravo, não farei boa ação alguma pela pátria”.
“Não faças isso, meu senhor. Não te dês o trabalho.
Vai e caminha pelas ruínas antigas,
olha as caveiras dos nobres e da plebe,
quais foram vilões e quais os benfeitores?”

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Se é assim, então o que é bom?”
“Bom mesmo seria se quebrassem o meu e o teu pescoço
e depois fôssemos desovados no rio – isso sim!
Quem é tão alto que alcança os céus?
Tão amplo que abarca os infernos?”
“Se assim for, melhor eu te matar, meu escravo: prefiro que tu vás na frente”.
“E o meu senhor crê que saberias viver três dias sem mim?”

(poema mesopotâmio anônimo, introdução e tradução de Adriano Scandolara com base nas traduções de Brodsky e Lambert)

 

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tradução

O julgamento de Brodsky (melhores momentos)

young

O poeta em 1958, fotografado pelo pai.

 

No fim de 1963, o poeta russo Joseph Brodsky (1940-1996), com então 23 anos, foi acusado de parasitismo social pelo estado soviético, depois de um artigo violento que saiu no jornal Vechernij Lenigrad contra sua figura. A história é razoavelmente bem divulgada, mas ler as anotações das audiências feitas por Frida Vigdorova e posteriormente editadas na forma de um diálogo é uma experiência digna de peças de Beckett. No ano seguinte, Brodsky foi, de fato, condenado, já que poesia & tradução não configuravam um trabalho pelo bem da pátria. O resto da história é conhecida. Brodsky cumpriu 18 meses de serviços no Ártico, mas depois de muita pressão de vários intelectuais — dentro e fora da União Soviética — retornou a Leningrado em dezembro de 1965. As perseguições, como seria de se esperar, continuaram, até que em 1972 o poeta foi obrigado a se exilar, primeiro em Israel, depois nos Estados Unidos, sem jamais retornar à pátria.

Por isso, traduzi a partir do francês uma boa parte do processo que hoje funciona como uma espécie de monumento: as perguntas do juiz Savelieva permanecerão, creio, como pérolas da percepção ocidental — não apenas soviética — sobre o ofício do poeta, enquanto as tentativas de resposta de Brodsky por vezes nos fazem lembrar personagens de Kafka, presos num universo burocrático que não parece fazer sentido, diante de um processo em que só poderá ser condenado, ainda que não compreenda muito bem.

guilherme gontijo flores

p.s..: A edição utilizada foi Brodski ou le procès d’un poète: commentaires d’Efim Etkind, préface d’Hélène Carrère D’Encausse. Traduzido do russo para o françês por Janine LévyEditado pela Librairie Générale Française, em 1988.

p.s. 2: Você podem ler algumas traduções que fiz de poemas autotraduzidos por Brodsky para o inglês, ou escritos originalmente em inglês, na Revista Eutomia. Só reparem que, no primeiro poema, onde aparece a palavra “toupeira”, deveria estar “pinta”. Houve uma falha, e o arquivo infelizmente ainda não foi alterado.

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Brodsky em seu exílio, em Nerenskaya, 1965.

* * *

Primeira audiência no tribunal

Bairro Dzerjinsky, cidade Leningrado, rua Vosstania, 36.
Juiz Savelieva.
18 de fevereiro de 1964.

Juiz: Qual é a sua profissão?

Brodsky: Escrevo poemas. Faço traduções. Suponho…

J.: Guarde as suposições para o senhor! Porte-se de modo adequado! Não fique em cima do muro! Olhe para o tribunal! Responda de modo conveniente a uma corte! (para mim) Para imediatamente de fazer notas, ou expulsarei a senhora daqui! (Para Brodsky). O senhor tem um trabalho regular?

B.: Eu pensei que se tratasse de um trabalho regular.

J.: Responda a questão!

B.: Escrevo poemas. Pensava que seriam publicados. Suponho…

J.: Não nos interessam as suas suposições. Responda à questão: por que o senhor não trabalhava?

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Isso não nos interessa. O que queremos saber é a instituição à qual o senhor estava ligado.

B.: Eu tinha contratos com uma editora.

J.: Ganhava o suficiente para viver? Quais contratos? Para quais datas? Por quais valores? Seja mais preciso.

B.: Já não lembro exatamente. Estão todos com meu advogado.

J.: O senhor é o interrogado.

B.: Saíram em Moscou dois livros com traduções minhas (ele informa quais).

J.: Qual é a sua experiência profissional, e quanto tempo durou?

B.: Cerca de…

J.: Nada de “cerca”. Isso não é resposta.

B.: Cinco anos.

J.: Onde o senhor trabalhou?

B.: Numa usina. Com uma equipe de geólogos.

J.: Quanto tempo trabalhou na usina?

B.: Um ano.

J.: Em qual cargo?

B.: Perfurador.

J.: De modo geral, qual é a sua especialidade?

B.: Eu sou poeta. Poeta-tradutor.

J.: Quem decidiu que o senhor era poeta? Quem o classificou entre os poetas?

B.: Ninguém. (Sem qualquer desafio) E quem me classificou no gênero humano?

J.: E o senhor estudou com tal objetivo?

B.: Qual objetivo?

J.: De se tornar poeta. Não tentou fazer os estudos superiores para se preparar… para aprender…

B.: Eu não pensava que seria possível aprender isso.

J.: Como se tornar poeta, então?

B.: Penso que… (Desconcertado) … é um dom de Deus…

J.: O senhor deseja apresentar alguma demanda ao tribunal?

B.: Adoraria saber por que fui preso.

J.: Isso é uma questão, não uma demanda.

B.: Nesse caso, não tenho demanda a formular.

J.: A defesa tem questões?

Advogada: Sim. Cidadão Brodsky, o dinheiro que o senhor ganhou, por acaso foi levado à sua família?

B.: Sim.

A.: Seus pais também trabalhavam?

B.: São aposentados.

A.: Vocês vivem juntos?

B.: Sim.

A.: Portanto, a sua renda contribuía para o orçamento familiar.

J.: A senhora não está apresentando questões, está generalizando. E o ajuda a responder. Não generalize: apenas apresente questões.

A.: O senhor foi inscrito num asilo psiquiátrico?

B.: Sim.

A.: O senhor foi hospitalizado?

B.: Do fim de dezembro de 1963 até 5 de janeiro deste ano, em Moscou, no Hospital Kachtchenko.

A.: O senhor não acha que a sua enfermidade o impediu de manter por muito tempo o mesmo emprego?

B.: É possível. Certamente. Na verdade, não sei bem. Não, não sei.

A.: O senhor traduziu poemas para uma antologia de poetas cubanos?

B.: Sim.

A.: O senhor traduziu romanceros espanhóis?

B.: Sim.

A.: O senhor tinha relações com a seção de tradução da União dos Escritores?

B.: Sim.

A.: Demando ao tribunal que sejam versados no dossiê o atestado do Escritório dos Tradutores, a lista de poemas publicados, a cópia dos contratos (ela os enumera), o seguinte telegrama: “Favor acelerar assinatura contrato”. Demando que o cidadão Brodsky seja objeto de um exame médico em que seja constatado seu estado de saúde e se estabeleça se ele o impediria de ocupar um emprego regular. Ademais, demando que o cidadão Brodsky seja libertado sem demora. Considero que ele não cometeu qualquer delito e que seu encarceramento não apresenta fundamento legal. Ele tem domicílio fixo e pode, portanto, responder um mandato de comparecimento.

O tribunal se retira para deliberar. Depois, retoma seu lugar, e o juiz lê o arrazoado:

“Submeter Brodsky a um exame psiquiátrico que deverá decidir se ele sofre ou não de alguma enfermidade psíquica, e se tal enfermidade impediria que ele fosse enviado aos trabalhos forçados em regiões distantes. Uma vez que o dossiê indica que Brodsky recusa hospitalização, encarregar a seção 18 da milícia para conduzi-lo ao exame psiquiátrico.”

J.: O senhor tem alguma questão?

B.: Gostaria que levassem papel e um lápis para minha cela.

J.: Quanto a isso, dirija-se ao chefe da milícia.

B.: Eu já lhe demandei, e ele me negou. Eu peço papel e um lápis.

J.: (amansado): Pois bem. Eu concederei.

B.: Obrigado.

Quando o público evacuava a sala, nós percebemos uma multidão, sobretudo jovens, nos corredores e escadas.

J.: Quanta gente! Não imaginei que haveria tamanho agrupamento.

Alguém na multidão: Não é todo dia que se julga um poeta.

J.: Poeta ou não, para nós dá no mesmo!

Segundo a senhora Toporova, advogada de defesa, o juiz Savelieva deveria ter libertado Brodsky para que este fosse por conta própria ao exame, no dia seguinte, no hospital psiquiátrico; porém Savelieva o manteve preso, e foi sob escolta que ele foi conduzido ao hospital.

 

Segunda Audiência

Fontanka, sala do Clube de Construtores.
13 de março de 1964.

As conclusões do exame são as seguintes: reconhece-se a existência de traços psicopáticos de caráter, mas considera-se que o sujeito está apto para o trabalho. Que, por conseguinte, pode ser submetido a medidas administrativas.

Um letreiro acolhe quem chega: “Processo do parasita social Brodsky”. A grande sala do Clube de Construtores está repleta de gente.

[…]

J.: Quanto aos autointitulados poemas, nós concedemos [a retirada do dossiê]; mas quanto ao diário íntimo, não há qualquer motivo para removê-lo do dossiê. Cidadão Brodsky, desde 1956 o senhor mudou treze vezes de emprego. Trabalhou um ano numa usina, depois parou de trabalhar por seis meses. No verão seguinte, participou de uma excursão geológica, então passou quatro meses sem trabalhar. (Ele enumera os diversos postos e as interrupções entre cada um deles) Explique à corte porque, nesses intervalos do seu trabalho, o senhor viveu como parasita.

B.: Nesses intervalos, eu trabalhava. Ocupava-me com o que me ocupo sempre: escrevia poemas.

J.: Então o senhor escrevia os seus autointitulados poemas? Qual era a utilidade dessas constantes trocas de emprego?

B.: Eu comecei a trabalhar aos quinze. Tudo me interessava. Eu trocava porque queria conhecer o máximo possível das coisas e das pessoas.

J.: E o que o senhor fez de útil pela pátria?

B.: Escrevi poemas. É o meu trabalho. Estou convencido… creio realmente que aquilo que escrevi presta um serviço não apenas aos homens de hoje, como também às gerações por vir.

Uma voz no público: Ah, bom, vai, diz! Ele não se acha pouco!

Outra voz: Um poeta, é normal que pense assim.

J.: Então o senhor considera que os seus autointitulados poemas são úteis aos homens?

B.: Por que o senhor sempre qualifica os meus poemas como “autointitulados” poemas?

J.: Nós os chamamos de “autointiulados” poemas porque não podemos considerar de outro modo.

Sarokin (procurador geral): O senhor nos disse que estava ávido por saber. Por que não quis fazer o serviço militar?

B.: Não responderei esse tipo de questão.

J.: Responda!

B.: Eu fui dispensado. O que eu “quis” não tem pertinência alguma, simplesmente fui liberado. Não é a mesma coisa. Eu fui dispensado duas vezes. Na primeira por causa da enfermidade de meu pai, na segunda por causa da minha.

S.: É possível viver com o que o senhor ganha?

B.: É possível. Na prisão, pediam-me todo dia uma assinatura para reconhecer que eu custava quarenta kopecks à administração. Ora, eu ganhava mais de quarenta kopecks por dia.

S.: Mas era necessário se vestir, se calçar.

B.: Eu tenho uma roupa. É velha, mas tenho uma. Pra mim basta.

A.: Os especialistas apreciavam os seus poemas?

B.: Sim. Tchoukovski e Marchak me fizeram grandes elogios pelas traduções. Mais do que eu merecia.

A.: O senhor travou relações com a seção de tradutores da União dos Escritores?

B.: Sim. Participei da revista Pela primeira vez em língua russa e apresentei leituras da minhas traduções do polonês.

J.: A senhora deveria interrogá-lo sobre o que ele fez de útil, e só apresenta questões a respeito das suas leituras e traduções.

A.: Suas traduções representam precisamente um trabalho útil.

J.: Brodsky, explique à corte porque o senhor não fazia nada entre dois empregos.

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Como isso lhe impedia de trabalhar de verdade.

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Havia pessoas que trabalhavam na usina e que ao mesmo tempo escreviam poemas. O que lhe impedia de fazer o mesmo?

B.: Nem todos se parecem comigo, até mesmo na cor dos olhos ou na expressão do rosto.

J.: Não foi o senhor quem descobriu isso. Todos o sabem. Melhor seria se o senhor nos explicasse o valor da sua participação em nossa grande marcha progressiva rumo ao comunismo.

B.: Não se constrói o comunismo apenas manuseando ferramentas o trabalhando na terra. É também o trabalho intelectual que…

J.: Grandiosas frases! Diga-nos em que bases o senhor pretende construir o seu futuro profissional.

B.: Eu pensavam em escrever poemas e fazer traduções. Mas, se é contrário a uma norma qualquer, admitida em geral, eu terei um emprego e escreverei do mesmo modo os poemas.

Tiagli (jurado): Entre nós, todos trabalhamos. Como o senhor viveu tanto tempo na indolência?

B.: O senhor não reconhece meu trabalho como tal. Eu escrevia versos, para mim é um trabalho.

J.: O senhor aprendeu uma lição a partir do que se publicou a seu respeito?

B.: O artigo de Lerner era mentiroso. Foi a única lição que eu aprendi.

J.: Assim, ela não te inspirou outra coisa?

B.: Não. Eu não me considero um parasita social.

[….]

J.: Pare de tomar notas!

Eu: Eu sou jornalista, membro da União dos Escritores. Faço artigos sobre a educação da juventude. Peço-lhe permissão para tomar notas.

J.: Quem sabe as notas que a senhora vai tomar! Pare imediatamente!

Uma voz no público: Ela voltou a tomar notas!

[…]

O tribunal retoma seu lugar e o juiz lê a sentença:

“Como bem provam as frequentes mudanças de emprego, Brodsky se esquivou sistematicamente de seu dever como cidadão soviético, que deve produzir bens materiais e garantir pessoalmente sua subsistência. Em 1961 e 1962, os órgãos do MGB [trata-se da KGB da época] darem-lhe um aviso. Ele prometeu conseguir um emprego regular. Mas não fez nada disso e continuou sem trabalhar, escrevendo e apresentando leituras de poemas decadentes. Dos relatórios das comissões de trabalho com os jovens autores, conclui-se que Brodsky não é poeta. Os leitores do Vechernij Leningrad [nome de um jornal de Leningrado] o condenaram. Por conseguinte, em aplicação do decreto de 4 de maio de 1961, o tribunal estipula que Brodsky será enviado para cinco anos de trabalhos forçados em uma região distante.

Um auxiliar da milícia (que passava diante da advogada): Então, a senhora perdeu o caso, camarada advogada?

[transcrição do processo efetuada por Frida Vigdorova. tradução para o francês de Janine Lévy. versão em português de guilherme gontijo flores]

 

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