poesia, tradução

Juan L. Ortiz, por Ricardo Corona

Há não muito tempo apresentamos aqui a poesia de Juan L. Ortiz em tradução de Sandra Santos, que vocês podem conferir aqui. Agora, felizmente, temos mais pelas mãos de Ricardo Corona.

guilherme gontijo flores

* * *

UMA POESIA DO FUTURO

 

Juan Laurentino Ortiz – ou simplesmente Juanele – nasceu em 1896 em Puerto Ruiz, povoado de Gualeguay, província de Entre Ríos. Aos 17 anos ingressou na Faculdade de Filosofia e Letras de Bueno Aires, onde conheceu alguns poetas e chegou a ser publicado em revistas. Fez uma insólita e rápida viagem a Marselha em um navio cargueiro, antes de, aos 20 anos, voltar a Gualeguay para ali viver até se aposentar, em 1942 e mudar-se para a cidade de Paraná, em uma casa em frente ao rio, onde viveu até a sua morte, em 1978. Saiu raras vezes de Paraná para realizar conferências em Santa Fé ou Buenos Aires e fez uma viagem de dois meses pela Europa Oriental e China, nos anos de 1950. Mas estava conectado com a poesia feita no mundo, traduzindo, entre outros, Ungaretti, Élouard, Pound e vários poetas chineses.

Em 1970, a Editorial Biblioteca de Rosario publicou En el aura del sauce, antologia em três volumes de todos os seus livros, feitos sempre em pequenas tiragens e em edições do autor: El agua y la noche (1933), El alba sube (1937), El ángel inclinado (1938), La rama hacia el este (1940), El álamo y el viento (1947), El aire conmovido (1949), La mano infinita (1951), La brisa profunda (1954), El alma y las colinas (1956), De las raíces y del cielo (1958) e El junco y la corriente – este último feito a partir da viagem pelo Oriente e preparado pelo autor especialmente para a antologia. Embora esta antologia tenha contribuído para que a sua poesia saísse do círculo restrito dos amigos poetas e especialistas, parte significativa da tiragem foi apreendida e queimada pelo regime militar argentino. Somente em 1996 que a Universidad Nacional del Litoral, de Santa Fé, publicou o volume Obra completa, organizado por Sergio Delgado, que incluiu poemas inéditos, cartas, ensaios do autor e uma fortuna crítica.

De tal modo Juanele viveu fascinado com os movimentos mínimos da paisagem que inventou “uma lírica consubstanciada com a natureza, tendente ao sussurro, ao balbucio, com uma sintaxe lânguida e mimetizada com o fluir da água”, nas palavras de César Aira, em texto de apresentação de Una poesía del futuro (Mansalva, 2008), livro de entrevistas com o poeta, organizado por Osvaldo Aguirre. Mas antes de uma poesia regionalista, uma eco-poesia, tal é a força da experiência de “pura presença, de um quase resplendor, sem forma, ou a poesia muito fluída e aérea dos estados interiores – harmonia ou visão”, conforme o próprio Juanele testemunhou em carta a um amigo. Assim como Bonnefoy e Ponge, Juanele queria a poesia como possibilidade de esperança: “a poesia não pertence a ninguém ou é de todos”, escreveu em “Mi experiencia”, prólogo de Una poesía del futuro. Havia algo mais neste homem delicado, de vida humilde, com hábitos eremitas, que amava o imperceptível. Tamara Kamenszain, em 1973, após voltar de Paraná, onde havia entrevistado o poeta (publicada no mesmo ano no jornal Clarín), confidenciou a Arturo Carrera (relatado em Ensayos murmurados, Mansalva, 2009) que Juanele havia demorado para atendê-la. Quando finalmente apareceu para a entrevista, desculpara-se dizendo que estava se penteando, que estava arrumando cuidadosamente os fios de seu cabelo para que obtivessem uma consistência de espuma, “para que o ar fluísse mais entre os fios” e assim pudessem gozar como gozam as folhas e o talos das plantas.

§

NAS GARGANTAS DE YAN-TSÉ

O que ouviu Tou-Fou, o que ouviu
nestes silêncios que não deixam de subir e, ao cair,
fluídos de íris,
assim,
apesar de seu espanto sem tempo?

Sentiu, somente, como Li-Tai-Po, que se acendiam uns gritos por aí?
E a vertigem da pedra,
e a vertigem da angústia
que de improviso não aceita sequer a sua agonia,
………………………………………de palha,
……………………………..esvoaçando, quase invisível,
………………………………………………….num junco…
que nem isso admite para perder-se, para perder-se, em seguida, em um sem limite
………………………………………………….de angústia… ou de névoa?

EN LAS GARGANTAS DEL YAN-TSÉ

Qué oyó Tou-Fou, qué oyó
en estos silencios que no dejan de subir y a la vez de caer,
fluidos de iris,
así,
a pesar de su espanto sin tiempo?

Sintió, solamente, como Li-Tai-Pé, que se prendían unos gritos por ahí?
Y el vértigo de la piedra,
y el vórtice de la angustia
que no admite, de improviso, ni siquiera su agonía,
…………………………………………de paja,
………………………………..aleteando, invisiblemente, casi,
…………………………………………………en un junco…
que no admite ni eso para perderse, para perderse, en seguida, en un sin limite
…………………………………………………de congoja… o de niebla?

De El junco y la corriente (1970)

§

FUI AO RIO…

Fui ao rio, e o sentia
perto de mim, em minha frente.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam até mim.
A correnteza dizia
coisas que não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir nele o que dizia o céu vago e pálido
com suas primeiras sílabas alongadas,
mas não conseguia.

Voltava
— Era eu quem voltava? —
na angústia vaga
de sentir-me sozinho entre as últimas e secretas coisas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus reflexos fundos, apenas estrelados.
Corria o rio em mim com suas ramagens.
Eu era um rio no anoitecer,
e suspiravam em mim as árvores,
e a vereda e as ervas se apagavam em mim.
Atravessava-me um rio! Atravessava-me um rio!

FUI AL RÍO…

Fui al río, y lo sentía
cerca de mí, enfrente de mí.
Las ramas tenían voces
que no llegaban hasta mí.
La corriente decía
cosas que no entendía.
Me angustiaba casi.
Quería comprenderlo,
sentir qué decía el cielo vago y pálido en él
con sus primeras sílabas alargadas,
pero no podía.

Regresaba
—¿Era yo el que regresaba?—
en la angustia vaga
de sentirme solo entre las cosas últimas y secretas.
De pronto sentí el río en mí,
corría en mí
con sus orillas trémulas de señas,
con sus hondos reflejos apenas estrellados.
Corría el río en mí con sus ramajes.
Era yo un río en el anochecer,
y suspiraban en mí los árboles,
y el sendero y las hierbas se apagaban en mí.
Me atravesaba un río, me atravesaba un río!

De El ángel inclinado (1937)

§

DIA GRIS

O que nos indaga o vago
horizonte que vem
à nossa melancolia
pleno de gestos molhados
— feito fantasma que
absorve os arvoredos
e nos inverte o lírio
úmido e sozinho de alma?

DÍA GRIS

¿Qué nos pregunta el vago
horizonte que se viene
a nuestra melancolía
lleno de gestos mojados
—tendido fantasma que
absorbe las arboledas
y nos invierte el lirio
húmedo y solo del alma?

De El agua y a la noche (1924-1932)

§

PARA QUE OS HOMENS…

Para que os homens não tenham vergonha da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis ou profundas
da unidade ou espelhos de nosso esforço
por penetrar o mundo,
com semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia de nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores,
e sejamos iguais a nós mesmos na delicada irmandade,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos ao nosso limite extremo,
nos perderemos na hora do dom com o sorriso
anônimo e certo de uma semente na noite da terra.

PARA QUE LOS HOMBRES…

Para que los hombres no tengan vergüenza de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles o profundas
de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores,
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos a nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

De La rama hacia el este (1940)

§

LETRA

Pelos campos vai a menina perdida na felicidade
………………………………..amarela. Fada
dos trigos, alada sobre
………………………………………….os olhos
das papoulas e narcisos…

…………………………………………………Vai a menina
com olhos mais leves que o abril do céu…
…………………………………………………Vai a menina,
…………………………………………………vai a menina…

……………….E ela não sabe
……………….que a tarde será do rio…

Ela não sabe que o esquecimento da nuvem
………………………………..sobre a colina eterna
canta nela silenciosamente doce,
……………….oh, silenciosamente doce…
oh, nela, silenciosamente doce
………………………………..como o ar…

LETRA

para “La niña de los cabellos de lino”

Por los campos va la niña perdida en la dicha
………………………………..amarilla. Hada
de los trigos, alada sobre
…………………………………………..los ojos
de las amapolas y los narcisos…

…………………………………………………Va la niña
con ojos más ligeros que el abril del cielo…
…………………………………………………Va la niña,
…………………………………………………va la niña…

……………….Y ella no sabe
……………….que la tarde será del río…

Ella no sabe que el olvido de la nube
………………………………..sobre la colina eterna
canta en ella silenciosamente dulce,
……………….oh, dulce silenciosamente…
oh, dulce silenciosamente en ella
………………………………..como el aire…

De El junco y la corriente (1970)

* * *

Ricardo Corona (Curitiba, 1962) é autor de Mandrágora (Paraguai, YiYi Jambo Cartonera, 2016), ¿Ahn? (Madri, Poetas de Cabra, 2012 – indicado ao prêmio Ausiás March de Mejor Poemario 2012), Curare (SP, Iluminuras, 2011 – Prêmio Petrobras e finalista do Jabuti/2012), Amphibia (Portugal, Cosmorama, 2009), Corpo sutil (SP, Iluminuras, 2005), entre outros. Com Joca Wolff traduziu Momento de simetria (Curitiba, Medusa, 2005) e Máscara âmbar (Bauru, Lumme, 2008), de Arturo Carrera. Traduziu Livro deserto (Curitiba, Medusa, 2013), de Cecília Vicuña e publicou em revistas (escamandro, bólide, zunái) traduções de Henri Michaux, Juan L. Ortíz, William Carlos Williams, Gari Snyder e Mario Bellatin.

Anúncios
Padrão
poesia, tradução

Juan Laurentino Ortiz, por Sandra Sandos

Juan L. Ortiz

Juan Laurentino Ortiz (Puerto Ruiz, 1896 – Paraná, 1978) foi um poeta argentino, mais conhecido por Juan L. Ortiz. A sua infância foi passada num meio rural da Mesopotâmia argentina e a sua juventude em Buenos Aires, onde se envolveu ativamente a nível político e intelectual nos valores do anarquismo. Regressou à sua cidade natal, Entre Ríos, trabalhando como empregado público. Inicialmente, a sua poesia revelava algum intimismo pós-modernista, contudo evoluiu para temáticas relacionadas com o sentimento cósmico da paisagem e um humanitarismo solidário. Traduziu a poesia de Paul Éluard, Guisseppe Ungaretti, Ezra Pound e alguns poetas chineses. Retirado dos círculos literários, a sua obra obteve uma difusão escassa e publicada de forma dispersa em vários poemários: “El agua y la noche”; “El alba sube”; “El ángel inclinado”; “La rama hacia el Este”; “El álamo y el viento”; “El aire conmovido”; “La mano infinita” e “La brisa profunda”. Em 1971, estas obras reuniram-se em três volumes com o título “En el aura del sauce”. Juan L Ortiz falece com 82 anos, legando uma escrita profundamente comungante com a natureza e os conflitos sociais.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

PARA QUE LOS HOMBRES

Para que los hombres no tengan vergüenza
de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles
o profundas de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos hasta nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

PARA QUE OS HOMENS

Para que os homens não tenham vergonha
da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis
ou profundas da unidade ou espelhos do nosso esforço
em penetrar o mundo,
com o semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia da nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores
e sejamos iguais a nós mesmos na irmandade delicada,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos até o nosso limite extremo,
perder-nos-emos na hora do dom com o sorriso
anónimo e seguro de uma semente na noite da terra.

§

HAY EN EL CORAZÓN DE LA NOCHE

Hay en el corazón de la noche
un roce,

anterior al ángel que deshace
el éxtasis de las hojas,
anterior a los gallos,
al desmayo primero, tenue,
tenuísimo

del cielo,
a esas alas sobresaltadas
¿qué sueño, pesadilla de pájaro?

Hay en el corazón de la noche
un roce.

Cómo es de sensible la noche!

HÁ NO CORAÇÃO DA NOITE

Há no coração da noite
um roçagar,
anterior ao anjo que desfaz
o êxtase das folhas,
anterior aos galos,
ao desmaio primeiro, ténue,
tenuíssimo
do céu,
a essas asas sobressaltadas
que sonho, pesadelo de pássaro?

Há no coração da noite
um roçagar.
Como é sensível a noite!

§

CÓMO ES DE SENSIBLE

¡Cómo es de sensible la emoción del crepúsculo!
El silencio es tan hondo que hace daño casi,
a pesar de que arde, todo floral, arriba,

en la emocionada palidez del cielo,
con eucaliptus negros, de improviso, subidos.

¡Y cómo se prolonga la emoción! ¿Cuándo
una dulzura suave, flotante, alargó tenues
sombras entre las plantas? ¿Cuándo salió la luna?

Soledad de los campos con luna. Soledad.
Campo y luna, dos notas sólo que sostienen
esta música eterna. Campo y luna.
¿Para qué más? Tengamos el oído sutil.

COMO É SENSÍVEL

Como é sensível a emoção do crepúsculo!
O silêncio é tão profundo que quase magoa,
pese embora arda, todo floral, acima,
na emocionada palidez do céu,
com eucaliptos negros, de improviso, elevados.

E como se prolonga a emoção! Quando
uma doçura suave, flutuante, distendeu ténues
sombras entre as plantas? Quando apareceu a lua?

Solidão dos campos com lua. Solidão.
Campo e lua, duas notas só que sustêm
esta música eterna. Campo e lua.
Para quê mais? Tenhamos o ouvido subtil.

§

ES OTOÑO MUCHACHOS…

Es Otoño, muchachos. Salid a caminar.
Otoño en su momento inicial, más hermoso.
No os engañará este azul casi alegre?
¿Alegre?
¿La profundidad tiene alguna vez alegría?

¿No os engañará este verde joyante por momentos?
¿O esta invitación alada de la tarde?
No, una honda presencia deshace las azules sombras
y apaga la alegría del campo
—un luminoso, puro sueño que tiembla.

¿Cómo, y la tarde no se corona de flores
como de un fuego quieto de ángeles guardianes?

Ya está el viento, muchachos, el viento del otoño, del otoño,
violento o suave casi como un suspiro,
una enfermiza alma
de qué oscuros reinos?
que revela en las cosas
un herido pensamiento
de sorprendidas criaturas.

El viento,
niño fúnebre que juega con las últimas ilusiones del cielo
hasta darle una aguda limpieza de extraña agua final.

El viento, muchachos, el viento infinito.

É OUTONO, RAPAZES…

É Outono, rapazes. Ide caminhar.
Outono no seu momento inicial, mais formoso.
Não vos enganará este azul quase alegre?
Alegre?
A profundidade tem alguma vez alegria?

Não vos enganará por momentos este verde jubilante?

Ou este convite alado da tarde?
Não, uma profunda presença desfaz as sombras azuis
e apaga a alegria do campo
– um luminoso, puro sonho que treme -.

Como, e a tarde não se coroa de flores
como de um fogo quieto de anjos guardiões?

Está já o vento, rapazes, o vento do outono, do outono,
violento ou suave quase como um suspiro,
uma enferma alma
de que escuros reinos?
que revela nas coisas
um ferido pensamento
de surpreendidas criaturas.

O vento,
menino fúnebre que joga com as últimas ilusões do céu
até dar-lhe uma aguda limpeza de rara água final.

O vento, rapazes, o vento infinito.

NADA MÁS QUE ESTA LUZ

El éxtasis, el éxtasis,
entre el cielo y la tierra, suspendido,
mejor: que se abre y se dilata como un alma
profunda, pero de una
claridad delicada de serenos
pensamientos sensibles.
Nada más que esta luz, otoño,

otoño, nada más que esta luz
que penetra sutil
las cosas
pero queda
al rededor de ellas, como temblando,
sensitiva
y casi pudorosa.
Nada más que esta luz, otoño.
¿ Es de todos esta luz ?
La calle humilde está
traspasada, y como elevada,
ligera,
en esta dicha etérea.
Pero a todos llegas, otoño,
a todos llegas en esta tarde
en que hay manos translúcidas y eternas
que hacen signos tiernos en el aire

NADA MAIS QUE ESTA LUZ

O êxtase, o êxtase,
entre o céu e a terra, suspenso,
melhor: que se abre e se dilata como uma alma
profunda, mas de uma
claridade delicada de serenos
pensamentos sensíveis.
Nada mais que esta luz, outono,
outono, nada mais que esta luz
que penetra subtil
as coisas
mas permanece
ao redor delas, tremendo,
sensitiva
e quase pudorosa.
Nada mais que esta luz, outono.
É de todos esta luz?
A rua humilde está
trespassada, e como que elevada, ligeira,
na ventura etérea.
Mas a todos chegas, outono,
a todos chegas nesta tarde
en que há mãos translúcidas e eternas
que fazem sinais ternos no ar.

Padrão