crítica

Trocos, recibos & resenhas. Um 2017 por Sergio Maciel (parte 2)

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para ler a parte 1, onde, aliás, explico os procedimentos em jogo, clique aqui.

sergio maciel

* * *

 

Francesca Cricelli (16 poemas + 1, edição da autora: 2017).: Esse livro da Francesca dá um pano pra manga. Há coisa a ser dita sobre a questão editorial, comercial, poética e tradutória, afinal, aquilo que Caroline Micaelia diz sobre a poeta, sobre ter o mundo por nacionalidade, também vai se aplicar ao livro. Lançado, salvo engano, nos Estados Unidos, o projeto, que conta com a mescla entre poemas publicados sob égide do seu segundo livro, Repátria (Selo Demônio Negro, 2015), e poemas inéditos, se apresenta vário. Em Repátria, Francesca já assinalava o caráter ambíguo de sua poética ao apresentar-nos um livro bilíngue. Quando digo ambíguo quero me referir a uma dificuldade de definição dos limites identitários do objeto poético semelhante à apresentada pela poética de Frederico Klumb – texto a seguir. Isto é, há um espelhamento, uma duplicação que não nos permite identificar o discurso original.

Mas para além dessa questão problemática de tradução, que nos força a olhar o livro como vários, eu vejo um outro tipo de domínio do mundo. Francesca tem a capacidade de evidenciar, sem pedantismo, o caráter de suas leituras. Ainda que se apresentasse monolíngue, sua poética certamente deixaria claro os diálogos que estão em jogo.

Disso resulta que Francesca opta pela observação dos acontecimentos, pela compreensão que os gestos e os afetos também desconhecem pátrias. Vejamos o poema da página 31:

CAMINHA INVISÍVEL

Caminha invisível o amor
na multidão doída e apressada
entre olhares dispersos.

O amor caminha só,
anjo atravessado por passos rápidos.

É menos do que um mendigo o amor
na hora do rush, na plataforma dos trens
e a cidade incandesce
minutos antes do pôr do sol.

Isso, pra mim, é quase aquilo que Drummond fala em Versos à boca da noite, “Um pedaço de ti rompe a neblina,/ voa talvez para a Bahia e deixa/ outros pedaços, dissolvidos no atlas,”. Isto é, trata-se quase da comunhão dos espaços poéticos num só corpo. Ver o amor andar por aí, quase como um flanêur, não necessita localização geográfica ou poética. Estamos falando da captação da poesia que acontece em meio ao susto, da transformação da observação em beleza.

Frederico Klumb (Arena, Megamíni: 2017).: Há um problema na poética do Frederico Klumb – fato, aliás, que me levou a entrevista-lo (clique aqui) – que é tentar resolver, na minha cabeça, essa questão da diferença dos registros das mídias. Escrevo aqui-agora apenas sobre o livro Arena, publicado pela Megamíni, ou escrevo sobre o vídeopoema arena (clique aqui), postado no vimeo? As duas coisas?

Vamos começar o problema assim: na ficha catalográfica do livro aparece “Arena na tela”, seguido do link para o vídeo. Mas aí, minha camaradagem, você vai ver o vídeo e, rá!, não está lá o poema todo, ou seja, não é o livro jogado pra tela. A coisa aparece fragmentada, reordenada. Outras ferramentas estão em jogo. Na tela, da parte I do livro temos apenas os três primeiros versos:

I.

de finas patas
…………atadas
os urubus

Aí há o corte, no vídeo, para aquilo que se apresenta como a parte II. Vejamos:

II.

teus olhos inteiro
………….não escondem

tal as explosões
com a beleza
de seus cogumelos

não

No livro, esses versos correspondem ainda à parte I. O primeiro verso, no entanto, difere na versão impressa, sendo “e os olhos inteiros”. Além disso, é preciso dizer que há quase 40s entre o quadro no qual aparecem os cincos primeiros versos dessa segunda parte e o quadro desse “não”, sozinho. Novamente, esse “não”, desse modo, não consta no livro. A parte III, no vídeo, que é a última – ao passo que no livro são 5 divisões, começa assim:

III.

não vejo
nessa cidade

paletas combinadas
às cores
de luzes
………..artificiais

No livro, temos:

III.

não vejo
nessa cidade

paletas
combinadas

às cores noturnas
de luzes e salas pianas bandejas de prata.

Quase 30s depois, no vídeo, temos:

nos subúrbios ainda
os garotos
tatuam sua carne
com pedras

duram todo
o tempo
de beber este leite
correr a manhã

Que corresponderá, com algumas alterações na disposição dos versos, à abertura da parte II no livro. Acredito que a partir desses exemplos já podemos discutir algo importante aqui: trata-se, afinal, do mesmo poema? A mim me parece evidentemente que não, porque, creio, há uma sintaxe toda outra na relação entre essas mídias que parece estar em jogo. O que me perturba, portanto, é buscar compreender que coisas tornam-se descartáveis nessa transposição de mídias, a ponto de a primeira parte resumir-se a meros três versos. Isto é, que formas do dizer, que formas de um objeto, são capazes de se transpor num outro, distinto, mantendo-lhe a identidade? Estamos claramente diante de um problema tradutório.

A metáfora do mundo, da cidade como arena, como palco, espaço de representação e jogo não é, certamente, nova. Tá em Freud, afinal. Tá, poeticamente, n’A rosa do povo. Klumb, eu diria, sobretudo por conta desse rasgo entre os registros, pretende tornar suas poéticas um território, espaço de fuga ao qual o leitor, diante desse imenso tédio, desse imenso cotidiano, evadir-se-ia. É uma tentativa de fraturar as linguagens possíveis um discurso, inserindo-o num momento-contínuo. Essa é a força do poético, afinal, a criação de uma linguagem que nunca se repete e que exige o exame constante de suas formas.

Frederico Spada (Arqueologias do olhar, Funalfa: 2011 | Coleção de ruínas, Edição do autor: 2013).: O primeiro livro de Fred Spada, Arqueologias do olhar, parece sofrer do mesmo mal que Pádua assinalou sobre meu livro: um excesso de justificativa. Isto é, prefácio, orelha e tudo mais. Desculpai, povo. A gente publica, às vezes, o primeiro livro na inocência mesmo. No livro de estréia de Spada, porém, ao contrário daquilo que Helena Maria Rodrigues Gonçalves diz, o palimpsesto a que se propõe sua poética me parece ainda um in progress. Há um tanto de uma tentativa ingênua de emulação de um passado poético, mesmo que esse passado se apresente quase imediato, como nas reformulações leminskianas de “MARGINAL”: “Réu confesso,/ roubo apenas versos./ Os corações, eu sequestro”. Não há ranço ou receio de minha parte, portanto, ao dizer que se trata aqui de uma poética juvenil, afinal é um desafio mesmo lidar com tantas vozes em meio às nossas leituras. Além disso, há que se notar uma valorização do ‘silêncio’. Desde o L’azur blasé, de Gontijo, toda vez que leio louvores ao silêncio, só consigo lembrar de que “poesia é comer o cu do silêncio”. Tudo isso, aliado ao uso de outras línguas, como o alemão, por exemplo, denotam uma tentativa de erudição que, se não tomado o devido cuidado, pode vir a esbarrar num pedantismo. Atentem, todavia, eu disse se tratar de um livro de estreia, um work-in-progress.

Coleção de ruínas, no entanto, aparece dois anos após Arqueologias. Trata-se de um projeto bem mais enxuto, quase reduzido ao essencial. Uma plaquette publicada pelo próprio autor. O momento político se apresentava totalmente outro (final de 2013), e é através dele que leio o livro. A ideia do silêncio vai se apresentar distinta. Pra quem estava atento, 2013 já anunciava o cansaço político que sentimos agora. Ou seja, Fred não mais trata daquele silêncio literário, romantizado. É outra coisa a que ele se refere quando diz que “A cortina, inerte, pouco revela:/ nada aqui se apresenta -/ o último monólogo em cena,/ ainda a ecoar,/ é o silêncio”. Esse silêncio vai significar o próprio esvaziamento do discurso, “o vazio que os habitaria”.

Se o projeto do primeiro livro era arqueológico, resgatar um passado – projeto que, na minha leitura, não funciona –, este outro projeto revela que o poeta muda a visada e passa a aceitar os fragmentos, as ruínas ao redor. Não se trata mais de encontrar algo em meio aos escombros, senão olhar para o próprio entulho.

Guilherme Gontijo Flores (carvão :: capim, Artefacto: 2017 | naharia, Kotter: 2017).: Sobre o naharia acho que tenho pouco a comentar, afinal Rafael Zacca, que escreve a orelha e o posfácio, e Gustavo Silveira Ribeiro, que escreve o prefácio – gente muito mais competente que eu –, já deram a letra e me parece que eu só choveria no molhado. Vou tentar achar aqui um elo que conduza ao comentário do carvão :: capim, portanto.

naharia é o livro que fecha a tetralogia Todos os nomes que talvez tivéssemos (sobre a qual ainda escreverei), iniciada em 2013 com o livro Brasa enganosa. É importante dizer isso porque aquilo que esses quatro livros assinalam, dentro da poética de Gontijo, é uma tentativa expandir sua voz poética. Na contramão do já dito, não concebo que se trate de uma busca pela voz poética. Quem tinha dúvida era Cabral, em Pedra do sono, que não sabia se se queria construtivista ou surrealista e por isso botou três poéticas pra brigar em Os três mal-amados e disso resultou o descarte de João e o embate eterno entre Raimundo e Joaquim (clique aqui para ler o texto em que trato deste livro de Cabral). Gontijo, a meu ver, experimenta modos de insinuar a palavra poética. Isto é, o resgate da tradição, a revisão do passado aqui ocorre através um movimento que busca forçar o limite dos gêneros poéticos, reorganizando-os a partir de uma consciência poética de seus funcionamentos. Vejamos, rapidamente (e já adianto aqui alguns apontamentos que desdobrarei no texto sobre a tetralogia): Brasa enganosa é a lírica de alegria quase infantil que estabelece uma aproximação com aquela lírica horaciana que vemos na ode 1.11, por exemplo. Tróiades – remix para o próximo milênio, é uma colagem que força o limite do trágico, do drama, força o limite do luto, do pathos, do kommos. É um experimento, afinal, pós-steineriano de voltar a sentir. Por isso seu caráter é mais violento. Poeticamente, algo como um furor juvenil. L’Azur blasé, por sua vez, é mais melancólico – apesar do humor. O poema satírico, o poema piada volta-se contra o próprio eu-lírico (eu fiz um comentário bem breve sobre essa questão do eu-lírico lá na Modo de Usar, clique aqui). O riso cansa-se. É uma madureza que se apresenta melancólica e abre espaço pra imaginação. Imaginação essa que vai ganhar plenos pulmões na velhice de naharia. É o inverno do Ser. A memória passa a operar, contando a vida. E é isso que me interessa: esse dialogismo.

Se em cada um dos livros Gontijo fez uso de um modo poético pra cumprir certas medidas de tempo, certos humores, certos caráteres, em naharia é o limite da épica que é explorado. Toda narrativa épica vai narrar algo que não está inserido no tempo da narrativa. Mas o tempo, em naharia, não é o tempo do imemorial do diz que me disse ouvir falar e agora vou te contar. É o tempo da vida humana, de uma vida humana. Por isso, o narrado que se apresenta só pode ser tão banal (e tão épico) quanto é a própria dimensão de vida de cada um. Além disso, uma épica denota, realizando efetivamente um modo de práxis, uma noção de cultura. Não é o caso de naharia. Não há aqui o arquivamento de um tempo histórico coletivo. Novamente, trata-se do pequeno, do mínimo.

carvão :: capim, por sua vez, é o primeiro livro fora dessa tetralogia – particularmente, meu preferido. Neste livro, o húmus do passado poético germina uma coisa toda outra. Dos cinco livros publicados até aqui, este parece ser o que possui o melhor projeto que-se-baste-em-si. Diferente dos outros, este funciona como uma unidade em si. Fisicamente, o poema “Sator/Rotas” fica exatamente no meio do livro, páginas 44-45. Dividindo, pro começo, “Petrografia esparsa” e “História dos animais”, e, pro final, “Quatro cantatas fúnebres” e “Lo ferm voler”. Ou seja, na primeira metade temos os reinos do mineral, vegetal e animal, enquanto na segunda parte está inscrito o morrer e o amor. Interessante, não? Tudo isso cortado pela lâmina dum palíndromo recriado, um contorno:rascunho.

A secura do poema de abertura, paródia de um trecho da Farsália, épica de Lucano, que retrata a agonia pela falta d’água

Sedentos primeiro procuram por fontes secretas
cavando terras ribeiras subterrâneas
perfuram chão com enxadas ancinhos
com suas armas e o poço escavado no monte
desce ao profundo dos campos irrigados

Mas nem no curso oculto os rios ressoam
nada reflui das pedras brancas abatidas

contrapõe-se à enxurrada do poema final, em que

tudo desce feito rio lamacento
transbordando enxurrada revirando terra
para as voragens do relâmpago na noite

& tudo esbarra nas barrancas desse rio
para açular açudes todos contra tudo
que em torno vive & é mais sagrado que as palavras

quase como se ao decorrer das páginas tudo fosse se iluminando de imenso, partindo da uma secura absurda, incapaz, passando pela consideração dos elementos mais fundamentais à vida na terra, inclusive pela morte, pra se entupir, transbordar de amor, de paixão, de devoção na última parte. A vida, e a celebração dela, afinal, consagram-se superior às palavras. Mas evidentemente não se trata de uma alegria ingênua, afinal tudo desce feito rio lamacento. Aliás, o “rio” é um topos fundamental na obra de Gontijo. Ele se apresenta como metáfora da própria vida. Vide o poema da página 18 de Brasa enganosa:

não basta o rio……..murmúrio
adocicado das águas
rumo certeiro transparência
do olho d’água
desaguar suave sua torrente
não adianta fonte pura
ou perpétuo devir dos rios
como se fosse foz
seu único destino

não basta o rio –
cruzar a vida como esquina
sem banzeiro que revire a via estreita
nem
sorrir pra cantilena ilusória do mar –

carece macaréu em barro & areia
arrancando as árvores revendo
o próprio rumo………… estrondo só
sal revoluto
o corpo inteiro em pororoca

Enfim, é por isso que considero este livro um objeto mais bem acabado, pois vejo uma travessia, uma isomorfia, uma progressão dialética na coisa toda.

Júlia de Carvalho Hansen (O túnel e o acordeom: diário fóssil encontrado após a explosão, Livros Fantasma: 2017 | Seiva veneno ou fruto, Chão da Feira: 2016).: Há poucos dias eu disse à Júlia que eu achava que a música Horse with no name poderia ser algo como um approach à poética dela. Por isso, vou usá-la como uma chave de leitura, às explicando umas coisas a partir da letra. Não estranhem. Ou estranhem, sei lá.

Em O túnel e o acordeom foi um texto proposto para o encontro com a artista plástica Mayana Redin, para a exposição Aluvião, na cidade de Porto, em dezembro de 2010. A primeira edição impressa é de 2013. Ainda que não biografias assuma-se que cantos de estima seja seu primeiro livro, estamos tratando aqui de poemas de formação, quiça até mesmo um primeiro livro. Nesse sentido, como ocorre na maior parte das poéticas, há a presença de temas fundamentais, que servirão de base para os próximos livros, mas que aqui se apresentam ainda em estágio incubatório.  E é aqui que entra a música da banda America, porque pra mim esse livro é a “first part of the journey” (primeira parte da travessia). A poeta afirma-se como sua própria terra, como seu próprio território, e é nele que plantará a palavra poética para colher a palavra xamânica em Seiva veneno ou fruto.

Neste livro, semelhante a Adão nomeando as coisas e, por isso, tomando posse delas, Júlia, “looking at all the life” (olhando pra tudo quanto é vida), toma posse da vida através da enunciação. A palavra aqui funciona semelhante à palavra para Lewis Carroll em Alice. Tomemos como exemplo um trecho do poema da página 9: “Tracei por risco: PORTA: entrei pela palavra”. Ao modo da teoria austiniana, a palavra cria coisas. A palavra para Júlia é a própria poiesis. Por isso eu disse que ela planta a palavra poética no próprio solo, porque a ideia é que isto fecunde, gere qualquer coisa. É um movimento de instauração de mundo completamente próprio. Transforma-se a palavra em ambiente.

Em Seiva veneno ou fruto, (pensando ainda na metáfora com a música) já passou um bom tempo no deserto, em seu estado de contemplação. Ela  the horse run free, ‘cause the desert had turned to sea. A ideia de humanidade se expande e atinge um retorno a tudo quanto é animal, mineral e vegetal, “os níveis do corpo vão todos para o mais básico possível e o movimento e a força dos gestos adquirem uma velocidade vegetal“. A palavra construtora, que criava a porta ao nomeá-la, agora se converte em encanto, buscando consagrar os códigos, a natureza, o transe, as potências da linguagem no corpo. E aqui vai, nas palavras da própria autora, aquilo que eu compreendo como palavra xamânica: “Podemos traçar relações com o xamã, que por sua força operativa entre mundos e sensibilidades, sua atualização constante de tradições, também seria a placa de platina, um meio, um acesso. Mas penso que podemos precisar isto mais um pouco. Isto porque não é exatamente o xamã que canta para o paciente. Embora seja isto sim, é um pouco além disto: é através do canto do ícaro, que foi aprendido pelo convívio com as plantas, que as plantas que convivem no corpo-espírito do xamã cantam com ele o vegetal que está no paciente. É nesta interligação de sentidos e comunicações que se faz esta medicina, cuja parte vegetal da ligação é estabelecida pela ayahuasca que sensibiliza os sentidos; e a parte humana, sensibilizada, canta. Se os ícaros funcionam como rede da comunicação entre as espécies, a ayahuasca é um agenciador simbiótico e o xamã que canta um meio, um intermediário. Com isto, não há um sujeito desta relação que não esteja ligado a outro, não há um protagonista, tudo é a placa de platina. Durante um ícaro o xamã é o meio, a planta é o meio, o canto é o meio e o paciente é o meio. É tudo meio, mídia, médium. Interligado”.

É através do canto, portanto, que a poeta opera um movimento ao primitivo, ao repasto do Ser. A palavra aqui passar a servir de balança, intermédio entre os estados, os mundos possíveis, os corpos e as consciências. A palavra tem ânima. A palavra tem necessidade, essa urgência, de recriar o acontecer. Mire, veja: é o espetáculo do mistério que interessa agora. Júlia alcança a tal da terceira margem, aquela que não se vê, mas ainda dá conta de atravessar nossos sentidos. Mas Júlia faz tudo isso com a precisão telúrica.

Leonardo Antunes (João & Maria – Dúplice coroa de sonetos fúnebres, Patuá: 2017).: Ao contrário daquilo que costuma dizer certa parte da crítica, o tal do “verso livre modernista” não vem sufocando porra nenhuma nos últimos cem anos. Se pegarmos somente o agora-agora, posso dizer que há um bocado de gente tentando entender e praticando os metros, as particularidades de tudo quanto é tipo de verso produzido. O caso mais saliente seja talvez o do poeta Paulo Henriques Britto, que vem pesquisando as formas do verso contemporâneo, além de desenvolver, poeticamente, uma pesquisa sobre os limites da própria forma do soneto. Posso jogar no bolo aqui também o poeta André Capilé que, numa mirada rápida e ingênua, pode ser colocado num balaio de adeptos do “verso livre modernista”, mas que na verdade está na mesma tradição de uma pesquisa rítmica do verso de Britto, apesar de semelhar-se mais à estrutura fluida do Poema sujo, de Gullar, por exemplo, que gira ao redor das redondilhas. Mas mais importante que esses dois casos é compreender que essa balela de “verso livre modernista” não gesta nada. Bandeira, por exemplo, é um paradigma pra que se compreenda que há uma musicalidade absurda nesse tipo de verso. Lembremo-nos do poema Debussy, de Belo belo, que o Milton musicou, et alii. Cabral, preciso comentar? Lembremo-nos, também, do álbum do Belchior a partir de Drummond. Lembremo-nos de que as canções mais célebres de Chico (canção, nossa forma mais popular de poesia) são todas metrificadas: dodecassílabos em Construção, redondilha maior em A banda et alii. Ou seja, só diz que o metro e o ritmo estão “retornando” à poesia quem é desatento. Afinal, eles sempre estiveram por aqui.

Agora, certamente há, nestes tempos, uma retomada mais intensa de formas e temas poéticos clássicos – sobretudo se compararmos com a poesia dos anos 90/2000. E esse “clássico” vem se ampliando cada vez mais. Vide aquilo que acabei de falar sobre a poesia de Gonijo. Adriano Scandolara, por exemplo, parte de um classicismo judaico, retomando uma poética que se aproxime da poética bíblica. André Capilé retoma o clássico do candomblé, aproximando-se muito mais daquilo que é tradicionalmente oral. Nesse sentido, Leonardo Antunes vai recuperar uma forma poética medieval – a coroa de sonetos, que consiste numa “espécie de ciclo de sonetos, cujos poemas, além de tratarem de temas correlatos (ou de desenvolvimentos de um mesmo tema), observam ainda outras regras de composição entre si” – para tratar de um tema contemporâneo, ainda outra forma do “clássico”. Logo nessa escolha podemos estabelecer uma tensão. O que implica, hoje, empregar uma forma como essa? Acredito que, para além do estranhamento no leitor, há uma tentativa poética de ordenar o caos. Algo similar como ocorre em Construção de Chico Buarque. Há uma tentativa estilística de enquadrar o convencional, de enquadrar um “testemunho doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho”, pra dizer com Adélia Bezerra Meneses. Trata-se, reitero, da ordenação do caótico via estética.

Temos em João & Maria, uma narrativa. As histórias, contudo, se apresentam fragmentadas pela forma. Algo no andamento dos sonetos intensifica e dificulta a apreensão trágica, pois o verso, nesse caso, numa cadência incoerente ao tema, me parece servir como ferramenta de entrave e estranhamento. Dizendo melhor, intensifica, pois, conforme a narrativa avança – e se repete/reitera –, ela vai reforçando a castração dos valores essencialmente humanos. Vide os versos: “Existe alguma coisa que se abala/ Alguma coisa fundamentalmente/ Humana posta à luz num desgraçado// Que grita mesmo quando a boca cala”. Mas, ao mesmo tempo, dificulta, pois, quase ao modo do teatro senequiano, assinala constantemente através da composição do verso seu caráter fictício. Botando em palavras mais banais, não é a isso que se presta o soneto. A forma do soneto não conta, tradicionalmente, uma desgraça. O soneto é luz, é raio, estrela e luar. Manhã de sol. Soneto é coisa bonita. No máximo fala de uma dor pessoal. E é aí, creio, que o livro de Antunes nos dá um nó. É nessa união inusitada entre o rigor formal e uma narrativa popular, tantas vezes presente na nossa música popular (vide Pedro pedreiro e Geni e o Zepelim, de Chico; De frente pro crime, de João Bosco e Aldir Blanc; ou, de modo mais exemplar, Comprimido, de Paulinho da Viola, que também retrata um suicídio de uma figura desgraçada) que a expectativa vai se corrompendo. Afinal, a mídia para esse tipo de narrativa tem sido, tradicionalmente, a canção popular, não o soneto, não uma coroa de sonetos, nunca uma forma poética medieval.

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poesia

6 poemas inéditos de Júlia de Carvalho Hansen

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Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984) é poeta, astróloga e uma das editoras da Chão da Feira. Estudou literatura na Universidade de São Paulo e na Universidade Nova de Lisboa. Os poemas abaixo são de seu novo livro, ainda sem título. Já apareceu aqui no escamandro com poemas e entrevista.

***

POSSO

Posso te esperar a tarde inteira
atravessar você — o precipício
ou te chamar de Canyon
e colocar uns pássaros voando nele.

Posso te mostrar a parte de dentro
das coisas, da carne — posso me rechear
inteira de cuidados, lanças e perfumes
e desmontar à tarde todas as coisas.

Posso inventar-nos um desfecho
te chamar de ilha, charco, travessia
esquecer eu não posso — posso
dizer que eu irei me lembrar.

Posso perguntar pelo tempo
e assim conversaremos sobre o breu
normativo & inconstitucional desses dias
e de como não seremos derrotados.

Um pelo outro, talvez, não.

§

AMANSAR

Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.

§

ROSAS

O amor me esquartejou em seis
continentes incapazes de se conter
o modo que eu morri
foi tão de repente

confesso fui eu que puxei seus dentes
antes e durante o entardecer tem rosas
nítidas e supérfluas sobre a mesa
purificando o meu espírito trôpego

foi-me dado um candeeiro um circo
ateando um chicote no lombo do acidente
eu me antecipo cada vez que vejo um poço
teu vitalício laço de fita nó de corda meu amor

a tua língua vale o que vale
teu ricochete, teus meandros
medos, usuras, os prevenidos
armários das famílias

abertos pelo caos nos guiamos
olhos mais longos que os de Lúcifer
moram nas suas coxas
quando me anteveem

marfim, colchão mole
água na boca
no tronco um portão
noite luz.

§

PARDAIS

Acordei com dois pardais dentro do quarto
se debatiam procurando o que não fosse vidro
radical em ser transparente e firme

eu causava sustos ao me aproximar
abri a janela
é o certo a se fazer com o que não se deixa tocar

no quintal caracóis imensos disputam
os restos de mamão que deitei aos passarinhos
bem cedo enquanto pedia beleza

suplicava por favor eu quero escutar
não é a primeira vez que numa ilha
meus ouvidos entopem

meu bisavô sofria do mesmo
não sei se ele escrevia, se visitava as ilhas
se perdeu como se perdem na terra

os homens têm tal mística com o mar
ser instável na sua regularidade
marulho salsugem saudade

entre as palavras que eu sei lembrar.

§

POÇA D’ÁGUA

Olhando bem pra dentro de você
o quanto você é difícil se espraia
dos seus olhos profundos ao buraco negro
seu íntimo me é tão completamente interditado

às vezes eu me pergunto
se aqueles que conheci antes de ti
não estavam a antecipar a estreia
que foi conhecê-lo naquele entreposto da vida

eu já tinha me estrepado o bastante
pra não pular em qualquer poça d’água
achando que era um abismo
eu naquela época andava numa distância

suficientemente segura dos abismos
tanto que já tinha inclusive esquecido
a capacidade do amor nos levar
aos precipícios, as precipitações ativarem

os respeitos, os conflitos, os desmedidos
impróprios imperfeitos instáveis
improváveis e no entanto sempre
perspicazes pertinentes acasos & motivos

de estarmos para sempre forever and ever
juntos de uma maneira jovem
nosso amor adolescente
se curva numa cambalhota

e nos remonta todos os dias
como quem sela o ânimo
e monta o vivo no invisível
atrela sua espora

como quem voltou a andar
a dizer e a concordar
em todos os tempos
o substantivo cavalo.

§

CÍLIOS

Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa

eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante

em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga

ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso

porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.

*

 

 

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entrevista

Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen (parte 2)

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entrevistei, de novo, a poeta júlia de carvalho hansen. dessa vez, o papo foi muito mais pessoal, íntimo. bem estilo ‘revista caras da literatura’.

para conferir todas as outras entrevistas já feitas por mim, aqui no blog, clique aqui.

 

sergio maciel

* * *

SM – Você costuma reler seus livros publicados? Se sim, por quê?

JCH – Releio tudo. Muitas vezes e por motivos diversos. Sou obcecada com meu próprio trabalho, sinto às vezes que isso pode beirar a doença, o vício. Quase sempre releio por gosto e tarefa, coisas que com meus textos, pra mim, são sempre uma mesma coisa. Às vezes releio simplesmente porque vou fazer uma leitura pública e resolvo trazer algo do passado à voz, ou porque me pedem um grupo de poemas pra publicar n’alguma espécie de antologia, site, etc. Às vezes releio pra perceber a distância temporal, gosto de perceber como eu realmente não faria hoje em dia o que fiz antes; às vezes acho isso delicado, mas isto pode beirar o abismo ou uma dor intensa; às vezes me incomoda muito, a vaidade de sentir vergonha às vezes me visita, ou também uma bobagem de me achar ingênua no antes, como se ser ingênua pudesse ser algo ruim!… Mas quase sempre sinto uma satisfação imensa. Gosto do que escrevo. Acho bonito. Se não gostasse, se não achasse bonito e se isso não resistisse com o passar do tempo da minha vida então eu me perguntaria: por quê? E pararia de escrever.

SM – Ismar Tirelli Neto cantou essa pergunta dia desses, refaço-a aqui: O que você espera de um poema?

JCH – Respondo o que respondi no facebook do Ismar: Que eu não o entenda porque não falo a sua língua, e que nisso tenha uma sedução louca que me faça fugir com ele como quem encontrou – finalmente – o seu circo.

SM – O horror está aí, estacado entre nós – sempre esteve, na verdade – vivendo em cada minuto, sob a clareza de um sol ao meio-dia. Todavia, as pessoas não param de escrever, ninguém silencia diante do horror. Por quê?

JCH – Embora me pareça uma questão fundamental, acho essa pergunta (meio que no ar do tempo) irritante, sabe? Acho que se algum poeta titubeia em não fazer o seu ofício quando dá de cara com o horror… acho que isto não é um poeta, isto é um covarde.

Ao meu ver poeta é uma ambulância, é uma enfermaria, uma guerrilheira, um lança-chamas. A meu ver poeta vai entrar sempre no gueto de Varsóvia e vai se compadecer pela dor que sente e não sente, poeta é quem tem peito pra doer a dor do mundo, mesmo que ria dela, poeta é quem se indigna com essa merda toda e diz coisas terríveis, e algumas terríveis de tão belas.

Eu sou muito dessa ideia, né? Vejo o corpo do poeta como uma espécie de rio da história. Quem não mergulha nesse rio, ao meu ver (ou pro meu gosto), tá escrevendo alguma coisa, mas é “alguma coisa”. Acho que pra escrever poesia mesmo, entre outras coisas, tem que se lambuzar na água. E às vezes a água não tá pra peixe. E certamente estamos num tempo em que essa água é ácida.

E aí tem outro problema que é: como nadar nesta água mas não se intoxicar a ponto de não sobreviver? Aí sim, acho que tá uma questão em que tenho pensado muito.

SM – Quero pedir lincença aqui-agora e usar as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?

JCH – São as perguntas mais fundamentais mesmo. Acho que a coisa mais importante do mundo é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso. A coisa mais importante pra pessoa como indivíduo é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso. O amor também é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso.

SM – Qual foi a experiência mais importante em toda sua vida? Quero saber, na verdade, se você teve algum momento decisivo na vida, qual foi e como essa experiência influenciou ou se refletiu em sua poética?

JCH – A mais importante de todas não sei se sei dizer. Pensei primeiro em cada uma das vezes que me apaixonei por um homem, coisa que deve ter acontecido verdadeiramente 5 vezes nesses meus 33 anos. Sou da turma que está quase sempre escrevendo para um destinatário imaginário e as paixões sempre são determinantes nas minhas escolhas e caminhos da vida. Depois me lembrei da ocasião em que a casa em que eu morava com meus pais foi assaltada conosco e meu irmão dentro, fomos amarrados, levaram tudo que eu tinha e acho que isso me mostrou uma impotência que é, pra mim, o contrário de escrever. Pensaria também em cada uma da quase centena de vezes que devo ter bebido ayahuasca nesses últimos 10 anos. E, por fim, e talvez o mais forte de tudo: o dia em que minha avó morreu nas minhas mãos e no qual, além de ver a morte, eu vi (e senti nas minhas mãos que estavam nela) o que as religiões dizem: de haver uma separação entre carne e espírito quando se morre. Ver isto me fez perder o medo de quase tudo e coincidentemente isso aconteceu quando eu estava terminando o “Seiva veneno ou fruto”, meu último livro, que já falava tanto da morte. Foi como se o livro esperasse pelo acontecimento antes de mim e que o acontecimento — da morte — me confirmasse (a minha) necessidade de colocar meu livro no mundo.

SM – Você já experimentou sentir-se em solidão, profunda solidão?

JCH – Sim, muitas vezes e de modos muito diversos. Embora eu nunca tenha estado sozinha numa canoa no alto do mar, ou no meio dum deserto à noite, sinto que a solidão é um lugar que eu conheço, exercito e posso até mesmo me viciar em estar nele. Neste sentido de estar sozinha já fiz coisas tão diversas como viajar sozinha por meses, fiz alguns retiros de dez dias de isolamento e silêncio, passei madrugadas a sofrer achando que isto leva a algum lugar, ou dias e dias escrevendo sem vontade de fazer outra coisa. Houve um ano, o ano em que eu estava escrevendo meu primeiro livro, que eu era capaz de passar 5-7 dias sem sair de casa nem falar com ninguém, quando eu falava era com a mulher da caixa do supermercado e me assustava ao ouvir minha própria voz. Mas tenho dezenas de melhores amigos. E seria incapaz de viver sem as pessoas, os outros são pra mim o oxigênio. Me sinto com muita sorte neste sentido, de ter relações baseadas em muito afeto, respeito e cordialidade. E, mesmo sozinha, pra mim o mais difícil é estar mesmo sozinha. Eu me sinto sempre muito acompanhada, estou sempre pensando em alguém, em dizer algo pra alguém, lembrando de algo que alguém me mostrou, me fez sentir, etc. Estou sempre em diálogo, estou sempre no vínculo. Talvez por isso eu precise tanto da solidão, pra respirar um pouco mais comigo mesma.

SM – Qual foi a coisa da qual você mais sentiu medo em toda sua vida?

JCH – Me considero uma pessoa medrosa. Convivo com muitos medos. Existem medos cotidianos que estão presentes todos os dias desde criança como o dia em que meus pais vão morrer; ou, pelo menos desde a adolescência um medo-buraco de, de repente o meu “ele” ter mudado de ideia, desistido de mim, ou esquecido o quanto sou importante na sua vida. Inseguranças. Medo de ladrão, medo de polícia. Muito medo de violência sexual. Mas são medos que talvez sejam ansiedades. Normalmente o medo me congela, mas se algo terrível acontece fico tão calma, imediatamente crio um sentido de estratégia, fico controladíssima e observadora. Tenho medo da loucura, curiosamente nunca tive medo de eu mesma enlouquecer, mas não consigo dialogar com a loucura sem temê-la.

Mas acho que nada me bota mais medo do que algumas visões que tenho de tempos em tempos e que não sei da onde vem nem pra onde vão. Têm sempre a ver com a morte. Desde criança me acontece. Por exemplo, no meu retorno de Saturno, em 2013, no final do inverno em Portugal, tive uma gripe fortíssima com uma alucinação intensa de febre, o meu rosto com dor de sinusite estava frio e doía vertiginosamente. A imaginação criou uma visão que a dor daquele jeito significava que meu rosto estava enterrado no chão de todos os antepassados. Eu via meu rosto enterrado num cemitério. Em certa medida eu sinto isso todos os dias: meu rosto: o cemitério dos que vieram antes só que agora pela primeira vez. E aquela visão veio acabar com a minha força de ter um rosto só meu. Foi terrível, durou quase uma hora. Não havia o que eu fizesse que me tirasse daquilo. Me marcou por mese. E, claro, tudo isso pode ser só minha imaginação combinada à febre. Mas a vez que mais senti medo em toda a minha vida é mais difícil de explicar. Foi quando vi num acidente de carro uma pessoa morrendo — era tudo muito veloz, destruidor, embora eu visse o acidente de muitos ângulos eram flashs, que me faziam exclamar pro meu namorado na época: “alguém morreu! ela está morrendo agora!” e desabei em choro até dormir de exaustão. Na manhã seguinte ao acordar vi que meu telefone vibrava: fui acordada com a notícia que uma amiga tinha morrido de madrugada, seu carro tinha sido arrastado por um ônibus, no mesmo momento em que eu tinha a visão de alguém morrendo num acidente de carro. Ela morreu enquanto eu via que ela estava morrendo. Foi muito assustador. Isto deve fazer uns 13 anos e ainda hoje tenho medo de acontecer algo parecido e evito adormecer na posição em que tive essa visão.

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entrevista

Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen

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Montagem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: Oprah entrevistando MJ.

essa é a terceira parte da série de entrevistas que, recentemente, iniciei com poetas contemporâneos. a primeira parte, publicada aqui no blog (clique aqui), se deu com a poeta adelaide ivánova; a segunda, publicada no site da enfermaria 6 (clique aqui), se deu com um dos nossos editores, guilherme gontijo flores.

sem muita enrolação, passo a palavra à nossa entrevistada, a poeta júlia de carvalho hansen.

 

sergio maciel

* * *

SM – Recentemente você escreveu que “a poesia é a arte de lidar com a solidão do indivíduo na linguagem em que se comunicam”. Essa é sua definição pessoal de poesia? Mesmo com aquilo que diz Hilda Hilst sobre o escritor expressar sua verticalidade do melhor modo possível dentro da própria obra, não posso me furtar a pedir que você fale mais sobre esses versos & sobre sua visão a respeito da (o modo como você encara e lida com) poesia.

JCH – Rapaz! Que pergunta difícil de responder. Tem sim e tem não. Esta não é minha (única) definição pessoal de poesia, porque a minha definição de poesia é como a própria: metamorfose. Mas, sim, vejo a poesia como uma espécie de agência de ligações entre linguagens e mundos diversos, sempre a afirmar a própria solidão intrínseca. É como se a gente tivesse, num mundo particular, um monte de acúmulos, repertórios, buracos, com os quais o mundo de um poema estabelece conexões.

O verso que você cita do meu poema é uma releitura, uma realocação de um sentimento do mundo drummondiano: “Na solidão de indivíduo / desaprendi a linguagem / com que homens se comunicam”. Penso nestes versos porque o Drummond entendeu mais do que ninguém a linguagem com que os humanos se comunicam, a ponto de a ter desaprendido. Acho que esta gagueira instrumentalizada, isto também é o poema.

Quando escrevi esse verso que você citou eu estava com o Carlos na cabeça (estou quase o tempo todo com o Carlos no corpo), era alta madrugada e depois de anos eu me sentia muito sozinha (meu marido estava num retiro de meditação) e como ando pesquisando poemas que falem de amor, de afeto e de desejo pro novo livro que estou escrevendo, fui ler Ana Cristina Cesar, a quem eu só volto quando estou em mergulhos radicais, você sabe, paixão antiga sempre mexe com a gente.

E lendo o “A teus pés” naquela madrugada eu morria de rir de quanto a solidão é uma ilha de ilusão, sobretudo quando a gente a povoa com poemas, porque eles encenam tudo e mais um pouco do que podemos sentir em comum, eles encenam até o que a gente não sabia que a gente sentia, mas sentia. Aquele lance: o poema é o oráculo. E esta sensação de estar acompanhada e sozinha, me trouxe outras solidões do passado, lembrei das inúmeras noites de 15, 10 anos atrás, noites que eu atravessava lendo poesia e convivendo com a solidão acompanhada.

Agora a definição que você diz da Hilda eu não conheço! Podia googlar e me fazer de sabida, mas preferi me manter no mistério. Mas, poxa, a Hilda, aquele vulcão… eu pensava que ela só fazia poemas na horizontal!… Brincadeiras à parte, nem preciso entender pra dizer que concordo, sinto que estarei sempre de acordo com tudo que Hilda tiver escrito, falado, gritado. E olha que eu discordo até do Carlos.

SM – A definição da Hilda que cito está no livro Fico besta quando me entendem, que é uma série de entrevistas concedidas pela autora, organizadas por Cristiano Diniz e publicadas pela Biblioteca Azul. Mas ainda usando as coisas que você disse contra você (risos), recentemente, numa entrevista à Revista Continente, você disse que a produção do seu último livro, Seiva veneno ou fruto, se deu, em grande parte, graças ao seu retorno de Saturno, que foi quando você passou por um importante processo de abertura ao espiritual. Todavia você também diz que esse livro alinha e resolve coisas que você cultivava desde os 14 anos. É curioso ver como um processo iniciado e cerrado há pouco tempo suscita questões tão antigas, lá da sua adolescência. Aquilo que quero saber, no entanto, é o que todo esse processo espiritual, metafísico, astral representa pra você neste momento, dentro da sua obra, e de que modo isso afeta sua percepção da própria poesia, do seu fazer poético, do seu contato com a arte em geral. De que modo essas experiências todas ajudam a construir aquilo que você nomeou como uma “semântica integrativa”?

JCH – Lá vou eu falar de Drummond de novo: quando eu falo em “semântica integrativa” tem a ver com uma forma de montar os poemas no objeto final livro que aprendo a fazer com ele. Sabe quando você lê, por exemplo, Sentimento do Mundo e sai de lá de dentro com uma sensação que a palavra “noite” foi dita tantas vezes de tantos modos e com tantos significados e sonoridades combinadas que a noite se alargou até a linha do horizonte? De tanta coisa que “noite” significa. É um modo de ocupar as palavras e eu às vezes acho que o meu ofício é só esse: ocupar palavras.

O Herberto Helder diz algo parecido de forma invertida (e que cito de memória): “digo uma palavra mil vezes, ela já não significa”. Este meio-fio, este lugar em que a palavra é utilizada de modo a ocupar & ao mesmo tempo perder todo o significado, eu acho que esta é a visão de fronteira que me interessa e mora no poema. Entendo que o fio da linguagem que mora no poema é como um cavalo que cavalgasse uma fronteira limite, entre a ocupação material & o vazio e que, no fundo, é a linha limítrofe entre a vida & a morte também. Tanto Herberto como Drummond mostram isso o tempo todo & curiosamente ambos tinham Saturno em Capricórnio, o eixo no signo do tempo.

Formalmente eu gosto de ocupar o espaço de um livro com repetições semânticas que criem um fortalecimento das ligações entre os poemas, que elaborem uma sinergia dentro do livro e que, assim, pode transformá-lo numa espécie de objeto de combate, feito uma pedra ou um besouro, um objeto que em mãos alheias vai se entranhar com alguma implacabilidade. Tentei fazer isso em todos os meus livros de poemas até agora, mas só consegui no Seiva veneno ou fruto. Nos outros dois anteriores as linhas de fuga escaparam e como eu sou como sou (indisciplinada, exagerada e bagunceira) deixei estar. Afinal também sei apreciar o caos, a liberdade do caos. Mas no Seiva veneno ou fruto aconteceu uma espécie de ideal, de argila que eu (meio sem saber) tentava moldar desde a adolescência. E isto “moldar” tem tudo a ver com Saturno, que é o eixo.

Meu eixo de Saturno, o Saturno que tenho no meu mapa fala de muitas coisas, como buscar a transcendência através da descoberta do prazer, ou de como fazer da ancestralidade um eixo emocional de renovação lúcida (é o mesmo Saturno do Guilherme Gontijo Flores, por exemplo & aliás, quando li sua entrevista com ele fiquei vendo muito esse nosso Saturno em comum). Saturno em Escorpião tem que criar uma espécie de compromisso com isso, ou se não é soterrado de tanta presença de antepassados.

Em resumo: tudo isto que escrevi acima é uma tarefa espiritual. Durante muitos anos eu achei que vida “religiosa” e vida “espiritual” eram sinônimos, mas isso era um modo equivocado e tacanho de entender as coisas, inclusive as culturas rituais dos povos. Estou com o Álvaro de Campos quando ele diz que as religiões não ensinam mais do que a confeitaria. Mas o espírito é outra coisa, que respira. E atualmente é a palavra que mais me interessa entender, não tenho a menor ideia do que “espírito” significa e, no entanto, vou dizer “espírito” mil vezes e já não significará nada, podendo enfim esvaziada, ser uma palavra reutilizada da forma que convier, vivificada.

SM – Em apenas duas perguntas, ficou absolutamente claro que Drummond exerce uma senhora duma influência sobre você – assim como sobre mim – além da Hilda, que você também mencionou. Como foi sua formação literária? Quais poetas e processos te conduziram a ser a Júlia escrevendo hoje?

JCH – Pergunta complicada de responder, acho difícil dosar petulância e vaidade e não soar ingênua ou arrogante ao dizer que “Drummond me influencia”. Talvez eu prefira a antropofagia mesmo: comi e como Drummond, comerei do seu pasto o resto dos meus dias e espero fazê-lo a cada dia de modo mais erótico. O quanto essa alimentação me nutre de fato dando frutos presentes nos meus poemas ou não, eu não sei. No mesmo sentido eu mencionaria como fundamentais pra minha digestão da vida: Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst, Herberto Helder, Raduan Nassar, Leonardo Fróes, Clarice Lispector, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Mario Cesariny, Ruy Belo… e teriam outros, dezenas. Isto pra ficar só nesta língua imensa portuguesa. E, no fundo, são autores que influenciam muita gente, toda gente talvez.

Eu devo a escrita ao meu pai, é algo que herdei dele. Ele me ensinou não exatamente a escrever, mas a perceber as forças que existem no texto, a ter prazer por escrever, possuir toda legitimidade que eu quiser e me permitir imediatamente tudo que me der prazer ao fazê-lo. Acho que essa audácia foi o mais fundamental de tudo que ele me deu. Comecei a escrever por prazer com 9 anos de idade, primeiro escrevia uns contos que misturavam histórias que eu tinha visto na televisão; depois, com 11 anos, quando soube na escola que poesia não precisava ter rima, comecei a escrever poemas. Na adolescência escrevi uns 400 poemas que eu guardava com muito esmero numa pasta, compilando uma espécie de obra completa, até que um dia precisei da pasta pra guardar outra coisa, fui numa praça perto de casa e com um isqueiro queimei todas aquelas folhas de papel.

Ao mesmo tempo, hoje em dia eu sinto que aprendi a escrever na Universidade de São Paulo e faz tempo que quero dizer isso publicamente! Risos e mais risos. Hoje percebo que tratei meus trabalhos de estudante de Letras como exercícios ficcionais, em que era preciso construir argumentação e teia, tecido textual, eu aprendi (com Pound) como todos aprendem: fazendo, pelo exercício, pelo treino. Aprendi na Letras a exercitar a concatenação, a sensibilidade dos argumentos. Como é evidente não acho que um poeta precise estudar Letras, mas a necessidade de ser clara, de ser crítica e precisa me fizeram primeiro um mal danado: fiquei uns três anos sem escrever nada por prazer. Mas aí perdi um grande amor sem nem ter tentado de fato tê-lo e me senti tão estúpida que já não tinha nada a perder: comecei a me perder escrevendo. Na época, voltar a escrever por prazer foi uma libertação, significou também uma implosão daquilo que a Universidade tinha me colocado como paradigmas, eu estava de saco cheio. Mas hoje vejo de um modo um pouco diferente: eu incluí e incluo aqueles paradigmas críticos como ferozes participantes da sinergia textual. Mas misturei mais coisas, claro, que a USP, no geral, é um lugar muito careta.

SM – Num ensaio publicado na revista Germina (clique aqui), o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

JCH – Eu acho que esta pergunta é a mais fundamental que se pode fazer a um poeta hoje, ontem e sempre. Não acredito em poeta que não se veja como um missionário de alguma espécie mítica, de alguma técnica formal, de alguma audácia fundamental. Mas a minha resposta é um tanto quanto vaga: depende. Eu, hoje em dia, estou batalhando por uma voz que fale de algum lugar em comum, mas nunca que ela fale por este lugar em comum, não quero falar por ninguém, mas quero me tornar ninguém. Por isso tenho falado de morte, tenho falado de amor, tenho falado das plantas. São, digamos, os meus sinais fundamentais neste momento. Mas eu não sou em nada gregária e as deusas me livrem de um dia o ser. Acho que cada poeta vai ter seu sinal de emissão, sua sina de linguagem de determinadas tribos, seus códigos a inventar. Acredito, sobretudo nos povos que possam vir a morar na minha fala e trabalho todos os dias para veiculá-los. É tudo muito vago? Mas eu também nunca fui muito boa com “tarefas”, sou uma pessoa do êxtase, escrevo para senti-lo e causá-lo.

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poesia

Júlia Hansen (1984-)

júlia hansen

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo em 1984. É formada em Letras pela USP e mestre em Estudos Portugueses pela Universidade nova de Lisboa. Tem três livros publicados: cantos de estima (São Paulo, Selo de Estimas e Grama, 2009); alforria blues ou Poemas do Destino do Mar (Belo Horizonte, Chão da Feira, 2013) e O túnel e o acordeom (Lisboa, não edições, 2013). É uma das editoras das Edições Chão da Feira. Dos poemas abaixo, os dois primeiros são inéditos.

* * *

Milênios seja! pela via
da massagem, da poesia ou da faxina,
através da fumaça, do tabaco
& da bruta flor do querer
cantofalamos
nos sonhos pisando
na lâmina e descansando
na lama dos pensamentos
meditados, dos atos
percebidos ou atormentados
pela dança da presença
com uma criança ter contato
por palavra, respiração e pele
abrir o botão de uma rosa
com os dedos
é como aceitar os dons
mágicos afinando
as cordas vocais
dos analistas
de geometrias
da família
lavando os armários com água
forte irrompe rochas, cadeados
feito logins abrindo, rompendo
rolando cascalhos e léguas!
subindo escadarias e montanhas
de empecilhos, aos solavancos
na estrada abaixo
do esquecimento e do desgaste
que a reza dos gramáticos encerra
o inconsciente se move
O tempo todo.

§

Da palavra sair
habitar outros mundos
a espinha dorsal do peixe
lamber até limar os dígitos.
Dar os tímpanos
ao vibrar dos grilos
reconhecer a chegada do trovão
no deslocar do sangue
e ao anteceder terremotos
subir! No alto da árvore
e cair com o rabo
enovelando um galho
se dependurar na abobada celeste
soprar o rumo dos pólos
e das marés que vem dos pólos.
Não conhecer despedida
viagem ou remorso,
código, símbolo ou faca.
Nunca alterar a rota do fogo.
Ser seiva, veneno. Ou fruto.

§

Minha vida foi parar em outra galáxia
e eu escrevo para resgatá-la.
Mas entre mim e a vida
havia quem acreditasse
que as coisas que pensa
pensa por si próprio.

Seria um obstáculo.
Não falasse eu que ninguém pensa
por si próprio
não tinha que me fazer explicar
com minhas calças vermelhas
meu casaco monogramado
R. de ressentimento
esburacando a minha língua.

É a explicação a origem
do buraco negro
em que estamos.
No buraco negro
deslizam as paredes
se as tentamos agarrar
quando chegamos nisso
que não há.

Como chegamos lá?
Ao morrer. Você morre
e sua matéria
fica na terra, certo?
Ou se dissipa no fogo
a matéria do teu corpo.
Aquilo em ti que te anima
o cão da tua respiração
a faca que são teus olhos,
teus cabelos, teus corvos
aquilo que morde a tua dentição
e vibra fibra músculo enfim
a tua alma mesmo
e tudo aquilo que é invisível em você
é tragado (invisivelmente)
para o buraco negro.
As cáries, os pergaminhos egípcios,
as colheres que você entortou abrindo latas,
não. Isso definha na terra.
Sete palmos.

§

Estou sempre a espera de ver a pulsação
vou na frutaria de olhos muito abertos
vez em quando meus ombros se fecham
quando muito chama a ver. Temem o fogo
que se alastra entre estalos nas estruturas.

Preciso dissolver um pouco dos vigiantes olhos
para encontrar todos os olhares que tenho por onde.
É assim que vejo também a confusão.
A confusão tem algumas coisas para me ensinar.
Essa pouca relação é a nossa.
Meu esteio é claro quando estou pisando
meu chão diamantado de dentes
de cada animal que comi para me tornar
humana. E assim poder dizer.

Mas eu sei
sou tão pontual
nasci para esperar
os deuses não.
Dia desses
ganharei outra velocidade.
Serei planta.
E hei de continuar
iluminada
pela água.

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