poesia, tradução

Dois poemas de Charles Bernstein

All-the-WhiskeyEsses dois poemas foram retirados, respectivamente, dos livros My Way: Speeches and Poems e All the Whiskey in Heaven, e são comentados pela crítica Marjorie Perloff em seu livro de memórias The Vienna Paradox e no ensaio “La Grande Permission: John Ashbery in the 21st Century”, que, apesar de ser sobre John Ashbery e não sobre Bernstein, comenta algumas aproximações entre os dois poetas. Nos já falamos brevemente sobre Charles Bernstein anteriormente aqui no escamandro numa postagem sobre o seu libreto para a ópera Shadowtime, de Brian Ferneyhough, sobre a vida e pensamento de Walter Benjamin (clique aqui).

Como reconta Perloff, “A Aventura Fantástica de Gertrude e Ludwig” foi escrito quando Bernstein descobriu o nome de nascença dela, que é o que consta na dedicatória do poema, Gabriele Mintz – Marjorie sendo o nome que ela assumiu após a imigração, e Perloff seu nome de casada –, e o título contém uma alusão, muito ao modo de Bernstein, misturando comicamente nomes da dita “alta cultura” com referências pop, à poeta Gertrude Stein e o filósofo Ludwig Wittgenstein, apontando para a Viena que Perloff abandonou quando era criança, à época da anexação pela Alemanha nazista, que é justo o tema de seu livro de memórias. A “aventura fantástica” (“bogus adventure”) se refere aos filmes de comédia dos anos 80/90 Bill & Ted – Uma Aventura Fantástica (Bill & Ted’s Excellent Adventure, 1989) e Bill e Ted – Dois Loucos no Tempo (Bill & Ted’s Bogus Journey, 1991) (ironicamente, como ela mesma confessa, Marjorie desconhecia os dois filmes). Trabalhando com uma grande quantidade de jogos de palavras e trocadilhos, como Chase & Sandborn (Chase & Sanborn sendo uma marca de café cujo slogan nos anos 50 era “Uma xícara de manhã para afastar a gripe!”, que, ao se transformar no poema em “sandborn”, adquire o tom grotesco da imagem de um café com areia) ou as relações entre “picture” e os dois sentidos de “pitcher” (tanto jarro quanto arremessador, no beisebol) e as paranomásias de “catch”, “clinch” e “clutch”, o poema opera nessa área nebulosa de dissolução de fronteiras entre uma Viena pré-guerra, com a alta cultura, a Bildung e a Kulturdrang do círculo social dos judeus secularizados que ela representa, e o mundo estranho de cultura pop norte-americana – dos esportes, do marketing, do besteirol – que recebeu esses judeus, como a própria Perloff, como imigrantes.

 

Ludwig Wittgenstein e o famoso "pato-coelho"

Ludwig Wittgenstein e o famoso “pato-coelho”

“Doggy Bag” é outro poema bastante estranho, um tipo de balada com um ritmo cômico que se sustenta parcialmente sobre rimas algo irritantes – doggy bag, hate to nag, hate to brag, my cuts and jags, hate to frag, hate to gab – e que Perloff interpreta como um poema de guerra (com “frag”, por exemplo, sendo uma gíria militar, relacionada às granadas de fragmentação), desenrolando-se enquanto constantemente cria e desfaz expectativas. O eu-lírico procura algo, mas o que ele procura é uma coisa sem valor (uma “doggy bag”, aquele tipo de marmita que a gente pede para o restaurante embrulhar para o cachorro depois do almoço). A primeira estrofe cria expectativas de que se mantenha o andamento cômico e a rima besta (que eu não consigo não ler num ritmo como na canção de “Knights of the Round Table” do filme Monty Python e o Cálice Sagrado… o que talvez seja uma idiossincrasia, mas me parece adequada no contexto bernsteiniano), quebradas pela segunda estrofe, e o tom infantil (a referência à infância retorna no final) se degenera em senilidade. Diz Perloff que se trata de uma “balada sobre narcisismo e regressão”, cujo esvaziamento sonoro dos versos finais “aponta para a bravata absurda do falante, ferido física ou, ao menos, mentalmente, que, como fica óbvio, acabou não amadurecendo. ‘Doggy Bag’ é hilário em seu tom inconsequente, seus ares cômicos de presunção. Mas é também um poeminha muito triste”. Esse tom melancólico, porém não óbvio, disfarçado pela irreverência, me parece permear os dois poemas. Como tradutor, tendo passado pelos poemas a caminho de traduzir a Perloff, eu senti que valia a pena o esforço da tradução poética e me determinei a encontrar soluções para esses jogos de palavras em português – o que explica, espero, a esquisitice dos poemas traduzidos.

 

A Aventura Fantástica de Gertrude e Ludwig
         para Gabriele Mintz

Enquanto Billy sobe os balões todos
Ficam ilhados no outro lado da
Paisagem lunar. Partiu-se o módulo —
Parece que faz uma eternidade, mas quem
É que conta — e a Sally entrou pra igreja do Moon,
Notória inovação — já basta se se saboareia
uma xícara de Chase & Sabão — mas
Se as cordas do violão partiram sempre
Dá pra usá-lo de mesa de centro.
Fazia frio em Viena nessa época do ano.
Tão doce a sachertorte só que a lembrança
ardia no cólon. Se desengripe, desengripe, antes
Que a Gripe te pegue. Feliz por ver o jogo da pena
Na tinta — lançador do jogo de copos que jorra antes
De jogar a Bola, sem ter nunca em vista quem pegue.
Nunca quem pegue, por vezes pegadas ou
Fungadas ou pagodes ou uma colherada — nunca quem
Pegue mas demais de intriga, até nos vermos
Neste lado da cantiga.

 

Gertrude and Ludwig’s Bogus Adventure
for Gabriele Mintz

As Billy goes higher all the balloons
Get marooned on the other side of the
Lunar landscape. The module’s broke—
It seems like for an eternity, but who’s
Counting—and Sally’s joined the Moonies
So we don’t see so much of her anyhow,
Notorious novelty—I’d settle for a good
Cup of Chase & Sand-borne—though when
The strings are broken on the guitar
You can always use it as a coffee table.
Vienna was cold at that time of year.
The sachertorte tasted sweet but the memory
burned in the colon. Get a grip, get a grip, before
The Grippe gets you. Glad to see the picture
Of ink—the pitcher that pours before
Throwing the Ball, with never a catcher in sight.
Never a catcher but sometimes a catch, or
A clinch or a clutch or a spoon—never a
Catcher but plenty o’flack, ‘till we meet
On this side of the tune.

 

Marmita do cão
         para Olivier Cadiot

viste a minha marmita do cão aí?
perdoe insistir, perdoe insistir
viste o meu cordão de esmeralda?
perdoe me exibir, perdoe me exibir

tomei a ceia na vila
almoço na cabana
se você não me devolver minha
dentadura
vou babar como um

homem que já teve prata
homem que já teve ouro
homem que já teve tudo
menos uma canção só sua

então viste minha égua com sono
meu pônei à espreita, o jegue em mormaço
viste como eu me feri?
perdoe explodir, perdoe explodir
viste o meu tambor rompido?
perdoe por rir, perdoe por rir

a tampa do vaso está abaixada
é lá que eu penso em sentar
até achar a marmita do cão
que perdi quando menino

 

Doggy bag
         for Olivier Cadiot

have you seen my doggy bag
hate to nag, hate to nag
have you seen my emerald chain
hate to brag, hate to brag

I ate the supper in the village
lunch at the lodge
if you don’t give me back my
upper teeth
I am going to drool like a

man that once had silver
man that once had gold
man that once had everything
but a tune of his own

so have you seen my nodding mare
my lurking pony, my sultry donkey
have you seen my cuts and jags
hate to frag, hate to frag
have you seen my broken drum
hate to gab, hate to gab

the toilet seat is down now
it’s there I plan to sit
until I find that doggy bag
I lost while just a kid

(poemas de Charles Bernstein, tradução e apresentação de Adriano Scandolara, a partir do comentário de Marjorie Perloff)

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poesia, tradução

Uma canção de Shadowtime de Charles Bernstein

Bernstein_Charles_Campinas-Brazil_7-2006Charles Bernstein (1950 – ) é um dos poetas mais proeminentes da poesia Language (ou L=A=N=G=U=A=G=E, como era o nome da revista), autor de dezenas de volumes de poesia e ensaios, além de editor de coletâneas, de volumes de poetas importantes como Louis Zukofsky e de volumes da L=A=N=G=U=A=G=E. Em português, temos (de que tenho notícia) um único livro de poemas e ensaios, traduzido pelo poeta Régis Bonvicino e publicado pela Martins Fontes, intitulado Histórias da Guerra.

O poema que eu gostaria de apresentar aqui é, na verdade, um pedaço de um poema mais longo, um libreto de uma ópera intitulada Shadowtime – que, se me fosse dada a missão de traduzir, eu provavelmente traduziria como algo parecido com Horassombra – encomendada pelo compositor britânico Brian Ferneyhough (1943 – ). Horassombra, encomendada em 1999, composta entre 1999 e 2004 e apresentada pela primeira vez em 2005, é uma obra em 7 cenas baseada na vida e obra do pensador Walter Benjamin. No entanto, ao contrário do que normalmente se espera de uma obra biográfica, ela não representa – nem de longe – a vida de Benjamin de forma cronológica ou realista. A primeira cena, “New Angels/Transient Failure”, começa com a chegada de Benjamin e sua mulher numa pousada da Espanha, enquanto tentavam escapar para a América, fugindo dos nazistas. Como se sabe, foi nessas circunstâncias, após ser  barrado por causa de um visto inválido, que Benjamin cometeu suicídio por overdose de morfina – e, o que é pior, um suicídio “desnecessário” (ou mais desnecessário do que a média, na medida em que isso é qualificável), uma vez que os seus companheiros de viagem foram liberados para prosseguir rumo à América na manhã seguinte. A partir dessa cena inicial, a realidade da peça se dissolve e dá lugar a representações e dramatizações de ideias retiradas do pensamento benjaminiano. A cena 4, cena central da ópera intitulada “Opus contra naturam”, marca a descida de Benjamin ao mundo dos mortos e continua explorando esse viés filosófico através de uma poesia que é, como costuma ser a de Bernstein, altamente experimental, não-referencial.

Então, aconteceu que eu acabei traduzindo poeticamente alguns trechos de Horassombra citados por Marjorie Perloff em seu Gênio Não Original e gostaria de compartilhá-los com vocês. A seguinte canção, chamada “Anfibolias”, é uma das treze partes da terceira cena da peça, “The Doctrine of Similarity” (um termo retirado de Benjamin), e uma das peculiaridades dessa cena são as várias restrições (à moda da Oulipo) sob as quais suas partes operam. Uma delas, por exemplo, a parte 8, “Anagrammatica”, consiste inteiramente de anagramas do nome “Walter Benjamin”, com o adendo de que eles devem conter a palavra “Jew” (judeu), enquanto a parte seguinte, “dew and die”, é uma recriação em inglês do poema concreto “der und die”, de Ernst Jandl, e assim por diante.

O recurso formal dominante nas “Anfibolias”, então, é o da homofonia. Há uma primeira estrofe de 13 versos, depois, nas duas estrofes seguintes, cada palavra em cada verso deve ser homofônica em relação às palavras dessa estrofe inicial. Dessa forma, o “walk slowly” da primeira estrofe se torna “fault no lease” e “balk sulky” na segunda e na terceira, respectivamente, depois “and jump quickly”, “add thump whimsy” e “ant hump prick free”, e assim por diante. De quebra, há ainda uma outra restrição, que é a de que cada verso deve ter obrigatoriamente um número primo de palavras. Essas anfibolias, por sua vez, se repetem ipsis litteris mais duas vezes nas partes 5 e 12 dessa cena, com inversões das ordens dos versos e das palavras.

O efeito obtido com isso, como comenta Perloff, longe de ser a mera geração de nonsense, é o seguinte:

Essa canção é, em geral, bastante direta: ela apresenta uma representação coral dos medos do protagonista em relação à árdua escalada da montanha, a mente apreendendo a semelhança entre os espinhos das roseiras e as pontas no mapa. Mas, nas próximas duas canções (63 e 64), como são ambas versões homofônicas da primeira, estruturalmente idênticas a ela, portanto, uma “semelhança” diferente ocorre. (…) Por mais embaralhados que esses poemas homofônicos possam ser, seu vocabulário representa acusticamente as tribulações do viajante, enquanto fornece um exemplo brilhante da “Doutrina do Semelhante” de Benjamin. Se, afinal, “o nexo do sentido que reside nos sons da sentença é a base da qual algo semelhante pode se tornar aparente a partir de um som”, então a imitação sonora da versão homofônica há de transmitir o próprio sentido do original.

É natural se imaginar, portanto, que a tradução dessa canção seria uma questão, no mínimo, delicada. Mesmo que eu quisesse, a estrutura sintática dos versos me impediria de recorrer a uma tradução semântica direta, que pelas ambiguidades, por si só já seria complicada. Não me restou alternativa, então, que não a de arregaçar as mangas e enfrentar o desafio da tradução poética tentando manter a homofonia. O resultado é, como só poderia ser, bastante experimental, na medida em que são levadas às últimas consequências as dificuldades de se equilibrar efeitos sonoros e semânticos típicos de toda tradução poética – os efeitos semânticos aqui, no caso, sendo a representação dos “medos do protagonista em relação à árdua escalada da montanha”, no caminho entre a França e a Espanha, de que comenta Perloff.

Adriano Scandolara

           

I. Anfibolias (Caminhe Devagar)

caminhe devagar
e salte ligeiro
acima
do relevo para
uma
roseira. Os
espinhos são pontas em um
mapa
para guiá-lo ao
que há atrás dos olhares
ares onde sombras
se adensam ao
meio-dia.

mesquinhe sem locar
e bate faceiro
afirma
uns pelegos para
uma
lodeira. Os
pauzinhos são lombos em uma
falta
a real fato
que atrai temores
dores monte assoma
se ensebam
perdida.

espinhe hesitar
em formigueiro
cinza
os trevos garan-
-te uma
roupeira. Os
estralidos são contas em uma
sonata
a desafiá-lo
cola faz (noz-) ferrolhos
escolhos (-moscada) provoca
se alqueivam
sumia.

5. Anfibolias II (Meio-dia) [instrumental]

meio-dia
ao adensam se
sombras onde ares
olhares dos atrás há que
ao guiá-lo para
mapa
um em pontas são espinhos
os roseira
uma
para relevo do
acima
ligeiro salte e
devagar caminhe

12. Anfibolias III (Espinhos)

meio-dia
se adensam ao
ares onde sombras
que há atrás dos olhares
para guiá-lo ao
mapa
espinhos são pontas em um
roseira. Os
uma
do relevo para
acima
e salte ligeiro
caminhe devagar

           

I. Amphibolies (walk slowly)

walk slowly
and jump quickly
over
the paths into
the
briar. The
pricks are points on a
map
that take
you back behind the stares
where shadows are
thickest at
noon.

fault no lease
add thump whimsy
aver
a sash onto
a
mire. The
sticks are loins on a
gap
not fake
rude facts remind a fear
tear tallow mar
missed case at
loom.

balk sulky
ant hump prick free
clover
an ash insure
at-
-tire. The
flicks are joints on a
nap
(nutmeg)
glue’s knack refines the dare
near fallow bars
quickest latch
gone.

5. Amphibolies II (Noon) [instrumental]

noon
at thickest
are shadows where
stares the behind back you
take that
map
a on points are pricks
the briar
the
the paths into
over
quickly jump and
slowly walk

12. Amphibolies III (Pricks)

Noon
thickest at
where shadows are
you back behind the stares
that take
map
pricks are points on a
briar. The
the
the paths into
over
and jump quickly
walk slowly

(Charles Bernstein, tradução de Adriano Scandolara)

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