Duas elegias sobre aborto, em Ovídio, por Guilherme Duque

No par de elegias a seguir, contidas no segundo livro dos Amores de Ovídio, o poeta trata de um tema geralmente pouco associado à Antiguidade Clássica: o aborto. Conforme diz Paul Veyne no primeiro volume da História da vida privada ([1985] 2009, p. 21-25), sendo uma prática relativamente comum na época Imperial, o aborto não era visto pelos romanos como algo mais do que um … Continuar lendo Duas elegias sobre aborto, em Ovídio, por Guilherme Duque

A poética da comédia nova romana, por Rodrigo Tadeu Gonçalves e Leandro Cardoso

Introdução A comédia latina, chamada pelos romanos de comedia palliata (a partir do termo “pálio”, um tipo de indumentária grega), foi um gênero muito importante e popular no período republicano romano desde sua introdução nos festivais públicos chamados ludi scaenici (literalmente “jogos de encenação”) em 240 a.C. até a morte de Terêncio em 159. Todos os textos produzidos para os festivais tinham como modelo uma … Continuar lendo A poética da comédia nova romana, por Rodrigo Tadeu Gonçalves e Leandro Cardoso

nota crítica: a “eneida” de virgílio, por carlos alberto nunes

em setembro de 19 a.C., junto à cidade de bríndisi, o moribundo públio virgílio marão pedia que queimassem os manuscritos “incompletos” da eneida, o poema épico fundamental da literatura romana ((nãoa  resumirei, mas podem conferir aqui)) & que viria a ser tornar, segundo t.s. eliot, o centro da cultura europeia: “Virgílio tem a centralidade do clássico único; está no centro da civilização europeia, numa posição que nenhum outro … Continuar lendo nota crítica: a “eneida” de virgílio, por carlos alberto nunes

Emanuel Swedenborg, Correspondências

O soneto das correspondências é provavelmente um dos poemas mais famosos (e também um dos mais tranquilos e menos ácidos, junto com “Elevação”, eu diria) das Flores do Mal do francês Charles Baudelaire (1821 – 1867): Correspondances La Nature est un temple où de vivants piliers Laissent parfois sortir de confuses paroles; L’homme y passe à travers des forêts de symboles Qui l’observent avec des … Continuar lendo Emanuel Swedenborg, Correspondências

morte e ressurreição na poesia tardo-antiga: prudêncio & venâncio

o fim da antiguidade é, pra quase todo mundo (& mesmo eu me incluo, apesar de latinista), um buraco negro. nada se sabe &, em geral, nem se quer saber. por isso, em clima de semana santa, decidi verter dois trechos poeticamente poderosíssimos dos séc. IV-VI. no primeiro, tirado da Psychomachia de Aurélio Clemente Prudêncio (348-?410 d.c.), uma narrativa alegórica das batalhas da alma contra os … Continuar lendo morte e ressurreição na poesia tardo-antiga: prudêncio & venâncio

3 elegias de sexto propércio

então logo abaixo vai um mínimo trecho da apresentação, 3 poemas (dos mais de 90) & algumas notas adaptadas ao blog. os 3 poemas formam um ciclo importante do primeiro livro de elegias & neles propércio discute a importância da poesia amorosa, num tom irônico, como é seu praxe. guilherme gontijo flores ps: a edição deve sair no primeiro semestre do ano que vem. * * … Continuar lendo 3 elegias de sexto propércio

álbio tibulo (60-19 a.C.), por joão paulo matedi alves

fala-se pouco, muito pouco, da musa pederástica romana, sobre a poesia de amor entre homens. em geral, o tema se limita à grécia, em geral uma grécia idealizada onde não haveria restrições sexuais severas – um triste engano. no entanto, aqui, independente das minúcias do contexto social que permitia e codificava esse tipo de poesia, mais importante é ver a poesia que se fez com … Continuar lendo álbio tibulo (60-19 a.C.), por joão paulo matedi alves

Marcial, por Décio Pignatari

Tenho a impressão de que todos os alunos de latim (ou pelo menos os com algum senso de humor) vibram na primeira vez que leem em aula o infame verso, ou o poema todo, aliás, do pedicabo ego vos et irrumabo de Catulo (carmen XVI) – pois esse frisson é elevado à enésima potência quando se descobre Marco Valério Marcial (40 – 102/104). Posterior a Catulo, … Continuar lendo Marcial, por Décio Pignatari

o moretum [pseudo-virgílio].

uma das coisas que mais me deixa curioso na literatura é a existência – imensa – dos textos que cercam o eixo central do cânone, que tentam invadi-lo pela atribuição da auctoritas ao texto, mas que costumam perverter esse mesmo cânone por apresentarem processos literários distantes desse eixo, ou seja, movimentos que expressam a falta de uniformidade nos sistemas literários (se ainda pretendermos ficar com esse … Continuar lendo o moretum [pseudo-virgílio].

tito lucrécio caro (c. 99-55 a.c.)

tito lucrécio caro é uma das figuras mais interessantes da literatura romana. sua única obra que nos chegou, de rerum natura (da natureza das coisas) é um longo tratado epicurista escrito em versos (mais de 7 mil hexâmetros divididos em 6 livros). no entanto, diferente de outros tratados científicos que apenas são talhados em verso – mera prosa recortada – , a escrita de lucrécio … Continuar lendo tito lucrécio caro (c. 99-55 a.c.)