crítica, poesia, tradução

Duas elegias sobre aborto, em Ovídio, por Guilherme Duque

Relevo romano, com a imagem de um parto assistido por parteira.

Relevo romano, com a imagem de um parto assistido por parteira.

No par de elegias a seguir, contidas no segundo livro dos Amores de Ovídio, o poeta trata de um tema geralmente pouco associado à Antiguidade Clássica: o aborto. Conforme diz Paul Veyne no primeiro volume da História da vida privada ([1985] 2009, p. 21-25), sendo uma prática relativamente comum na época Imperial, o aborto não era visto pelos romanos como algo mais do que um método contraceptivo, como se não importasse o momento em que a mulher decidisse interromper a gravidez. Os métodos variavam desde intervenções que poderíamos chamar de cirúrgicas até o consumo de substâncias abortivas.

Referências a esta prática remontam às comédias plautinas (séc. II a.C.), mas na elegia erótica romana essas parecem ser sua única menção. Na primeira elegia, Am. II, 13, lemos que Corina encontra-se em um estado de saúde frágil após ter realizado um aborto. O poema então se segue com um apelo aos deuses pela vida da jovem, em que chama atenção a presença da religiosidade oriental no mundo romano, de que é testemunha a invocação da deusa Ísis (v. 7-17). Nos versos finais, o poeta volta as preces à deusa grega Ilitia, deusa da gestação. A postura súplice do poeta é contrastada pela elegia seguinte, Am. II, 14, em que o seu discurso toma a forma de uma crítica em alguns momentos até agressiva contra a prática do aborto. Embora existissem muitos motivos sociais, econômicos, religiosos e até mesmo políticos para se enjeitar um filho ou terminar uma gravidez (VEYNE, 2009, p. 22-23), Ovídio acusa as mulheres de o fazerem por vaidade: para não ter o corpo marcado por estrias (v. 7). Ele lembra os heróis da mitologia para afirmar que os seus grandes feitos não teriam acontecido se suas mães tivessem abortado (v. 9-17). É muito interessante notar, entretanto, que para o poeta parece existir ao menos uma justificativa legítima para realizar o aborto: a vingança contra o marido. Ele cita Medeia e Procne (v. 29-30) que se vingaram dos respectivos maridos, Jasão e Tereu, assassinando os próprios filhos – acrescente-se: já nascidos. No final fervoroso, Ovídio afirma que a prática não sai impune, mas que muitas mulheres morrem no processo (v. 37-38). Ele transmite então uma suporta opinião geral moralista de que seria merecida uma tal morte (v. 39-40), no entanto não é seguro afirmar que isto procede de fato sem o suporte de uma pesquisa mais apurada. O poema termina, enfim, com uma nova prece aos deuses, um pedido para que poupem a vida daquela que cometeu este delito (Corina?), mas sem deixar de desejar que uma eventual segunda vez seja devidamente punida (com a morte?).

Por fim, resta notar como é curioso comparar o final dos dois poemas, porque também o primeiro, apesar do formato de prece, acaba com um tom um tanto cínico: o pedido do poeta e a promessa dos votos parecem ser enfraquecidos por certa resignação quando ele diz à deusa “te baste ter lutado esta batalha” (Am. II, 13, 28). O segundo é carregado de um forte teor de censura até chegar a intercessão pela vida da jovem padecente, que também não deixa de vir acompanhada por um segundo pedido mordaz: se ela não aprender a lição agora, que venha o castigo na segunda vez (Am. II, 14, 44). Aos poemas.

Guilherme Duque

* * *

Amores II, 13

Tendo ferido temerária o ventre grávido,
fraca Corina jaz: a vida em risco.
Porque em segredo o feito executou, é digna
da minha ira, mas esta cede ao medo.
Porém de mim engravidou, ou o penso eu:            5
tomo às vezes por certo o que é possível.
Ísis, que o Paretônio e os campos do Canopo,
Mênfis e a rica em palmas Faro habitas,
onde o célere Nilo por amplos canais
desce e por sete portas chega ao mar,                      10
por teus sistros suplico e pelo horrendo Anúbis,
(assim teus ritos ame o pio Osíris,
deslize entre as ofertas a serpente lenta,
se ajunte à procissão cornudo Ápis):
volta a mim a tua face e poupa, em uma, duas,      15
pois dás a ela vida, e ela a mim.
Com frequência ela esteve devota nos dias
certos, onde os gauleses tingem louros.
E tu, compadecida por meninas grávidas,
cujos corpos latente fardo estica, 20
sê benigna e atende a minha prece, Ilitia,
ela é digna de que lhe ordenes graças.
Darei eu mesmo incenso aos fumosos altares
e levarei ofertas aos teus pés,
“Nasão” inscrito “pela cura de Corina”.                  25
Dá hoje ocasião para estes votos,
mas se entre tantos medos posso aconselhar-te,
te baste ter lutado essa batalha.

Amores II, 13

Dum labefactat onus grauidi temeraria uentris,
In dubio uitae lassa Corinna iacet.
Illa quidem clam me tantum molita pericli
Ira digna mea, sed cadit ira metu.
Sed tamen aut ex me conceperat, aut ego credo;  5
Est mihi pro facto saepe quod esse potest.
Isi, Paraetonium genialiaque arua Canopi
Quae colis et Memphin palmiferamque Pharon,
Quaque celer Nilus lato delapsus in alueo
Per septem portus in maris exit aquas,                 10
Per tua sistra precor, per Anubidis ora uerendi
(Sic tua sacra pius semper Osiris amet
Pigraque labatur circa donaria serpens
Et comes in pompa corniger Apis eat!)
Huc adhibe uultus, et in una parce duobus.        15
Nam uitam dominae tu dabis, illa mihi.
Saepe tibi sedit certis operata diebus,
Qua tingit laurus Gallica turma tuas.
Tuque, laborantes utero miserata puellas
Quarum tarda latens corpora tendit onus,          20
Lenis ades precibusque meis faue, Ilithyia!
Digna est quam iubeas muneris esse tui.
Ipse ego tura dabo fumosis candidus aris;
Ipse feram ante tuos munera uota pedes;
Adiciam titulum “seruata Naso Corinna”.          25
Tu modo fac titulo muneribusque locum.
Si tamen in tanto fas est monuisse timore,
Hac tibi sit pugna dimicuisse satis.

§

Amores II, 14

De que serve às meninas serem à guerra ilesas,
nem com escudo seguirem duras tropas,
se, sem Marte, feridas são por suas setas,
e armam mãos cegas contra o próprio fado?
Quem primeiro arrancou de si o tenro feto         5
foi digna de morrer na sua milícia.
Pois, para ao ventre a injúria das rugas faltar,
à tua luta se espalha a triste areia?
Se tal costume às mães antigas aprouvesse,
teria sido extinta a espécie humana,                    10
e ao que lançara ao vácuo pedras – nossa origem –
precisaríamos buscar de novo.
Quem teria esmagado Príamo, se a ninfa
Tétis o justo fardo rejeitasse?
Se Ília no ventre túmido os gêmeos negasse,    15
seria morto o autor da Urbe excelsa.
Se Vênus, ‘inda grávida, Eneias violasse,
privaria de Césares a Terra,
e tu, podendo bela nascer, eras morta
se tua mãe, como tu, isto tentasse;                     20
e eu mesmo, que prefiro perecer amando,
por mãe negado, o dia não veria.
Por que defraudas vides com uvas crescendo,
e frutos verdes colhe a fria mão?
Que caiam a seu tempo; deixa que eles cresçam, 25
vida não é mau preço à breve espera.
Por que abris as vísceras por meio d’armas
e ao não nascido dai venenos ímpios?
Pelo sangue dos filhos censuram a da Cólquida;
lamentam Ítis, morto pela mãe;                             30
ambas, por tristes causas, – cruéis genitoras –
do esposo se vingaram na progênie.
Dizei, pois, que Tereu, que Jasão vos incita
a ferir vosso corpo com mão presta?
Nem as tigresas nos recônditos da Armênia,     35
nem leoas ousaram perder crias,
porém o fazem tenras moças – não impunes:
quem no ventre os seus mata, amiúde morre.
Morre e à pira, de coma esparsa, é conduzida
e bradam “mereceu-o!” os que a veem.                40
Mas dissipam-se as minhas palavras na brisa
e nenhum peso tenham os meus augúrios.
Bons deuses, dai socorro à que uma vez errou;
seja a segunda falta castigada.

Amores II, 14

Quid iuuat inmunes belli cessare puellas
Nec fera peltatas agmina uelle sequi,
Si sine Marte suis patiuntur uulnera telis
Et caecas armant in sua fata manus?
Quae prima instituit teneros conuellere fetus,    5
Militia fuerat digna perire sua.
Scilicet ut careat rugarum crimine uenter,
Sternetur pugnae tristis harena tuae?
Si mos antiquis placuisset matribus idem,
Gens hominum uitio deperitura fuit,                   10
Quique iterum iaceret generis primordia nostri
In uacuo lapides orbe, parandus erat.
Quis Priami fregisset opes, si numen aquarum
Iusta recusasset pondera ferre Thetis?
Ilia si tumido geminos in uentre necasset,         15
Casurus dominae conditor Vrbis erat;
Si Venus Aenean grauida temerasset in aluo,
Caesaribus tellus orba futura fuit.
Tu quoque, cum posses nasci formonsa, perisses,
Temptasset, quod tu, si tua mater opus.            20
Ipse ego, cum fuerim melius periturus amando,
Vidissem nullos matre negante dies.
Quid plenam fraudas uitem crescentibus uuis
Pomaque crudeli uellis acerba manu?
Sponte fluant matura sua; sine crescere nata;  25
Est pretium paruae non leue uita morae.
Vestra quid effoditis subiectis uiscera telis
Et nondum natis dira uenena datis?
Colchida respersam puerorum sanguine culpant
Aque sua caesum matre queruntur Ityn:           30
Vtraque saeua parens, sed tristibus utraque causis
Iactura socii sanguinis ulta uirum.
Dicite, quis Tereus, quis uos inritet Iason
Figere sollicita corpora uestra manu?
Hoc neque in Armeniis tigres fecere latebris,  35
Perdere nec fetus ausa leaena suos.
At tenerae faciunt, sed non inpune, puellae;
Saepe, suos utero quae necat, ipsa perit.
Ipsa perit ferturque rogo resoluta capillos,
Et clamant “merito” qui modo cumque uident.  40
Ista sed aetherias uanescant dicta per auras,
Et sint ominibus pondera nulla meis.
Di faciles, peccasse semel concedite tuto;
Et satis est: poenam culpa secunda ferat.

(Ovídio, trad. Guilherme Duque)

 

 

Padrão
poesia, tradução

A poética da comédia nova romana, por Rodrigo Tadeu Gonçalves e Leandro Cardoso

mosaico romano com cena de comédia. atores mascarados dançam ao som de percussão & sopro.

mosaico romano com cena de comédia. atores mascarados dançam ao som de percussão & sopro.

Introdução

A comédia latina, chamada pelos romanos de comedia palliata (a partir do termo “pálio”, um tipo de indumentária grega), foi um gênero muito importante e popular no período republicano romano desde sua introdução nos festivais públicos chamados ludi scaenici (literalmente “jogos de encenação”) em 240 a.C. até a morte de Terêncio em 159. Todos os textos produzidos para os festivais tinham como modelo uma ou mais peças gregas da tradição da néa komoidia (a comédia nova), gênero helenístico praticado por Menandro, Apolodoro de Caristo e Dífilo, entre outros. Da produção grega, restaram para nós somente algumas peças de Menandro (apenas uma completa, e todas recuperadas ao longo de descobertas papirológicas no século XX) e fragmentos dos outros autores. Da produção latina, restaram 21 comédias de Plauto (uma em estado fragmentário e algumas outras em estado lacunar) e as seis que Terêncio teria produzido, além de fragmentos de outros autores, como Ênio e Névio.

O assunto das comédias era quase sempre o mesmo: as aventuras de um jovem adulescens (literalmente “adolescente”)em busca do amor proibido de uma uirgo (“virgem”) ou de uma meretrix (“prostituta”) e as dificuldades para conseguir dinheiro para comprar a prostituta ou para obter a aprovação do pai para casar-se com uma moça de estatura social geralmente inferior – ou seja, não cidadã. As comédias possuem, em geral, final feliz, e quase sempre contam com um escravo protagonista, responsável por auxiliar o jovem senhor em maquinações eenganos para conseguir o dinheiro necessário à sua realização amorosa.

Do ponto de vista da encenação, as comédias romanas apresentavam características bastante singulares: atores homens representavam todos os personagens (a utilização de máscaras é incerta, porém bastante provável), vestidos com figurinos gregos e os textos, todos poéticos, eram encenados de maneiras variadas, sendo que sua estruturação métrica possui uma relação intrínseca com as diferentes possibilidades de encenação. Nas peças da comédia latina podemos encontrar uma estrutura métrica divida em dois grandes grupos de versos: os diuerbia, as partes dialogadas, e os cantica, as partes cantadas e recitadas. Essas estruturas, então relacionadas à forma de encenar as passagens nelas constituídas, obedecem a critérios específicos de composição.

Os diuerbia dizem respeito às partes compostas em versos de seis pés jâmbicos (os senários jâmbicos, na nomenclatura latina) e eram geralmente falados pelos personagens. Os cantica, por sua vez, são divididos em dois outros grupos: aquele dos recitativos, ou seja, dos versos recitados com o acompanhamento de instrumentos musicais (geralmente a tibia, uma espécie de flauta de corpo duplo) e o dos mutatis modis cantica (cânticos em versos múltiplos) ou simplesmente as canções, partes cantadas com o acompanhamento de música e de dança. Os recitativos eram geralmente compostos em metros longos (septenários ou octonários) de pés jâmbicos ou trocaicos e os mutatis modis em um modo poético altamente complexo envolvendo versos líricos cujas cadências criam um rol de nomes pitorescos: báquicos, anapestos, dátilos, créticos, proceleusmáticos, jônicos, eólicos, timélicos, entre outros.

Os diferentes modos de elocução, representados por diferentes tipos de metros poéticos, eram utilizados funcionalmente para caracterizar tipos de personagens e para convencionar situações e até mesmo estruturas de enredo. Em uma das traduções apresentadas a seguir, o lamento patético de Alcmena, a esposa enganada do general Anfitrião, por exemplo, com andamento anapéstico, quando cantado e dançado por um ator vestido de matrona grávida provavelmente causaria um efeito espetacular de grande impacto na audiência heterogênea que costumava assistir aos espetáculos, composta por todas as classes sociais romanas em seu momento de otium estatal.

As múltiplas possibilidades musicais e poéticas da comédia latina, parte indissociável de sua estrutura, raramente receberam tratamento literário em sua recepção moderna, gerando inúmeras traduções em prosa que mal logram recontar tais enredos rocambolescos. Algumas exceções tentam aclimatar a selvagem variedade rítmica das peças a tipos de versos mais adaptados a tradições poéticas posteriores, como a Aululária do Barão de Paranapiacaba, de fins do século XIX, que utiliza decassílabos, dodecassílabos e redondilhas para simular o efeito de alternância encontrado em Plauto.

O que apresentamos aqui é, pois, uma tentativa de transcriar Plauto e Terêncio em versos cuja cadência emule a variedade de seu teatro, fazendo isso por meio de propostas poéticas pouco usuais, ou quiçá ousadas. O que apresentamos são extratos representativos de alguns desses modos poéticos diferentes, retirados das traduções integrais do Anfitrião de Plauto, feita por Leandro Dorval Cardoso, e dos Adelfos de Terêncio, feita por Rodrigo Tadeu Gonçalves. As traduções, cujos princípios em muito se assemelham, ainda que sejam diferentes as suas soluções, ainda encontram-se inéditas, mas representam uma tentativa de resgatar a poeticidade do teatro antigo; pioneiras, portanto.

Por esse motivo, os tradutores pedem ouvidos vazios e atentos e benevolentes e um julgamento justo, pois justo é julgar bem e com justiça o justo trabalho de fazer justiça, ainda que tardia, à comédia romana, “já que não convém ao justo ser injusto / e dos injustos é loucura desejar o justo
/ porque o injusto desconhece e renuncia ao justo” (Anfitrião, 35-7).

Alguns trechos

Primeiro modo de elocução dramática: os senários jâmbicos

O senário jâmbico, variação latina do trímetro jâmbico grego, verso que Aristóteles considera o mais próximo da conversação, constitui-se de seis pés jâmbicos que, no teatro romano, poderiam assumir outras configurações, dadas as múltiplas possibilidades de substituição do jambo por espondeus (duas sílabas longas), tríbracos (três sílabas breves), anapestos (duas sílabas longas seguidas de uma breve), proceleusmáticos (quatro silabas breves) etc. Tal variação, problemática para as traduções a uma língua isenta de duração vocálica, foi substituída por um sistema de pés métricos baseados em tonicidade silábica – tal como experimentado por outros tradutores. Nesse contexto métrico, Leandro Cardoso preferiu iniciar todos os senários com uma sequência de átona e tônica, garantindo assim uma sequência jâmbica já no início do verso, e termina-los com uma duplicação dessa célula. O resultado é alguma variedade rítmica no interior do verso, mantendo-se a identidade jâmbica em posições-chave – embora, muitas vezes, a cadência jâmbica mantenha-se por toda a extensão do verso. Rodrigo Gonçalves, por sua vez, preferiu fixar a cadência jâmbica no verso todo e buscar alguma variedade na extensão do verso, aceitando seis ou sete tônicas seguidas de átonas.

O primeiro exemplo, uma passagem retirada do prólogo de Mercúrio na peça Anfitrião, além de ilustrar o verso escolhido para a tradução dos senários, ilustra também outro aspecto comum às peças plautinas: o jogo verbal e sonoro criado por meio da repetição de vocábulos iguais ou parecidos ao longo de alguns versos. Brincando não só com o significado das palavras, mas também com sua semelhança sonora, Plauto cria uma espécie de eco que ressoa no ouvido dos espectadores despertando sua atenção não apenas para o efeito cômico que podem criar a repetição e a intercalação de palavras antônimas, mas também para o trabalho poético (de poiesis) que encabeça o texto dramático. Eis o trecho (Anfitrião, 32-7):

Por isso venho em paz e trago a vós a paz:
eu vou pedir a vós que façam algo justo e simples,
pois sou um orador bem justo e aos justos peço
justiça, já que não convém ao justo ser injusto
e dos injustos é loucura desejar o justo
porque o injusto desconhece e renuncia ao justo.

propterea pace aduenio et pacem ad uos affero:
iustam rem et facilem esse oratam a uobis volo,
nam iusta ab iustis iustus sum orator datus.
nam iniusta ab iustis impetrari non decet,                                              
iusta autem ab iniustis petere insipientia est;
quippe illi iniqui ius ignorant neque tenent.

            Já o velho bonachão Micião, nos Adelfos,mostra toda sua preocupação e misoginia nos seguintes versos (Adelfos, 26-39):

MICIÃO: Storax! Não veio do banquete desde ontem Ésquino
o nem os escravinhos que o acompanhavam
de fato o adágio é verdadeiro: se estás fora ou se
demoras por aí, é bem melhor acontecerem
as coisas que a esposa diz e pensa irada
do que aquelas que os pais propícios temem.
A esposa, se demoras, pensa que tu amas
ou que és amado, ou bebes e o que dá na telha fazes
e a ti tudo de bom, enquanto a ela só há mal.
e eu, como meu filho não voltou, que coisas penso,
que males me atormentam! Pode ter pegado gripe,
e pode ter caído alhures ou quebrado
um osso. Ah, desgraça um homem decidir
que algo é mais caro a si do que si mesmo!

Storax! – non rediit hac nocte a cena Aeschinus
neque servolorum quisquam qui advorsum ierant.
profecto hoc vere dicunt: si absis uspiam
aut ibi si cesses, evenire ea satius est
quae in te uxor dicit et quae in animo cogitat
irata quam illa quae parentes propitii.
uxor, si cesses, aut te amare cogitat
aut tete amari aut potare atque animo obsequi
et tibi bene esse soli, quom sibi sit male.
ego quia non rediit filius quae cogito et
quibu’ nunc sollicitor rebu’! ne aut ille alserit
aut uspiam ceciderit aut praefregerit
aliquid. vah quemquamne hominem in animo instituere aut
parare quod sit carius quam ipsest sibi!

            O segundo modo básico de elocução poética e musical das comédias romanas utilizava vários tipos de versos longos, como o septenário trocaico e o octonário jâmbico, acompanhados ou não da música da tibia. Essas passagens, normalmente dialogadas, são o lugar privilegiado da ação e do desenvolvimento dos enredos. No exemplo a seguir, vemos Mercúrio travestido no escravo Sósia, de Anfitrião, para impedir a entrada do próprio Sósia em casa, onde Júpiter, travestido em Anfitrião, faz uso de Alcmena. O diálogo é impressionante pelo longo uso do artifício cênico dos apartes, outra das características marcantes de Plauto. Durante muitos versos, os dois personagens conversam sem conversar, antes de se engajarem em diálogo efetivo. Novamente, além do aspecto cômico da situação, a passagem demonstra o apuro técnico da composição plautina, pois, ao mesmo tempo em que os apartes eram, provavelmente, seguidos por caras e gestos burlescos, as falas continuavam movimentando a ação, encaminhando a cena para o seu desfecho sem deixar de explorar o potencial cômico de cada um dos versos.

O princípio utilizado na tradução desses septenários trocaicos é o mesmo adotado na tradução dos senários jâmbicos. Com o número de sílabas podendo variar, os versos são caracterizados pela obrigatoriedade de alguns acentos: a primeira sílaba de cada um deles é obrigatoriamente lida como tônica, o que cria uma identidade rítmica que, já no início, diferencia essa estrutura métrica daquela criada pelos senários, conforme anteriormente exposto. Aqui também, ao final do verso, manteve-se a duplicação da célula rítmica átona-tônica, garantindo-se, assim, uma recorrência rítmica mínima para o verso – deve-se ressaltar ainda que, nesse como nos outros, a alternância entre átonas e tônicas foi mantida, sempre que possível, em toda a extensão dos versos, embora não fosse obrigatória. A seguir, o trecho comentado (Anfitrião, 308-26):

{Sósia} Ele está se armando: se prepara! {Mercúrio} Pois não vai ficar sem surra.
{Sósia} Quem? {Mercúrio} Aquele que vier aqui degustará meus punhos!
{Sósia} Sai de mim! Não gosto de comer assim tão tarde. Já jantei.
Essa janta, se você tem senso, dê então a quem tem fome.
{Mercúrio} Nada mau o peso desse punho. {Sósia} Pronto:  pesa os punhos!
{Mercúrio} E se eu bater bastante, até que durma? {Sósia} Vai prestar socorro,
pois  três noites eu passei desperto . {Mercúrio} Mas que coisa feia,
como agimos mal: minha mão é muito ruim moendo maxilares.
Outra cara é necessária a quem você espia com o punho.
{Sósia} Esse homem vai me pôr em obras e ajustar a minha fuça.
{Mercúrio} Vai ficar sem osso o rosto em que você bater com gosto.
{Sósia} Vou pasmar se não tirar-me a espinha como fazem com moreias.
Esse aí desossa homens sem motivo! Se me encontra, morro.
{Merc.} ’Tô cheirando alguém…  coitado!  {Sós.} Ops! soltei algum cheirinho?
{Mercúrio} Longe não está, mas certamente veio para cá de longe.
{Sósia} Esse aí é bruxo. {Mercúrio} Meus punhos estão descontrolados!
{Sósia} Se quiser me usar pra sossegá-los, dome-os antes na parede.
{Mercúrio} Uma voz me voa aos meus ouvidos. {Sósia} Mas não sou um infeliz?
Tenho uma voz que voa só porque não dei um jeito nessa asa.

{Sosia} Cingitur: certe expedit se. {Mercurius}: Non feret quin uapulet.
{Sosia} Quis homo? {Mercurius}: Quisquis homo huc profecto uenerit, pugnos edet.
{Sosia} Apage, non placet me hoc noctis esse: cenaui modo;
proin tu istam cenam largire, si sapis, esurientibus.
{Mercurius}: Haud malum huic est pondus pugno. {Sosia} Perii, pugnos ponderat.
{Mercurius}: Quid si ego illum tractim tangam, ut dormiat? {Sosia} Seruaueris,
nam continuas has tris noctes peruigilaui. {Mercurius}: Pessumest,
facimus nequiter, ferire malam male discit manus;
alia forma esse oportet quem tu pugno legeris.
{Sosia} Illic homo me interpolabit meumque os finget denuo.
{Mercurius}: Exossatum os esse oportet quem probe percusseris.
{Sosia} Mirum ni hic me quasi murenam exossare cogitat.
ultro istunc qui exossat homines. perii, si me aspexerit.
{Mercurius}: Olet homo quidam malo suo. {Sosia} ei, numnam ego obolui?
{Mercurius}: Atque haud longe abesse oportet, uerum longe hinc afuit.
{Sosia} Illic homo superstitiosust. {Mercurius}: Gestiunt pugni mihi.
{Sosia} Si in me exercituru’s, quaeso in parietem ut primum domes.
{Mercurius}: Uox mi ad aures aduolauit. {Sosia} Ne ego homo infelix fui,
qui non alas interuelli: uolucrem uocem gestito.

            Na passagem abaixo, o escravo Geta, da casa da velha Sóstrata, mãe de uma jovem deflorada pelo adulescens impetuoso, revoltado com a família do criminoso, em um fluxo virtuoso de impropérios, demonstra toda sua lealdade à sua senhora. Os versos 309 a 316 são octonários jâmbicos; o 317 é um dímetro jâmbico (variação curta dos versos jâmbicos tradicionais) e os versos 318 e 319 são septenários trocaicos, com o 320 retomando os octonários jâmbicos. A tradução segue o princípio do senário jâmbico: septenários trocaicos podem ter sete ou oito pés trocaicos (tônica seguida de átona), enquanto o octonário jâmbico leva de oito a nove jambos. O dímetro jâmbico, com duas dipodias jâmbicas em latim, ganhou uma forma com cinco pés jâmbicos. O trecho ilustra a variedade métrica presente dentro da fala de um mesmo personagem dentro de um mesmo modo de elocução (recitativo acompanhado de tibia):

GETA: Ai!
de mim, ai! Quase perco a compostura, queimo de iracúndia!
não há nada que eu queira mais que ver essa família toda
pra que eu minha ira toda vomitasse enquanto o ódio é recente.
aceitaria o meu castigo, ao menos se eu pudesse me vingar.
Ao velho arrancaria a alma só por ter gerado o vagabundo;
então também o Siro instigador, ah, como eu dilaceraria!
eu pegaria o traste e viraria a testa sobre o chão
e espargiria o cérebro no chão;
arrancava ao jovem os olhos e jogava do penhasco;
quanto ao resto – eu atropelo, arrasto, espanco e prostro.
Por que me atraso pra contar os males à senhora? (…)
(Adelfos, 309-20)

                                                                                              {GE.} ah
me miserum, vix sum compos animi, ita ardeo iracundia.
nil est quod malim quăm ĭllam totam familiam darĭ mi obviam,
ut ego iram hanc in eos evomam omnem, dum aegritudo haec est recens.
satis mihi id habeam supplici dŭm illos ulciscar modo.
seni animam primum exstinguerem ipsi quĭ ĭllud produxit scelus;
tum autem Syrum inpulsorem, vah, quibus illum lacerarem modis!
sublime[m] medium primum arriperem et capite in terra statuerem,
ut cerebro dispergat viam;
adulescenti ipsi eriperem oculos, post haec praecipitem darem;
ceteros – ruerem agerem raperem tunderem et prosternerem.
sed cesso eram hoc malo inpertiri propere? (…)

            Finalmente, o terceiro modo de elocução poético-musical, também chamado de mutatis modis cantica (cantos em versos múltiplos). No Anfitrião, após a despedida do deus travestido em esposo, a esposa virtuosa, entristecida pela rápida passagem do suposto marido, canta em tom tragicômico um lamento em versos báquicos (uma sílaba breve seguida de duas longas, um pé de andamento arrastado, marcadamente patético) de tamanhos variados. Aqui, a perícia poética plautina sobrepõe diferentes elementos da peça criando uma estrutura complexa e duplamente eficiente.

O tom patético do verso escolhido para o lamento de Alcmena contrasta, num primeiro momento, com a própria encenação do trecho. Dado o fato de os personagens serem interpretados por homens, a figura de uma matrona romana em avançado estágio de gravidez – de duas crianças, diga-se de passagem (Íficles e Hércules) – sendo vivida por um homem já é, em si, potencialmente cômica – burlesca mesmo. A isso se soma ainda outro aspecto explorado pelo autor. Alcmena, durante toda a peça, demonstra ser uma esposa perfeita, que respeita seu marido, sua posição social e sua condição – esposa de um renomado general tebano – e que tem profundo conhecimento de seus deveres, seus direitos e seus valores. Em diferentes momentos, inclusive em seu lamento, Alcmena evoca a honra como uma de suas principais características, o que demonstra a autoconsciência que ela tem do caráter distintivo de seus valores.

A repetição das palavras uoluptas (literalmente “prazer”) e uirtus (“virtude”), que carrega em si o radical “uir” (“homem, varão, viril”), dá à fala da personagem um tom fortemente sexual, que, tal como a encenação, contrasta com a seriedade evocada pelo metro no qual a cena é composta e com a gravidade do assunto abordado. Eis, portanto, a sua dupla eficiência: para quem não fosse capaz de perceber a complexidade etimológica por trás da escolha vocabular, a cena correria vitoriosamente cômica somente por sua interpretação; mas aqueles que compreendessem o jogo criado por Plauto através das palavras contariam, também, com outro aspecto potencialmente cômico na passagem.

Para a tradução desse lamento, Leandro Cardoso escolheu dar ao texto um andamento anapéstico (átona-átona-tônica), outro tipo de metro patético e que, em português, e especialmente no contraste com as outras células rítmicas utilizadas na tradução – compostas apenas por duas sílabas métricas –, soa arrastado se não tal como o báquico, ao menos mais que o jambo e o troqueu utilizados. Como a tradução de “uirtus” por uma palavra que pudesse evocar “homem, varão, viril” de maneira mais direta mostrou-se, no momento, empresa impossível para o tradutor – porém, destaque-se que uma leitura mais detida pode encontrar, em “virtude”, as letras iniciais de “viril”, outra forma de eco etimológico utilizada por Plauto –, buscou-se aumentar o apelo sexual em outras partes do trecho, tal como no emprego de “recebi meu marido” no verso 639 e de “meu homem” no verso 647. Vale destacar, ainda, que, no verso 641, tentou-se, mesmo que de maneira velada, criar uma referência ao intercurso sexual com “a tristeza ao sair foi maior que o prazer ao entrar”.

Sem mais, segue o trecho (Anfitrião, 633-653):

{Alc} O prazer não é algo pequeno na vida e nos dias vividos
comparado aos pesares? Assim prepararam os dias dos homens,
decidiram os deuses assim, que a tristeza acompanhe o prazer:
acontece algo bom e depois aparecem tristezas e dor.
Pois agora que  em casa acontece comigo, eu sei bem o que é.
O prazer foi pequeno pra mim, pois durante somente uma noite
recebi meu marido, que parte daqui com o dia surgindo.
E eu pareço ficar tão sozinha na ausência do homem que eu amo.
A tristeza ao sair foi maior que o prazer ao entrar.
Mas eu fico feliz
porque ele venceu e voltou para casa coberto de glórias.
Eis aí um consolo:
que se ausente, mas volte com glórias
e que as traga pra casa. Eu supero e tolero
com coragem e espírito firme que ele se ausente se isso
me for dado: meu homem voltar vencedor da batalha –
já será o bastante.
A virtude é o melhor dos presentes.
A virtude vem antes de todas as coisas:
liberdade, país, segurança, riquezas e vida, os filhos e os pais,
protegidos, guardados por ela.
A virtude tem tudo, e quem tem a virtude
só vai ter o que é bom.

{ALC.} Satin parua res est uoluptatum in uita atque in aetate agunda
praequam quod molestum est? ita cuique comparatum est in aetate hominum;
ita diuis est placitum, uoluptatem ut maeror comes consequatur:                 
quin incommodi plus malique ilico adsit, boni si optigit quid.
nam ego id nunc experior domo atque ipsa de me scio, cui uoluptas
parumper datast, dum uiri mei mihi potestas uidendi fuit
noctem unam modo; atque is repente abiit a me hinc ante lucem.
sola hic mihi nunc uideor, quia ille hinc abest quem ego amo praeter omnes.
plus aegri ex abitu uiri, quam ex aduentu uoluptatis cepi.
sed hoc me beat
saltem, quom perduellis uicit et domum laudis compos reuenit:
id solacio est.
absit, dum modo laude parta
domum recipiat se; feram et perferam usque                                                 
abitum eius animo forti atque offirmato, id modo si mercedis
datur mi, ut meus uictor uir belli clueat.
satis mi esse ducam.
uirtus praemium est optimum;
uirtus omnibus rebus unteit profecto:                                                            
libertas salus uita res et parentes, patria et prognati
tutantur, seruantur:
uirtus omnia in sese habet, omnia adsunt
bona quem penest uirtus.

            Há também o cântico afetado e patético do jovem Ésquino nos Adelfos, um dos raros cânticos de metros variados em Terêncio. Na tradução, Rodrigo Gonçalves tenta manter, por meio de blocos espaciais, os tipos de pés mais frequentes na passagem –dátilos (uma sílaba longa seguida de duas breves), troqueus e metros longos em coriambos (uma sílaba longa, duas breves e outra longa). O ritmo, que vai se esfacelando no original latino, deu lugar a uma configuração concreta que tenta mimetizar o estado de espírito alterado do jovem apaixonado:

dói-me tanto                            meu coração:
como pode de improviso um mau tão grande em mim cair?
como não sei                           nem que farei
nem como agir                        certo não é!
os        membros de medo       débeis estão;
a          mente me foge                         tanto temor,
no coração       plano nenhum             cabe,                            ah!
como vou        desta desgraça                         escapulir?
tanta suspei-               ta agora de
mim aparece                não sem razão:
Sóstrata crê-                me a mim mesmo
tê-la comprado ­– a citarista –
isso a velha me disse.
(Adelfos,610-617)

Discrucior animi:
hocin de inproviso mali mihi obicĭ tantum
ut neque quid me faciam nec quid agam certu’ siem!
membra metu debilia sunt; animu’ timore obstipuit;
pectore consistere nil consilĭ quit.
vah
quo modo mĕ ĕx hac expediam turba?
tanta nunc suspiciŏ de me incidit neque ea inmerito:
Sostrata credit mihi me psaltriam hănc emisse; id anus mi indicium fecit.
(610-7)

Rodrigo Tadeu Gonçalves & Leandro Cardoso (o texto acima foi originalmente publicado na primeira edição impressa do escamandro.)

Rodrigo Tadeu Gonçalves (Jaú – SP, 1981) é classicista, tradutor e professor de Letras na UFPR desde 2005 e pós-doutor pelo Centre Léon Robin de Recherche sur la Pensée Antique do CNRS em Paris. Candidato a polímata, provavelmente em vão.

Leandro Dorval Cardoso (Apiaí – SP, 1984) é Mestre em Letras com ênfase em Estudos Literários pela UFPR. Autor de uma tradução polimétrica do Anfitrião de Plauto, dedica-se à tradução poética da literatura latina, mas também se arrisca pelas sendas do espanhol. Atualmente, é Professor Substituto de Língua e Literatura Latina na UFPR.

* * *

 

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nota crítica: a “eneida” de virgílio, por carlos alberto nunes

mosaico de virgílio, entre duas usas (à sua direita, calíope, da poesia épica, à sua esquerda melpômene, da tragédia). hadrumeto (atual sousse), séc. iii a.c.

mosaico de virgílio, entre duas musas: à sua direita, calíope, da poesia épica, à sua esquerda melpômene, da tragédia. hadrumeto (atual sousse), séc. iii a.c.

em setembro de 19 a.C., junto à cidade de bríndisi, o moribundo públio virgílio marão pedia que queimassem os manuscritos “incompletos” da eneida, o poema épico fundamental da literatura romana ((nãoa  resumirei, mas podem conferir aqui)) & que viria a ser tornar, segundo t.s. eliot, o centro da cultura europeia: “Virgílio tem a centralidade do clássico único; está no centro da civilização europeia, numa posição que nenhum outro poeta pode compartilhar ou usurpar”. esse gesto do poeta moribundo que deseja aniquilar a obra imperfeita, reencenado na morte de kafka, é também o protótipo do gênio insatisfeito com uma obra muito acima do que os mortais poderiam fazer. verdadeiro ou não, tal gesto é um mito de fundação do poeta central com uma obra central .

bom, o julgamento de eliot estava na contramão do formulava seu amigo poeta ezra pound, que via na eneida uma versão paroquial da ilíada. pound despreza o caráter literário da obra, bem como o caráter pio do seu personagem principal, eneias. por mais desacertado que possamos considerá-lo, foi o julgamento de pound que prevaleceu para a maior parte dos leitores ao longo do séc. xx. aquelas obras que estavam em posição central na poesia romana (dentre vários, virgílio & horácio) saíram da lista canônica de leituras para ceder espaço às poéticas da vanguarda e a uma revisão necessária dos poetas esquecidos. com isso, a crítica do cânone tem seus riscos inversos (na batalha dos nomes, inserir um retira outro), & esses dois nomes são duas das maiores perdas do avanço destrutivo necessário nos modernismos, enquanto outros nomes – como sexto propércio – puderam ganhar mais espaço (pra nem falarmos nos provençais, nos metafísicos ingleses, ou no nosso sousândrade, &c.).

Eneida Odoriconão é à toa, portanto, que só temos duas traduções poéticas integrais da eneida no brasil: virgílio se tornou um poeta canônico não lido, em geral tido como símbolo de uma poesia clássica careta, conservadora, moralista, que pouco interessou à poesia e aos leitores de poesia dos últimos 100 anos. em parte, a confusão profunda entre igreja católica & cultura romana (com os padres assumindo quase todas aulas de latim), fez com que a literatura latina sofresse um revés, enquanto boa parte da literatura grega permaneceu com seu status, já que nela os leitores ainda viam pelo menos dois mitos mais interessantes: o da obra originária (homero, filosofia, lírica, tragédia) & o do exótico (como a língua é mais distante, imagina-se que o povo também seria muito mais distante). essas duas imagens vêm sendo desconstruídas: por um lado, vemos que a literatura grega vem de uma tradição oral antiquíssima & que talvez sua principal marca tenha sido o uso sistemático da escrita (ela é originária porque se conservou), enquanto percebemos que a cultura romana clássica nos é, no fundo, tão estranha quanto a grega & que a mediação da igreja, apesar do seu papel histórico na transmissão dessas literaturas, apenas criou a impressão de proximidade. resultado: temos hoje mais literatura grega do que romana. mesmo assim, com uma recorrência enorme às literaturas arcaica & clássica, enquanto o período helenístico & imperial dal literatura grega antiga (mais de meio milênio) permanece desconhecido, bem como a antiguidade tardia & o medievo.

mas voltemos as traduções da eneida: a primeira tradução brasileira é do maranhense odorico mendes (1799-1864) – nosso pai rococó – & a outra é de carlos alberto nunes (1897-1990). apesar de ter sofrido duras críticas em seu tempo (silvio romero as traduções “macarrônicas”), nos últimos anos a obra tradutória de mendes vem sendo ressuscitada, pelo menos desde que haroldo de campos escreveu, em 1962, seu artigo seminal “da tradução como criação e como crítica”, elevando odorico mendes ao patamar de “patriarca da tradução criativa”: hoje temos, por exemplo, o trabalho incrível do “projeto odorico mendes”, na unicamp, coordenado por paulo sérgio de vasconcellos. a poética tradutória de odorico está estudada, editada, disponibilizada & anotada.

a tradução  do também maranhense carlos alberto nunes (além de poeta, tradutor das obras completas de  homero, platão & shakespeare), foi publicada pela primeira vez em 1981 (montanha edições, em comemoração ao bimilenário da morte de virgílio) & pouco depois reeditada pela universidade de brasília, em 1983 (o que indica que teve boas vendas na época). infelizmente, o trabalho de nunes ficou parado ali, 30 anos atrás. seu projeto tradutório no mínimo singular de verter o hexâmetro datílico em versos de dezesseis sílabas (com tônicas nas sílabas 4, 7, 10, 13 e 16, formando um ritmo ternário) merece, há muito, mais atenção. é certo que suas traduções de homero (pelos motivos apresentados) já foram relançadas algumas vezes, por editoras diferentes; porém é só agora que vemos uma reedição do virgílio de nunes, numa edição organizada & anotada por joão angelo oliva neto (professor da usp, tradutor do livro de catulo e da priapeia grega e romana). trata-se de uma edição bilíngue  — como em algumas reedições de odorico —, que permite um contraste mais acirrado entre a poética virgiliana & as soluções encontradas por nunes. além disso, a edição conta com uma longa apresentação de oliva neto acerca da obra, do tradutor & da tradução (cerca de 60 pp.), além de apresentar o argumento de cada um dos 12 livros & uma gama de notas literárias & culturais. o resultado é um volume de quase 900 páginas, tal como a odisseia traduzida por trajano vieira, que saiu pela mesma coleção na editora 34 (& ganhou o jabuti de melhor tradução).

as traduções de carlos alberto nunes já foram muito criticadas como pouco poéticas & mesmo prosaicas. a meu ver (& assim eu o comentava na minha dissertação de mestrado, em 2008), boa parte da crítica era derivada de uma “incompetência cósmica” (expressão de augusto de campos) para a avaliação de projetos tradutórios exóticos. nunes emulava o hexâmetro (um verso de seis pés que varia entre 13 & 17 sílabas) com um verso longo, que poderia ser lido como seis repetições da mesma estrutura datílica em português (— u u, ou uma tônica seguida de duas átonas). por isso, houve quem achasse o verso brasileiro excessivamente longo & pesado; embora tivesse praticamente o mesmo tamanho dos versos de homero & virgílio: afinal, por que diabos o hexâmetro greco-romano não seria também considerado longo & pesado? a resposta mais simples é: virgílio & homero já eram canônicos – leia-se, intocáveis – nunes não; diante da nossa compreensível dificuldade de apreender os ritmos antigos, partimos do pressuposto de que eles são bons, mas quando há tentativas de recriá-los na nossa língua a resposta conservadora tende a ser a de que “isso não existe aqui” (com o corolário de que “nem deve existir”), ou que tout court “não é poesia”. por estar fora do padrão mais aceito de tradução poética, a versão de nunes, num primeiro momento, foi descartada do poético.

talvez pudéssemos formular a crítica de modo diverso: a tradução de nunes, de fato, não atinge os ápices poéticos da concreção de um odorico mendes, ou de um haroldo de campos; ela é mais alongada, como seu verso, mais fluida & oralizada, até mesmo flerta com a poética da prosa; então se o avaliarmos pelo critério poundiano (dichten = condensare), sua eneida pode ser um fracasso. mas isso é perder de todo o objetivo mais instigante daquela tradução, que foi o de fundar uma nova tradução rítmica via tradução. é esse mesmo verso longo que permite a nunes fazer um texto mais leve, ao mesmo tempo em que sustenta uma carga poética. não se trata – nem poderia se tratar! – de transcriação, mas de formular poética diversa, com uma mediação mínima das tradições métricas da língua portuguesa. é essa lógica do estranhamento produtivo, ou da incorporação de tradições estranhas, que mais vem interessando parte dos tradutores & estudiosos no brasil, tais como leonardo antunes & marcelo tápia (no grego), rodrigo gonçalves & leandro cardoso (no latim), dentre outros (como eu mesmo, em traduções de horácio). em parte, esse tipo de projeto está próximo de propostas estrangeirizantes (embora a sintaxe de nunes seja bastante “natural”) como as de henri meschonnic (ver o ritmo como acontecimento histórico é descentralizá-lo) & antoine berman (a tradução como espaço a ser dado para o outro, metáfora-título de l’auberge du lointin).

Eneida, sec 8de algum modo, nunes hoje faz parte não de um patriarcado (como queria haroldo para odorico), mas de uma constelação de referências — junto com haroldo & odorico — que prima pela multiplicidade, uma multiplicidade que aparece também no interesse crescente por poéticas indígenas & africanas dentro do brasil (penso em nomes variados, como risério, corona, josely baptista, niemeyer cesarino, dentre outros), por meio de traduções que resgatem o outro inevitável daquelas línguas, por ver no ritmo uma parte incontornável dessa abertura para a diferença. resgatar sua eneida, então, é resgatar, ao mesmo tempo, essa obra fundamental da história do ocidente, ao mesmo tempo em que reabre o espaço para um projeto tradutório peculiar.

por isso, transcrevo o trecho final do poema (livro 12, vv. 919-52) para dar uma ideia aos leitores que não conhecem ainda o trabalho de nunes.

explico o contexto: é o fim do combate entre o troiano/teucro eneias (filho de anquises) e o dauno turno (filho de dauno, guerreiro do lácio, comandante dos rútulos), que decidem dar fim a toda a guerra pela mão de lavínia (filha do rei latino) num duelo. depois de turno perceber que não pode ganhar o combate, ele tenta escapar por certo tempo. a cena começa quando eneias acerta seu adversário com a lança, este então aceita sua derrota & se porta de modo similar a um suplicante, entregando-se ao juízo do vencedor; porém eneias, vê que turno ainda usa em sua armadura os espólios arrancados de palante (o jovem filho de evandro que estava sob os cuidados dos troianos, há pouco morto & espoliado por turno); diante dessa memória, o herói troiano é tomado de ira & imediatamente mata turno, numa espécie de sacrifício à alma de palante. o livro & o poema se encerra com a descrição de turno morrendo.

a violência do encerramento, de algum modo, se assemelha à brutalidade do encerramento do filme tropa de elite (ok, não é um grande filme, mas estou pensando no efeito de encerramento), quando o traficante suplica que pelo menos não atirem com a escopeta em sua cabeça, apenas para que o enterro seja com caixão aberto, mas, diante do pedido, apenas ouvimos um tiro com a tela negra. acho que as reações de ambas as plateias (roma do séc. i a.c. e brasil do séc. xxi) talvez digam muito sobre as potencialidades da violência na cultura. é bem provável que parte do público romano regozijasse de ouvir/ler seu herói fundador aniquilar um inimigo inerme (como parte do povo brasileiro que adorou a polícia que estraçalhava a cabeça de um traficante); no entanto, ao mesmo tempo, uma boa parcela poderia ver nessa violência desmedida, nesse assassinato do suplicante indefeso, o símbolo do horror do império, o custo de deter o poder sobre o mundo, pelas vidas do outro, daquilo que os gregos adoravam chamar de bárbaros, & os romanos incorporaram; daquilo que a favela ainda nos apresenta de grande outro civilizatório (nosso estado de exceção permante). diante da violência final, sem comentários do narrador, o sentido do texto está aberto. virgílio era um poeta sutil, capaz de evitar dicotomias ingênuas, mais que tudo capaz de perceber a imensa dor dos vencidos (ele aprendeu bem a lição de homero nos funerais de heitor). turno não será um mero vilão de novela, nem eneias um herói inquestionável. o leitor é que o formará, ao mesmo tempo em que forma seu juízo sobre turno. como na vida, não há resposta fácil. só notem que a última palavra do poema é umbras, as sombras dos mortos.

guilherme gontijo flores

* * *

Enquanto Turno vacila indeciso, o Troiano sua lança
com pontaria certeira e vigor lhe desfere de longe,
no momentinho preciso. Muralha nenhuma tão duro
baque sofreu com projétil jogado por forte carneiro,
nem raio horríssono algum estalou com tamanho estampido.
Qual turbilhão borrascoso a mortífera lança avançava,
corta o septêmplice forro do escudo, a loriga transpassa,
indo encravar-se na carne da coxa de Turno extremado.
Dobram-lhe os joelhos; no solo se estende o gigante ferido.
Soam de todos os lados gemidos dos rútulos fortes;
o monte perto estremece, e nos bosques os ecos regougam.
Súplice, então, e humilhado, “faze como entenderes; venceste.
Mas, se te move o respeito às desgraças de um pai sem ventura
como também foi Anquises há muito, de Dauno te apiades,
da sua triste velhice, sem outro consolo na vida.
Aos meus devolve-me agora; o cadáver ao menos, mais nada.
Venceste, sim, e os ausônios me viram as mãos estender-te,
súplice e humilde. Lavínia pertence-te; é tua. Não queiras
levar avante tanto ódio”. Deteve-se Eneias um pouco;
os olhos volve para o alto; a direita reprime, indeciso.
E já se achava algum tanto abalado com aquelas palavras
do morituro guerreiro. Mas nisso conteve-se. No alto
do ombro fulgiu o talim conhecido, do jovem Palante,
bem como o cinto bordado que Turno lhe havia tirado,
quando acabou de matá-lo, no chão, já vencido e indefeso.
Nem bem Eneias a vista pousara naqueles despojoso,
ocasião de tormento indizível, explode em terrível
acusação: “Como? Falas em vivo escapar, quando vejo
que te enfeitaste com as armas dos meus? Quem te imola é Palante,
pelo meu braço. Palante! E em teu sangue se banha execrável”.
Assim falando, enterrou sua espada no peito de Turno,
sempre ardoroso. Desata-lhe os membros o frio da morte.
A alma indignada a gemer fundamente fugiu para as sombras.

(trad. carlos alberto nunes)

"Aeneas killing Turnus" de William Faithorne (1616-1691)

“Aeneas killing Turnus” de William Faithorne (1616-1691)

Cunctanti telum Aeneas fatale coruscat,
sortitus fortunam oculis, et corpore toto               
eminus intorquet. murali concita numquam
tormento sic saxa fremunt nec fulmine tanti
dissultant crepitus. volat atri turbinis instar
exitium dirum hasta ferens orasque recludit
loricae et clipei extremos septemplicis orbis;               
per medium stridens transit femur. incidit ictus
ingens ad terram duplicato poplite Turnus.
consurgunt gemitu Rutuli totusque remugit
mons circum et vocem late nemora alta remittunt.
ille humilis supplex oculos dextramque precantem               
protendens ‘equidem merui nec deprecor’ inquit;
‘utere sorte tua. miseri te si qua parentis
tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis
Anchises genitor) Dauni miserere senectae
et me, seu corpus spoliatum lumine mavis,               
redde meis. vicisti et victum tendere palmas
Ausonii videre; tua est Lavinia coniunx,
ulterius ne tende odiis.’ stetit acer in armis
Aeneas volvens oculos dextramque repressit;
et iam iamque magis cunctantem flectere sermo               
coeperat, infelix umero cum apparuit alto
balteus et notis fulserunt cingula bullis
Pallantis pueri, victum quem vulnere Turnus
straverat atque umeris inimicum insigne gerebat.
ille, oculis postquam saevi monimenta doloris               
exuviasque hausit, furiis accensus et ira
terribilis: ‘tune hinc spoliis indute meorum
eripiare mihi? Pallas te hoc vulnere, Pallas
immolat et poenam scelerato ex sanguine sumit.’
hoc dicens ferrum adverso sub pectore condit               
fervidus; ast illi solvuntur frigore membra
vitaque cum gemitu fugit indignata sub umbras.

"Kampf des Aeneas mit dem Turnus", de Franz Joachim Beich (1666-1748)

“Kampf des Aeneas mit dem Turnus”, de Franz Joachim Beich (1666-1748)

notas de joão angelo oliva neto:

Carneiro: aríete, cuja ponta tinha a forma da cabeça de carneiro, em latim, aries, arietis.
Septêmplice forro: forro que contém sete camadas.
Regougam: aqui, retumbam, estrondeiam.
Talim: boldrié que sustenta aljava e espada, e de que Turno se apoderou no livro X, vv. 495-500.
Execrável: refere-se a sangue.
Ardoroso: refere-se a Eneias.

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Emanuel Swedenborg, Correspondências

Heinrich Khunrath (1560 - 1605) - A Rosa Cósmica (de Amphitheatrum sapientiae aeternae)

Heinrich Khunrath (1560 – 1605) – A Rosa Cósmica (de Amphitheatrum sapientiae aeternae)

O soneto das correspondências é provavelmente um dos poemas mais famosos (e também um dos mais tranquilos e menos ácidos, junto com “Elevação”, eu diria) das Flores do Mal do francês Charles Baudelaire (1821 – 1867):

Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

 

Esse poema já foi traduzido várias vezes para o português, mas, dentre todas as traduções eu aqui favoreceria a de Jamil Almansur Haddad (edição da Abril Cultural das Flores do Mal, de 1984), pelos motivos de que ele manteve bonitamente o metro e a rima, ao mesmo tempo em que conseguiu manter intacta a expressão “floresta de símbolos”, que Ivan Junqueira, por exemplo, troca por “bosque de segredos” – um termo difícil de traduzir, aliás, considerando que a floresta aí está no final do verso e rimando com “paroles“, enquanto “símbolo” em português não rima com nada (talvez, forçando, com “êmbolo”). Reproduzo-a abaixo:

Correspondências

A natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com olhos familiares.

Como os ecos além confundem seus rumores
Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Perfumes frescos há como carnes de criança
Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
E outros ricos, triunfais e podres na fragrância

Que possuem a expansão do universo sem termos
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
Que cantam dos sentidos o transporte imenso.

 

Se você cursou Letras, já deve ter esbarrado nesse soneto em algum momento, provavelmente em alguma matéria sobre o simbolismo francês ou a poesia moderna em geral, já que ele é exemplar pela presença de noções e procedimentos considerados clássicos do movimento, como a sinestesia (os “oboés de doçura”, os perfumes frescos “como carnes de criança”, etc) e a visão da alienação do homem em relação à natureza (como se pode ler na interpretação neste site de uma matéria de poéticas de vanguarda na pós na Anhembi Morumbi). No entanto, a não ser que você tenha tido um currículo bem específico, é muito provável que o nome e as doutrinas do místico sueco Emanuel Swedenborg (1668 – 1772) tenham tido, no máximo, apenas uma menção passageira.

Emanuel_SwedenborgGosto de ver Swedenborg como uma figura algo oposta à de Sir Isaac Newton (1642 – 1727), não por causa de qualquer desavença entre o pensamento dos dois, mas pela sua recepção. É desnecessário glosar o quanto Newton revolucionou a matemática e a física com as noções propostas em seu Principia Mathematica e a invenção do cálculo (antes de fazer 26 anos, inclusive, como nos lembra, com muito entusiasmo, o físico Neil deGrasse Tyson), e por isso ele é lembrado, com razão, como um físico. Mas Newton também tinha um lado que hoje olhamos não sem alguma vergonha, que foi o seu estudo do que podemos incluir dentro do termo mais amplo de misticismo ou ocultismo: a procura de mensagens secretas na Bíblia (incluindo o estudo das proporções do Templo de Salomão), alquimia e profecia sobre o fim do mundo (por vir em torno de 2060, segundo seus estudos). E é isso que levou John Maynard Keynes, que adquiriu no século XX os documentos relacionados a esse lado obscuro do famoso físico, a declarar bombasticamente  que “Newton não foi o primeiro da era da razão, mas o último dos mágicos”. Quando digo, então, que Swedenborg foi o contrário dele, é porque, apesar de o conhecermos como um místico, foi só com 53 anos que esse seu lado aflorou de fato. Antes disso, começando em 1715, ele teve uma carreira muito produtiva como um homem da ciência, publicando um periódico chamado Daedalus Hyperboreus (onde ele chegou a publicar desenhos para uma máquina voadora) e estudando geometria, metalurgia e química (e não alquimia) e anatomia e fisiologia. Assombrosamente, um dos conceitos modernos que Swedenborg antecipou (e pelo qual parece que só agora ele está voltando a ser reconhecido) é o do neurônio e da organização do sistema nervoso (clique aqui), além de antecipar o modelo cosmológico da hipótese nebular, ao lado de nomes respeitáveis como Kant e Laplace. Numa época como a nossa em que misticismo e ciência são duas palavras que só são lidas lado a lado na fala extremamente vaga de indivíduos cuja única relação com qualquer coisa científica envolve fazer mal uso da física quântica para apropriá-la para os platitudes do discurso New Age e/ou tentar te convencer que a água tem sentimentos para pode vender garrafas d’água superfaturadas, que esse tipo de descoberta tenha vindo de alguém que é lembrado como um místico é uma imensa surpresa.

O que acontece é que é difícil saber se Swedenborg teve, de fato, uma revelação ou se o que houve foi que ele foi estudando e compilando fontes para ir aos poucos formulando um sistema místico próprio, já que a religião sempre fez parte dos seus interesses (seu pai, Jesper Swedberg, de fé luterana, estudava teologia e foi bispo). Em todo caso, em 1745 ele começa a escrever De cultu et amore Dei (Da adoração e do amor a Deus), sua primeira obra de teor religioso. Na sequência, ele passa a estudar o hebraico mais a fundo, a fim de sondar os sentidos místicos (e não meramente alegóricos ou proféticos do Novo Testamento) presentes nos versos do Velho Testamento – o que é curioso vindo de um não-judeu, porque esse tipo de estudo, pelo que sei, até então era, em sua maior parte, domínio dos cabalistas e outros estudiosos do misticismo judaico, e, mesmo dentro do judaísmo, essa noção só viria a ser mais difundida no século XVIII mesmo, com os judeus hassídicos, que incorporam os ensinamentos da Cabala. Aliás, a visão de muitos judeus, até o século XX, sobre a própria religião era a de que o judaísmo era legalista e ritualista demais e deficiente no tocante à espiritualidade, o que tem sido contestado com maior vigor mais recentemente, mas era muito comum até o período da Segunda Guerra Mundial.

Enfim, com base nesses seus estudos, Swedenborg publica entre 1749 e 1756 a sua obra mais famosa que é o Arcana Cœlestia, quae in Scriptura Sacra seu Verbo Domini sunt, detecta (Arcanos Celestes, que se encontram na Escritura Sagrada e no Verbo do Senhor, revelados), em 12 volumes, onde elabora um comentário versículo por versículo dos livros do Gênesis e do Êxodo (algo não muito diferente do que fazem, por exemplo, os dois primeiros volumes do Zohar judaico, um dos textos fundamentais da Cabala). Sua bibliografia inclui ainda mais de uma dezena de outros livros, notavelmente De Caelo et Ejus Mirabilibus et de inferno (Do Céu e suas Maravilhas e do Inferno, 1758), De Ultimo Judicio (Do Juízo Final, 1758), as quatro Doutrinas (do Senhor, da Escritura, da Fé e da Vida, todos de 1763), Apocalypsis Revelata (Apocalipse Revelado, 1766) e Apocalypsis Explicata (Apocalipse Explicado, 1785-1789), além de algumas outras obras póstumas. Sei de que há traduções para o português da obra de Swedenborg, mas, para quem lê em inglês, elas estão todas disponíveis online, em .pdf, no site da Swedenborg Foundation, clicando aqui. Para quem se interessar e quiser começar a estudá-lo, acredito que O Céu e o Inferno (Heaven and Hell, na tradução inglesa), por ser um volume único e algo conciso, é uma boa introdução.

A Árvore da Vida, com as 10 Sefirot, segundo a Cabala

A Árvore da Vida, com as 10 Sefirot, segundo a Cabala

Voltando agora para Baudelaire, uma das teorias mais interessantes de Swedenborg que foi absorvida pelo poeta francês foi essa doutrina das correspondências, que aparece em diversos momentos da Arcana Cœlestia e de O Céu e o Inferno. Como muitas vezes vemos essa palavra jogada para lá e para cá sem muito aprofundamento, quando se fala de Baudelaire, decidi compartilhar com vocês, leitores do escamandro, um trecho inteiro dedicado a ela, retirado de O Céu e o Inferno, de modo a poder dar alguma sustância para esse tipo de discussão. Quem tem algum conhecimento esotérico provavelmente já irá reconhecer nas palavras de Swedenborg uma velha máxima do Hermetismo: “quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius” (ou, mais concisamente em inglês, “As above so below“), bem como alguma similaridade, mais uma vez, com noções da Cabala. A questão das correspondências, por exemplo, entre o Céu e as partes do corpo humano, que Swedenborg delineia no parágrafo 96, me parecem ecoar as equivalências corporais das 10 sefirot, as emanações de Ein Sof (O Infinito) que servem de base metafísica para a criação: Kéter, a Coroa, fica acima da cabeça; Biná (compreensão) e Chocmá (sabedoria), são os dois lados do cérebro; Geburá (força, severidade) e Chesed (piedade, misericórdia), às mãos direita e esquerda; Netzá (vitória) e Hod (esplendor), às duas pernas, e assim por diante. E, antes que me acusem de estar fazendo uma salada mística aqui e enxergando pelo em ovo, essa similaridade já havia sido apontada por ninguém menos que Jorge Luis Borges num ensaio de 1975 (mais sobre o assunto, aqui), em que ele lamenta, inclusive, que essa semelhança não tenha sido examinada mais a fundo. A influência da doutrina de Swedenborg não está de modo algum limitada apenas a Baudelaire, mas abrange ainda William Blake (apesar de que, como diz H. Bloom, Swedenborg é uma referência que emerge via uso da ironia em O Matrimônio do Céu e do Inferno), Goethe, Schelling, Coleridge, Whitman, Elizabeth Browning, Tennyson, Dante Gabriel Rossetti, Ralph Waldo Emerson, August Strindberg, Carl Jung, W. B. Yeats, Czeslaw Milosz, e, é claro, Borges, além de autores em que essa influência é um tanto menos óbvia como os romancistas mais tipicamente associados ao realismo que foram Balzac, Henry James e Dostoiévski (fonte). Ou seja, é quase todo mundo que teve algo a ver com a criação do nosso entendimento da modernidade. Que parte disso possa ter tido contato ou derivado de algo tão arcano quanto a Cabala me parece uma curiosidade das mais interessantes – e o alcance dessa influência é um motivo a mais para lermos o velho Emanuel.

Por esse motivo e porque talvez seja possível também, como disse Olof Lagercrantz, lermos a obra teológica de Swedenborg de maneira literária, como uma forma de poema – um tipo “pós-moderno” de Divina Comédia, talvez, mesclando poesia em prosa como o próprio Baudelaire viria a fazer, com prosa visionária e exegese bíblica – que eu acredito que seja interessante compartilhar com vocês o seguinte trecho, recortado, pelo bem da brevidade, de O Céu e o Inferno.

(Adriano Scandolara)

 

12

Há uma Correspondência de Todas as Coisas do Céu com Todas as Coisas do Homem

87. Não se sabe o que é a correspondência nos dias de hoje, por diversos motivos, dos quais o principal é que o homem se afastou do céu pelo amor de si próprio e pelo amor ao mundo. Pois quem ama a si e ao mundo mais do que tudo só presta atenção às coisas mundanas, visto que elas apelam aos sentidos externos e gratificam os anseios naturais; e ele não presta atenção às coisas espirituais, visto que estas apelam aos sentidos internos e gratificam o espírito, por isso ela as deixa de lado, afirmando que são elevadas demais para sua compreensão. Não era assim com os povos antigos. Para eles o conhecimento das correspondências era o maior dos conhecimentos. Por meio dele eles adquiriram a inteligência e a sabedoria; e por meio dele os sacerdotes mantinham comunicação com o céu; pois o conhecimento das correspondências é o conhecimento angelical. A maioria dos antigos, que eram homens celestiais, pensava a partir da correspondência em si, como pensam os anjos. E por isso eles conversavam com os anjos, e o Senhor frequentemente aparecia para eles, e os ensinava. Mas hoje esse conhecimento se perdera por completo, de modo que ninguém sabe o que é a correspondência. (…)

89. Primeiro, o que é a correspondência. O mundo natural inteiro corresponde ao mundo espiritual, e não meramente o mundo natural em geral, mas cada detalhe dele em particular; e como consequência tudo no mundo natural que brota do mundo espiritual é chamado de correspondente. Deve-se compreender que o mundo natural brota de e deriva sua existência permanente do mundo espiritual, precisamente como um efeito provindo de sua causa. Tudo que há sob o sol e que recebe luz e calor do sol é chamado de mundo natural; e todas as coisas que dele derivam sua subsistência pertencem a este mundo. Mas o mundo espiritual é o céu; e todas as coisas nos céus pertencem a esse mundo. (…)

96. A correspondência dos dois reinos do céu com o coração e os pulmões é a correspondência geral do céu com o homem. Há uma correspondência menos generalizada com cada um dos seus membros, órgãos e vísceras; e de que isso se trata é algo que também será explicado aqui. No maior dos homens, que é o céu, aqueles que estão em sua cabeça excedem a todos os outros em tudo que é virtude, num estado de amor, paz, inocência, sabedoria, inteligência e, por consequência, alegria e felicidade. Eles fluem à cabeça do homem e às coisas que pertencem à cabeça e correspondentes. No maior dos homens, que é o céu, aqueles que estão em seu peito gozam da virtude da caridade e da fé, e eles fluem ao peito do homem e correspondem a ele. No maior dos homens, que é o céu, aqueles que estão em seus lombos e nos órgãos dedicados à geração se encontram num estado de amor marital. Os que estão nos pés estão no estado mais baixo da virtude do céu, que é chamado de virtude espiritual-natural. Aqueles nas suas mãos e braços estão no poder da verdade a partir da virtude. Aqueles que estão nos olhos se encontram em compreensão; nas orelhas, em atenção e obediência; nas narinas, percepção; na boca e língua, na habilidade de dialogar a partir da compreensão e da percepção; nos rins, na verdade, procurando, separando e corrigindo; no fígado, pâncreas e baço, os que estão em várias purificações do bem e da verdade; e assim com o resto. Todos fluem rumo às coisas semelhantes do homem e lhes correspondem. Esse fluxo do céu se encontra nas funções e usos dos membros corpóreos; e os usos, como provêm do mundo espiritual, assumem forma por meio de coisas tais como no mundo natural, e portanto se apresentam com efeito. A partir disso se tem a correspondência. (…)

 

13

Há uma Correspondência do Céu com Todas as Coisas da Terra

103. O que é a correspondência foi dito no capítulo anterior, e foi demonstrado que cada coisa e todas as coisas do corpo animal são correspondências. O próximo passo é demonstrar que todas as coisas da terra, e em geral todas as coisas do universo, são correspondências.

104. Todas as coisas da terra são distintas em três tipos, chamados de reinos, a saber, o reino animal, o reino vegetal e o reino mineral. As coisas do reino animal são correspondências em primeiro grau, porque vivem; as coisas do reino vegetal são correspondências em segundo grau, porque meramente crescem; as coisas do reino mineral são correspondências do terceiro grau, porque não vivem, nem crescem. As correspondências no mundo animal são criaturas vivas de vários tipos, tanto aquelas que andam e rastejam sobre o chão e aquelas que voam no ar; não precisam ser citadas por nome, pois são bem conhecidas. As correspondências no reino vegetal são todas as coisas que crescem e abundam nos jardins, florestas, campos e campinas; também prescindem de ser citadas por nome, porque são bem conhecidas. As correspondências no mundo mineral são os metais mais ou menos nobres, pedras preciosas ou não, terras de vários tipos e também as águas. Além delas, todas as coisas preparadas a partir delas pela atividade humana para uso são correspondências, como os alimentos de todo tipo, roupas, moradias e outras edificações, com muitas outras coisas.

105. Também as coisas acima da terra, como o sol, a lua e estrelas, e aquelas da atmosfera, como nuvens, névoas, chuva, raios e trovões, são igualmente correspondências. As coisas que resultam da presença ou ausência do sol, como a luz e a sombra, calor e frio, são também correspondências, bem como as que prosseguem em sucessão disto, como as estações do ano, primavera, verão, outono e inverno; e as horas do dia, a manhã, o meio dia, o cair da tarde, e a noite.

106. Numa palavra, todas as coisas que têm existência na natureza, da menor à maior delas, são correspondências. Elas são correspondências, porque o mundo natural com todas as coisas em si brota e subsiste do mundo espiritual, e ambos os mundos, do Divino. Diz-se que subsistem também, porque tudo subsiste daquilo de que brota, a subsistência sendo um brotar permanente; também porque nada pode subsistir de si próprio, mas apenas daquilo que lhe é anterior, portanto, a partir de um Primum, e, se separado disso, ele há de perecer e desaparecer por completo. (…)

109. Como as coisas no reino vegetal correspondem é algo que pode ser observado a partir de muitas instâncias, como as pequenas sementes que crescem e se tornam árvores, cobrem-se de folhas, geram flores e depois frutos, pelos quais outra vez depositam sementes, e isso tudo ocorre em sucessão e existe ao mesmo tempo numa ordem tão maravilhosa que é indescritível em poucas palavras. Poderíamos preencher vários volumes e ainda assim haveria arcanos cada vez mais profundos dizendo respeito mais estritamente aos seus usos, que a ciência seria incapaz de esgotar. Como essas coisas também partem do mundo espiritual, isto é, o céu, que se encontra na forma humana (como também foi demonstrado em seu capítulo próprio), assim todos os particulares desse reino têm uma certa relação a tais coisas como são no homem, como sabem alguns do mundo erudito. Que todas as coisas neste mundo são também correspondências me está claro por conta da experiência. Muitas vezes eu estive em jardins e observei as árvores, frutos, flores e plantas lá, reconheci suas correspondências no céu e conversei com aqueles com as quais estes estavam e com eles aprendi de onde e o que eram.

110. Mas nos dias de hoje ninguém pode ter ciência das coisas espirituais no céu às quais as coisas naturais no mundo correspondem, exceto a partir do próprio céu, visto que o conhecimento das correspondências se perdera por completo.

111. Há uma correspondência semelhante com as coisas do reino vegetal. De um modo geral, um jardim corresponde à inteligência e à sabedoria do céu; e por essa razão o céu é chamado de Jardim de Deus e de Paraíso; e os homens o chamam de paraíso celestial. As árvores, segundo sua espécie, correspondem às percepções e conhecimentos do bem e da verdade que são a fonte da inteligência e da sabedoria. Por essa razão os antigos, que estavam familiarizados com as correspondências, faziam seus cultos sagrados nos bosques; e por essa mesma razão as árvores são tantas vezes mencionadas na Palavra, e o céu, a igreja e o homem a elas são comparadas; como a parreira, a oliveira, o cedro e outros, e as boas obras feitas pelos homem são comparadas a frutos. Também o alimento derivado das árvores, mais especificamente da colheita de grãos do campo, corresponde aos afetos pelo bem e pela verdade, porque esses afetos nutrem a vida espiritual, como o alimento da terra nutre a vida natural; e o pão feito de grãos, num sentido geral, porque é o alimento que sustenta especialmente a vida, e porque simboliza todo alimento, corresponde a um afeto por todo o bem. É por conta dessa correspondência que o Senhor se chama de o pão da vida; e o pão tinha um uso sagrado no templo dos israelistas, sendo posto à mesa no tabernáculo e chamado de o “pão das faces” [lechem ha’panim]; também a adoração divina que era feita através de sacrifícios e holocaustos era chamada de “pão”. Além disso, por causa dessa correspondência o ato mais sagrado de adoração na igreja cristã é a Santa Ceia, em que é dado o pão e o vinho. A partir desses poucos exemplos, pode-se observar a natureza da correspondência.

(Emanuel Swedenborg, tradução de Adriano Scandolara a partir da tradução do latim de John C. Ager para a língua inglesa)

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morte e ressurreição na poesia tardo-antiga: prudêncio & venâncio

detalhe do mosaico "megalopsychia" ("magnanimidade"), em antioco, séc. V. medidas: 7 m. X 7.20m

detalhe do mosaico pavimental “megalopsychia” (“magnanimidade”), em antioco, séc. V. medidas: 7 m. X 7.20m

o fim da antiguidade é, pra quase todo mundo (& mesmo eu me incluo, apesar de latinista), um buraco negro. nada se sabe &, em geral, nem se quer saber. por isso, em clima de semana santa, decidi verter dois trechos poeticamente poderosíssimos dos séc. IV-VI.

no primeiro, tirado da Psychomachia de Aurélio Clemente Prudêncio (348-?410 d.c.), uma narrativa alegórica das batalhas da alma contra os vícios, temos a imagem violentíssima da morte da Heresia personificada. em vez de um desaparecimento alegórico, o que vemos é um cadáver estraçalhado por animais, enquanto sua imundície se espalha. o horror talvez se compense, se lembrarmos que a heresia, no poema, é uma figura infernal, afundada no enxofre & de um corporeidade que é a mesma do humano. o horror dela é o nosso.

no segundo, um trecho da Vita Martini, de São Venâncio Fortunato (?530-?605 d.c.) uma espécie de poema épico-biográfico-hagiográfico sobre a vida de São Martinho. o trecho descreve seu primeiro milagre, uma ressurreição; & toda sua força está na concretude desse corpo que retorna, parte a parte, até se realizar como uma pós-vida, casa & hóspede, herdeiro de si mesmo. também metáfora da condição humana, para o cristianismo: o corpo é um templo reconstruído na fé da ressurreição.

os dois poemas foram escritos em hexâmetros datílicos — o metro típico da épica — & optei por verter os trechos escolhidos em verso livre (sabendo que nenhum vers será libre, como já disse T. S. Eliot). o recurso visual aos dois pontos se dá por um motivo crítico de leitura, na busca por um sopro rítmico do poema (talvez bastante influenciado por leituras de Henri Meschonnic). eu cheguei a esses trechos pela obra de Michael Roberts, The jeweled style (1989), que trata da poética tardo-antiga a partir do seu gosto por enumeração & antítese. os dois pontos, na tradução, portanto, buscam marcar os ritmos internos dessas enumerações no contraponto da mesura do verso, por um desenho simples de respiração, no lugar da pontuação tradicional.

enfim, não sou propriamente cristão. mas não vejo motivo para não re-avaliarmos & re-visarmos essa poesia cristã em tempos irreligiosos: não será só fé que ela tem a nos oferecer. a língua bem que agradeceria se aparecessem tradutores.

guilherme gontijo flores

* * *

Prudêncio, Psychomachia (Batalha da alma), vv. 719-25: a morte da Heresia.

::a besta-fera é tomada por mãos inúmeras::
cada um carrega seus pedaços::para espalhar na brisa::
dar aos cães:: aos transvorazes corvos
entregar::enfiar em fétidos valões
nojentoss::jogar às presas dos monstros marinhos::
dilacerado entre animais imundos o cadáver
todo é dividido::perece a heresia desmembrada::

Carpitur innumeris feralis bestia dextris.
Frustatim sibi quisque rapit, quod spargat in auras,
quod canibus donet, coruis quod edacibus ultro
offerat, immundis caeno exhalante cloacis
quod trudat, monstris quod mandet habere marinis.
Discissum foedis animalibus omne cadauer
diuiditur, ruptis Heresis perit horrida membris.

 

Venâncio Fortunato, Vita Martini (Vida de Martinho) 1.169-76): um milagre da ressurreição.

::mas no moroso espaço de horas gêmeas
seu vulto retorna::vapores saltam dos seus membros::
volta a cor para a face::a pupila relume nos olhos::
um novo espelho aparece no rosto::
a veia cresce numa fonte fluida de sangue::
aos poucos nessa fábrica tremente uma coluna surge::
& se erguem num só tempo::o lar::o hóspede::
ele vive depois de si::seu próprio autor&herdeiro::

Interea geminis spatio remorante sub horis
ecce redit facies, saliunt per membra uapores,
stat rubor inde genis, oculos pupilla repingit
rursus et insertus renouat specularia uisus,
uena tumet riuis animato fonte cruoris.
Paulatim adsurgit fabrica titubante columna
erigiturque iacens pariter domus et suus hospes,
ipse iterum post se uiuens, idem auctor et heres.

(trad. guilherme gontijo flores)

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3 elegias de sexto propércio

sátiro e ninfa nos prelúdios do sexo. mosaico de pompeia.

sátiro e ninfa nos prelúdios do sexo. mosaico de pompeia.

então logo abaixo vai um mínimo trecho da apresentação, 3 poemas (dos mais de 90) & algumas notas adaptadas ao blog. os 3 poemas formam um ciclo importante do primeiro livro de elegias & neles propércio discute a importância da poesia amorosa, num tom irônico, como é seu praxe.

guilherme gontijo flores

ps: a edição deve sair no primeiro semestre do ano que vem.

* * *

APRESENTAÇÃO

Sobre a vida de Propércio, temos pouquíssimas informações, e a maioria derivada da sua própria poesia, o que aumenta ainda mais o grau de desconfiança sobre esses dados. Porém, se tivéssemos que fazer um apanhado, ficaria mais ou menos assim: nascido em torno de 50 a.C. de uma família nobre, Sexto Propércio vem da Úmbria (próximo à atual Assis); devido às guerras civis, sua família perdeu parte das terras, que foram confiscadas por Otaviano e Marco Antônio (cf. as elegias 1.21, 1.22 e 4.1, além de Virgílio Bucólicas 1 e 9), o que levou a família ao empobrecimento, mas não à miséria; se confiarmos ainda em 1.21 e 1.22, sabemos que a família sofreu profundamente com a Guerra  da Perúsia, em 41 e 40 a.C.  Ao que tudo indica, o poeta perdeu seu pai ainda jovem (4.1), mas recebeu a educação formal da elite romana, provavelmente em Roma, com o típico objetivo de trabalhar na advocacia. Por fim, ainda jovem ele se voltou para a poesia, e não temos quaisquer dados sobre a existência de carreira profissional desvinculada da escrita.

Em 29 a.C. é publicado seu primeiro livro de elegias (talvez intitulado Amores, mas comumente conhecido como Cynthia monobiblos) dedicado inteiramente à sua amada Cíntia, e que parece ter feito sucesso imediato. A figura de Cíntia é um grande problema interpretativo, se considerarmos sua existência biográfica como amante de Propércio: Apuleio, mais de um século depois da morte do poeta, em Apologia 10, afirmaria que sob a máscara de Cíntia estaria velada uma certa jovem romana chamada Hóstia; no entanto a maioria dos comentadores tende, hoje, a descartar leituras biográficas da elegia romana. E acrescento: mesmo que houvesse uma ou várias mulheres que motivassem a escrita de Propércio, sua artificialidade, seu enquadramento dentro das diversas regras e lugares comuns do gênero elegíaco, tudo isso aponta para uma autoconsciência literária muito profunda; e assim a biografia estaria, e muito, submetida à poesia, e não o contrário.

Em seguida, entre 26-23 a.C., Propércio publica os livros II  e III, talvez sob o patronato de Mecenas. Por fim, o livro IV, talvez sob o patronato do próprio Augusto, sai em cerca de 16 a.C. Na falta de maiores informações, costuma-se assumir que Propércio deve ter falecido por volta de 15 a.C., com cerca de 35 anos.

Sua poesia ganhou fama de obscura, difícil e excessivamente mítica, por vários leitores; seu estilo é complexo, e não à toa Ezra Pound identificaria nele uma espécie de precursor da  logopoeia, que, para o poeta americano, só viria a se desenvolver completamente quase dois mil anos depois, com as obras fin de siècle de Corbière e Laforgue. Muitas vezes construções inesperadas tomam conta do texto, uma ironia sutil desconstrói expectativas e com frequência deixa o leitor sem base para fazer julgamentos firmes sobre uma possível verdade da poesia expressa pelos poemas. Assim, Propércio já foi considerado romântico, político engajado (pró e contra o Império augustano), sincero em suas paixões, artificial na escrita, simbolista avant la lettre, modernista romano, entre outros extremos.

um graffiti de pompeia, onde alguém dedica um dístico de propércio a uma jovem chamada modesta, para anunciar o rompimento. a tradução do dístico seria a seguinte: "Agora a ira é nova — é hora de rompermos!     Se a dor sumir, assomará o Amor."

Um graffiti de Pompeia, um dístico de Propércio, dedicado a alguém chamada Modesta, anuncia o rompimento. A tradução seria:          Agora a ira é nova — é hora de rompermos!
Se a dor sumir, assomará o Amor.

TRÊS ELEGIAS

1.7

Dum tibi Cadmeae dicuntur, Pontice, Thebae
….armaque fraternae tristia militiae,
atque, ita sim felix, primo contendis Homero
….(sint modo Fata tuis mollia carminibus),
nos, ut consuemus, nostros agitamus Amores 
….atque aliquid duram quaerimus in dominam;
nec tantum ingenio quantum seruire dolori
….cogor et aetatis tempora dura queri.

Hic mihi conteritur uitae modus, haec mea Fama est,
….hinc cupio nomen carminis ire mei. 
Me laudent doctae solum placuisse puellae,
….Pontice, et iniustas saepe tulisse minas;
me legat assidue post haec neglectus amator,
….et prosint illi cognita nostra mala.

Te quoque si certo puer hic concusserit arcu 
….(quam nollim nostros te uiolasse Deos!),
longe castra tibi, longe miser agmina septem
….flebis in aeterno surda iacere situ;
et frustra cupies mollem componere uersum,
….nec tibi subiciet carmina serus Amor. 
Tum me non humilem mirabere saepe poetam,
….tunc ego Romanis praeferar ingeniis;
nec poterunt iuuenes nostro reticere sepulcro:
….“Ardoris nostri magne poeta, iaces?”

Tu caue nostra tuo contemnas carmina fastu: 
….saepe uenit magno faenore tardus Amor.

1.7

Enquanto cantas, Pôntico, a Tebas de Cadmo
….e as armas tristes do fraterno exército
e — quem dera fosse eu! — competes com Homero
….(que os Fados sejam leves com teus cantos!);
eu, como de costume, fico em meus Amores
….e busco combater a dura dona,
mais escravo da dor do que do meu talento,
….e lamento o infortúnio desta idade.

Assim eu passo a vida, assim é minha Fama,
….aqui desejo a glória do meu canto:
louvado — o único que agrada à moça culta
….e aguenta injustas ameaças, Pôntico.
Que amiúde me leia o amante repelido
….e encontre auxílio ao conhecer meus males.

Se o menino certeiro também te flechar
….(se ao menos não violasses nossos Deuses!),
dirás adeus quartéis, adeus aos sete exércitos
….que jazem surdos no sepulcro eterno
e em vão desejarás compor suaves versos,
….pois tardo Amor não te dará poemas.
Então te espantarás: não sou poeta humilde,
….entre os mais talentosos dos Romanos;
jovens não poderão calar-se ante meu túmulo:
….“Grande poeta do nosso ardor, morreste?”

Evita desprezar meus cantos com orgulho:
….o Amor tardio cobra imensos juros.

1.8

Tune igitur demens, nec te mea cura moratur?
,,,,An tibi sum gelida uilior Illyria?
Et tibi iam tanti, quicumquest, iste uidetur,
….ut sine me uento quolibet ire uelis?
Tune audire potes uesani murmura ponti 
….fortis et in dura naue iacere potes?
Tu pedibus teneris positas fulcire pruinas,
….tu potes insolitas, Cynthia, ferre niues?

O utinam hibernae duplicentur tempora brumae,
….et sit iners tardis nauita Vergiliis, 
nec tibi Tyrrhena soluatur funis harena,
.neue inimica meas eleuet aura preces 
et me defixum uacua patiatur in ora 
….crudelem infesta saepe uocare manu!

Sed quocumque modo de me, periura, mereris,
….sit Galatea tuae non aliena uiae; 
atque ego non uideam talis subsidere uentos, 
….cum tibi prouectas auferet unda ratis, 
ut te, felici praeuecta Ceraunia remo, 
….accipiat placidis Oricos aequoribus! 

Nam me non ullae poterunt corrumpere de te
….quin ego, uita, tuo limine uerba querar;
nec me deficiet nautas rogitare citatos:
….“Dicite, quo portu clausa puella mea est?”,
et dicam “Licet Artaciis considat in oris, 
….et licet Hylaeis, illa futura mea est.”

Hic erit! Hic iurata manet! Rumpantur iniqui!
….uicimus: assiduas non tulit illa preces.
Falsa licet cupidus deponat gaudia Liuor:
….destitit ire nouas Cynthia nostra uias. 

Illi carus ego et per me carissima Roma
….dicitur, et sine me dulcia regna negat.
Illa uel angusto mecum requiescere lecto
….et quocumque modo maluit esse mea,
quam sibi dotatae regnum uetus Hippodamiae, 
….et quas Elis opes apta pararat equis.

Quamuis magna daret, quamuis maiora daturus,
….non tamen illa meos fugit auara sinus.
Hanc ego non auro, non Indis flectere conchis,
….sed potui blandi carminis obsequio.

Sunt igitur Musae, neque amanti tardus Apollo,
….quis ego fretus amo: Cynthia rara mea est!
Nunc mihi summa licet contingere sidera plantis:
….siue dies seu nox uenerit, illa mea est!
Nec mihi riualis certos subducit Amores:
….ista meam norit gloria canitiem.

1.8

Enlouqueceste? Não te prendem meus carinhos?
….Te importo menos que a Ilíria gélida?
E quem é esse que parece valer tanto,
….que num vento qualquer, sem mim tu segues?
Tu podes escutar o mar insano e múrmure, 5
….podes deitar sem medo em dura barca?
Tu pousarás teus tenros pés sobre a geada,
….tu suportas, ó Cíntia, a estranha neve?

Quero que dobre o tempo da bruma invernal,
….que pare o nauta e atrasem as Vergílias, 10
que a corda não se solte da areia Tirrena,
….nem brisa imiga anule as minhas preces 12
e eu parado, pregado no porto deserto, 15
….ameaçador, gritando que és cruel!

Mas mesmo que mereças mal de mim, perjura,
….que Galateia ampare tua viagem! 18
Não quero ver arrefecerem esses ventos 13
….quando a onda embalar teu barco avante; 14
ao dobrar o Ceráunio com remo seguro, 19
….que as águas calmas do Órico te acolham! 20

Pois nenhuma mulher poderá me impedir
….de lamentar, querida, à tua porta;
nem deixarei de perguntar aos marinheiros:
….“Dizei — que cais retém a amada minha?”
Direi: “Pode estar presa nas margens Artácias, 25
….ou nas Hileias, ela será minha!”

Aqui fica! Jurou ficar! Adeus, rivais!
….Venci! Ela cedeu a tantas súplicas.
Pode a cúpida Inveja depor falsos gozos:
….minha Cíntia largou a nova estrada. 30

Diz que me adora e que por mim adora Roma,
….sem mim renega haver um doce reino.
Prefere repousar comigo em leito estreito
….e ser só minha — não importa como —
a ter por dote um reino, como Hipodamia, 35
….e os bens que em seus corcéis ganhara Élida.

Inda que ofertem muito, inda que mais prometam,
….não foge do meu peito por cobiça.
Não a ganhei com ouro ou pérolas da Índia,
….mas com o agrado de um suave canto. 

Existem Musas! Febo não tarda a quem ama!
….Neles confio — Cíntia rara é minha!
Hoje posso pisar sobre os astros mais altos:
….que venha o dia e a noite — ela é minha!
Não há rival que roube meu Amor seguro:
….ah! essa glória vai me ver grisalho.

1.9

Dicebam tibi uenturos, irrisor, Amores,
….nec tibi perpetuo libera uerba fore:
ecce taces supplexque uenis ad iura puellae,
….et tibi nunc quaeuis imperat empta modo.
Non me Chaoniae uincant in Amore columbae 5
….dicere, quos iuuenes quaeque puella domet.
Me dolor et lacrimae merito fecere peritum:
….atque utinam posito dicar Amore rudis!

Quid tibi nunc misero prodest graue dicere carmen
.aut Amphioniae moenia flere lyrae? 10
Plus in Amore ualet Mimnermi uersus Homero:
….carmina mansuetus lenia quaerit Amor.
I, quaeso, et tristis istos sepone libellos,
….et cane quod quaeuis nosse puella uelit!
Quid si non esset facilis tibi copia? Nunc tu 15
….insanus medio flumine quaeris aquam.

Necdum etiam palles, uero nec tangeris igni:
….haec est uenturi prima fauilla mali.
Tum magis Armenias cupies accedere tigris
….et magis infernae uincula nosse rotae, 20
quam pueri totiens arcum sentire medullis
….et nihil iratae posse negare tuae.
Nullus Amor cuiquam facilis ita praebuit alas,
….ut non alterna presserit ille manu.

Nec te decipiat, quod sit satis illa parata: 25
….acrius illa subit, Pontice, si qua tua est;
quippe ubi non liceat uacuos seducere ocellos,
….nec uigilare alio limine cedat Amor.
Qui non ante patet, donec manus attigit ossa:
….quisquis es, assiduas a fuge blanditias! 30
Illis et silices et possint cedere quercus,
….nedum tu possis, spiritus iste leuis.

Quare, si pudor est, quam primum errata fatere:
….dicere quo pereas saepe in Amore leuat.

1.9

Eu te disse, palhaço — Amores chegariam
….e não terias mais palavras livres.
Eis que te calas suplicante sob as leis
….dessa recém-comprada que te impera.
Como as pombas Caônias eu canto no Amor
….que jovens cada moça amansará.
Pranto e dor me tornaram perito por mérito,
….mas antes sem o Amor eu fosse um leigo!

De que vale, infeliz, cantar solene agora
….chorando os muros que fizera Anfíon?
No Amor melhor que Homero é um verso de Mimnermo:
….suaves cantos busca o manso Amor.
Vai, eu te peço, e larga esses tristes livrinhos
….e canta algo que a moça queira ouvir!
O que farás se te faltar assunto? Agora,
….insano, em pleno rio pedes água.

Não estás pálido, não viste ainda o fogo:
….são só fagulhas do teu mal vindouro.
Então preferirás brincar com tigre Armênio
….e na roda infernal acorrentar-te 20
do que sentir na espinha o arco do menino
….sem poder negar nada à moça irosa.
Nenhum Amor deu asas fáceis para alguém
….sem também o oprimir com a outra mão.

Não acredites se ela parecer disposta —
….mais te consome, Pôntico, ao ser tua:
não poderás correr teus olhos livremente,
….o Amor não deixará que veles outra.
Não podemos senti-lo até que atinja os ossos:
….quem quer que sejas, foge das carícias!
A elas cederiam pedras e carvalhos —
….e tu, sopro ligeiro, mais ainda.

Por fim, se tens pudor, confessa logo os erros:
….contar as dores alivia o Amor.

* * *

NOTAS

 1.7

Esta elegia dirigida ao poeta épico Pôntico (que supostamente teria escrito uma Tebaida, cuja referência aparece também em Ovídio, Amores 2.18 e Tristia 4.10.47-8) dialoga diretamente com 1.9, onde vemos que as profecias de Propércio se cumprem. Não obstante, o poema 1.8, que gera um intervalo entre os dois, já foi indicado como configurador de uma tríade entre as elegias 7-8-9, bem representados por Aires A. Nascimento como “a poesia amorosa não deve ser tida em menor conta (7); o seu desprezo leva a resultados funestos (8); a poesia amorosa tem uma função moderadora (9)”. Vale notar como a tópica da utilidade da poesia entra na defesa da elegia contra a épica praticada por Pôntico, o que leva o poema à proposta da elegia como modo de vida.

v. 2: O fraterno exército nos remete ao combate entre os irmãos Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, pelo poder de Tebas, principal assunto dos Sete contra Tebas de Ésquilo e também da Tebaida na versão de Estácio.

v. 3: Propércio pode referir-se ao fato de que a mais antiga Tebaida era, na Antiguidade, atribuída a Homero, junto com outros poemas do Ciclo Épico de que só nos restaram fragmentos.

v. 26: A temática do amor tardio que causa mais sofrimento aparece também em Tibulo 1.2.87-8 e Ovídio, Heroides 4.19.

1.8

Esta elegia começa abruptamente, como várias outras, e se constrói como um skhetliasmos (protesto contra viagem) a Cíntia, que foge com um rival, mas que depois se torna ironicamente um propemptikon (um desejo de boa viagem). Também tece um diálogo com 2.16, quando o mesmo rival retorna da Ilíria, identificado como um pretor, portanto um homem de vida pública e detentor de bens — o típico rival do amante elegíaco.

vv. 7-8: A semelhança entre estes versos e os de Virgílio, Bucólicas 10.23-4 (tua cura Lycoris / perque niues alium perque horrida castra secuta est? (“Tua paixão Licóris / por entre neve e guerra segue um outro?”)) e 10.49 (a tibi ne teneras glacies […] secet aspera plantas (“que áspero gelo não te corte os frágeis pés”)) faz cogitar que os dois trechos sejam imitação da poesia de Cornélio Galo, fundador da elegia erótica romana.

v. 10: As Vergílias são as Plêiades, cujo aparecimento, em 16 de abril, anunciava a chegada a primavera, a melhor estação para a navegação.

v. 18: Galateia é a mais famosa das Nereidas, deusas do mar, filhas de Nereu.

vv. 19-20: Ceráunio é um perigoso promontório da Acroceráunia, na costa de Epiro; Órico é um porto da Ilíria, nas margens do Epiro.

vv. 25-26:  Heyworth aponta para o fato de que Propércio cita os Ceráunios e Óricos (dois pontos que aparecem na viagem de volta dos argonautas, Apolônio de Rodes Argonautica 4.1214-5), enquanto a Artácia (1.957) aparece na ida, além da Hileia (4.524), que seria ser um povo da Ilíria. Nesse caso, as referências a pontos distantes também seriam uma referência literária, que remetem a uma viagem de ida e volta, fato que se realiza dentro da elegia properciana a partir dos versos seguintes, com a desistência de Cíntia.

vv. 35-6: Hipodamia era filha de Enomau, rei de Pisa na Élida, e esposa e Pélops.

v. 40: A referência à elegia como blandum carmen (“suave canto”) parece retomar o debate apresentado nos poemas 1.7 e 1.9, dirigidos a Pôntico.

1.9

O poema é clara continuidade de 1.7, após o intervalo de 1.8, de modo que os três formam um pequeno conjunto em que vemos as ameaças de Propércio ao gênero épico (1.7); seu próprio risco de falhar, mas resultando no sucesso de manter Cíntia (1.8), representando seus poderes como poeta elegíaco; e a derrota final de Pôntico, agora apaixonado por uma escrava, ou prostituta (1.9), incapaz de continuar sua carreira de poeta épico, mas também incapaz de iniciar uma poesia elegíaca, por já ser tarde demais. Vitorioso, Propércio inicia seu trabalho de magister amoris.

vv. 5-6: A Caônia era uma região do Epiro, mas a referência específica é a Dodona, onde havia um oráculo de Zeus, que se realizava por meio do auspício de pombas. Vale recordar que as sacerdotisas também recebiam o nome de pombas (columbae).

v. 4: Há duas leituras para modo empta, como notam Butler & Barber, que tentei manter quanto pude. Trata-se a) de uma escrava “recém-comprada”; ou b) de uma prostituta, que até então estava à venda.

v. 8: Anfíon é o bardo mítico que teria construído a muralha de Tebas apenas com o poder de sua lira, com a qual ele guiava as pedras. Em 1.7.2 (cf. nota), vimos que Pôntico escrevia uma Tebaida.

v. 11: Mimnermo é um poeta elegíaco grego arcaico, com temática amorosa e sobre a juventude. Aqui Propércio usa-o para fazer uma oposição fundamental entre elegia e épica, atestando a utilidade daquela sobre esta, bem como sua brevidade: mais valeria apenas um verso de Mimnermo do que toda a obra de Homero.

vv. 15-16: “Pedir água no meio do rio” é um provérbio grego muito citado pelos romanos como sinal de loucura, mas aqui também tem a conotação metafórica do rio caudaloso simbolizar a poesia épica.

v. 20: Ixíon fora preso por Júpiter a uma roda cercada de serpentes, sempre a rodar, no mundo dos mortos, porque tentara estuprar Juno.

(poemas de sexto propércio, apresentação, tradução & notas de guilherme gontijo flores)

Padrão
poesia, tradução

álbio tibulo (60-19 a.C.), por joão paulo matedi alves

fala-se pouco, muito pouco, da musa pederástica romana, sobre a poesia de amor entre homens. em geral, o tema se limita à grécia, em geral uma grécia idealizada onde não haveria restrições sexuais severas – um triste engano.

no entanto, aqui, independente das minúcias do contexto social que permitia e codificava esse tipo de poesia, mais importante é ver a poesia que se fez com o tema amoroso. tibulo é certamente um dos exemplos mais poderosos da poesia homoerótica na antiguidade, embora tenha escrito pouco nessa verve.

a bela tradução é de joão paulo matedi alves, que defendeu sua dissertação de mestrado sobre tibulo & tem aprofundado as traduções e estudos sobre o autor no doutorado. como leitor de tibulo, eu diria que a maior dificuldade na sua poesia, aos nosso olhos & portanto ao trabalho do tradutor, é o de manter aquilo que os romanos viam como elegância (tersus atque elegans é como o define quintiliano) e que para nós por vezes soa como frieza, ao mesmo tempo em que trata centralmente do tema amoroso. as soluções poundianocabralinas dessas traduções são, a meu ver, o melhor de tibulo que pode haver nesta nossa língua.

guilherme gontijo flores

taça de prata romana (séc. I d.C.), na imagem um adulto com barba penetra um jovem ainda sem barba.

taça de prata romana (séc. I d.C.): um adulto barbado penetra um jovem ainda sem barba.

De opulenta família e obra, Álbio Tibulo (Albius Tibullus, 60 a.C. (?) – 19 a.C. (?)), de quem não conhecemos sequer o nome completo, integrou o círculo literário de Marco Valério Messala Corvino e foi um dois mais notáveis elegíacos de Roma e de toda antiguidade. A se considerar apenas Quintiliano – Institutio oratoria (X, 1, 93) – e Domício Marso – em epigrama escrito por ocasião da morte do poeta –, Tibulo, como é mais conhecido, foi o mais importante elegíaco romano, à frente, inclusive, de Galo, de Ovídio e de Propércio. Contudo, apesar do juízo desses antigos, as literaturas e os leitores mais atuais não o veem assim. Se levarmos em conta o quanto Ovídio já foi traduzido (inclusive seus Amores) e as famosíssimas palavras e traduções propercianas de Ezra Pound, que alçaram, em certa medida, Propércio ao mainstream, não há dúvida de que Tibulo ficou a reboque. E tal forma de encarar Tibulo, em comparação a Ovídio e Propércio, é até compreensível, se atentarmos para as peças (no que toca à nossa sensibilidade) mais enxutas, justas, rápidas e tensas escritas por esses dois; peças em que aos inúmeros versos tibulianos, que fazem desfilar diante do leitor “quadros” e mais “quadros”, às vezes, aos olhos do leitor moderno e hodierno, aparentemente confusos, se contrapõem poemas “centrados”, de um e único núcleo, em torno do qual adejam considerações incisivas, agudas e lapidares, que rapidamente se esgotam e esgotam o foco da composição. Daí, Ovídio e Propércio já partem, não para outra “cena”, mas para outra elegia, que até pode ser tomada como outra “cena”, porém é independente, pelo menos no que garante ao novo poema ser outra composição.

Todavia, talvez isso seja uma verdade nossa, só nossa. No processo de leitura desses poetas e, no meu caso, no penoso, porém prazeroso, trabalho de versão das elegias de Tibulo, há algo que chama atenção: talvez o nosso elegíaco tenha sido aquele que melhor trabalhou os topoi deste relevante genos clássico: a elegia. Lugares-comuns elegíacos como seruitium amoris, militia amoris, discidium, doença do poeta ou da amada, preocupação da amada com sua apresentação, denúncia de violação de uma ligação amorosa (foedus amoris), recurso a modelos míticos de comportamento, ideia de uma longa viagem a ser empreendida (longa uia – tópico muitas vezes usado como pretexto para se aludir à eterna contraposição entre o discurso elegíaco e a épica), paraklausíthyron e recusatio são polidos ao máximo e de forma sutil por Tibulo, que os faz deslizar habilmente por entre seus longos poemas. E tudo isso pintado com extrema sinceridade, característica cara aos romanos (vide Catulo), como já há muito demonstrou a crítica. Sem contar que importantes estudos – dentre os quais destaco Tibullus: a hellenistic poet Rome, de Francis Cairs – provam a grande habilidade do poeta em gerenciar inúmeras cenas, topoi e “sentimentos” (humor, ironia, desejo, ódio, etc.) por versos e mais versos.

A poesia que vai aqui apresentada em tradução minha, traz um pouco disso, eu acho. Ademais, carrega um atrativo além, pois toca no amor de ego (a “voz” do poema) por um puer delicatus de nome Márato – em tempos de luta por direitos civis pelos homossexuais (e por seus simpatizantes), que radicalizaram sua ação contra mais uma cruzada humana, que se tinge de santa para flertar com e dissimular seu humano preconceito, nada mais a propósito. Tibulo dedicou três elegias a relações homoafetivas: I.4, I.8 e I.9. Nos três poemas, vemos ego choramingar pelo seu imberbe obscuro objeto do desejo – Márato. A que temos diante de nossos olhos, no momento, é a composição I.4, a que abre a trilogia homoafetiva do Corpus tibullianum, que nada mais é que um conjunto de poemas, que nos foi legado pela antiguidade, organizados em três livros (em algumas edições quatro), dos quais os dois primeiros são atribuídos com firmeza, certeza e inteireza ao poeta de que nos ocupamos. O terceiro livro, por sua vez, é formado por um conjunto de poemas atribuídos a poetas ainda não muito bem identificados: Lígdamo (III.1-6), Sulpícia (III.8-18) e Tibulo (III.19 e 20). Mas valem três observações: 1) a composição III.7 é o famoso e, para muitos, famigerado Panegyricos Messallae, de autor desconhecido; 2) alguns dividem as breves elegias que se encontram, aqui, sob a pluma de Sulpícia, em dois grupos – III.8-12 (de autor desconhecido) e III.13-18 (de Sulpícia); 3) embora III.19 e 20 sejam considerados, por alguns, versos tibulianos, a questão não está fechada.

Em relação ao caminho tradutório seguido para verter Tibulo, é o seguinte: 1) para os dísticos elegíacos latinos busquei a alternância de dodecassílabos (traduzem os hexâmetros) e decassílabos heroicos e sáficos (traduzem os pentâmetros), assim como já procederam, por exemplo, Péricles Eugênio da Silva Ramos (ao verter Propércio), João Ângelo Oliva Neto (ao traduzir Catulo), e Guilherme Gontijo Flores (ao transladar Propércio). 2) Persegui efeitos aliterantes e assonantes, tão queridos também pelos clássicos. 3) A tradução exibe, o máximo possível, o conteúdo dos versos latinos em homólogos portugueses, ou seja, o verso 3 do original é vertido no verso 3 da tradução, a linha 55 tibuliana tem sua correspondência tradutória na linha 55 da versão, e assim vai. 4) Perseguiu-se também a reprodução de anáforas, repetições e paralelismos ocorrentes no texto latino. 5) A esmagadora maioria dos pentâmetros tibulianos findam em dissílabos, o que me levou a, igualmente, imitar esse efeito (embora sem obsessão e com deveras liberdades). 6) A tradução se guiou, até certo ponto, por um ideal de “pureza acentual”, isto é, evitou-se a rasura dos acentos principais (4, 6 e 8) por acentos adjacentes. 7) Etc. Porém ainda que tudo isso tenha sido sondado e alcançado aqui e ali, a tradução evitou a esses elementos sobrepujar sua lei maior: o ouvido. Em outras palavras, o mais importante era encontrar versos que soassem bem ao ouvido, pois de nada adiantaria um verso com perfeita acentuação e métrica, final dissilábico e alguma aliteração que não funcionasse ao ouvido – não obstante “funcionar ao ouvido” seja inevitavelmente subjetivo.

Outra questão importante é perceber que, ao mesmo tempo em que a tradução se esforça em “fotografar” Tibulo (embora em preto-e-branco, pois “colorido” só em latim e há dois mil anos), intentou-se também dar uma dicção a Tibulo que acredito ser mais moderna, baseada em parataxes e numa maior velocidade de leitura, com cortes bruscos e com trechos em que a supressão de certos termos latinos não traduzidos em português permite o entendimento da passagem não de forma clara e por meio de uma semântica discursiva, mas de forma alusiva, de uma semântica alusiva, alusiva ao contexto maior da passagem em questão. Nisso tudo, deve-se considerar ainda os latinismos (de sintaxe e de vocabulário e a literalidade com que algumas passagens são vertidas (vide verso 59 do original, em que o vocábulo uenerem é muitas vezes, por outros tradutores, vertido por “amor”)). O objetivo último era, se possível, palidamente possível, dar voz ao antigo por meio do novo e vice-versa, era fazer dialogar o diacrônico e o sincrônico.

Por fim e enfim, espero que gostem do original e da tradução. E, sem mais retórica, a verdade é que tudo o que escrevi sobre tradução neste texto pode ser substituído por “cada tradutor faz o que pode”.

jp matedi a

abril de 2013

IV

“Assim, umbrosas copas te cubram, Priapo,
….nem sol nem neve firam-te a cabeça.
Que ardil teu cativou os belos? Certamente,
….não tens barba nem coma condizentes.
Nu suportas o frio da bruma hibernal;                      5
….nu, dias secos da estival canícula.”
Assim falei: de Baco o descendente rústico,
….deus armado de curva foice, disse-me:
“ó, não creias na tenra turba de meninos,
….sempre motivo têm de justo amor. ………………../.10
Este apraz por reter corcéis com rédea curta;
….este, água fresca fende em níveo peito;
este te cativou por ser valente; aquele,
….virgem pudor se eleva em tenra face.
Não desistas, se alguém no início se negar, ………..15
….dará o pescoço ao jugo com vagar:
o tempo deu aos homens leões amansados,
….o tempo abriu, em água branda, rochas;
o ano madura as uvas sob o sol dos vales,
….o ano traz, regular, os astros rútilos. ………………..20
Podes jurar, o vento dissipa os perjúrios
….vãos de Vênus por sobre terra e mar.
Graças a Júpiter! O pai tornou inválidas
….juras ardentes de um insano amor;
e em vão Dictina deixa que jures por suas ………….25
….flechas, Minerva pelos seus cabelos.
Mas, se hesitares, errarás: a idade foge.
…..Tão logo nasce o dia e já se esvai!
Tão logo a terra perde o purpúreo matiz!
….Tão logo o grande choupo, a bela coma!………… 30
Jaz, vítima fatal da velhice, o cavalo
….que páreos liderou na raia Eleia.
Já vi homem aflito na maturidade,
….por ter passado à toa os tolos dias.
Deuses cruéis! Serpentes se despem dos anos: 35
….não deram prazos à beleza os fados.
Só Baco e Febo são eternamente jovens,
….pois intonso cabelo quadra a ambos.
Tu, do menino sejam quaisquer os desejos,
….cedas: o amor triunfa com favores. ………………….40
Segue-o, mesmo em viagem longa, em que a canícula
….abrase com ardente sede os campos;
mesmo que o arco chuvoso, que colore o céu
….plúmbeo, revele chuvas iminentes;
ou se quiser fender à quilha o mar cerúleo, ……….45
….lança tu próprio a nave contra as vagas.
Não te arrependas dura faina suportar
….ou machucar as mãos, hostis à lida.
Se ele quiser munir de insídias fundos vales,
….que lhe agrades levando aos ombros redes. …..50
Se ele quiser espadas, treina-o com mão leve,
….concede-lhe – que vença! – o flanco nu.
E será bom contigo, então roubarás caros
….beijos: resistirá, mas os dará.
Dará no início à força, então te brindará,……………. 55
….por fim o teu pescoço abraçará.
Ai! Que arte desprezível pratica este século:
….por vezo já se vende o meu menino.
Mas tu, primeiro que vendeste vênus, sejas
….lá quem for, seja-te pesada a lápide. ………………..60
Doutos vates amai, meninos, e as Piérides;
….áureos brindes não vençam as Piérides.
Devido aos carmes, coma purpúrea tem Niso;
….pelo poema, ebúrneos ombros, Pélops.
Vive quem Musa louva, enquanto der a terra ……65
….carvalho; o céu, estrela; o rio, água.
Mas quem não ouve as Musas, quem o amor seu vende,
….persiga o carro de Ops do Monte Ida;
em seu errar percorra trezentas cidades,
….corte o vil membro ao som da flauta Frígia. ……70
Para a ternura Vênus quer lugar: às súplicas
….ela será bondosa e ao triste pranto”.
Isso, para eu cantar a Tício, disse o deus,
….mas a Tício lembrar a esposa impede.
Que ele obedeça. Vós, que manhoso menino ……75
….seduz com arte, celebrai-me mestre.
Todos têm sua glória: tenho a porta aberta
….às consultas de amantes desprezados.
Um dia, atentos jovens me acompanharão,
….já velho, rico nas lições de Vênus. …………………….80
Ai! Quão longo tormento é meu amor por Márato!
….Falham ardis e falham artifícios.
Rogo, menino, poupa-me! Que não debochem
….de mim, por rirem de meus vãos preceitos.

a mesma taça de prata romana (séc. I d.C.): jovem sem barba penetra um garoto.

a mesma taça de prata romana (séc. I d.C.): jovem sem barba penetra um garoto.

IV

“Sic umbrosa tibi contingant tecta, Priape,
….ne capiti soles, ne noceantque niues:
quae tua formosos cepit sollertia? certe
….non tibi barba nitet, non tibi culta coma est;
nudus et hibernae producis frigora brumae, ……….5
….nudus et aestiui tempora sicca Canis.”
Sic ego; tum Bacchi respondit rustica proles
….armatus curua sic mihi falce deus:
“O fuge te tenerae puerorum credere turbae:
….nam causam iusti semper amoris habent. ………10
Hic placet, angustis quod equum compescit habenis,
….hic placidam niueo pectore pellit aquam;
hic, quia fortis adest audacia, cepit; at illi
….uirgineus teneras stat pudor ante genas.
Sed ne te capiant, primo si forte negabit, ……………15
….taedia; paulatim sub iuga colla dabit:
longa dies homini docuit parere leones,
….longa dies molli saxa peredit aqua;
annus in apricis maturat collibus uuas,
….annus agit certa lucida signa uice. .……………………20
Nec iurare time: Veneris periuria uenti..
….inrita per terras et freta summa ferunt.
Gratia magna Ioui: uetuit Pater ipse ualere,
….iurasset cupide quidquid ineptus amor;
perque suas impune sinit Dictynna sagittas ……….25
….adfirmes, crines perque Minerua suos.
At si tardus eris errabis: transiet aetas
….quam cito non segnis stat remeatque dies.
Quam cito purpureos deperdit terra colores,
….quam cito formosas populus alta comas. .……….30
Quam iacet, infirmae uenere ubi fata senectae,
….qui prior Eleo est carcere missus equus.
Vidi iam iuuenem, premeret cum serior aetas,
….maerentem stultos praeteriisse dies.
Crudeles diui! serpens nouus exuit annos:…………. 35
….formae non ullam fata dedere moram.
Solis aeterna est Baccho Phoeboque iuuentas:
….nam decet intonsus crinis utrumque deum.
Tu, puero quodcumque tuo temptare libebit,
….cedas: obsequio plurima uincet amor. …………….40
Neu comes ire neges, quamuis uia longa paretur
….et Canis arenti torreat arua siti,
quamuis praetexens picta ferrugine caelum
….uenturam amiciat imbrifer arcus aquam;
uel si caeruleas puppi uolet ire per undas,…………..45
….ipse leuem remo per freta pelle ratem.
Nec te paeniteat duros subiisse labores
….aut opera insuetas atteruisse manus;
nec, uelit insidiis altas si claudere ualles,
….dum placeas, umeri retia ferre negent; …………….50
si uolet arma, leui temptabis ludere dextra,
….saepe dabis nudum, uincat ut ille, latus.
Tunc tibi mitis erit, rapias tum cara licebit
…..oscula: pugnabit, sed tamen apta dabit.
Rapta dabit primo, post adferet ipse roganti,.…… 55
….post etiam collo se implicuisse uelit.
Heu! male nunc artes miseras haec saecula tractant:
….iam tener adsueuit munera uelle puer.
At tu, qui uenerem docuisti uendere primus,
….quisquis es, infelix urgeat ossa lapis. .……………….60
Pieridas, pueri, doctos et amate poetas,
….aurea nec superent munera Pieridas:
carmine purpurea est Nisi coma; carmina ni sint,
….ex umero Pelopis non nituisset ebur.
Quem referent Musae, uiuet, dum robora tellus, .65
….dum caelum stellas, dum uehet amnis aquas.
At qui non audit Musas, qui uendit amorem,
….Idaeae currus ille sequatur Opis
et tercentenas erroribus expleat urbes
….et secet ad Phrygios uilia membra modos. ……..70
Blanditiis uolt esse locum Venus ipsa; querellis
….supplicibus, miseris fletibus illa fauet.”
Haec mihi, quae canerem Titio, deus edidit ore:
….sed Titium coniunx haec meminisse uetat.
Pareat ille suae: uos me celebrate magistrum, …..75
….quos male habet multa callidus arte puer.
Gloria cuique sua est: me, qui spernentur, amantes
….consultent; cunctis ianua nostra patet.
Tempus erit, cum me Veneris praecepta ferentem
….deducat iuuenum sedula turba senem. …………..80
Heu! heu! quam Marathus lento me torquet amore!
….Deficiunt artes, deficiuntque doli.
Parce, puer, quaeso, ne turpis fabula fiam,
….cum mea ridebunt uana magisteria.

(tibulo, trad. de joão paulo matedi alves)

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poesia, tradução

Marcial, por Décio Pignatari

MarcialTenho a impressão de que todos os alunos de latim (ou pelo menos os com algum senso de humor) vibram na primeira vez que leem em aula o infame verso, ou o poema todo, aliás, do pedicabo ego vos et irrumabo de Catulo (carmen XVI) – pois esse frisson é elevado à enésima potência quando se descobre Marco Valério Marcial (40 – 102/104). Posterior a Catulo, Marcial herda dele a forma do epigrama, o poema curto em dísticos elegíacos (alternando entre hexâmetros e pentâmetros datílicos), às vezes amoroso, às vezes invectivo, às vezes abertamente escatológico ou pornográfico, mas sempre afiado.

Seu primeiro livro, Liber spectaculorum, data da inauguração do Coliseu e tem a obra arquitetônica e os seus espetáculos como temática, como deixa claro o título. Depois foi autor de 12 volumes de epigramas satíricos, os Epigrammaton libri, mais dois últimos volumes, Xenia (Epigrammaton liber XIII) e Apophoreta (Epigrammaton liber XIV), palavras emprestadas do grego que podem ser traduzidas, como Décio fez, por “Presentes” e “Lembranças”, totalizando 1.561 epigramas. Sua obra influenciou Rabelais, Quevedo, Gregório de Matos, Bocage e inúmeros outros poetas. No entanto, em tradução, por pudor, costumava-se extirpar o seu lado pornô-escatológico. Em inglês, por exemplo, mesmo a edição de 1897 que atende pelo título enganoso de Complete Epigrams não contém os poemas mais safados, e basta um olhar casual no livro II (disponível online clicando aqui) para ver o tanto de títulos que estão como “[not translated]”. E em português também, como aponta Décio Pignatari, “censuradíssimo, [Marcial] só encontrou as primeiras traduções sem travas nos anos de 60 e 70, especialmente graças ao trabalho pioneiro de Guido Ceronetti (edições Eunaudi)”.

As traduções que compartilho neste post partem do volume clássico de traduções do Décio intitulado 31 poetas 214 poemas: de Rigveda e Safo a Apollinaire, publicado pela editora da UNICAMP. Além de Marcial, este volume conta com os Hinos do Rigveda, poetas-santos de Xiva, Safo, Alceu, Íbico, Praxila, Catulo, Horácio, Juvenal, Propércio, poetas da Dinastia Tang, Issa, os trovadores Vidal e Vogelweide, Burns, Byron, Leopardi, Heine, Browning, Rimbaud e Apollinaire… no entanto, apesar de todos esses nomes distribuídos ao longo de séculos de história literária, acaba sendo Marcial quem rouba a cena em 31 poetas 214 poemas, sendo 57 desses 214 poemas traduzidos dele.

Selecionei, portanto, oito dos epigramas presentes nesse livro. Não são necessariamente, como se poderia esperar, os mais eróticos – creio que nisso a Germina chegou lá antes de mim (sem trocadilho), e vocês podem conferir alguns dos poemas mais divertidos dessa seleção (como II, 62 e II, 73, bem como outros traduzidos por Jorge de Sena) clicando aqui. E a Modo de Usar & co. também tem algumas traduções feitas por João Angelo Oliva Neto (neste link).

As traduções a seguir estão acompanhadas dos originais, que não se encontram, porém, no livro, e foram extraídas das versões online disponíveis na wikisource latina (disponíveis clicando aqui). Desnecessário dizer, desde já, que o estilo aplicado pelo Décio nas traduções não se pretende filologicamente correto (vide as liberdades como traduzir Cloé por Beatriz ou o uso vocabular de termos como “vestido de soirée”), nem replicar a métrica do original… mas, assim como o Guilherme fez cá mais tarde com suas Catulices (postadas no escamandro mesmo no ano passado, depois reproduzidas também na Germina), ele visa empregar uma linguagem que poderia soar anacrônica (o que, no limite, toda tradução dos clássicos para línguas modernas acaba sendo, ainda que a maioria delas, recorrendo a um estilo mais empoeirado, finja que não), para ressaltar o quanto há de contemporâneo – e, no limite, talvez pudéssemos arriscar dizer atemporal, ou o mais próximo de algo assim – nesses poemas.

Adriano Scandolara

Priapo

           

I, 46

Se você exclama, Edilo: “Vou gozar –
Depressa!” – o meu tição se esfria, apaga.
Prolongue o ato que eu irei mais rápido.
Pra ir depressa, diga: “Devagar”.

           

Cum dicis ‘Propero, fac si facis,’ Hedyle, languet
Protinus et cessat debilitata Venus.
Expectare iube: velocius ibo retentus.
Hedyle, si properas, dic mihi, ne properem.

           

III, 53

Dispenso o seu rosto
Dispenso o pescoço
Dispenso suas mãos
Dispenso seus peitos
Dispenso suas coxas
Dispenso sua bunda
Dispenso seus quadris

– E para mencionar mais um detalhe,
Dispenso você, Beatriz.

           

Et voltu poteram tuo carere
Et collo manibusque cruribusque
Et mammis natibusque clunibusque,
Et, ne singula persequi laborem,
Tota te poteram, Chloe, carere.

           

III, 65

O que exala
            a maçã mordida
            por uma menina fofa
            a brisa que veio
            dos campos de açafrão da Corícia
            a vinha onde alvejam os primeiro racimos
            a campina por onde recém-pastou
            o rebanho de ovelhas
            a murta
            o especiarista árabe
            o âmbar friccionado
            o incenso do Oriente ao fogo brando
            a gleba chovida pela chuva de verão
            a grinalda há pouco retirada
            de cabelos olorando a nardo
– esse é o perfume dos seus beijos,
Diadumeno, garoto cruel.
E se você me desse tudo isso,
Espontaneamente?

           

Quod spirat tenera malum mordente puella,
Quod de Corycio quae venit aura croco;
Vinea quod primis floret cum cana racemis,
Gramina quod redolent, quae modo carpsit ovis;
Quod myrtus, quod messor Arabs, quod sucina trita,
Pallidus Eoo ture quod ignis olet;
Glaeba quod aestivo leviter cum spargitur imbre,
Quod madidas nardo passa corona comas:
Hoc tua, saeve puer Diadumene, basia fragrant.
Quid si tota dares illa sine invidia?

           

IV, 84

Ninguém pode provar, em Roma inteira,
Que já comeu Taís, embora todos
A cantem e cobicem. Mas, é santa?
Ao contrário: da boca faz boceta.

           

Non est in populo nec urbe tota,
A se Thaida qui probet fututam,
Cum multi cupiant rogentque multi.
Tam casta est, rogo, Thais? Immo fellat.

           

X, 29

O prato que você me dava, Sextílio,
     Nas festa saturnais,
     Você o deu à amante;
E aquela toga que sempre me enviava,
     Nas calendas de março,
     Trocou por um vestido
     Verde, de soirée:
As garotas saem grátis pra você,
Que vive fodendo com os meus presentes!

    

Quam mihi mittebas Saturni tempore lancem,
Misisti dominae, Sextiliane, tuae;
Et quam donabas dictis a Marte Kalendis,
De nostra prasina est synthesis empta toga.
Iam constare tibi gratis coepere puellae:
Muneribus futuis, Sextiliane, meis.

    

X, 81

Era manhã, vieram dois, queriam
Curtir a Fílis, nua, na trepada.
Mas, logo, a discussão: “Primeiro, eu!”
“Eu atendo os dois lados”, disse a Fílis.
Falou e fez: quatro dedões dos pés
Voltados para baixo e dois para cima.

    

Cum duo venissent ad Phyllida mane fututum
Et nudam cuperet sumere uterque prior,
Promisit pariter se Phyllis utrique daturam,
Et dedit: ille pedem sustulit, hic tunicam.

           

Presentes e Lembranças (Apophoreta)
    
Gitana de Cádiz (XIV, 203)

Rebola tanto,
A sem vergonha,
Que leva à bronha
Até um santo

    

Puella Gaditana

Tam tremulum crisat, tam blandum prurit, ut ipsum
Masturbatorem fecerit Hippolytum.

    

Louquinho bufão (XIV, 210)

Não finge o pasmo, não inventa que é chapado:
Quem pira além da piração não é pirado.
    
Morio

Non mendax stupor est, nec fingitur arte dolosa.
Quisquis plus iusto non sapit, ille sapit.

    

(poemas de Marcial, traduções de Décio Pignatari)

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poesia, tradução

o moretum [pseudo-virgílio].

vaso da beócia

vaso da beócia

uma das coisas que mais me deixa curioso na literatura é a existência – imensa – dos textos que cercam o eixo central do cânone, que tentam invadi-lo pela atribuição da auctoritas ao texto, mas que costumam perverter esse mesmo cânone por apresentarem processos literários distantes desse eixo, ou seja, movimentos que expressam a falta de uniformidade nos sistemas literários (se ainda pretendermos ficar com esse conceito). em geral, isso acontece quando temos um texto anônimo atribuído a um autor central; como é o caso da appendix vergiliana, onde temos os supostos poemas de juventude do vate romano, autor da eneida.

como poema de juventude, independente da sua autoria, o que interessa ao leitor atual é, provavelmente, o seu tom programaticamente menor, sua chave irônica, longe dos maiores desejos do império. a tradução do latinista márcio meirelles gouvêa júnior (tradutor das argonáuticas de valério flaco), feita em dodecassílabos, para verter o hexâmetro datílico original, tenta capturar esse movimento entre o registro formal sério e o tom leve. além disso, está precedida por uma brevíssima intro, que pelo menos pode situar o leitor leigo.

guilherme gontijo flores

Apresentação

Atribuído precariamente a Virgílio, como um dos poemas de sua juventude, o Moretum é a narrativa de um fazendeiro que, ao se levantar pela manhã, prepara, com sua escrava africana, a própria refeição. Trata-se de um pão chato, sem fermento, sobre o qual são espalhados queijo seco, alho, ervas diversas e azeite.

o moretum, em receita de site alemão

Esta tradução foi feita a partir do texto estabelecido por Fairclough, conforme a edição da Loeb, de 2001.

H.R. Fairclough, rev. G.P. Goold, Virgil, Volume II: Aeneid Books 7-12, Appendix Vergiliana, Loeb Classical Library (Cambridge, MA 2001)

Moreto

Dez horas invernais já a noite completara
e o galo anunciara o dia com seu canto
quando o cultivador de poucas terras, Símulo,
temendo o cruel jejum do dia que chegava,
ergue do leito vil o corpo, pouco a pouco,
e co’ansiosa mão, explora o quieto escuro;
procura o lume e, enfim, o sente ao se ferir.
No graveto queimado, a fumaça mantinha-se
e a luz da brasa se ocultava sob as cinzas;
ele, cabeça baixa, adiante move a lâmpada
e tira, com u’a agulha a ressecada estopa;
co’um forte sopro anima o fogo enlanguescido.
Enfim, as trevas retrocedem ante o brilho
e ele, co’a mão, protege a luz do vento e abre
co’a chave a porta do casebre, à qual divisa.
Um montinho de grãos sobre a terra espalhava-se:
daí, toma para si o quanto se mostrava,
que pesa mais que duas vezes oito libras.
Vai, se aproxima do moinho e, numa tábua,
que, presa ao muro, se guardava àqueles usos,
coloca a luz fiel. Então, despe os dois braços
e, envolto em pele de felpuda cabra, varre
co’espanador a pedra e o meio do moinho.
Então, põe mãos à obra, as duas repartindo:
a esquerda p’ra ajudar no trabalho a direita
que, num contínuo, gira a roda e a movimenta.
Moída, Ceres cai da pedra, aos golpes rápidos;
a mão esquerda exausta, amiúde, segue a irmã
e alterna o esforço. Ele já canta canções rústicas
e, com a agreste voz, o trabalho alivia.
A Esquíbale ele chama; a sua única criada
era africana – sua figura atesta a pátria:
cabelos crespos, lábios grossos e a cor fosca.
Tem caídas mamas, peito grande e ventre inchado,
as pernas finas, prodigiosos largos pés
e calcanhares enrijados pelas trincas.
Ele lhe ordena pôr no ardor do fogo a lenha
e na chama esquentar os líquidos gelados.
Quando o trabalho de moer alcança o fim,
ele, co’as mãos, põe a farinha na peneira
e sacode; a impureza em cima permanece
e Ceres, limpa e depurada, cai do crivo.
Ligeiro, então, rapidamente, a põe na mesa,
joga por cima as águas tépidas. Agora,
amassa as águas misturadas co’a farinha;
co’a rija mão, vai e vem; e estando preso o líquido,
espalha os grãos de sal. Ergue a sovada massa
e alarga, co’a palma, a forma arredondada.
Iguais quadrados corta nela e os põe no fogo –
antes Esquíbale limpara o lugar próprio.
Com telhas ele o cobre e, em cima, deita as brasas.
Enquanto cumprem sua função Vulcano e Vesta,
durante o vago tempo, Símulo não para –
busca outros meios. Como Ceres ao palato
só não agrada, apresta víveres que ajunte.
Não lhe sobravam carnes presas sobre o lume,
nem lombo ou pés de porco em sal endurecidos.
Apenas queijo trespassado por u’a corda
e um molho atado de endro seco, pendurados.
O previdente herói tem p’ra si outros meios.
Havia ao pé da choça u’a horta, que o perene
caniço, o leve junco e vimes protegiam:
u’exíguo espaço, mas em muitas ervas fértil.
Não lhe faltava o que exigia a vida simples;
pedia o rico, amiúde, ao pobre os seus produtos.
Não era sua obra de luxo, mas bem feita.
Se ocioso em casa festa ou chuvas o prendiam,
ou se o labor do arado às vezes terminava,
no horto ia trabalhar. Sabia cultivar
várias plantas, confiar os grãos à terra oculta
e, em volta, controlar os arroios vizinhos.
Couves, acelgas de amplos braços, abundantes
labaças, ênulas e malvas ali viçam,
a chirivia, o alho-poró (que deve o nome
ao broto), a gélida papoula malfazeja
e a alface, que termina as nobres refeições
brotam ali; em pontas crescem alcaçuzes
e a grande abóbora, que deita o largo ventre.
Não era dele a produção (quem era, enfim,
mais pobre que ele?); mas p’r’o povo; ele levava
nos dias de feira, no ombro a carga para a vila.
Voltava, então, co’o bolso cheio e as costas leves
trazendo, às vezes, do mercado, algum produto –
rubras cebolas e alhos matam sua fome,
com o mastruz que faz o rosto contrair-se,
a endívia e o rinchão, que reanima Vênus.
Então, entrou no horto pensando nessas coisas:
co’os leves dedos, da afofada terra tira,
primeiro, quatro alhos, co’as fibras bem espessas;
depois, arranca as tenras folhas de aipo, a arruda
hirta e os coentros, que num fino galho tremem.
Tendo os colhido, alegre senta junto ao fogo
e, co’alta voz, pede à criada o seu pilão.
Desnuda cada alho do corpo emaranhado,
as cascas tira e com desdém no chão as joga
e enjeita. Co’água molha os bulbos conservados
e os põe no bojo do pilão. Deita ali grãos
de sal, ajunta um queijo duro pela salga
e espalha em cima as ditas ervas. Co’a canhota,
segura as vestes sob o ventre cabeludo
e, co’a direita, pila os alhos perfumados.
Então, mói tudo com os sucos misturados
e gira a mão. Aos poucos, cada planta perde
as próprias forças, e u’a só cor se faz de muitas –
nem toda verde, pois se opõem as brancas partes;
nem toda branca, pois as ervas a matizam.
Às vezes, o acre aroma atinge-lhe as narinas
e sua comida causa nele uma careta;
co’a mão, às vezes, limpa os olhos lacrimosos
e xinga, enfurecido, a inocente fumaça.
A obra seguia. Já não mais rude, qual antes,
ia o pilão, pesadamente, em voltas lentas.
Pinga, daí, gotas do azeite de Minerva
e espalha em cima um pouco a força do vinagre.
Liga tudo outra vez e, então, tira a mistura.
Com dois dedos, enfim, contorna o pilão todo
e numa massa só ajunta as partes soltas
P’ra conseguir o nome e o aspecto do moreto.
No entanto, Esquíbale, zelosa, tira o pão
e ele, na mão, alegre o toma. Sem temer
já a fome, Símulo, tranqüilo aquele dia,
veste as calças de couro e, co’o chapéu de palha,
põe sob o jugo das correias dóceis bois;
parte p’r’os campos e na terra enfia o arado.

(trad. Márcio Meirelles Gouvêa Júnior)

Moretum

Iam nox hibernas bis quinque peregerat horas
excubitorque diem cantu praedixerat ales,
Simulus exigui cultor cum rusticus agri,
tristia uenturae metuens ieiunia lucis,
membra leuat uili sensim demissa grabato
sollicitaque manu tenebras explorat inertes
uestigatque focum, laesus quem denique sensit.
paruulus exusto remanebat stipite fomes
et cinis obductae celabat lumina prunae;
admouet his pronam summissa fronte lucernam
et producit acu stuppas umore carentis,
excitat et crebris languentem flatibus ignem.
tandem concepto, sed uix, fulgore recedit
oppositaque manu lumen defendit ab aura
et reserat clausae qua peruidet ostia clauis.
fusus erat terra frumenti pauper aceruus:
hinc sibi depromit quantum mensura patebat,
quae bis in octonas excurrit pondere libras.
inde abit adsistitque molae paruaque tabella,
quam fixam paries illos seruabat in usus,
lumina fida locat; geminos tunc ueste lacertos
liberat et cinctus uillosae tergore caprae
peruerrit cauda silices gremiumque molarum.
aduocat inde manus operi, partitus utroque:
laeua ministerio, dextra est intenta labori.
haec rotat adsiduum gyris et concitat orbem
(tunsa Ceres silicum rapido decurrit ab ictu),
interdum fessae succedit laeua sorori
alternatque uices. modo rustica carmina cantat
agrestique suum solatur uoce laborem,
interdum clamat Scybalen. erat unica custos,
Afra genus, tota patriam testante figura,
torta comam labroque tumens et fusca colore,
pectore lata, iacens mammis, compressior aluo,
cruribus exilis, spatiosa prodiga planta.
Continuis rimis calcanea scissa rigebant.
hanc uocat atque arsura focis imponere ligna;
imperat et flamma gelidos adolere liquores.
postquam impleuit opus iustum uersatile finem,
transfert inde manu fusas in cribra farinas
et quatit; ac remanent summo purgamina dorso,
subsidit sincera foraminibusque liquatur
emundata Ceres. leui tum protinus illam
componit tabula, tepidas super ingerit undas,
contrahit admixtos nunc fontes atque farinas,
transuersat durata manu liquidoque coacta,
interdum grumos spargit sale. iamque subactum
leuat opus palmisque suum dilatat in orbem
et notat impressis aequo discrimine quadris.
infert inde foco (Scybale mundauerat aptum
ante locum) testisque tegit, super aggerat ignis.
dumque suas peragit Vulcanus Vestaque partes,
Simulus interea uacua non cessat in hora,
uerum aliam sibi quaerit opem, neu sola palato
sit non grata Ceres, quas iungat comparat escas.
non illi suspensa focum carnaria iuxta
durati sale terga suis truncique uacabant,
traiectus medium sparto sed caseus orbem
et uetus adstricti fascis pendebat anethi:
ergo aliam molitur opem sibi prouidus heros.
hortus erat iunctus casulae, quem uimina pauca
et calamo rediuiua leui munibat harundo,
exiguus spatio, uariis sed fertilis herbis.
nil illi deerat quod pauperis exigit usus;
interdum locuples a paupere plura petebat.
nec sumptus erat ullius opus sed regula curae:
si quando uacuum casula pluuiaeue tenebant
festaue lux, si forte labor cessabat aratri,
horti opus illud erat. uarias disponere plantas
norat et occultae committere semina terrae
uicinosque apte circa summittere riuos.
hic holus, hic late fundentes bracchia betae
fecundusque rumex maluaeque inulaeque uirebant,
hic siser et nomen capiti debentia porra.
Hic etiam nocum capiti gelidum papaver
grataque nobilium requies lactuca ciborum,
plurimo surgit ibi crescitque in acumina radix,
et grauis in latum dimissa cucurbita uentrem.
uerum hic non domini (quis enim contractior illo?)
sed populi prouentus erat, nonisque diebus
uenalis umero fasces portabat in urbem,
inde domum ceruice leuis, grauis aere redibat
uix umquam urbani comitatus merce macelli:
cepa rubens sectique famem domat area porri
quaeque trahunt acri uultus nasturtia morsu
intibaque et Venerem reuocans eruca morantem.
tum quoque tale aliquid meditans intrauerat hortum;
ac primum leuiter digitis tellure refossa
quattuor educit cum spissis alia fibris,
inde comas apii graciles rutamque rigentem
uellit et exiguo coriandra trementia filo.
haec ubi collegit, laetum consedit ad ignem
et clara famulam poscit mortaria uoce.
singula tum capitum nodoso corpore nudat
et summis spoliat coriis contemptaque passim
spargit humi atque abicit; seruatum gramine bulbum
tinguit aqua lapidisque cauum demittit in orbem.
his salis inspargit micas, sale durus adeso
caseus adicitur, dictas super ingerit herbas,
et laeua uestem saetosa sub inguina fulcit,
dextera pistillo primum fragrantia mollit
alia, tum pariter mixto terit omnia suco.
it manus in gyrum: paulatim singula uires
deperdunt proprias, color est e pluribus unus,
nec totus uiridis, quia lactea frusta repugnant,
nec de lacte nitens, quia tot uariatur ab herbis.
saepe uiri nares acer iaculatur apertas
spiritus et simo damnat sua prandia uultu,
saepe manu summa lacrimantia lumina terget
immeritoque furens dicit conuicia fumo.
procedebat opus; nec iam salebrosus, ut ante,
sed grauior lentos ibat pistillus in orbis.
ergo Palladii guttas instillat oliui
exiguique super uires infundit aceti
atque iterum commiscet opus mixtumque retractat.
tum demum digitis mortaria tota duobus
circuit inque globum distantia contrahit unum,
constet ut effecti species nomenque moreti.
eruit interea Scybale quoque sedula panem,
quem laetus recipit manibus, pulsoque timore
iam famis inque diem securus Simulus illam
ambit crura ocreis paribus tectusque galero
sub iuga parentes cogit lorata iuuencos
atque agit in segetes et terrae condit aratrum.

[atribuído a Virgílio]

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poesia, tradução

tito lucrécio caro (c. 99-55 a.c.)

tito lucrécio caro é uma das figuras mais interessantes da literatura romana. sua única obra que nos chegou, de rerum natura (da natureza das coisas) é um longo tratado epicurista escrito em versos (mais de 7 mil hexâmetros divididos em 6 livros). no entanto, diferente de outros tratados científicos que apenas são talhados em verso – mera prosa recortada – , a escrita de lucrécio consegue se sustentar simultaneamente como ciência & poesia; tanto que de rerum natura é um texto fundamental para os estudos filos[oficos sobre o epicurismo antigo (na verdade, o maior texto que nos restou sobre a doutrina), mas ao mesmo tempo uma pedra de toque importantíssima no desenvolvimento da poesia romana do séc. I a.c. – foi lendo lucrécio que se formaram poetas do porte de virgílio (sobretudo o das geórgicas), horácio (nas odes), propércio, tibulo & ovídio.

para tentar demonstrar um pouco dessa vitalidade, segue abaixo um dos trechos mais famosos da obra (a descrição da chuva), numa tradução poética do poeta curitibano mario domingues, que acabou de defender uma dissertação sobre a poética de lucrécio pelas lentes de jakobson, intitulada O raio, o relâmpago: Tradução do Canto VI de Lucrécio e análise de Função Poética de fragmentos, de 2013. mario domingues também é o autor de 2 livros de poesia: paisagem transitória (2001) & musga (2010); & participou da bela tradução coletiva de e.e. cummings, o tigre de veludo.

guilherme gontijo flores

A chuva – De rerum natura, livro 6, vv. 451-534.

As nuvens se condensam quando muitos corpos
ásperos chocam-se – revoando nos espaços
altos do céu – e sutilmente se coligam
sem que estejam, contudo, presos entre si.
Estes corpos compõem antes nuvens pequenas,   455
eis que estas se amarram, tornam-se atreladas;
unidas crescem, sendo levadas por ventos
até que a tempestade se arme severa.
Quanto mais próximas do céu são as montanhas,
mais os seus ápices fumegam nas alturas,              460
no nevoeiro negro de nuvens vermelhas.
Antes de ser o que parecem aos nossos olhos,
as nuvens são diáfanas, por isso o vento
confina-as nos altos cumes das montanhas.
Só nos cimos, em turba, as nuvens numerosas,     465
Compactas, tornam-se visíveis e, no entanto,
parecem vir dos ares altos das montanhas.
Quando as subimos, manifestam-se aos sentidos
fatos que indicam ventanias nas alturas.
Muitos corpos se elevam do mar: tal se vê               470
na aderência e umidade das roupas e panos
dependurados nos varais dos litorais.
Parece que decorre o inchaço das nuvens
das pulsações salgadas do mar, em miasmas,
já que toda umidade é mesmo consanguínea.         475
Em simultâneo, vemos que todos os rios
e a terra disseminam névoas e vapores,
como um hálito pênsil, manado do solo,
que tinge de caligem o céu, formando nuvens
altas, por sua paulatina convergência.                      480
Pois de cima o calor do éter estrelado
acossa, adensa as nuvens encobrindo o azul.
Acontece também de virem ao céu, de fora,
corpos que fazem nuvens aéreas e chuvas.
Sendo o espaço infinito, como já afirmei,                485
estes corpos – de número inumerável –
sendo tão rápidos, costumam percorrer
num segundo distâncias incomensuráveis.
Assim, não causa assombro que rapidamente
trevas e temporais de grandes nuvens cubram,      490
com seu peso oneroso, os mares e as terras.
Já que em todos os poros do céu, já que em tudo,
nos tais respiradouros deste vasto mundo,
há entrada e saída aos móveis elementos.
Agora explicarei como cresce a umidade                   495
nas nuvens altas, como a chuva precipita
água. Primeiramente, vários grãos de água,
sincrônicos, germinam destas mesmas nuvens,
e ao mesmo tempo brotam de todos os corpos;
a água líquida aparece em toda nuvem,                     500
bem como nossos corpos incham-se de sangue,
de suor e de toda a umidade dos membros.
Também absorvem muita umidade marinha,
como um tosão de lã, suspenso sobre o mar
imenso, quando os ventos carregam as nuvens.       505
Mesmo modo, a umidade dos rios correntes
é embarcada na nuvem. Quando muitos grãos
de água afluem, aumentando de mil modos,
as nuvens cheias tentam excluir o líquido
por dois motivos: pelo vento ser tão forte                 510
e porque a multidão de nuvens os expulsa –
comprimindo de cima, faz fluir a chuva.
Enquanto as nuvens somem com a ação do vento
ou se dissolvem, sob os golpes do calor,
expelem e destilam as águas pluviais,                         515
como a cera amolece e derrete no fogo.
Mas a chuva se faz fera, quando o poder
e a cólera do vento acumulam as nuvens.
Deste modo, costumam as chuvas se deter
quando são agitados muitos grãos de água;              520
quando se fundem outras nuvens e outras névoas
os grãos decaem, regam todos os lugares,
e a terra fumegante exala seus humores.
Quando os raios do sol batem na tempestade
opaca, aspergem contra as nuvens: então surgem    525
as cores do arco-íris sobre as nuvens negras.
Outros fenômenos que nascem e acontecem
nas altitudes, que se agregam lá nas nuvens,
os ventos, o granizo, a geada gelada,
todos, a neve, os longos enrijecimentos                      530
da água, que confundem e retardam o curso
dos rios – é sereno saber como nascem,
por que são criados, quando são entendidas
as propriedades essenciais dos elementos.

* * *

Nubila concrescunt, ubi corpora multa uolando
hoc super in caeli spatio coiere repente
asperiora, modis quae possint indupedita
exiguis tamen inter se comprensa teneri.
Haec faciunt primum paruas consistere nubes ;             455
inde ea comprendunt inter se conque gregantur,
et coniungendo crescunt uentisque feruntur,
usque adeo donec tempestas saeua coortast.
Fit quoque ut montis uicina cacumina caelo
quam sint quaeque magis, tanto magis edita fument     460
assidue fuluae nubis caligine crassa,
propterea quia, cum consistunt nubila primum,
ante uidere oculi quam possint, tenuia, uenti
portantes cogunt ad summa cacumina montis.
Hic demum fit uti turba maiore coorta                             465
et condensa queant apparere, et simul ipso
uertice de montis uideantur surgere in aethram.
Nam loca declarat sursum uentosa patere
res ipsa et sensus, montis cum ascendimus altos.
Praeterea permulta mari quoque tollere toto                  470
corpora naturam declarant litore uestes
suspensae, cum concipiunt umoris adhaesum.
Quo magis ad nubes augendas multa uidentur
posse quoque e salso consurgere momine ponti;
nam ratio consanguineast umoribus omnis.                   475
Praeterea fluuiis ex omnibus et simul ipsa
surgere de terra nebulas aestumque uidemus,
quae uelut halitus hinc ita sursum expressa feruntur,
suffunduntque sua caelum caligine, et altas
sufficiunt nubis paulatim conueniundo                           480
urget enim quoque signiferi super aetheris aestus,
et quasi densendo subtexit caerula nimbis.
Fit quoque ut ueniant in caelum extrinsecus illa
corpora quae faciant nubis nimbosque uolantis.
Innumerabilem enim numerum, summamque profundi   485
esse infinitam docui, quantaque uolarent
corpora mobilitate ostendi, quamque repente
inmemorabile per spatium transire solerent.
Haud igitur mirumst si paruo tempore saepe
tam magnis nimbis tempestas atque tenebrae               490
coperiant Maria ac terras inpensa superne,
undique quandoquidem per caulas aetheris omnis,
Et quasi per magni circum spiracula mundi,
exitus introitusque elementis redditus extat.
Nunc age, quo pacto pluuius concrescat in altis            495
nubibus umor, et in terras demissus ut imber
decidat, expediam. Primum iam semina aquai
multa simul uincam consurgere nubibus ipsis,
ominbus ex rebus pariterque ita crescere utrumque,
et nubis et aquam quaecumque in nubibus extat,         500
ut pariter nobis corpus cum sanguine crescit,
sudor item atque umor quicumque est denique membris.
Concipiunt etiam multum quoque saepe marinum
umorem, ueluti pendentia uellera lanae
cum supera magnum maré uenti nubila portant.          505
Consimili ratione ex omnibus amnibus umor
tollitur in nubes. Quo cum bene semina aquarum
multa modis multis conuenere undique adaucta,
confertae nubes umorem mittere certant
dupliciter ; nam uis uenti contrudit, et ipsa                   510
copia nimborum turba maiore coacta
urget, et e supero premit ac facit effluere imbris.
Praeterea cum rarescunt quoque nubila uentis
aut dissoluontur, solis super icta calore,
Mittunt umorem pluuium stillantque, quasi igni         515
Cera super calido tabescens multa liquescat.
Sed uemens imber fit, ubi uementer utraque
Nubila ui cumulata premuntur et impete uenti.
At retinere diu pluuiae longumque morari
consuerunt, ubi multa cientur semina aquarum,         520
atque aliis aliae nubes nimbique rigantes
insuper atque omni uolgo de parte feruntur,
terraque cum fumans umorem tota redhalat.
Hic ubi sol radiis tempestatem inter opacam
aduersa fulsit nimborum aspargine contra,                  525
tum color in Nigris existit nubibus arqui.
Cetera quae sursum crescunt sursumque creantur,
et quae concrescunt in nubibus, omnia, prorsum
omnia, nix, uenti, grando, gelidaeque pruinae,
et uis magna geli, magnum duramen aquarum,          530
et mora quae fluuios passim refrenat euntis,
perfacilest tamen haec reperire animoque uidere
omnia quo pacto fiant quareue creentur,
cum bene cognoris elementis reddita quae sint.

 (trad. mario domingues)

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