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XANTO| Do peito seu coração para a noite: Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger, por Gustavo Silveira Ribeiro

Do peito seu coração para a noite

Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger

Le monde brûle, en moi, et je marche.
Edmond Jabès

Para Mônica

[Notas para uma série em três partes]

  1. Pallaksch, Pallaksch[1] (2010): As tiras soltas, as sobras, os retalhos de papel produzidos pelo trabalho de desleitura e apagamento de jornais feito muito frequentemente por Leila Danziger são, talvez, como a língua esfacelada pela experiência da catástrofe: peças partidas nas quais só lateralmente, como que de passagem, é possível reconhecer um significado pleno, algo como um desejo de informação imediato. Desfeitas suas páginas frágeis e vulgares, turvada a forma-jornal, o que resta desse processo é o balbucio do papel, a matéria em destroços: o sentido incompleto e interrompido, troços de letras e imagens desconexos, a forma em fragmentos que anuncia o que – por homologia – na língua é falência e impossibilidade: colapso da comunicação, gagueira das coisas. Os estilhaços de papel cinzento se entrelaçam e acumulam, espalham-se no chão, saltam de uma mesa iluminada, explodem no espaço da exposição, em descontrole. Como outro tristemente célebre amontoado de ruínas, sobre o qual paira um anjo desolado, a impressão que se tem é que poderiam crescer até o céu, infinitamente. Mas não: permanecem como uma erva daninha do mundo industrial, excesso de palavras que se multiplica imperceptível e vai se transformar em língua de Babel, conjunto de sons anterior à articulação da gramática e do sentido. A conexão que mantém, como respostas imagéticas e materiais à poesia de Paul Celan é ambígua e profundamente original. Não querem apenas dar forma concreta às metáforas e jogos mentais do autor (como tantas vezes ocorre nesse tipo de encontro entre literatura e artes visuais): querem fazê-las de novo, repropor a sua estrutura, compreende-las em profundidade para só então devolvê-las, refratadas e distintas, ao leitor/espectador. Ao homem que não pode dizer os horrores de sua época e que, portanto, trata de envenenar a língua em que lhe foi dado sentir, escrever, pensar – é o que faz Celan, se nos recordamos que o veneno, qualquer veneno, é sempre phármakon, índice ao mesmo tempo de morte e cura, destruição e depuração – Leila Danziger não responde com o silêncio ou a simples exposição do impasse, do risco da afasia e da paralisação: seu gesto é sobretudo lírico, uma vez que procura reduzir o mundo (a linguagem, a matéria-jornal, a proliferação de objetos de consumo) ao mínimo necessário, desbastando-o de tudo o que é ruído. O que resta no papel depois do trabalho de desmontagem das engrenagens da comunicação de massas é o essencial, isto é, aquilo que restitui a matéria do mundo (e a própria linguagem) a si mesma: ela (a folha de papel) é de novo superfície escriptível, página clara atravessada por imagens e fragmentos de imagens – letras, desenhos, estilhaços de fotografias – que se integram a esse novo corpo, agora não mais submetido ao excesso da fala instrumentalizada, típica do didatismo tão comum à linguagem da imprensa diária. A forma final da instalação, o monte de sucatas de papel dispostas pela cena armada pela artista, revela mais do que o espectador/leitor pode ver: estão ali, à sua frente, os dejetos do trabalho, partes do processo efetuado, mas no entanto eles ainda guardam, invisível e preservada, a sua contraparte: daquele conjunto de cascas de matéria impressa pôde saltar a folha como que nova, rediviva e despojada, a linguagem como que pacificada, de novo em estado de latência. O mesmo pode ser dito, quem sabe, da língua alemã e da linguagem poética em geral atravessada pela estranheza profunda produzida pela poesia de Paul Celan: ainda que pareçam interromper o fluxo de ideias e afetos pelo hermetismo, pelo ensimesmamento de um idioma próprio, fechado em concha sobre si; ainda que pareçam resistir à comunicação, suas palavras puderam também restituir algum silêncio, guardar certa reserva de segredo num idioma e numa cultura (talvez mesmo numa época inteira) saqueada, instrumentalizada, tornada parte essencial da máquina de ódio e extermínio do Nacional-Socialismo. À fala infinita e sem arestas (isto é, sem qualquer dúvida ou hesitação, performando sempre uma espécie de verdade auto-evidente e, por isso mesmo, incontestável) do Führer, Celan oferece o anteparo da palavra impossível de Hölderlin, “pallaksch” (sim e não ao mesmo tempo, aporia paralisante, obstáculo), tartamudeio angustiante. Contra toda a fluência sibilina, toda a sabida – e terrível – eloquência de Hitler, cujos discursos se alongavam de improviso por horas a fio, a palavra residual de quem já não fala, uma espécie de contra-retórica: Pallaksch, Pallaksch, linguagem que se encaminha para a mudez mas que não silencia: repete, vezes sem conta mas pausadamente (como o poema sugere), a não-palavra, resto e ruído de toda uma época – ao mesmo tempo a época das Luzes excessivas, cegantes, do século XVIII de Hölderlin; do heart of darkness do século XX, a era das catástrofes de Celan, e da fala infinita, zumbido incessante e insuportável da comunicação de massas e da criação de pós-verdades do século XXI, tempo que coube a Leila Danziger e ao seu trabalho, produtor de silêncios. Se Roland Barthes nos lembrou que o fascismo (no plano específico da linguagem) não faz calar e não ordena a mudez, mas faz dizer junto, repetir as mesmas palavras e os mesmos sentidos do poder e da violência, talvez seria possível observar como, na associação que estabelece entre a Shoah e o arcabouço midiático da comunicação moderna, a artista pense a partir do fascismo o excesso agressivo de informações do jornal. A ele, a essa forma-força do mundo do capital e das trocas velozes (e vazias) de mercadorias, só corresponderia plenamente, como contraparte estrutural, o autoritarismo da sociedade de controle e do Estado-total. Daí a violência abafada, mas ainda assim violência, do processo de produção das obras de Leila Danziger; daí também serem os seus procedimentos fundamentais o esvaziamento e a reinscrição, como a encenar o encerramento de um ciclo (a permanência do fascismo, da “vida danificada”) e o início de outro, desconhecido, distinto, ainda pura utopia.

(…)

Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
Patriarcas: ele poderia
se falasse ele deste
tempo, ele
poderia
apenas gaguejar e gaguejar
sempre –, sempre –,
continuamente.
Pallaksch, Pallaksch

[“Tübingen, Janeiro” – Paul Celan – Trad. L. Danziger]

[1] Montada pela primeira vez no Museu de Arte Contemporânea, Niterói, 2010.

Gustavo Silveira Ribeiro

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crítica, poesia

Leila Danziger

Leila-Danziger

Que a memória é um dos temas essenciais para os judeus ninguém há de contestar – desde o copo que se quebra na ocasião do casamento para lembrar a queda do Segundo Templo de Jerusalém (temperando, segundo a Talmude, o sentimento de celebração da ocasião com uma lembrança dolorosa) até o esforço ativo, ainda mais doloroso pela proximidade cronológica, de não deixar a Shoah cair na negação e no esquecimento. É por isso que eu imagino que eu não consiga deixar de enxergar esse tipo de trabalho também na obra de Leila Danziger (1962), o que, eu diria, faz muito sentido. Nascida e habitante do Rio de Janeiro, Danziger é artista plástica e professora do Instituto de Artes da UERJ e expõe regularmente desde o início dos anos de 1990.

Algumas de suas exposições viraram livros, como Edifício Líbano (2012), Todos os nomes da melancolia (2012) e Diários Públicos (2013). Em Edifício Líbano, Leila traça o que poderíamos chamar de uma forma de arqueologia familiar, explorando os espaços do prédio, situado na encosta do Cantagalo, perto da comunidade do Pavão-Pavãozinho e que carrega em seu nome uma parte do Oriente Médio (e ela cita o Cântico dos Cânticos: “Eis a fonte dos jardins, poço de águas vivas, que correm impetuosamente do Líbano”), onde seu pai Rolf e sua mãe Irene vieram se instalar em 1935, fugindo de Berlim à bordo do navio Aurigny. Rolf faleceu em 2011, e uma boa parte dessa exposição trata das coisas que ele acumulou ao longo de sua nova vida no Brasil, seus arquivos: bilhetes, cartas, canhotos, anotações, blocos, papeis carbono, rascunhos guardados em sacos de leite ou de pão, cartilhas e dicionários do hebraico, enciclopédias, livros de oração – a “liturgia solitária” de um “judaísmo laico”, “afastado de qualquer prática religiosa”, como ela descreve.vanitas-1

Outro de seus trabalhos é a série Vanitas, feita em Tel Aviv, a partir da observação da mídia israelense. O nome remete a um tipo de natureza-morta dos séculos XVI e XVII, “compreendida como uma espécie de advertência à transitoriedade dos valores terrenos”, que, por sua vez, deriva do motivo bíblico do “vanitas vanitatem”, ou “havel havalim” do Eclesiastes/Qohelet. Um dos vídeos dessa série pode ser visto abaixo:

As imagens de Vanitas estão inclusas em Todos os nomes da melancolia, e esse trabalho com a mídia de massa encontra continuação em Diários Públicos.

Como poeta, propriamente dito, no sentido de autora de versos (porque longe de mim afirmar que não haja algo muito forte de poético em seu trabalho como artista plástica), Leila Danziger é autora do volume três ensaios de fala (2012), publicado pela 7Letras. Desde a capa do livro (uma de suas peças, chamada Os que vivem à beira da dissolução, uma fotografia de borrachas escolares), fica claro como o seu trabalho poético mantém esse diálogo inevitável com o seu trabalho como artista plástica, evidenciando, porém, uma presença maior de um eu, ainda que um “eu” muitas vezes quase apagado, como uma forma de articulação, um elo entre as memórias do pai e as memórias do filho, nascido em 1996 – e, nisso, ela acaba por me lembrar um pouco a obra de outra poeta judia de quem gosto muito, que foi a Dahlia Ravikovitch (que menciona seu filho, Ido, em vários de seus poemas), que já traduzi em algumas postagens anteriores aqui no escamandro.

É desse livro, então, que extraio os poemas que compartilho com vocês abaixo. Mais sobre ela pode ser visto em seu site, clicando aqui. No momento, ela tem também uma exposição em cartaz, recém-inaugurada, chamada Mares poderão subir por mais mil anos no Ateliê da Imagem, no Rio de Janeiro.

Adriano Scandolara

           

Dever de casa

Anotou em sua agenda

                Escrever um texto comentando Tristão e Isolda.
                Todas as histórias de amor são uma só.
                Não há amor sem luta e sofrimento.

21 de agosto de 2009, sexta-feira.

Tinha 13 anos.

        

Pontualidade

Às seis e trinta e cinco, eu abro a janela
e os jornais oscilam com o vento:
a carcaça da baleia, o herói de pedra,
a criança que atravessa um rio a cavalo.

O dia começa à espera de um aceno.
O menino eleva o olhar ao décimo andar
no exato instante
em que fecha o portão de ferro.

Eu devolvo imobilidade às imagens e me retiro
por trás do vidro sempre empoeirado
que filtra a brutalidade crescente do sol.
(No lugar do mundo em que estou, as estações nunca se cumprem.)

De passagem, inspeciono
minúsculas configurações
de sujeira e mofo
em progressão

Há perspectivas da casa que desconheço,
                                               pontos
em que me demoro
não mais do que instantes.
Sei que há vida
no vão inalcançável
entre o armário e a estante
onde o que cai
se ausenta

e reaparece –

livre de função, urgência,
sentido.

É mesmo importante
que alguns lugares da casa
vivam sem mim.

        

Aventurado

ele diz o nome do navio
ele tem corpo de sopro, pele fina como papel
Irene é a soma dos desencontros
ele diz Salomon e chora
seu nome anagrama de flor
ninguém é tão engraçado quanto ele, quando chora

                      (legado de palavras técnicas e letras góticas
                      arquivos em sacos de leite CCPL
                      e envelopes do Jerusalém Post
                      caixas de microclimas
                      florações de pó)

ele diz Mimosa de Copacabana
ele conta o rubor da princesinha diante dos encantos do marquês
sua voz veste remotos filactérios
salmodia débitos e créditos
seu corpo é gelo fino sobre um lago
ele diz Weißensee e chora

(Leila Danziger)

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