poesia

2 poemas sobre ilustrações de leonardo MAthias

o poeta e ilustrador leonardo MAthias já não é nenhum estranho por estas bandas, e, em um de seus trabalhos mais recentes – a chamada série massas – ele vem desenvolvendo uma forma de diálogo entre imagem e poesia, de maneira, talvez, análoga à do trabalho que desenvolveu em sua exposição as janelas de rilke. No entanto, ao contrário das janelas, onde as ilustrações foram criadas depois dos poemas (e, afinal, nem teria como ser antes), na série massas, as imagens altamente estilizadas e ambíguas de MAthias são o ponto de partida para os poetas convidados escreverem seus poemas, de modo que cada poema está ligado à sua imagem numa relação que não constitui nem sua explicação, nem uma écfrase, mas uma outra coisa. do escamandro, nós dois – adriano e guilherme – fomos convidados pelo MAthias para contribuir, e, junto dos paulistanos anderson lucarezi e leandro rafael perez, compomos o quadro dos poetas até então envolvidos no projeto, que deverá receber mais imagens, poemas e poetas ainda no futuro.

a série completa (isto é, até o momento), você vê neste link aqui.

(adriano scandolara & guilherme gontijo flores)

             

leonardo MAthias - do silêncio intuído

do silencio intuido.

por uma história da alegria
feito escada elevada
além do chão tão alta
até que alguém pensasse
que todo o feito estava
apenas em chegar ao pé
dessa escada suspensa no ar
como se fôssemos somente
o sonho intranquilo
daquela borboleta

(guilherme gontijo flores)

             

leonardo MAthias - verdade é o que se esconde

verdade é o que se esconde.

Vulto contra lâmpada apagada
que, se acesa,
sumiria,
               caindo
os panos das sombras, e elas planas se apressando
para os cantos feito ratos.

Vulto
talvez do tempo carrancudo
a devorar os próprios filhos,
a morte, pérola
oculta em profundezas
do corpo como do sol,
nisso que míopes vemos como
sua viagem diária
para morrer no horizonte,

e o tempo talvez não saibamos
devore a si mesmo.

(Adriano Scandolara)

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poesia, tradução

französisch de rilke

rilke, num desenho, de 1925, de baladine klossowska, a quem dedicou alguns poemas.

rainer maria rilke (1875, praga – 1926, valmont) é talvez o nome mais famoso da poesia alemã na primeira metade do século xx. no brasil, a sua poesia já ganhou um bom punhado de traduções, sobretudo das obras mais famosas, como as elegias de duíno & os sonetos a orfeu, além da prosa das cartas a um jovem poeta.

pessoalmente, nunca me comovi muito com esse rilke da grandes paisagens subjetivas, das imagens deslumbrantes, esse rilke que influenciou tanto nossa geração de 45. eu descobri o meu rilke naquele pouquíssimo famoso, o rilke dos poemas franceses, sucinto, elegante, simplex munditiis (se eu puder usar as palavras de horácio), simples nos enfeites. por isso, acabei traduzindo a série janelas, a convite de bruno d’abruzzo (que trabalhou no poemas franceses em prosa): um projeto despretensioso que inesperadamente virou livro, pela editora crisálida.

esta semana, esse projeto vai ainda a outro lugar: são paulo, nas mãos de leonardo MAthias, que criou uma série de obras a partir dos poemas franceses e de suas traduções. como um gesto de graça, ele me convidou para fazer uma fala de abertura para a exposição que começa dia 11 agora e vai até o dia 8 de setembro. aí, de tradução literária, rilke ganhou tradução intersemiótica, leituras, etc.

por isso, esta semana farei duas postagens – esta, com alguns poemas franceses tirados do livro as janelas, seguidas de poemas em prosa franceses; na próxima, poemas traduzidos do alemão com a parceria de maurício cardozo, dos novos poemas. 

abaixo vai um poema traduzido, com imagem feita por MAthias, & outro em prosa.

cortina, de leonardo MAthias

 

Cortinas

Tu me propões, janela estranha, um esperar;
tua cortina bege esboça algum bolero.
Devo, ó janela, a teu convite me entregar?
Ou me negar, janela? Quem é que eu espero?

Não estou intacto, com esta vida que escuta,
com este peito pleno que a perda se completará?
Com esta estrada que segue, e a dúvida bruta
que tu dás em excesso cujo sonho me pára?

(tradução, bruno silva d’abruzzo e guilherme gontijo flores)

 

Farfallettina
Toda agitada ela chega à lâmpada, e sua vertigem lhe dá um último descanso antes de ser queimada. Abateu-se sobre o tapete verde da mesa, e em cima deste fundo vantajoso estende por um pequeno instante o luxo de seu inconcebível esplendor. Dir-se-ia, em tom mesquinho, uma dama que teria um colapso indo ao Teatro. Ela nunca chegará. Aliás, onde está o Teatro para tão frágeis espectadores? Suas asas, nas quais notamos minúsculas varinhas de ouro, remexem como um leque duplo face nenhum rosto; e, entre elas, este corpo delgado, bilboquê sobre o qual recaem dois olhos de esmeralda. É em você, minha cara, que Deus se esgotou. Ele a lança à flama para recobrar um pouco de sua força. (Como uma criança que quebra o seu cofrinho.)
(tradução, bruno silva d’abruzzo e guilherme gontijo flores)
guilherme gontijo flores
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crítica de tradução, poesia, tradução

7 + 4 vermelhos carrinhos de mão (william carlos williams)

se pensarmos a tradução (segundo a já famosa metáfora) como a foto de uma estátua, sempre capaz de resolver uma  parte da sua tridimensionalidade, mas também sempre incapaz de esgotar as possibilidades de visão do original, ficamos com dois belos corolários:

1 – como a foto, a tradução é uma outra arte, que em grande parte vale por si só, mesmo quando aponta para uma obra que tenha um apelo próprio e que não se esgote na foto. o que se busca na experiência com a foto e com a escultura não deve ser resumido na mera correlação de igualdade – é a própria diferença que legitima a existência da tradução e, portanto, uma tradução perfeita não seria de fato tradução.

2 – todo original pede um número infinito de traduções, não só das várias línguas, mas de cada língua. e, ao contrário do que postula benjamin, as traduções reativam o gatilho e pedem, cada uma, novos infinitos tradutórios: a tradução (ou pelo menos a boa tradução) é traduzível, um novo convite ao traduzir.

e assim chegamos à poesia de william carlos williams. o poema the red wheelbarrow é um clássico na sua singeleza, ou melhor, na sua falsa singeleza; & como tal já recebeu um bom número de traduções em português. eu pude achar 4 (josé paulo paes, josé agostinho baptista, haroldo de campos e luís dohlnikoff), que me incentivaram a fazer a minha e a cooptar mais dois tradutores (nosso já conhecido coeditor adriano scandolara e o em breve postado felipe paradizzo).

o plano, é claro, não é fazer uma competição pela melhor tradução do poema. creio que os pontos 1 e 2 deixam isso implícito, mas preferi a redundância para evitar a má fé dos maus entendedores.

mesmo assim, estas 3 novas traduções vêm com uma breve justificativa do tradutor, com o intuito de demarcar sua historicidade, o porquê de uma outra tradução, como ela pode se inserir nesse corpus como nova foto, nova obra.

THE RED WHEELBARROW



so much depends
upon



a red wheel
barrow



glazed with rain
water



beside the white
chickens.

(william carlos williams)

* * * 

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé paulo paes)

* * *


O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

reluzente de gotas de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. josé agostinho baptista)

* * *

O CARRINHO DE MÃO MARROM

Tanta coisa depende
desse

carrinho de mão
marrom

reluzindo sob a
chuva

junto às galinhas
brancas.

(trad. luís dohlnikoff)

* * *

CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanto depende
de um

carrinho de mão
vermelho

vidrado pela água
da chuva

perto das galinhas
brancas.

(trad. haroldo de campos)

* * *

CARRIM DE MÃO

tanto depende
de um

carrim de
mão

no verniz da
chuva

entre os frangos
brancos.

(trad. guilherme gontijo flores)

ao analisar o poema, notei que ele se dupliestruturava: por um lado, visualmente, com suas 4 estrofes de 2 versos e sempre uma palavra apenas no segundo verso. porém simultaneamente, uma estrutura melódica dava harmonia ao poema, ele pode ser lido como apenas 2 versos decassilábicos: so much depends upon a red wheel barrow / glazed with rain water beside the white chickens. apesar do alongamento do português, tentei manter esse aspecto rítmico; para tanto, optei pelo oral “carmim” por dois motivos: manutenção do metro (sabendo que certo oralismo não seria completamente estranho à poesia de wcw), e pelo fato de carrim ser um quase anagrama perfeito de carmim, onde poderia estar o “vermelho” desaparecido da minha tradução.

* * *

O CARRINHO VERMELHO DE MÃO

tanto depende
de um

carrinho vermelho
de mão

lustroso d’água
da chuva

ao lado do branco
dos frangos

(trad. adriano scandolara)

“Minha justificativa é a da quebra de versos. Nas 3 últimas estrofes do poema, o Williams cria um esquema de fazer um verso mais longo onde o enjambément cria uma expectativa que não se cumpre totalmente no verso mais curto a seguir. Aí, em vez da roda vermelha (the red wheel), tem-se o carrinho de mão vermelho: o leitor espera uma coisa, mas vem outra, e assim o ritmo da leitura fica mais irregular, meio soluçante. O mesmo vale para a chuva da 3ª estrofe, que não é a chuva caindo, mas uma água de chuva parada, que deixa o carrinho lustroso, e para o branco da última estrofe, que só revela ser das galinhas no último verso e cria um efeito de contraposição de cor com o vermelho do 3º verso.”

* * *

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

Tanto depende
de

um carrinho de mão
vermelho

orvalhado com água
de chuva

ao lado das galinhas
brancas.

(trad. felipe paradizzo)

“Minha tentativa foi reproduzir a relevância da imagem para o poeta norte americano em alguns detalhes da tradução. Acredito haver nas três últimas estrofes, blocos de imagens que se articulam entre si e orbitam “um carrinho de mão vermelho”, além de também oferecem às fortes imagens de WCW singularmente. Por isso, optei por manter o artigo indefinido na segunda estrofe, a fim de marcar a singularidade da imagem poética em questão. Quanto ao “orvalhado” na terceira estrofe, tomei a liberdade de deslocar o sentido da palavra inglesa “glazed”, em busca da imagem cotidiana de Williams, trazendo o adjetivo o mais próximo possível do cenário, da imagem.”

* * *

o convite a novas traduções/justificativas/comentários/críticas fica a partir de agora aberto ao infinito

APÊNDICE: 4 novas traduções.

O VERMELHO CARRINHO DE MÃO

muito depen-
de

um vermelho carrinho
de mão

vitrea da
chuva

ao lado dos brancos
frangos

(trad. leonardo MAthias)

“Procurei destacar, na tradução, o fator relacional entre versos e estrófes, responsável pela mutação nos sentidos da leitura. O peoma parece, a cada palavra posteriormente lida, estar constantemente se auto-descontextualizando. Aínda, foi preciso manter um certo caráter ruidoso, presente no poema original, qual potencializa as possibilidades sintéticas misteriosas, inerentes ao magnetismo estranho de suas peças e espaços.”

* * *

O RUBRO CARRINHO

tanto depen-
de de um

rubro carri-
nho

molhado de
chuva

lá com as gali-
nhas brancas

(trad. rodrigo gonçalves)

“mímese de som e ritmo, imagem e concisão. exercício de sintese. ludus.”

* * *

A CARRIOLA VERMELHA

há muito a pesar
sobre

a vermelha
carriola

lustrada pela
chuva

entre brancos
frangos.

(trad. tarso de melo)

segundo o próprio,  “uma tradução injustificável”!

* * *

CARRIM-DE-MÃO VERMEIO

tanta coisa depende
dum

carrim-de-mão
vermeio

moiado da
chuva

do lado dos frango
branco.

(trad. daniel martineschen)

“Sei lá, pensei no que diria um pedreiro (ou eu mesmo na reforma de casa), logo após parar de chover e o sol brilhar de novo, ao ver umas galinhas que saíram pro terreiro pra tomar sol depois da chuva. simplicidade, oralidade (bem curitibana, eu diria), brincadeira sem ofensa. e descaradamente roubei a opção do guilherme por ‘carrim’.”

* * *

guilherme gontijo flores

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crítica, poesia

Leonardo MAthias

chegou a hora do blog desegotizar, para além das traduções que andamos fazendo.

o primeiro trabalho que temos aqui é de leonardo MAthias, poeta e artista plástico de sampa; ele mesmo diz que “poesia, artes visuais e design são lugares nos quais também habita. oscila. via linguagem se exercita.”

e eu diria/acrescentaria ainda que ele se exercita via linguagens: ora como poeta (seu primeiro livro de poemas, de pé, saiu este ano pela editora patuá), ora como artista plástico e designer (as imagens do nosso blog são dele, mas seu trabalho no flickr); e o melhor, por vezes numa fusão entre linguagens, que geram poemas visuais ou visões poéticas, ou poemas em visão… ou algo que ainda não consigo nomear muito bem.

dito isso, eu poderia afirmar que o interessante em seu trabalho é, em grande parte, esse frescor visual nos poemas, ou essa poética da língua nas imagens. ao mesmo tempo em que se pode notar um certo “esfacelamento” (seria essa palavra le mot juste?) da objetividade; o que, é claro, não implica subjetivismo pura e simplesmente.

(eu diria que temos mais uma objetividade subjetivizada, ou uma subjetivação do objeto (e não se trata de mera síntese, solução para um problema, mas a reordenação do problema). talvez por isso sua poesia – e suas imagens – tenda a escapar por vezes (como no seu blog mais recente, jam : ensaio sob o escuro, pra entenderem o que digo) ao discursivo, ao querer-dizer.)

voltando ainda à minha tentativa – já fracassada – de definição, eu diria que não se trata exatamente de uma subjetivação do objeto (muito menos de uma representação do objeto – ainda que o leonardo mantenha um gosto pela arte figurativa). talvez pudéssemos falar de uma possibilidade da subjetivação do objeto, um rastro que só é possível pelo risco da leitura, pelo risco de arruinar sua representação. esse risco só pode ter lugar na materialidade da linguagem; e, no caso do leonardo, das suas linguagens: nos poemas, uma reordenação quase assemblage de imagens; no caso das imagens, o acúmulo de materiais ligados  ao traço – essa multiplicidade de texturas.

desisto, melhor é que vocês vejam estas duas imagens-poemas que ele nos cedeu.

guilherme gontijo flores

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