poesia

Leonel D. Jr.

Leonel D. Jr é formado em Letras e vive em São Paulo num fazimento constante do vir-a-ser. Estes poemas fazem parte do livro (inédito) “botânicos e genesíacos”. Para contato: ldelalana@yahoo.com.br.
* * *

botânica

raízes fincadas em passado recente, rente ao horizonte do tempo da seiva,
por debaixo das portas, pelo vão mínimo das portas, às escondidas
rugosos dedos entrelaçados em nós, da floresta que ainda respira
raízes alongadas onde lunetas vislumbram musculaturas rijas
tão rijas quanto gosto de mãe e a severidade do pai
o tronco e as pernas do pai atribuídos ao encantamento
embrião para a vida toda – ganhando a vida desejando a morte:
amputação do rabo da lagartixa, a fruta cortada ao meio num lance de faca
do alto da sua frondosa cabeleira, dos seus raios e trovões
a impotência em frutos mirrados
sua pele rude e seus intermináveis dedos penetram a terra
minha filha tem intermináveis dedos, meu neto tem intermináveis dedos
a força do pai, sua ausência:
raízes

§

descoberta

o subsolo desliza por rugosas raízes (de um riacho, ainda há pouco, raro)
de um mundo impermeável reprimindo a busca não exatamente do pai
nem da mãe de preto rezando – ralhando?
da janela, o canavial interminável de dedos longos e digitais apagadas, da nona
retirando a tinta calcinada do batente, o atrito da lâmina deformando as falanges
e desenhando ranhuras na madeira
no arrebol, a usina carcomida e demarcada pelo sexo peludo da descoberta do outro
pelo vão da janela os seios murchos da nona
fotografias velhas esquecidas no fundo da gaveta
algo corrói, mas tudo corrói – o que não?
o vermelho-alaranjado minando… minando… como uma fonte inesgotável
lendários heróis que nunca tive:
no canavial das terras vermelhas revolvidas, desembestados, passando por entre
minhas pernas com a clara intenção de me derrubar: um pastor e um vira-lata
meu canavial não é o de joão, não é engenho, é um horizonte
vila sob eucaliptos, caravana que some na poeira, romaria, cavalo que dispara,
entorpecimento
tudo cercava a casa da vila, eu mesmo era (sou) “o da vila” – desde o soco
no estômago, na cara, do abuso da força alheia
do cheiro, dos beijos, do milharal apinhado, dos dedos que lavram o dia a dia do
passado
a descoberta de que não precisa pedir desculpas sempre

§

labirinto

extirpo raízes com seus minérios e mucosas, revolvo todas as substâncias
de éteres a cascalhos, dos espelhos aos oxalatos
(as pernas bambas da mesa andam cheias de cupim, disse o pai)
de visibilidades duvidosas, rentes e verticais, ao dente
ritualizo, me apego e desapego,
exausto vago sem rumo, quase sólido – glóbulo, granizo, grãos, compacto
como se sob fosse abismo, sem raízes,
solto ao vento, uma rasteira de possibilidades que vai aparando toda a grama
o corte, a seiva na parede raiz: odores, fotossínteses não conclusas, e,
o contentamento do eterno retorno – insiste, resiste:
da semente dentro da macieira, da chuva dentro da gota d’água,
de têmporas e tempéries, de uma estrutura latente, incubada, vulcânica
asas de cera, telhados de vidro, atados dos pés ao chifre
o que querem de nós, pensamentos prontos, delivery of thoughts?
palavras codificadas, labirintos, simulacros, túmulos, tumores, lixos mediáticos
a todo volume
uma vida de inverossimilhanças reais sob nebulosas difusas e absorventes
espiraladas difrações sonoras e imaginamos um mundo, de pronto
feito imagem e semelhança das imagens
um novo homem, sempre velho e inacabado
a verdade da criança morta, anestesia geral e irrestrita
o regozijo em concreto gozo
se os arqueólogos não sabem dos seus labirintos como se livrarão dos seus
minotauros?

§

visão

talvez, os dedos encurtem e fiquem as unhas no pulso
os pulsos sumam para dentro dos cotovelos e os cotovelos:
cata-ventos
no eixo dos ombros, girando em falso com um sorriso verdadeiro
que a garganta engoliu a seco,
o cérebro saudável de bondades
as bolas de ferro persas presas aos calcanhares protegendo as asas do sol
difícil pensar que somos personagens fora do comum
– anomalias, dádivas, dívidas já pagas
nas mesmas mãos, nos mesmos olhos:
no espelho da lâmina da faca, seu olhar, um céu sem nuvens e sol:
paraquedas despencam sem sobreviventes, um mundo sensível
e um clown em meus pés, quem sabe eu dance, cante, fique feliz
talvez um repouso, um pouso aos destroços dos meus voos
uma pausa que não seja tão assim,
aniquilamento

§

a doença das plantas

as raízes se afundam em pedregosos calcários, em ramificações de cores
extensões variáveis protegidas do vento
que insiste em todas as direções
adoecem impregnadas e submergidas em terras revoltas
uma árvore enraizada em todos os tempos e espaços – sem limites
tradições e contradições arquetípicas
as chagas estão abertas e não há mandrágoras que as curem:
envenenam as comidas, massacram a cultura e tudo
os estilhaços flutuam ao nosso redor e perfuram todo nosso corpo
e nossos mirrados filhos correm soltos por aí
repetindo… repetindo… o refrão da nossa existência
seus dedos rudes apertam gatilhos, assinam contratos, acariciam doentes
espelham a terra
caem de boca no abismo, se perdem no vácuo impreciso da materialidade
das coisas inúteis que deixam suas marcas, o saldo dilacerado de telúricas origens
das dores autóctones, das vozes adormecidas
ou nunca nascidas

§

dos argonautas e dos olhos azuis tristes do pai

as fronteiras demarcam os países, as cercas confinam os bois
mas o que demarca nossa existência?
terras ásperas de raízes expostas às cegueiras detestáveis de ostras cerradas
no fundo da escuridão das pérolas
o que são as pérolas em sua negridão de fundo de mar se
não-pérolas e nada mais?
o que sabemos do oco dos sonhos e das ovelhas que saltam de lá?
ah, terra incógnita, suas pérolas brilham em sua face e sabe o quão tristes são os
olhares opacos de seus filhos
o quão triste e cheio de medo eram os olhos azuis do pai
o quão triste foi o enfisema pulmonar do pai, o quão triste foi o pai
teus ombros fortes arquejam – o mundo está escasso de heróis, deuses e humanos
a fúria da descoberta do desespero de se descobrir em terras estrangeiras no meio da própria
casa,
às vezes, precisa-se pedir licença aos próprios pés
a adaga, a machadinha, a pedra e a vida lascada
os mitógrafos do primeiro decênio do século XXI expõem em seus facebooks
as mitologias da china comunista e da américa pós-apple
o mundo esférico ideal em um só clique, por onde argonautas e odisseus navegam
ocultos, impávidos, anônimos, implacáveis…

§

partículas de deus

cá estamos de sopro e supetão nesse vazio
primatas dentro do umbigo, solidificados, virtualizados, liquidificados
à virulência da vida (que vai ao ralo, ao rabo, ao rato,
liquidada, adiada, antecipada)
adâmico, busco o lado que me falta da costela
que sei desde sempre, balsâmica
em rota de peregrinação às histórias de cada um – a beleza salvará o mundo (?)
não sei não saberei
me responda você, que merda fizemos dele se tudo se contabiliza?
se não existe espaço para a arte como existe espaço às oito horas trabalhadas
e outras maldades mais
na vila izaura, acreditava, no azul do céu que a menina da rua de cima trazia,
acreditava
tudo começou ali, na expulsão do paraíso, a partícula maldita:
talvez isso explique nossa busca desenfreada do que nem sabemos, construindo
a felicidade eterna num graveto, afoito no prazer da dor do outro
– o sangue do capítulo IV do livro de gênesis –
queremos limpar nossas mãos do que nem cristo foi capaz
tateando o indizível quando a possibilidade do interruptor nos cega
estúpidos senhores e senhoras de dedos longos e raízes desesperadas observam
o nada o naufrágio o delírio,
um grito

§

raízes viris de sementes fecundas

onde se encontram duas coisas e o mundo acontece:
teatro de marionetes, epifanias, carrancas nas embarcações ou qualquer coisa
que detone movimento – difração
a cólera do não, a desmedida do quero garante o gozo
a beleza dos afetos pede razão: a eloquência dos corpos nus
pedras, ventos, riachos, insetos, cascas, mucosas se agitam, conta-gotas em
golfadas lancinantes, as rachas se abrem…
o movimento estabelece a continuidade do que não se estanca
o mundo se organizou de tal forma que não percebe sua extraordinária beleza
para a alegria da misoginia abundam seios e bundas siliconados a granel
não importa, onde se encontram as coisas o mundo acontece:
as soluções são numerosas e a preguiça tamanha
todo esse embaçamento ao alívio da dor
não ímpar, multíplice
talvez a gente queira demais dos nossos quereres
esquecendo da nossa condição quase anelídea

§

travessia dos mares

o canto das sereias televisivas edificando a visão
um mar de manto verde com suas folhas de digitais cortantes e reminiscências
lançados ao desconhecido de um inconsciente coletivo e bravio
onde imagens copulam e não há terra à vista
um engodo, uma isca para peixe, uma tira de pano vedando o desejo da busca
do outro, para tomar pose, não importa o fundo do mundo
merleau-ponty ou maurício de nassau ou mary poppins?
quem você levaria para sua ilha
– eu levaria minha mãe, pois ninguém deixa uma mãe judia assim… a ver navios
mefistófeles no meio do redemoinho, nonada:
viver é um troço impreciso e desnecessário nesse sertão de estrelas perdigueiras
raízes que se apequenam na imensidão de tudo
raiz do dente, do cabelo, quadrada ou da mandioca que é a própria mandioca
tudo envolta do umbigo e no umbigo não há descoberta, janelas fechadas, casas assépticas –
entristece
encantado pelo canto mágico se deixa na poltrona
não sabe da beleza da imensidão das águas

§

labirintos artificiais

geoffrey rush e fran lebowitz (separados no berço) ou fausto fawcett?
exausto, estático, em descarrego, caio em rito, em ritmo – calcário
vago compacto, quase gasoso, anidrido e dióxido de carbono na veia,
uma carreira de ácido acético testando minha plasticidade em alongar-me nos túneis da cidade
outra de ácido ftálico tingindo meus sonhos de azul-violeta
prumo em linha reta
com sebo na canela
vago em uma biblioteca onde os livros criam raízes e dão frutos, a bibliotecária
com a fúria e o som de uma serra elétrica vai colocando os livros prateleiras abaixo
para o deleite dos capitalistas das indústrias de papel – vou salvando o que é possível:
do meio do redemoinho
[de folhas, caules, frutos
cascas, seivas, formigas, flores, penas e maçãs]
um fausto cai em minha cabeça
zonzo já não sei se é outono europeu, inverno americano, primavera árabe ou verão abaixo da linha do equador
sob o sol que amolece os miolos e atiça o balacobaco-do-baixo-baco com suas belezas
excepcionais
espelhos e espinhos em abstrato gozo
[e os muros cinzas se erguem
e bonecas são queimada]
cinco disparos na garota afegã e o frenesi dos guardiões do alcorão
o gozo obsceno do ocidente no falo de suas prepotentes torres brochas
dão o tom da disfonia do terceiro milênio que está apenas começando

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