“O diálogo do pessimismo”

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“O diálogo do pessimismo” é um poema babilônico que fazia um tempo que eu queria traduzir. Também chamado de arad mitanguranni (o primeiro verso do poema no original: “vem servir-me, escravo” ou “escuta, escravo”) ou “O diálogo de um senhor e seu escravo”, por motivos óbvios, ele consiste nisso mesmo. São 10 ou 11 estrofes, cada uma com uma estrutura bastante simples, mas eficaz: elas começam com o chamado do senhor e a resposta do escravo. Então o senhor diz que quer fazer alguma coisa (ir ao palácio, jantar, fazer um sacrifício ao seu deus) e o escravo responde comentando as vantagens disso que ele deseja fazer. Depois o senhor muda de ideia, e o escravo comenta as vantagens de não fazê-lo. A literatura chamada sapiencial era um gênero respeitável na Mesopotâmia e muito popular entre a classe de escribas, que treinavam seu ofício com provérbios e consideravam secreto o conhecimento que registravam nas tabuletas, algo só para a pequena elite capaz de ler a complexa escrita cuneiforme do sumério e do acádio – os iniciados. Há algo de literatura sapiencial no poema, e durante algum tempo (até 1954, como comenta Lambert) os pesquisadores o incluíram como parte do gênero. De fato, nota-se um verniz de profundidade nas falas do escravo: “Comer alegra o coração”, “Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”, “o cão de rua sempre encontra o osso”. São versos que têm toda a carinha de provérbios e frases de efeito (e suas subversões resultam em versos poderosos como “Terra nua é o leito do onagro”, “olha as caveiras dos nobres e da plebe, / quais foram vilões e quais os benfeitores?”). Há citações e alusões a um poema religioso chamado “Hino a Šamaš” (o deus do sol) e ao Épico de Gilgámeš. Esse movimento argumentativo que oscila entre o desejo da ação e da inação também já levou os estudiosos a compará-lo com o livro do Eclesiastes.

No entanto, como já apontou Frye sobre o gênero cômico, uma das origens do efeito cômico é a repetição, e é isso o que temos aqui. Se, ao lermos suas estrofes separadamente, fica a impressão de que o tom dos versos poderia ser tido como mais pura e seriamente filosófico, é inevitável, conforme avançamos, a sensação de que o autor não está sendo de todo sério. A cada repetição, o escravo parece menos um sábio e mais um bajulador tentando a todo custo obter os favores do seu mestre (e, né, na situação dele, quem pode culpá-lo?), o que lembra muito o estereótipo da comédia latina (uma invenção, porém, muito posterior) do seruus currens, o escravo ardiloso de comédia que vemos em Plauto e Terêncio. O próprio texto parece reconhecer isso, e caminha num crescendo – que leva à comparação ridícula e blasfema entre os deuses e cachorros e ao desespero da relatividade moral da penúltima estrofe – até culminar na piada de humor negro que encerra o poema, que eu não consigo ler sem pensar nas discussões de suicídio de Esperando Godot (no ato 1 eles pensam as possibilidades de se enforcarem no galho, aparentemente frágil, da única árvore no palco. Gogo comenta que Didi é mais pesado, então se ele se enforcar antes e o galho quebrar, Gogo vai ficar sozinho e sem galho para poder se enforcar também). E tudo isso é ancorado num problema que talvez não seja tanto diretamente ético, mas mais linguístico, na medida em que a linguagem nos dá a capacidade de justificar qualquer ação ou inação. Ainda há discussão entre estudiosos sobre qual o tom exato do poema, se solene, cínico, fanfarrão ou de fato pessimista. Em todo caso, fica a impressão do quanto é tênue a fronteira entre a sabedoria e o cômico.

Por fim, algumas informações bibliográficas: o poema foi escrito por volta de 1000 a.C. (a menção a uma adaga de ferro exclui a possibilidade de ser uma composição mais antiga, do período paleobabilônico) em acádio, a língua do Império Babilônico e principal língua da Mesopotâmia até ser substituída, mais tarde, pelo aramaico como língua franca do antigo Oriente Médio. Esquecido ao longo dos séculos, ele é redescoberto aparentemente no final do século XIX (quando o processo de deciframento da língua estava já em estágio razoavelmente avançado) em cinco manuscritos diferentes, dos quais um está quase completo, de modo que dos 86 versos do poema apenas 15 estão danificados (porém seu possível conteúdo é em parte recuperável pelo contexto). Ele foi transcrito e publicado nos círculos de especialistas por G. Reisner e E. Ebeling entre 1896 e 1919 e desde então tem sido traduzido em diversas edições, uma das mais célebres sendo a de Wilfred G. Lambert, Babylonian Wisdom Literature, de 1960 (pp. 139-149), que conta com uma introdução, transcrição (incluindo das variações) e uma tradução literal. Em 19 de novembro de 1987, saiu uma tradução poética do poema no The New York Review of Books, de autoria de ninguém menos que Joseph Brodsky, com o título ‘Slave, Come to My Service!’, com base na edição de Lambert e de James B. Pritchard. Brodsky se equivoca, porém, ao se referir ao poema como um poema sumério, mas é uma confusão compreensível. Não tinha internet nos anos 80 para esclarecer esse tipo de dúvida em cinco minutos. Neste caso, para a minha tradução, eu me baseei na de Brodsky, porque o poeta eliminou as lacunas (é tão frustrante ler poema com verso faltando) e especialmente porque ela funciona muito bem, que é o critério mais importante. No entanto, onde Brodsky se desvia demais (por exemplo, o que ele traduz como “do some evil” costuma ser interpretado pelos estudiosos como “liderar uma revolução”), eu preferi me aproximar mais das traduções acadêmicas. No tocante ao tom do poema, numa tentativa de fazer jus à sua ambiguidade entre seriedade e humor, eu procurei manter ao mesmo tempo algum grau de poeticidade (com o uso algo arcaizante do “tu”, aliterações, vocabulário) e uma oralidade à brasileira que eu acho que funcionam para esse propósito.

 

Arad mitanguranni: o Diálogo do Pessimismo
ou: um Senhor e seu Escravo

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei ao palácio!”
“Vai ao palácio, meu senhor. Vai ao palácio.
O rei ficará feliz em te ver e será benevolente”.
“Não, meu escravo. Não irei ao palácio!”
“Não vás, meu senhor. Não vás ao palácio.
Serás mandado pelo rei a alguma missão longínqua,
por estradas estranhas, montanhas hostis;
dia e noite sujeito a mazelas e dor”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Busca a água e derrama-a em minhas mãos: quero jantar”.
“Janta, meu senhor. Janta.
Comer alegra o coração. O jantar de um homem
é o jantar de seu deus, e mãos limpas fisgam o olhar de Šamaš”.
“Não, meu escravo. Não jantarei!”
“Não jantes, senhor. Não jantes.
Bebida e sede, comida e fome
nunca abandonam o homem, nem a si próprias”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei passear pelo campo”
“Isso, meu senhor, isso. Despreocupado, o caçador
tem sempre a barriga cheia, o cão de rua sempre
encontra o osso, a andorinha que migra domina a arte de fazer ninhos
o onagro encontra a relva no mais seco dos desertos”.
“Não, meu escravo, não irei passear pelo campo”.
“Não vás, meu mestre. Não te dês ao trabalho.
É sempre fugaz a sorte do caçador,
o cão de rua perde os dentes. O ninho
da andorinha que migra é enterrado pela argamassa.
Terra nua é o leito do onagro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Tenho vontade de constituir família, desejo ter filhos”.
“Bem pensado, meu senhor. Isso, tem filhos.
Quem constitui família garante o seu nome, orações póstumas o repetem”.
“Não, meu escravo. Não constituirei família, não terei filhos!”
“Não o faças, meu senhor. Não os tenhas!
Uma família é uma porta torta, sua dobradiça range.
De cada três filhos, só um é sadio; os outros dois, doentes.”
“Mas devo constituir família?” “Não, não o faças.
Quem constitui família desperdiça seu lar ancestral”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Vou ceder aos meus inimigos; calarei diante das acusações no tribunal”.
“Isso, meu senhor, isso. Cede aos inimigos;
guarda teu silêncio, meu senhor, diante das acusações”.
“Não, meu escravo! Não irei calar e não cederei!”
“Não cedas, meu senhor, e não te cales.
Mesmo que não abras a boca
impiedosos teus inimigos serão e cruéis,
além de numerosos”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo liderar uma revolução”.
“Ótimo, meu senhor. Isso, lidera a revolução.
Pois, do contrário, como tu hás de encher tua barriga?
Como poderás vestir o corpo sem revolução?”
“Não, meu escravo. De modo algum serei um revolucionário!”
“Os revolucionários acabam mortos ou cegos e esfolados vivos
ou cegos, esfolados vivos e trancados na masmorra”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero amar uma mulher”. “Ama, senhor, ama!”
Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”.
“Não, meu escravo. Não quero amar mulher nenhuma!”
“Não ames, meu senhor. Não ames.
Mulher é cilada, tocaia, fosso sem luz,
o ferro afiado de uma adaga para cortar-te a garganta no escuro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca água para lavar-me as mãos: farei oferenda ao meu deus”.
“Isso, faz oferenda, faz oferenda.
Quem sacrifica ao seu deus enche o coração de riquezas;
sente-se generoso, abre-se a sua bolsa”.
“Não, meu escravo. Não farei oferenda alguma!”
“Tem razão, meu senhor. Tem toda razão!
Treina teu deus para te seguir como um cãozinho,
com suas carências de servidão, rituais, sacrifícios”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero fazer um investimento, vou emprestar com juros”.
“Ah, sim, investe, empresta com juros.
Quem investe preserva o que tem, e seu lucro é enorme”.
“Não, meu escravo, não emprestarei, nem investirei!”
“Não invistas, meu senhor. Não emprestes.
Emprestar é como amar, e receber de volta, gerar maus filhos:
todos maldizem o dono do pão que comem.
Ficarão ressentidos e diminuirão teu lucro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo fazer uma boa ação pela minha pátria!”
“Muito bom, meu senhor, muito bom. Faz isso!
Quem faz boas ações pela pátria grava seu nome no ouro do anel de Marduk”.
“Não, meu escravo, não farei boa ação alguma pela pátria”.
“Não faças isso, meu senhor. Não te dês o trabalho.
Vai e caminha pelas ruínas antigas,
olha as caveiras dos nobres e da plebe,
quais foram vilões e quais os benfeitores?”

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Se é assim, então o que é bom?”
“Bom mesmo seria se quebrassem o meu e o teu pescoço
e depois fôssemos desovados no rio – isso sim!
Quem é tão alto que alcança os céus?
Tão amplo que abarca os infernos?”
“Se assim for, melhor eu te matar, meu escravo: prefiro que tu vás na frente”.
“E o meu senhor crê que saberias viver três dias sem mim?”

(poema mesopotâmio anônimo, introdução e tradução de Adriano Scandolara com base nas traduções de Brodsky e Lambert)

 

A pornochanchada medieval do Alfabeto de Ben Sirá

Jeremias
O profeta Jeremias, pai de Ben Sirá, representado por Michelangelo na Capela Sistina

Eu gostaria de aproveitar a série de postagens do Gontijo sobre o que ele tem chamado de uma poética da prosa para apresentar para vocês uma pequena seleção de um livrinho muito, muito bizarro produzido pela cultura judaica medieval. Se recorro a um termo claramente anacrônico como pornochanchada – e não meramente “burlesco” – para descrevê-lo é só porque de fato somente o espírito da produção cinematográfica brasileira dos anos 80/90 pode fazer jus ao nível de bobagem que encontramos no Alfabeto de Ben Sirá. Sacanagem você encontra em tudo quanto é texto medieval, dos fabliaux às Carmina Burana, mas com Ben Sirá estamos realmente em outro nível de nonsense. Mas estou me adiantando.

Antes de mais nada, quem foi Ben Sirá? Segundo o folclore judaico (e quem me cita essas coisas são fontes sérias como Aryeh Kaplan), o profeta Jeremias teria sido atacado por um bando de tarados numa casa de banho, que o forçaram a se masturbar (sim, a história já começa nesse nível). O sêmen ejaculado permaneceu numa das banheiras até que mais tarde sua filha veio banhar-se e acabou engravidando do pai. O filho a princípio se chamaria não Ben Yiermeyahu (filho de Jeremias), como deveria ser, mas Ben Zera (filho da semente), pela natureza incestuosa de seu nascimento. No entanto, o constrangimento o levou a se rebatizar como Ben Sirá (e Sirá, um superlativo de sar, “oficial”, tem o mesmo valor numerológico que o nome Jeremias). Nas tradições místicas, Ben Sirá teria sido o companheiro de Jeremias em seus estudos esotéricos (a Cabala desencoraja que se estude essas coisas sozinho). Enfim, esse é o ponto de partida. E, ah, apesar de terem o mesmo nome Ben Sirá (סירא), é importante não confundir este Ben Sirá filho de Jeremias (que teria vivido no século 6 a.C., época da queda de Jerusalém) com o Ben Sirá autor do livro deuterocanônico de Eclesiástico, que viveu no período helenístico.

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Página de um manuscrito de 1822 do Alfabeto de Ben Sirá encontrado no Irã (fonte)

O Alfabeto de Ben Sirá (Othijoth ben Sira), por sua vez, é um texto medieval anônimo, composto em hebraico e aramaico no mundo árabe entre os séculos 8 e 11 de nossa era, detalhando a vida desse personagem curioso. Ele é representado, assim como seu pai (Jer. 1:6-7), como uma criança capaz de falar de modo perfeitamente eloquente desde o berço. No entanto, o efeito que se tem é menos “criança profética” e mais, digamos, Stewie do Uma Família da Pesada. O parco enredo que temos aqui descreve como Ben Sirá já nasce sabendo falar e humilha seus professores, rapidamente dominando todos os estudos dos textos sagrados – primeiro a Torá (e ele teria dominado o Levítico, considerado o livro mais difícil da Bíblia, em um dia), depois o restante da Bíblia e toda a literatura rabínica adicional (Mishná, Talmude, agadá…). Então ele é levado, como a figura de Daniel no livro bíblico homônimo, à corte do rei da Babilônia, Nabucodonosor, onde se passam vários episódios esdrúxulos.

O livro se estrutura com um prólogo, que fala dos grandes sábios que foram concebidos sem que sua mãe se deitasse com um homem – são eles o Rabbi Pappa, o Rabbi Zera e, claro, Ben Sirá. Então, temos a narrativa de sua concepção e nascimento, e a tentativa frustrada de um rabino de alfabetizá-lo. Segue-se um trecho de poesia acróstica, em que, para cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico ele replica com um verso que começa com aquela letra (e a tréplica do rabino vem na forma de reclamações conjugais). Depois, vem a narrativa em que Nabucodonosor o leva para sua corte e da tentativa dos sábios, que o invejam, de matá-lo. Por fim, temos 22 vinhetas (uma para cada letra do alfabeto também) em que o rei tem algum tipo de dúvida ou problema, que Ben Sirá resolve engenhosamente. E, é óbvio, há sexo ou escatologia em boa parte dessas vinhetas, ainda que não em todas (tem uma ou outra mais inocente).

O estilo do texto é todo paródico de um gênero da literatura rabínica que é o agadá, narrativas folclóricas e muitas vezes de teor moral, que se diferenciam de outros textos do Midrash e do Talmude que tratam de questões teológicas e de lei. Ele faz também citações constantes de versículos bíblicos e de literatura rabínica, que parecem sobretudo surgir em momentos inadequados e completamente banais. Como, por exemplo, quando ele conversa com sua mãe, no prólogo:

“Por que me interrompes, meu filho?” sua mãe perguntou.

“Porque sabes que tenho fome e nada me dás de comer”.

“Aqui, toma meus seios. Come e bebe”.

“Não tenho qualquer desejo pelos teus seios. Vai e peneira a farinha, amassa o pão fino e pega carne gorda e vinho envelhecido – e poderás comer comigo!”

“E o que farei para comprar essas coisas?”

“Faz umas roupas e vende-as. Assim, terás cumprido o versículo, ‘Faz panos de linho fino e vende-os’ (Provérbios 31:24). E se também me sustentares, terás cumprido o versículo, ‘Muitas filhas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente!’ (Provérbios 31:29)”.

E a forma acróstica dos trechos alfabéticos também é paródica da estrutura das Lamentações, onde se pode observar que os versos começam com álef, depois bet, depois guimel, dálet, etc. Enfim, o livro inteiro é constituído assim, numa mistura de paródia, bastante erudita, de situações e estilos bíblicos e rabínicos com trocadilhos, fábulas animais à moda de Esopo, humor sexual/escatológico e nonsense. Esse teor erudito, combinado a uma falta de um enredo maior que estruture o livro (além da poética do acróstico) e indicasse algum propósito polêmico mais claro (como tem, por exemplo, um livro como o Toledot Yeshu, narrativa da Antiguidade Tardia que satiriza os Evangelhos e representa Jesus como um charlatão), é um sinal de que é muito provável que o Alfabeto tenha sido composto e circulado entre rabinos, como um tipo de piada interna.

tigela_de_encantamento
Tigela de encantamento antiga com fórmulas mágicas. Objetos como esses eram enterrados sob as casas no Antigo Oriente Médio para afastar maus espíritos.

O mais surpreendente, porém (e aqui é o ponto onde repousa talvez a maior relevância imediata de se reproduzir este texto), é que muitos de vocês já têm alguma familiaridade com uma das narrativas de Ben Sirá sem o saber. Muitos já ouviram falar da história de Lilith como primeira mulher de Adão e há quem misture essa história ainda com a confusão dela com deusas da fertilidade da Antiguidade (Ištar/Inana) e coisa assim. Pois bem, sem entrar muito em detalhes aqui, lilith (plural liloth) não é um nome próprio na cultura do período bíblico (mencionado em Isaías 34:14), mas um tipo de demônio (o que não é de se surpreender no contexto do Antigo Oriente Médio, dado que, para cada doença que você pode conceber, os babilônicos tinham um respectivo demônio associado a ela) que causa morte de crianças. Ela se torna uma figura com nome próprio de forma mais definida no período medieval (é a esposa de Samael, outro nome de Satã, na Cabala), mas o único texto que a representa como primeira mulher de Adão é o Alfabeto de Ben Sirá, que, segundo o Rabbi Geoffrey Dennis, foi redescoberto pelo público mais geral no século XIX e prontamente confundido com um texto esotérico (com certeza, resultado do furor do ímpeto ao misticismo do período). Sim, aquilo que todo adolescente já cochichou com ares conspiratórios em tom de “sabia que Adão teve uma primeira mulher que não está na Bíblia e que todo mundo esconde?” veio do equivalente narrativo, no mundo rabínico, àquelas ilustrações pornográficas e absurdas que os monges desenhavam nas margens dos manuscritos. A historinha que vem logo depois é sobre a filha flatulenta de Nabucodonosor. Sério.

arvore_manuscritoTirando a parte óbvia da sacanagem, porém, de um ponto de vista mais propriamente literário, esse amplo uso de ironia e paródia, a estrutura episódica e fragmentária (tão associada ao modernismo e pós-modernismo) e o jogo de vozes (comparável ao de seu possível contemporâneo, o livro das Mil e Uma Noites… note, aliás, o uso triplo de aspas na narrativa número 18) são elementos com óbvio apelo a quem gosta de estudar essas coisas.

Enfim, uma tradução de uma das versões do Alfabeto (a transmissão dessa obra foi acidentada, por asism dizer) está disponível, em tradução inglesa, no volume Rabbinic Fantasies: Imaginative Narratives from Hebrew Literature, organizado por David Stern e Mark Jay Mirsky e que conta ainda com diversos outros textos como o apocalipse Sefer Zerubabel e contos de Judá ibn Shabbetai e Solomon ibn Saqbel. Com o fim de divulgar e popularizar mais esse textinho, eu selecionei alguns trechos do Alfabeto, a partir da segunda parte alfabética (obviamente incluindo o trecho sobre Lilith), e os traduzi para o português com base nessa edição.

(Adriano Scandolara)

 

O Alfabeto de Ben Sirá

(excertos)

 

I. Primeiro, ele [Nabucodonosor] lhe perguntou como [Ben Sirá] havia depilado os pêlos na cabeça da lebre.

“Com uma solução de cal”, respondeu Ben Sirá.

“De que tipo?”

Ben Sirá respondeu, “Uma solução depilatória de cal, composta de cal e arsênico. Salomão utilizou sua sabedoria para inventar essa solução nos dias de tua mãe, a rainha de Sabá. Quando ela veio trazendo presentes para Salomão para observar sua sabedoria, ele a achou muito atraente e quis dormir com ela. Mas Salomão descobriu que ela era muito peluda. Ele pegou a cal e o arsênico, amassou a mão a cal com uma faca, esmagou o arsênico e misturou tudo com água, e assim fez uma solução depilatória de cal. Então ele a lambuzou com a solução e a banhou, e os pêlos caíram. Ele teve relações com ela na hora mesmo. E ela disse a Salomão, ‘Eu não acreditava nessas coisas até que eu as vi com meus próprios olhos’”.

Nabucodonosor perguntou a Ben Sirá, “Como tu sabes disso tudo?”

“Sou um profeta”, ele respondeu. “O Eterno, bendito seja, revela a mim tudo que é desconhecido”.

(…)

 

V. Logo após, o jovem filho do rei adoentou-se. Disse Nabucodonosor: “Cura meu filho. Se não o fizeres, irei matar-te”. Ben Sirá de imediatou sentou-se e escreveu um amuleto com o Santo Nome e inscreveu nele os anjos encarregados da medicina via seus nomes, formas e imagens, e via suas asas, mãos e pés. Nabucodonosor olhou para o amuleto. “O que é isso?”

“Os anjos encarregados da medicina: Snvi, Snsvi e Smnglof. Depois que Deus criou Adão, que estava só, ele disse, ‘Não é bom que o homem esteja só’ (Gênesis 2:18). Então criou uma mulher para Adão, a partir da terra, como havia criado o próprio Adão, e a chamou de Lilith. Adão e Lilith imediatamente começaram a brigar. Ela disse, ‘Eu não ficarei por baixo’, e ele disse, ‘Eu não ficarei embaixo de ti, apenas em cima. Pois és digna apenas da posição inferior, enquanto a posição superior é minha’. Lilith respondeu, ‘Somos iguais um ao outro na medida em que fomos ambos criados da terra’. Mas eles não deram ouvidos um ao outro. Quando se deu conta disso, Lilith pronunciou o Nome Inefável e saiu voando no ar. Adão pôs-se a orar diante do seu Criador: ‘soberano do universo!’ ele disse, ‘a mulher que tu me deste fugiu’. De uma vez, o Eterno, abençoado seja, mandou esses três anjos para trazê-la de volta.

“Disse o Eterno a Adão, ‘Se ela concordar em retornar, tudo bem. Senão, ela deverá permitir que cem de seus filhos morram todos os dias’. Os anjos deixaram Deus e partiram em perseguição atrás de Lilith, a quem eles tomaram no meio do mar, nas águas poderosas aonde os egípcios estavam destinados a se afogar. Eles lhe disseram as palavras de Deus, mas ela não quis retornar. Os anjos disseram, ‘Iremos afogar-te no mar’.

“‘Deixai-me!’ ela disse, ‘eu fui criada apenas para causar doença em crianças. Se a criança for menino, terei domínio sobre ele por oito dias depois do seu nascimento, e, se menina, por vinte dias’.

“Quando os anjos ouviram as palavras de Lilith, eles insistiram que ela voltasse. Mas ela jurou para eles em nome do Deus eterno e vivo: ‘Sempre que eu vir a vós ou vossos nomes ou vossas formas num amuleto, não terei qualquer poder sobre aquela criança’. Ela também concordou em permitir que cem de seus filhos morressem todos os dias. De acordo, a cada dia cem demônios perecem, e por esse mesmo motivo escrevemos o nome dos anjos nos amuletos de recém-nascidos. Quando Lilith vê os nomes, ela se lembra do juramento, e a criança se reestabelece”.

 

VI. Alguns dias depois, o rei disse a Ben Sirá, “Eu tenho uma filha que expele mil peidos a cada hora. Que tu a cures!”

Ben Sirá respondeu, “Manda-a a mim pela manhã com seus criados e eu a irei curar”. Na manhã seguinte, ela veio com seus criados. Quando Ben Sirá a viu, começou a agir como se estivesse furioso.

“Por que estás furioso?” ela lhe perguntou.

“Teu pai decretou que eu devo expelir mil peidos em sua presença amanhã e no dia seguinte. Temo que ele possa querer dar-me a morte. Ele me deu uma extensão de três dias, mas ainda assim não sei o que fazer”.

“Não te preocupes”, ela disse. “Irei eu no teu lugar e expelirei mil peidos na frente dele para nós dois”.

“Se assim for o caso”, respondeu Ben Sirá, “fica comigo aqui por três dias e sem flatulência, para que os peidos estejam prontos no terceiro dia”. Cada vez que um peido estava por vir, a filha do rei se levantava numa perna e arregalava bem os olhos, conforme Ben Sirá lhe dizia o que fazer, e ela se continha e fechava a sua “boca” devagar, até que a flatulência cessou por completo. Após três dias, nenhum peido saiu de seu traseiro. Naquele dia, Ben Sirá a levou a seu pai, dizendo “Vai e expele mil peidos para o teu pai”. Ela se levantou diante do rei, mas foi incapaz de qualquer flatulência. O rei se levantou e beijou Ben Sirá.

 

VII. Ele indagou Ben Sirá, “Por que foram criados os peidos?”

“Se não fosse pela flatulência, as pessoas teriam diarreia e defecariam em suas roupas. Quando alguém sente que está para peidar, ele vai e atende às suas necessidades, de modo que não passará pelo constrangimento de sentar-se em roupas imundas.

(…)

 

XIII. “Por que o jumento urina sobre a urina de outro jumento, e por que ele cheira seu próprio excremento?”

“Quando Deus criou todas as coisas vivas, o jumento perguntou para si: ‘Por que o cavalo, a mula e tantas outras criaturas têm alívio do labor, enquanto eu sou obrigado a trabalhar geração após geração sem descanso? Oremos ao nosso Criador para que ele nos dê alívio. Senão, pararemos de procriar’.

Os jumentos oraram, mas suas preces não foram atendidas. Deus, porém, lhes disse, ‘Quando vossa urina fluir como rios de modo que um moinho possa correr nela, e o odor de seu excremento for como o aroma das especiarias, eu vos darei vossa paga’. E é por isso que eles cheiram seus excrementos e urinam desse jeito”.

(…)

 

XV. “Por que o cão reconhece seu mestre, mas o gato não?”

“‘Quem quer que coma de algo que o rato tenha roído esquecerá o que aprendera’ (B. Horayot 13a). É certo, portanto, que o gato, que come o próprio rato, não conhecerá seu mestre”.

(…)

 

XVIII. Nabucodonosor perguntou a Ben Sirá, “Por que o corvo copula pela boca?”

“Os sábios de Israel já discutiram sobre esta questão”, respondeu Ben Sirá. “Há os que digam que, porque o corvo copulou na arca, ele foi criado errado. Outros dizem que porque ele é perverso, um ladrão e uma peste, o corvo foi feito diferente de todas as outras criaturas. Um homem instruído uma vez chegou aos sábios enquanto eles discutiam esta questão e lhes disse: ‘Darei a vós prova pelas vossas palavras.

“‘Quando Noé estava na arca, ele queria mandar o corvo para ver se as águas tinham parado, mas o corvo fugiu da face de Noé e se escondeu sob a asa da águia para que Noé não o mandasse. Eles procuraram pelo corvo e depois que o encontraram sob a asa da águia, Noé disse, “Perverso! Vai e sai da arca para ver se as águas sobre a terra diminuíram”.

“‘O corvo disse a Noé, “De todas as aves tu não pudeste encontrar ninguém além de mim?”

“‘Noé respondeu, “Eu tenho autoridade apenas para mandar os pássaros cujas inicias do seu nome dizem ay, isto é, as letras ayin (ע) e iud (י), o que só pode ser as aves chamadas orev (עורב) , ‘corvo’, e yonah (יונה), ‘pomba’”.

“‘“Então, por que mandas o corvo e não a pomba?” perguntou o corvo.

“‘“Porque há uma cidade chamada Ai,” Noé respondeu, “e seus habitantes estão destinados a matar Jair, que declarou que o corvo é inadequado para o consumo, enquanto a pomba não”.

“‘O corvo respondeu com firmeza, “O único motivo pelo qual tu me mandas é para que eu morra e tu poderás ter relações com a minha esposa. Esse é o único motivo pelo qual fizestes todas as criaturas virem na arca com seu par”.

“‘Noé imediatamente respondeu rogando uma praga contra o corvo, “Que tu sejas amaldiçoado com a coisa de que me calunias. Que tu jamais copules com tua fêmea exceto pela boca”.

“‘Todos os animais da arca responderam, “Amém!”

“‘“O corvo exclamou, “Por que tu me amaldiçoaste? Irei te processar!”

“‘Noé respondeu: “Porque és um depravado, um tolo e lanças calúnias sobre os inocentes. Coisa perversa! Eu sequer coabito com a minha esposa, que foi criada em minha imagem e semelhança e me é permitida. Por que eu deveria coabitar com a tua fêmea, que não é em minha semelhança e me é proibida também?”

“‘“Por que me chamas de depravado?” pergunta o corvo.

“‘“És realmente um depravado, a julgar por tuas palavras”, Noé respondeu. “Não sou eu quem te deu má reputação”’.

“E desde aquela época então, o corpo copula pela boca como resultado da praga de Noé.”

(…)

XXII. “Por que a águia voa perto do céu, mais alto do que todas as outras aves?”

“Quando a águia saiu da arca, a fêmea parou na frente de uma outra ave que ela quis comer. Todos os animais disseram, ‘Quem deseja comer o seu amigo está sujeito à morte’. Eles a golpearam, depenaram suas asas e a atiraram no covil do leão. Mas Deus cuidou da águia, e o leão não a devorou.

Depois de um ano, as penas da asa da águia voltaram, e ela saiu voando. Os outros pássaros se reuniram e tentaram matá-la, mas o corvo a salvou de suas mãos com sua esperteza. Então ele copulou com a águia, que concebeu e gerou um filhote de águia. É por isso que o corvo é chamado orev (עורב) – porque misturou, iyrev (עירב), seu semên pela abundância de sua promiscuidade em todas as direções. O Eterno, abençoado seja, fez sua presença pairar sobre ela para que sua criatura não fosse destruída, e ele lhe deu a força para voar mais alto do que todos os outros pássaros. A águia é portanto chamada nesher (נשר), porque Deus veio morar, hishrah (השרה), sobre ela. É por isso que a águia voa tão alto, de modo que seus inimigos jamais possam capturá-la e matá-la e fazer com isso com que uma espécie das criaturas do Eterno desapareça do mundo”.

Nabucodonosor disse a Ben Sirá, “Abençoado aquele que deu de sua sabedoria àqueles que o temem e a eles revelou assuntos profundos e ocultos”.

 

(texto anônimo medieval, tradução de Adriano Scandolara via tradução inglesa de Norman Bronznick)

Qohélet, O-que-Sabe

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(Para um breve comentário sobre Haroldo de Campos e suas incursões e abordagem sobre a tradução bíblica feita diretamente do hebraico com enfoque poético, vide meu post anterior no escamandro sobre sua tradução do Cântico dos Cânticos, clicando aqui)

Qohélet ou Cohélet (קוהלת), mais conhecido como Eclesiastes, um dos livros mais famosos da Tanakh, a Bíblia Hebraica ou Antigo Testamento, é o nome da figura que enuncia alguns dos ensinamentos mais célebres do livro, como o de que tudo é vaidade ou de que não há nada de novo sob o sol. Sua identidade, de fato, é desconhecida: Qohélet significa meramente um “pregador” ou, por via etimológica “aquele que reúne” (mais sobre isso clicando aqui), no sentido de alguém que reúne e depois fala diante de uma assembleia. O título “Eclesiastes”, por sua vez, vem do grego Ekklesiastes (Ἐκκλησιαστής, sendo que ekklesia = assembleia), que tem esse sentido também – e lembremos que a peça de Aristófanes tipicamente traduzida para o português como As Mulheres na Assembleia, A Assembléia das Mulheres ou A Revolução das Mulheres se chama em grego justamente Ekklēsiázousai (Ἐκκλησιάζουσαι). Talvez seja um comentário meio estúpido de se fazer, mas é bom lembrar que Eclesiastes não deve ser confundido com o livro chamado em português de Eclesiástico, que tem também foi escrito em hebraico (por um autor de nome Jesus ben Sirá, motivo pelo qual recebe o nome também de “Sirácida”) e tem esse sentido de “Livro da Igreja ou da Assembleia”, mas que não faz parte do cânone judaico e, por isso, ao contrário do Eclesiastes canônico, não integra a Tanakh.

O que fica subentendido pelo discurso de Qohélet sobre sua identidade, porém, é que ele seria, na verdade, ninguém menos que o próprio rei Salomão (ou alguém assumindo a sua voz como eu-lírico), uma atribuição de autoria compreensível, a julgar pelas partes em que declara coisas como “fui rei de Israel em Jerusalém” e pelas frequentes referências à sua proverbial sabedoria. Essa autoria jamais é confirmada de fato no texto (e, a bem da verdade, há indícios textuais que indicam que o texto fosse historicamente posterior ao período de vida de Salomão), mas esses detalhes parecem ser o suficiente para que a associação entre as duas figuras esteja bastante arraigada culturalmente – e um dos exemplos que mais rápido me vem à mente é a canção “How Fortunate the Man with None”, do grupo Dead Can Dance, baseado no poema “Die Ballade von den Prominenten”, de Bertold Brecht, em tradução de John Willet. Canta o vocalista Brendan Perry nesse poema musicado: “You saw sagacious Solomon / You know what came of him / To him complexities seemed plain / He cursed the hour that gave birth to him / And saw that everything was vain” (no original, “Und sah, daß alles eitel war”: “E viu que tudo era vão”).

Mas essa não é a maior estranheza do livro. Assim como o Cântico dos Cânticos, cuja autoria também é atribuída a Salomão, é peculiar por ser um poema erótico inserido no meio do cânone de textos sagrados, o Qohélet destoa por ser um poema sapiencial de tom existencialista, com laivos de estoicismo ou epicurismo gregos ou até mesmo beirando o niilismo moderno. Diz Haroldo, no texto de apresentação do seu volume Qohélet: O-que-Sabe (editora Perspectiva):

Qohélet (o Eclesiastes) é um livro estranho. A um observador moderno, viciosamente inclinado a projetar uma impertinente mirada retroativa sobre o passado – o século III a. C., época em que o livro do Pregador teria sido escrito – seu texto causa um choque. Parece um fragmento insurrecto, imbricado anacronicamente no “cânon” bíblico pelo martelo filosofante de Nietzsche, o pensador do “eterno retorno”, da “vontade do nada” e do “céu-acaso”, sobranceiramente disposto acima de todas as coisas.

Ele deixa mais claro depois o anacronismo dessa ideia (que entretém talvez justamente por ser anacrônica) e que, na verdade, seria o próprio Nietzsche “quem nos faz pensar nos eventuais precursores de Nietzsche” e prossegue comentando os pormenores filosóficos do livro, mas, de qualquer modo, a associação e a sensação de estranheza acabam por ser inevitáveis.

Sobre a tradução, a proposta do Haroldo mantém-se igual à de suas outras traduções bíblicas, priorizando o valor poético do texto, tanto no que diz respeito aos conceitos empregados quanto à sonoridade e o ritmo. Uma das soluções mais interessantes que Haroldo encontra, por exemplo, diz respeito ao famoso versículo do “tudo é vaidade”. O original diz havel havalim (הֲבֵל הֲבָלִים) e “vaidade das vaidades”, conforme consta na Vulgata (vanitas vanitatem), é uma das traduções possíveis, mas não a única. “Havel” é “vaidade”, mas é também “futilidade” (como consta na tradução de Fridlin & Godorovits), “vazio”, “vapor”, “sopro”. Sempre acho louvável – talvez como uma das maiores conquistas de um tradutor de poesia – quando um tradutor é capaz de pegar uma expressão antiga que acabou se tornando clichê, apesar da força poética que ela possa ter por si já, e conceder-lhe um novo lustro. Penso, por exemplo, nas traduções de Augusto de Campos, Paulo Leminski ou Ezra Pound do famoso poema do carpe diem, de Horácio (postadas já aqui no escamandro, ao lado de outras tantas traduções diferentes)… tendo o próprio carpe diem (literalmente “colhe o dia”, mas geralmente traduzido como “aproveita o dia”) se tornado um clichê também,  a expressão transforma-se em “curte o dia” e “pega este dia” nas mãos de Campos e Leminski, mas – o que é ainda mais ousado – é completamente omitido na versão de Pound. Daí, numa decisão não tão violenta, mas ainda assim inovadora, Haroldo, deixando mais implícita a noção de “futilidade” e “vaidade” e mantendo um jogo de aliteração (há ainda um outro som de “ha” em “hakol” (הַכֹּל), “tudo”), do havel havalim tira a imagem de uma “névoa de nadas”, “névoa-nada”.

Como da outra vez, então, compartilho a tradução de Haroldo de Campos, de tom mais poético, em companhia da tradução de enfoque mais semântico e religioso de David Godorovits e Jairo Fridlin, presente na edição da Bíblia Hebraica da editora Sêfer. Para propósitos de comparação com o original, o texto hebraico pode ser conferido clicando aqui, junto com uma tradução, verso a verso, para o inglês.

Adriano Scandolara

           

I

1. Palavras  §  de Qohélet filho de Davi  §§
rei  §  em Jerusalém

2. Névoa de nadas  §  disse O-que-Sabe  §§
névoa de nadas  §  tudo névoa-nada

3. Que proveito  §  para o homem  §§§
De todo o seu afã  §§
fadiga de afazeres  §  sob o sol

4. Geração-que-vai  §  e geração-que-vem  §§
e a terra  §  durando para sempre

5. E o sol desponta  §  e o sol se põe  §§§
E ao mesmo ponto  §§
aspira  §  de onde ele reponta

6. Vai  §  rumo ao sul  §§
e volve  §  rumo ao norte  §§§
Volve revolve  §  o vento vai  §§
e às voltas revôlto  §  o vento volta

7. Todos os rios  §  correm para o mar  §§
e o mar  §  não replena  §§§
Ao lugar  §  onde os rios  §  acorrem  §§
para lá  §  de novo  §  correm

8. Tudo tédio palavras  §§
como dizê-lo  §  em palavras  §§§
O olho não se sacia  §  de ver  §§
e o ouvido não se satura  §  de ouvir

9. Aquilo que já foi  §  é aquilo que será  §§
e aquilo que foi feito  §§  aquilo se fará  §§§
E não há nada novo  §  sob o sol

10. Vê-se algo  §  se diz eis  §  o novo  §§§
Já foi  §  era outrora  §§
fora antes de nós  §  noutras eras

11. Nenhum memento  §  dos primeiros vivos  §§§
E também dos vindouros  §  daqueles por vir?
deles não ficará  §  memória  §§
junto aos pós-vindos  §  que depois virão

12. Eu Qohélet O-que-Sabe  §  eu fui rei  §
de Israel  §  em Jerusalém

13. E do meu coração eu me dei  §
a indagar e inquirir  §  com saber  §§
sobre o todo  §  de tudo que é feito  §  sob o céu  §§§
Torpe tarefa  §  que deu Elohim  §
aos filhos do homem  § para atarefá-los

14. Eu vi  §  todos os feitos  §§
que se fazem  §  sob o sol  §§§
E eis tudo  §  névoa-nada  §  e fome-de-vento

15. O que é torto  §  não se pode indireitar  §§§
E o que é falho  §  não se pode enumerar

16. Palavras para o meu coração  §  eu as disse  §§
eis-me  §  aumentei e avultei  §  o saber  §§
muito além  §  de quantos foram antes  §
sobre Jerusalém  §§§
E por dentro de mim  §  vi no auge  §  o saber e a ciência

17. E do meu coração eu me dei  §  a saber o saber  §§
e a saber da loucura  §  e da sandice  §§§
Soube  §§  também isto  §  é vento-que-some

18. Pois  §  em muito saber  §   muito sofrer  §§§
E onde a ciência cresce  §  acresce a pena

(tradução de Haroldo de Campos)

           

1.

1 Palavras de Cohélet ben [filho de] Davi, o rei em Jerusalém. 2 Tudo é vão e fútil – diz Cohélet – Futilidade das futilidades! Sim tudo é fútil! 3 Que proveito traz ao ao homem toda sua labuta sob o sol? 4 Vai-se uma geração e vem uma outra, perdura somente a terra. 5 Nasce o Sol, depois se põe, e se apressa a voltar ao lugar onde de novo virá a nascer. 6 Segue para o sul e chega em círculo até o norte; o vento (por sua vez) gira em círculos e retorna ao lugar de onde partiu. 7 Correm todos os rios para o mar, sem entretanto preenchê-lo; fluem continuamente para o mesmo lugar. 8 Tudo é tão fastidioso e extenuante que ninguém consegue sequer descrever; não se sacia a vista com o que vê, nem o ouvido com o que escuta. 9 O que já foi voltará a ser, e o que foi feito será repetido, e nada há de novo sob o sol. 10 Há fatos perante os quais alguém poderá dizer: “Veja, trata-se de algo novo!” Isto, porém, já ocorrera tempos atrás. 11 Não há, contudo, lembrança por parte das gerações passadas, assim como não haverá lembrança por parte das gerações futuras do que agora ocorre. 12 Eu, Cohélet, fui rei de Israel em Jerusalém. 13 Com toda a minha sabedoria, apliquei meu coração e minha mente para pesquisar e inquirir sobre tudo que já foi realizado sob os céus. Esta é a pesada tarefa incumbida por Deus aos homens, para que com ela se ocupem. 14 Analisei tudo que é feito sob o sol e compreendi que tudo é vão e frustrante. 15 Não conseguimos consertar o que está errado, nem perceber o que ainda falta. 16 Disse a mim mesmo: Adquiri muita sabedoria e aumentei meu conhecimento muito acima de todos que me precederam em Jerusalém, e muita experiência teve meu coração sobre o que é sabedoria e conhecimento. 17 Ao fazê-lo, porém, conheci sabedoria e conhecimento, insensatez e loucura, e descobri que isto também é vão. 18 Pois em muita sabedoria há muita mágoa, e quem aumenta seu conhecimento incrementa também seu sofrimento.

(tradução de David Godorovits e Jairo Fridlin)