XANTO|”Não saber cantar é não ser canto?”, por José Pinto

Casem-se os poetas com a respiração do mundo
Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara), poeta cabo-verdiano

Escrito em 1942, o poema de Paul Éluard hoje conhecido pelo título ‘Liberté’ foi transportado clandestinamente de França, ocupada pelos nazis, para Inglaterra. Em 1943, o poema foi lançado por aviões aliados nos céus da Europa em guerra e refaço o exercício de imaginar o que poderia ter sentido um judeu num dos campos de concentração ao ler este texto, que habita entre os textos de elevada qualidade literária que vivem no álbum ‘I Who Cannot Sing’ da Patrícia Lino, editado em junho passado no Brasil pela Gralha Edições. Ouço-o neste instante. Enquanto nos fazem crer que vivemos agora uma guerra contra o invisível lá fora. Enquanto continuamos a assistir do lado de cá, confinados ao ecrã. A guerra contra o invisível é outra e existe antes do surto: a guerra dentro, a guerra que olha de frente o espelho. E este som dos passarinhos cá mais para os últimos mixes lembra-me que, contra a guerra que olha de frente o espelho, há a festa.

Onde tem lugar o convívio, chamamos de festa, pegando em palavras do surrealista brasileiro Sergio Lima. Imagino a poeta-performer a receber xs convidadxs, a preparar o corpo para a ação performativa de uma dj e diria Vratislav Effenberger que ‘toda experimentação nas propriedades do imaginário é colocação em jogo, sobre o tabuleiro de xadrez da existência, dos poderes profundos que tendem à exaltação da vida’. A performer dá início a um ensaio pós-drama, no qual as linguagens se encontram equitativamente e dialogam na construção de paisagens, neste caso sonoras, e ‘o segredo da beleza da flor é seu jogo de balanceios’, como escreveu Malcolm de Chazal. Os passarinhos que escuto em ‘KKA . RAQUEL NOBRE GUERRA’ lembram-me que, contra a guerra, há a experiência do amor, da poesia e da rebelião: o triângulo sagrado extra-religioso de que Breton haverá falado certa vez, como vivência possível numa coletividade.

Se, por um lado, há festa num sentido de colaboração poética, por outro lado há festa além dos poemas, que podem ser não apenas ouvidos, mas lidos também. Esse outro sentido para a festa é o canto quase coral, em que os poemas são lidos pelos respetivos autores e autoras, antes do processo de construção musical. A poeta-dj prepara-nos com um warm-up intitulado ‘INTRODUÇÃO PARA VÁRIAS VOZES’. O álbum conta com a participação, além da própria Patrícia Lino, de Angélica Freitas, Camila Assad, Cláudia R. Sampaio, Colleen Conroy, Daniel Arelli, Fernanda Magalhães Ferrari, Gregório Camilo, Guilherme Gontijo Flores, Júlia de Carvalho Hansen, Letícia Féres, Luca Argel, Marta Chaves, Miguel Cardoso, Pedro Eiras, Raquel Nobre Guerra, Ricardo Domeneck, Vasco Gato e das vozes vivas dos poetas mortos Frank O’Hara, Paul Éluard e Sylvia Plath.

Diz a poeta que não há nada que possamos inventar hoje que já não tenha sido criado. Há na poética de ‘I Who Cannot Sing’ um revivalismo da tradição de cantar o poema, afinal secular, dado que a poesia e o impulso do canto atravessam a cultura grega, por exemplo, na qual a escrita do poema sofria inclusive alterações quando era cantado em apresentações ao vivo, inscrevendo-se de forma similar na poética de performances, leituras e espetáculos de teatro contemporâneos. Enquanto a proposta para x poeta cantar o seu poema está de pé, há uma outra leitura que a acompanha, que é a leitura e a escuta que a Patrícia faz dos poemas dos autores e das autoras, entrando em diálogo ou relação dialógica com as outras vozes, antecipando a tradução intersemiótica ou adaptação da matéria textual para canção.

Nesse diálogo com os poemas e as leituras, a poeta-tradutora parece repartir a sua atenção sobretudo entre a escuta e a construção dos novos objetos, onde o tom de voz, a projeção vocal e a interpretação dxs poetas influem nas composições musicais. Os arranjos, por sua vez, resultam de colagens de sons retirados de websites de domínio público, programas profissionais de música e mixagem. Editados mais tarde ou não, a Patrícia vai articulando estes sons, beats e acordes com sons corporais ou gravados na rua e outros dos seus instrumentos, como o MIDI, o xilofone, as maracas ou o baixo. Entre ambientes sonoros e paisagens ritmadas, não me arriscarei a escrever a que género pertencem as canções, até porque o exercício de experimentação vai excedendo os seus limites, a partir da confiança da poeta de que falhará e falhará sempre melhor, acabando por criar um objeto interartístico que parece sedimentar-se a partir de um pensamento e defesa da diversidade em múltiplos sentidos.

Ora, essa defesa da diversidade, espelhada no processo de criação do álbum, marca uma voz própria, que não a das leituras e dos poemas individualmente, mas que rumoreja ao longo de todo este trabalho, como um coro a ressoar. Uma voz comprometida com a obra passível de ser construída para espelhar, uma vez mais até ao limite, o que não é dito nos interstícios do quotidiano, já que capitalistas, unha e carne com as reminiscências e práticas colonialistas de hoje, saíram da quarentena mais arrogantes e desumanos. Enquanto resplandecem à luz do dia com a máscara em pedaços, poderão ter entrado em desespero, ao ver que as minorias juntas têm uma ação muito mais transformadora no mundo? O tempo em que vivemos parece ser a metáfora e ‘I Who Cannot Sing’ releva-se da indiferença para se tornar uma possibilidade de nos reposicionarmos de encontro aos novos mecanismos de controlo que estão de facto à nossa frente.

Num outro sentido da diversidade, entre os sons e tons delicados, de suspense, da natureza, da rua, humorísticos, hostis, mais interventivos e mais intimistas, a poeta abre-nos a viagens em loops que transmitem a sensação de transes dentro de transes dentro de transes, num ciclo não circular mas em espiral, com frestas por onde caberá ao ouvinte e à ouvinte decidir perder-se. O que poderá encontrar? Em ‘MANHÃ SEGUINTE . MIGUEL CARDOSO’, a Patrícia pinta um amanhecer de notas musicais para que Miguel Cardoso comece a ler ‘As manhãs seguintes / vêem-se de cima’. Em ‘JÁ NADA É COMO SOÍA . PEDRO EIRAS’, a batida tensa adverte que ‘Já nada é como soía / ainda nem há cinco minutos, / antes de todas as coisas desvalorizarem / subitamente’. A tonalidade grave e entrópica com que começa ‘TO DIE IS AN ART . SYLVIA PLATH’ ganha em certo momento a força que respira do vitalismo do texto, lido na própria e hipnótica voz da poeta.

J’ÉCRIS TON NOM . PAUL ÉLUARD’ imersa numa batida assertiva e anunciadora que vai crescendo ao longo da canção até culminar nos versos finais ‘Et par le pouvoir d’un mot / Je recommence ma vie / Je suis né pour te connaître / Pour te nommer // Liberté’. Em tradução livre: ‘E pelo poder de uma palavra / Recomeço a minha vida / Nasci para conhecer-te / Para nomear-te // Liberdade’. Porventura a Patrícia poderá querer anunciar ao que veio e porque está aqui? E pelo que estaríamos nós aqui? Que seria do canto – entenda-se agora canto poético – sem o ser, como tanto procura Rilke na sua obra literária, enlaçada à vida quanto o fruto à árvore e a criatura ao sopro criador? Não escreveu ele nas Elegias de Duíno que ‘Aqui é o tempo do dizível, aqui a sua pátria’ e ‘Depois da pátria / primeira, é-lhe a segunda híbrida e vento’? Possa Rilke ter encontrado uma resposta à sua inquietação no verso ‘Celebrar, isso mesmo! Ser destinado a celebrar’, d’Os Sonetos a Orfeu. Possa a Patrícia ter encontrado respostas nesta festa, em que é anfitriã, poeta, performer e tradutora.

Não haverá, suponho, em ‘I Who Cannot Sing’ um programa revolucionário em curso. Antes, uma interpretação de sentido livre e amplo do que poesia significa, no criar, fazendo, etimologicamente falando. Mesmo que a Patrícia não saiba cantar, é a falha que se entreabre ao longo do álbum e vai revelando neste novo objeto uma experiência de presença corporal e espiritual que Octavio Paz designa presença amada. Resultado de uma poética em que nenhuma linguagem artística procura impor-se a, mas jogar com outras linguagens, em pé de igualdade no que respeita à criação de sentidos, explorando também a poesia no território da web, no qual o álbum está acessível a toda a gente e inclui os materiais em separado. Isto é, inclui o álbum, os textos e os vídeo poemas, possibilitando que essas diferentes linguagens correspondam a diferentes sensibilidades recetivas do público. Em plena guerra que olha de frente o espelho, estes poemas lançados para dentro das redes do ciberespaço, olhos nos olhos.

José Pinto

XANTO | A teoria democrática do Mini-Big Bang: 33 rotações, de Luca Argel, por Patrícia Lino

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33.
Cristo e Alexandre, O Magno morreram aos 33 anos. O Rei David reinou durante 33 anos em Jerusalém. Jacob tinha 33 filhos. O Livro Tibetano dos Mortos fala dos 33 céus governados por Indra e dos 33 céus governados por Mara. Os deuses védicos são 33. 33 é, segundo a escala de Newton, a temperatura a que a água ferve. Em código binário, 33 corresponde a 100001. Cf. Paralelo 33, Harry S. Truman & John F. Kennedy. O número 33 representa o magnetismo. O arsénio, que é uma substância letal, é qualificado segundo o número atómico 33 (33 protões e 33 eletrões). Há 33 voltas completas na sequência do ADN humano. Cada um(a) de nós tem 33 vértebras no corpo e cada “3” do número 33 pode ser visto como um triplo, assim como um triângulo tem três lados: 3+3+3=9. 9, como os 9 graus que simbolizavam a reentrada no útero para que, após três vezes três meses de gestação (9), o candidato renascesse no mundo da consciência espiritual. Cf. Templos de Atlântida.

O LP, abreviatura do inglês Long Play (conhecido na indústria como Twelve inches ou Doze polegadas), é um disco com 30 cm de diâmetro que toca a 33 1/3 rotações por minuto. O formato LP era utilizado, regra geral, para a comercialização de álbuns completos, antologias ou reuniões musicais.

Rotação.
Existem vários tipos de rotação.

O planeta Terra gira ao redor do seu próprio eixo. O movimento anti-horário, de oeste para leste, dura aproximadamente 23 horas, 56 minutos, 4 segundos e 9 centésimos. A delimitação dos dias e das noites resulta da iluminação progressiva (concordante com o próprio movimento de rotação) de várias áreas geográficas do mesmo planeta (correspondente ao objeto tridimensional sólido-rotador-euclidiano).

Já as diferentes partes do objeto tridimensional gasoso-líquido-rotador giram, por sua vez, diferencialmente (a cada parte do objeto corresponde uma velocidade angular distinta).

Matematicamente, apesar de a isometria não resumir-se ao movimento rotacional, a proposta é essencialmente isométrica.

 

O que separa a rotação do movimento circular é o facto de o movimento circular acompanhar o percurso imaginário do dedo indicador sobre a mesa e a rotação exigir ao dedo indicador que se revolva sobre si mesmo a partir de um ponto.

O movimento circular aproxima-se do processo do pensamento: partir do início conduz ao fim.

A rotação é o questionamento giratório ou a questão giratória em si. Questionar ou entender implica revolver-se sobre si mesmo.

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33 poemas, que partem da rotação sobre si mesmos, exigem a quem lê o mesmo movimento giratório. Leitor e leitora têm de colocar-se dentro do espaço filosófico de uma linguagem menos clara, própria de quem começou a questionar. Há, aliás, certas perguntas que surgirão ao entrar nesse mesmo espaço: qual é a base do questionamento? Serve, este questionamento, de algo? Até quando dura o questionamento? Qual é o tom desta linguagem?

Uma linguagem menos clara não é sinônimo de caos, perda de significado ou desentendimento. No caso dos 33 poemas de Luca Argel, ela não é sequer sinônimo da quebra das regras gramaticais, sintáticas ou semânticas. A quebra é temática, porque o questionamento parte do minúsculo. E precisamente porque o minúsculo é a base do poema, a rotação é sempre metonímica.

 

SUSIE AND THE SAILOR

você compra caixas de sorvete de morango
no meio do dia
só para usar as colherinhas de plástico
que eles deixam na porta de saída
dos supermercados?

 

A mesma quebra temática faz-se pela amplificação da natureza ideológica (das ideias) que, no contexto das perguntas finais da poesia ou da filosofia, circunda e absorve o próprio questionamento — hermético, abstrato, intelectual.

O hermetismo, a base abstrata e o caráter intelectual do poema giratório partem de uma estratégia aparentemente contraditória; são o resultado da indagação concreta e concretizada a partir das coisas. O questionamento das coisas, rotativo e musical, é o questionamento de quem, em primeiro lugar, pergunta e tenta responder.

 

UMA VERDADE SOBRE OS RAIOS

de todas as virtudes humanas, a sabedoria deve ser, de longe,
a mais superestimada.
diz-se que ela é uma coisa feita de todos os erros que cometemos e dos erros dos outros.
mas isto é mentira. a sabedoria é feita apenas de massa fresca
e azeitonas.

isto é um segredo muito bem guardado, mas estou disposto
a dividi-lo convosco.
é como descobrir que um raio na verdade nasce de um ponto na terra
e não no céu.
o esforço para ser sábio
é como um adulto tentando com muita perícia e concentração imitar
um desenho de criança.

 

Às vezes humorística, às vezes terna, a mesma quebra conteudística abraça o recurso à paródia. Metonímico e metafórico, o exercício paródico parte do interesse pelo minúsculo (a azeitona) e conduz à oposição natural entre o canônico e o mundano. Contrapor os dois não significa, porém, apostar na distância conceptual que há entre eles, mas na tonalidade e grau de importância que — tão-só socialmente — os envolvem e definem.  Qualquer definição é limitadora.

 

O NÚMERO ZERO

Foi o último (e não o primeiro)
a ser inventado.

Homero, por exemplo, escreveu tudo o que escreveu
sem tê-lo jamais conhecido.

E você aí reclamando
do barulho do ar-condicionado.

 

No universo minúsculo do poema giratório, construído a partir de rotações metafísicas mundanas, Homero e o ar condicionado partilham o mesmo espaço. E não só: nenhum deles, elementos de uma comparação humorística que efetivamente resulta, ganha evidência sobre o outro na composição. A ausência de tal centralidade — onde Homero ganharia facilmente ao ar condicionado — faz-se a partir de dois movimentos de valor: 1. Homero é tão insignificante quanto o ar condicionado. 2. O ar condicionado é tão fundamental quanto Homero.

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Despretensioso, o universo minúsculo reconhece ser minúsculo e a existência de outros universos tão minúsculos como ele. A teoria democrática do Mini-Big Bang.

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A diversidade interdisciplinar das leituras que estão por detrás dos poemas é outra das inovações de 33 Rotações e muito nos diz sobre a peculiaridade do trabalho de Luca Argel no contexto da poesia brasileira contemporânea. O interesse claro pelas referências cinematográficas revela não só a necessidade em transpor a visualidade do ecrã para o poema, mas em, longe do ecrã, preservar a independência do texto. Por outras palavras, a referência cinematográfica não segura o poema; amplifica-o. E o poema não depende da referência para ficar em pé; amplifica-a.

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Cada rotação corresponde a um universo minúsculo, onde, sucessivamente, cada um dos universos se encaixa e consolida dentro do universo seguinte. Os poemas formam-se à luz deste raciocínio. O minúsculo não pede, além disso, acréscimos, pois há nesta releitura do mundo um grande sentido de ética ou a grande crítica à falta de um sentido de ética. O poema giratório é, por partir em primeiro lugar de um exercício de empatia, inclusivo, corrosivo e atento (cf. “The act of Killing — Joshua Oppenheimer [2012]”). Ensina-nos que não há um espaço total de conforto; e se o há no tempo, ele é sempre questionável a partir do espaço do outro. Rotar a partir da inquietação e da insuficiência implica não parar de rotar. 33, 66, 99, 132 ou 165 vezes (cf. “Por que lês tantos livros?”).

§

 

Patrícia Lino (Porto, 1990) ensina na Universidade da Califórnia, Santa Barbara e é estudante do Doutoramento em Literatura Lusófona no Departamento de Espanhol e Português da mesma instituição. Licenciada em Clássicas e Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes — Literaturas de Expressão Portuguesa, escreveu a tese intitulada e então é verdade: então a vida não passa disto. Manoel de Barros e o Círculo dos três movimentos com destino ao Homem-Árvore (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013). Tem artigos, ensaios, poemas e ilustrações publicados em Portugal, no Brasil e em Espanha.

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Tal Nitzán

tal nitzán é uma poeta, editora & tradutora (sobretudo de literatura hispânica para o hebraico) israelense nascida em jafa; já viveu em buenos aires, bogotá & nova york, para então se estabelecer em tel aviv. até o momento, lançou 5 livros de poesia: Doméstica (2002, prêmio do ministério da cultura para livro de estreia), Uma noite comum (2006, prêmio da associação de editores de israel), Café soleil bleu (2007), A primeira a esquecer (2009, venceu o concurso da sociedade de artistas e escritores) e Olhar a mesma nuvem duas vezes (2012). sua poesia já foi traduzida para mais de 20 idiomas, tais como castelhano, francês, italiano, lituano, português &c.

o pequeno livro O ponto da ternura (2013, lumme & artes vertentes) uma antologia de 40 poemas tirados de 4 livros da autora, foi majoritariamente traduzido por moacir amancio, mas também conta com versões realizadas por maria teresa mota, flavio britto, maria joão cantinho, luiz gustavo carvalho, lucar argel & a própria tal nitzán (sempre como parceira de algum lusófono). claro que não sou capaz de contrastar original & tradução, mas, como vocês podem conferir logo abaixo, elas têm impacto, a poesia de nitzán nos atinge em português. comento aqui os 4 poemas que selecionei para o post.

penso que a força da poesia de tal nitzán reside no estreitamento entre o espaço público & o privado, principalmente porque ela escreve no & para o contexto em que vive, com os constantes conflitos entre judeus & palestinos — & a desigualdade óbvia de forças entre esses dois povos. essa potência crítica está clara já em títulos de poemas como “khan yunis” (um subúrbio de gaza), ou no desenvolvimento de “tishrê” (trata-se do primeiro mês do calendário hebraico, quando se realiza o Iom haQipurim, dia do perdão).

em “História curta”, a espera pela redenção — expressa pela angústia que aperta traqueia e peito — se perde diante dos retornos infinitos do mal, numa espécie de ciclo de carmas representados pelo cotidiano de formigas, queimaduras & cortes de faca na cozinha (a banalidade do cotidiano, inversamente, atinge o cerne do mal). na última estrofe, com dois símiles, atinge o ponto: o lixo da construção num monte de detritos soa como a chuva; os gemidos soa como gemido; em resumo, o segundo símile não é símile de nada — o gemido não se compara a outra coisa que o alivie como imagem, mas nos fere diretamente. daí o desejo de uma desgraça para acabar com todas as desgraças, porque o ciclo da violência não terminará num declínio suave em nome do bem.

no entanto, em poemas como ”Graça”, a fusão entre vida pública & privada é ainda mais violenta: vemos o fracasso de um tu (o leitor, a poeta, o estado – não há clareza) em sanar a fome do pobre, as desgraças contínuas de uma vida de guerras (reparem como os imperativos negativos evocam os dez mandamentos agora pelo viés da impotência diante do mal), que assim só pode retornar ao lar — na estrofe de um só verso, ponto de virada do poema — em busca do afeto possível, representado na imagem de um gato amarelo, que é o dono da casa. esse retorno ao afeto possível, entretanto, não é mero fracasso, porque é talvez ali que se inicie um ponto de ternura que reverta a lógica do massacre.

é provável que essa esperança no amor/afeto, como máquina de reversão/compensação do mal histórico & cotidiano. é bem o que lemos em “Assim”, quando em contraposição à alegria de um gato ou de crianças (incapazes de saber “como a dor ataca”), surge a figura da poeta que permanece como fiel aluna de piano, “pela música, ou pela fragilidade”, alguém que assim preserva o amor em tempos de alienação & guerra: há um clima de persistência na derrota, como o de alguém que se apega a isso como a uma tábua de salvação (se lembramos de “Alguns gostam de poesia”, da polonesa wislawa szymborska): é preciso preservar o amor, mesmo morto.

não é à toa, portanto, que nitzán escreve poemas amorosos (ou que se permitem à leitura como poemas de amor) que revigoram nossa tradição. é o caso, por exemplo, de “Tesouro”. nos primeiros versos, temos uma série de ataques, em crescendo: no inverno, um habitante do jardim (do éden? um simples animal? um palestino?) tem sua pele arrancada, um do grupo “não verá o dia” para dar calor a outro ser; em seguida, numa cena primaveril, vemos molotovs incendiando casas assinaladas (aqui os sentidos são menos equívocos); por fim, surge a poeta buscando se aninhar no corpo amado, “como um menino se abriga no pé de morango”. é uma comparação inusitada: que abrigo um minúsculo pé de morango poderia oferecer, além de seu alimento? trata-se, então, de um abrigo frágil, ameaçado, de quem não quer “ver nuvens de veneno e de ocaso”. ao fim desse cenário de perdas, resta o casal que se deseja a sobrevivência pela pobreza já anunciada, sem pele, sem casas, sem abrigos: ser um tesouro oculto contra a mão deles, contra o saber deles. & quem são eles? não haverá resposta simples.

guilherme gontijo flores

ps: vocês encontram mais poemas de nitzán em português aqui & aqui.

ps 2: convém lembrar que a poeta também é ativista engajada pela paz entre israel & palestina & já organizou a antologia Com caneta de ferro: poesia de protesto israelense 1984 – 2004, reunindo textos contra a invasão de território palestino por israel. há uma entrevista em português sobre o assunto aqui.

ps 3: aqui uma lista de alguns dos autores já traduzidos por nitzán: borges, cortázar, garcía márquez, antonio machado, lorca, onetti, neruda, paz, pavese, pizarnik, vallejo, vargas llosa, &c.

* * *

História curta

Entre nós já não há quem se lembre
há quanto tempo esperamos
pela onda branca e cega que apagará o
que basta lembrar para que volte
e nos apertar o peito de manhã
e a traqueia à noite.

Porque o enxame de formigas repelido
volta a enegrecer a nossa casa, e a água fervente
das xícaras de porcelana atinge nossos rostos,
e facas, enjoadas da carne dos morangos,
agora procuram os dedos.

Quando se acalmarão os pedaços de papel que
circulam pelo ar, se aquietarão
no pó inúteis farrapos de sortilégio?

O que soava como chuva era lixo da construção
jogado num monte de detritos,
o que soava como um gemido era um gemido.
há tempos precisamos de uma nova desgraça
para acabar com o que sobrou da nossa desgraça.

(trad. moacir amancio)

§

Graça

O insulto da fome ao pobre tu não aplacarás
e o desvelo do vingador tu não aclamarás
e a casa a ser demolida tu não protegerás com teu corpo
e o carrinho da bebê impulsionado ao céus por um redemoinho
tu não apanharás nem baixarás suavemente
e o reino do mal tu não expulsarás.

volta-te então para sua casa

para aquele que te ama
para o único que é teu
para o apelo amarelo nos seus olhos estreitos
e enterra o teu rosto em seu pelo.

Uma carícia
para um gato
no mundo

(trad. luca argel & tal nitzán)

§

Tesouro

No inverno os guardas arrancaram o cobertor da
pele dos habitantes do jardim. Um deles não verá o dia.

Na primavera foram lançadas garrafas cegas
nas casas assinaladas, que se incendiaram.

À noite busquei refúgio em teu corpo
como um menino se abriga no pé de morango.

Ouvir somente a tua respiração
apoiar-me em ti da cabeça aos pés e por um instante

não ver nuvens de veneno e de ocaso
acumulando-se pesadas.

Que mais direi.

Que és na minha pobreza o tesouro oculto
que a mão deles não alcançará.

Que eu seja na tua pobreza o tesouro oculto
que o saber deles não alcançará.

(trad. moacir amancio)

§

Assim

O gato escapando em um perfeito arco
sobre a cerca, as crianças, rindo atrás do muro,
não saberão como a dor ataca
como uma voz que incessantemente lamentava,
e de repente é ouvida.
Que brava paciência
teve o frágil professor de piano, como,
quando os demais deixaram um por um,
olhar para baixo, eu permaneci a última
pela música, ou pela fragilidade,
as mãos ainda apertam o livro
quando os olhos se fecham,
assim deve-se preservar o amor
porque, como uma estrela, ele nos abriga nas noites
mesmo morto.

(trad. luiz gustavo carvalho & tal nitzán)