D.H. Lawrence – Mystic (tradução de Lucas Haas Cordeiro)

O poema Mystic faz parte do livro Snake and other poems. Além da curiosa temática sobre animais, Lawrence explora a mística como tema central em vários pontos do livro. Trata da experiência cotidiana que, tornada transcendente por certa disposição de espírito específica – leia-se profunda e expansiva -, reencontra um elemento de religiosidade que vai além dos dogmas e das palavras, porque sustenta-se na polivalência do absurdo, naquilo que não incorre na linguagem, que sempre falha. Mesmo assim, Lawrence carrega seus poemas, às vezes, de um humor refinado, quando não cruento e simplório, de modo que os opostos se encontram em um mesmo verso, e a experiência se repete na máxima de um misticismo do incompleto.

Lucas Haas Cordeiro

Mística

Eles chamam a experiência dos sentidos de mística, quando a experiência é consciente.

Assim, uma maçã é mística quando eu degusto

o verão e a neve, o caos selvagem da terra

e a insistência do sol.

Eu sinto todas essas coisas em uma boa maçã.

Ainda que certas maçãs saibam apenas à água, úmido e azedo,

e outras a um excesso de sol, doce salobro

como a água da lagoa que recebe sol em demasia.

Se eu digo que sinto tantas coisas em uma simples maçã,

me chamam de místico, ou seja, mentiroso.

A única forma de comer uma maçã é enfiando-a goela abaixo como um porco

e não saber a nada

do que seja real.

Mas se eu como uma maçã, eu gosto de degustá-la com todos os meus sentidos despertos.

Enfiá-la goela abaixo como um porco é o que faz a terra aos cadáveres.

Mystic

They call all experience of the senses mystic, when the experience is

considered.

So an apple becomes mystic when I taste in it

the summer and the snows, the wild welter of earth

and the insistence of the sun.

All of which things I can surely taste in a good apple.

Though some apples taste preponderantly of water, wet and sour

and some of too much sun, brackish sweet

like lagoon water, that has been too much sunned.

If I say I taste these things in an apple, I am called mystic, which

means a liar.

The only way to eat an apple is to hog it down like a pig

and taste nothing

that is real.

But if I eat an apple, I like to eat it with all my senses awake.

Hogging it down I call the feeding of corpses.

D.H. Lawrence – Serpente

LawrenceDavid Herbert Lawrence (1885 – 1930), ou D. H. Lawrence, como é mais conhecido, foi um importante romancista, dramaturgo, poeta e crítico literário do modernismo inglês. Apesar de mais conhecido por seus romances, como O Amante de Lady Chatterley ou A Virgem e o Cigano, Lawrence foi autor de cerca de 800 poemas, organizados em 12 volumes, fora as antologias. Até o seu segundo volume, Amores (1916), ele escrevia com metro e rima, mas passa a adotar o verso livre whitmaniano a partir do terceiro livro, Look! We have come through! (1917).

O poema “Snake”, que publicamos abaixo, escrito em Taormina e publicado em seu volume Birds, Beasts and Flowers (1923), já recebeu tradução de Leonardo Fróes, sob o nome de “Cobra”, publicado em 1985. Jorge Wanderley traduziu o poema sob o título “Serpente”, em 1993. Em 1991, Aíla de Oliveira Gomes publicou, em “Alguma poesia”, o mesmo poema, com o nome de “A serpente”.

A tradução que segue é de Lucas Haas Cordeiro, traduzida em meados de 2012.

Bernardo Lins Brandão

 

Serpente

Uma serpente surgiu em minha tina d’água,

Em um dia muito, muito quente, e eu com pijamas de verão,

Para ali s’embevecer.

 

Na sombra profunda, o singular aroma, de uma gigantesca árvore de alfarrobas,

Eu descia os degraus, e comigo a ânfora,

E precisei esperar, em pé esperando, porque ali estava ela na tina à minha frente.

Ela descendeu de uma fissura no muro-da-terra na obscuridade

E trilhou a sua indolência marrom-amarelada de ventre-sutil na direção das profundezas, através do limiar da pedra, que era a tina,

E descansou a sua garganta por sobre o leito da pedra,

E onde a água gotejava da torneira, em ínfima clareza,

Ela bebeu com sua boca linear,

Suavemente bebeu através das gengivas, para dentro de seu corpo comprido e vagaroso,

Silenciosamente.

 

Havia alguém em minha frente na minha tina d’água,

E eu, como um outro, à espera.

 

Ela alçou a cabeça do embevecimento, como faz o gado,

E olhou para mim vagamente, como faz o gado que embevece,

E tremeluziu a língua bifurcada em seus lábios, e meditou por um momento.

E inclinou-se e embeveceu-se ainda mais,

Suas cores do marrom da terra, do dourado da terra das vísceras flamejantes da terra

Em um dia siciliano de julho, quando Etna fumava.

 

A voz da minha educação enunciou que

Eu precisava matá-la,

Porquanto na Sicília as cobras negras negras são inocentes, e as douradas venenosas.

 

E as vozes em mim disseram, Se tu fosses um homem

Tomarias para ti um graveto e quebranta-la-ia, e acabaria com isto.

 

Mas deveria eu confessar que me afeiçoeei a ela,

Que exultei a sua tão tranquila presença, a embevecer-se em minha tina d’água

E a ir-se embora em paz, pacificada, sem jamais agradecer-me,

Para dentro das vísceras flamejantes da terra?

 

Foi covardia, o não ousar matá-la?

Foi perversão, o desejo de comunicar-me?

Foi por humildade a honradez?

Eu realmente me senti honrado.

 

E ainda assim aquelas vozes:

Se não estivesses com medo, mata-la-ia!

 

E eu verdadeiramente temia, eu estava incrivelmente  assutado,

E por isso mesmo, ainda mais honrado

Por ela desejar a minha hospitalidade

De através da porta sombria dos segredos da terra.

 

Ela embeveceu-se o bastante

E soergueu a cabeça, oniricamente, como um bêbedo,

E tremeluziu a língua como uma noite bifurcada pelos ares, tão negra,

Parecendo lamber-se os lábios,

E olhou ao redor como um deus, invisível no ar,

E vagarosamente virou a cabeça,

E vagarosa, vagarosamente, três vezes onírica

Evocou o traçado de seu lento comprimento a curvar-se em rodopios

A escalar a margem esfacelada das faces do muro.

 

E à medida em que ela instigava as faces para dentro do buraco mais terrível,

E à medida em que ela lentamente ascendia, abreviando viboramente os ombros, imiscuindo-se nas profundezas,

Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra a sua retirada para dentro do nefasto buraco negro,

Deliberadamente avançando em direção à escuridão, e vagarosamente levando a si mesma consigo,

Dominou-me, agora que encarava-me pela superfície oposta.

 

Eu olhei ao redor, livrei-me da ânfora,

Peguei uma tora grosseira

E arremessei-a dentro da tina d’água com um estrondo.

 

Pensei que não a tivesse acertado;

Mas de repente aquela parte da serpente que ficara para trás convulsionou com indigna prontidão,

Estorcendo-se como um raio, e esvaeceu

Dentro do buraco negro, a fissura labial da terra na fronte do muro,

O qual, na intensidade do meio-dia, eu fiquei a contemplar.

 

E imediatamente arrependi-me.

Pensei em quão insignificante, quão vulgar, um ato tão mesquinho!

Desprezei a mim mesmo e às vozes de minha maldita educação humana.

 

E pensei no albatroz,

E desejei que ela retornasse, a minha serpente.

 

Porque ela era como um rei, aos meus olhos,

Como um rei no exílio, destronado no submundo,

Prestes a ser coroado novamente.

 

E então, eu perdi a minha chance com um dos soberanos

Da vida.

E eu tinha algo a expiar:

A minha mesquinhez.

 

Snake

A snake came to my water-trough

On a hot, hot day, and I in pyjamas for the heat,

To drink there.

 

In the deep, strange-scented shade of the great dark carob tree

I came down the steps with my pitcher

And must wait, must stand and wait, for there he was at the trough before me.

He reached down from a fissure in the earth-wall in the gloom

And trailed his yellow-brown slackness soft-bellied down, over the edge of the stone trough

And rested his throat upon the stone bottom,

And where the water had dripped from the tap, in a small clearness,

He sipped with his straight mouth,

Softly drank through his straight gums, into his slack long body,

Silently.

 

Someone was before me at my water-trough,

And I, like a second-comer, waiting.

 

He lifted his head from his drinking, as cattle do,

And looked at me vaguely, as drinking cattle do,

And flickered his two-forked tongue from his lips, and mused a moment,

And stooped and drank a little more,

Being earth-brown, earth-golden from the burning bowels of the earth

On the day of Sicilian July, with Etna smoking.

 

The voice of my education said to me

He must be killed,

For in Sicily the black, black snakes are innocent, the gold are venomous.

 

And voices in me said, if you were a man

You would take a stick and break him now, and finish him off.

 

But must I confess how I liked him,

How glad I was he had come like a guest in quiet, to drink at my water-trough

And depart peaceful, pacified, and thankless,

Into the burning bowels of this earth ?

 

Was it cowardice, that I dared not kill him ?

Was it perversity, that I longed to talk to him ?

Was it humility, to feel so honoured ?

I felt so honoured.

 

And yet those voices :

If you were not afraid, you would kill him !

 

And truly I was afraid, I was most afraid,

But even so, honoured still more

That he should seek my hospitality

From out the dark door of the secret earth.

 

He drank enough

And lifted his head, dreamily, as one who has drunken,

And flickered his tongue like a forked night on the air, so black,

Seeming to lick his lips,

And looked around like a god, unseeing, into the air,

And slowly turned his head,

And slowly, very slowly, as if thrice adream,

Proceeded to draw his slow length curving round

And climb again the broken bank of my wall-face.

 

And as he put his head into that dreadful hole,

And as he slowly drew up, snake-easing his shoulders, and entered farther,

A sort of horror, a sort of protest against his withdrawing into that horrid black hole,

Deliberately going into the blackness, and slowly drawing himself after,

Overcame me now his back was turned.

 

I looked round, I put down my pitcher,

I picked up a clumsy log

And threw it at the water-trough with a clatter.

 

I think it did not hit him,

But suddenly that part of him that was left behind convulsed in undignified haste,

Writhed like lightning, and was gone

Into the black hole, the earth-lipped fissure in the wall-front,

At which, in the intense still noon, I stared with fascination.

 

And immediately I regretted it.

I thought how paltry, how vulgar, what a mean act !

I despised myself and the voices of my accursed human education.

 

And I thought of the albatross,

And I wished he would come back, my snake.

 

For he seemed to me again like a king,

Like a king in exile, uncrowned in the underworld,

Now due to be crowned again.

 

And so, I missed my chance with one of the lords

Of life.

And I have something to expiate :

A pettiness.

 

(poema de D. H. Lawrence, tradução de Lucas Haas Cordeiro)

rumi

O sufismo é uma tradição ambiguamente além e aquém de todas as religiões. Não se trata de ceticismo – é, na verdade, a humilde posição de quem aceita a transcendência acima de qualquer fórmula. Nesse sentido, Rumi foi sufi, mas também dervixe, muçulmano, cristão e judeu. E nada disso.

Sua poesia está impregnada de contradições, que se revelam em fábulas amiúde salpicadas com acontecimentos de sua própria história. Rumi não escreve por escrever, ele endereça-se ao Amigo, sujeito-receptáculo de todo o amor, que transborda em uma versificação singela, audaz, profunda e inconsequente.

Sua leitura, assim como sua tradução, demandam um trabalho devocional. Não é à toa que seus textos tenham se proliferado nas mais diversas línguas, sob a pena dos mais diversos tradutores. Entre eles, destacam-se dois estudiosos, Coleman Barks e R. A. Nicholson. O primeiro produz um texto peculiar, transmutando habilmente a poesia oral do século XIII em poesia americana contemporânea. O segundo, acadêmico por natureza, busca nos transmitir um texto mais próximo ao original.

Abaixo, sob minha versificação, seguem quatro poemas de Rumi, o primeiro traduzido de R. A. Nicholson e os outros três de Coleman Barks.

 

Lucas Haas Cordeiro

 

Poema I         

Se tu és amante do Amor e procura-o sempre,

Deves cortar a garganta do pudor com um punhal afiado.

Saibas que a reputação é um grande entrave no caminho;

Estas palavras são desinteressadas: receba-as com a mente pura.

Por que razões o louco obrou a loucura em formas múltiplas,

E o selvagem eleito ostentou múltiplos artífices?

E então ele veste túnica, sobrepuja montanhas,

Sorve veneno, e escolhe a morte.

Se a aranha consegue capturar presas tão grandes,

Atenta-te às realizações do ardil de Meu Deus Supremo!

Se até o amor do rosto de Layla era imensamente valioso,

O que acontecerá quando “Ele levar o Seu servo à noite”?

Não conheces os dīwāns de Waisa e Ramin?

Não leste os contos de Wāmiq e ‘Adrā?

Tu recolhes as tuas vestimentas com medo de que a água embeba-as:

Em verdade necessitas no oceano mil vezes mergulhar.

O caminho do Amor é todo humildade e embriaguez:

A torrente descende: como haveria de ascender?

Oh Mestre, serás como o bisel no anel dos amantes

Se fores escravo do bisel.

Assim como dos céus escrava é a terra.

Assim como do espírito escravo é o corpo.

Vem, fala, o que perde a terra com este laço?

Que bondade faltou à razão para com os membros do corpo?

Não faz sentido, meu filho, tocar o tambor debaixo de uma coberta;

Como um homem de coragem, tu deves cravar a tua bandeira no meio do deserto.

Escuta, com o ouvido da alma, no vazio os sons inumeráveis

Da cúpula virente, a elevar-se dos lamentos arrebatados de amantes.

Quando o atilho de teu manto soltar-se em virtude da intoxicação do amor,

Contemplarás o triunfo do paraíso e o arrebatamento de Órion!

Das alturas ao baixio este mundo é perturbado

Pelo amor, que por sua vez é depurado de toda altura e baixio!

Quando o sol alevanta-se, para onde vai a noite?

Quando o júbilo da recompensa adveio, para onde a aflição foi reservada?

Estou silente. Fala tu, Oh alma da alma da alma,

Desde o desejo por cuja face todos os átomos fizeram-se enunciar.

 

 

QUIETUDE

 

Imerso neste novo amor, a morte.

O teu caminho começa do outro lado.

Torna-te o céu.

Pega um machado e vai até a parede da prisão.

Foge.

Sai caminhando como se fosses apenas nascido nas cores.

Agora.

Estás coberto por uma espessa nuvem.

Desliza para o lado. Morre,

e fica quieto. A quietude é o sinal mais seguro

de que estás morto.

A tua antiga vida era um correr desvairado

do silêncio.

 

A silente lua cheia despontou agora.

 

 

 

QUEM DIZ PALAVRAS COM A MINHA BOCA?

 

O dia todo eu penso nisso, mas é só de noite que eu digo.

De onde eu vim, e o que eu deveria estar fazendo?

Eu não faço ideia.

A minha alma é de algum outro lugar, eu tenho certeza disso,

e a minha intenção é de lá m’acabar.

 

Esta embriaguez começou em alguma outra taverna.

Quando eu voltar, um dia, àquele lugar,

eu estarei completamente sóbrio. Enquanto isso,

eu sou como um pássaro de algum outro continente, sentado neste aviário.

Há de chegar o dia em que eu voe,

mas quem é este em meu ouvido, agora, que ouve a minha voz?

Quem é este que diz palavras com a minha boca?

 

Quem é este que observa com os meus olhos? O que é a alma?

Eu não consigo parar de indagar.

Se eu pudesse experimentar um só gole do que fosse uma resposta,

eu poderia me livrar desta prisão de bêbedos.

Eu não vim para cá por conta própria, e eu não posso ir embora deste modo.

Quem quer que seja que me trouxe aqui, terá de levar-me para casa.

 

Tanta poesia. Eu nunca sei o que eu vou dizer.

Eu não planejo.

Quando já estou fora do falar-me disso,

fico bastante quieto, não digo quase nada.

 

 

 

Tu, que recebes o nascimento e portas os mistérios,

teu vozerio-de-trovão nos faz perfeitamente felizes.

 

Ruge, oh leão do meu coração,

e dilacera-me o corpo inteiro!