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Poesia nórdica| Três tradutores de Karin Boye

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

* * *

 DÓI TANTO QUANDO

Dói tanto quando o broto enflora.
Ou não tardava a primavera.
Oculta atrás do instante, chora,
refém do clima que congela
onde amargou o inteiro inverno.
Então por que desponta agora?
Dói sempre quando o broto enflora
dói quando cresce
…………………….e quando para.

A mesma dor é a dor da gota
que rompe o gelo, anseia e vai,
vacila em vão, o galho agarra
mas cede ao peso, escorre e cai.
É dor de medo, frio e dúvida
ante o escuro do sentir,
é dor daquele que ignora —
se quer ficar
…………………….ou quer partir.

E quando nada mais consola,
o galho o mesmo broto afronta.
Não há mais medo que a tolha,
cai rebrilhando a mesma gota
perante o novo, intimorata
esquece o risco da jornada —
e se engrandece, num segundo,
de toda a fé
…………………….que move o mundo.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

JA VISST GÖR DET ONT

Ja visst gör det ont när knoppar brister.
Varför skulle annars våren tveka?
Varför skulle all vår heta längtan
bindas i det frusna bitterbleka?
Höljet var ju knoppen hela vintern.
Vad är det för nytt, som tär och spränger?
Ja visst gör det ont när knoppar brister,
ont för det som växer
………………………………och det som stänger.

Ja nog är det svårt när droppar faller.
Skälvande av ängslan tungt de hänger,
klamrar sig vid kvisten, sväller, glider –
tyngden drar dem neråt, hur de klänger.
Svårt att vara oviss, rädd och delad,
svårt att känna djupet dra och kalla,
ändå sitta kvar och bara darra –
svårt att vilja stanna
………………………………och vilja falla.

Då, när det är värst och inget hjälper,
Brister som i jubel trädets knoppar.
Då, när ingen rädsla längre håller,
faller i ett glitter kvistens droppar
glömmer att de skrämdes av det nya
glömmer att de ängslades för färden –
känner en sekund sin största trygghet,
vilar i den tillit
………………………………som skapar världen.

§

MANHÃ

Quando o sol da manhã penetra pela vidraça da janela,
alegre e cuidadoso
como uma criança querendo fazer surpresa
cedo, muito cedo em um dia de festa —
então me espreguiço cheia de uma crescente exaltação
de braços abertos para o dia que está por vir —
para o dia que é você
para a luz que é você
o sol é você
e a primavera é você
e toda a linda, linda
vida me esperando é você!

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

MORGON

När morgonens sol genom rutan smyger,
glad och försiktig,
lik ett barn, som vill överraska
tidigt, tidigt en festlig dag —
då sträcker jag full av växande jubel
öppna famnen mot stundande dag —
ty dagen är du,
och ljuset är du,
solen är du,
och våren är du,
och hela det vackra, vackra,
väntande livet är du!

§

Como posso dizer se a tua voz é bela.
Apenas sei que ela me atravessa,
que me faz estremecer como uma folha
e me despedaça e me arrebenta.

O que eu sei sobre a tua pele e sobre os teus membros.
Eles me abalam apenas por serem teus,
então para mim não há nem descanso e nem paz,
enquanto eles não forem meus.

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

*

Como dizer se é bela a tua voz
que me atravessa
e dilacera como uma folha
feita em pedaços.

Que sei da tua pele e dos teus membros
me sacudindo e jurando que sou tua,
roubando de mim o sono e o descanso,
até que que sejam meus.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

*

Como posso dizer se a tua voz é bonita.
O único que sei é que ela me trespassa,
me faz estremecer feito uma folha aflita
depois me desfaz e então me devassa.

Que sei eu da tua pele e das tuas pernas.
Comove-me só o fato de que sejam tuas
e eu não terei repouso nem a paz eterna
enquanto elas não forem minhas, nuas.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

Hur kan jag säga om din röst är vacker.
Jag vet ju bara, att den genomtränger mig
och kommer mig att darra som ett löv
och trasar sönder mig och spränger mig.

Vad vet jag om din hud och dina lemmar.
Det bara skakar mig att de är dina,
så att för mig finns ingen sömn och vila,
tills de är mina.

§

NOITE DE SANTA VALBURGA

Enfim estou junto à montanha do destino.
Em volta, como nuvens de tempestade,
juntam-se seres informes, animais crepusculares,
com suas asas negras,
com seus olhos forsforados.
Paro? Ou ando? A senda segue, sombria.
Se paro pacificamente aqui no sopé da montanha,
ninguém mais me importuna.
E posso assistir serenamente seus embates como jogos nebulosos no ar,
mero olho desgarrado.
Porém se ando, se ando, aí já não sei de mais nada.
Pois para quem anda esses passos
a vida vira uma fábula.
Eu própria fogo,
hei de cavalgar nas serpentes bruxuleantes de fogo.
Eu própria vento,
hei de voar nas pandorgas aladas.
Eu própria o nada,
perdida na tempestade
hei também de me arrojar viva ou morta, feito um destino pesado de futuro.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

VALBORGSNATT

Sent omsider står jag vid ödenas berg.
Runtomkring som ovädersmoln
skockar sig formlösa väsen, skymningsdjur,
svartvingade,
fosforögda.
Stannar jag? Går jag? Vägen ligger mörk.
Stannar jag fredlig här vid foten av berget,
då rör mig ingen.
Lugn kan jag se deras kamp som en dimmans lek i luften,
själv blott ett vilset öga.
Men går jag, går jag, då vet jag ingenting mer.
För den som tar de stegen
blir livet saga.
Själv eld
skall jag rida på ringlande eldormar.
Själv vind
skall jag flyga på vingade vinddrakar.
Själv intet,
själv förlorad i stormen
slungas jag död eller levande fram, ett öde framtidstungt.

* * *

OS TRÊS TRADUTORES

Fernanda Sarmatz Åkesson (n. 20 de maio de 1970, em Porto Alegre/RS) é bacharel em ciências jurídicas e sociais pela PUC/RS. Vive em Estocolmo desde 1999, onde completou seus estudos com  cursos de pedagogia e de português para estrangeiros. Trabalha como professora de português (língua materna e língua de herança). Já traduziu obras de ficção e não-ficção. Alguns dos autores traduzidos são: Astrid Lindgren, Peter Englund, David Lagercrantz, Pernilla Stalfelt, Christina Rickardsson. Casada com um sueco, tem uma filha e uma cachorra.

Leonardo Pinto Silva (n. 31 de dezembro de 1970 em Fortaleza/CE) é jornalista e tradutor, majoritariamente do norueguês. Aprendeu o idioma na Noruega, onde concluiu o ensino médio, e já traduziu, entre ficção e não-ficção, mais de trinta títulos de autores como Jostein Gaarder, Karl Ove Knausgård e Thor Heyerdahl, para diversas editoras brasileiras. Recentemente, teve publicado pelas editoras Carambaia (SP) e Moinhos (MG) peças de Henrik Ibsen, que serão encenadas em Porto Alegre pela diretora Camila Bauer, brasileira vencedora do Ibsen Awards 2017. Entre uma obra em prosa e outra, dedica-se à tradução de poesias dos idiomas escandinavos. Vive em São Paulo, é casado e tem dois filhos.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík, onde vive desde 2002, a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

 

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Poesia nórdica| Henrik Nordbrandt, por Luciano Dutra

Henrik Nordbrandt (n. 21 de março de 1945 em Frederiksberg) é um poeta dinamarquês que viveu a maior parte da sua vida adulta em países do Mediterrâneo (Turquia, Grécia e Itália), sendo as temáticas dessa região (p.ex. cidades, paisagens e clima) presença marcante na sua poesia. Apesar de ser um poeta ateu bastante crítico do que apostrofa de ”a falta de sentido das religiões”, entende que elas são fonte de ensinamentos relevantes para o cotidiano das gentes. Recebeu em 1980 o grand prix da Academia Dinamarquesa pelo conjunto da sua obra poética e, no ano 2000, o prêmio de literatura do Conselho Nórdico por seu livro Drømmebroer (”Pontes de sonhos”). Além desses e outros importantes prêmios, Henrik Nordbrandt conta também com o amplo reconhecimento do público leitor, sendo um dos poetas mais queridos da Dinamarca, país que de resto trata a poesia como artigo da maior importância. É também tradutor de poesia turca para o dinamarquês.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

FIGO

Como um figo violeta escuro e maduro demais
que se abriu e revelou
seu âmago carmim com as sementes luzidias e besuntadas
e seca gozosamente debaixo do sol do meio dia
jazes comigo no escuro

FIGEN

Som en sortviolet og overmoden figen
der har åbnet sig og blottet
sit lyserøde indre med den glinsende, fedtede frø
og tørrer nydende ind i middagssolen
ligger du hos mig i mørket

§

DESEJO TE POSSUIR

Desejo te possuir, hás de ser minha.
Teu corpo, tua alma
os segredos mais profujndos
serão minha propriedade.
Não possuirás um fio de cabelo
nem um dente
nem recanto escuro algum
na tua mente
que não me pertença.

Senão, de que maneira
eu poderia te vender
por pilhas de prata e ouro
pedras precisas
e todos os produtos de luxo imagináveis?
Ou quem sabe?
Talvez por uma mera taça de vinho
uma noite com uma puta
um punhado de miçangas coloridas
ou uma faca ordinária
com cabo de corda.

Senão, como eu saberia
o significado de te perder?
Com qual medida
mensurar a tua ausência?

Hei de te perder de qualquer forma.
Perco-te um pouquinho a cada dia.
Nos mercados do Oriente
hei de adquirir um estoque de coisas
pelas quais eu poderia te vender
coisinhas
que hão de me fazer lembrar dos sininhos invisíveis
que os teus movimentos o tempo todo
fazem soar no quarto
e o serpenteio frenético de sedas
naquele ponto
onde o teu pescoço encontra os teus ombros.

E se um dia repentinamente
por acaso viesse a te encontrar
tudo isso eu te daria.

JEG VIL EJE DIG

Jeg vil eje dig, du skal være min.
Din krop, din sjæls
dybeste hemmeligheder
skal være min ejendom.
Du skal ikke have et hår
ikke en tand
ikke en eneste mørk krog
i dine tanker
som ikke tilhører mig.

Hvordan skal jeg ellers
kunne sælge dig
for dynger af sølv og guld
kostbare stene
og alle mulige luxusvarer?
Eller hvem ved?
Måske blot for et glas vin
en nat med en luder
en håndfuld kulørte glasperler
eller en tarvelig kniv
med håndtag af sejlgarn.

Hvordan skal jeg ellers få at vide
hvad tabet af dig betyder?
Med hvad
måle dit fravær?

Miste dig skal jeg alligevel.
Hver dag mister jeg dig lidt.
På Orientens markeder
vil jeg opkøbe sådanne ting
som jeg kunne have solgt dig for
små ting
der vil minde mig om de usynlige bjælder
dine bevægelser hele tiden
får til at ringe i rummet
og en vældig strøm af silke
som det sted
hvor din hals møder dine skuldre.

Og hvis jeg pludselig en dag
tilfældigt skulle møde dig
ville jeg forære dig det hele.

§

O NOSSO AMOR É COMO BIZÂNCIO

O nosso amor é como Bizâncio
deve ter sido
em sua última noite. Deve ter sido,
imagino,
um claridade nos rostos
das pessoas que se aglomeravam nas ruas
ou se reuniam em pequenos grupos
nas esquinas e nas praças
conversando baixinho
isso devia lembrar
da claridade que há no teu rosto
quando tiras os cabelos da frente dele
e me olhas.

Imagino que as pessoas não devem
ter falado muito e apenas de
coisas desimportantes,
que tentavam conversar
mas paravam
sem conseguir dizer o que gostariam
e tentavam outra vez
e desistiam outra vez
e se entreolhavam
e baixavam o olhar.

Por exemplo os ícones antiquíssimos
possuem em si essa claridade
como o clarão de uma cidade em chamas
ou a claridade da morte iminente
que permanece nas fotografias de mortos precoces
nas recordações dos que ficam.

Quando me viro para ti
na cama tenho a sensação
de estar adentrando numa igreja
consumida pelo fogo
há muito tempo
na qual apenas a escuridão nos olhos dos ícones
restou
prenhe das chamas que os destruiu.

VORES KÆRLIGHED ER SOM BYZANTIUM

Vores kærlighed er som Byzantium
må have været
den sidste aften. Der må have været
forestiller jeg mig
et skær over ansigterne
på dem der flokkedes i gaderne
eller stod i små grupper
på gadehjørner og torve
og talte lavmælt sammen
der må have mindet
om det skær dit ansigt har
når du stryger håret tilbage fra det
og ser på mig.

Jeg forestiller mig de ikke har talt
ret meget, og om ret
ligegyldige ting,
at de har forsøgt at tale
og er gået i stå
uden at have fået sagt hvad de ville
og har forsøgt igen
og opgivet det igen
og set på hinanden
og slået øjnene ned.

Meget gamle ikoner f.eks.
har det skær over sig
som ildskæret fra en brændende by
eller det skær kommende død
efterlader på fotografier af tidligt døde
i de efterladtes erindring.

Når jeg vender mig mod dig
i sengen, har jeg en følelse
af at træde ind i en kirke
der er blevet brændt ned
for længe siden
og hvor kun mørket i ikonernes øjne
er blevet tilbage
fulde af de flammer, der udslettede dem.

§

UMA VIDA

Riscaste um fósforo e a chama dele te cegou
e assim não conseguiste achar o que buscavas no escuro
antes de o palito arder entre teus dedos
e a dor te fazer esquecer o que buscavas.

ET LIV

Du strøg en tændstik, og dens flamme blændede dig
så du ikke kunne finde, hvad du søgte i mørket
før den brændte ud mellem fingrene på dig
og smerten fik dig til at glemme, hvad det var.

§

É TÃO IMPORTANTE

é tão importante
de que forma te dizer que

o jeito que tens
de ajeitar o cabelo

quando profundamente
concentrada numa sarda

te refletes certa noite
numa janela que dá para o oeste

é quase tão
bonito quanto a própria primavera

DET ER SÅ VIGTIGT

det er så vigtigt
hvordan man siger til dig at

den måde du har
at rette på håret på

når du dybt
koncentreret om en fregne

en aften spejler
dig i et vestvendt vindu

er næsten lige
så smuk som selve foråret.

§

AGORAFILIA

Tu és o meu amor e o meu desespero.
És a minha loucura e a minha compreensão.
E és também todos os lugares onde nunca estive

e que me conclamam de todos os cantos do mundo.
Tu és esses seis versos
aos quais me restrinjo para não gritar.

AGORAPHILIA

Du er min kærlighed og min fortvivlelse.
Du er mit vanvid og mit indsigt.
Og du er alle stederne, hvor jeg ikke har været

og som kalder på mig fra alle verdenshjørner.
Du er disse seks linier
som jeg må begrense mig til for ikke at skrige.

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Poesia nórdica | Edith Södergran (1892—1923), por Luciano Dutra

Edith Södergran (n. 4 de abril de 1892 em São Petersburgo na Rússia czarista, f. 24 de junho de 1923 em Raivola, na época pertencente à Finlândia e atualmente parte do território da Rússia), foi uma poeta finlandesa de expressão sueca. Publicou em vida apenas quatro poemários: Dikter (”Poemas”, 1916), Septemberlyran (”A lira de setembro”, 1918), Rosenaltaret (”O altar das rosas”, 1919) e Framtidens skugga (”A sombra do futuro”, 1920). Sua obra poética é completada pelo volume póstumo Landet som icke är (”O país que não existe”, 1925). Ceifada pela tuberculose precocemente (com apenas 31 anos), a poeta que bebeu do simbolismo francês, do expressionismo alemão e do futurismo russo, que misturava Nietzche e Rudolf Steiner, foi uma das primeiras a aplicar o modernismo à poesia de expressão sueca, mas não teve tempo de gozar do reconhecimento e do renome que sua poesia angariou mundo afora. Certamente contribuiu para a fama post mortem da poeta a escassez de informações biográficas e a mitificação da persona Edith Södergran promovida pela amiga Hagar Olsson e pelo primeiro biógrafo, Gunnar Tideström. A poesia de Edith influenciou a imagética, o ritmo e o estilo de livre associação presentes na poesia moderna e também na música popular em língua sueca de ambos os lados da fronteira (Finlândia e Suécia).

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

PRIMAVERA NÓRDICA

Todos os meus castelos de ar derreteram feito neve,
todos os meus sonhos escorreram feito água,
de tudo o que amei resta-me apenas
um céu azul e um punhado de estrelas pálidas.
O vento se move lentamente entre as árvores.
O vazio repousa. A água cala.
O velho abeto segue acordado e pensando
na nuvem alva que beijou num sonho.

NORDISK VÅR

Alla mina luftslott ha smultit som snö,
alla mina drömmar ha runnit som vatten,
av allt vad jag älskat har jag endast kvar
en blå himmel och några bleka stjärnor.
Vinden rör sig sakta mellan träden.
Tomheten vilar. Vattnet är tyst.
Den gamla granen står vaken och tänker
på det vita molnet, han i drömmen kysst.

§

TRÊS IRMÃS

A primeira irmã amava os doces morangos-silvestres,
a segunda irmã amava as rubras rosas,
a terceira irmã amava as coroas de flores dos mortos.

A primeira irmã se casou:
dizem que se tornou feliz.

A segunda irmã amou com toda a sua alma,
dizem que se tornou infeliz.

A terceira irmã se converteu em santa,
dizem que há de ganhar a coroa eterna da vida.

TRE SYSTRAR

Den ena systern älskade de söta smultronen,
den andra systern älskade de röda rosorna,
den tredje systern älskade de dödas kransar.

Den första systern blev gift:
man säger, att hon är lycklig.

Den andra systern älskade av hela sin själ,
man säger att hon blev olycklig.

Den tredje systern blev ett helgon,
man säger, att hon skall vinna det eviga livets krona.

§

BELEZA

O que é a beleza? — perguntam-se todas as almas —
a beleza é cada excesso, cada brasa, cada saturação e cada enorme infortúnio;
a beleza é ser fiel ao verão e continuar nu até o outono;
a beleza é o atavio de penas do papagaio ou o pôr do sol que prenuncia a borrasca;
a beleza é um traço forte e uma entonação própria: sou eu,
a beleza é um dano enorme e uma procissão silenciosa de tristezas,
a beleza é abano suave do leque que põe em movimento à roda do destino;
a beleza é ser sensual como a rosa ou tudo perdoar só porque o sol brilha;
a beleza é a cruz preferida do monge ou o colar de pérolas que a dama ganhou do seu amante,
a beleza não é a sopa rala de que os poetas se servem,
a beleza é travar a guerra e buscar a felicidade,
a beleza é servir a poderes maiores.

SKÖNHET

Vad är skönhet? Fråga alla själar —
skönhet är varje överflöd, varje glöd, varje överfyllnad och varje stort armod;
skönhet är att vara sommaren trogen och naken intill hösten;
skönhet är papegojans fjäderskrud eller solnedgången som bebådar storm;
skönhet är ett skarpt drag och ett eget tonfall: det är jag,
skönhet är en stor förlust och ett tigande sorgetåg,
skönhet är solfjäderns lätta slag som väcker ödets fläkt;
skönhet är att vara vällustig som rosen eller att förlåta allting för att solen skiner;
skönhet är korset munken valt eller pärlbandet damen får av sin älskare,
skönhet är icke den tunna såsen i vilken diktare servera sig själva,
skönhet är att föra krig och söka lycka,
skönhet är att tjäna högre makter.

§

O INFERNO

Ah como é aprazível o inferno!
No inferno ninguém fala da morte.
O inferno está emparedado nas entranha da terra
e é adornado de flores incandescentes…
No inferno ninguém diz palavras ao léu…
No inferno ninguém bebeu nem ninguém dormiu,
ninguém descansa nem ninguém se senta quieto.
No inferno ninguém fala, mas todos gritam,
lá as lágrimas não são lágrimas e todas as tristezas são inertes.
No inferno ninguém fica doente nem ninguém fica cansado.
O inferno é imutável e eterno.

HELVETET

O vad helvetet är härligt!
I helvetet talar ingen om döden.
Helvetet är murat i jordens innandöme
och smyckat med glödande blommor…
I helvetet säger ingen ett tomt ord…
I helvetet har ingen druckit och ingen har sovit
och ingen vilar och ingen sitter stilla.
I helvetet talar ingen, men alla skrika,
där äro tårar icke tårar och alla sorger äro utan kraft.
I helvetet blir ingen sjuk och ingen tröttnar.
Helvetet är oföränderligt och evigt.

§

A ALMA QUE ESPERA

Estou só em meio às árvores à beira de um lago,
vivo em harmonia com os velhos abetos do litoral
e em secreto pacto com todas as jovens tramazeiras.
Sozinha permaneço deitada e aguardo,
não vi ninguém andar por aqui de passagem.
Flores enormes me espiam do alto de seus pedúnculos,
lianas amargas se aninham no meu colo,
só tenho um nome para isso, e esse nome é amor.

DEN VÄNTANDE SJÄLEN

Jag är allena bland träden vid sjön,
jag lever i vänskap med strandens gamla granar
och i hemligt samförstånd med alla unga rönnar.
Allena ligger jag och väntar,
ingen människa har jag sett gå förbi.
Stora blommor blicka ned på mig från höga stjälkar,
bittra slingerväxter krypa i min famn,
jag har ett enda

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Poesia nórdica| Cinco poemas de amor e desamor de Geir Gulliksen, por Luciano Dutra

Geir Gulliksen (n. 31 de outubro de 1963 em Kongsberg, Noruega) é escritor e editor. Desde sua estreia em 1986, publicou livros de poemas, ensaios, peças, romances e literatura infantil. Foi indicado ao prêmio Ibsen de 2013 por sua peça En kropp (Um corpo) e ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico de 2016 pelo romance Historie om et ekteskap (História de um casamento), sua obra mais conhecida, publicada em 2015. Foi o editor na Forlaget Oktober de Min kamp (Minha luta), romance autoficcional em seis volumes de Karl-Ove Knausgård publicado entre 2009 e 2011, sucesso de crítica e público traduzido em mais de trinta idiomas e que só na Noruega vendeu mais de meio milhão de exemplares. O poema ”Alt dette skal begynne en gang til” (”Tudo isso há de começar mais uma vez”), traduzido ao final dessa remessa, foi escolhido pelos ouvintes da estação de rádio pública NRK P2 e por um juri especializado como o melhor poema da Noruega em 2005.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

UM POEMA SOBRE AQUELA QUE ELE JAMAIS ENCONTROU

tens a possibilidade de fazer algo
mas então não o fazes
não sabes por que
não o fazes
apenas deixas de fazer
e bem o sabes
que assim vai ser a tua vida
tua apenas em parte
por tudo que deixou de acontecer
e isso é tão triste
e não apenas para ti
pensas nos bons momentos
e ficas ainda mais triste

ET DIKT OM HENNE HAN ANDRI MØTTE

du kan gjøre noe
og så gjør du det ikke
du vet ikke hvorfor
du ikke gjør det
du gjør det bare ikke
og du vet det selv
slik blir livet ditt
bare delvis ditt
så mye som ikke skjer
og det er trist
og ikke bare for deg
tenker du i lyse stunder
og blir enda tristere

§

O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres

vivos como tu e eu
para se deixar enxergar

ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir

Kjærlighet finnes ikke
eller er usynlig og trenger levende

vesener som deg og meg
for å komme til syne

eller: kjærlighet er en praksis
en sky musikk den kan ikke alltid høres

§

eu só queria te dizer

que ele chega, que ele existe
que ele chega pra todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos

ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante úmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever

jeg ville bare si deg

at det kommer, at det finnes
at det kommer til alle, i de minste én enkelt gang
at det var her i rommet
mens gardinene blafret i det åpne vinduet
og mens jeg lette etter blyanten
og at det forsvant like glatt
som den ene store kjærlighet vi har hatt

det var her, og som en bestemt lukt
av et bestemt hår og en bestemt kjole
som hadde hengt ute i et helt bestemt fuktig vær
var det ikke lenger her
da jag satt meg ned for å skrive

§

Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos

todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.

A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.

Her er vi. Det er natt.
Vi kommer hit og forsvinner igjen,
og slik de elskende forlater hverandre

skal vi forlate hverandre alle sammen,
slik verden sikkert også forlater oss til slutt.
Eller hvordan det nå var igjen.

Kjøleskapet dirrer engstelig på kjøkkenet.
Ungene sover i varme senger. Hjernene gløder
som millionbyer under hver sin mørke hvelving.

§

TUDO ISSO HÁ DE COMEÇAR MAIS UMA VEZ

Tudo isso há de começar mais uma vez
o livro que eu levava pra todo lado e lia
vai ser lido por outro alguém. Alguém há de aprender
a contar até dez pela primeira vez, depois até cem
e alguém há de aprender os dias da semana e assim há de saber
que a sexta-feira é o melhor e que o domingo é o pior dia da semana
porque domingo é o dia em que só fazemos esperar pela segunda-feira
e com a segunda-feira até a quinta-feira é impossível contar
se a gente trabalha o dia inteiro e fica sentado numa cadeira de noite
Porém, mesmo assim tudo isso há de começar mais um vez:
alguém há de sentar na escadaria sob essa luz sarapintada
tentando escrever um poeminha num pedaço de papel
e alguém há de aprender a pedalar,
e alguém há de ler que o universo encontra-se em expansão
e sobre sóis que só sabem seguir explodindo
e alguém há de estudar hebraico antigo e ornitologia
e passear à noitinha com as mãos no bolso do casaco
sabendo que há de morrer, mas não já já
antes outro alguém hão de se apaixonar por ele, tomara,
e depois alguém há de deixá-lo, mas não já já
pois tudo isso há de começar mais uma vez: alguém há de ler
Pablo Neruda pela primeira vez, e Osip Mandelstam
e Bertholt Brecht, alguém há de ler Wisława Szymborska
e alguém há de descobrir quantos somos nós todos que vivemos nesse mundo
e de repente há de entender que cada um de nós é um indivíduo
mesmo que não haja individualismo suficiente para todos
e mesmo que não seja verdade que todas as pessoas
têm o mesmo valor, alguém há de aprender isso e crer nisso
até que não seja mais possível seguir crendo nisso
pois isso não parece ser verdade
pois isso não parece possível de se realizar
mesmo que não seja possível crer em mais nada além do fato
de a escuridão escalar os vários andares
e de a escuridão um dia chegar aos teus pés
e de tu um dia vadear nela e de ela chegar até as tuas mãos
e gritar na escuridão e beber a escuridão, não por que tens sede
mas porque não há mais nada senão ela, e porque aquela velha
luz sarapintada que não havia era suficiente para todos
não é mesmo? mas tudo isso há de ser repetido por outro alguém
e a luz dispara sem parar cruzando a escuridão
de 300.000 quilômetros e leva menos tempo para te achar do que um gato esquelético
enquanto estás ali parado tentando achar as chaves no bolso do casaco
e tudo o que te acontece acontece creias ou não creias que seja verdade

ALLT DETTE SKAL BEGYNNE EN GANG TIL

Alt dette skal begynne en gang til
den boken jeg gikk rundt med og leste i
skal bli lest av en annen. For første gang
skal noen lære å telle til ti, og så til hundre
og noen skal lære seg dagene og dermed lære seg at
fredag er den beste dagen og søndag den verste
fordi søndagen er den dagen du bare venter på mandag
og mandag til torsdag kan ingen regne ordentlig med
som jobber hele dagen og sitter i en stol om kvelden
Men alt dette skal likevel begynne på nytt:
noen skal sitte på trappa i det skvetne lyset
og prøve å skrive et lite dikt på en lapp
og noen skal lære seg å sykle,
og noen skal lese at universet utvider seg
og om soler som bare fortsetter å eksplodere
og noen skal lese gammelhebraisk og ornitologi
og gå ute om kveldene med hendene i jakkelomma
og vite at de skal dø, men ikke ennå
først skal en annen bli forelsket i dem, forhåpentligvis,
og så skal noen gå fra dem, men ikke ennå
fordi alt dette skal begynne en gang til: noen skal lese
Pablo Neruda for første gang, og Osip Mandelstam
og Bertholt Brecht, noen skal lese Wisława Szymborska
og noen skal oppdage hvor mange vi er som lever i verden
og plutselig vite at hver eneste av oss er et individ
selv om det ikke er individualisme nok til alle
og selv om det ikke er sant at alle mennesker
er like mye verdt skal noen lære det og tro på det
helt til det ikke er mulig å tro på det lenger
fordi det ikke ser ut til å være sant
fordi det ikke ser ut til å la seg gjøre
selv om ingenting annet er mulig å tro uten at mørket
strømmer oppover i etasjene
og at mørket en dag når opp til føttene dine
og at du en dag vasser i det og får det på hendene
og brøler i mørke og drikker mørke, ikke fordi du er tørst
men fordi det ikke finnes noe annet, og fordi det gamle
flekkete lyset som fantes ikke var tilstrekkelig til alle
var det ikke sånn? men alt dette skal bli gjentatt av en annen
og lyset skyter uopphørlig gjennom 300.000 kilometers
mørke og bruker kortere tid enn en mager katt på å finne deg
der du står og prøver å finne nøklene i lommene på jakka
og alt som skjer deg skjer enten du tror det er sant eller ikke

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poesia

José Miguel Gómez Acosta (1975—), por Francesca Cricelli e Luciano Dutra

José Miguel Gómez Acosta (Almería, Espanha, 1975–), é poeta, arquiteto, tradutor e pintor. Vive atualmente em Granada onde dirige a revista Márgenes Arquitectura. Como escritor, começou publicando contos e poemas no jornal La Voz de Almería a partir de 1997, além de ensaios sobre arquitetura e construção. Conquistou com o seu terceiro livro Reescritura (2016) o IV Prêmio de Poesia Experimental Francisco Pino, da Fundação Jorge Guillén, na Espanha. Também recebeu o prêmio Federico García Lorca em 1997 pelo conto “El pabellón de los elefantes”. Seu segundo poemário, El Gran Norte, publicado originalmente em Granada em 2015, foi recentemente lançado em edição bilíngue castelhano-islandês em Reykjavík numa cooperação entre as duas Cidades da Literatura da Unesco, Granada e Reykjavík, em tradução islandesa de Elías Knörr e Guðrún H. Tulinius. É dessa edição que foram selecionados pelo próprio autor os poemas de tema islandês aqui traduzidos.

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

4 poemas islandeses do ciclo El gran norte

ETERNIDADE ANTERIOR

A eternidade anterior se acaba.
Não há ninguém que se lembre, nem resenha nem sorte nem letras nem calor.
Eternidade anterior, prados cor de cinza.

ETERNIDAD ANTERIOR

La eternidad anterior se acaba.
Nada hay que la recuerde, ni reseña ni suerte ni letras ni calor.
Eternidad anterior, prados color ceniza.

§

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

No fundo do homem mais afável dormem os assassinos olho vivo alerta.
No fundo repousa uma tumba de grama nunca pisada, ocidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos da fumaça que brota da terra, teus olhos desenhadores mestres da palavra.
No fundo do homem, em suas costas longínquas, sonolento intranquilo o estratega
um plano para hospedar os escondidos.
No fundo do homem uma entrada assinala o início descida queda voo ao centro
da terra.

VIAJE AL CENTRO DE LA TIERRA

En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada, occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída vuelo al centro
de la tierra.

§

PRIMEIRA CARTA DOS APÓSTOLOS

Difundindo a palavra chegamos à costa dos gelos
Vivem nove pessoas e todas elas cantam pelas tardes
Águas negras abrigam os defuntos que agarram com suas mãos as alturas
E todos cegos mudos dançam ao redor das fogueiras
Cada dia leva o nome de um ataque mortal e as cimeiras são portas
Há uma deusa
Recordamo-nos muito de ti mas já não lembramos se vives ou não
Com imensa tristeza o favorito em sonho manda-te um abraço
Todos nossos navios reduziram-se a escombros e concreto esgarçado
Lascas que alimentam as fogueiras nevasca temporal anticiclone tormenta
Ameaça de chuva vivem nove pessoas nove casas
À noite lemos os nossos livros e eles ainda nos batizam mil vezes menos uma
E páginas escritas com teu sangue tornaram-se finos troncos vegetais
As mulheres regam-nos a cada noite com seus cabelos e sua chuva água clara dor
O riso se apodera de nós
Tu que nunca riste
Todas as tuas fotografias estão emolduradas mas a umidade erode as rugas
Voltaste a ser um garoto
Na terra do tremor trovão das entranhas lagoa da cor da tua palavra
Lhes contamos ontem a última coisa que disseste ao te despedir
Entre vapores e rugidos

PRIMERA CARTA DE LOS APÓSTOLOS

Difundiendo la palabra llegamos a la costa de los hielos
Viven nueve personas y todas ellas cantan por las tardes
Aguas de color negro cobijan los difuntos que agarran con sus manos las alturas
Y todos ciegos mudos bailan alrededor de las hogueras
Cada día lleva el nombre de un ataque mortal y las cumbres son puertas
Hay una diosa
Nos acordamos mucho de ti pero no recordamos si ya vives o no
Con inmensa tristeza el favorito en sueños te envía un abrazo
Todos nuestros navíos quedaron reducidos a escombros y hormigón deshilachado
Astillas que alimentan las hogueras ventisca temporal anticiclón borrasca
Amenaza de lluvia viven nueve personas nueve casas
Por las noches leemos nuestros libros y ellos aún nos bautizan mil veces menos una
Y páginas escritas con tu sangre se han vuelto finos troncos vegetales
Las mujeres los riegan cada noche con su pelo y su lluvia agua clara dolor
La risa se apodera de nosotros
Tú que nunca reíste
Todas tus fotografías se encuentran enmarcadas pero la humedad erosiona las arrugas
Has vuelto a ser un niño
En la tierra temblor trueno de las entrañas laguna del color de tu palabra
Les contamos ayer lo último que dijiste al despedirte
En medio de vapores y rugidos

§

AQUI ONDE ESTOU NINGUÉM NUNCA ESTEVE

Onde o mapa termina é ali onde começa.
E para chegar não há sequer um trem, apenas uma rodovia, alguns carros.
O clima é bastante frio; pelas manhãs neva sob o dossel das casas.
A luz só se vê de tarde em tarde partindo as janelas em cruzes amarelas por um instante.
Há duchas nas ruas, água quente e garotos nus que nunca te cumprimentam.
Um pequeno Yago prodigioso presenteia a cidade com centenas de aves.
No Café Paris descendo o sótão um mapa nos recorda que a Europa existe.
A catedral católica é o castelo sujo das crianças.
Neva pela manhã e a neve esgueira-se sob a terra negra das ruas levemente empinadas.
Às vezes chega um barco e todos desabotoam suas camisas sinal de alegria.
Às vezes toca a hora na torre vigia tremendamente antiga erguida há dez anos.
Às vezes as montanhas não tão altas conseguem aparecer por trás das estátuas.
São doces as estátuas, uma para cada mês, são todas pretas.
O clima é bastante frio; neva pelas manhãs e pelas tardes chove, o guarda-chuva não faz falta.
Acendem-se pela tarde as luzes das ruas, passam alguns carros.

AQUÍ DONDE YO ESTOY NO HA ESTADO NADIE NUNCA

Donde termina el mapa es allí donde empieza.
Y no hay para llegar ni un solo tren, sólo una carretera, algunos coches.
Es un clima muy frío; por las mañanas nieva bajo los alerones de las casas.
La luz sólo se ve de tarde en tarde partiendo las ventanas en cruces amarillas un instante.
Hay duchas en las calles, agua caliente y muchachos desnudos que nunca te saludan.
Un Iago pequeño y prodigioso regala a la ciudad cientos de aves.
En el café París al bajar a los sótanos un mapa nos recuerda la existencia de Europa.
La catedral católica es el castillo sucio de los niños.
Nieva por la mañana y la nieve se cuela bajo la tierra negra de las calles levemente
empinadas.
A veces llega un barco y todos desabrochan sus camisas en señal de alegría.
A veces suena el tiempo en la torre vigía inmensamente antigua construida hace
diez años.
A veces las montañas no muy altas logran aparecer detrás de las estatuas.
Son doce las estatuas, una por cada mes, todas son negras.
Es un clima muy frío; nieva por las mañanas y por la tarde llueve, no hace falta
paraguas.
Se encienden por las tardes las luces de las calles, pasan algunos coches.

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poesia

Poesia nórdica| Einar Már Guðmunsson, por Luciano Dutra

Foto: Gassi

Einar Már Gudmundsson (n. 18 de setembro 1954 em Reykjavík, capital da Islândia) é romancista, poeta e ensaísta. Estreou na literatura em 1980 com um volume de poemas e, desde então, já publicou mais de vinte obras. Teve seus livros traduzidos em mais de trinta idiomas. Anjos do Universo (Englar alheimsins), publicado também no Brasil (trad. de Luciano Dutra, São Paulo, Hedra, 2013) foi agraciado com o Prêmio Nórdico de Literatura em 1995, concedido pela mesma Academia do Prêmio Nobel. Um filme de longa metragem homônimo baseado no romance foi produzido pelo cineasta islandês Friðrik Thór Friðriksson.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

 HOMERO, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Numa tarde pesada de chuva,
num navio de um sonho que andou pelo mundo,
o contador de histórias Homero aportou em Reykjavík.
Saindo do cais
ele pegou um táxi que o conduziu
por ruas cinzentas de chuva
passando por casas tristonhas.

Numa esquina o contador de histórias Homero se virou
para o motorista e disse:
“E pensar
que aqui nessa modorra
cinzenta de chuva
vive uma nação de contadores de histórias!”
“Essa é exatamente a razão”, o motorista respondeu,
“nunca se quer mais
ouvir uma boa história
do que quando as gotas da chuva
golpeiam os vidros das janelas”

SAGNAÞULURINN HÓMER

Eitt regnþungt síðdegi,
á skipi úr viðförlum draumi,
kom sagnaþulurinn Hómer til Reykjavíkur.
Hann gekk frá hafnarbakkanum
og tók leigubíl sem ók með hann
eftir regngráum götum
þar sem dapurleg hús liðu hjá.

Við gatnamót sneri sagnaþulurinn Hómer
sér að bílstjóranum og sagði:
„Hvernig er hægt að ímynda sér
að hér í þessu regngráa
tilbreytingarleysi búi söguþjóð?“
„Það er einmitt ástæðan,“ svaraði bílstjórinn,
„aldrei langar mann jafn mikið
að heyra góða sögu og þegar droparnir
lemja rúðurnar.“

§

A TRIBUNA DO DESTINO

Não venha me falar em
países grandes e países pequenos,
cu de Judas, fim do mundo, periferia.

Vivemos numa esfera; o centro
está bem debaixo dos teus pés
e muda de lugar, seguindo-
te aonde quer que vás.

*

Eis ali o país
em que os continentes se correspondem
em sua busca de silêncio e seixos.

Considera a geleira,
vê como ela perambula no azul
como urso polar em andança pelo mundo.

Portas se abrem nos sonhos
e a escuridão flui
feito lágrimas sono afora.

*

Eis ali o país
onde o tempo cai
como um jornal que escorre pela escotilha da correspondência
mas não há assinante algum,
nem espaço algum,
apenas um abismo
onde as estrelas brilham.

Ao afundarmos
no pantanal da noite
puxamos os próprios cabelos.

*

A Via Láctea
é uma rua num vilarejo,
o destino, uma rede
lançada sobre as casas,
brindamos
com profundidades pelágicas entre nós.

As auroras boreais
ardem no beco.

*

Estou à espera de uma tonelada de sentimentos.
Alguém me ajuda a descarregar?

RÆÐUPÚLT ÖRLAGANNA

Ekki tala um
stórar þjóðr og litlar þjóðir,
útkjálka, heimshorn og jaðra.

Þetta er hnöttur; miðjan
hvílir undir iljum þínum
og færist úr stað og eltir
þig hvert sem þú ferð.

*

Hér er landið
þar sem heimsálfurnar skrifast á
í leit sinni að þögn og grjóti.

Sjáðu jökulinn,
hvernig hann vappar um blámann
einsog ísbjörð á leið yfir heiminn.

Í draumnum opnast dyr
og myrkrið flæðir
sem tár gegnum svefninn.

*

Hér er landið
þar sem tíminn fellur
einsog dagblað í gegnum lúgu,
en það er einginn áskrifandi,
ekkert rúm,
aðeins hyldýpi
þar sem stjörnurnar glitra.

Þegar vi sökkvum
í fen næturinnar
drögum við okkur upp á hárinu.

*

Vetrarbrautin
er gata í litlu þorpi,

örlögin net
sem leggjast yfir húsin,
við skálum
með hafdjúpin á milli okkar.

Norðurljósin
loga við stíginn.

*

Ég á von á tonni of tilfinningum.
Vill einhver hjálpa mér að landa?

§

ESBOÇO DE POÉTICA

Talvez as palavras emerjam
do oceano
como salva-vidas.

Peixes e pássaros,
asas e caudas:
entre isso, o homem.

Quanto mais fundo mergulho
mais alto eu voo.

DRÖG AÐ SKÁLDSKAPARFRÆÐUM

Kannski koma orðin
upp úr hafinu
eins og lífsbjörgin.

Fiskar og fuglar,
vængir og sporðar:
þar á milli er maðurinn.

Því dýpra sem ég kafa
því hærra flýg ég.

§

A GURIA QUE AMASTE…

A revolução é como a guria que amaste um dia.
Achavas que ela também te amava
e que tu jamais iria amar nenhuma outra.
Mas um dia ela acabou contigo.
Tua tristeza foi incomensuravelmente profunda no vazio dos dias.
Hoje, passado tanto tempo, vês que ela nem era aquilo tudo
e não entendes como pudeste um dia
ter te apaixonado por ela.

Faz sentido, pois já não trazes mais no coração
a força magnética que te atraiu para ela…
pois a guria que amaste um dia
não é a guria que amaste
mas sim o anseio,
a busca que te fez partir,
não com o objetivo de encontrar
mas sim de buscar o que perdeste
para poder perder o que encontraste.

STELPAN SEM ÞÚ ELSKAÐIR …

Byltingin er einsog stelpan sem þú elskaðir einu sinni.
Þú hélst hú elskaði þig líka
og að þú myndir aldrei elska neina aðra.
En dag nokkurn sagði hún þér upp.
Sorg þín var ómælisdjúp í tómleika daganna.
Nú löngu síðar sérðu að það var ekkert varið í hana
og furðar þig á því að þú skulur nokkru sinni
hafa orðið ástfanginn af henni.

Og þó, ef segulkrafturinn sem dró þig að henni
er ekki lengur í hjarta þínu …
því stúlkan sem þú elskaðir einu sinni
er ekki stúlkan sem þú elskaðir,
heldur þráin,
leitin sem lagði af stað með þig,
ekki til að finna,
heldur leita að því sem þú týndir
til að geta týnt því sem þú fannst.

§

NÃO CONSIGO PARAR

não consigo parar
na esquina dos teus lábios
apesar de eles serem vermelhos
como as sinaleiras

ÉG GET EKKI STOPPAÐ

ég get ekki stoppað
við gatnamót vara þinna
þó þær séu rauðar
einsog götuljósin

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Poesia Nórdica| Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen, por Luciano Dutra

Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen 

 

Carl Johan Jensen (n. 2 de dezembro de 1957 em Tórshavn, capital do arquipélago das Feroés) é há mais de um quarto de século uma das personalidades mais atuantes da cultura feroesa seja como poeta, jornalista, ficcionista, articulista, crítico literário e tradutor. Além disso, atua como tradutor. Foi agraciado com o prêmio feroês de literatura em seu país em três ocasiões (1989, 2006 e 2015). Foi indicado cinco vezes ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico. Obras de Carl Jóhan já foram traduzidas e publicadas em livros, coletâneas e revistas na Dinamarca, na Noruega, na Suécia, na Islândia, nos Países Baixos, na Alemanha, nos EUA e agora no Brasil. A poesia de Carl Jóhan Jensen é do tipo que lança um desafio ao leitor: decifra-me ou te devoro. Não é a poesia palatável dos poemas no ônibus ou no metrô, mas sim linguagem em convulsão que faz lembrar da cerimônia iniciática enfrentada por Óðinn, a divindade-mor da antiga religião nórdica, e que o levou a “conhecer” ou “inventar” as runas, as quais depois compartilhou com as outras divindades e demais habitantes do universo nórdico: os homens, “gente oculta” (huldufólk) e os trolls. Mais do que poesia, é ποίησις, na qual o poeta traduz o não-ser para que seja. Se Carl Jóhan fosse filósofo de ofício, talvez sua máxima fosse: “Digo, escrevo, logo há”. Carl Jóhan Jensen irá participar no dia 12 de novembro da Presença Nórdica na Feira do Livro de Porto Alegre, ocasião em que será lançada o herbário poético bilíngue Nona Manhã, publicado pela parceria editorial Moinhos+Sagarana até onde se saiba a primeira obra de autor feroês, seja em verso ou em prosa, traduzida diretamente para o português. Os três poemas aqui publicados foram extraídas de Nona Manhã.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, microeditora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

Eu

E vês a folha
que oscila por um átimo
no ar agitado
sobre as cinzas
em brasa? —

Eg

Og sært tú blaðið
sum ørstutt blakast
í giddandi luft
yvir glóðandi
eimi? —

§

Tu

tu és a mão que alivia
e a chuva que liberta
tu és lua e estrela
saibro sob meus pés
tu és oceano suspirando
e a palavra que será

tú ert lógvin sum lygnir
og regnið sum loysir
tú ert máni og stjørna
steinspjað við fót mín
tú ert hafið sum andar
og orðið sum blívur

§

Bem-me-quer

és o mistério da neve que para
e és também a terra

a pele exótica e o dorso da mão
outra vez vindo do nada

Gloymmegei

tú ert fannaslit á gátum
og mold ert tú við

fremmand húð og lógvi
uppaftur úr ongum

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