poesia

José Miguel Gómez Acosta (1975—), por Francesca Cricelli e Luciano Dutra

José Miguel Gómez Acosta (Almería, Espanha, 1975–), é poeta, arquiteto, tradutor e pintor. Vive atualmente em Granada onde dirige a revista Márgenes Arquitectura. Como escritor, começou publicando contos e poemas no jornal La Voz de Almería a partir de 1997, além de ensaios sobre arquitetura e construção. Conquistou com o seu terceiro livro Reescritura (2016) o IV Prêmio de Poesia Experimental Francisco Pino, da Fundação Jorge Guillén, na Espanha. Também recebeu o prêmio Federico García Lorca em 1997 pelo conto “El pabellón de los elefantes”. Seu segundo poemário, El Gran Norte, publicado originalmente em Granada em 2015, foi recentemente lançado em edição bilíngue castelhano-islandês em Reykjavík numa cooperação entre as duas Cidades da Literatura da Unesco, Granada e Reykjavík, em tradução islandesa de Elías Knörr e Guðrún H. Tulinius. É dessa edição que foram selecionados pelo próprio autor os poemas de tema islandês aqui traduzidos.

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

4 poemas islandeses do ciclo El gran norte

ETERNIDADE ANTERIOR

A eternidade anterior se acaba.
Não há ninguém que se lembre, nem resenha nem sorte nem letras nem calor.
Eternidade anterior, prados cor de cinza.

ETERNIDAD ANTERIOR

La eternidad anterior se acaba.
Nada hay que la recuerde, ni reseña ni suerte ni letras ni calor.
Eternidad anterior, prados color ceniza.

§

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

No fundo do homem mais afável dormem os assassinos olho vivo alerta.
No fundo repousa uma tumba de grama nunca pisada, ocidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos da fumaça que brota da terra, teus olhos desenhadores mestres da palavra.
No fundo do homem, em suas costas longínquas, sonolento intranquilo o estratega
um plano para hospedar os escondidos.
No fundo do homem uma entrada assinala o início descida queda voo ao centro
da terra.

VIAJE AL CENTRO DE LA TIERRA

En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada, occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída vuelo al centro
de la tierra.

§

PRIMEIRA CARTA DOS APÓSTOLOS

Difundindo a palavra chegamos à costa dos gelos
Vivem nove pessoas e todas elas cantam pelas tardes
Águas negras abrigam os defuntos que agarram com suas mãos as alturas
E todos cegos mudos dançam ao redor das fogueiras
Cada dia leva o nome de um ataque mortal e as cimeiras são portas
Há uma deusa
Recordamo-nos muito de ti mas já não lembramos se vives ou não
Com imensa tristeza o favorito em sonho manda-te um abraço
Todos nossos navios reduziram-se a escombros e concreto esgarçado
Lascas que alimentam as fogueiras nevasca temporal anticiclone tormenta
Ameaça de chuva vivem nove pessoas nove casas
À noite lemos os nossos livros e eles ainda nos batizam mil vezes menos uma
E páginas escritas com teu sangue tornaram-se finos troncos vegetais
As mulheres regam-nos a cada noite com seus cabelos e sua chuva água clara dor
O riso se apodera de nós
Tu que nunca riste
Todas as tuas fotografias estão emolduradas mas a umidade erode as rugas
Voltaste a ser um garoto
Na terra do tremor trovão das entranhas lagoa da cor da tua palavra
Lhes contamos ontem a última coisa que disseste ao te despedir
Entre vapores e rugidos

PRIMERA CARTA DE LOS APÓSTOLOS

Difundiendo la palabra llegamos a la costa de los hielos
Viven nueve personas y todas ellas cantan por las tardes
Aguas de color negro cobijan los difuntos que agarran con sus manos las alturas
Y todos ciegos mudos bailan alrededor de las hogueras
Cada día lleva el nombre de un ataque mortal y las cumbres son puertas
Hay una diosa
Nos acordamos mucho de ti pero no recordamos si ya vives o no
Con inmensa tristeza el favorito en sueños te envía un abrazo
Todos nuestros navíos quedaron reducidos a escombros y hormigón deshilachado
Astillas que alimentan las hogueras ventisca temporal anticiclón borrasca
Amenaza de lluvia viven nueve personas nueve casas
Por las noches leemos nuestros libros y ellos aún nos bautizan mil veces menos una
Y páginas escritas con tu sangre se han vuelto finos troncos vegetales
Las mujeres los riegan cada noche con su pelo y su lluvia agua clara dolor
La risa se apodera de nosotros
Tú que nunca reíste
Todas tus fotografías se encuentran enmarcadas pero la humedad erosiona las arrugas
Has vuelto a ser un niño
En la tierra temblor trueno de las entrañas laguna del color de tu palabra
Les contamos ayer lo último que dijiste al despedirte
En medio de vapores y rugidos

§

AQUI ONDE ESTOU NINGUÉM NUNCA ESTEVE

Onde o mapa termina é ali onde começa.
E para chegar não há sequer um trem, apenas uma rodovia, alguns carros.
O clima é bastante frio; pelas manhãs neva sob o dossel das casas.
A luz só se vê de tarde em tarde partindo as janelas em cruzes amarelas por um instante.
Há duchas nas ruas, água quente e garotos nus que nunca te cumprimentam.
Um pequeno Yago prodigioso presenteia a cidade com centenas de aves.
No Café Paris descendo o sótão um mapa nos recorda que a Europa existe.
A catedral católica é o castelo sujo das crianças.
Neva pela manhã e a neve esgueira-se sob a terra negra das ruas levemente empinadas.
Às vezes chega um barco e todos desabotoam suas camisas sinal de alegria.
Às vezes toca a hora na torre vigia tremendamente antiga erguida há dez anos.
Às vezes as montanhas não tão altas conseguem aparecer por trás das estátuas.
São doces as estátuas, uma para cada mês, são todas pretas.
O clima é bastante frio; neva pelas manhãs e pelas tardes chove, o guarda-chuva não faz falta.
Acendem-se pela tarde as luzes das ruas, passam alguns carros.

AQUÍ DONDE YO ESTOY NO HA ESTADO NADIE NUNCA

Donde termina el mapa es allí donde empieza.
Y no hay para llegar ni un solo tren, sólo una carretera, algunos coches.
Es un clima muy frío; por las mañanas nieva bajo los alerones de las casas.
La luz sólo se ve de tarde en tarde partiendo las ventanas en cruces amarillas un instante.
Hay duchas en las calles, agua caliente y muchachos desnudos que nunca te saludan.
Un Iago pequeño y prodigioso regala a la ciudad cientos de aves.
En el café París al bajar a los sótanos un mapa nos recuerda la existencia de Europa.
La catedral católica es el castillo sucio de los niños.
Nieva por la mañana y la nieve se cuela bajo la tierra negra de las calles levemente
empinadas.
A veces llega un barco y todos desabrochan sus camisas en señal de alegría.
A veces suena el tiempo en la torre vigía inmensamente antigua construida hace
diez años.
A veces las montañas no muy altas logran aparecer detrás de las estatuas.
Son doce las estatuas, una por cada mes, todas son negras.
Es un clima muy frío; nieva por las mañanas y por la tarde llueve, no hace falta
paraguas.
Se encienden por las tardes las luces de las calles, pasan algunos coches.

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Poesia nórdica| Einar Már Guðmunsson, por Luciano Dutra

Foto: Gassi

Einar Már Gudmundsson (n. 18 de setembro 1954 em Reykjavík, capital da Islândia) é romancista, poeta e ensaísta. Estreou na literatura em 1980 com um volume de poemas e, desde então, já publicou mais de vinte obras. Teve seus livros traduzidos em mais de trinta idiomas. Anjos do Universo (Englar alheimsins), publicado também no Brasil (trad. de Luciano Dutra, São Paulo, Hedra, 2013) foi agraciado com o Prêmio Nórdico de Literatura em 1995, concedido pela mesma Academia do Prêmio Nobel. Um filme de longa metragem homônimo baseado no romance foi produzido pelo cineasta islandês Friðrik Thór Friðriksson.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

 HOMERO, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Numa tarde pesada de chuva,
num navio de um sonho que andou pelo mundo,
o contador de histórias Homero aportou em Reykjavík.
Saindo do cais
ele pegou um táxi que o conduziu
por ruas cinzentas de chuva
passando por casas tristonhas.

Numa esquina o contador de histórias Homero se virou
para o motorista e disse:
“E pensar
que aqui nessa modorra
cinzenta de chuva
vive uma nação de contadores de histórias!”
“Essa é exatamente a razão”, o motorista respondeu,
“nunca se quer mais
ouvir uma boa história
do que quando as gotas da chuva
golpeiam os vidros das janelas”

SAGNAÞULURINN HÓMER

Eitt regnþungt síðdegi,
á skipi úr viðförlum draumi,
kom sagnaþulurinn Hómer til Reykjavíkur.
Hann gekk frá hafnarbakkanum
og tók leigubíl sem ók með hann
eftir regngráum götum
þar sem dapurleg hús liðu hjá.

Við gatnamót sneri sagnaþulurinn Hómer
sér að bílstjóranum og sagði:
„Hvernig er hægt að ímynda sér
að hér í þessu regngráa
tilbreytingarleysi búi söguþjóð?“
„Það er einmitt ástæðan,“ svaraði bílstjórinn,
„aldrei langar mann jafn mikið
að heyra góða sögu og þegar droparnir
lemja rúðurnar.“

§

A TRIBUNA DO DESTINO

Não venha me falar em
países grandes e países pequenos,
cu de Judas, fim do mundo, periferia.

Vivemos numa esfera; o centro
está bem debaixo dos teus pés
e muda de lugar, seguindo-
te aonde quer que vás.

*

Eis ali o país
em que os continentes se correspondem
em sua busca de silêncio e seixos.

Considera a geleira,
vê como ela perambula no azul
como urso polar em andança pelo mundo.

Portas se abrem nos sonhos
e a escuridão flui
feito lágrimas sono afora.

*

Eis ali o país
onde o tempo cai
como um jornal que escorre pela escotilha da correspondência
mas não há assinante algum,
nem espaço algum,
apenas um abismo
onde as estrelas brilham.

Ao afundarmos
no pantanal da noite
puxamos os próprios cabelos.

*

A Via Láctea
é uma rua num vilarejo,
o destino, uma rede
lançada sobre as casas,
brindamos
com profundidades pelágicas entre nós.

As auroras boreais
ardem no beco.

*

Estou à espera de uma tonelada de sentimentos.
Alguém me ajuda a descarregar?

RÆÐUPÚLT ÖRLAGANNA

Ekki tala um
stórar þjóðr og litlar þjóðir,
útkjálka, heimshorn og jaðra.

Þetta er hnöttur; miðjan
hvílir undir iljum þínum
og færist úr stað og eltir
þig hvert sem þú ferð.

*

Hér er landið
þar sem heimsálfurnar skrifast á
í leit sinni að þögn og grjóti.

Sjáðu jökulinn,
hvernig hann vappar um blámann
einsog ísbjörð á leið yfir heiminn.

Í draumnum opnast dyr
og myrkrið flæðir
sem tár gegnum svefninn.

*

Hér er landið
þar sem tíminn fellur
einsog dagblað í gegnum lúgu,
en það er einginn áskrifandi,
ekkert rúm,
aðeins hyldýpi
þar sem stjörnurnar glitra.

Þegar vi sökkvum
í fen næturinnar
drögum við okkur upp á hárinu.

*

Vetrarbrautin
er gata í litlu þorpi,

örlögin net
sem leggjast yfir húsin,
við skálum
með hafdjúpin á milli okkar.

Norðurljósin
loga við stíginn.

*

Ég á von á tonni of tilfinningum.
Vill einhver hjálpa mér að landa?

§

ESBOÇO DE POÉTICA

Talvez as palavras emerjam
do oceano
como salva-vidas.

Peixes e pássaros,
asas e caudas:
entre isso, o homem.

Quanto mais fundo mergulho
mais alto eu voo.

DRÖG AÐ SKÁLDSKAPARFRÆÐUM

Kannski koma orðin
upp úr hafinu
eins og lífsbjörgin.

Fiskar og fuglar,
vængir og sporðar:
þar á milli er maðurinn.

Því dýpra sem ég kafa
því hærra flýg ég.

§

A GURIA QUE AMASTE…

A revolução é como a guria que amaste um dia.
Achavas que ela também te amava
e que tu jamais iria amar nenhuma outra.
Mas um dia ela acabou contigo.
Tua tristeza foi incomensuravelmente profunda no vazio dos dias.
Hoje, passado tanto tempo, vês que ela nem era aquilo tudo
e não entendes como pudeste um dia
ter te apaixonado por ela.

Faz sentido, pois já não trazes mais no coração
a força magnética que te atraiu para ela…
pois a guria que amaste um dia
não é a guria que amaste
mas sim o anseio,
a busca que te fez partir,
não com o objetivo de encontrar
mas sim de buscar o que perdeste
para poder perder o que encontraste.

STELPAN SEM ÞÚ ELSKAÐIR …

Byltingin er einsog stelpan sem þú elskaðir einu sinni.
Þú hélst hú elskaði þig líka
og að þú myndir aldrei elska neina aðra.
En dag nokkurn sagði hún þér upp.
Sorg þín var ómælisdjúp í tómleika daganna.
Nú löngu síðar sérðu að það var ekkert varið í hana
og furðar þig á því að þú skulur nokkru sinni
hafa orðið ástfanginn af henni.

Og þó, ef segulkrafturinn sem dró þig að henni
er ekki lengur í hjarta þínu …
því stúlkan sem þú elskaðir einu sinni
er ekki stúlkan sem þú elskaðir,
heldur þráin,
leitin sem lagði af stað með þig,
ekki til að finna,
heldur leita að því sem þú týndir
til að geta týnt því sem þú fannst.

§

NÃO CONSIGO PARAR

não consigo parar
na esquina dos teus lábios
apesar de eles serem vermelhos
como as sinaleiras

ÉG GET EKKI STOPPAÐ

ég get ekki stoppað
við gatnamót vara þinna
þó þær séu rauðar
einsog götuljósin

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Poesia Nórdica| Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen, por Luciano Dutra

Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen 

 

Carl Johan Jensen (n. 2 de dezembro de 1957 em Tórshavn, capital do arquipélago das Feroés) é há mais de um quarto de século uma das personalidades mais atuantes da cultura feroesa seja como poeta, jornalista, ficcionista, articulista, crítico literário e tradutor. Além disso, atua como tradutor. Foi agraciado com o prêmio feroês de literatura em seu país em três ocasiões (1989, 2006 e 2015). Foi indicado cinco vezes ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico. Obras de Carl Jóhan já foram traduzidas e publicadas em livros, coletâneas e revistas na Dinamarca, na Noruega, na Suécia, na Islândia, nos Países Baixos, na Alemanha, nos EUA e agora no Brasil. A poesia de Carl Jóhan Jensen é do tipo que lança um desafio ao leitor: decifra-me ou te devoro. Não é a poesia palatável dos poemas no ônibus ou no metrô, mas sim linguagem em convulsão que faz lembrar da cerimônia iniciática enfrentada por Óðinn, a divindade-mor da antiga religião nórdica, e que o levou a “conhecer” ou “inventar” as runas, as quais depois compartilhou com as outras divindades e demais habitantes do universo nórdico: os homens, “gente oculta” (huldufólk) e os trolls. Mais do que poesia, é ποίησις, na qual o poeta traduz o não-ser para que seja. Se Carl Jóhan fosse filósofo de ofício, talvez sua máxima fosse: “Digo, escrevo, logo há”. Carl Jóhan Jensen irá participar no dia 12 de novembro da Presença Nórdica na Feira do Livro de Porto Alegre, ocasião em que será lançada o herbário poético bilíngue Nona Manhã, publicado pela parceria editorial Moinhos+Sagarana até onde se saiba a primeira obra de autor feroês, seja em verso ou em prosa, traduzida diretamente para o português. Os três poemas aqui publicados foram extraídas de Nona Manhã.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, microeditora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

Eu

E vês a folha
que oscila por um átimo
no ar agitado
sobre as cinzas
em brasa? —

Eg

Og sært tú blaðið
sum ørstutt blakast
í giddandi luft
yvir glóðandi
eimi? —

§

Tu

tu és a mão que alivia
e a chuva que liberta
tu és lua e estrela
saibro sob meus pés
tu és oceano suspirando
e a palavra que será

tú ert lógvin sum lygnir
og regnið sum loysir
tú ert máni og stjørna
steinspjað við fót mín
tú ert hafið sum andar
og orðið sum blívur

§

Bem-me-quer

és o mistério da neve que para
e és também a terra

a pele exótica e o dorso da mão
outra vez vindo do nada

Gloymmegei

tú ert fannaslit á gátum
og mold ert tú við

fremmand húð og lógvi
uppaftur úr ongum

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Poesia nórdica| Karin Boye, por Luciano Dutra

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

• • •

Três versões de I rörelse, poema de Karin Boye (1900-1941), por Luciano Dutra 

(1)
De passagem

O melhor dia não é o que satisfaz:
o melhor dos dias é um dia voraz.

Nossa viagem quiçá até tem um fim
mas a estrada é o que vale pra mim.

Bom é descansar num fim de tarde:
o fogo se acende e o pão se reparte.

No lugar onde dormimos apenas um dia
o sono é tranquilo e o sonho, melodia.

Desperta, que o novo dia já te incita!
Tão grande, nossa aventura é infinita.

§

(2)
Em trânsito

O melhor dia é o que não se consome
pois o melhor dia é um dia de fome.

Pode até ser que haja um fim da linha
mas o que de fato importa é o caminho.

Ai, como é bom parar ao entardecer,
o pão repartir, a fogueira acender.

No lugar onde passamos uma noite única,
o sono é suave e os sonhos são música.

Acorda! Que o sol já renasce no levante.
Nossa aventura é sem fim, de tão grande.

§

(3)
Em movimento

O melhor dia não é o de saciedade
mas sim quando a sede ainda arde.

Algum destino terá a nossa jornada
mas a viagem vale mais que nada.

Parada noturna é o melhor destino:
a fogueira acesa e o pão peregrino.

Lá onde a gente dorme uma vez só
é doce o sono e os sonhos sonoros.

Acorda! Que o novo dia amanheça!
Infinita é a nossa aventura imensa.

§

I rörelse

Den mätta dagen, den är aldrig störst.
Den bästa dagen är en dag av törst.

Nog finns det mål och mening i vår färd —
men det är vägen, som är mödan värd.

Det bästa målet är en nattlång rast,
där elden tänds och brödet bryts i hast.

På ställen, där man sover blott en gång,
blir sömnen trygg och drömmen full av sång.

Bryt upp, bryt upp! Den nya dagen gryr.
Oändligt är vårt stora äventyr.

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Poesia Nórdica| A poética de Snorri Sturluson, por Luciano Dutra

Snorri Sturluson (1179-1241)

, que legaste una mitología
de hielo y fuego a la filial memoria,
, que fijaste la violenta gloria
de tu estirpe de acero y de osadía,
sentiste con asombro en una tarde
de espadas que tu triste carne humana
temblaba. En esa tarde sin mañana
te fue dado saber que eras cobarde.
En la noche de Islandia, la salobre
borrasca mueve el mar. Está cercada
tu casa. Has bebido hasta las heces
el deshonor inolvidable. Sobre
tu pálida cabeza cae la espada
como en tu libro cayó tantas veces.

(Jorge Luis Borges, 1964)

O destinatário desse soneto de Borges é o autor do texto traduzido como abre-alas do que se pretende ser uma contribuição nórdica regular na Escamandro. Um texto em prosa para abrir uma seção de poesia traduzida pode parecer algo paradóxico. Mas quem chegar até o final da tradução e seguir acompanhando essa aventura poética pelos mares do norte vai perceber aos poucos que este trecho do livro Poética (Skáldskaparmál, em islandês antigo) é a moldura necessária para este quadro que iremos pintando, pincelada a pincelada, com cores islandesas, feroesas, norueguesas, dinamarquesas, suecas, finlandesas e, eventualmente, groenlandesas e lapãs (essas mediadas pelos idiomas nórdicos germânicos).

 

Snorri Sturluson foi, além de um dos raríssimos escritores islandeses da era de ouro da literatura nessa língua, também caudilho que complicou sua biografia e no limite pagou com a própria vida por tentar servir a dois senhores: a independência da mancomunidade islandesa, com lei mas sem rei, sem poder executivo central para fazer as decisões tomadas por uma oligarquia exilada da Noruega (onde se recusaram a comungar do sonho de um reino unificado patrocinado pelo rei Haraldur Belas-Melenas), e esse mesmo reino em ascensão, a Noruega, torrão natal dos colonos que fizeram da Islândia, a partir do último quartel do século IX, uma das únicas nações duradouras resultantes da chamada era víquingue.

Snorri, cuja vida coincidiu com parte do período que viu nascer a literatura das sagas, é o autor de uma história mítico-biográfica das dinastias escandinavas (Heimskringla ou Orbe do Mundo), de uma saga que conta as aventuras de um poeta-pirata pela Islândia e pelas ilhas britânicas (Egils saga Skallagrímssonar ou Saga de Egill Skallagrímsson) e, principalmente de um compêndio dividido em três partes onde cataloga os metros tradicionais germânicos, a origem das kenningar, um gênero de metáforas tão caras a Borges (que escreveu sobre elas pelo menos um ensaio completo, além de dedica-las um belo capítulo no seu Literaturas germánicas medievales) e os mitos nórdicos sobre a origem do mundo e dos deuses do panteão nórdico-germânico, conhecimentos que na época de Snorri vinham se extraviando devido à influência cristã na cultura originária da Islândia (Snorra Edda ou Edda de Snorri). Skáldskaparmál ou Poética é a segunda parte da Snorra Edda. Dela traduzimos dois capítulos onde o autor resgata o mito da origem da erudição e, o que mais nos interessa, da poesia.

* * *

Capítulos 5 e 6 de Skáldskaparmál (Poética) de Snorri Sturluson (1179-1241)

 

5 A origem do hidromel de Suttungur

E outra vez perguntou Ægir: ”Como teve início a arte a que chamais poesia?”

Bragi responde: ”Ela teve origem quando os deuses[1] tiveram uma desavença com um povo chamado os vânios.[2] Então eles se reuniram para conciliar e fizeram um acordo de paz de tal forma que todos de ambos os lados foram até uma tina e cuspiram nela. Ao se despedirem, os deuses concluíram que não queriam deixar aquele signo de paz se perder e criaram a partir dele um homem. Tal homem se chama Kvasir. Ele é tão sábio que ninguém lhe pergunta coisa alguma que ele não saiba a resposta.

Ele andava por todo o mundo ensinando as ciências aos homens, e um dia foi convidado a visitar a morada de uns anões, Fjalar e Galar, então eles o chamaram para conversar a sós e o mataram, deixaram o sangue dele escorrer em duas tinas e uma caldeira, a qual se chama Óðrerir, já as tinas se chamam Són e Boðn. Misturaram mel no sangue, e disso surgiu um hidromel tal do qual, quem quer que beba, torna-se poeta ou erudito. Os anões disseram aos ásios que Kvasir havia sufocado de tanto conhecimento, pois não havia ninguém tão sábio capaz de lhe fazer perguntas para extrair a sabedoria.

Então aqueles anões convidaram a lhes visitar o gigante chamado Gillingur e a esposa desse. Então os anões chamaram Gillingur para ir com eles remar no mar. Porém, tão logo se afastaram da terra firme, os anões remaram contra a maré e viraram o barco. Gillingur não sabia nadar e pereceu, então os anões desviraram o seu barco e remaram à terra firme. Contaram aquele ocorrido à esposa, e ela começou a passar mal e chorava alto. Então Fjalar perguntou se ela se sentiria mais aliviada se avistasse o lugar o mar onde ele havia perecido, e ela queria. Então ele disse a Galar, seu irmão, que fosse até lá em cima e, quando ela saísse pela porta, deixasse uma mó cair na cabeça dela, dizendo que os urros dela o aborreciam. E assim ele fez.

Quando o gigante Suttungur, filho de Gillingur, ficou sabendo daquilo, foi até lá e pegou os anões e levou-os ao mar e colocou-os num atol de maré baixa.[3] Eles imploram a Suttungur por sua vida e como conciliação oferecem pelo homizio do pai o precioso hidromel, e com isso se reconciliam. Suttungur leva para casa o hidromel e o guarda no penhasco chamado Hnitbjörg, deixando lá a sua filha Gunnlöð de guardiã. Por isso chamamos nós outros a poesia sangue de Kvasir ou bebida de anões ou enchimento ou qualquer forma de conteúdo de Óðrerir ou Boðn ou Són ou óbulo de anões, pois o tal hidromel salvou a vida deles no atol, ou hidromel de Suttungur ou fluído de Hnitbjörg.”

Então disse Ægir: ”Parece-me cousa funesta chamar a poesia por esses nomes. Mas como foi que os ásios se apossaram do hidromel de Suttungur?”

6 De como Óðinn se apossou do hidromel

Bragi responde: “Reza a lenda que Óðinn partiu de sua morada e chegou num lugar onde nove escravos cortavam feno. Pergunta se eles gostariam que ele afiasse as gadanhas deles. Eles aceitam. Então ele tira uma pedra de amolar do seu cinto e afiou as gadanhas, eles acharam que as gadanhas agora cortavam muito melhor e pediram que ele lhes desse aquela pedra, ao que ele porém respondeu que quem a quisesse comprar teria que pagar um preço alto. Mas todos se disseram dispostos e rogaram-lhe que a vendesse, porém ele a arremessou ao ar. Mas como todos queriam agarrá-la, se precipitaram de tal forma que cada um passou a gadanha no pescoço do outro.

Óðinn foi pedir pousada para aquela noite a um gigante chamado Baugi, irmão de Suttungur. Baugi reclamou que tinha poucas reses[4] e contou que seus nove escravos haviam morrido, e que não sabia de onde poderia conseguir outra mão de obra. Então Óðinn disse se chamar Bölverkur. Se ofereceu para trabalhar por nove para Baugi, pelo que exigia como salário um trago do hidromel de Suttungur. Baugi afirmou não ter como conseguir hidromel, disse que Suttungur guardava-o apenas para si mesmo, mas que iria com Bölverkur tentar obter hidromel.

Bölverkur fez durante o verão o trabalho de nove homens para Baugi, mas chegado o inverno exigiu de Baugi o seu salário. Então foram ambos até Suttungur. Baugi conta a Suttungu, seu irmão, o que ele e Bölverkur haviam contratado, mas Suttungur se recusa terminantemente a dar sequer um gota do hidromel. Então Bölverkur diz a Baugi que deveriam tentar arrumar alguma artimanha para poder conseguir o hidromel, ao que Baugi consente. Então Bölverkur puxa uma furadeira chamada Rati e pede a Baugi para furar o penhasco se a furadeira aguentar. Ele assim o faz. Então Baugi diz que a furadeira atravessou o penhasco: Bölverkur sopra pelo furo mas a serragem volta ruidosamente contra ele. Com isso ele percebe que Baugi queria traí-lo, e pede que ele fure o penhasco até o fim. Baugi fura mais uma vez, Bölverkur sopra novamente e dessa vez a serragem cai do outro lado. Então Bölverkur assume a forma de serpente e desliza pelo furo, mas Baugi tenta acertá-lo com a furadeira mas erra o alvo.

Bölverkur vai até onde Gunnlöð montava guarda e se deitou com ela por três noites, e ela permitiu que ele tomasse três tragos de hidromel. Na primeira tragada, ele esvaziou Óðreri, na segunda Boðn, na terceira Són, e com isso ficou com todo o hidromel. Então ele assumiu a forma de águia e voou o mais rápido possível.

Porém, quando Suttungur notou o voo da ave, assumiu também a forma de águia e saiu em revoada atrás dela. No entanto, os ásios viram quando Óðinn se aproximou voando: botaram as suas tinas no jardim, e ao entrar em Ásgarður,[5] Óðinn cuspiu o hidromel nas tinas, mas como estava quase a ponto de ser alcançado por Suttungur, se apressou em cuspir todo o hidromel, e uma parte de perdeu. A parte desperdiçada ficou ao alcance de qualquer um, por isso a essa parte chamamos hidromel de poetastro. De resto, Óðinn concedeu o hidromel de Suttungur aos ásios e aos homens que sabem poetar. Por isso chamamos a poesia despojos de Óðinn e de achado e bebida de Óðinn e presente de Óðinn e bebida dos ásios.”

§

(5) Upphaf Suttungamjaðar.

Ok enn mælti Ægir: “Hvaðan af hefir hafizt sú íþrótt, er þér kallið skáldskap?”

Bragi svarar: “Þat váru upphöf til þess, at goðin höfðu ósætt við þat fólk, er Vanir heita. En þeir lögðu með sér friðstefnu ok settu grið á þá lund, at þeir gengu hvárirtveggju til eins kers ok spýttu í hráka sínum. En at skilnaði þá tóku goðin ok vildu eigi láta týnast þat griðamark ok sköpuðu þar ór mann. Sá heitir Kvasir. Hann er svá vitr, at engi spyrr hann þeira hluta, er eigi kann hann órlausn.

Hann fór víða um heim at kenna mönnum fræði, ok þá er hann kom at heimboði til dverga nökkurra, Fjalars ok Galars, þá kölluðu þeir hann með sér á einmæli ok drápu hann, létu renna blóð hans í tvau ker ok einn ketil, ok heitir sá Óðrerir, en kerin heita Són ok Boðn. Þeir blendu hunangi við blóðit, ok varð þar af mjöðr sá, er hverr, er af drekkr, verðr skáld eða fræðamaðr. Dvergarnir sögðu ásum, at Kvasir hefði kafnat í mannviti, fyrir því at engi var þar svá fróðr, at spyrja kynni hann fróðleiks.

Þá buðu þessir dvergar til sín jötni þeim, er Gillingr heitir, ok konu hans. Þá buðu dvergarnir Gillingi at róa á sæ með sér. En er þeir fóru fyrir land fram, reru dvergarnir á boða ok hvelfðu skipinu. Gillingr var ósyndr, ok týndist hann, en dvergarnir réttu skip sitt ok reru til lands. Þeir sögðu konu hans þenna atburð, en hon kunni illa ok grét hátt. Þá spurði Fjalarr hana, ef henni myndi hugléttara, ef hon sæi út á sæinn, þar er hann hafði týnzt, en hon vildi þat. Þá mælti hann við Galar, bróður sinn, at hann skal fara upp yfir dyrrnar, er hon gengi út, ok láta kvernstein falla í höfuð henni, ok talði sér leiðast óp hennar. Ok svá gerði hann.

Þá er þetta spurði Suttungr jötunn, sonr Gillings, ferr hann til ok tók dvergana ok flytr á sæ út ok setr þá í flæðarsker. Þeir biðja Suttung sér lífsgriða ok bjóða honum til sættar í fóðurgjald mjöðinn dýra, ok þat verðr at sætt með þeim. Flytr Suttungr mjöðinn heim ok hirðir, þar sem heita Hnitbjörg, setr þar til gæzlu dóttur sína, Gunnlöðu. Af þessu köllum vér skáldskap Kvasis blóð eða dvergadrekku eða fylli eða nökkurs konar lög Óðreris eða Boðnar eða Sónar eða farskost dverga, fyrir því at sá mjöðr flutti þeim fjörlausn ór skerinu, eða Suttungamjöð eða Hnitbjargalögr.”

Þá mælti Ægir: “Myrkt þykkir mér þat mælt at kalla skáldskap með þessum heitum. En hvernig kómuzt þér æsir at Suttungamiði?”

(6) Hversu Óðinn komst at miðinum.

Bragi svarar: “Sjá saga er til þess, at Óðinn fór heiman ok kom þar, er þrælar níu slógu hey. Hann spyrr, ef þeir vili, at hann brýni ljá þeira. Þeir játa því. Þá tekr hann hein af belti sér ok brýndi ljána, en þeim þótti bíta ljárnir miklu betr ok föluðu heinina, en hann mat svá, at sá, er kaupa vildi, skyldi gefa við hóf. En allir kváðust vilja ok báðu hann sér selja, en hann kastaði heininni í loft upp. En er allir vildu henda, þá skiptust þeir svá við, at hverr brá ljánum á háls öðrum.

Óðinn sótti til náttstaðar til jötuns þess, er Baugi hét, bróðir Suttungs. Baugi kallaði illt fjárhald sitt ok sagði, at þrælar hans níu höfðu drepizt, en talðist eigi vita sér ván verkmanna. En Óðinn nefndist fyrir honum Bölverkr. Hann bauð at taka upp níu manna verk fyrir Bauga, en mælti sér til kaups einn drykk af Suttungamiði. Baugi kvaðst einskis ráð eiga at miðinum, sagði, at Suttungr vildi einn hafa, en fara kveðst hann mundu með Bölverki, ok freista, ef þeir fengi mjöðinn.

Bölverkr vann um sumarit níu manna verk fyrir Bauga, en at vetri beiddi hann Bauga leigu sínnar. Þá fara þeir báðir til Suttungs. Baugi segir Suttungi, bróður sínum, kaup þeira Bölverks, en Suttungr synjar þverliga hvers dropa af miðinum. Þá mælti Bölverkr til Bauga, at þeir skyldu freista véla nökkurra, ef þeir megi ná miðinum, en Baugi lætr þat vel vera. Þá dregr Bölverkr fram nafar þann, er Rati heitir, ok mælti, at Baugi skal bora bjargit, ef nafarrinn bítr. Hann gerir svá. Þá segir Baugi, at gegnum er borat bjargit, en Bölverkr blæss í nafarsraufina, ok hrjóta spænirnir upp í móti honum. Þá fann hann, at Baugi vildi svíkja hann, ok bað bora gegnum bjargit. Baugi boraði enn, en er Bölverkr blés annat sinn, þá fuku inn spænirnir. Þá brást Bölverkr í ormslíki ok skreið inn í nafarsraufina, en Baugi stakk eftir honum nafrinum ok missti hans.

Fór Bölverkr þar til, sem Gunnlöð var, ok lá hjá henni þrjár nætr, ok þá lofaði hon honum at drekka af miðinum þrjá drykki. Í inum fyrsta drykk drakk hann allt ór Óðreri, en í öðrum ór Boðn, í inum þriðja ór Són, ok hafði hann þá allan mjöðinn. Þá brást hann í arnarham ok flaug sem ákafast.

En er Suttungr sá flug arnarins, tók hann sér arnarham ok flaug eftir honum. En er æsir sá, hvar Óðinn flaug, þá settu þeir út í garðinn ker sín, en er Óðinn kom inn of Ásgarð, þá spýtti hann upp miðinum í kerin, en honum var þá svá nær komit, at Suttungr myndi ná honum, at hann sendi aftr suman mjöðinn, ok var þess ekki gætt. Hafði þat hverr, er vildi, ok köllum vér þat skáldfífla hlut. En Suttungamjöð gaf Óðinn ásunum ok þeim mönnum, er yrkja kunnu. Því köllum vér skáldskapinn feng Óðins ok fund ok drykk hans ok gjöf hans ok drykk ásanna.”

[1] No sistema mitológico-religioso nórdico-antigo (isto é, pré-cristão), os deuses Ásios (æsir) foram uma linhagem posterior, à qual pertence o próprio Bragi, cujos apanágios são a poesia e a retórica. Ægir, o interlocutor de Bragi no trecho traduzido, é a divindade marítima dos antigos nórdicos.

[2] Os vânios (vanir) eram uma linhagem de deuses anterior à dos ásios.

[3] Ou seja, que ficava submerso na maré alta.

[4] Ou seja, que era pobre.

[5] Ásgarður (literalmente, Jardim ou Cidadela dos Ásios) é no sistema mitológico-religioso dos antigos nórdicos a morada dos ásios.

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Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia, tradutor juramentado islandês-português desde 2009. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia que influenciaram escritores modernos tão diversos quanto Jorge Luis Borges, Milan Kundera, William Morris, Kurt Vonnegut, Ted Hughes, William Blake, w.h. Auden, Walter Scott, William Morris, Robert Louis Stevenson, Thomas Hardy, Halldór Laxness, Henrik Ibsen, Jostein Gaarder e J.R.R. Tolkien. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, microeditora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português.
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