poesia

Lucio Carvalho (1971—)

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu calor
são plantas loucas as que alimentam
o cultivo da floresta
desordenada e íngreme
que me faz subir e subir
e nunca parar de subir –
que modo estranho elas têm
elas todas são tão igualmente
compenetradas e objetivas
na devoração das pedras
e no consumo da água
e vão extrair até a última gota
sem sacrifício
mas eu não sei para o que sirvo
nem o que vim fazer aqui
deve ser um sonho que não tive
e que me sonhou, de onde acordei
e deparei com a selva intacta
e o carinho feroz de seus animais
esse que tem a cara de antílope
é brando e quer tocar meu coração
com seus dedos desumanos
e aquela dríade que nasceu dentro de mim
vai a varrer minhas pegadas
e a engolir meu caminho
aqui não é como nas savanas
onde os rugidos prenunciam o óbvio
mas tudo é sorrateiro como as sombras
que ocultam o dia da noite
e vice-versa
é mais ou menos o caos completo
ninguém passa gritando ou buzinando
a regra é dita em rumores e o ramo de rosas
que se guarda sob a pele
só pode abrir-se por invocação
ao transformar-se em vapor
e nos perfumes do alimento
quando acabamos não há muito o que ver
nem entender nem acalmar
o tempo parou para eu tocar
nos poros e na seiva dos seres
e tudo o que existe lá fora
é apenas tédio e aborreceres
dizem por aí que viver é pouco
mais que haver comida e bebida
o bastante e coisas elementares
que se devem ter por direito
um dia desses posso dizer – quando sair daqui
a salvo e a sós, como deve ser o sujeito –
viver só vale a pena para provar seu efeito

§

À natureza

empenho aos seus olhos
como notas promissórias
duas dúzias de palavras
nas quais o silêncio envergonha-se
e começo a dizer outra vez
como tudo pode acontecer
é assim, espetado de ponta a ponta,
que atravesso meus dias
e as noites por sua vez atravessam-me
criando hiatos e prenúncios de véspera
(a criação é uma bandeira
trêmula e lunar nestes lugares)
eu sei que em breve
no vento que vem do oriente
nos sinais de um livro entre as estantes
nos versos que nunca fizeram sentido
eu nascerei na forma de palavras
que nunca esgrimiram, afora estas vinte
(fosse um lutador versátil
como um puma distante de casa
cuja fome especula a vítima
até que ela possa defender-se
enorme e inacessível
como uma montanha
teria gasto as unhas nas pedras
até que me convencesse por elas
do que deveria ou não fazer –
meu maior temor é temer
o sobejo soterramento
e eu vir abaixo)
estou à direita, no corredor ao lado
há um arbusto falso
que nunca me oferece certeza
se o que estou a ver
ou a fazer
pertence mesmo à natureza

§

Provisória

não espero fazer nada
e que tudo esteja cumprido
nem entender o que seja
mas estar desde já entendido
que quando abra meus olhos de dia
é que a noite foi esconder-se
o pouco que sei aprendi
sem lastro nem alicerce
como o acaso desenha nas nuvens
ou um algoz o machado afia
olhando bem em meus olhos
sou quem ele nem desconfia
ao juntar meus pedaços do chão
sossego a alma que grita
depois que tudo acabar-se
talvez eu a ela demita
a minha parte estará feita
não que isso melhore a história
querendo-a pouco ou demais
a vida é solução provisória

Anúncios
Padrão
poesia, tradução

Jennifer Franklin, por Lucio Carvalho

Jennifer Franklin é uma poeta norte-americana nascida e residente em Nova York. Formada em Inglês e Escrita Criativa pela Brown University e pela Columbia University School of The Arts, leciona e ministra oficinas de poesia no Hudson Valley Writers’ Center. Também é co-editora da Slapering Hol Press, editora dedicada a pequenas tiragens de autores emergentes. Estreou na coleção Ten New Poets, da Paris Review #141, e a seguir publicou em revistas como Pequod, The Nation, Boston Review, Salmagundi e Guernica. Publicou em 2011 o chapbook Persephone’s Ransom e, em 2015, o livro Looming, que recebeu o 14th Annual Editor’s Prize da Elixir Press. Em 2013, através do livro Far from the Tree, de Andrew Solomon, trechos de sua poesia, marcada pela confluência da descoberta do autismo em sua filha de dois anos e seus estudos em mitologia greco-latina, apareceram pela primeira vez no Brasil. Os poemas aqui traduzidos estão publicados em Looming.

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Gostaria que o meu amor morresse
     a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não te amasse

Tanto. Se eu pudesse levar meu coração
Até ao inverno, eu não poderia fazer isso

Por mais ninguém. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
Então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animal pequeno, mas ele é.

I would like my love to die
after Beckett

I would like my love to die
Or at least that I didn’t love you

So much. If I could turn my heart
To winter, I wouldn’t need to do this

To the earth. If you didn’t smile
In your sleep or touch my face

With tenderness, I could walk away
From you when you left through

The trap door of my hosta-lined heart
Without looking back. I wish I didn’t love

You so much. I would like my love to die
So I wouldn’t have to murder everything

Around me. So I wouldn’t have to be
The hunter I have become. But you’re

Not going to release me from your unnatural
Embrace. You pin me beside you with your

Thin arm around my neck. It doesn’t look
Strong enough to hold a small animal; but it is.

§

Amazona ferida

Com seu rosto sereno e inclinado que não
denunciará a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que você conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu tamanho

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito para você e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu só espero

Ter aprendido suas lições o quanto antes e você
Não tenha me visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você
Me quer assim, o terror branco ocultando meus olhos

Vazios, o freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse o côncavo do meu vazio o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não iria

Permitir que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

Wounded Amazon

With her serene, slanted face that will
Not betray pain, I can look at her again.

You always loved her—the first work
Of art you knew by name. Each week

You brought me to her. Distracted
By joy at seeing her tall marble form,

I didn’t realize you were showing me
Whom I needed to become to protect

You from all you did not understand—
The strong woman looming above life,

Having learned to feel every lashing,
Every cut and remain poised, blank eyes

Taking everything. You knew she was
The mother you needed who could bare

Her breast for you and bleed without
Expression of grief or regret. I wish

I learned your lessons sooner and you
Had not seen me shed so many tears. I should

Have stood above you like a rock, leaning
On a pillar for strength, my arm above

My head and bloodless wound. You want me
This way, my white terror masking my empty

Eyes, horse’s bridle belting my ripped garb—
Naked for you to see—my back concave enough

To hold the weight of all your worries. I pretend
To be her, standing on strong legs that refuse

To hold me up. She cannot love you. If I were
That strong, you would be lost. She would not

Let you burrow your head below her cut, cold
Breast and sing your indistinguishable song.

§

O corpo de minha filha

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se desloca para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos torna-se
tão precário quanto o dela e escapam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico
Em silêncio. Com o sorriso dela me cauterizando, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta que ela guarda

Suavemente, sem rasgar as pétalas, como ela faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela se enrola em mim para ninar –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro na mesma posição em que estamos
Agora. Eles foram enterrados em uma posição incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós em seu último suspiro

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

My Daughter’s Body

If you saw her, you would think she was beautiful.
Strangers stop me on the street to say it.

If they talk to her they see that this beauty
Means nothing. Their sight shifts to pigeons

On the sidewalk. Their eye contact becomes
As poor as hers. They slip away slowly,

With varying degrees of grace. I never know
How much to say to explain the heartbreak.

Sometimes, I tell them. More often,
I remain silent. As her smile sears me, I hold

Her hand all the way home from the swings.
The florist hands her a dying rose and she holds it

Gently without ripping the petals like she does
To the tulips that stare at us with their insipid faces,

Pretending that they can hold my sorrow
In their outstretched cups because I knew them

Before I knew grief. They do not understand that
They are ruined for me now. I planted five hundred

Bulbs as she grew inside of me, her brain already
Formed by strands of our damaged DNA

Or something else the doctors don’t understand.
After her bath, she curls up on me for lullabies—

The only time during the day that her small body is still.
As I sing, I breathe in her shampooed hair and think

Of the skeletons in the Musée de Préhistoire
In Les Eyzies. The bones of the mother and baby

Lie in a glass case in the same position we are
In now. They were buried in that unusual pose,

Child curled up in the crook of the mother’s arm.
The archaeologists are puzzled by the position.

It doesn’t surprise me at all. It would be so easy
To die this way—both of us taking our last breaths

With nursery rhymes on our open lips
And the promise of peaceful sleep.

Padrão