crítica, poesia

A mulher do fim do mundo, de Elza Soares, por Marcelo Sandmann

“Lágrima de samba na ponta dos pés”: uma audição de A mulher do fim do mundo, de Elza Soares

 Marcelo Sandmann

Concluído e lançado no segundo semestre de 2015, A mulher do fim do mundo, de Elza Soares, é um disco da maior importância. Coroa, de modo surpreendente, a carreira de uma das vozes mais originais de nossa música popular, além de definir alguns parâmetros a partir dos quais se pode avaliar melhor o cenário musical brasileiro recente.

Desde já vale ressaltar que se trata de um trabalho coletivo. Se leva na capa o nome da cantora em exclusivo, é porém tributário de um diálogo criativo entre ela e toda uma nova geração de músicos de São Paulo. Concebido, dirigido e produzido por Guilherme Kastrup, o projeto congrega artistas de destaque dessa geração (nas composições, arranjos e/ou participações musicais), como Celso Sim, Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Felipe Roseno, Cuca Ferreira, Bixiga 70, entre outros, além de incluir canções de Cacá Machado, Douglas Germano e José Miguel Wisnik.

Ao unir-se a esses nomes, Elza estabelece uma ponte entre tempos e espaços. Carioca da gema, herdeira e uma das protagonistas, desde finais da década de 1950, da rica tradição do samba do Rio de Janeiro, ela traz esse legado para um produtivo “atrito” com músicos significativamente mais jovens, cuja obra e lugar encontram-se ainda em aberto, todos eles radicados na cidade que tem estado à frente de muitas das mais importantes inovações artísticas do país, e herdeiros, eles mesmos, desse ímpeto renovador. E se digo “atrito”, é porque a palavra me parece realmente definidora do que acontece nos tantos planos implicados no trabalho, bem como no efeito sobre o público ouvinte.

Áspero e visceral – da voz às sonoridades, das letras às composições musicais – , A mulher do fim do mundo confronta e incomoda. Nesse sentido, penso que o disco contribui para reafirmar um certo lugar que a música brasileira costuma ocupar em seus melhores momentos, ao lado de manifestações artísticas como o cinema, o teatro e a literatura: pensar criticamente o país, seus impasses e contradições. Com exceção de trabalhos e artistas ligados ao rap e nomes um pouco mais inventivos do que ainda se pode chamar de MPB, a música popular recente, sobretudo a de maior visibilidade, tem se esquivado a esse papel. Aquilo que circula hegemonicamente nas rádios e tevês, nos shows e na internet é quase que exclusivamente puro entretenimento, ostentação vazia, acomodação a padrões de criação, fruição e comportamento.

Se é inescapável entender o disco a partir da trajetória artística da cantora e de sua conturbada biografia (e as resenhas e entrevistas saídas na imprensa desde o lançamento repisam insistentemente tal articulação arte/vida pessoal), convém entender a trajetória individual no que ela possa ter de arquetípico, como cifra de uma situação que escapa ao sujeito para dizer respeito a todo um coletivo. Mulher, de origem pobre, negra, de vida marcada por tragédias pessoais, artista que ascende pelo talento, mas que acaba por não ser absorvida por um star system que confere conforto material mas muitas vezes paralisia criativa e isolamento, Elza chega à velhice reafirmando radicalmente o desejo de renovar-se, de fazer música e de viver. Nesse percurso, entrevemos uma espécie de “história exemplar”, contra a qual projetamos outras histórias, as nossas próprias, ou as tantas que colhemos na vida brasileira.

E é disso que o repertório de 11 canções inéditas tira partido. Todas elas conversam com a história de Elza Soares, diretamente, o que dá a algumas delas evidentes contornos biográficos, ou indiretamente, como se a cantora fosse testemunha privilegiada de muitas das situações e personagens que canta, e que adquirem, assim, pela voz e pela autoridade que emana da voz, apelo de verdade e grande capacidade de comoção.

A voz, aliás, caracteristicamente rouca, parece ainda mais rouca, cansada e gasta, como se por sobre ela se acumulasse e adensasse a pátina do tempo e da vida. E à voz vêm somar-se arranjos e sonoridades, em que se destacam distorções e dissonâncias, e os gêneros musicais, por vezes em combinações híbridas, com o predomínio de samba, rock e afro-beat. As tonalidades são privilegiadamente menores, o que acentua o tom melancólico e muitas vezes sombrio do trabalho.

O disco começa e termina com a voz de Elza Soares, à capela, como se a ela coubessem exclusivamente as primeiras e as últimas palavras. A faixa de abertura, “Coração do Mar”, é composição musical de José Miguel Wisnik sobre versos de Oswald de Andrade, fragmento da obra O santeiro do mangue, de onde o mesmo Wisnik já retirara versos para outra canção interpretada por Elza, “Flores Horizontais”, do disco Do cóccix até o pescoço (2002), outro grande momento na discografia da cantora, com o qual A mulher do fim do mundo estabelece alguns diálogos.

O poema dramático-narrativo de Oswald, escrito entre 1935 e 1950, e por ele jocosamente designado de “mistério gozoso em forma de Ópera”, é todo ambientado na região do Mangue do Rio de Janeiro, tradicional zona de prostituição da cidade. O texto põe em cena, de maneira crua, por vezes brutal, e fundindo sátira, alegoria, lances de lirismo e denúncia social, a prostituta Eduléia, menina de 16 anos, ao lado de outras mulheres, bem como diversos personagens característicos desse universo de exploração econômica e sexual: gigolôs, cafetinas, clientes, policiais etc. Encontramos ainda alguns que estão para além dos tipos mais vincadamente realistas, e engrossam o plano alegórico, como “Jesus das Comidas” (“com residência no Corcovado”), “Satã” (“com residência no mundo”), “Anjos”, “Anjas”, “Mulheres de Jerusalém”.

Arrancados ao contexto original do poema, sem que se saiba da boca de que personagem vêm tais palavras e em que situação são proferidas, os escassos versos musicados por Wisnik deixam ao ouvinte muito em aberto: “Coração do mar / É terra que ninguém conhece / Permanece ao largo / E contém o próprio mundo como hospedeiro / (…) // Tem por bandeira um pedaço de sangue / Onde flui a correnteza do canal do mangue / (…) // É o navio humano, quente, negreiro do Mangue / É o navio humano, quente, guerreiro do Mangue”. Podemos entrever aqui uma caracterização do “Mangue” e do universo que ele congrega, percebido como um “navio negreiro/guerreiro”, cuja bandeira é “um pedaço de sangue”, espaço ao mesmo tempo de opressão/resistência, morte/vida, gozo/sofrimento. (No segmento original do poema, como a rubrica explicita, trata-se do “navio do marinheiro”, um dos personagens, e de sua equipagem, que atraca no cais do Mangue.) Pela voz de Elza Soares, no confronto com sua história e o que ela representa, e logo na abertura do disco, os versos definem ao mesmo tempo uma origem e uma condição fundamental.

A canção de abertura emenda na seguinte, através de passagem instrumental à base de cordas, com plangência que sublinha a da melodia cantada à capela e que prepara o samba lento e igualmente em tom menor que se desenvolve então. “Mulher do Fim do Mundo” (de Romulo Fróes e Alice Coutinho), canção que intitula o disco, funciona como balanço de vida e manifesto de intenções, ou intenção derradeira: “Meu choro não é nada além de carnaval / É lágrima de samba na ponta dos pés / (…) // Na avenida deixei lá / A pele preta e a minha voz / (…) / A minha fala, a minha opinião / A minha casa, minha solidão / (…) // Mulher / Do fim / Do mundo / Eu sou / Eu vou / Até o fim / Cantar”. A avenida dos desfiles das escolas de samba é a própria vida da cantora, percurso que ela perfaz com garra e dor, sambando e cantando, dando tudo o que sabe, tudo o que pode, tudo o que tem. E ao fim da avenida-vida, o que importa é insistir no canto, que é o bem maior que traz consigo, levando-o ao limite extremo: “até o fim cantar”.

Mas para além da experiência singular da mulher Elza Soares aqui evocada, convém reter a sugestiva expressão com que essa mesma mulher é caracterizada, desde o título, nomeando o disco, e com grande impacto ao final da canção: “mulher do fim do mundo eu sou”. Por que do “fim do mundo”? Que tempo/espaço define a experiência dessa mulher? Que distopia, que momento apocalíptico seria esse indicado aí?

Se algumas das canções seguintes giram à roda da temática do fim pessoal (como “Solto”, de Marcelo Cabral e Clima), ou de um momento paradoxalmente post-mortem/ainda-vida (como “Dança”, belo e estranho tango de Cacá Machado e Romulo Fróes), outras há que compõem uma cena mais ampla, dentro da qual surgem personagens e situações que abrem ainda mais o leque social. Elas definem mais claramente as coordenadas desse “fim do mundo”, que é na verdade um “tempo presente”, da grande cidade, do país, de uma crise.

“Firmeza?!” (de Rodrigo Campos), espécie de mantra sobre levada afro-beat, com frases algo soltas e repetidas a esboçar tentativa de diálogo entre dois personagens, pode servir de senha de acesso a esse universo de encontros e desencontros: “Beleza, mano? / Fica com Deus / Quando der a gente se tromba / Firmeza?! // Pena que o corre é mil grau // Você é meu irmão, moleque // Eu tô feliz com teu sucesso // E manda um beijo pra menina.”

“Luz Vermelha” (de Kiko Dinucci e Clima), em gênero musical de difícil definição, mas que tangencia em muitos momentos o rock (guitarras e distorções, levada rápida de bateria a certa altura), conversa muito de perto com O bandido da luz vermelha, o polêmico longa-metragem de estreia de Rogério Sganzerla, de 1968, filme ambientado na boca do lixo de uma São Paulo em convulsão, às vésperas do AI-5, em plena ditadura militar. Nele, criminalidade, corrupção política, marginalidade, caos urbano e informacional dão a tônica, num retrato violento, posto que debochado, da situação brasileira de então. Com alusão explícita já desde o título, a canção retoma cenas, situações, personagens, até falas deste filme, estabelecendo uma conexão entre tempos. Usando signos de uma obra cinematográfica de um passado recente para caracterizar o presente, a canção “Luz Vermelha” parece propor que o país gira em falso, vivendo os mesmos impasses, as mesmas questões. Ou ainda, que o presente amplifica aqueles impasses, para vivê-los como catástrofe.

Como se disse, são muitos os diálogos da canção com o filme. Por exemplo, a frase-leitmotiv que o “Bandido” de Sganzerla profere em diversos momentos (“quem estiver de sapato não sobra”), enigma/profecia de um tempo que diversas vezes se anuncia, surge com pequenas variações: “quem tem tamanco não sobra”, “quem tem cadarço não sobra”. O mesmo clima apocalítico, eivado de situações bizarras, aparece reiteradamente em versos como estes: “Bem que o anão me contou que o mundo vai terminar num poço cheio de merda”; “Quem tem cabeça e pulmão bexiga rim coração já vai pulando na cova”; “Tá na quebrada quebrou e o mundo todo afundou no dia da pá virada”. E, no centro de tudo, a violência urbana: “Do meio-dia no meio do tiroteio / Me deu receio do feio que veio lá.” Para então tudo concluir-se em clima de devastação: “Olha não tem ninguém na rua / Não vi ninguém no açougue / Não tem ninguém lá pra abandonar / Olha não tem ninguém na praça / Só tem um sol sem graça / Não tem ninguém pra ver e contar”.

“Benedita” (de Celso Sim, Pepê Mata, Joana Barossi e Fernanda Diamant), composição com ingredientes musicais que remetem à Vanguarda Paulista, é outra canção que traça um duro retrato da grande cidade. O protagonista é Benedito/Benedita, um travesti negro que é chefe do tráfico de crack e que enfrenta, sem medo, polícia e milícia. No início da canção, ainda com a identidade masculina, é nestes termos que surge evocado: “Benedito não foi encontrado / Deu perdido pra tudo que é lado / Esse nego que quebra o quebranto / Filho certo de tudo que é santo”. Para então metamorfosear-se: “Ele que surge naquela esquina / É bem mais que uma menina / Benedita é sua alcunha / E da muda não tem testemunha.” Figura forte em meio à bandidagem, ostenta desde logo as insígnias de sua superioridade e liderança: “Ela leva cartucho na teta / Ela abre a navalha na boca / Ela tem uma dupla caceta / A traveca é tera chefona.”

Pode-se ver aqui uma atualização de Madame Satã, posto que sem a aura de herói que cercava a mítica personagem do bairro da Lapa do Rio de Janeiro, na época de ouro do samba. Tendo a ver também uma retomada de outra figura, igualmente em chave deslocada, o Nego Dito, personagem e alter ego de Itamar Assumpção, que aparece em canção sua de mesmo nome: “Benedito João dos Santos Silva Beleléu / Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé / (…) // Eu me invoco e brigo / Eu faço e aconteço / Eu boto pra correr / Eu mato a cobra e mostro o pau / (…) // Se chamar polícia / Eu vou cortar tua cara / Vou retalhá-la, canalha, com navalha.” (Benedito, nome em comum, remete a São Benedito, santo de devoção negra. Benedito significa ainda “bendito”, a que se opõe “maldito”, pecha com que Itamar e outros músicos supostamente menos palatáveis para o gosto do público foram marcados pela imprensa e pela indústria do disco). Mas arriscaria lembrar ainda um outro personagem, contemporâneo de Nego Dito: Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé, “o periculoso marginal, o delinquente, o fascínora, o inimigo público número um”. (Há elementos musicais que cimentam a aproximação, como o recurso ao atonalismo em certas passagens; os riffs e ostinatos que vão se sucedendo, sobre os quais se desenvolve o canto meio falado, de caráter narrativo, cindindo a composição em blocos distintos; as combinações de guitarra, baixo e percussão, a que se somam igualmente densos e dissonantes naipes de metais.)

“Benedita” é canção de temática recente (o ambiente da Crackolândia de São Paulo, ou de qualquer outro grande centro urbano), que põe em cena uma figura que carrega diversos estigmas sociais: negro, travesti (homossexual, ou bissexual, ou transexual), líder do tráfico de drogas. Bandidos, traficantes, marginais compõem todo um vasto painel dentro do disco de Elza Soares, como vai se vendo. A violência é um tema recorrente e permeia muitas das canções.

“Maria da Vila Matilde” (samba de Douglas Germano) trata de um tipo específico de violência, a violência doméstica. Estabelece, em boa medida, pela temática e pelo gênero musical, um diálogo com a tradição da malandragem, porém pela perspectiva da mulher, e da mulher que reage à opressão masculina tantas vezes presente nesse universo (e nas relações homem/mulher, de um modo geral, para além do condicionante social): “Cadê meu celular? / Eu vou ligar prum oito zero / Vou entregar teu nome / E explicar meu endereço / Aqui você não entra mais / Eu digo que não te conheço / E jogo água fervendo / Se você se aventurar. // (…) Entrego teu baralho / Teu bloco de pule / Teu dado chumbado / (…) / Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim.” O homem que “canta de galo” e que agride a mulher quando chega é por ela confrontado, que apela à polícia (e à lei, como vem implicado no subtítulo/rubrica do samba: “Porque se a [Maria] da Penha é brava, imagine a da Vila Matilde”) e não tem pejo de expor sua covardia e outras fraquezas. Acabamos, assim, com um retrato pouco lisonjeiro desse homem: “mimado”, “cheio de dengo”, “mal acostumado”, com “nada no quengo” e, para coroar (agora num franco confronto com a sexualidade feminina), alguém que “deita, vira e dorme rapidim”.

Ainda a propósito da sexualidade feminina, e retornando ao universo da experiência individual, vale comentar um outro samba, agora mais acelerado, de Kiko Dinucci, explicitamente intitulado “Pra Fuder”. Cantado em primeira pessoa, ele define um auto-retrato afirmativo, de uma mulher-vulcão, ou ainda de uma mulher-loba, que é plenamente senhora do seu desejo: “Unhas cravadas / Em transe latejo / Roupas jogadas no chão / Pernas abertas / Te prendo num beijo / Sufoco e sofreguidão”. Na conclusão, a expressão que dá título ao samba, numa repetição que simula a batida acelerada do tamborim e mimetiza o ato em si: “Pra fuder! Pra fuder! Pra fuder! (etc.)” Num disco em que a temática do fim pessoal e coletivo é a tônica, com a violência desagregadora atravessando muitas das canções, “Pra Fuder”, mesmo em sua tensão agressiva, é índice de vida, reação diante da morte biológica e social.

A última canção, “Comigo” (de Romulo Fróes e Alberto Tassinari), também cantada à capela, compõe um canto de despedida: “Levo minha mãe comigo / Embora se tenha ido // Levo minha mãe comigo / Talvez por sermos tão parecidos // Levo minha mãe comigo / De um modo que não sei dizer // Levo minha mãe comigo / Pois deu-me seu próprio ser.” Se “Coração do Mar” abria o disco falando de origem e herança coletivas (daqueles que, do navio negreiro e guerreiro ao Mangue, viveram e vivem à deriva), “Comigo” fala de herança pessoal e familiar, aqui, no caso, da presença da “mãe”, aquela que dá a vida e permanece no corpo e na memória.

Elza canta aqui a mãe como presença viva. Mas poderíamos imaginar outras vozes para esse mesmo canto, quem sabe a de um de seus filhos, ou outros que se vejam filhos e herdeiros musicais seus, como o grupo de compositores e músicos que se reuniu nesse disco para acompanhá-la e festejá-la. É, portanto, também de um legado que se trata aqui, ligando gerações, aquela que se aproxima do tempo derradeiro e esta outra que dá sobrevida e permanência ao que chega ao fim.

A mulher do fim do mundo é um disco de urgências, pessoais e coletivas. Toca, de modo incisivo, em muitas de nossas feridas, e nos toca, profundamente, ao fazê-lo. É um disco que, na sua “terrível beleza”, dá um bom alento (ou a respiração em suspenso) a quem espera algo mais da música popular brasileira. A mulher do fim do mundo pode estar apenas no começo.

Nota: O presente texto foi redigido em janeiro de 2016, logo após as primeiras audições do disco de Elza. Estava destinado ao primeiro número de uma revista de poesia e arte que acabou por não ser publicada. Escamandro, generosamente, e com suas urgências críticas, topou acolhê-lo. Agradeço desde já aos editores.

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“O tempo é sempre” de Ligia Cademartori, por Marcelo Sandmann 

Ligia Cademartori (com o copo na mão), ao lado de Amanda Müller, em 2014.

Ligia Cademartori (com o copo na mão), ao lado de Amanda Müller, em 2014.

Acabo de ler O tempo é sempre, de Ligia Cademartori, publicado pela 7Letras, do Rio de Janeiro, neste ano de 2015, presente do poeta Adalberto Müller, responsável pelo texto de apresentação. Trata-se da estreia da autora na poesia, uma estreia tardia, vale assinalar, pois Ligia nasceu em 1946. Dela, professora na Universidade de Caxias do Sul e depois na Universidade de Brasília, conhecia até então apenas os estudos acadêmicos. Curioso para ver o que já se escreveu sobre o livro, faço uma rápida pesquisa na rede, atrás de alguma nota ou resenha. Para total surpresa, um dos primeiros textos que encontro é um necrológio, pelas mãos de Graça Ramos, publicado no jornal O Globo, em 4 de agosto último. Ligia Cademartori recém faleceu.

Concluir a leitura de um livro, disposto a escrever sobre ele, imaginando viva a autora, imaginando-me potencial interlocutor, e livro intitulado justamente O tempo é sempre… – difícil explicar o quanto de susto e vertigem!

Pois o “tempo”, como anuncia o título, é assunto fundamental deste trabalho, o tempo em dispersão, que a memória quer reter, que a poesia vai reter. Já num dos primeiros poemas, “Fronteira”, lemos verso como este: “uma gota desprendeu-se da dispersão dos dias”. Relembrando visita à cidade de origem (Ligia é de Santana do Livramento, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, o que pode explicar, em chave biográfica, o título do poema, na ausência de referência toponímica), a poeta registra “um instante”, “um instante tão somente”, em que “tudo o que fui e tive / em sensação veloz me faz visita”. Uma “gota” que salta do rio do tempo, trazendo o vivido concentradamente, revelado em plenitude, para então novamente passar.

O vivido é “bagagem”, como diz o homônimo “Bagagem”, “resíduos de coisas findas, / de tanta gente perdida / e dentro de si contida”. Mas coisas que de repente despertam, para a “desperta sonâmbula” (essa a quem a poeta se refere em terceira pessoa, ela mesma afinal), “a que enlaçava palavras, / via imagens na caverna / e descobria o encanto, / ao mesmo tempo que o espanto”. “Resíduos” trazidos à tona, em “imagens” e “palavras”, para o “encanto” e para o “espanto”: poesia.

O motivo da viagem pela vida, com a bagagem do vivido a reboque, reaparece também nos poemas em que a viagem se dá (agora no emprego habitual do vocábulo) pela geografia. “Embarques”, com seus cantantes heptassílabos, e refinadas rimas toantes, aqui e ali dispostas, é outro que trata, pelo périplo entre os lugares, da passagem do tempo, a que a memória e a poesia procuram resistir. Vale reproduzi-lo na íntegra:

EMBARQUES

Não creia, não é verdade
que os dias todos se esvaem.
O tempo, às vezes, não corre
nem se perde por canais.
Aquele dia em Siena,
na piazza de pedra e riso,
tem ainda cheiro e brilho,
um de sol, outro de vinho.
Ambos tremendo de frio,
à meia-noite vazia,
ainda aguardamos hirtos
o trem que corta Galícia,
para entrar nele, partir
e chegar nunca, jamais.

A viagem, para além do espaço-tempo, pode ser também viagem de auto-descobrimento, de interiorização: “existe via que leve / adentro e não adiante / (…) pois das paredes do dentro / escapa nunca ninguém” (“A Via”). Mas o “dentro” nunca é total clausura, puro ensimesmamento. Permanece a dialética entre exterior e interior, como no poema “Cidade Visível”. Aqui, a poeta, “alegre passante”, percorre a cidade, “entregue à imediata invasão dos sentidos”, aberta ao que vem de fora, ao mesmo tempo absorvendo o espaço exterior e absorvida por ele: “Mesmo agora, que és paisagem interna / quando te visito, não mais estrangeira, / tuas vias se confundem em minhas veias.”

o_tempo_e_sempre

A viagem pelo tempo, pelos lugares, pela própria subjetividade acaba sempre por pressupor o “outro”, como aquele companheiro em Siena e no trem para a Galícia do poema “Embarques”. É a esse outro que a poeta estende as mãos, em “Translinear”, oferecendo-lhe a linha da vida como leitura: “Palmas à vista, oferenda e entrega, / estendo as mãos como quem entrega a vida. / Quem sabe, leias, entre cruzadas linhas, / presságios, que não decifro nem creio (…)”. É do outro que vem também a carícia: “Teus dedos escorrem / na parte interna e extrema / da roupa que roça a pele / do meu pé. / Carícia breve (…) / disfarçada intimidade.” Mas a experiência amorosa é apenas insinuada, aqui e ali, num e outro poema, jamais escancarada. Por vezes o par que se define pode não se ajustar muito bem, como, com algum humor, lemos no poema “Ímpar”: “Um levanta, o outro mergulha. / Um é cinza, o outro fagulha. / Um se assombra, o outro é sol. // (…) De onde tamanha alegria / em dupla tão desigual?” Outras vezes, vive-se o franco confronto, como em “Duelo”: “E se ficarmos assim por horas, / um frente ao outro, sem nada dizer?” Mas o outro, e tudo o que ele provoca de encontro e desencontro, será sempre necessário: “Alerta para o que disse Duras: / precisa-se do outro para barrar / (precisa-se do outro para causar) / a grande invasão da nossa loucura.” (“Insone”).

O poema “Dissolução” articula bem a relação do eu/outro com a experiência do tempo: presença que se fragmenta, que se faz ausência, logo mais apenas memória, mas, como memória, de alguma forma ainda presença, até o limite da vida e a total dispersão. Vale conferir o poema integralmente, outro belo momento, com seus decassílabos de acentuação variada, de ritmo tão bem urdido, que mal se sente o metro fixo:

DISSOLUÇÃO

Pedaços de ti caem e eu recolho
como partes de um mosaico partido,
fração de carta que já se perdeu.
Restos e rastros, palavras, silêncios,
traços, vestígios do que já foi teu.
Antes que evapore a gota no ar,
preservo sobras da sobra das horas
amargas, alegres, tristes, ardentes,
presentes, mesmo se tu não estás.
Até lavar os cestos, é vindima.

A vida é como “vindima”, com o fruto que se há de colher. Depois de lavrado o campo, é “lavar os cestos”, e esse depois é já o momento em que a “indesejada das gentes” (para lembrar Manuel Bandeira, em seu “Consoada”) deixa-se entrever. Em “Cerco”, posto não nomeada, é a morte que “ronda a casa e, às vezes, deita na cama”: “Usará punhal? Envenena aos poucos? / Vai sugar a pouca força encontrada / no corpo já partido, definhado?” E é então outra a viagem que se prepara: “Talvez, compadecida com o cansaço / (…) ela encurte o ato, / e rompa logo o cordame dos cabos, / livrando o barco para, enfim, zarpar.” Em “Senhora”, pode ser a enigmática “senhora” que adentra a casa e se senta para o chá: “Sua presença / deploro, desagradável. / Sei, inevitável…” E em “Velório”, surge explícita já desde o título: “Estendido instante, alargadas horas, / essa morte não cessa de morrer.”

A ideia da morte, da dissolução, ocorre em vários poemas articuladamente ao motivo da “água”, esse solvente universal, e suas representações. A água, em movimento, torna-se rio, símbolo do fluir da vida, também do correr para a morte. Contida, em lago, como um espelho, convida à contemplação, por vezes narcísica, também à introspecção, em busca da morada do eu, quem sabe conforto, ou autonegação, morte enfim.

Em “Mergulho”, encontramos a morte por afogamento, concreto ou metafórico, e suas alusões literárias, remetendo a arquétipos do feminino, de que a água também é símbolo: “Hoje flutua na água negra / o corpo inchado de uma mulher. / (…) Aquática imagem tão antiga, / traz mil mulheres dentro de si. / A quem o nome pergunta digo / Ofélia, Virgínia, Hermínia, Léa, / as dores afogadas por fim.” O imbricamento água/escuridão é amplificado em “Noite”, com a evocação da “divina Nyx dos gregos”, conduzida por “cavalo sombrios”: “A água ganhou cor de tinta. / Mergulho na imensidão, / só negrume me embala, / o escuro silêncio nina.” E na terceira parte do tríptico “Lago”, temos outra variação dos mesmos motivos, em versos curtos, centralizados, formados por única palavra. Na verticalidade e no estreitamento da mancha tipográfica, iconiza-se o mergulho derradeiro:

(…)
O lago
embala,
acolhe,
promete
repouso,
retorno,
regaço
ou
morada
e
morte.

Em “Alice Não Veio”, quatro mulheres jogam cartas (um “jogo antigo”), mulheres de alguma idade, ao que tudo indica (“dedos cheios de nós”, “pés” que “furaram o chão” e “criaram raízes fundas”), ou que estão talvez ali há muito tempo, ou já quase para além do tempo. É dos versos finais deste poema que a autora extrai o título do livro, versos que bem concentram boa parte do que se disse até aqui: “O que é feito, o que se faz, / dissolveu-se, não é mais. / Diz se agora o tempo é sempre, / ou se, nu, ele foi deposto, / foi morto, o punhal atrás?”

Tempo decorrido, vida vivida, memória que se agarra, corpo em dissolução. A poesia, ao cabo, surge como um meio de tentar dobrar o tempo, quem sabe apreendê-lo e dar-lhe sentido, quem sabe suspendê-lo, para sempre, por quanto tempo?

A lírica de Ligia Cadermatori enfrenta alguns dos temas fundamentais da tradição da poesia, de maneira densa, mas sem perder leveza, que a agilidade dos versos, a brevidade dos poemas, uma certa naturalidade de tom acabam por proporcionar. Conversa de perto com os grandes líricos do nosso Modernismo, Bandeira certamente, em boa medida também Drummond, entre outros que se queira lembrar.

Publicando seu primeiro livro de poemas à beira dos setenta anos, em plena madureza intelectual, não seria de se esperar frivolidades no enfrentamento dos grandes temas da vida. Mas se há sabedoria nos poemas, de quem viveu e bem viveu, ela vem muitas vezes temperada com uma nota de graça, leve humor, ou mesmo ironia, algo que desarme o que poderia se tornar excessiva circunspecção. Ainda um poema:

VIDA SECA

Ah, pare com tantos ais,
que a vida não é mais que isso.
Tem o duro, o bruto, o presto,
brilho, riso é só resto.
Não busque o que não se acha.
Não lamente. Já, já passa.
E uma outra agonia se acha.
Não entre na dor tão fundo,
nem queira tanto do mundo.
Veja a cadela Baleia
e a lição que ela nos dá.
Foi somente ao morrer que,
feliz, vislumbrou preás.

“Vida Seca”, em conversa com Graciliano Ramos, é balanço final e aconselhamento, em momento derradeiro, num tom que tangencia amargura, desencanto, auto-ironia, gracejo e resignação. Não é o último poema do livro, mas bem poderia ter sido o último escrito pela autora. Se há algo a vislumbrar no momento da morte, confesso que não sei. Ficam, para aqueles que ficam, os poemas que se escreve e que (pois O tempo é sempre, diz-nos Ligia) é sempre tempo de ler.

24 de agosto de 2015

Marcelo Sandmann

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marcelo sandmann

Marcelo-Sandmann

Marcelo Sandmann é poeta, compositor e professor de literatura portuguesa na Universidade Federal do Paraná. Publicou os livros de poesia Lírico Renitente (2000), Criptógrafo Amador (2006) e Na Franja dos Dias (2012). Organizou o volume A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos sobre a Obra de Paulo Leminski (2010). Lançou, com Benito Rodriguez, o CD Cantos da Palavra, com interpretações de Silvia Contursi e produção de Paulo Brandão. Em 2014, saem os CDs Conselho do Bom, com canções em parceria com Benito Rodriguez e Cláudio Menandro, e No Silêncio da Canção, do grupo curitibano ZiriGdansk, com composições suas e parceiros.

Abaixo, um dos poemas presentes na primeira edição impressa do escamandro, a ser publicada em breve.

PS: Marcelo Sandmann já marcou presença aqui no escamandro numa postagem anterior com o seu poema “Pato ao Tucupi” (clique aqui).

escamandro

           

GARÇON, POR GENTILEZA,
CANCELE A ÚLTIMA CERVEJA!

                para Nelio Waldy Koentopp Jr.
                e Carlos Alberto Lins

É preciso sair
da zona de conforto.

Um soneto pode ter trezentos versos.
Um poema concreto,
desabar como uma marquise.

A poesia mais dolorosamente satânica
é uma carícia
diante dos desígnios de Deus.

(E Deus não existe,
o que torna Seus desígnios
ainda mais sombrios.)

A realidade é um exagero constante,
margens soberbamente borradas,
trânsito atônito entre hemisférios.

Para que poemas comedidos?

“E eis que o sol se derreteu
na minha folha de papel azul…”

(Escrevi esses versos aos 19 anos,
um bom pretexto para
não mercar
armas
nem escravos.)

Mas vejo que continuo impune,
apesar de vivo.

E vivo, apesar
de ter nascido

(Marcelo Sandmann)

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Lira curitibana – comentário de Caetano Galindo na Ilustríssima

Ontem, dia 11 de agosto, foi publicado na Ilustríssima, na Folha de São Paulo, um texto de autoria do professor Caetano Waldrigues Galindo, comentando a poesia de três ilustres desconhecidos daqui de Curitiba (dois mais desconhecidos, um menos, mas ainda assim), a saber, eu, o nosso colega de escamandro Guilherme Gontijo Flores e o Marcelo Sandmann (que já deu as caras por aqui num post anterior). O texto do Caetano pode ser lido no site da própria Folha ou aqui mesmo, conforme reproduzido abaixo.

Acompanha o texto uma pequena seleção com um poema de cada um de nós três, inédito, que vocês podem conferir clicando aqui, ou também na segunda imagem abaixo, digitalizada a partir do jornal.

Sem mais delongas, então, deixo vocês com o texto já abaixo (em versão digitalizada também), junto com os nossos sinceros agradecimentos ao Caetano, que – como o seu comentário, ao que me parece, deixa muito claro – é um dos melhores leitores por quem poderíamos pedir.

Adriano Scandolara

                                                    

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Lira curitibana

Novos ventos da terra de Leminski
CAETANO W. GALINDO

RESUMO

Lançada em fevereiro, a poesia reunida do curitibano Paulo Leminski (1944-89) vendeu estimados 50 mil exemplares, cifra inaudita para o gênero. A produção recente de três poetas da capital paranaense, em que se fundem clássico e popular, mostra que a influência do autor best-seller está, hoje, digerida e até superada.

Poesia é sempre um negócio calado. Meio invisível. Até que, de repente, a cada 400 anos, digamos, surge algo tão inexplicável como a vendagem de “Toda Poesia”, de Paulo Leminski –alcançou a marca, pelas últimas contas de sua editora (Companhia das Letras), dos 50 mil exemplares.

Por que isso? E por que justo agora? Será que as pessoas andavam precisando de poesia? Daquela poesia? E qual é a dela?

A resposta a essa última pergunta pode passar, e acho que passa, pela singular mistura de poeta e publicitário que Leminski sempre foi: a mão para a frase-achado, o talento de ritmar o texto e cravar a pérola, a facilidade para engajar o leitor numa conversa. Uma espécie de retórica de sedução, de piscadelas, cutucões e não poucas centelhas; um diálogo que talvez hoje achemos familiar.

Mas há outro elemento no mistério Leminski, que é ele ter surgido justo deste lugar de onde escrevo e de onde, aparentemente, surge tão pouco: do meio da geada de Curitiba. E era só isso? O que é de Curitiba hoje?

Curitiba hoje abriga toda uma geração desses poetas-acadêmicos-tradutores que Paulo Henriques Britto afirma que dominam a poesia brasileira (e não esqueçamos a estável e reconhecida produção de Rodrigo Garcia Lopes, logo aqui em Londrina, e seu “Estúdio Realidade”, lançado em julho pela carioca 7 Letras).

Três lançamentos recentes vêm mostrar que a poesia feita em Curitiba superou o evento Leminski, exatamente como deve ser superada uma presença tão definidora: por compreensão, por absorção e (por que não?), por ser bem outra. Sim, a poesia aqui está vivinha. E bem das pernas, até. A cidade do polaco zen ainda tem um monte de cachorros loucos.

IMIGRANTES

na_franja_dos_diasAferrando-nos ao estereótipo da cidade de imigrantes, comecemos com o alemão do trio. Marcelo Sandmann, aos quase 50 anos, já vinha de dois livros, um disco (“Canto da Palavra”, em parceria com Benito Rodriguez) e músicas gravadas por vários outros artistas. Esse tempo de cancha pode bem explicar o fato de Sandmann ser o mais completo dos três, dotado de uma caixa de ferramentas considerável.

As formas pelas quais passeia seu Na Franja dos Dias [7Letras, 80 págs., R$ 34] vão do poema quase piada ao soneto de versos monossilábicos (isso mesmo); das séries elaboradas como “Tempus Fugit” ao díptico que é o brilhante par “Ela Não Sabe”, “Ele Não Sabe”, em que a voz madura se confronta com as novas gerações; da prosa ao verso rimado; da letra de canção à espera de melodia ao pastiche do Renascimento português.

Igualmente variado é seu repertório cultural, que abarca de Catulo a Frank Zappa, o que lhe permite encarar de novo a poesia (“Relativa liberdade / de entrar e sair sem / tropeçar logo de cara / no primeiro verso.”) com frescor e originalidade nunca menos que surpreendentes. Seu vasto leque não deixa de fora outro monstro local, voz fundadora de uma parcela tão grande do que concebemos como curitibano: “Nunca pensei / que o nosso amor, // que a minha vida / fosse terminar / feito conto // de Dalton Trevisan”.

Sandmann pode estar há anos na estrada, pode estar (e quem não está?) refletindo cada vez mais sobre o tempo e o seu fim, como deixa claro a bela quadra “Quando eu morrer, puxem a rolha / Que veda o ralo do Universo. / Escoem tudo. E no reverso, / Pintem um Deus novinho em folha”.

Mas ele ainda mal começou a dizer tudo que precisamos ouvir.

FORASTEIRO

brasa_enganosaO forasteiro do grupo é Guilherme Gontijo Flores, brasiliense de 29 anos que chegou a Curitiba em 2008 e estreia na poesia com Brasa Enganosa [Patuá, 154 págs., R$ 30], depois de já ter publicado traduções de Rilke, Propércio e, especialmente, a primeira versão em língua portuguesa do monumento que é A Anatomia da Melancolia, de Robert Burton (Editora UFPR).

Dos três, Flores é o mais obcecado por sonoridades e efeitos visuais. É o que mais deve a Mallarmé, que quase parece digerir sem o intermédio dos concretos, principais propagadores no país da obra do poeta francês.

Essa preocupação formal nunca deixa de transparecer: no uso do espaço da página, na preferência pelas minúsculas, no emprego de ilustrações (“daguerreótipos”) ou na inclusão do belo poema “Labirinto”, cuja forma ecoa seu sentido e que precisou vir encartado no livro, como uma dobradura.

Mas o apego à forma fala mais alto mesmo é na cadência espinhosa e doce de versos como o que já abre o livro (“élia lélia críspide”); ou no bonito “embora nas pregas peças / da vida / um casulo crisálida se faça / em cio solitário”.

Nada nessa Brasa é deixado ao acaso tipográfico (como aliás ilustra um bem-humorado poema cheio de gralhas, e dedicado ao revisor). E mesmo o jogo entre títulos e versos, ou entre caixas altas e baixas, gera efeitos interessantes, como em “NA TRISTEZA DOS OLHOS / calados da noite / rubente ensaia / despetalar-se / a chaga de um / sorriso”.

É a poesia de um leitor dos clássicos, de um inventor de palavras, de um filho de Drummond e de Pessoa mas, também, é a arte de quem cita uma banda como Arcade Fire logo antes de criar um trocadilho em grego.

É aquele tipo de nó tão ao gosto dessa geração de poetas-acadêmicos, que vê o mais novo com os mais clássicos dos olhos. A poesia de alguém, em suma, que lembra que a frase “tudo já foi dito” já foi dita há dois milênios (Terêncio) e que só assim consegue nos fazer ver, por exemplo, o “locus amoenus de um engarrafamento”.

ITALIANO

O italiano, para voltar ao tópico dos estrangeiros, é o grande Adriano Scandolara, o mais novo de todos, e provavelmente o mais improvável. Sua dissertação de mestrado já fez dele, aos 24 anos, um dos maiores tradutores da poesia de Shelley no Brasil –um volume que, aliás, está à busca de editores.

lira_de_lixoSua Lira de Lixo [Patuá, 96 págs., R$ 30] é obra de uma originalidade e de um impacto impressionantes e de uma versatilidade que mal se pode esperar de muita gente mais experiente que ele.

Boa parte da força de sua linguagem advém de ele se dedicar, de novo como o patrono Trevisan, à Curitiba suja, aquela que a publicidade não mostra e que nos cerca por todos os lados (“Não se vê daqui, mas sei / que a prostituta da rua / tem um olho de vidro”) ou, pior ainda, quase nos derruba cotidianamente (“ia ao banco, quando / quase / tropeço no cadáver”).

É poesia que nos quer dar apenas “o gozo de escolher / de que lado do arame farpado ser / fuzilado”, e que reconhece, mesmo assim tão cedo, tão antes do meio do caminho dessa vida, que “depois de um tempo / você aprende a se foder”, mas que faz tudo isso com uma graça –humor, leveza e quem sabe iluminação– absolutamente invejável.

Essa presença do meio urbano é a responsável direta por um dos momentos mais felizes do livro, pois é nas ruas que Scandolara busca o gancho para suas “Glosas sobre Motes de Pichações”, que desdobram desde dizeres mais elevados, como “O outro é o eco do eu”, até o lirismo irretocável do xingamento “Elaine puta”.

Dono da mesma erudição dos outros dois, de quem foi aluno em mais de um sentido, Scandolara, no entanto, lida com essa bagagem com humor mais sujo. E também com mais raiva –ele que, em bom francês ruim, em dado momento se declara “puto da cara” (“emputé du visage”); ele, afinal, que nos diz “Entre os restos, o já dito / e o maldito/ tortuosa construo minha / lira de lixo.”

Com Guilherme Gontijo Flores, Scandolara faz parte de um blog coletivo (outra marca da produção recente de poesia) chamado Escamandro –os outros dois membros, Bernardo Lins Brandão e Vinícius Ferreira Barth, ainda estão por estrear em livro.

Quando você ouvir falar do frio destas terras (onde até neve tem), lembre-se também de que Dalton Trevisan nelas está, vivo e forte. Que Cristovão Tezza prepara livro novo. Que polaca, tudesca, carcamana ou vira-lata, de imigrantes e nativos, pinheirais (quase não mais) e pichações, Curitiba continua aqui. E que, quem sabe a cada 400 anos, um de nós ainda bate à porta, uns versos debaixo do braço, precise você ou não.

(texto de Caetano Galindo)

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crítica, poesia

marcelo sandmann

marcelo sandmann (curitiba, 1963) é professor da ufpr, poeta e compositor. sua produção, por enquanto, ainda é pequena e pode ser degustada num dia, desde que se aceite que alguns sabores precisam de mais tempo, pro caso – necessário – de maturação, ou curtição, como o couro, que, trabalhado, acaba por ganhar aquele cheiro típico, que pros enólogos é algum tipo de sinal de reverência a qualidades quase transcedentais, junto com baunilha, frutados, caramelo, ou coisa que o valha.

mas eu perdi o fio da meada. voltando pra poesia de sandmann, ao contrário dos enólogos, ela é toda irreverência, daquele tipo leve e ridente, o que não implica em nada a falta de labor, em muitos pontos numa estética que recorda alguns trabalhos de josé paulo paes. mas é claro que não se limita a isso, e um dos pontos fortes da sua poesia é exatamente a variação de estilo, temas, ou modulações possíveis da leveza. por isso, na minha escolha por um só poema, creio que não posso dar uma boa do que é ler uma série de poemas de sandmann.

então façamos assim. eu paro de escrever e faço só duas coisinhas: deixo as obras, pra vocês – os não preguiçosos, claro – procurarem e curtirem, ou curarem, ou degustarem, ou devorarem; e, falando em comida, deixo também o “pato ao tucupi”.

OBRAS :

cantos da palavra (CD, em parceria com benito rodriguez), 1998
lírico renitente, 7letras, 2000.
criptógrafo amador, medusa, 2006. donde sai este “pato”

p.s.: não me aguentei. um comentário sobre o “pato ao tucupi”, que já é longo: o poema me atraiu de pronto na primeira vez que o li, pela sua duplicidade cômica. por um lado, sandmann faz uso da oitava rima, uma forma tradicional do épico camoniano e que dá um puta dum trabalho (ô se dá, tentem pra ver); porém um puta dum trabalho em nada gratuito. basta ver que enlaçado a ela está um estilo rápido, dialógico e de todo contemporâneo. é nessa duplicidade que se dá o cômico poético, mas não só nisso. há dois acontecimentos simultâneos: a incoveniência do tema (um quê de pedofilia ou crise de meia idade com tara e drogas) conveniente à linguagem, que, anacrônica ao metro, estabelece essa dúplice relação poética na forma, se eu fosse um bom estruturalista, de um triângulo. nos momentos em que ela se torna propriamente pseudocamoniana (isso mesmo, “propriamente pseudocamoniana”, e não “propriamente camoniana”) é que ela expressa um modo heroico possível do nosso tempo.

vejam versos como : “À língua perfurava fero pierci'”, em que pierci’ rima com Circe (rima tão rica vale mais do que dinheiro!), ou “Dispor propus a todos grana preta: / Alguém cascou-me o casco da escopeta”, em que a sintaxe é revista pelo vocabulário, e o próprio contexto, fundido à métrica, cria a naturalidade necessária para o seu funcionamento.

pronto, paro por aqui.

guilherme gontijo flores

PATO AO TUCUPI

 (uma breve digressão herói-cômica)

“Well, she was just seventeen,

You know what I mean”

 (“I saw her standing there” – Lennon & McCartney)

 

“A soma dos quadrados dos catetos

É igual ao quadrado da hipotenusa”.

Assim foi me dizendo, em tom faceto,

Enquanto desabotoava a blusa.

Eu, de natural um tanto obsoleto,

Com medo de encarar ali Medusa,

Os olhos para o teto desviei.

Mas em vão, que um espelho vislumbrei!

 

Ela, que rubor algum maculava,

Fitando em minhas faces forte pejo,

Já larga gargalhada desatava,

Finda a qual, sapecou-me honesto beijo.

Se do amplexo fatal eu me esquivava,

Nas gingas imitando o caranguejo,

Mais e mais ela a mim arremetia,

Decidida a pôr fim à carestia.

 

Como leoa esfaimada que deixa

Seus cachorrinhos todo um dia ao léu;

Léguas e léguas percorre, sem queixa,

Sob sol rigoroso no ancho do céu;

Té que manada cerque, que desleixa

Tenra rês em meio ao grosso escarcéu;

Da pobre no dorso as garras cravando

E na garganta as presas incrustando:

 

Tal e qual ela ali me acarinhou.

Ou das vodcas com limão que libamos,

Que Diônisus Polaco prostrou;

Ou do vidro de rollmops que emborcamos,

Quitute que Tiestes desdenhou;

Sobre estar eu há muito entrado em anos:

Quanto mais junto a mim já se inclinara,

Tanto mais do escrutínio eu declinara.

 

Canta-me a cólera, ó Musa, daquela

Pequena, dir-se-ia vera Circe,

Que ao artelho premia jóia bela,

À língua perfurava fero pierci’,

Tatuada do cachaço às canelas

(Quem pudera dali, então, partir-se?),

Logo a mim metamorfo me querendo

Em pato ao tucupi, ó caso horrendo!

 

“Ora sus!”, trovejou, a cavaleiro.

Mas por mais que eu vibrasse na rabeca,

O som saía cavo e não brejeiro.

Levar prevendo eu cá uma fubeca

E a fama conquistar de potoqueiro,

Palpar-lhe ofereci por ceca e meca,

E quando já adentrava Santarém:

Ai-meu-Jesus-José-Maria-amém!

 

(Em lendo, acaso, o derradeiro dístico,

Julgar, leitor, que um tanto já me excedo,

Eu juro: meu intuito é cabalístico,

Que prezo de ser sublimado aedo.

Pesar pois do pendor folhetinístico,

Deveras, qu’ele-o-há, isso eu concedo,

Matéria assaz subida e meritória

Subjaz lá nos desvãos da nossa história.)

 

No couro, enfim, convindo que eu não dava,

No couro, sim, quis dar-me, por desplante.

Co’a meia com que os pés agasalhava,

Meus pulsos preste atava, ó terna amante!

Saca da saia a cinta, fibra brava.

Zurze já o frigobar, febricitante.

Mas antes que lambasse por detrás:

“Cruz-credo! Te arrenego, Satanás!”

 

Ó, que não sei de nojo como o conte!

Agora que me vi predestinado

Ao carro, só, tirar de Automedonte,

Ai!, crendo-me mui firme e bem picado,

Ei-la: faz-se de serpe aglifodonte.

Maldito o malo dia em que fui nado!

Que a ver se recobrava a robustez,

Nas artes confiava do Marquês.

 

Pois ela, no nariz já me afagando,

“Benzinho”, disse assim, “deixa pra lá!”

E a crua tessitura desatando,

Bem certa de não ver-me ao deus-dará,

Ao colo, muito casto e muito brando

(Menina que aninhasse o seu preá),

A mim de modo terno recebeu,

E ao prélio descanso breve ora deu.

 

Juntinhos, bem juntinhos sobre o tálamo

(A tudo, enfim, supera a pura estima!),

As unhas, deslizando como cálamo

(A quanto não obriga o amor da rima!),

Furunc’lo lacerou. Reclamo: “Ai, amor!”

(E nova vez maculo est’obra-prima.

Pois onde lá me falham consoantes,

Eu meto, sem piscar, tonitruantes.)

 

Passada esta propícia moratória,

Havendo dos trabalhos repousado,

Cioso de evitar objurgatória,

À pugna, pois, me fiz reconvocado.

Às artes recorrendo da oratória,

Expus algum receio bem fundado.

Da bolsa ela boceta retirou,

Que tal a de Pandora se mostrou.

 

Grânulos brancos de pequena ampola

Sobre caco de cristal esparzia,

Em que a pintura, a fim de recompô-la,

Do rosto ali mirar lesta soía.

“Pões-te logo a arrulhar, pequena rola,

Ufana de ciscar fina iguaria!”

Com lâmina, que penugem estirpava,

Estreitos, seis carreiros perfilava.

 

Qual hexagrama ch’ien, o criativo,

Que ao próprio céu semelha tem a imagem;

Que àquele a quem, em lance consultivo,

Tirar coube da sorte na triagem

Já favorece, pois, por forte e ativo,

Perseverante e inflo de coragem:

O esquisso tal ali foi debuxando,

Eflúvios positivos instilando.

 

Cédula de cem mangos requestou,

Que um tanto a contragosto forneci.

Nos dedos, já bem hábeis, enrolou,

Canudo muito fino obtendo aqui.

Um extremo à fossa destra achegou

Do nariz; o outro depôs bem ali

Onde o primeiro carreiro se via.

Num relance, por inteiro o sorvia.

 

Tais passos segui, de fio a pavio,

Fiado, ao fim, de alcançar salvação.

Varado fui por súbito arrepio,

A que seguiu-se forte comichão.

Privado assim de qualquer alvedrio

(Toldado se via o sol da razão),

Presto, terceira trilha palmilhei:

Piparote prestíssmo tomei.

 

Co’as mentes afiladas a estilete,

Convictos de rasgar todo o ilusório,

Sentamo-nos em lótus no tapete,

Início dando logo ao parlatório.

Idéias vêm e vão em ricochete,

Imagens de fulgor fulminatório,

Conceitos entre si tão concertados,

Que cá ficamos nós desconcertados.

 

Paroxismos de intelectivo gozo

Coroavam a festa dos sentidos.

Iluminações em fluxo assombroso,

Transubstanciações de toda a libido.

Mas quando, enfim, o Verbo portentoso

Já nada ocultava a nossos ouvidos,

Ouvimos algures um forte rataplã,

Pancadas abruptas: pam! pam! pam! pam!

 

Fora dos gonzos, a porta esboroa.

“Parado todo mundo, documento!”

Quatro gorilas pós uma elefoa

Congestionavam nosso apartamento.

“Uchoa, junta as roupa’ do coroa”,

Disse aquela, de um modo virulento.

Este, recém-fardado cabo-mor:

“A mina, capitão, é de-menor.”

 

(A menos que enganado muito esteja,

À estrofe acima cabe revisão,

Já pelo emaranhado que sobeja,

Já pelo mistifório em profusão.

Ai de quem na gramática manqueja!

Por mais que brote o estro em borbotão,

Se num lapso mero acento esquecesse,

Logo excluso de Parnaso vivesse.)

 

Três lanços nós descemos, manietados,

Vestidos só c’orvalho madrugueiro,

Contritos, cabisbaixos, mui vexados,

Cercados por aqueles perdigueiros.

De minha amiga vi-me separado;

Trancado fui em camburão coiceiro.

Dispor propus a todos grana preta:

Alguém cascou-me o cabo da escopeta.

 

Memória inda metida em torvelim,

A nuca dolorida e latejando,

Aos poucos, de mansim, assim-assim,

Do transe atroz me fui recuperando.

A tudo explicar, tintim por tintim,

Em torpe distrito foram-me instando.

Jurando haver ali crocodilagem,

Incluso já me vi na carceragem.

 

Quiçá tivesse ao fim eu boa xênia!

Já séc’lo e meio empós a escravidão,

Mesclada sempre mais nossa progênia,

Conceitos, preconceitos em questão,

Aos afro-descendentes peço vênia:

A cela estava cheia de negão!!!

Quem vai orar por mim, ó alma minha?

Acaso, minha mãe, eu sou neguinha?

 

O que ali dentro depois sucedeu

É segredo que guardo cá comigo.

Por que bramar que Deus nos esqueceu,

Que foi o Demo quem nos deu abrigo?

Ao fim e ao cabo, sim, tudo valeu,

Mormente quando safos do perigo.

Em breve, pois, aqui, segunda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

 

(marcelo sandmann)

 

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