poesia, tradução

Paula Brecciaroli, por Marcus Groza

Paula Brecciaroli (Buenos Aires, 1976) é coeditora do Editorial Conejos, integrante de La Coop – Frente Editorial Latino Americano y psicóloga. Publicou os romances “Otaku” (Paisanita Editora, 2015) e “Brasil” (Editorial Conejos, 2011). Também é autora de “La sinceridad de un golpe” (Santos Locos, 2018), donde foram retirados esses poemas; “Te traje bichos para que juegues” (Textos Intrusos, 2011); “Pequeño Ensayo Ilustrado” com ilustrações de Pablo Rivas (Bonny Clide Ediciones de Mentira, 2009) e “Vaca Vaca” (edição de autor, 2007). Participou das antologias “9 Antología de cuentos” (Textos Intrusos, 2013); “La mano que mece” – antologia de editores (Ediciones Outsider, 2015), “Pobre Diablo” (Pelos de Punta, 2016). Colaborou para as revistas Lugares, Brando, Maíz, Maten al mensajero, Ensayos e El Planeta Urbano.

Marcus Groza é poeta, dramaturgo, performer e encenador. É autor do livro “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019), entre outros.

* * *

Há noites
como a de hoje
que são feitas de estilhaços
da tua imagem
no sofá,
dessa mancha na parede
que teu corpo deixou,
desse rastro
imperceptível
da tua passagem
pelo tempo.
E aqui estou eu
rodeada
desses restos
tentando fazer
que o nada
signifique algo,
agora que não estás.
Agora que a noite
está cheia
de retalhos,
eu sigo buscando
isso
que não tem nada a ver
com tua imagem no sofá,
nem com esta parte
que amputada
recorda sozinha.
Tudo isso,
meu amor,
já me basta.
Com tudo isso
componho
a história
do mundo.
Um rascunho.
Teu gesto cujo
ímpeto pode
fazer que o eixo
do planeta
se curve.

Hay noches
como la de hoy
que están hechas con astillas
de tu imagen
en el sillón,
de esa mancha en la pared
que dejó tu cuerpo,
de ese rastro
imperceptible
de tu paso
por el tiempo.
Y ahí estoy yo
rodeada
de esos restos
intentando hacer
que la nada
signifique algo
ahora que no estás.
Ahora que la noche
está hecha
de esquirlas,
yo sigo buscando
eso
que no tiene nada que ver
con tu imagen en el sillón,
ni con esa parte
que amputada
recuerda sola.
Todo eso,
mi amor
me alcanza.
Con todo eso
yo compongo
la historia
del mundo.
Un rasguño.
Un gesto tuyo
puede hacer
que el eje
del planeta
se curve.

§

Saio ao quintal de noite
e em um apartamento
um cara rima
à contraluz
azul magenta
de um televisor.
Os olhos velhos
do meu cão
não se alteram.
Busco nas palavras dos outros,
nas tuas,
nas dessa poeta russa,
ou eslava, ou polaca?
Onde está a poesia?
Me ponho
a revirar as plantas
à meia-noite,
buscando um feitiço
algo que explique
onde,
em que terra,
brotam
os poemas.
E acho que essas floreiras
vazias
que abandonei
se parecem comigo.
Me esmero
para que não cresçam gramas
nem ervas daninhas.
Nem um broto
que as pragas,
os pulgões
as larvas
sejam capazes de matar.
Melhor a terra seca
Melhor
que não cresça nada.

Salgo al patio de noche
y en un departamento
un pibe rapea
a contraluz
del azul magenta
de un televisor.
Los ojos viejos
de mi perro
no se inmutan.
Busco en las palabras de los otros,
en las tuyas,
en las de esa poeta rusa,
¿o eslava o polaca?
¿Dónde está la poesía?
Me pongo
a hurgar las plantas
a medianoche
buscando un hechizo
algo que explique
dónde,
en qué tierra
brotan
los poemas.
Y creo que esas macetas
vacías
que abandoné
se parecen a mí.
Me esmero
en que no crezca yuyo,
ni cizaña.
Ni un brote
que las plagas,
los pulgones
o las orugas,
sean capaces de matar.
Mejor la tierra reseca
Mejor
que no crezca nada.

§

Sou
esse samurai
que
sentado sobre os calcanhares
desembainha a katana
a coluna ereta
o movimento
estudado.
Esse roçar imperceptível
do metal.
Sou eu
o samurai
que esta noite
quer
espera
sentir o fio
entrando
em seu corpo.
Os três movimentos
finais.
O ar.
O frio.
O cheiro de sangue.

Soy
ese samurai
que
sentado sobre sus talones
desenvaina la
katana
la espalda erguida
el movimiento
aprendido.
Ese roce imperceptible
del metal.
Yo soy
el samurai
que esta noche
quiere
espera
sentir el filo
entrando
en su cuerpo.
Los tres movimientos
finales.
El aire.
El frío.
El olor de la sangre.

§

O ar explode
na traqueia
buscando
onde se expandir.
Não ser palavra.
Não ser voz.
Nem chamado.
Mergulhar
no mais profundo
que aguentem
as membranas
os alvéolos
as artérias.
Ir ao fundo
onde o silêncio
é dono de tudo.

El aire explota
en la tráquea
buscando
dónde expandirse.
No ser palabra.
No ser voz.
Ni llamado.
Sumergirse
en lo más profundo
que aguanten
las membranas
los alvéolos
las arterias.
Ir al fondo
donde el silencio
es dueño de todo.

§

Quero ser
uma parede
açoitada
pelo vento.
A corrosão
do mar
me batendo
na cara
até sentir
a pele fervendo,
os olhos cheios
de água.
Ser musgo
líquen.
E então
pela primeira vez
saber quem sou.

Quiero ser
una pared
azotada
por el viento.
La corrosión
del mar
pegándome
en la cara
hasta sentir
la piel hervida,
los ojos llenos
de agua.
Ser musgo
liquen.
Y recién
entonces
saber quién soy.

Padrão
poesia, tradução

Gabriela Clara Pignataro, por Marcus Groza

Gabriela Clara Pignataro nasceu em Floresta, Buenos Aires; escreve, é atriz e fotógrafa. No Brasil publicou Traço cabelo, cai um raio (Ed. Benfazeja – 2018), donde foram retirados os poemas aqui apresentados. Na Argentina, publicou Eso que no se parte es una respuesta (Difusión Alterna, 2014), Muta (Nulu Bonsai, 2014) e Tundra (Añosluz, 2018). Atualmente, trabalha no projeto La belleza random de los días de investigação fotográfica analógica e em seu primeiro romance. Escreve resenhas, poemas e ensaios em lasalvajelucidez.tumblr.com e principalmente observa e respira.

Marcus Groza é escritor, dramaturgo e encenador. Publicou, entre outros, e a lua como órgão principal (Ed. Primata – 2017). Escreveu e dirigiu a antiópera Rua Carne entre as Articulações e a peça Maré Morta.

* * *

A intermitência

Uma folhinha seca
parece uma ratinha
tremendo tíbia
na vereda
mas não
parece
mas não é
como tantas outras coisas
o engano da aparência
formosa
a alucinação diante da fagulha
que não é fogo
uma folhinha seca
pisá-la
dói range
como as coisas verdadeiras
quando se rompem

La intermitencia

Una hojita seca
parece una ratita
temblando tibia
en la vereda
pero no
parece
pero no es
como tantas otras cosas
el engaño de la apariencia
hermosa
la alucinación ante la chispa
que no es fuego
una hojita seca
pisarla
duele cruje
como las cosas verdaderas
cuando se rompen

 

§

ADN

Amasso pão
com minhas torpes
e modernas mãos
amasso o pão
como outros o fizeram
e outros o farão

Há algo
na repetição
que me cura

Amasso pão
e me sinto parte de algo
muito maior
meu nome não se relambe

Sou substantivo
do que não se pode apropriar

Uma moça
com as mãos cheias de farinha

ADN

Amaso pan
con mis torpes
y modernas manos
amaso el pan
como otros lo han hecho
Y otros lo harán

Hay algo
en la repetición
que me cura

Amaso pan
y me siento parte de algo
mucho más grande
mi nombre no se relame

Soy sustantivo
de lo que no puede apropiarse

Una chica
con las manos llenas de harina

§

Sudestada

Saí
a cortar os campos
enchi a casa de flores
não preciso
mover as pedras
para trazer até mim
a montanha
o simples transpassar
dos corpos
modifica a fisionomia
da paisagem

Não pretendo alterar
a direção da semeadura
para mudar a colheita
posso extrair
o desejo de raiz
e transplantá-lo
para uma terra
da minha escolha

Não preciso
mover as pedras:
sou a montanha
compacta por fora
líquida por dentro
não estou sobrevivendo
me movo
sobre o tempo
como o magma
potência de fogo
protege o cristal
até a ruptura
que descubra
o brilho necessário
para correr de noite
sobre o solo ácido
do rio
sem nos ferirmos

A sudestada
foi uma cacetada
somos um bairro
acendendo suas luzes
para ver a tormenta
que lavará o gelo
e o sangue
na entrada
de nossas casas

Saí a cruzar os campos
um coiote me comeu
agora escreve
sacudindo a poeira
do deserto
enquanto
o vapor do banho
o inunda todo
deixo de escutar minha forma
para ser
o anel caindo no vulcão
meu cachorro latindo
para as notícias do rádio

Sudestada

Salí
a cortar los campos
llené la casa de flores
no necesito
mover las piedras
para traer hacia mí
la montaña,
el sólo traspaso
de los cuerpos
modifica la fisonomía
del paisaje

No intento alterar
la dirección del sembrado
para cambiar la cosecha
puedo extraer
el deseo de raíz
y trasplantarlo
en la tierra que yo elija

No me es preciso
mover las piedras:
soy la montaña
compacta por fuera
líquida por dentro
no estoy sobreviviendo
me muevo
sobre el tiempo
como el magma
potencia de fuego,
protege el cristal
hasta la ruptura
que descubra
el brillo necesario
para correr de noche
sobre el suelo ácido
del río
sin lastimarnos

La sudestada
fuè una cachetada
somos un barrio
encendiendo sus luces
para ver la tormenta
que lavará el hielo
y la sangre
en la entrada
de nuestras casas

Salí a cruzar los campos
un coyote me comió
ahora escribe
sacudièndose el polvo
del desierto
mientras
el vapor de la ducha
lo inunda todo,
dejo de escuchar mi forma
para ser
el anillo cayendo en el volcán,
mi perro ladrándole
a las noticias en la radio.

§

David Lynch sonha comigo

De tanto pisar no freio
paramos no km 2
o motor ajustado
o tanque cheio
kodak 36 sem usar
a água do mate
ainda quente
a rádio do bairro
passando a mesma música
durante horas
o espelho retrovisor
vazio:
ninguém vem aqui

Não sei aonde íamos
de tanto manobrar
estragou a embreagem
a marca do pneu
mosquinha morta
no asfalto
km 2 paragem rural
a rádio do bairro
anuncia alfajores
consertos de encanamento
empanadas fritas
o telefone da parteira
as notícias do carnaval
carroça descarrilhada
ovelhas tóxicas
o espelho retrovisor:
vazio
ninguém vem aqui, sabe,
nossas caras
ficam invisíveis
por trás das gotinhas de suor
de um feriado regional

Faz tempo que ninguém
viaja neste carro
apenas uma camisa e shorts
um vestido florido
chinelos velhos e desformes
no isopor sopa em cubinhos
icebergs entre pão e queijo
três dias encalhados
km 2
não chegamos às montanhas
três dias com enjoo
as fotos por tirar
a água gelada
o motor abobado
o radiador fervendo
saio do carro
prefiro pegar a estrada
nos cotovelos raspados
me ungir com mertiolate
na salinha de emergência
a que a polícia rodoviária
encontre um carro vazio
e desgrude meu corpo
do couro sintético
do assento sem cabeça
e um volante sem ginete.

David Lynch sueña conmigo

De tanto pisar el freno
clavamos en el km 2
el motor a punto
el tanque lleno
kodak 36 sin usar
el agua del mate
todavía caliente
la radio zonal
pasando la misma música
durante horas
el espejo retrovisor
vacío:
nadie viene por acá
No sé dónde íbamos
de tanto maniobrar
se rompió el embrague
la marca de las llantas
mosquita muerta
en el asfalto
km 2 paraje rural
la radio zonal
auspicia alfajores
arreglos de plomería
empanadas fritas
el teléfono de la partera
las noticias de carnaval
carroza descarriada
ovejas tóxicas
el espejo retrovisor:
vacío
nadie viene por acá, sabés,
nuestras caras
se invisibilizan
tras las gotitas de sudor
de un feriado regional
Hace tiempo que nadie
viaja en este auto
tan solo una camisa y shorts
un vestido floreado
ojotas rotas y deformes
la heladerita sopa de cubitos
icebergs entre el pan y queso
tres días encallados
km 2
no llegamos a las montañas
tres días mareados
las fotos sin sacar
el agua fría
el motor bobeado
el radiador caldeado
me tiro del auto
prefiero llevar la ruta
en los codos raspados
santiguarme con merthiolate
en la salita de emergencias
a que la policía caminera
encuentre un auto vacío
y despegue mi cuerpo
de la cuerina
del asiento sin cabeza
y un volante sin jinete.

 

Padrão
poesia

Três Poemas Inéditos de Marcus Groza

Marcus Groza é escritor, dramaturgo e encenador. Escreveu e encenou a antiópera Rua Carne Entre as Articulações (2016), trabalha atualmente na criação dos espetáculos Maré Morta e RãCô. É autor dos livros e a lua com órgão principal (Ed. Primata, 2017) e Sossego Abutre (Ed. Patuá, 2015), entre outros. Os poemas aqui apresentados integram o livro inédito A milésima demão nas paredes de estar perdido.

* * *

Rescaldo

diáfano resto de lilás e vermelho
a sua voz é buquê de flores
suando dentro de um saco
hoje na rua me ofereceram a assinatura
de um jornal inexistente
paguei e pedi para entregarem na sua casa
…….uma notícia do que não houve
…….seria mais ou menos imunda
…….do que o silêncio desidratando?

cinzas mornas e telepatias amargas
indícios de um desespero
que ganha corpo cada vez mais
dentro de outros corpos
como vegetais suando numa vitrine
o isopor com a alegria das festas

o que não ardeu pode gerar catástrofes?
a pétala das queloides o vigor cativo das lunações?

posso gritar que todo abrigo é vil
como qualquer resíduo de almíscar
num balde de lodo
posso gritar que as sementes da maça
são projéteis a serem lançados

mas é pouco
é parco azeite besuntado
para tanto atrito
enquanto escorre chorume
da verdade escalavrada
…….vapor e fumaça endurecendo
…….pincel mergulhado
…….num pote de tinta esquecido aberto
…….lava gelada de antigos temascais

o pútrido e as forças cósmicas
numa mesma voz suando frio

§

ʧ

três quintos do que você chama
de inferno

ela se refere como sendo
tristezas orvalhadas

angústia é marca de ferro
ela diz

você pensa no
cosmético antirrugas
que ela comprou e não usa

a etimologia é só uma desculpa nobre
para o fracasso

prataria turva
pela fumaça do cigarro

§

Canção Submersa

o monge disse
o que circula não
transborda
por isso a maré
não enlouquece

não estou tão certo
mas pressinto
maré imprópria
e só desejo a cura
que não supõe
o curso do rio
pelo ciclo das alturas
suporta lagoas
e riquezas mortas
no costado
sem escora

…….o pesadelo a nível do mar
…….é dia
…….deitar a cabeça em reticências

antes encher
os corredores da casa
suportar a água
não como ave sobrevoando
sentir a música em todo corpo
dançar dentro da neblina

…….viver submerso
…….pagar o preço da miopia

 

Padrão
poesia, tradução

4 Poemas de Leandro Alva, por Marcus Groza

Leandro Alva (1975) é poeta argentino de Temperley, Buenos Aires. É autor do livro Tundra (2011) e de Viaje a Misiones (no prelo). Foi convidado a participar de festivais literários no México, Costa Rica e Espanha. Estudou Letras na Universidade de Lomas de Zamora e na Universidade Carolina de Praga (República Checa), participa do “Metangorfosis”, grupo argentino de “tango kafkiano”.

* * *

SS

A palavra sede
contraditoriamente
parece conter certa
secreta secreção.
Essa letra ESSE do princípio
succiona, sorve, suplica
e se alongada o suficiente
se parece ao som
acuoso e inevitável
de um jorro
de soda.

Então
alguém pode compreender
a liquidez
da seca
já não sabe suar
e só resta o sedimento
seco na sombra
da iminência
de uma nuvem
que passa ao largo
como um prateado peixe
de gás.

SS

La palabra sed
contradictoriamente
parece contener cierta
secreta secreción.
Esa letra ESE del principio
succiona, sorbe, suplica
y si se estira lo suficiente
semeja el sonido
acuoso e inevitable
de un chorro
de soda.

Entonces,
uno puede comprender
la liquidez
de la sequía
y ya no sabe sudar
y solo queda un sedimento
seco en la sombra
de la inminencia
de la nube
que pasa de largo
como un pejerrey
de gas.

§

Iscariote

O corpo se mexe,
o vento que o move ou o que treme é a rama?
Alguns pássaros interrompem seu canto,
a tarde
A água desafina em cântaros quebrados
por isso cala.

Tudo é silêncio, coroa de espinhos.

O corpo se mexe,
se é o vento que o move ou a figueira
quem vacila
não importa.
Alguns pássaros interrompem seu canto,
não seu apetite.
Sob a pele de cordeiro o lobo está inchando.
A carne arrependida
oscila sua traição.

El Iscariote

El cuerpo se mece,
¿lo mueve el viento o la que tiembla es la rama?
Algunos pájaros interrumpen su canto,
la tarde.
El agua desafina en cántaros quebrados
por eso calla.

Todo es silencio, corona de espinas.

El cuerpo se mece,
si es el viento el que lo mueve o es la higuera
quien vacila
no importa.
Algunos pájaros interrumpen su canto,
no su apetito.
Bajo la piel de cordero se hincha el lobo.
La carne arrepentida
oscila su traición.

(aqui uma leitura desse poema no original: https://www.youtube.com/watch?v=uoTsV8bvpok)

§

Ornitologia

Muito perto de casa
entre Vila La Perla e Bairro San José
há uma série de ruas
com nomes de pássaros
príncipe andorinha calhandra sabiá
se aninham em cada esquina
em cada poste de luz.

Essas aves
não se veem muito na vizinhança
mas se pode seguir seu gorjeio
descobrir um rastro de plumas na vala
sobre a terra ou no chão empedrado
e alçar os olhos
à copa de uma árvore
para ver o resumo ausente da liberdade.

Ornitología

Muy cerca de casa
entre Villa La Perla y Barrio San José
hay una serie de calles
con nombres de pájaro
churrinche golondrina calandria zorzal
anidan en cada esquina
en cada palo de luz.

Esas aves
no se ven mucho por el vecindario
pero uno puede caminar su trino
descubrir un rastro de plumas en la zanja
sobre la tierra o el empedrado
y alzar los ojos
a la copa de un árbol
al resumen ausente de la libertad.

§

O mundo se banha de sangue,
diariamente espirra nos desavisados
para que Deus conserve a higiene.
Falo do mesmo deus que criou a Pilatos
e aos sabonetes do Reich.
Somos menos que bolhas
bexigas de carnaval
sobre o arame farpado.

El mundo se baña de sangre,
diariamente salpica al menos advertido
para que Dios conserve la higiene.
Hablo del mismo dios que creó a Pilatos
y a los jabones del Reich.
Somos menos que burbujas
globitos de carnaval
sobre un alambre de púas.

* * *

Marcus Groza (1984) é poeta e dramaturgo. Autor de Sossego Abutre (Ed. Patuá – 2015), e a lua como órgão principal (Ed. Primata – 2017), é doutorando em Artes Cênicas e editor da Revista Abate e da Revista Saúva.

Padrão
poesia

Marcus Groza

Marcus Groza (2)

Plumas de Cacto

hoje eu não lhe amo
por nada
nem se você matar uma família inteira
dessa gente da máfia dos ônibus
morreria de orgulho
mas nem por isso nem por nada
hoje nem se você me contasse
que da mesma forma que
estamos aqui vendo o nascer
do sol poderíamos ter nascido
chineses da china assistindo
ao pôr-do-sol num telão de led
tendo ao fundo o céu envenenado
nem por isso eu choraria nem por
isso me aninharia em seus braços
aliás hoje lhe digo que nem se você
lavasse os pés dos desvalidos
com a água que usa pra lavar cristais
nem se aquele raro travesseiro
de plumas de cacto você trouxesse
hoje eu não lhe amo
por nada

§

Composição Sentítulo

aprendo
a tática
dos gravetos

me aninho
em labirintos
e territórios alheios

se perco
quebro inflamo
ou falo sozinho

não é porque
a febre dos sinais
me galope a esmo

cego
aceno o diálogo de poucos
porcos especialistas em pérolas

mudo
de discursos e sílabas
ora teimosia de um barco a velas

ora colossal
qual monstro ou surdo
ritmando mínimos tremores de terra

cajado inimigo
tacape em punho
invisíveis cirurgias nas vértebras

* * *

Marcus Groza é palavrero e devoto do céu violado. Autor do livro Sossego Abutre (Ed. Patuá), donde foram tirados os poemas acima, e coeditor da Revista Saúva e da Revista Abate.

Padrão