Sebastião Nunes – Enfisema Pulmonar

Será lançada oficialmente esta semana, dia 15, na Casa das Rosas, em São Paulo, a antologia Poesia (Im)Popular Brasileira, organizada por Julio Mendonça (editora Lamparina Luminosa, mais detalhes no lançamento aqui. Na ocasião também teremos o relançamento do Brasa enganosa). Como diz o título, o volume é uma coletânea da poesia de autores cujo estatuto é, digamos, menos que canônico. Temos nomes que já foram consagrados – mas cuja consagração se deu recentemente – como Gregório de Matos e Sousândrade, mas a maior parte do volume se concentra sobre autores menos conhecidos como Sapateiro Silva e Qorpo Santo, nos séculos XVIII e XIX, e, no XX e XXI, Aldo Fortes, Edgard Braga, Joaquim Cardozo, Max Martins, Omar Khouri, Pagu, os Sebastiões Nunes e Uchoa Leite, Stela do Patrocínio e Torquato Neto. As seleções introdutórias para a apresentação de cada um desses poetas são acompanhadas por ensaios escritos por poetas e estudiosos da poesia brasileira.

Sebastiao-NunesUm dos nomes que mais me chamou a atenção dentre os presentes no volume foi o de Sebastião Nunes. Nascido em Bocaiúva, 1938, o poeta é autor de 10 livros de poemas lançados entre 68 e 89 (com títulos como Papeis higiênicos e Elogio da punheta) reunidos em dois volumes de sua Antologia Mamaluca, programada visualmente pelo próprio autor. Só pelos próprios títulos em sua obra (que inclui ainda dois romances, Somos todos assassinos e Decálogo da classe média) já é possível notar o gosto do poeta pelo escracho e pela escatologia, mas, até onde pude notar, não se trata de modo algum do escracho e da escatologia que se findam em si próprios, e sim como uma ferramenta para explorar algo de brutalmente visceral e melancólico da vida cotidiana – algo como mais tarde faria, no Espírito Santo, mas com um tratamento diferente, o poeta Sérgio Blank, de que já tratamos aqui no escamandro. Um de seus poemas mais cruentos, “Serenata em B Menor” (78/79), é uma recriação de reportagem contrapondo versos, imagens jornalísticas e trechos paródicos de canções, como “o bio de baneiro bontinua bindo” (bilberto bil). Há algo de evidentemente cômico nisso (a serenata é em B, lembre) e nos versos obscenos como “português fode paraibano / baiano enraba cearense”, mas tudo está contraposto a imagens de cadáveres (de pessoas pobres, visivelmente) estatelados no asfalto. Como nota Fabrício Marques, que é o encarregado do ensaio sobre o autor em Poesia (Im)Popular Brasileira:

É um registro um pouco à maneira de jornais que exploram crimes e notícias policiais. Na última página do poema, lê-se o aviso discreto do poeta: “Só enquanto recupero o fôlego”. Essa é a senha para que se entenda o texto como um poema confessional, por dois motivos, segundo Nunes: na época de criação do poema, ele estava sufocado pelo trabalho como publicitário em agências do Rio de Janeiro; e desenvolvera uma deficiência respiratória bastante acentuada.

O confessional de um estado de desespero (que é tanto psico quanto fisiológico), portanto, em vez da banal exploração cotidiana da violência com a qual estamos acostumados.

Um dos seus poemas ainda mais fortes ocorre, no entanto, quando ele volta essa sua visceralidade poética para si próprio, como é o caso do poema “Enfisema pulmonar”, uma elegia à morte de seu pai, Levi – um dos assuntos mais graves e pessoais, na poesia, do qual alguém pode querer tratar. Com apenas 19 versos e algumas imagens (representando o seu pai, ou com partes da foto obscurecida ou multiplicado, nunca revelado plenamente de frente), diz Fabrício Marques, ele é um dos mais tocantes poemas da poesia brasileira. E não sou eu quem irá negar isso. A crueza do verso, que, até onde vai minha experiência com funerais, acerta precisamente no nervo da descrição da crueza de toda a situação, culminando na conclusão dos últimos 2 versos, é de uma força emocional tremenda. Não é obra de um poeta escatológico leviano, certamente.

Como o uso da imagem é parte integrante do poema (como é o caso dos demais poemas do Nunes), precisei digitalizar as imagens a partir do livro. Mas transcrevo junto abaixo também o texto, para facilitar para o leitor que, por qualquer motivo, tiver problemas em ver as imagens.

Para quem quiser conferir outros poemas de Nunes, indico ainda este post da revista Modo de Usar & Co.,

Adriano Scandolara

Enfisema 1

Levi Araújo Nunes nasceu no Serro, MG, de onde fugiu
aos 15 anos, depois de uma briga a tiros na qual feriu
(ou matou) alguém, se minha avó Antoninha não
estava delirando. Participou de duas ou três badernas
militares, por idealismo, gosto de aventura e falta do
que fazer. Me ensinou que preguiça e
irresponsabilidade são grandes virtudes, mas exigem
coragem e astúcia. Sempre quis que eu escrevesse
como Guerra Junqueiro, o único poeta que admirava.
Casou-se um dia antes da morte de minha avó
Etelvina e, com as 4 vacas de herança, abriu uma
venda em Bocaiúva, MG, onde se asilou para sempre

Enfisema
Pulmonar
(Elegia rupestre para Levi Araújo, o menor dos Nunes)

duas e meia da tarde. 10 de junho de 1984
mãos secas. pés juntos. algodoais no nariz.
véu negro sobre o rosto: tímido noivo de verme
rotineira terra roxa sobre o cadáver de cera.

Enfisema 2
vai embora levi e seus 40 quilos de osso.
vai embora o enfisema. missão cumprida.
vão embora pescarias. cigarros de palha. tosses.
revólver na cintura. carteados. o olho de cobra.

o coveiro sua e pragueja: antes ele do que eu
foi tudo muito rápido. silencioso. sem queixas.
1 metro e 58 e nunca confessou nada. nem a padre.
nunca pediu nada. nunca aceitou nada. nem de deus.

Enfisema 3
tão pequeno para um orgulho tão grande.
feroz como todos os pequenos. duro como diamante.
até que finalmente tudo passou – e nada.
que diferença faz? séculos ou mitos ou segundos.
grandes ilusões rastejam entre lagartixas.

e então é verdade: então a vida não passa disto:
um sopro: um cisco no olho: um sopro e nada.

(Sebastião Nunes)

nota crítica: “toda poesia” de paulo leminski

TODA-POESIA-LEMINSKI

acabou de sair o livro Toda poesia de paulo leminski (1944-89), como todos sabem – & quem não sabe, trate de saber (“quem tem QI, vai”, diria o poeta). como escreve alice ruiz na apresentação do livro, “este livro é antes de tudo uma vida inteira de poesia”. talvez seja nesse sentido mesmo que o livro cumpre & descumpre seu papel : é sobre isso esta breve nota.

impossível negar o louvor necessário para uma realização como essas: já fazia mais de vinte anos que o polaco loco paca morreu, sem que tivéssemos uma organização da sua poesia, que em grande parte ainda permanecia de difícil acesso, por falta de edições. é o caso, por exemplo, dos Quarenta clics em Curitiba (1976) & de poemas presentes nos livros independentes Polonaises (1980) & Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase (1980) que no fim das contas não entraram no Caprichos e relaxos (1983). estes perdidos em reedição entram agora no final do volume sob a alcunha de “poemas dispersos”. portanto, sim, temos agora toda poesia publicada em livro, com o cuidado de retomar aqueles que não saíram nas edições comerciais; & isso é um passo importantíssimo para divulgar a obra de leminski, além de permitir um estudo mais facilitado para os não-sei-quantos-mas-decerto-muitos interessados na sua poesia (eu, um desses, sofri muito na graduação no ES, na década passada, pra encontrar uma série de poemas, & só pude mesmo ler os Quarenta clics depois de vir morar em curitiba). para além dessa coleção com todos os poemas publicados em livro, ainda temos uma antologia crítica sobre a poesia de leminski, que passa a ser outra pérola para os interessados em geral; como já havia sido em edições do Catatau (1975).

dito isso, tenho cá duas ressalvas. a meu ver, são ressalvas de certo modo sérias. não para desbancar esse livro, mas para pensarmos numa política de edições completas; já que eu ainda espero algumas outras de poetas vivos & mortos. portanto, o que escrevo se pretende uma crítica construtiva, principalmente pensando em algumas edições de poesia completa de autores internacionais com seus resultados.

em primeiro lugar, embora a edição seja primorosa no cuidado dos poemas mais visuais de leminski (detalhe fundamental para recordar sua herança concretista), ela deixa de lado os processos dialógicos que construíram dois livros do poeta em parceira com artistas plásticos. Quarenta clics em Curitiba, com fotos de jack pires e Winterverno (2001, edição póstuma) com desenhos de joão suplicy. o argumento do editor é de que, “Dado que os poemas são anteriores às fotos, optamos por reproduzir aqui apenas os textos, sem as imagens.” ora, mesmo que escritos antes das fotos, sua existência poética em livro se deu nesse diálogo, nessa busca que determinou a seleção dos poemas, bem como sua ordem. o que quero dizer é que, apesar de os poemas já significarem antes das imagens, eles passam a ganhar novos significados quando colados às imagens. esse ponto, a meu ver, enfraquece a função de leminski como poeta multifacetado, que sai do estritamente “escrito” para outras lavouras, como poesia visual, interface com imagens, música popular (as letras também não entraram nessa coleção), HQ, graffiti &c.

no caso de Winterverno, o editor sequer justifica a ausência das imagens, além de excluir os poemas que já tivessem aparecido anteriormente em outros livros, creio que sob a ideia de economia de papel & preço. neste caso, o processo torna mais custoso o conhecimento da inteireza do projeto entre os artistas, com o conhecimento de todos os poemas que faziam parte dele; além do mesmo problema que já apontei, sobre a perda do sentido dialógico da obra, independente da ordem de criação. ainda assim, no caso de ficarmos sem as imagens, ao menos uma lista dos poemas presentes seria útil ao leitor um pouco mais interessado.

em segundo lugar, creio que este livro perde uma oportunidade, a saber, a de reunir os poemas de fato esparsos. como disse, a série “poemas esparsos” é, na verdade, constituída apenas por poemas que haviam aparecido nos livros independentes & que não entraram nas edições maiores a partir de Caprichos e relaxos. sei que leminski publicou inúmeros poemas em revistas e jornais: esse trabalho de recolha, ainda que árduo, ainda resta por fazer, para sabermos (nem faço ideia) quanto ficou de fora dos livros, mas participava na sua intervenção contínua sobre a cultura. não estou falando de revirar mais poemas inéditos & aceito o veredito de alice ruiz (quando da publicação póstuma de O ex-estranho, em 1996), de que “Os poemas inéditos publicáveis acabam aqui”. falo dos publicados & dispersos, sem livro; falo das canções gravadas. penso, por exemplo, na pérola inédita em livro, mas musicada & gravada por josé miguel wisnik, letra que encerra, aliás, o seu posfácio:

Subir
No raio de uma estrela
Subir até
Sumir
Subir até sumir
No brilho puro
Subir mais
Subir além
Além de toda a treva
De toda a dor
Além de toda a treva
De toda a dor
Deste mundo

o trabalho de ajuntar essas canções tem sido feito por estrela leminski, sobretudo (que eu saiba) pelo viés da execução; agora há pouco ainda fiquei sabendo do impressionante recente blog de josemar vidal jr., lírico leminski, que está tentando organizar as gravações & disponibilizá-las. no livro, entretanto, esse vazio confirma que, apesar da imensa importância desta primeira empreitada, que de cara já se alçou às listas de best sellers, ainda ficamos por esperar o bigode completo do cachorrolouco.

na gravação acima, leminski toca violão & canta “mudança de estação”,
“valeu” & “verdura”, com a percussão & bateria de kito pereira.

guilherme gontijo flores

3 poemas do velho bukowski, por gabriel resende santos

o nosso amado chuck buck já esteve por aqui, não precisa mais de apresentação
precisa é de mais poemas traduzidos, & de poemas traduzidos mais vezes
por isso o nosso tradutor, gabriel resende santos,
também sem reapresentações,
agora estreiando na tomada da voz alheia.

so cut the crap
& vamos pro que interessa

guilherme gontijo flores

ps: com uma tradução de fernando kroposki para hangovers, em apêndice;
porque ressaca a gente aguenta mais de uma.

ressacas

provavelmente tive mais delas
do que qualquer outra pessoa viva
e elas não me mataram
ainda
mas em algumas manhãs fizeram eu me sentir
horrivelmente próximo
da morte.

como você sabe, o pior dos porres
é o que se toma de estômago vazio, fumando
pesado e se afundando em diversos
tipos de
bebida.

e as piores ressacas são quando você
acorda no seu carro ou num quarto estranho
ou num beco ou na cadeia.

as piores ressacas são quando você
acorda para descobrir que fez
algo absolutamente infame, ignorante e
possivelmente perigoso na noite passada
mas
você não pode lembrar exatamente o que
fez.

e você acorda em vários estados
de desordem – partes do seu corpo
machucadas, perdidos o seu dinheiro
e/ou possivelmente e com frequência
o seu carro, se você tinha carro.

você liga para uma mulher,
se você estivesse com uma mulher,
para com frequência ouvi-la bater o telefone
na sua cara.
ou, se no momento ela estiver por perto,
sentir sua eriçada e ultrajada
raiva.

bêbados nunca são perdoados.

mas bêbados perdoam eles mesmos
porque precisam beber
de novo.

é preciso muita resistência para
ser um bêbado por tantas
décadas.

seus colegas de porre são
mortos por isso.
você mesmo entra e sai
de hospitais
onde o aviso mais frequente é:
“mais uma dose e será o seu
fim”
mas
você supera
tomando mais de uma
dose.

e quando está perto dos
setenta e cinco
você descobre que precisa de ainda mais
bebida para ficar
bêbado.

e as ressacas são ainda piores,
a recuperação é
mais demorada.

e a coisa mais estúpida
é que você não se arrepende
por ter feito isso
tudo
e por continuar
fazendo.

escrevo isto agora
sofrendo uma de minhas
piores ressacas
enquanto lá embaixo
esperam várias e várias
garrafas de
álcool.

tudo tem sido tão bestial
tão adorável,
este rio alucinado,
esta loucura
que me assalta
e arrebata,
e que não desejo a ninguém
além de mim mesmo,
amém.

hangovers

I’ve probably had about more of them
than any person alive
and they haven’t killed me
yet
but some of those mornings felt
awfully near
death.

as you know, the worse drinking is done
on an empty stomach, while smoking
heavily and downing many different
types of
libations.

and the worst hangovers are when you
awaken in your car or in a strange room
or in an alley or in jail.

the worst hangovers are when you
awaken to realize that you have done
something absolutely vile, ignorant and
possibly dangerous the night before
but
you can’t quite remember what it
was.

and you awaken in various states of
disorder – parts of your body
damaged, your money missing
and/or possibly and often your
car, if you had one.

you might place a telephone call to
a lady, if you were with one, most
often to have her slam the phone
down on you.
or, if she is next to you then,
to feel her bristling and outrageous
anger.

drunks are never forgiven.

but drunks will forgive themselves
because they need to drink
again.

it takes an ungodly durability to
be a drinking person for many
decades.

your drinking companions are
killed by it.
you yourself are in and out of
hospitals
where the warning often is:
“one more drink will kill
you.”
but
you beat that
by taking more than one more
drink.

and as you near three quarters of
a century in age
you find that it takes more and more
booze to get you
drunk.

and the hangovers are worse,
the recovery stage is
longer.

and the remarkably stupid
thing is
that you are not unpleased that
you have done it
all
and that you are still
doing it.

I am typing this now
under the yoke of one of my
worst hangovers
while downstairs now
sit various and sundry
bottles of
alcohol.

it’s all been so beastly
lovely,
this mad river,
this gouging
plundering
madness
that I would wish upon
nobody
but myself,
amen.

aquelas garotas que seguíamos até em casa

no ensino médio as duas garotas mais bonitas
eram as irmãs Irene e
Louise:
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas
elas não eram apenas bonitas mas
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham-se longe:
tinham medo de Irene
e Louise
que não eram nada inacessíveis;
até mesmo mais amigáveis que a maioria
mas
que pareciam se vestir um pouco
diferente das outras garotas:
sempre usavam salto alto,
blusinhas,
saias,
acessórios novos
a cada dia;
e
uma tarde
meu parceiro, Baldy, e eu
as seguimos da escola
até em casa;
você vê, nós éramos tipo os
marginais do pedaço
portanto isso já era algo
mais ou menos
esperado:
caminhando por uns dez ou doze metros
atrás delas
não dissemos nada
apenas as seguimos
observando
o seu gingar voluptuoso,
o balanço de suas
ancas.

nós gostamos tanto que
passamos a segui-las até em casa
todo
dia.

quando elas entravam
nós ficávamos lá fora na calçada
fumando e conversando

“um dia”, eu disse a Baldy,
“elas vão nos chamar para
entrar e vão transar
com a gente”

“você realmente acredita nisso?”

“claro”

agora
50 anos depois
eu posso te dizer
que elas nunca chamaram
– não importa todas as histórias
que nós contamos aos garotos;
sim, é um sonho
que te fazia seguir
na época e te faz seguir
agora.

those girls we followed home

in junior high the two prettiest girls were
Irene and Louise,
they were sisters;
Irene was a year older, a little taller
but it was difficult to choose between
them;
they were not only pretty but they were
astonishingly beautiful
so beautiful
that the boys stayed away from them;
they were terrified of Irene and
Louise
who weren’t aloof at all;
even friendlier than most
but
who seemed to dress a bit
differently than the other girls;
they always wore high heels’
silk stockings,
blouses,
skirts,
new outfits
each day;
and’
one afternoon
my buddy, Baldy, and i followed them
home from school;
you see, we were kind of
the bad guys on the grounds
so it was
more or less
expected,
and
it was soomething:
walking along ten or twelve feet behind them;
we didnt say anything
we just followed
watching
their voultuous swaying,
the balance of the
haunches.

we liked it so much that we
followed them home from school
every
day.

when they’d go into their house
we’d stand outside on the sidewalk
smoking cigarettes and talking.

“someday”. I told Baldy.
“they are going to invite us inside their
house and they are going to
fuck us.”

“you really think so?”

“sure.”

now
50 years later
I can tell you
they never did
-never mind all the stories we
told the guys;
yes, it’s a dream that
keeps you going
then and
now.

poema da noite sombria

eles dizem que
nada se perde:
ou se perde
tudo.

dark night poem

they say that
nothing is wasted:
either that
or
it all is.

(trad. gabriel resende santos)

APÊNDICE TRADUTÓRIO

Ressacas
(trad. fernando kroposki, tirada do livro essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém)

já tive provavelmente mais delas
do que qualquer outra pessoa viva
e elas não me mataram
ainda
embora algumas manhãs parecessem
muito próximas
da morte.

como você sabe, o pior porre é tomado
de estômago vazio, fumando compulsivamente
e se afundando em vários tipos
diferentes
de bebidas.

e as piores ressacas são quando você
desperta no seu carro ou num quarto estranho
ou num beco ou na cadeia.

as piores ressacas são quando você
desperta percebendo que fez
algo completamente detestável, ignorante e
possivelmente perigoso na noite anterior
mas
você não consegue se lembrar direito
o quê.

você desperta em vários estados
de desordem – danos – em partes
do corpo, seu dinheiro faltando,
e/ou possivelmente e frequentemente
o seu carro, se você tinha um.

você liga para uma mulher,
se você estivesse com alguma,
mais para ouvir ela bater o telefone
na sua cara.
ou, se ela estiver ao seu lado,
então a sentir ultrajada e eriçada
de raiva.

bêbados jamais são perdoados.

mas bêbados se perdoam
porque precisam beber
de novo.

é preciso uma resistência inacreditável para
ser alguém que beba por várias
décadas.

seus companheiros de bar são
mortos por isso.
você mesmo está entrando e
saindo de hospitais
onde o aviso sempre é:
“Mais uma dose e você está
morto.”
mas
você supera isso
tomando mais do que mais de uma
dose.
e quando você está perto dos setenta
percebe que precisa de mais de muito mais
bebida pra te deixar
bêbado.

e as ressacas são piores,
a fase de recuperação é
maior.

e a estupidez mais notável
é que
você não fica descontente
por ter feito
tudo isso
e por ainda
fazer.

escrevo isto agora
sob os efeitos de uma das minhas
piores ressacas
enquanto lá embaixo
me esperam várias e diversas
garrafas de
bebida.

tudo tem sido tão bestial
e adorável,
esse rio insano,
essa loucura
roubada
à mão armada
que não desejo a ninguém
a não ser a mim mesmo,
amém.

Reinaldo Santos Neves: Muito soneto por nada

Seria muita queimação de filme contar que nós, do escamandro, lemos poesia em bar? (às vezes em cafés, também, quando estamos mais civilizados) Pois bem, talvez seja, mas não mais do que a queimação de filme maior que é já a exposição de escrever (e publicar) poesia. Dito isso, um dos poetas que se destacou numa dessas nossas leituras de bar mais recentes foi Reinaldo (ou Reynaldo) Santos Neves. Capixaba, de 1946, confesso que eu não o conhecia até muito recentemente, quando entrou em contato comigo, por conta do Sérgio Blank, poeta de que já falamos aqui no escamandro.

Reinaldo Santos Neves não é bem um poeta assumido, e, de fato, se fossemos enquadrá-lo numa categoria, dada sua carreira, estaríamos mais propensos a rotulá-lo como um romancista. Ele é autor dos romances O reino dos medas (de onde um trecho serve de epígrafe a Pus de Blank), A crônica de Malemort, As mãos no fogo: o romance graciano, Sueli: romance confesso, A confissão e, mais recentemente, A folha de hera, que faz um trabalho experimental estranhíssimo (no bom sentido) de simular ser a edição crítica de um manuscrito medieval de uma tradução quatrocentista para o inglês de uma crônica francesa. Ele é bilíngue, em inglês médio e português, e é uma demonstração de inventividade e erudição sem paralelo. Para quem gosta de estudos medievais e é fã, por exemplo, de Umberto Eco, é um prato cheio. Fica, então, a sugestão de leitura.

Mas, estávamos a falar de poesia, não é? O único livro de poemas de que tenho notícia de Reinaldo se chama Muito Soneto por Nada, que saiu pela cultural ES em 1998, mas cujos poemas foram compostos entre 1988 e 1991. Agora, a experiência me diz que romancistas dedicados raramente dão bons poetas (e vice-versa, vide James Joyce, por exemplo), mas aqui, felizmente, não é o caso. Reinaldo Santos Neves pode não atender por poeta, nem ter escrito volumes e volumes de poesia, mas o que ele escreveu certamente vale a pena ser lido.

Poderíamos resumir Muito Soneto por Nada como uma releitura anos 80 da tradição antiquíssima do ciclo de sonetos amorosos. Obviamente, o ato de se escrever poesia amorosa repousa no próprio cerne da tradição lírica (vide Safo), mas a forma do soneto, tal como engendrada por Giacomo da Lentini e perpetuada por Petrarca – como chamamos, o soneto petrarquiano –,  permitiu um modo de expressão muitíssimo apropriado à temática. Pense na constituição formal do soneto, com seus dois quartetos e dois tercetos, divididos por uma linha que, tipicamente, determina o momento de se renovar as rimas – e com essa renovação, promover uma reviravolta retórica, uma volta (em itálico, porque é italiano), que pode tanto desenvolver o argumento inicial do poema quanto contradizê-lo. Tendo em mente essa tensão, esse movimento duplo, não me parece estranho que a forma tenha servido tão bem para tratar dos paradoxos, das tensões internas, das dissonâncias do sentimento amoroso. Camões, por exemplo, que o diga. Seu aspecto formular, também, permitia a composição em série, uma vez dominada a forma, o que, com seu tamanho fixo e limitado nos 14 versos (com pequenas e muitíssimo ocasionais variações ao longo dos séculos anteriores ao XX), encorajou a produção de ciclos de sonetos. E, desse modo, cantou Petrarca seu amor irrealizável por Laura; Dante, por Beatriz (embora seja na Comédia, e não em seus sonetos, o lugar em que ele eleva essa condição às últimas consequências); Shakespeare, pelos anônimos “fair youth” e “dark lady”, etc, e assim por diante. Desnecessário glosar que a forma encontrou vários outros usos, e o século XX ainda permitiu que o nome “soneto” fosse atribuído a poemas que compartilham poucos atributos da forma do soneto tradicional. Como um exemplo rápido e fácil, pense no “Soneto da perdida esperança”, de Drummond, que descarta os recursos de rima e métrica, embora mantenha a estrutura de 14 versos; ou no poeta contemporâneo Paulo Henriques Britto, outro sonetista irremediável (cujo último livro, Formas do Nada, foi lançado muito recentemente e será logo comentado aqui no escamandro), que tem trabalhado e manipulado a forma de modo a fazer o que chama de “sonetoides”, “sonetos simétricos” e assim por diante.

Quanto a Reinaldo, podemos ver que ele mantém do soneto tradicional, além da relação com a tradição do ciclo de sonetos amorosos, apenas o número de versos (embora haja um único poema em que ele ultrapasse os 14, mas o faz dentro de parênteses) e a métrica decassilábica. Alguns poemas também fecham com uma chave de ouro rimada, mas não ao estilo parnasiaso: são chaves de ouro cômicas e carregadas de (auto-)ironia, na medida em que terminam com rimas como “Nefertiti” e “sex-symbol de elite”. À moda tradicional, a voz poética de Reinaldo tem uma musa chamada Jose, com quem tem um relacionamento de amor não-correspondido, que é o que o leva a compor os sonetos. O mais interessante, porém, é a autoconsciência da atividade exercida, a compreensão da situação patética em que o eu-lírico dos poemas se encontra, que ele mesmo ironiza, ao mesmo tempo em que nega seu desejo real por Jose para afirmar desejá-la apenas como musa, apenas no soneto. Para fazer um símile bem cretino, poderíamos dizer que ela está para os sonetos de Reinaldo como um andaime para a construção de um prédio: essencial, mas descartável assim que a obra se completa. E ele tem plena consciência disso, subvertendo, assim, a tradição clássica ao cantar não para imortalizar a musa (como fez Shakespeare), maldizendo-a, inclusive, em vários momentos. O elogio clássico da beleza dá lugar ao escárnio pela moça que tem a beleza como única qualidade, como diz no soneto 15:

Duvido ouvido tenhas pra ouvir Mingus,
ou poema algum de Cummings (…)
pra digerir um filme de Fellini
sem que germine logo uma enxaqueca.

E assim por diante. Poderíamos encontrar ainda nessa relação dupla de desejo (tensionado ainda entre o desejo real e o desejo literário) e repulsa algo da poesia de Catulo (clique aqui para conferir o que eu estou falando, na transcriação excelente do Guilherme), que marca um movimento a partir de um ponto inicial de amor e louvor por Lésbia (vide poemas 3, 5, 43, etc) rumo ao desprezo e ao sentimento ambíguo de desejo com o conhecimento de que ela o faz sofrer. A isso podemos somar um estilo, uma voz poética, que não difere muito da do supracitado Paulo Henriques Britto (embora a temática seja completamente distinta), na medida em que mistura uma dicção elevada, i.e., discursiva, em 2ª pessoa, com palavras e referências eruditas (ninfa, Tântalo, Sísifo, etc) – que tanto apela ao gosto dos poetas palacianos anacrônicos – com a linguagem coloquial, repleta de palavrões (temos “cu doce” já de cara, no primeiro poema), referências à cultura de massa (Coca-cola e outros produtos), expressões estrangeiras não eruditas e trocadilhos (“Em plena happy hour, happy não estou” diz o poema 25). Parte desse humor, desse gosto do trocadilho não nega a época em que os poemas foram compostos, mas é um exemplo do que há de melhor dessa poética oitentista.

Pois bem, fica isso como minha introdução e brevíssima análise, e dos 50 poemas que compõem o livro, então, selecionei 5 para servir de apresentação.

Adriano Scandolara

1

Te quero, eu que o diga, e quero à risca,
mas se queres a mim eu nem pergunto
e, não sendo perguntada, não declares
nada, nada, só escuta, ninfa, quem
te chama – Jose, Jose! – pelo nome
e, chamada, sem cu doce, vamos, vem,
no andamento do soneto, anda, vem,
trazendo teu sorriso por escrito,
bem como a coma coligida em trança
– ou espargida em chusma de cabelos –,
e o corpo, o corpo, humano e feminino,
trajado todo em branco ou todo em preto –
joelho à vista e a coxa cáqui tanto
que dê água na boca à mim – e a Tântalo.

11

Recende o teu corpo à flor da tua idade,
misteriosa flor, sem nome flor, qual
não existe fora dentro da metáfora,
e todavia quanto me inebria, flor
como que de lótus, como se de ópio,
só de pensar que um dia eu possa, eu, poeta,
passar a língua em ponto nesse tigre
tatuado no teu ombro, e fazer-te,
eu, amante, de amor a pele marejar-te,
e de suor, que eu beba, eu, apaixonado,
gota a gota, até chegar à tua boca –
e aí me dês tua saliva de honra
e tua palavra: que eu engula, e morra.

28

Não penses que eu te quero de verdade,
por amada ou por amantes ou pura-
mente concubina, só porque o digo
e assevero em dialeto de soneto.
O que faria eu de ti? Não tens qualquer
talento além do corpo, e o teu corpo
duvido que ofereça o que alardeiam
tuas campanhas de publicidade.
Te quero, na verdade, de mentira,
que é da mentira que extraio poesia,
e é no poema que minto sem perjúrio,
promovendo uma hilota a ninfa e musa.
Te quero é no poema: é no papel;
melhor do que num quarto de motel.

29

Querendo ou não, agora é na berlinda,
Jose, o teu lugar. Sim. Anda na língua
de artistas o teu nome, e de poetas.
Como se fosses atração turística,
vênus egípcia, há quem de longe venha
pelo regalo de te ver passar
com teus requintes de sensualidade.
Teu mais bastardo gesto, teu sorriso
mais mascavo, teu olhar, são prato cheio
pras mais pedantes digressões estéticas.
Minha é a culpa de estares na berlinda:
de tanto lapidar-te com palavras,
de Jose transformei-te em Nefertiti:
em mito: em ninfa: em sex-symbol de elite.

48

Pronto, está feito o que tínhamos, Jose,
de fazer, só pra saber que não tínhamos,
Jose, de fazer. Mas pronto. Ainda
Jose és, musa não mais. Em teu corpo
cada coisa está em seu lugar, só
as qualidades literárias do teu
corpo já não endoidam o poeta
vagabundo que te comeu em verso
e agora só te quer pra te botar
uma pedra em cima. Que mais que falta?
Ah, sim, jogar, em seu devido lugar,
jogar lá no lixo as latas de Coca.
E é só. Desculpa qualquer coisa. E não temas:
dou minha palavra: fim dos poemas.

Reinaldo Santos Neves

NOVA POESIA MARGINAL – bernardo lins brandão

NOVA POESIA MARGINAL

nos pátios dos conventos
nos sacrários das igrejas
invade os olhos e os lábios – inominável
paz que ultrapassa todo entendimento

sempre nova poesia marginal:
o Verbo se fez carne
e a carne infinito

escândalo e loucura para os povos

 

bernardo brandão

dar voz a roberto piva

a revista modo de usar & co. lançou
faz pouco tempo
um canal no youtube
empreste sua voz a um poeta morto
são ainda poucos vídeos mas
a coisa se emperola
aos poucos

(vocês não deveriam deixar de ver
vocês deveriam
ceder a voz
no banheiro na cozinha
no motel
a um poeta morto
ou vivo ou morto-
vivo)

e este aspirante a poeta
vivo
acabou de contribuir
com o recém-morto
roberto piva
exu da poesia brasileira
meteoro no cu
do coro dos contentes

o vídeo jaz
aqui

guilherme gontijo flores

Comentário crítico: sobre Pus, de Sérgio Blank

Faz já quase um mês desde que eu postei uma pequena seleção de 7 poemas do livro Pus, do poeta capixaba Sérgio Blank, com a promessa de tecer algum comentário crítico a respeito. Pois bem, agora é (finalmente) hora de honrar a promessa e não deixar nenhuma pendência para o ano novo.

Gostaria de começar a partir da citação que Valdo Motta faz na contracapa do livro, especialmente o trecho em que diz: “Demolindo e reelaborando a linguagem do mundo, deformada com efeitos de estranhamento que incomodam, Blank espicaça consciências entorpecidas”. De fato, a demolição de um certo tipo de linguagem parece ser um tema recorrente neste livro de Blank, na medida em que ele utiliza diversas técnicas para distorcer o discurso cotidiano, o discurso dos chavões e o discurso da mídia e meios de comunicação.

Um dos poemas que postei, “O que dita a dor”, é o que  apresenta esse recurso de modo mais evidente, valendo-se de uma terminologia burocrática para compor um discurso amoroso (caso raro neste livro), bastante ambíguo por conta das quebras sintáticas e frases que não fecham; podemos supor, pela chave dada pelo título e pelo verso final, que se trata de um discurso do próprio sentimento requisitando o padecimento do amante, ou ainda, mais tipicamente do gênero, um discurso de um eu lírico amante para uma pessoa amada. De qualquer modo, no entanto, o resultado é cômico e aviltante, conforme a linguagem usada compõe não poesia de amor elevado, mas um poema que sugere uma desvalorização amorosa ao aproximar este amor a um ditador e a um burocrata. O crítico Sinval Paulino, autor de Sol, Solidão, ao tratar de um outro poema de Pus,o primeiro, “O Ilustre Desconhecido” (que se abre com o verso “figura eu te amo”), que há uma “impossibilidade de amar e ser amado”, na medida em que se dá uma “valorização do simulacro ao invés do real” no poema, e acredito que o mesmo ocorra aqui; em vez da emoção pura e descontrolada, há a frieza do papel, do documento oficial. O mais icônico disso é o final, em que um dos versos se destaca pelo contraste da expressão “carinhos da paixão”, o tipo de expressão que  beira o brega, mas que é sufocada logo em seguida por “decreto a lei / assino em baixo”.

Além da destruição da sintaxe, a linguagem em Blank é deformada por trocadilhos, aproximações sonoras e usos ambíguos de palavras. Podemos observar isso, por exemplo, no próprio título de “O que dita a dor”, bem como em alguns de seus versos (“propriedade de estado / de meu espírito”); no título de “Opusdapeste”, em que fica deliberadamente ambíguo se é “o pus da peste” ou “opus da peste” (e, na dúvida, aceitamos ambos os sentidos simultaneamente, claro); em “O ovo todo vazio”, na ambiguidade da palavra “rio” (se referindo tanto à coisa “rio” quanto ao verbo “rir”, um tipo de ambiguidade a que Paulino também trata em seu comentário crítico) no verso “rio à margem”, explicitada pelo verso seguinte “eu rio muito”, bem como em “estátua gípseo alvo” na “Valsa do ócio”, em que o adjetivo “gípseo”, no masculino, não parece estar adjetivando a palavra feminina “estátua”, como deveria ser o esperado, lançando, assim, ao léu três palavras em algum grau desconexas: estátua, gípseo e alvo (outra palavra sintaticamente ambígua); no verso de “Anátema”, “cristã taram tantã”, que faz simultaneamente uma piada com o adjetivo “cristã” e simula algo como o som musical de uma trombeta, mencionada nos versos seguintes; e, mais excessivamente, em “O anel que tu me deste”, nos versos “de bossa à beça / basta de bosta na festa / besta com fama de lenda / bis de novo / nada de neo / herói demitido / a moto mata os mitos” em que as imagens são compostas não tanto por alguma lógica quanto pela aproximação sonora bossa-beça-basta-bosta-festa-besta e moto-mata-mito. A essas aproximações sonoras se somam as rimas ocasionais, jamais sistematizadas, como cidade-grade, em “Opusdapeste”, situação-coração-oposição-paixão em “O que dita a dor”, analítico-político e deu(zeus) em “Anátema”, traços-braços, voz-albatroz-avestruz em “Avestruz”, e assim por diante.

E aí eu creio ser necessária uma digressão para tratar do trocadilho e da rima. Não se pode falar dessas duas coisas na poesia brasileira atual sem se pensar no nome de Paulo Leminski. De fato, Leminski foi um mestre no emprego do trocadilho, técnica depois banalizada por seus imitadores tardios, mas essa não parece ser uma influência principal em Pus, que nos permita situá-lo ao lado desses tais imitadores. E isso se dá talvez porque a rima e o trocadilho leminskianos são estruturados e se encontram no cerne do poema: em linhas gerais, quando aparecem, eles tendem a dar o sentido de todo o poema, fechando uma ideia, motivo pelo qual costumam aparecer com frequência no último verso. Blank parece rejeitar estruturas poéticas como rejeita estruturas de poder (na medida em que se insere numa tendência de anti-autoritarismo oposicionista, ao lado de inúmeros outros poetas dos anos 80, como aponta Paulino), e, nele, seus jogos sonoros de palavras tendem a dar uma impressão de que o poema está sendo construído na hora, conforme uma ideia, um som, uma imagem surgem, são explorados durante alguns versos – como quem faz variações sobre um tema – para então darem lugar a novas ideias, sons e imagens. É mais ou menos como a lógica do improviso, para fazer uma comparação musical, embora obviamente isso não queira dizer que os poemas sejam improvisados de fato, mas é a impressão que passam. Assim, no solto “rio à margem / eu rio muito / página a página”, etc, Blank se distancia bastante de, por exemplo, “rio do mistério / que seria de mim / se me levassem a sério?” de Leminski. Essa lógica do improviso parece aproximá-lo de um outro poeta contemporâneo, porém estrangeiro, que é John Ashbery, cujo funcionamento dos poemas se dá desse mesmo modo, naquilo que gosto de chamar de “imagens em tremolo (em oposição ao stacatto de imagens soltas e imediatamente desconexas), começando com uma imagem e indo gradualmente além dela, conforme cada verso toca apenas tangencialmente o verso anterior. Ashbery, no entanto, tem uma poética mais prosaica e tende a versos e poemas mais longos, enquanto Blank é, em todos os sentidos, fragmentário.

Outra aproximação-distanciamento que podemos fazer seria com o poeta Roberto Piva, no que condiz à capacidade de destruição da linguagem. Como brevemente comentado e ilustrado pelo nosso companheiro do Escamandro, Guilherme Gontijo Flores, em seu blog pessoal, os livros Paranóia e Piazzas são destrutivos, causando uma demolição poética através de seus excessos de imagens, frequentemente absurdas, para então se criar o espaço necessário para erigir a poética mais esotérica e positiva da poesia tardia, xamanista, de Piva. Em comparação, porém, Blank, com suas distorções e deformações, também destrói, mas não é um diluidor de Piva, imitando um tipo de poética 20 anos mais tarde, pois destrói já construindo outra coisa no lugar – só que essa outra coisa se compõe dos próprios destroços daquilo que destruiu. Para ilustrar esse argumento, recorro à questão da unidade dos poemas: é difícil dizer exatamente onde um poema acaba e outro começa nesta fase inicial, destrutiva, de Piva. E isso é especialmente observável nas Piazzas, que reteriam sua força poética mesmo que seus poemas fossem repartidos, cortados, fundidos. É, por assim dizer, uma poética líquida.

Já em Blank, como pode ser visto nos 7 poemas postados aqui, há uma temática por trás de cada um que o represa e objetifica cada conjunto de versos num poema separado. “Opusdapeste” é um ótimo exemplo disso, na medida em que se abre explorando o tema da jaula e se conclui traçando sua delimitação, como ele mesmo diz, na “décima quinta linha”. O poema “Avestruz” é ainda mais impressionante, pois o que o amarra é a imagem lugar-comum do avestruz como uma ave que enfia a cabeça no chão, representando, assim, alguém que foge dos próprios problemas. Essa atitude – com o semblante caído até o chão, esfregando no tapete, e os olhos escondidos – mantém a coesão do poema enquanto ele oscila entre imagens grotescas (“a mãe com beijos molhados te quer / o pai com muitos dotes te possui”) e ordens autoritárias (“sai do banheiro e desfila no corredor / e não chore / porque eu não quero”). E o discurso se constrói de tal modo que, através da técnica, mencionada acima, do tremolo, ocorre uma metamorfose nos versos finais em que o próprio indivíduo do poema se transforma num avestruz, a princípio com “uma ave na voz”, depois com uma referência indefinida a várias aves, para então surgir uma pena e a própria palavra “avestruz” aparecer, enfim, no último verso. Desse modo, em cada um desses poemas, a linguagem é destruída para dar lugar a uma nova construção de linguagem, fechada em si, esculpida a partir de seus próprios escombros.

Obviamente, seria fútil tentar fechar o sentido desses poemas através de comentário crítico – como seria fútil tentar fazer o mesmo com praticamente qualquer poeta moderno que valha a pena ser lido. No entanto, espero que, com essas breves observações aqui feitas, eu possa fornecer algum começo rudimentar para se pensar a poesia de Sérgio Blank.

Lembro, novamente, que, para quem se interessar, existem os livros de análise e comentário crítico Porque e por Quê, de Reinaldo Santos Neves & Sol, Solidão de Sinval Paulino (que empreguei neste comentário), e que, além disso, a Editora Cousa muito recentemente fez o lançamento do volume Os dias Ímpares – Toda Poesia de Sérgio Blank, reunindo toda sua obra produzida até então, uma excelente oportunidade para conhecer o poeta.

Adriano Scandolara

Atualização de 24/8/12: à convite do prosador e poeta Reinaldo Santos Neves, apresentei uma palestra intitulada “Hermetismo e Expressão: a Trajetória Poética de Sérgio Blank”, no evento Bravos Companheiros e Fantasmas: V Seminário Sobre o Autor Capixaba (link aqui para a programação e resumo do evento), que ocorreu ontem e anteontem em Vitória. Em antecipação a esse evento, publiquei um pequeno artigo na edição de hoje do caderno Pensar, de Vitória (link aqui), intitulado “O pus das palavras”. O texto ainda está disponível online aqui. Pode-se conferir também mais 3 poemas deste livro de Blank neste link na mesma página.

Sete poemas de Sérgio Blank

Acredito que tudo que eu possa dizer para apresentar Sérgio Blank (1964) é que ele é um poeta capixaba meio lado B, deixado de lado pelo eixo Rio-São Paulo (velha história), embora tenha certo reconhecimento local, com pelo menos dois livros de estudo crítico a respeito (Porque e por Quê, de Reinaldo Santos Neves & Sol, Solidão de Sinval Paulino). É autor dos livros de poesia Estilo de ser assim, tampouco (1984), Pus (1986), Um (1989), A Tabela Periódica (1993) e Vírgula (1996), além do infanto-juvenil Safira (1998). De resto, cito as palavras do também poeta, também capixaba, Valdo Motta, que na contracapa do Pus mais do que eu pode fazer jus ao poeta: “Sérgio Blank é um poeta preocupado em exprimir o pus de sua alma agraciada com a peste, o pathos, o tormento da lucidez. Demolindo e reelaborando a linguagem do mundo, deformada com efeitos de estranhamento que incomodam, Blank espicaça consciências entorpecidas”.

Gostaria, assim, de compartilhar alguns de seus poemas com nossos leitores, transcritos abaixo, para, na sequência, poder tecer algum comentário crítico sobre o tipo de trabalho que Blank desenvolve em Pus – que eu, mesmo sem ter conhecido antes de começar a escrever poesia, poderia considerar como um precursor dessa poética que, aqui entre nós do escamandro, passamos a designar como “lira de lixo”.

Seguem os poemas. Mais tarde, no dia 19/12, postei então meu comentário crítico a respeito.

AVESTRUZ

disfarça e sai dessa cena
o quarto com lençóis te aguarda
a mãe com beijos molhados te quer
o pai com muitos dotes te possui
desce os cílios e segue a vista
vire o rosto para o lado de lá
cai o semblante até o chão
e esfregue a face no tapete
uma carreira até em casa
trancafie-se entre os braços
limpe seus traços
e não chore e não chore
aos prantos corre até o próximo ônibus
sai do banheiro e desfila no corredor
e não chore
porque eu não quero
e não chore
aos prantos ergue a cabeça
porque eu não gosto
ostenta cortes no pescoço
na ponta dos dedos esconda os olhos
e não chore
uma ave na voz
uma avis rara
pelicano ou ganso ou albatroz
no caminho de volta deixe cair uma pena
penugem & plumagem de avestruz

ANÁTEMA

(ju)deus obtusos ou
usos e costumes
humildes e
úmidos ou
ju(ízes)
tema analítico político
luz ilustre
deu(zeus)
cálculo de matemática
prova a existência
cristã taram tantã
trombetas do juízo
final

VALSA DO ÓCIO

estátua gípseo alvo
dance em vida
balé vulgar e clássico
dance em vida
música por par
ímpar do viver
veste iridescente
dance em vida
neste ímpeto bestial

O OVO TODO VAZIO

te quis
lei cortês
delicada liturgia à toa
li à altura
rio à margem
eu rio muito
página a página
capricho a interessante besteira
a crase trágica
busque as coisas
se for feio
meigo gosto de cortesia
o mês já era
passe outra hora.

O QUE DITA A DOR

estou aqui
representando o sentimento
vim solicitar
o seu município
corpo de belos membros
propriedade de estado
de meu espírito
exijo, você
tem que aderir
ao partido da situação
em que fico
lapsos no coração
o dito cujo, amor
inadmissível oposição
sua plataforma política
deve ser calcada
nesses carinhos da paixão
decreto a lei
assino em baixo

OPUSDAPESTE
(solidão)

o maior espetáculo da terra
a minha tragédia
jaula de circo
uma grande cerca
acordo cedo com o fim
deixo de ser estrela
brilhe o segredo da rua
a chave da cidade
afinal fecha a grade
além disso
obriga a praga do dia e dia
não receie ir tão longe
ali onde o grito é o lance
a décima quinta linha

O ANEL QUE TU ME DESTE

parte um

gente que nasceu em meu ano
não pensa a guerra
pedala sem tocar qualquer chão
pessoas que são poucas coisas
passeios suados de bicicletas
findando nos ônibus de rodoviárias
nas caronas já caretas

partem dois

escritórios de textos poéticos
de bossa à beça
basta de bosta na festa
besta com fama de lenda
bis de novo
nada de neo
herói demitido
a moto mata os mitos
o destino dos mortos
máquina de moer carne
resta meu rosto
farelo de rosca
risco de farsa e elo
entre tudo mesmo
eu não falo mais nada
eu não valho
a tensão presta serviço
escreve o lucro do escravo boçal
cabeça caída em távola de bar
agora eu vou
um tanto além de embora
morrer de rir
engasguei com a gargalhada
gargarejo de papo e papel
encalhe no brasil

partem todos

(da infância esquecida
ao ultrapassado das rugas)

chega

Charles Bukowski: 3 poemas de You get so alone at times…

Charles Bukowski (1920 – 1994), também conhecido como Chuck Buck, também conhecido como “O Velho Safado”, foi, para sermos sucintos, uma figura literária da sarjeta, escrevendo 6 romances e uma quantidade enorme de poemas (milhares, organizados em nada menos que 47 volumes de poesia), contos e textos de não-ficção (11 volumes) – tudo sobre o aspecto mais baixo e ordinário da vida urbana. Seus temas – alcoolismo, becos e botecos, trabalho, a cidade de Los Angeles, relacionamentos amargurados com mulheres, mesquinharias do cotidiano – e seu tratamento seco e direto, quase atécnico, sarcástico e realista fez com que ele se tornasse, com o tempo, bastante popular, sobretudo entre os boêmios desiludidos de nossas terras.

Em tradução para o português, boa parte de sua prosa foi publicada pela L&PM. Já sua poesia foi um pouco menos traduzida: de minha ciência, temos os volumes O amor é um cão dos diabos (Love is a dog from hell, no original, de 1977) traduzido por Pedro Gonzaga para a L&PM, Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski,  Bertrand Brasil, tradução de Jorge Wanderley, e o algo raro Hino da Tormenta pela editora Spectro, cujo nome do tradutor infelizmente me escapa. Não são tão poucos volumes assim, mas, olhando na escala de sua produção, tem-se a impressão de uma leve negligência.

Os 3 poemas que publico aqui são do volume You get so alone at times that it just makes sense, de 1986.

 

Sem Bobagem

Faulkner amava seu uísque
e com o tanto que ele
escrevia
não lhe sobrava
tempo
pra muito além
disso.

ele não abria
a maioria de suas
cartas
só as erguia
contra a luz
e se não tivesse
dentro um
cheque
ele metia no
lixo.

no nonsense

Faulkner loved his whiskey
and along with the
writing
he didn’t have
time
for much
else.

he didn’t open
most of his
mail
just held it up
to the light
and if it didn’t
contain a
cheque
he trashed
it.

 

a geração perdida

tava lendo um livro sobre uma literata rica
dos anos vinte e seu marido que
beberam, comeram e farrearam por toda a
Europa
encontrando Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, muitos
outros;
os famosos eram como brinquedinhos preciosos para
eles,
e pelo que li
os famosos se permitiram tornar
brinquedinhos preciosos.
durante o livro inteiro
esperei pra que só um dos famosos
falasse a essa literata rica e seu
marido literato rico pra
que se mandassem
mas, aparentemente, nenhum deles o
fez.
Em vez disso foram fotografados com a moça
e seu marido
em várias praias
com cara de inteligente
como se tudo isso fosse parte do ato
da Arte.
talvez a mulher e o marido
serem donos de uma imprensa chique
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou do lado de fora da livraria da Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles foram
artistas ótimos e/ou originais,
mas tudo parecia um negócio tão precioso
esnobe,
e o marido finalmente cometeu seu
tão ameaçado suicídio
e a mulher publicou um de meus primeiros
contos nos anos
40 e agora
já morreu, mas
eu não consigo perdoar nenhum dos dois
por suas vidas ricas idiotas
e não consigo perdoar seus brinquedinhos preciosos
também
por terem sido
isso.

the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally commited his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40’s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

O chip Intel 8088 de 16 bits

com um Apple Macintosh
você não pode rodar os programas Radio Shack
no seu drive.
tampouco um drive de Commodore 64
pode ler um arquivo
criado num
computador pessoal IBM.
tanto os computadores Kaypro e Osborne usam
sistemas operacionais CP/M
mas não podem se ler ao outro, suas
caligrafias
pois formatam (escrevem
em) discos de diferentes
modos.
o Tandy 2000 roda MS-DOS mas
não pode usar a maioria dos programas feitos para
o Computador Pessoal IBM
a não ser que certos
bits e bytes sejam
alterados
mas o vento ainda sopra sobre a
Savana
e na Primavera
o abutre real pavoneia e
marcha diante de suas
fêmeas.

16-bit Intel 8088 chip

with an Apple Macintosh
you can’t run Radio Shack programs
in its disc drive.
nor can a Commodore 64
drive read a file
you have created on an
IBM Personal Computer.
both Kaypro and Osborne computers use
the CP/M operating system
but can’t read each other’s
handwriting
for they format (write
on) discs in different
ways.
the Tandy 2000 runs MS-DOS but
can’t use most programs produced for
the IBM Personal Computer
unless certain
bits and bytes are
altered
but the wind still blows over
Savannah
and in the Spring
the turkey buzzard struts and
flounces before his
hens.

 

(traduções de Adriano Scandolara)