Maria Borio, por Cláudia Tavares Alves

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Maria Borio (1985) é poeta e também editora de poesia da revista italiana Nuovi Argomenti. Seus poemas estão publicados em L’altro limite (Pordenonelegge-Lietocolle, PordenoneFaloppio, 2017) e Trasparenza(Interlinea, 2019), além de terem aparecido em diversas revistas e jornais italianos e internacionais. Publicou também o estudo Poetiche e individui: la poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio, 2017).

O poema Aquatic Centre apareceu pela primeira vez na revista online The  Los Angeles Review -, na versão original, em italiano, e na tradução para inglês, de Julia Anastasia Pelosi-Thorpe. Em nota, a tradutora explica que o título se refere ao Centro Aquático de Londres, projetado pelo Zaha Hadid Arquitetos para abrigar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos ocorridos em 2012. O título permanece, então, também em português, em referência ao lugar que parece ser desenhado pelos versos de Maria Borio. As linhas e curvas desse edifício, em que a luz incide por todos os lados, projetam uma imagem, um encontro possível entre o céu e a água. Pelo “fenômeno do olhar”, a poesia parece também incidir: nas estruturas de ferro, no concreto, nos vidros.

Cláudia Tavares Alves

 

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London Aquatics Centre – ©DomePhotography 2018


Aquatic Centre 
 

Stesa sul letto a volte vedi forme,
curve che entrano e spirali che evadono.
Gli organi trasparenti in alto si aprono
e diventano una linea morbida che insegue se stessa,
pulisce il respiro dai colori scuri – il colore del sangue,
o quello denso della carne dove nascono le api.

Nulla si rigenera, ma è prolungato, infinito
nella linea che pulisce gli oggetti e fa cose
per pensare, per abitare: un grande uovo, ad esempio,
si spacca senza perdere liquido e bianchissimo invade
gli angoli del soffitto, apre un arco, una porta
tra i continenti.

Tra il cielo e l’acqua questo edificio
splende in una luce illimitata:
puoi aprirlo, aprirti
a una lingua di toni aspri,
tornare nel suono rotondo di un’altra
riprendendo quei toni come finestre sul mare
o il ponte sospeso per il parco
dove le persone stese sull’erba sono api
e il calore al sole sembra impedire la morte
anche se tra anni, milioni, un giorno
esplodendo.

Segui poi altre linee, quelle della specie,
forse come sapere che nascere
non sarà più violenza, ma fenomeno di sguardo,
e dal letto lasci il sesso arrampicarsi
attorno ai contorni di questo edificio
nel suo bianco sotto raggi tempesta,
la stella nell’attimo prima
di esplodere.

La vita è ovunque, in una linea curva
ognuno abita come pensare.
Le api ora lasciano la mia bocca perché le penso.

Aquatic Centre

Deitada na cama, às vezes vê formas,
curvas que entram e espirais que escapam.
Órgãos transparentes no alto se abrem
e se transformam em uma linha suave que persegue a si mesma,
limpa o respiro das cores escuras – a cor do sangue,
ou a densa cor da carne onde nascem as abelhas.

Nada se regenera, mas é prolongado, infinito
na linha que limpa os objetos e faz coisas
para pensar, para morar: um grande ovo, por exemplo,
se rompe sem perder o líquido e branquíssimo invade
os ângulos do teto, abre um arco, uma porta
entre continentes.

Entre o céu e a água este edifício
brilha numa luz ilimitada:
pode abri-lo, abrir-te
a uma língua de tons ásperos,
retornar ao som redondo de uma outra
retomando aqueles tons como janelas sobre o mar
ou a ponte suspensa para o parque
onde as pessoas deitadas sobre a grama são abelhas
e o calor ao sol parece impedir a morte
mesmo que em anos, milhões, algum dia
explodindo.

Segue então outras linhas, aquelas da espécie,
talvez como saber que nascer
não será mais violência, mas fenômeno do olhar,
e da cama deixa o sexo escalar
em torno dos contornos deste edifício
em seu branco sob raios tempestade,
a estrela no instante antes
de explodir.

A vida está em todo lugar, em uma linha curva
alguém mora como pensar.
As abelhas enfim deixam a minha boca porque as penso.

§

Cláudia Tavares Alves (1988) é professora de literatura. Também pesquisa e traduz literatura italiana, além de contribuir com os blogs Marca Páginas, Ponto Virgulina e Literatura Italiana Traduzida no Brasil. Atualmente, trabalha na tradução de Le mie poesie non cambieranno il mondo, da poeta Patrizia Cavalli, para as Edições Jabuticaba.

*

Sessão Vagalume|Maria Borio, por Prisca Agustoni & Francesca Cricelli

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Maria Borio nasceu em 1985, formou-se em Letras e é Doutora em Literatura italiana. Publicou as coletâneas Vite unite ( 2015), L’altro limite (2017) e Trasparenza (2018).Escreveu os livros de ensaios Satura. Da Montale alla lírica contemporanea (2013) e Poetiche e individui. La poesia italiana dal 1970 al 2000 (2018). É curadora da sessão de poesia da revista “Nuovi Argomenti”.

Seleção e tradução por Francesca Cricelli e Prisca Agustoni, extraídos da coletânea Trasparenza que, já em processo de produção, aporta em breve no Brasil.

* * *

Creature

I.

Nulla più fragile, nulla più facile:
il tempo si perde se credo che avremo tempo
per contare tutte le forme di felicità.

Sullo schermo seguo l’immagine dell’oceano: ci separa
È freddo, ad ogni virata degli uccelli
Il tuo corpo e il mio possono trasformarsi.

L’oceano stanotte ti ha toccato la pancia perché l’hai sognato,
una strana Europa mi ha accerezzato la schiena.

Premo la faccia, la figura della tua faccia
due emisferi.

II.

Creature, tracce del fuoco.
Sul muro segnavi le prime lettere.

Ti ho pensato una treccia nella fiamma
si apre viola, cade strato dopo strato.

Attraverseremo il tempo come le icone sopra il fondo
senza tempo del quadro: creature

che non si possono dire
che ti vincono.

Criaturas

I

Nada mais frágil, nada mais fácil:
o tempo se perde se creio termos tempo
para contar todas as formas de felicidade.

Na tela sigo a imagem do oceano: nos separa
faz frio, a cada revoada dos pássaros
teu corpo e o meu podem se transformar.

O oceano essa noite tocou-te o ventre porque o sonhaste,
uma estranha Europa roçou-me as costas.

Espremo o rosto, a figura do teu rosto
dois hemisférios.

II

Criaturas, vestígios de fogo.
No muro assinalavas as primeiras letras.

Pensei em ti uma trança na chama
abre-se violeta, cai camada sob camada.

Atravessaremos o tempo como ícones sobre o fundo
sem tempo do quadro: criaturas

que não podem se dizer
que te vencem.

 

§

Accoglienza

I.
Si raccontano, una faccia nell’altra.
C’è il pane fresco sul banco, asciutto,

il suono di cose toccate. Dispone
pezzi in fila – le mani sembrano terra,

le unghie sono tagliate fin dentro la carne.
Le storie scomposte in sagome

fanno corto circuito. Attraverso
il vetro appare reale solo la forma

delle magliette made in china.
Come dire posto per accoglienza?

Il cielo preme su tutti, scivolano fuori
dalle magliette i corpi.
II.
Parlare, sentire: entriamo, compriamo
due chili di pane – parlare, sentire

le mani calde, gli occhi geologici. Sembra
di attraversarsi, noi nella mattina soli

dal banco al vetro alla strada…
Le aste traslucide attraverso i vetri

sono rami – e il vento
le apre, li chiude.
III.
Il nome inizia con la a e finisce con la h
suona una cosa calda, di lievito

ed è vero – la distanza esiste meno
di prodotti che di etnia. La cosa esplode.

Il vento comprime tutti,
finisce con la h, come si soffia.

IV.
Sembriamo serpenti, curve, lingue mescolate.
Passiamo attraverso un posto immaginario.

È una sfida, come il ragazzo della favola
nascondeva la volpe tra ascella e fianco.

Il cielo preme su tutti, le solitudini esplodono.
Il posto intorno è vero – i serpenti solo suono.

 

Acolhimento

I

Contam-se, um rosto no outro.
Tem pão fresco no balcão, seco,

o som das coisas tocadas. Dispõe
pedaços enfileirados – as mãos como terra,

as unhas cortadas rente à carne.
As histórias decompostas em contornos

dão curto-circuito. Pelo
vidro só parecem reais as formas

das camisetas made in china.
Como dizer local de acolhimento?

O céu pesa sobre todos, escorregam
das camisetas os corpos.

II

Falar, ouvir: entramos, compramos
dois quilos de pão – falar, sentir

as mãos quentes, os olhos geológicos. Parece
um atravessamento, nós pela manhã sozinhos

do balcão ao vidro à rua…
As hastes translúcidas pelo vidro

são galhos – e o vento
as abre, os fecha.

III

O nome começa com a e termina com h
soa feito coisa quente, de fermento

e é verdade – a distância existe menos
entre produtos do que etnia. A coisa explode.

O vento comprime todos,
termina-se com h, como um sopro.

IV

Parecemos cobras, curvas, línguas misturadas.
Passamos por um lugar imaginário.

É um desafio, como o garoto da fábula
escondia a raposa entre a axila e o flanco.

O céu pesa sobre todos, as solidões explodem.
O lugar ao redor é real – as cobras só o som.

Maria Borio, por Davi Araújo

Maria Borio (Perugia, 1985) é poeta e crítica literária. Doutora em Literatura Italiana Contemporânea, assina os estudos Satura. Da Montale alla lirica contemporanea (Fabrizio Serra Editore, 2013) e Poetiche e individui. La poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio Editori, 2018). Como poeta, publicou a série Vite unite (em XII Quaderno italiano di poesia contemporanea, Marcos y Marcos, 2015), a plaquete L’altro limite (Pordenonelegge-Lieticolle, 2017), e o livro Trasparenza (Interlinea, 2019). Escreve nos sites Le parole e le cose e La letteratura e noi, e cura a seção poesia da revista Nuovi Argomenti.

Davi Araújo (São Paulo, 1979) é poeta, ficcionista e tradutor; colaborador de Mallarmargens e diretor artístico d’A Quimera Dança. Autor do poemário Livro Ruído (Eucleia, 2011), publicado em Portugal, e das prosas em Ficções paralelas e Visões para lê-las (Substânsia, 2016; com desenhos de Yuli Yamagata). Traduziu Natureza, de R. W. Emerson, Caminhada, de H. D. Thoreau (Dracaena, 2011), 100 poemas de André Breton (Revista Agulha, 2019), e diversos poetas reunidos em Do silêncio ao céu (inédito). Lança este ano, pela Urutau, seu próximo livro de poemas: O físsil.

* * *

O céu

Sei que ἁρμονία significa também coligação,
conexão, união. “Enquanto restarem unidos
os troncos da jangada,/estarei aqui, resistirei…”

(Odisseia, V, 361-362)

As nozes abertas sobre a mesa
são todavia som
– o movimento brilhante dos olhos
da porta à mesa:
o labor, o peso que não existe,
a ânsia ligeira pelas pessoas –
como se a beleza não tivesse uma origem.
Estas nozes fizeram rumor,
me tiram os pensamentos
(nascem e são já de todos,
todos os pensamentos…),
me reclamam ao corpo,
àquele que digo sabor
(as ideias são sempre sem corpo,
são parte de todos?),
me mantêm a contar os restos,
a colecioná-los sobre a mesa (e os meus
pensamentos, a quem fizeram feliz?).
As cascas partidas pertencem a estas mãos,
ao côncavo, às linhas das palmas,
pontas de sementes – nasce uma vida
ao instante dentro destas mãos.
Não ter pensamentos.
///
Apenas sobre as notícias eu sei nomes e pessoas
como era o labirinto dos vidros, no parque, dos espelhos
até batendo encontravas a saída.
Porque não tenho a saída agora –
se chama rede,
talha um quadrado exato
e um lugar que é onipresente.
Ou sou o branco de fundo
no corredor de espelhos,
inciso de diagonais e metálico
na terra, estreito entorno ao corpo
com os neons que faziam indistintos
a pele e o ar como uma sombra transparente
que segue a cada um, mas ao voltar-se não está.
E ali a peça de velha moeda,
o círculo de bronze com o golfinho
era caído à terra
quando estávamos vizinhos à saída,
e para não perdê-la a tenhamos abandonado.
Ali, exatamente, acreditei
em uma língua para todos
idêntica ao ar nos espelhos,
do inventor do labirinto às nossas mãos suadas
que protegiam a fronte:
erro ou desvio,
mas era solidez
bater a fronte às vezes
antes de chegar.
E à saída do parque o mestre dos crepes,
o pedrisco no círculo como a plataforma escura
onde atiras e pegas
e perdes, e depois os sapatos de ginástica
sobre o pedrisco e o mês certo
novembro – sempre um rito
enquanto o tempo agora é filiforme
e os sentimentos certos que todos possam capitar
e ver tão só na infinita
rede – ou, às vezes, em equilíbrio,
alguém que devolve a moeda.
///
Têm passado dias como vozes,
as vozes úteis pelo ar quando se enche.
Têm passado dias demasiado meus
aos quais falo curtocircuito.
E os teus – aqueles de-
le, do outro, do outro,
outras vozes
eu deles, deles
de mim e ninguém
de ninguém.
Me apareciam rostos de mulher
no mármore da fachada,
plenos da luz de dezembro
e muito ligeiros para perceber
se jovens ou velhos, criaturas
inaturais ou animais.
Apareciam as geometrias,
as ficções, e todos os habitantes,
deslizando vizinhos, secretos,
rachados pelo sol deslizando
de boca em boca de corpo em corpo,
se uniam às pessoas reais,
me faziam uma figura.
Contar é o único,
reconhecer na luz exata
as vozes que não parecem reais,
que desejas transparentes,
inocentes ou simples –
e te fazem muito mais única
do que uma pessoa só.
///
Um interior – a pressão d’água
nos tubos, a luz da lâmpada
matizada, o respiro,
o mastigar objetos… é nutrir-se
de pouco, pensar grades de metal
com que suspender as substâncias da natureza,
recriar.
Logo, exterior – passas como um nada,
se para o carro, o vento, a mosca
exausta entre os quadrantes das casas,
o fio de erva seco pelo gelo,
todavia passam – como um eu multiplicado.
Até quando, me dirás me dirás,
saberemos que protegidos ou expostos
é a mesma coisa?
Me dirás as criaturas inconscientes
não existem, e escava escava
cada um se encontra.
No fundo é
a base da erva,
o contato entre a estrada e a terra,
o fragor de ultrasons entre as asas e o ar,
as dobras entre parede e parede,
o halo nesses copos do respiro
e a sombra que degrada.
Tudo é
real nas escalas múltiplas
como as frases que levam adiante
adiante a compreender, o gesto
em que vasculhas para ver o fundo.
Interior cheio de nada,
a luz grisazulada que chega
é manhã e tarde
e as coisas espoliadas da sombra
um segundo te veem como tu as vês.
///
O vidro é todo inverno,
as árvores se apoiam,
um quadro é já parede,
a célula outra célula:
talvez pudessem continuar
com os sentimentos raptados
como as gotas que chamam luz,
pudessem ignorar.
Memória – cada um reconhece
ainda que fingindo.
Passam as cores do inverno
fora da janela como se os quereres
fossem estátuas dentro do céu
escondidas à natureza.
Se sentem mais do querer
fortes com a água nova –
assim dizem as plantas
sobre as quais volta o inverno mil vezes –
é raro ser anônimos e nós,
a escavar o inverno,
a murar os confins,
outros nós misturados às árvores –
parecem árvores e são
nós?
Prefiro o fim dos insetos
assim crus em espirais de lenho,
morrer de ar seco
quando o vento é muito forte:
a minha alma é morta mil vezes
e volta, privilégio
que apaga e inunda.
Provo outra vez fixá-la
no instante que, anônima, se apoia
na natureza sem provas, e crê
que nada exista.
///
Terminarão, terminarão –
tenho pensado nestes momentos,
a suspensão, a verdade
para todos – estes segundos
nutrientes como o leite.
Logo aprendia a me levantar e abaixar
conforme os casos, os poucos
que se podem observar. E os casos
tornavam-se meus, os meus humores
tornavam-se casos.
Mas o melro segue o curso dos ramos,
é uma realidade pintada
que se move sem medo
até quando não sinto que é real
mais do que eu – as penas negras
que brilham entre os ramos para dizer-me
a perfeição é fora.
Agora torna a morte como o céu
sobre todas as coisas transformadas –
eis que o céu tem todas as cores,
as apaga no alto, as perde,
as faz novas, o céu
muda a cada dia – e o mundo
resiste só em paralelo.
///
O céu é branco entre as folhas
que saem da terra a um ponto de ar.
Distingues as cores, as hierarquias,
as recém-nascidas, as sempreverdes
folhas de magnólia contra a luz
que escondem um mundo
latente como o nosso.
Sai o vazio imprevisto,
olhando do tronco à ponta das ramas
o céu no meio
como pudesses bebê-lo. Qualquer coisa
assim lógica e justa –
as hierarquias mais humanas não se fazem
de água e luz, crescem
à vontade necessária,
se alteram sob o querer de poucos.
Repetir isto e deixá-lo
passar da indiferença ao vento,
que o tenha consigo em um momento
entre os meus olhos e a magnólia.

§

Il cielo

So che ἁρμονία significa anche collegamento,
connessione, unione. «Finchè restano uniti
i tronchi della zattera, / starò qui, resisterò…»
(Odissea, V, 361-362)

Le noci aperte sul tavolo
sono ancora suono
– il movimento brillante degli occhi
dalla porta al tavolo:
il lavoro, il peso che non esiste,
le ansie leggere per le persone –
come se la bellezza non avesse un’origine.
Queste noci hanno fatto rumore,
mi tolgono i pensieri
(nascono e sono già di tutti,
tutti i pensieri…),
mi richiamano al corpo,
a quello che dico sapore
(le idee sono sempre senza corpo,
sono parte di tutti?),
mi trattengono a contare i resti,
a radunarli sul tavolo (e i miei
pensieri chi hanno reso felice?).
I gusci spaccati appartengono a queste mani,
nell’incavo, nelle linee dei palmi,
punte di semi – nasce una vita
all’istante dentro queste mani.
Non avere pensieri.
///
Appena sopra le notizie io so nomi e persone
come era il labirinto dei vetri, al parco, degli specchi
finché sbattendo trovavi l’uscita.
Perché non ho l’uscita adesso –
si chiama rete,
taglia un quadrato esatto
e un luogo che è ovunque.
O sono il bianco in fondo
al corridoio degli specchi,
inciso di diagonali e metallico
a terra, stretto intorno al corpo
con i neon che facevano indistinti
la pelle e l’aria come un’ombra trasparente
che segue ognuno, ma a voltarsi non c’è.
E lì il pezzo di vecchia moneta,
il cerchio di bronzo con il delfino
era caduto a terra
quando siamo stati vicini all’uscita,
e per non perderla l’abbiamo lasciato.
Lì, esattamente ho creduto
a una lingua per tutti
identica dall’aria agli specchi,
dall’inventore del labirinto alle nostre mani sudate
che proteggevano la fronte:
errore o deviazione,
ma era solidità
sbattere la fronte a volte
prima di arrivare.
E all’uscita del parco il maestro delle crêpes,
la breccia in cerchio come la piattaforma scura
dove tiri e peschi
e perdi, e poi le scarpe da ginnastica
sulla breccia e il mese certo
novembre – sempre un rito
mentre il tempo adesso è filiforme
e i sentimenti certi che tutti possono capire
e vedere nella sola infinita
rete – o, a volte, in equilibrio,
qualcuno che riporta la moneta.
///
Sono passati giorni come voci,
le voci utili all’aria quando si riempie.
Sono passati giorni troppo miei
a cui parlo cortocircuito.
E i tuoi – quelli di
lui, dell’altro, dell’altro,
altre voci
io di loro, loro
di me e nessuno
di nessuno.
Mi apparivano volti di donna
sul marmo della facciata,
pieni della luce di dicembre
e troppo leggeri per capire
se giovani o vecchi, creature
innaturali o animali.
Apparivano le geometrie,
le finzioni, e tutti gli abitanti,
scivolando vicine, segrete,
spaccate dal sole scivolando
di bocca in bocca di corpo in corpo,
si univano alle persone vere,
mi facevano una figura.
Contare è l’unico,
riconoscerle nella luce esatta
le voci che non sembrano vere,
che desideri trasparenti,
innocenti o semplici –
e ti fanno molto più unica
di una persona sola.
///
Un interno – la pressione dell’acqua
sui tubi, la luce della lampada
sfumata, il respiro,
il masticare oggetti… è nutrirsi
di poco, pensare griglie di metallo
a cui appendere le sostanze della natura,
ricreare.
Poi, esterno – passi come un niente,
si ferma l’auto, il vento, la mosca
sfinita tra i quadranti delle case,
il filo d’erba seccato dal gelo,
ancora passano – come un io moltiplicato.
Fino a quando, mi dirai mi dirai,
sapremo che protetti o esposti
è la stessa cosa?
Mi dirai le creature inconsapevoli
non esistono, e scava scava
ognuno si trova.
In fondo è
la base dell’erba,
il contatto tra la strada e la terra,
il fragore a ultrasuoni tra le ali e l’aria,
le pieghe tra parete e parete,
l’alone del respiro sul bicchiere
e l’ombra che degrada.
Tutto è
vero nelle scale multiple
come le frasi che portano avanti
avanti a capire, il gesto
in cui frughi per vedere il fondo.
Interno pieno di niente,
la luce grigioazzurra che arriva
è mattino e sera
e le cose spogliate dall’ombra
un secondo ti vedono come tu le vedi.
///
Il vetro è tutto inverno,
gli alberi si appoggiano,
un quadro è già parete,
la cellula altra cellula:
forse potrebbero continuare
con i sentimenti rapiti
come le gocce che chiamano la luce,
potrebbero ignorare.
Memoria – ognuno riconosce
anche fingendo.
Passano i colori dell’inverno
fuori dalla finestra come se i bisogni
fossero statue dentro al cielo
nascoste alla natura.
Si sentono più del bisogno
forti con l’acqua nuova –
così dicono le piante
su cui torna l’inverno mille volte –
è raro essere anonimi e noi,
a scavare l’inverno,
a murare i confini,
altri noi misti agli alberi –
sembrano alberi e sono
noi?
Preferisco la fine degli insetti
così crudi in spiragli di legno,
morire d’aria secca
quando il vento è troppo forte:
la mia anima è morta mille volte
e tornata, privilegio
che spegne e inonda.
Provo ancora a fissarla
nell’istante che, anonima, si appoggia
alla natura senza prova, e crede
che niente esista.
///
Finiranno, finiranno –
ho pensato a questi momenti,
la sospensione, la verità
per tutti – questi secondi
nutrienti come il latte.
Poi imparavo ad alzarmi e abbassarmi
come i casi, i pochi
che si possono guardare. E i casi
diventavano miei, i miei umori
diventavano casi.
Ma il merlo segue il corso dei rami,
è una realtà dipinta
che si muove senza paura
fino a quando non sento che è vero
più di me – le penne nere
che brillano tra i rami per dirmi
la perfezione è fuori.
Allora torna la morte come il cielo
su tutte le cose trasformate –
ecco che il cielo ha tutti i colori,
li spinge in alto, li perde,
li fa nuovi, il cielo
cambia ogni giorno – e il mondo
resiste solo in parallelo.
///
Il cielo è bianco tra le foglie
che salgono da terra a un punto d’aria.
Distingui i colori, le gerarchie,
le nuove nate, le sempreverdi
foglie di magnolia controluce
che nascondono un mondo
latente come il nostro.
Sale il vuoto improvviso,
guardando dal tronco alla punta dei rami
il cielo in mezzo
come potessi berlo. Qualcosa
così logico e giusto –
le gerarchie più umane non si fanno
di acqua e luce, crescono
a volontà necessarie,
si alterano sui bisogni di pochi.
Ripetere questo e lasciarlo
passare dall’indifferenza al vento,
che lo tenga con sé in un momento
tra i miei occhi e la magnolia.