poesia

4 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto (1992—)

Foto do Jornal Cidadão Cultura

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Por que ainda?

Porque um roxo azulado já ardeu
sobre um cemitério
Porque a libido dum gramado alto já se esfregou
entre umas pernas
Porque um cão já rendeu aquosa servidão
entre os dedos
Porque já se entrou numa sala em breu
acordada a sala aos sentidos acordada
Porque um homem já afiou um outro homem
– brasa os corpos.

§

Tremem maduras espigas
afiadas de sangue e de sonho
que é sangue e é sonho o corpo
sob outro.

§

O jovem recebia tudo o que quisesse levar
Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m
ão de seu amado passa
limpa a mirra limpa e limpo o amor
limpos os amados de carne apont
ada apontada carne dos amados
limpo o morno breu
limpo o morno breu
onde catalogam o corpo um do outro.

§

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem                                   
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento 
                                                                                           [e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

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poesia, tradução

2 poemas de Paul Celan, por Matheus Guménin Barreto

Sobre Celan, não precisamos mais fazer nenhuma apresentação aqui. Temos agora dois poemas traduzidos por Matheus Guménin Barreto.

guilherme gontijo flores

***

Salmo

Ninguém nos molda de novo da terra e do barro,
ninguém conjura o pó nosso.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor a ti queremos
florescer.
Ao encontro
de ti.

Um nada
éramos, somos, seremos
ainda, a florescer:
a Rosa-de-Nada, a
Rosa-de-Ninguém.

Com
o almacândido cálamo,
o ermoceleste filamento,
a rubra coroa
do verbo purpúreo, que cantávamos
sobre, oh sobre
o espinho.

Psalm

Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm,
niemand bespricht unsern Staub.
Niemand.

Gelobt seist du, Niemand.
Dir zulieb wollen
wir blühn.
Dir
entgegen.

 

Ein Nichts
waren wir, sind wir, werden
wir bleiben, blühend:
die Nichts-, die
Niemandsrose.

Mit
dem Griffel seelenhell,
dem Staubfaden himmelswüst,
der Krone rot
vom Purpurwort, das wir sangen
über, o über
dem Dorn.

§

Em Praga

A meia morte,
amamentada com a nossa vida,
jazia afim-à-cinza em torno a nós –

também nós
bebíamos ainda dois sabres, alma-entrecruzados,
cerzidos a rochas celestes, verbo-sangrento-nascidos
no leito noturno,

mais e mais
crescíamos no outro emaranhados, não havia
mais nome algum para
o que nos impelia (uma das trinta-
e-mais-tantas
era a minha sombra vivente
que a ti galgava os degraus da loucura?),

uma torre,
erigiu-se a meia morte rumo ao Aonde,
uma Hradčany
de puro Não alquimista,

osso-hebraico
moído e feito esperma
escorreu pela ampulheta
que atravessávamos a nado, dois sonhos agora, a soar
contra o tempo, nas praças.

In Prag

Der halbe Tod,
großgesäugt mit unserm Leben,
lag aschenbildwahr um uns her –

auch wir
tranken noch immer, seelenverkreuzt, zwei Degen,
an Himmelssteine genäht, wortblutgeboren
im Nachtbett,

größer und größer
wuchsen wir durcheinander, es gab
keinen Namen mehr für
das, was uns trieb (einer der Wieviel-
unddreißig
war mein lebendiger Schatten,
der die Wahnstiege hochklomm zu dir?),

ein Turm,
baute der Halbe sich ins Wohin,
ein Hradschin
aus lauter Goldmacher-Nein,

Knochen-Hebräisch,
zu Sperma zermahlen,
rann durch die Sanduhr,
die wir durchschwammen, zwei Träume jetzt, läutend
wider die Zeit, auf den Plätzen.

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poesia, tradução

Peter Waterhouse (1956—), por Matheus Guménin Barreto

Peter Waterhouse (1956- ) é um poeta e tradutor austríaco. Publica prolificamente até o presente, e seu mais recente livro foi publicado apenas alguns meses atrás: Equus. Wie Kleist nicht heißt (2018). Waterhouse é constantemente considerado um dos mais significativos poetas da virada do século, e já recebeu quase todos os prêmios que um autor germanófono poderia receber, entre eles o Prêmio H. C. Artmann (2004), o Prêmio de Literatura da Cidade de Viena (2008), o Prêmio Ernst Jandl (2011) e o Grande Prêmio Nacional Austríaco (2012). Até onde me foi possível averiguar, nenhum poema de Waterhouse foi ainda publicado em língua portuguesa.

Os poemas abaixo foram publicadoa no livro passim (1986), que traduzo no momento.

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal (plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Revista Germina, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], A Bacana e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

Na Escamandro publicou o ciclo de poemas homoeróticos “Um corpo incendiado: este” (inédito) e traduções de Ingeborg Bachmann.

***

O nome da língua

O nome da língua quer dizer: Ausência. Diz-se, por exemplo,
neste nome: Mesa. A Mesa é uma formação dura
ante nós. Nós somos uma formação dura
ante a Mesa. Nós nos transformamos e
nos nomeamos Quem-faz-mesas. Os Quem-faz-mesas (em relação a
                                           [nós)
dizem: Nós, Quem-faz-mesas. Ou: Nós, Quem-faz-cadeiras.
Nós quer dizer aqui: Não há nós, nós
é distante, nós qual nada. Há cadeiras. O que às vezes senta nela
se nomeia e me nomeia: Eu. (Na cadeira, o Quem-faz-mesas
escreve, de corpo presente, uma carta na Uma-dessas-formações-
                                          [para-escrever.)
Qual carta? Tudo escapa. Os contextos não são mais
nossos pretextos. Lá em frente estamos nós, no
nada absoluto, bom dia.

Agora: O material. Por vezes o material é um eu
por vezes o mesmo material é uma semente de maçã, uma farpa de
                                         [madeira
folha outonorubra. Um floco de neve momentâneo
cai quase roçando no momentâneo olho. É-se um
olho quase na rota de um floco que cai. De qual
floco?

O nome da língua quer dizer: Ausência. Hungria. Donau. Pisa.
Maria. Semente de maçã. Há mesmo muito à nossa disposição.
Tudo escapa. Criamos um antetexto. Criamos
um pretexto. Nosso louvor quer dizer: nós temos bons pretextos.
Quais?

Der Name der Sprache

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Man sagt zum Beispiel
in diesem Namen: Tisch. Der Tisch ist ein hartes Gebilde
vor uns. Wir sind ein hartes Gebilde
vor dem Tisch. Wir wandeln uns ab und
nennen uns Tischler. Die Tischler (in Zusammenhang mit uns)
sagen: Wir Tischler. Oder: Wir Gesesselten.
Wir will hier heißen: Wir gibt es nicht, wir
ist fern, wir als nichts. Es gibt Sessel. Was manchmal darin sitzt
nennt sich und nennt mich: Ich. (Der gesesselte Tischler

schreibt an Schreibsolchemgebilde anwesend einen Brief.)
Welchen? Alles flieht. Die Hintergründe sind nicht mehr
unsere Gründe. Ganz vorne stehen wir, im
unmittelbaren nichts, guten Tag.

Jetzt: Das Material. Einmal ist das Material ein ich
einmal ist dasselbe Material ein Apfelkern, Holzsplitter
herbstrotes Blatt. Eine augenblickliche Schneeflocke
fällt am augenblicklichen Auge kurz vorbei. Man steht
als Auge kurz an der Bahn einer fallenden Flocke. Welcher
Flocke?

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Ungarn. Donau. Pisa.
Maria. Apfelkern. Uns steht ziemlich vieles zur Verfügung.

Alles flieht. Wir bilden einen Vordergrund. Wir bilden
einen Grund. Unser Lob heißt: Wir haben gute Gründe.
Welche?

§

Sobre o que calamos?

É um Cair-Cá-Para-Fora (terrível Cair-Cá-Para-Fora
maravilhoso Cair-Cá-Para-Fora): no exemplo caem-se
as árvores: cá para baixo
cai o que nos agrada o paladar, e com a mesma boca o nomeamos
Abricote (terrível cair de Damasco
maravilhoso cair de Damasco): todos caem,
e o que é doce quer dizer, com a mesma boca,
Beijo. Beijo quer dizer: Aqui Se Cala. Sobre?
Aqui se cala sobre o Cair-Cá-Para-Fora.

Árvore = Prado.
Casa = Porão.
Deus = Chuva = Rã.
Metamorfose Vertical = Metamorfose Horizontal. Metamorfose quer dizer:
Aqui Se Cala. Sobre?
Porão sob a Casa cala sobre a Casa.

Tropeçamos no porão e lá calamos. Mas
pela escada subimos à casa e
em cima comemos a geleia de amarena achada embaixo. Mas significa aqui:
Depois do terrível tropeçar nós nos
metamorfoseamos e calamos maravilhosamente.
Sobre o que calamos?

Resumo do poema:

Alguém — ao decidir comer geleia de frutas — se enreda num jogo amoroso com amarenas. Outro – ao decidir comer geleia de frutas – se enreda num jogo amoroso com damascos. Damasco é como deus feito rã terrível ou como casa feita terrível porão. Mas é do terrível que a comida foi trazida para cá. Do terrível que se abatera é que nasce algo que é raro e volátil e silencioso.

Worüber schweigen wir?

Es ist ein Herausfallen (furchtbares Herausfallen
wunderbares Herausfallen): Im Beispiel lassen sich
die Bäume fallen: Unten heraus kommt
was uns schmeckt, und wir nennen es mit demselben Mund
Aprikose (furchtbarer Marillenfall
wunderbarer Marillenfall): Jeder fällt
und was süß schmeckt, heißt mit demselben Mund
Kuß. Kuß heißt: Hier wird geschwiegen. Worüber?
Hier wird geschwiegen über das Herausfallen.

Baum = Wiese.
Haus = Keller.
Gott = Regen = Frosch.
Senkrechte Verwandlung = Waagrechte Verwandlung. Verwandlung heißt:
Hier wird geschwiegen. Worüber?
Keller unter dem Haus schweigt über das Haus.

Wir stolpern in den Keller und schweigen dort. Aber
mit der Treppe kommen wir ins Haus und
essen oben das unten gefundenen Morellengelee. Aber meint hier:
Nach dem furchtbaren Stolpern machen wir
eine Verwandlung und schweigen wunderlich.
Worüber schweigen wir?

Zusammenfassung des Gedichts:

Jemand ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Morellen verwickelt. Ein anderer ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Marillen verwickelt: Marille ist wie Gott als furchtbarer Frosch oder wie Haus als furchtbarer Keller. Aber aus dem Furchtbaren ist die Speise geholt worden. Aus dem Furchtbaren, das gefallen ist, kommt etwas, das anders ist und unbeständig und schweigsam.

§

Retorno do êxtase

Qual árvore. Estamos muito quietos frente a frente. A árvore.
Aqui o mundo é assim. Céu, aves, relva.
Tantos dedos para as tuas cerejas. Tu me amas? Rápido.
Qual a nossa aparência de novo, nós formigas?
Me chamo Muro. Salta-o. É pequenininho qual camundongo.
Camundongo. Milharal. Salva-me de quem me ceifa.
Salva-me, o céu me empurra para dentro deste rio.
Pensar azul. Onde os pés
se não os tenho, eu água? Por que peixe?
Qual peixe sob o céu? Amas-me ainda?
O céu já foi aprazível? Já foi, já foi.
Salta-o. O que é uma árvore?
Uma árvore é uma patinha de camundongo do céu.
Junto a, sob, para. Qual bosque
muitos climas passam pra lá. Eu me chamo Clima
com riachos qual pé liquefeito. Os pés. Os pés
chegam a quem? Como somos rápidos.
O camundongo é uma árvore com velocidade.
Muitíssimo amada; e, qual o céu, foi; e depois as aves.
A ave que me entende. O clima
é uma árvore sobre o aprazível mundo. Falar ainda, aqui,
com a fala, não é nada fácil. Rápido se apaixona.
São muitos… Como sou esquecido. Já
como uma maçã. Eu a maçã sou comido.
Precisa-se tentar proximidade. Eu a aprendi.
Beijar é também um tipo de beijo. O que é que sabemos mesmo?
Nariz é uma palavra besta? Onde o céu esteve
ele foi. Agora falo muito só. Um nariz por pessoa.
Estamos muito quietos frente a frente. Peixe ao ataque.
Eu sou a árvore e o peixe. A arvorezinha.
O milharal rumo ao alto, ao clima: qual a minha aparência? Olho,
olha aqui.

Rückkehr der Ekstase

Als Baum. Wir sind voreinander sehr still. Der Baum.
Hier ist die Welt also. Himmel, Vögel, Gras.
So viele Finger für deine Kirschen. Liebst du mich? Schnell.
Wie sehen wir wiede aus, wir Ameisen?
Ich heiße Zaun. Spring drüber. Als Maus ist es herzlich klein.
Maus. Mais. Hilf mir vor dem, der mich mäht.
Hilfe, der Himmel drückt mich in diesen Bach hinein.
Blaues Denken. Wo sind die Füße
wenn ich als Wasser keine habe? Warum Fisch?
Als Fisch unter dem Himmel? Liebst du mich noch?
War der Himmel einmal herzlich? Ist gewesen, ist gewesen.
Spring drüber. Was ist ein Baum?
Ein Baum ist ein Mäusebein des Himmels.
An dem, unter, für. Als Wald
laufen viele Wetter vorüber. Ich heiße Wetter
mit den Bächen als flüssigem Fuß. Die Füße. Die Füße
kommen zu wem? Wie schnell wir sind.
Die Maus ist ein Baum mit der Geschwindigkeit.
Herzlich geliebt und gewesen als Himmel und also die Vögel.
Der Vogel, der mich versteht. Das Wetter
ist ein Baum über der herzlichen Welt. Hier noch zu sprechen
mit der Sprache ist nicht ganz leicht. Schnell verliebt.
Das sind viele . . . Wie vergeßlich ich bin. Schon
esse ich einen Apfel. Ich der Apfel werde gegessen.
Man muß oft du sagen. Du sagen habe ich gelernt.
Küssen ist auch eine Art zu küssen. Was wissen wir nämlich?
Ist Nase ein dummes Wort? Wo der Himmel war
ist er gewesen. Jetzt spreche ich sehr alleine. Eine Nase pro Person.
Wir sind voreinander sehr still. Fisch im Ansturm.
Ich bin der Baum und der Fisch. Das Bäumchen.
Der Mais in die Höhe zum Wetter: wie sehe ich aus? Auge
schau her.

 

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tradução

Ingeborg Bachmann (1926-1973), por Matheus Guménin Barreto

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Ingeborg Bachmann nasceu em 1926, na Áustria. Poeta, romancista, tradutora, libretista, ensaísta e dramaturga, recebeu em 1964 o Prêmio Georg Büchner. Ainda em vida foi reconhecida como uma das mais potentes vozes da literatura em língua alemã e no panorama literário europeu foi posta ao lado de nomes como Virginia Woolf e Samuel Beckett, enquanto leitores brasileiros veem semelhanças entre sua obra e a de Clarice Lispector. Trabalhou intensamente com diversos artistas de sua geração, dentre outros o poeta Paul Celan e o compositor vanguardista Hans Werner Henze. Bachmann morreu em 1973, em Roma, devido a um incêndio em seu quarto de hotel, supostamente causado por um cigarro. Em 1976 foi instituído na Áustria o Prêmio Ingeborg Bachmann, que cumpre hoje como poucos o papel de laurear autores significativos no contexto da literatura em língua alemã. Outras traduções da poeta, feitas por Adelaide Ivánova, foram publicadas ano passado na revista (clique aqui).

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá – Mato Grosso, é pós-graduando da Universidade de São Paulo (USP), onde traduz a poesia de Ingeborg Bachmann. Barreto estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Publicou traduções de Ingeborg Bachmann em Dito ao anoitecer (2017) e Lira argenta (2017), de Bertolt Brecht em Cântico de Orge (2017) – parcerias entre Selo Demônio Negro, Editora Hedra e a editora portuguesa Douda Correria. Também disponíveis no Brasil e em Portugal estão alguns de seus poemas, publicados em: Enfermaria 6, Revista Lavoura, Revista Escriva – PUC-RS, Diário de Cuiabá e Ruído Manifesto; entre outras. É editor do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Paris-Sorbonne. Matheus Guménin Barreto é autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (2017, Editora 7Letras) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (2018, no prelo).

* * *

Iguaria nenhuma
Nada mais me agrada.

Devo
enfeitar uma metáfora
com uma amendoeira em flor?
Crucificar a sintaxe
num efeito de luzes?
Quem vai quebrar a cabeça
com coisas tão supérfluas –

Aprendi a ter piedade
das palavras
que estão aí
(para a classe mais baixa)

fome
………..humilhação
……………………………..lágrimas
e
……………………………………………escuridão.

Com o soluço ainda por limpar
e o desespero
(e desespero-me ainda do desespero)
em relação às muitas misérias,
às taxas de doença, aos custos de vida,
sobreviverei.

Não negligencio a escrita,
e sim a mim.
Sabe Deus que os outros
sabem
se virar com as palavras.
Não sou meu assistente.

Devo
aprisionar um pensamento,
conduzi-lo a uma frase-cela iluminada?
Alimentar olho e ouvido
com palavra-petiscos de primeira?
pesquisar a libido d’uma vogal,
determinar os valores de amantes de nossas consoantes?

Preciso,
com a cabeça em granizo desfeita,
com o espasmo da escrita nesta mão,
sob o peso de trezentas noites
rasgar o papel,
varrer pra longe as óperas linguísticas planejadas,
exterminando assim: eu tu e ele ela

nós vós?

(Que seja. Que façam os outros.)

Quanto à minha parte, que se perca.

Keine Delikatessen

Nichts mehr gefällt mir.

Soll ich
eine Metapher ausstaffieren
mit einer Mandelblüte?
die Syntax kreuzigen
auf einen Lichteffekt?
Wer wird sich den Schädel zerbrechen
über so überflüssige Dinge –

Ich habe ein Einsehen gelernt
mit den Worten,
die da sind
(für die unterste Klasse)

Hunger
………….Schande
………………………..Tränen
und
……………………………………Finsternis.

Mit dem ungereinigten Schluchzen,
mit der Verzweiflung
(und ich verzweifle noch vor Verzweiflung)
über das viele Elend,
den Krankenstand, die Lebenskosten,
werde ich auskommen.

Ich vernachlässige nicht die Schrift,
sondern mich.
Die anderen wissen sich
weißgott
mit den Worten zu helfen.
Ich bin nicht mein Assistent.

Soll ich
einen Gedanken gefangennehmen,
abführen in eine erleuchtete Satzzelle?
Aug und Ohr verköstigen
mit Worthappen erster Güte?
erforschen die Libido eines Vokals,
ermitteln die Liebhaberwerte unserer Konsonanten?

Muß ich
mit dem verhagelten Kopf,
mit dem Schreibkrampf in dieser Hand,
unter dreihundertnächtigem Druck
einreißen das Papier,
wegfegen die angezettelten Wortopern,
vernichtend so: ich du und er sie es

wir ihr?

(Soll doch. Sollen die andern.)

Mein Teil, es soll verloren gehen.

§

 

Um tipo de perda
Usados a dois: estações, livros e uma música.
As chaves, a porcelana do chá, o cesto de pão, lençóis
e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos: trazidos,
usados, gastos.
Uma ordem doméstica mantida. Dita. Feita. E sempre
a mão estendida.

Por invernos, por um septeto vienense e por verões eu
me apaixonei.
Por mapas, por um vilarejo, por uma praia e por
uma cama.
Fiz um culto movido a datas, declarei promessas
irrevogáveis,
idolatrei um algo e fui devota de um
nada,

( – do jornal amarrotado, da cinza fria, da folha
com uma anotação)
sem temor na religião, pois a igreja era esta cama.

Saída da vista para o lago surgiu minha inesgotável
pintura.
Da sacada tinha de cumprimentar os povos lá embaixo,
vizinhos meus.
Junto ao fogo da lareira, em segurança, tinha meu cabelo sua
mais extrema cor.
A campainha junto à porta era o alarme para minha alegria.

Não foi a ti que eu perdi,
perdi o mundo.

Eine Art Verlust

Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher
und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht,
verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer
die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich
mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und in
ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für
unkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem
Nichts,

( – der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel
mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche
Malerei.
Von dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn,
zu grüßen.
Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine
äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war der Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.

§

 

Propaganda

Mas aonde vamos
tranquilo fique tranquilo
quando houver breu e quando houver frio
fique tranquilo
mas
com música
o que faremos
alegre e com música
pensaremos
alegre
frente a um fim
com música
e aonde carregaremos
melhor
nossas dúvidas e o terror dos tempos
à lavanderia dos sonhos tranquilo fique tranquilo
mas o que acontece
melhor
quando a mudez da morte

vem

Reklame

Wohin aber gehen wir
ohne sorge sei ohne sorge
wenn es dunkel und wenn es kalt wird
sei ohne sorge
aber
mit musik
was sollen wir tun
heiter und mit musik
und denken
heiter
angesichts eines Endes
mit musik
und wohin tragen wir
am besten
unsre Fragen und den Schauer aller Jahre
in die Traumwäscherei ohne sorge sei ohne sorge
was aber geschieht
am besten
wenn Totenstille

eintritt

§

 

Verdade

Verdade não te lança areia aos olhos;
verdade pedem-te o sono e a morte,
àquele que é por dores instruído;
a pedra da tua tumba ela remove.

Verdade fugidia e já tão gasta
no ramo e no botão, na improdutiva
língua, deitada enquanto o tempo passa.
Verdade perde tempo e o reabilita.

Verdade estende uma mecha da Terra,
desembaraça sonho, láurea, arado,
prepara o pente e, entre frutos colhidos,
golpeia e bebe-te de cima a baixo.

Verdade não se esconde até o assalto
que poderia ser tua ruína.
Ela arrebenta-te a ferida: és presa;
nada que não te trai te invadiria.

A lua vem com bile nos seus vasos.
Bebe o que é teu. A noite desce, amarga.
A escuma mancha a plumagem das pombas,
e agora em segurança já não há nada.

Ficaste preso ao mundo, acorrentado,
mas a verdade faz fendas nos muros.
Tu velas e procuras entre o breu
o Certo; e a saída lá no escuro.

Was wahr ist

Was wahr ist, streut nicht Sand in deine Augen,
was wahr ist, bitten Schlaf und Tod dir ab
als eingefleischt, von jedem Schmerz beraten,
was wahr ist, rückt den Stein von deinem Grab.

Was wahr ist, so entsunken, so verwaschen
in Keim und Blatt, im faulen Zungenbett
ein Jahr und noch ein Jahr und alle Jahre –
was wahr ist, schafft nicht Zeit, es macht sie wett.

Was wahr ist, zieht der Erde einen Scheitel,
kämmt Traum und Kranz und die Bestellung aus,
es schwillt sein Kamm und voll gerauften Früchten
schlägt es in dich und trinkt dich gänzlich aus

Was wahr ist, unterbleibt nicht bis zum Raubzug,
bei dem es dir vielleicht ums Ganze geht.
Du bist sein Raub beim Aufbruch deiner Wunden;
nichts überfällt dich, was dich nicht verrät.

Es kommt der Mond mit den vergällten Krügen.
So trink dein Maß. Es sinkt die bittre Nacht.
Der Abschaum flockt den Tauben ins Gefieder,
wird nicht ein Zweig in Sicherheit gebracht.

Du haftest in der Welt, beschwert von Ketten,
doch treibt, was wahr ist, Sprünge in die Wand.
Du wachst und siehst im Dunkeln nach dem Rechten,
dem unbekannten Ausgang zugewandt.

§

 

Um monólogo do príncipe Míchkin para o balé-pantomima ‘O Idiota’
[um excerto]
Com um andar que faz lembrar bonecos, os personagens da peça – Parfion Rogójin, Nastácia Filíppovna, Tótski, Gánia Ívolguin, General Epantchin e Aglaia – surgem. A pantomima termina com o compasso final da Intrada, e então dirige-se o príncipe Míchkin ao meio do palco. Ele fala o monólogo inteiro sem música.

Tenho a palavra, a tomei
da mão da tristeza;
indigno, pois como seria eu
mais digno que qualquer outro –
eu mesmo um cântaro à nuvem, àquela
que do céu caiu e em nós mergulhou,
terrível e alheia
e partilhada pela beleza
e por tudo o que é vil neste mundo.

(Oh tormento da luz, tormento
da febre próximo às febres outras,
dor comum de nossa
justa doença!)

Que passe o cortejo mudo sobre meu peito
até ao escurecer
e até que o que me ilumina
seja outra vez devolvido
à escuridão.

Em verdade – já que esta dor
está em vós – vós fazeis
o que por vossas vidas fazeis
não por vossas vidas,
e o que fazeis por vossa honra
não toca vossa honra.

Cunhadas nos risos de demônios,
sem fundo são as taças
desta infeliz vida
que nos provê até aos extremos.
Se uma esbarra n’outra não
fazem som algum, já que
não se oferece descanso algum
às lágrimas; mudas despencam
de abismo em abismo, e o último
chão no qual elas se acabam
nega-se ainda à audição nossa.
Oh mudez do amor!

Agora ele pega pela mão cada pessoa que nomeia.

Parfion Rogójin, o filho de mercadores,
para ele um milhão não é nada.
Nas noites de inverno ele para a carruagem
frente às ruas comerciais mundanas,
não pode cruzá-las.
Lança seu ouro à neve,
pois a neve é a medida

de tuas faces, Nastácia Filíppovna:
teu nome é uma curva perigosa
em cada boca, dizem que da neve
tiraste a medida de tuas faces,
que em teu cabelo moram os ventos
(não digo que sejam caprichosos),
teu olho o desfiladeiro
nos quais as carruagens despencam;
a neve as conta e da neve
tiras a medida
de tuas faces.

Tótski – ah, isso é quase demais
antes do descanso final: o passado foi
como um átimo de uma criança nos braços; e
agora, agora se abateu sobre vós dois
o tempo de olhares, o tempo de lábios.

Gánia Ívolguin, quando um laço for esticado
entre todos,
serão tuas mãos os nós
que o atam,
pois não sabes rir.
Exigiste muito para ti
e pouco de ti.
Impera em ti apenas uma exigência:
ver despencarem as carruagens
nas quais vão os outros
antes que tu mesmo acabes debaixo das rodas.

General Epantchin – não são acasos
o que nos guia para perto daqueles que evitamos.
Assim como nos perdemos dos filhos,
deslizamos em direção a inconfessáveis anseios
e tornamo-nos guardas de alheias portas
que nem de nós mesmos podemos guardar.

O que se perde? O branco,
frio sonho de uma juventude
que não pede indulgência?

A perfeição, talvez? E a beleza
numa tal forma que nos
contentemos com seus enigmas? Aglaia,
assim não verei em ti mais que
a mensagem de um mundo
no qual não posso entrar,
uma promessa que não posso manter,
e uma posse que não posso sustentar.

Ele se vira e fica em pé de frente para o público.

Despertada à vida entre aparências,
desviada dos planetas
que nos exigem vir à tona,
vejo-os moverem-se, mudos,
à música infinita.

Aqui suas palavras desembocam numa rígida dança que faz lembrar marionetes.

Os passos nossos são apenas o soar
não muito claro de umas poucas notas
que até nós chegam.

Míchkin também é puxado para a dança – que deve trazer à tona a expressão de solidão de cada um.
[…]

 

Ein Monolog des Fürsten Myschkin zu der Balletpantomime ‘Der Idiot’
Mit puppenhaften Schritten treten die Personen des Spiels – Parfion Rogoschin, Nastassia Filipowna, Totzki, Ganja Iwolgin, General Epantschin und Aglaja – auf. Die Pantomime endet mit dem Schlußtakt der Intrada, und Fürst Myschkin tritt in die Mitte der Szene. Er spricht den ganzen Monolog ohne Musik.

Ich habe das Wort, ich nahm’s
aus der Hand der Trauer,
unwürdig, denn wie sollte ich
würdiger sein als einer der andern –
selbst ein Gefäß für jene Wolke,
die vom Himmel fiel und in uns tauchte,
schrecklich und fremd
und teilhaft der Schönheit
und jeder Verächtlichkeit dieser Welt.

(O Qual der Helle, Qual
des Fiebers, nah an anderen Fiebern,
unsrer gerechten Krankheit
gemeinsamer Schmerz!)

Laß den stummen Zug durch mein Herz gehen,
bis es dunkel wird
und, was mich erleuchtet,
wieder zurückgegeben ist
an das Dunkel.

Wahrhaftig, weil dieser Schmerz
in euch ist, tut ihr,
was ihr für euer Leben tut,
nicht für euer Leben,
und was ihr zu eurer Ehre tut,
geschieht nicht zu eurer Ehre.

In der Dämonen Gelächter gebrannt,
bodenlos, sind die Schalen
dieses glücklosen Lebens,
das bis zum Rand uns bedenkt.
Trifft eine die andre, so klingen
sie nicht, denn kein Einhalt
ist den Tränen geboten, sprachlos
stürzen sie ab, von Grund
zu Grund, und es verweigert
der letzte, in den sie vergehn,
sich immer unsrem Gehör.
O Stummheit der Liebe!

Jetzt nimmt er jede Person, die er nennt, an der Hand.

Parfion Rogoschin, der Kaufmannssohn,
weiß nichts von einer Million.
In den Winternächten hält sein Gespann
vor den käuflichen Straßen der Welt
und kann sie nicht fahren.
Er schüttet sein Geld in den Schnee,
denn der Schnee ist das Maß

deiner Wangen, Nastassia Filipowna,
dein Name ist eine gefährliche Kurve
in jedem Mund, sie sagen, am Schnee
nähmst du das Maß für deine Wangen,
in deinem Haar wohnten die Winde,
(ich sage nicht: sie sind launisch),
dein Aug sei ein Hohlweg,
in dem ihre Wagen stürzen,
es zählt sie der Schnee, und vom Schnee
erhältst du das Maß
für deine Wangen.

Totzki – dies ist wohl zuviel,
eh man zur Ruhe geht: eines Kindes Augenblick
in den Armen war die Vergangenheit, und jetzt
ist die Zeit von Blicken, die Zeit
von Lippen über euch beide gekommen.

Ganja Iwolgin, wenn ein Band zwischen allen
gesponnen ist,
werden deine Hände die Knoten sein,
die es spannen,
denn du lächelst nicht gut.
Du forderst zu viel für dich
und verlangst zu wenig von dir.
Dich gängelt nur ein Verlangen:
die Wagen stürzen zu sehn,
in denen die anderen fahren,
eh du selbst unter Rädern verendest.

General Epantschin – es sind nicht Zufälle,
die uns in die Nähe derer führen, die wir meiden.
Wie wir uns in den Kindern entgleiten,
gleiten wir uneingestandenen Wünschen nach
und halten vor fremden Türen als Hüter,
die wir uns selbst so wenig zu hüten vermögen.

Was aber entglitt? Der weiße,
erkaltete Traum einer Jugend,
die nicht Nachsicht verlangt?

Vollkommenes also? Und Schönheit
in solcher Gestalt, daß wir uns
mit ihrem Rätsel begnügen? Aglaja,
so werde ich in dir nichts sehen
als die Botschaft einer Welt,
in die ich nicht eintreten,
ein Versprechen, das ich nicht halten,
und ein Besitz, den ich nicht wahren kann.

Er wendet sich um und steht mir dem Gesicht zum Publikum.

Erwacht zum Leben im Schein,
von Planeten verführt,
die von uns Ausdruck verlangen,
seh ich zur grenzenlosen Musik
die Bewegung der Stummen.

Hier münden seine Worte in einen marionettenhaft starren Tanz.

Unsere Schritte sind nur die wenig
genauen Anschläge weniger Töne,
die uns erreichen.

In den Tanz, der die Einsamkeit jedes einzelnen zum Ausdruck bringen soll, wird auch Myschkin hineingezogen.
[…]

§

 

Me explica, Amor

Teu chapéu ala-se suave, acena, paira ao vento,
tua cabeça desnuda galanteia às nuvens,
teu peito tem mais o que fazer,
tua boca devora novas línguas,
floresce a briza abundante, o
verão inspira e expira as estrelitas,
cego de pólen ergues tua face,
tu ris e choras, sucumbes em ti mesmo,
que mais te ocorrerá –

Me explica, Amor!

O pavão em solene maravilha abre o seu leque,
a pomba ergue o colarinho em penas,
de pios saturado o vento avulta,
o pato grasna, a terra inteira toma
do mel selvagem, e também no parque
tranquilo, o pó dourado envolve as hortas.

O peixe ruboriza, ultrapassa o
cardume, em grutas, lança-se aos corais.
À música prateada das areias dança, arisco, o escorpião.
De longe, o escaravelho nota O Esplêndido;
tivesse eu seu senso e sentiria
também que sob Sua armadura
cintilam asas, rumo a distantes morangueiros.

Me explica, Amor!

Sabe falar a água,
onda toma outra onda pela mão,
na vinha a uva incha, salta e cai.
Tão manso o caracol larga o seu lar!

Consegue uma pedra amansar a outra!

Me explica, Amor, o que explicar não sei:
devo eu o tempo curto, o tempo atroz
gastar com pensamentos só e, de todos,
só eu não receber nem dar amor?
É preciso pensar? Não falta aos outros?

Me dizes: outro espírito conta com ele…
Não mais me expliques. Vejo a salamandra
correr por todo fogo.
Não teme nada e nada nela dói.

Erklär mir, Liebe

Dein Hut lüftet sich leis, grüßt, schwebt im Wind,
dein unbedeckter Kopf hat’s Wolken angetan,
dein Herz hat anderswo zu tun,
dein Mund verleibt sich neue Sprachen ein,
das Zittergras im Land nimmt überhand,
Sternblumen bläst der Sommer an und aus,
von Flocken blind erhebst du dein Gesicht,
du lachst und weinst und gehst an dir zugrund,
was soll dir noch geschehen –

Erklär mir, Liebe!

Der Pfau, in feierlichem Staunen, schlägt sein Rad,
die Taube schlägt den Federkragen hoch,
vom Gurren überfüllt, dehnt sich die Luft,
der Entrich schreit, vom wilden Honig nimmt
das ganze Land, auch im gesetzten Park
hat jedes Beet ein goldner Staub umsäumt.

Der Fisch errötet, überholt den Schwarm
und stürzt durch Grotten ins Korallenbett.
Zur Silbersandmusik tanzt scheu der Skorpion.
Der Käfer riecht die Herrlichste von weit;
hätt ich nur seinen Sinn, ich fühlte auch,
daß Flügel unter ihrem Panzer schimmern,
und nähm den Weg zum fernen Erdbeerstrauch!

Erklär mir, Liebe!

Wasser weiß zu reden,
die Welle nimmt die Welle an der Hand,
im Weinberg schwillt die Traube, springt und fällt.
So arglos tritt die Schnecke aus dem Haus!

Ein Stein weiß einen andern zu erweichen!

Erklär mir, Liebe, was ich nicht erklären kann:
sollt ich die kurze schauerliche Zeit
nur mit Gedanken Umgang haben und allein
nichts Liebes kennen und nichts Liebes tun?
Muß einer denken? Wird er nicht vermißt?

Du sagst: es zählt ein andrer Geist auf ihn …
Erklär mir nichts. Ich seh den Salamander
durch jedes Feuer gehen.
Kein Schauer jagt ihn, und es schmerzt ihn nichts.

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poesia

Matheus Guménin Barreto

Matheus Guménin Barreto (Cuiabá – Mato Grosso) é pós-graduando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs, subárea tradução. Publicou traduções de Ingeborg Bachmann em Lira argenta (2017) e Dito ao anoitecer (2017), de Bertolt Brecht em Cântico de Orge (2017) – todas no Selo Demônio Negro, as duas últimas também na Editora Hedra e na Douda Correria. Publicou em 2017 seu livro de poemas A máquina de carregar nadas pela Editora 7Letras.

* * *

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado                           f – Um corpo incendiado: este
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam o tempo,
o corpo e a febre
e o que medi-los

*

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura.

*

pulsos frescos de amor
alegres do arrear o amor e serem
por ele arreados.

*

a cegueira do homem que de seu corpo morno
soletra o corpo morno d’outro homem
os sinais as vírgulas
discursa entre duas bocas
e recita, extático e nu, a abrasada
violenta
poesia
que o corpo maquina na carne.

*

no beijo
o que há de elástico o que há de contrito
de adivinhado
o que há de inaudito talvez ou
quase ou sempre
entre o dizer de bocas mudas?
talvez tremeluza nos céus seus
mornos
a estrela da manhã
branda e inconstante
e nela se solucione um homem
como uma noite se soluciona em dia.

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

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