poesia, tradução

Poetas e Poemas Tang a partir de William Carlos Williams (pt. 3), por Danilo Augusto

3 - Wang-Wei. jpg

Wang Wei

 

III – Meng Hao-Jan, Wang Wei e Li Yu

Trad. para o Inglês: William Carlos Williams (com  David Rafael Wang)/ Trad. para o português: Danilo Augusto

V
MENG HAO-JAN, 689-740

Guiando minha canoa a uma ilha nebulosa,
Assisto ao sol se pôr enquanto minhas dores se erguem;
Na vasta noite o céu pende das copas,
Mas no lago azul a lua está chegando perto.

Steering my little boat toward a misty islet,
I watch the sun descend while my sorrows grow;
In the vast night the sky hangs lower than the treetops
But in the blue lake the moon is coming close.

VI
WANG WEI, 699-759

Atrelando meu cavalo para beber com você
Perguntei, “Onde está indo?”
Você disse, “Em retirada pra quedar nas montanhas do sul”
Silencioso,
Observo na distância um sem fim de nuvens brancas.

Alighting from my horse to drink with you,
I asked, “”Where are you going?”
You said, “Retreating to lie in the southern mountains.”
Silent,
I watch the white clouds endless in the distance.

VII
LI YU, último rei da Dinastia Tang do Sul, 937-978

Silenciosamente subo o pavilhão oeste.
A lua pende como um grampo de cabelo.
No profundo do jardim outonal
                           A wu-tung está sozinha[1].

Emaranhado,
Intrincado,
O sentimento da partida
                           Se agarra feito folha úmida ao meu coração

Silently I ascend the western pavilion.
The moon hangs like a hairpin,
In the deep autumn garden
                           The wu-t’ung stands alone.

Involute,
Entangled,
The feeling of departure
                           Clings like a wet leaf to my heart.

nota:

[1] wu-tung: A wu-tung é uma árvore, de nome científico Sterculia platanifolia, considerada auspiciosa na China da dinastia Han, segundo relata o pesquisador de história da arte chinesa Michael Sullivan em The Birth of Landscape Painting in China: The Sui and Tʻang dynasties (clique aqui), e por isso é uma referência frequente principalmente na obra de poetas da dinastia Tang.

3 - Li Yu

Li Yu

 

* * *

Meng Hao-Jan (já apareceu na primeira postagem desta série), também referido como Meng Haoram, nasceu entre 689 e 691 em Xiangyang (hoje parte da província Hubei) e foi um dos primeiros e mais influentes poetas da dinastia Tang. Contemporâneo mais velho de Li Po, Wang Wei e outros importantes poetas do período, Meng Hao-Jan foi uma das influências mais próximas destes, particularmente pelo uso da natureza como assunto principal de seus poemas. Sua amizade e longa colaboração com Wang Wei é largamente famosa nas letras chinesas, ambos escreveram cartas e poemas entre si – especialmente no caso de sua separação. Meng Hao-Jan, junto a outros poetas Tang, exerceu grande influência na poesia chinesa posterior e, também, na poesia japonesa. No ocidente, sua importância foi firmada com sua vasta presença na edição em língua inglesa The Jade Mountain: The Three Hundred Tang Poems – que também traz os demais poetas desta seleção.

Wang Wei, também conhecido como Wang Youcheng, nasceu em 699 em Jinzhong, província Shanxi, e foi um grande estadista, pintor, músico, calígrafo e poeta chinês. Chegou a ser nomeado “chanceler da China”, segundo mais alto posto imperial, atrás somente do imperador. Foi considerado um dos maiores pintores do período Tang, e tomado como o provável criador de um estilo monocromático de pintura de forte influência budista, porém nenhuma de suas obras originais chegou aos dias atuais, mas somente cópias e referências em outros artistas e admiradores – assim como não há registros de suas músicas e trabalhos de caligrafia, apenas relatos e apreciações de terceiros. Wang Wei exerceu uma larga influência na historia e cultura chinesa por sua pintura e, principalmente, por sua atividade como poeta. Trabalhou com formas fixas como o “jueju”, onde constantemente contrasta ou aproxima aspectos mínimos e simples da realidade com a busca por uma elevação espiritual e iluminação. Já proeminente poeta e servidor do Império, Wang Wei formou-se zen budista e vegetariano após dez anos de estudos com o mestre Daoguang. Alguns de seus trabalhos foram usados na sistematização proposta por Ernest Fenollosa e, mais tarde, apropriada por Pound na criação do seu “método ideogrâmico”.

Li Yu, também conhecido como Li Congjia ou Li Houzhu (literalmente, “O último rei Li”) nasceu em 937 e se tornou o terceiro e último rei da Dinastia Tang do Sul, sendo capturado pelo exército da Dinastia Song e tendo seu reino anexado. Embora considerado um governador inepto, foi aclamado como grande poeta, sendo considerado o primeiro grande mestre da surgente forma “ci”, característica da poesia Song. Entre sucessor da tradição Tang e elaborador das novas formas da poesia, Li Yu escreveu cerca de 45 poemas ci que perfazem temas como o amor, a história e a filosofia em uma dicção pesarosa e triste. Seu trabalho levou a uma maior formalização e exigência do metro em poesia. Muitas de suas historias continuam populares e estão presentes em diversas óperas chinesas (cantonense) e outras canções populares. Após a escrita de um poema que, veladamente, lamentava a destruição do Império Tang e o estupro da sua segunda esposa, a rainha Zhou, pelo novo imperador Taizong de Song, ele foi envenenado por ordens deste. Muitos de seus poemas permanecem com autoria não confirmada.

(Danilo Augusto)

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poesia, tradução

Poetas e Poemas Tang a partir de William Carlos Williams (pt. 1), por Danilo Augusto

1 - Meng Hao

I – Meng Hao-Jan e Li Po

Trad. para o Inglês: William Carlos Williams (com colaboração de David Rafael Wang) /Trad. para o português: Danilo Augusto

I

MENG HAO-JAN, 689-740

Na primavera você dorme e não sabe quando amanhecerá,
Por toda a parte se ouve o canto dos passarinhos,
Mas na noite o som do vento aos da chuva se mistura,
E você se pergunta quantas flores caíram.

In spring you sleep and never know when the morn comes,
Everywhere you hear the songs of the birds,
But at night the sound of the wind mingles with the rain’s
And you wonder how many flowers have fallen.

II

LI PO, 701-762

Avistando o luar junto a minha cama
Me pergunto se é neve cobrindo o chão.
Levanto minha cabeça para olhar a lua brilhante,
Depois a abaixo para pensar no meu antigo país.

Spotting the moonlight at my bedside,
I wonder if it is frost on the ground.
After raising my head to look at the bright moon,
I lower it to think of my old country.

1 - li po

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Meng Hao-Jan, também referido como Meng Haoram, nasceu entre 689 e 691 em Xiangyang (hoje parte da província Hubei) e foi um dos primeiros e mais influentes poetas da dinastia Tang. Contemporâneo mais velho de Li Po, Wang Wei e outros importantes poetas do período, Meng Hao-Jan foi uma das influências mais próximas destes, particularmente pelo uso da natureza como assunto principal de seus poemas. Sua amizade e longa colaboração com Wang Wei é largamente famosa nas letras chinesas, ambos escreveram cartas e poemas entre si – especialmente no caso de sua separação. Meng Hao-Jan, junto a outros poetas Tang, exerceu grande influência na poesia chinesa posterior e, também, na poesia japonesa. No ocidente, sua importância foi firmada com sua vasta presença na edição em língua inglesa The Jade Mountain: The Three Hundred Tang Poems – que também traz os demais poetas desta seleção.

Li Po, também conhecido como Li Bai ou Li Bo, nasceu em 701, ao redor do atual Quirguistão, e é, hoje, referenciado como o maior poeta da Dinastia Tang (a “era de ouro” da poesia chinesa). Comumente carregando epítetos como “o imortal” ou “o transcendente”, Li Po tem sua vida e escrita rodeadas por lendas e idealizações. O poeta compôs cerca de mil poemas, sendo que muitos têm até hoje sua autoria contestada; esta obra exerceu uma influencia larguíssima em todo Oriente e, mais tarde, no Ocidente, por vias de autores e figuras canônicas como Ezra Pound e Gustav Mahler (no ABC da Literatura, Pound usará Li Po como o maior exemplo do uso da imagem em poesia) e, também, por vastas e múltiplas traduções e retraduções a partir de outras línguas (no Brasil, temos algumas traduções de Cecília Meireles). Sua realização é considerada, por muito, como de perfeição formal e, embora não tenha desenvolvido novos metros ou temas, é referenciado como o grande mestre e retomador das tradições da poesia chinesa anterior, sempre lembrado pelo seu virtuosismo singular. Li Po comumente assumia variados pontos de vistas ou “personas”, incluindo o de mulheres e crianças, e uma das características mais citadas em sua escrita é de uma profunda nostalgia aliada a um olhar infantil ou inocente, tendendo a personalizar e dialogar com elementos da natureza e, também, uma grande permeabilidade do Taoismo que, com suas noções de imutabilidade e reclusão, é bastante visível em seus poemas. Um dos temas mais recorrentes e característicos de Li Po, e que perfaz alguns de seus poemas mais populares, são o vinho e a embriaguez –   o poeta é considerado o fundador do estilo de Kung Fu “Os Oito Imortais”, que consistia, primariamente, na falta de linearidade aliado à extravagância e imprevisibilidades em seus movimentos, um “lutar bêbado” mais tarde popularizado por Jackie Chan no cinema.

 * * *

OUTROS POEMAS DE LI PO

Uma carta

Meu Amor,
Quando você estava aqui havia
um salão de flores.
Você partiu e agora há
um leito vazio.
Sob esta colcha bordada
eu viro e reviro.
Após três anos ainda
sinto o cheiro do seu perfume.
Seu perfume nunca vai embora,
Mas você nunca retorna.
Penso em você, as flores amarelas se foram
E o branco orvalho umedece o musgo verde.

A Letter

My love,
When you were here there was
a hall of flowers.
When you are gone there is
an empty bed.
Under the embroidered coverlet
I toss and turn.
After three years I
smell your fragrance.
Your fragrance never leaves,
But you never return.
I think of you, the yellow leaves are ended
And the white dew dampens the green moss.

Canção de Primavera

Uma donzela
Colhe folhas de amoreira junto ao rio

Sua mão branca
Se estende sobre o verde

Suas bochechas coradas
Brilham sob o sol

Os bichos-da-seda
Aguardam famintos

Oh, jovem cavaleiro,
Não se detenha. Vá indo.

Spring Song

A young lass
Plucks mulberry leaves by the river 

Her white hand
Reaches among the green 

Her flushed cheeks
Shine under the sun 

The hungry silkworms
Are waiting

Oh, young horseman
Why do you tarry. Get going.

Canção de Verão

O Lago dos Espelhos
(trezentas milhas)

Onde os botões estouram
Em flores de Lótus.

A costa escorregadia
Está atolada de admiradores,

Enquanto a bela da aldeia
Colhe as flores abertas.

Antes que as velas dos barcos
Ocultem a lua crescente

Ela é levada para longe
Até o harém do rei.

Summer Song

The Mirror Lake
(Three hundred miles),

Where lotus buds
Burst into flowers.

The slippery shore
Is jammed with admirers,

While the village beauty
Picks the blossoms.

Before the sails
Breast the rising moon,

She’s shipped away
To the King’s harem.

 (trad. & apresentação de danilo augusto)

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